A HUMILHAÇÃO
Com tantos absurdos nos noticiários fica difícil se indignar com qualquer desgraça
pouca vista no cotidiano, mas, essa eu não posso deixar passar em branco, como se nada
tivesse acontecido. A verdade é que fatos gravíssimos ocorreram e me sinto na obrigação de
gritar aos quatro ventos.
Estava eu sentado na mureta da varanda observando tudo ao redor e remoendo minha
insatisfação com a tarde quente e burocrática que havia atravessado, quando a movimentação
se intensificou. O sujeito velho quando perceber a intenção dos dois jovens correu e tentou
evitar o pior, tudo em vão. Os dois caras fortões agiram em parceria, enquanto um cercou o
velho com algumas porradas na cabeça o outro atacou a jovem.
O velho esbravejou e tentou usar a força, porém, a perna esquerda manca lhe falseou
e foi para o chão sob ataque de intensos golpes. Enquanto isso o outro jovem musculoso
partiu violentamente para o ato sexual com a jovem. Tudo ali mesmo em frente ao velho que
caído olhava de lado e até mesmo os resmungos lhe eram reprimidos.
Eu que conheço o velho há muito tempo, me pus por um instante em seu lugar e fiquei
imaginando o que lhe doía mais, os golpes na cabeça ou a dor de ver a jovem parceira sendo
currada publicamente.
Mesmo indignado e revoltado com a situação resolvi não interferir e voltei meus
pensamentos aos fatos ocorridos em minha escaldante tarde. Tudo ia bem até o momento em
que a mocinha me disse: “O senhor tem que ir até a SEFAZ e providenciar as notas”.
Consegui estacionar a três quadras, o astro rei fazia o asfalto esburacado borbulhar.
Quando finalmente entrei no prédio da secretaria dei de cara com uma senhora com
maquiagem escorrida que já me deu a primeira má notícia “o ar condicionado não está
funcionando”.
No exato momento em que ela me entregou a senha 472 outra senhora detrás do
balcão gritou “389”. Esbugalhei os olhos de tal forma que a senhora se apressou em dizer
“fique tranqüilo! Muita gente desiste”.
O atendimento no SEFAZ é feito por três pessoas, duas senhoras bem carcomidas e
uma de meia idade com aspecto de ter ressurgido das cinzas do Festival de Woodstock,
mesmo sem beleza, mas pela total e absoluta falta de concorrência, se movimentava como
sendo atrativamente gostosa.
A hippie-girl senta entre o reumatismal e fica o tempo todo falando e gesticulando
sobre as mudanças no sistema, coisa difícil para as “geriatocratas”. Depois de algumas horas e
muito suor fui chamado por umas das anciãs. O computador parece que foi usado por Moisés
para redigir os dez mandamentos. A velha olhava para mim por cima dos óculos que ficavam
na ponta do nariz.
Quando cheguei de volta com as notas a mocinha já estava de saída e depois de eu
muito implorar resolveu me atender. Olhou, olhou, olhou e me disse: “está errado senhor! A
moça digitou 600.000 quilos, quando na verdade são 60.000 quilos”. Mas, mas, mas... “Não
posso fazer nada! O senhor tem que voltar lá e refazer tudo. O pior é que para cancelar é
muito mais complicado”.
Nisso larguei as amarguras da tarde e me voltei novamente para o drama do velho.
Neste momento o jovem fortão satisfeito em sua lascívia trocou de lugar com o comparsa que
partir direto para cima da jovem com brutal voracidade sexual. O velho resmungou e levou um
sopapo quase fatal.
Foi então que chegou o João, meu companheiro das aventuras silviculturais matogrossenses. Transtornado com o que via em minha frente relatei ao meu amigo o ocorrido com
o velho. Ele se virou e disse:
- Fim de semana a mulher vem aí e será o fim do velho.
- Como assim???!!! - Ele riu, bateu de leve varias vezes a mão na barriga e retrucou:
- Quem gosta de galo velho é panela de pressão!
João Carlos Borian
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