ALETHEIA
Revista de Psicologia
Nº 43-44 - Jan./Ago. 2014
ISSN: 1981-1330
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(jan./jun. 1995). – Canoas : Ed. ULBRA, 1995v. ; 27 cm.
.
Semestral, jan./jun. 1995-jul./dez. 2009; quadrimestral, jan./abr.
2010 - ISSN 1413-0394
1. Psicologia – periódicos. I. Universidade Luterana do Brasil.
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Aletheia, revista quadrimestral editada pelo curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil, publica artigos originais, relacionados à Psicologia,
pertencentes às seguintes categorias: artigos de pesquisa, artigos de atualização,
resenhas e comunicações. Os artigos são de responsabilidade exclusiva dos autores, e as
opiniões e julgamentos neles contidos não expressam necessariamente o pensamento dos
Editores ou do Conselho Editorial.
Sumário
7
Editorial
Artigo internacional
9
O papel das crianças e dos jovens na constituição das identidades profissionais de educadores/
professores/formadores de professores
The role of children and young people in the constitution of professional identities of
educators/teachers/teacher educators
Leanete Thomas Dotta; Margarida Marta; Rosa Ester Tártato Soares; Luciana Matiz
Artigos empíricos
24
Motivos da busca de atendimento psicológico em uma clínica escola da Região Metropolitana
de Porto Alegre/RS – Pesquisa documental
Reasons of Search for Psychological Care in a School Clinic in Porto Alegre’s Metropolitan
Area – Documentary Research
Fernanda Pasquoto de Souza; Débora de Freitas Gonçalves Santos; Aline Groff Vivian
37
Família e monoparentalidade feminina sob a ótica de mulheres chefes de família
Family and female single parenthood under the view of women heads of household
Sabrina Daiana Cúnico; Dorian Mônica Arpini
50
A percepção de psicodramatistas e gestalt-terapeutas sobre os fatores facilitadores de
integração entre as suas abordagens
The perception of psychodramatists and gestalt therapists about the factors that facilitates
integration between their approaches
Érico Douglas Vieira; Luc Vandenberghe
66
Representações sociais sobre a psicologia e o psicólogo em universitários de uma faculdade
privada de Rondônia, Brasil
Social representations of psychology and psychologist at private university of the Rondônia,
Brazil
Cleber Lizardo de Assis; Géssica Alves de Souza Matthes
91
Equilibristas embriagados: a dinâmica familiar alcoolista pelos vieses da Psicoterapia Familiar
Sistêmica
Drunken juggler: The alcoholic family dynamics by biases of Systemic Family
Psychotherapy
Marciana Zambillo; Cláudia Mara Bosetto Cenci
105
Assertividade em mulheres dependentes de crack
Assertiveness for women’s crack dependent
Márcia Cristina Henrique de Souza; Bruna Krimberg Von Mühlen; Leda Rúbia Maurina
Coelho; Cristiano Pereira de Oliveira; Viviane Samoel Rodrigues; Margareth da Silva
Oliveira; Marlene Neves Strey
116
Abandono de tratamento de adolescentes com uso abusivo de substâncias que cometeram
ato infracional
Treatment’s dropout of substance abuse adolescents who committed an infraction
Ilana Andretta; Jéssica Limberger; Margareth da Silva Oliveira
129
Sexualidade na adolescência: um estudo com escolares da cidade de Manaus/AM
Adolescent sexuality: A school-based study in the city of Manaus/AM, Brazil
Nália de Paula Oliveira; Jorge Umberto Béria; Lígia Braun Schermann
147
Integrando método clínico e investigação empírica para a compreensão do abandono em
psicoterapia psicanalítica
Combining clinical method and empirical research to understand dropout in psychoanalytic
psychotherapy
Aline Alvares Bittencourt; Maria Cristina Vieweger de Mattos; Farid Rodrigues Bessil;
Fernanda Barcellos Serralta; Silvia Pereira da Cruz Benetti
160
Estresse em adolescentes: estudo com escolares de uma cidade do sul do Brasil
Stress in adolescencents: A study with schoolars from a city in southern Brazil
Lígia Braun Schermann; Jorge Umberto Béria; Maria Helena Vianna Metello Jacob;
Guilherme Arossi; Mariana Canellas Benchaya; Nádia Krubskaya Bisch; Sofia Rieth
174
Autoestima e cuidados pessoais em mulheres de 60 a 75 anos
Self-esteem and personal care in women aged between 60 and 75 years
Aparecida Duridan; Daiane Ferreira dos Santos; Ana Lucia Gatti
188
Dependência de álcool e recaída: considerações sobre a tomada de decisão
Alcohol dependence and relapse: Some considerations concerning decision-making
Artigos teóricos
Ana Cristina Bertagnolli; Christian Haag Kristensen; Daniela Schneider Bakos
203
Representações parentais: bases conceituais e instrumento de avaliação
Parental representation: Conceptual basis and an instrument of assessment
Paula Casagranda Mesquita; Sílvia Pereira da Cruz Benetti
213
Pesquisa em psicoterapia e psicanálise
Research in psychotherapy and psychoanalysis
Paula von Mengden Campezatto; Maria Lucia Tiellet Nunes; Milena da Rosa Silva
227
A família no acompanhamento de sujeitos psicóticos: os encargos subjetivos oriundos do
sofrimento psíquico
The family follow up of a psychotic person: Subjective burdens from distress
Nayara Gomes Braga; Nathália de Freitas Costa Fernandes; Tiago Humberto Rodrigues
Rocha
239
Compartilhando saberes: relato de uma intervenção com professores
Sharing knowledge: Report of an intervention with teachers
Relato de experiência
Magda Pozzobon; Fernanda Aparecida Szareski Pezzi; Angela Helena Marin
Resenha
248
Avaliação dos comportamentos dependentes
Leda Rúbia Maurina Coelho; Margareth da Silva Oliveira
252
Instruções aos autores
258
Instructions to authors
264
Instrucciones a los autores
6
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Editorial
A revista Aletheia veicula mais um fascículo duplo com publicações científicas
relevantes dentro das diferentes áreas de conhecimento que têm aderência ao campo da
psicologia. Agradecemos a colaboração dos membros do Conselho Editorial, professores,
comunidade científica e, principalmente, dos autores que escrevem para nosso periódico.
Gostaríamos de convidá-los para continuarem submetendo artigos e avisar que estamos
recebendo estudos para as próximas edições. Os artigos publicados neste número
dividem-se em um artigo internacional, 11 artigos empíricos, três teóricos, dois relatos
de experiência e uma resenha.
Como artigo internacional, temos o trabalho dos autores Leanete Thomas Dotta,
Margarida Marta, Rosa Ester Tártato Soares e Luciana Matiz, sobre o papel das crianças
e dos jovens na constituição das identidades profissionais de educadores/professores/
formadores de professores. Como primeiro artigo empírico, apresentamos uma pesquisa
documental realizada em uma clínica escola de psicologia da Região Metropolitana de
Porto Alegre/RS, de autoria de Fernanda Pasquoto de Souza, Débora de Freitas Gonçalves
Santos e Aline Groff Vivian. Trata-se de uma pesquisa que busca identificar os principais
motivos de procura por atendimento psicológico em um serviço-escola, utilizando como
metodologia o levantamento retrospectivo documental, de consulta às fichas de triagens
realizadas no serviço no período de janeiro de 2008 até dezembro de 2012. As autoras
Sabrina Daiana Cúnico e Dorian Mônica Arpini abordam as concepções de família
trazidas por mulheres chefes de família de periferia urbana e, ainda, identificam como
as mães entendem seu lugar nesse contexto familiar. Já Érico Douglas Vieira e Luc
Vandenberghe falam sobre os fatores facilitadores da integração entre duas abordagens: o
Psicodrama e a Gestalt-terapia. Contamos também com a pesquisa quantitativa de Cleber
Lizardo de Assis e Géssica Alves de Souza Matthes sobre a Teoria das Representações
Sociais, buscando identificar as representações sociais sobre a Psicologia e o psicólogo
em universitários de uma faculdade privada de Rondônia. As pesquisadoras Marciana
Zambillo e Cláudia Mara Bosetto Cenci apresentam um estudo de caso de uma família
com um de seus membros identificado com problemas relacionados ao uso abusivo de
álcool. Também relacionado ao estudo da dependência de substâncias, as autoras Márcia
Cristina Henrique de Souza, Bruna Krimberg Von Mühlen, Leda Rúbia Maurina Coelho,
Cristiano Pereira de Oliveira, Viviane Samoel Rodrigues, Margareth da Silva Oliveira
e Marlene Neves Strey falam sobre assertividade em mulheres dependentes de crack.
Ainda sobre o uso abusivo de substâncias, Ilana Andretta, Jéssica Limberger e Margareth
da Silva Oliveira têm o objetivo de verificar fatores relacionados ao abandono precoce
do tratamento de adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa em meio
aberto, encaminhados para tratamento por uso de drogas. Trazendo o tema sexualidade
na adolescência, um estudo com escolares da cidade de Manaus/AM, contamos com
autores Nália de Paula Oliveira, Jorge Umberto Béria, Lígia Braun Schermann. As
pesquisadoras Aline Alvares Bittencourt, Maria Cristina Vieweger de Mattos, Farid
Rodrigues Bessil, Fernanda Barcellos Serralta, Silvia Pereira da Cruz Benetti, com o artigo
Integrando método clínico e investigação empírica para a compreensão do abandono em
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
7
psicoterapia psicanalítica. Finalizando a sessão de artigos empíricos, contamos com o
estudo dos autores Lígia Braun Schermann, Jorge Béria, Maria Helena Vianna Metello
Jacob, Guilherme Arossi, Mariana Canellas Benchaya, Nadia Krubskaya Bisch e Sofia
Rieth, uma pesquisa analítico-transversal com objetivo de avaliar a prevalência e os
fatores associados ao estresse em adolescentes escolares de uma cidade do Sul do Brasil,
e o estudo dos pesquisadores Aparecida Duridan, Daiane Ferreira dos Santos, Ana Lucia
Gatti abordando o tema autoestima e cuidados em mulheres de 60 a 75 anos.
Na sessão de artigos teóricos, contamos com a colaboração dos pesquisadores
Ana Cristina Bertagnolli, Christian Haag Kristensen e Daniela Schneider Bakos, com
o estudo dependência de álcool e recaída: considerações sobre a tomada de decisão;
também contamos com a participação das autoras Paula Casagranda Mesquita e Sílvia
Pereira da Cruz Benetti, que abordam as bases conceituais do constructo da representação
parental, na perspectiva da psicanálise contemporânea, a partir da contribuição da teoria
das relações objetais e da teoria do apego; por fim, as pesquisadoras Paula von Mengden
Campezatto, Maria Lucia Tiellet Nunes e Milena da Rosa Silva trazem um importante
estudo sobre a pesquisa em psicoterapia e psicanálise.
Na categoria relato de experiência, contamos com a participação dos autores
Nayara Gomes Braga, Nathália de Freitas Costa Fernandes e Tiago Humberto Rodrigues
Rocha, escrevendo sobre a família no acompanhamento de sujeitos psicóticos e os
encargos subjetivos oriundos do sofrimento psíquico; também contamos com o relato
de experiência dos pesquisadores Magda Pozzobon, Fernanda Aparecida Szareski Pezzi
e Angela Helena Marin com o título Compartilhando saberes: relato de uma intervenção
com professores.
Encerrando esse número, publicamos a resenha das pesquisadoras Leda Rúbia
Maurina Coelho e Margareth da Silva Oliveira sobre a segunda edição do livro Avaliação
dos Comportamentos Dependentes, organizado por Dennis Donovan e Alan Marlatt.
Profa. Ms. Fernanda Pasquoto de Souza
Editora
Profa. Dra. Aline Groff Vivian
Editora Associada
8
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Aletheia 43-44, p.9-23, jan./ago. 2014
O papel das crianças e dos jovens na constituição
das identidades profissionais de educadores/professores/
formadores de professores
Leanete Thomas Dotta
Margarida Marta
Rosa Ester Tártato Soares
Luciana Matiz
Resumo: As transformações da sociedade têm afetado, direta e indiretamente, a escola, atribuindolhe um caráter complexo e, por consequência, promotor de reconfigurações identitárias. Este artigo
propõe-se a analisar o papel das crianças e jovens na re(constituição) das identidades profissionais
de educadores, professores e formadores de professores. Foram utilizados dados e análises de cinco
investigações realizadas pelas autoras. A noção de identidade profissional (Dubar, 1997; Lopes,
2007), o conceito de socialização (Berger & Luckmann, 1996) e o conceito de saberes profissionais
(Tardif, 2002) fundamentaram o estudo. Os resultados indicam que: as crianças e jovens são
o outro significativo central na (re)constituição identitária; as relações de proximidade, afeto e
reconhecimento do saber são a base da (re)construção das identidades; os saberes profissionais
são (re)configurados a partir das relações estabelecidas entre educadores/professores/formadores
de professores e crianças/alunos/estudantes, devolvendo sentido maior ou menor, consoante o
nível de ensino.
Palavras-chave: Identidades Profissionais; Educadores/Professores/Formadores de Professores;
Crianças e Jovens.
The role of children and young people in the constitution of professional
identities of educators/teachers/teacher educators
Abstract: The changes in society have affected, directly and indirectly, the school, giving it a
complex character, promoting identity reconfigurations. This article aims to analyze the role of
children and youth in re (constitution) of educators, teachers and teacher educator’s professional
identities. We used data from five studies that were conducted by the authors. The theoretical
background is the notion of professional identity (Dubar, 1997; Lopes, 2007), the concept of
socialization (Berger and Luckmann,1996) and the concept of professional knowledge (Tardif,
2002). The results indicate that children and youngsters are the significant other of centrality in the
re (constitution) of identity; the proximity relations, affection and acknowledgement of knowledge
are a central aspect of the (re)construction of identity; professional knowledge is (re)configured
from the relationships established among educators/teachers/ teachers’ educators and children/
students, being more or less significant according to the level of teaching.
Keywords: Professional identity; Teachers/Trainers/Teacher trainers; Children and youngsters.
Introdução
As crianças e jovens que, naturalmente, passam por transformações físicas,
cognitivas, emocionais e sociais inerentes ao desenvolvimento humano, quando são
inseridas no contexto da educação formal, assumem características diversas (Alarcão,
2001; Alarcão, 2008; Fernandes, Bertelli & Almeida, 2011) que moldam e que são
moldadas pelo contexto educativo.
Tais características, variadas e em constante transformação, podem ser entendidas
a partir da ideia da transição ecológica, ou seja, como mudanças de papel ou ambiente
que ocorrem no percurso do indivíduo e ao longo do seu ciclo vital (Marta & Lopes,
2012). Por exemplo, uma criança quando ingressa na educação pré-escolar realiza uma
transição ecológica, quando passa para o nível seguinte processa outra transição e assim
sucessivamente até o ensino superior – os seus papéis e mundos são diferentes, as suas
responsabilidades também. Neste sentido, os papéis ou funções desempenhadas parecem
ter um poder mágico de modificar a forma como o indivíduo, em contexto educacional,
é tratado, como ele age, o que ele pensa, sente e como trabalha. O indivíduo constrói-se
na interseção das suas características pessoais e das características do ambiente, da sua
história passada, presente e de suas projeções futuras, num processo onde a interação e
as relações ocupam lugar de centralidade.
Este artigo, numa abordagem do tipo meta-analítica, tem o objetivo de discutir
o papel das crianças/alunos/estudantes1 na constituição identitária de educadores da
Educação Pré-Escolar, de professores do Ensino Básico e Secundário e de formadores
de professores no Ensino Superior. Constitui-se, a partir de cinco investigações no
âmbito da educação pré-escolar, o ensino básico, secundário (realizadas no contexto
português) e o ensino superior (realizada no contexto brasileiro), que, nos seus resultados,
evidenciam as representações que os educadores e os professores constroem sobre
aqueles que estão sob a sua responsabilidade educativa/formativa e que influenciam
as suas identidades profissionais. Embora, os estudos em questão não tivessem,
originalmente ou especificamente, o objetivo de discutir o papel das crianças/alunos/
estudantes nas identidades dos professores, forneceram dados que possibilitaram as
discussões pretendidas. A análise transversal dos dados contribuem, por um lado, para
uma articulação entre as representações das crianças/alunos/estudantes dos professores nos
diferentes níveis de ensino. Por outro lado, ilumina as especificidades vividas e sentidas
nas respectivas paisagens educativas (Clandinin & Connelly, 2002) e que interferem na
construção das identidades profissionais docentes.
As investigações que estão na origem deste artigo, embora tenham as suas
especificidades em termos de contextos e sujeitos, possuem aspetos centrais comuns que
possibilitaram a reflexão conjunta sobre os resultados alcançados. Foram investigações
de natureza qualitativa e interpretativa, “desenvolvidas em situação natural, rica em
dados descritivos, que tem um plano aberto e flexível, focalizando a realidade de forma
complexa e contextualizada” (Ludke & André, 1986, p.18), possibilitando perspetivas que
ultrapassam a simples apreensão, uma vez que levam a pensar e a abrir novos caminhos
para a ação, quer de forma individual, grupal, organizacional ou societal (Bruyne, Herman
& Schoutheete, 1991). Em termos metodológicos, os estudos analisados utilizaram
entrevistas que foram submetidas à análise de conteúdo (Bardin, 2002).
Segundo a terminologia presente na legislação educacional: criança – que frequenta a Educação Pré-Escolar;
aluno – que frequenta a Educação Básica e Ensino Secundário; estando estes dois primeiros termos indicados na
Lei n.º 46/86, de 14 de outubro de 1986; e, estudante – que frequenta o Ensino Superior, conforme terminologia
presente na Lei n.º 49/2005, de 30 de agosto de 2005.
1
10
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
As discussões presentes neste artigo serão fundamentadas pela noção identidades
profissionais de Claude Dubar (1997) e de Amélia Lopes (2007), pelo conceito de
socialização de Berger e Luckmann (1996) e pelo conceito de saberes profissionais de
Tardif (2002).
O artigo encontra-se organizado em duas partes. Na primeira, é explicitada a
abordagem teórica que suporta as discussões e reflexões e a abordagem metodológica
que fundamente a construção do artigo. Na segunda parte, são apresentados os estudos
utilizados e as suas respectivas contribuições no que se refere ao tema central deste
artigo. Na sequência, são sistematizadas as discussões e reflexões sobre a relação
entre as representações dos educadores/professores/formadores de professores sobre
as crianças/alunos/estudantes e as identidades profissionais docentes.
Abordagem teórica
Identidades profissionais docentes e saberes docentes
A sociedade é uma realidade, simultaneamente, objetiva e subjetiva e deve ser
entendida como um processo dialético em curso. O indivíduo não nasce membro da
sociedade, mas sim com predisposição para a sociabilidade e para tornar-se membro
da sociedade por meio de dois processos – a socialização primária e a socialização
secundária (Berger & Luckmann, 1996).
A socialização primária diz respeito à socialização que o indivíduo experimenta
na infância e pela qual torna-se membro da sociedade. Ela promove a criação, na
consciência, de uma abstração progressiva dos papéis e atitudes dos outros particulares
para os papéis e atitudes em geral, denominado o “outro generalizado”. A formação na
consciência do outro generalizado marca uma fase decisiva na socialização. Significa
a interiorização da sociedade enquanto tal e da realidade objetiva nela estabelecida.
Ao mesmo tempo, significa o estabelecimento de uma identidade coerente e
contínua. Na socialização primária é construído o primeiro mundo do indivíduo
e implica sequências de aprendizagem, socialmente definidas, onde a linguagem
possibilita a interiorização de vários esquemas motivacionais e interpretativos com
valor institucional definido. A socialização primária termina quando o conceito do
outro generalizado é estabelecido na consciência do indivíduo. Assim, torna-se um
membro efetivo da sociedade, possuindo, subjetivamente, uma personalidade e um
mundo. Porém, essa interiorização da sociedade, da identidade, da realidade não se
dá definitivamente. A socialização nunca é total e nem está acabada.
A socialização secundária consiste nos processos subsequentes que introduzem
um indivíduo já socializado em novos setores do mundo objetivo de sua sociedade; é a
interiorização de “submundos” institucionais ou baseados em instituições, cuja extensão
e caráter são determinados pela complexidade da divisão do trabalho e concomitante
distribuição social do conhecimento. Portanto, a socialização secundária é “(...) a aquisição
do conhecimento de funções específicas, funções direta ou indiretamente com raízes na
divisão do trabalho” (Berger & Luckman, 1996, p.185).
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
11
Através da análise dos mundos construídos mentalmente pelos indivíduos, a
partir da sua experiência social, é possível identificar as identidades profissionais.
“Estas ‘representações ativas’ estruturam os discursos dos indivíduos nas suas práticas
sociais ‘especializadas’ graças ao domínio de um vocabulário, à interiorização das
‘receitas’, à incorporação de um ‘programa’” (Dubar, 1997, p.100). Entre as dimensões
das representações ativas, está a relação com a linguagem, ou seja, as categorias que o
indivíduo usa para descrever uma situação vivida, como articula os constrangimentos
externos e os desejos internos, as obrigações exteriores e os projetos pessoais, as
solicitações do outro e as iniciativas pessoais.
Assim, para Dubar (1997), a constituição identitária resulta de dois processos
heterogéneos: o primeiro refere-se às atribuições de identidades pelas instituições e
pelos agentes que se relacionam diretamente com o indivíduo – são as identidades
virtuais. O segundo processo é a incorporação da identidade pelo próprio indivíduo
fazendo uso de categorias legítimas para si mesmo e para os outros – são as identidades
reais. A não coincidência entre os dois processos resulta na elaboração de estratégias
identitárias que podem visar, ou a acomodação da identidade para si à identidade para
os outros, ou a assimilação da identidade para o outro à identidade para si. Trata-se,
respectivamente, da dupla transação – biográfica/subjetiva e relacional/objetiva.
O processo identitário biográfico é definido como uma construção no tempo,
pelo indivíduo, de identidades sociais e profissionais com base nas categorias
oferecidas pelas sucessivas instituições – família, escola, mercado de trabalho,
empresas – e consideradas, simultaneamente, como acessíveis e valorizadas; o
processo identitário relacional refere-se ao reconhecimento, em tempo e espaço
determinados de legitimação, das identidades associadas aos saberes, competências
e imagens de si propostas e expressas pelos indivíduos nos sistemas de ação. A forma
como esses dois processos se articulam e se complementam representa a projeção
no espaço e no tempo identitário de uma geração, confrontada com as outras, na sua
caminhada biográfica, bem como o seu desenvolvimento espacial, onde é reconhecida
e socialmente legitimada. A transação biográfica diferencia-se em termos de ruptura
e continuidade, e a transação relacional diferencia-se em termos de reconhecimento
e não reconhecimento.
A identidade social não é simplesmente transmitida de uma geração para outra,
como é defendido na perspetiva durkheimiana. Ela é construída pelas diferentes gerações
baseada em categorias e posições herdadas da geração precedentes e, ao mesmo tempo,
por estratégias identitárias desenvolvidas nas instituições que os indivíduos atravessam
e para cuja transformação contribuem. Esta construção identitária adquire importância
particular no campo do trabalho, do emprego e da formação e, também, ganha forte
legitimidade para o reconhecimento da identidade social e para a atribuição de estatuto
social (Dubar, 1997).
Dubar (1997), a partir de Berger e Luckman, entende que a incorporação de
saberes especializados, chamados de saberes profissionais, são maquinismos conceituais
aos quais estão subjacentes, vocabulário, receitas, um programa formalizado – um
verdadeiro universo simbólico. Os saberes profissionais ocupam lugar de centralidade
nas identidades profissionais, sendo a sua principal fonte de reconhecimento. Tal
12
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reconhecimento implica a presença dos outros significativos que, por sua vez, se
destacam na economia da conservação da realidade. São importantes para a progressiva
confirmação de elementos cruciais da realidade chamada identidade. Para manter a
confiança de que é verdadeiramente a pessoa que pensa que é, o indivíduo necessita da
confirmação implícita e explícita dessa identidade por parte dos outros significativos
para ele. Assim, os outros significativos, na vida do indivíduo, são os principais agentes
de conservação da sua realidade subjetiva.
Se os saberes profissionais são a principal fonte de reconhecimento por parte dos
outros significativos, quem são os outros significativos no campo profissional da docência?
Partimos do pressuposto de que o ensino se dá predominantemente pelas relações entre
educadores/professores/formadores de professores e crianças/alunos/estudantes e que estes
últimos possuem importância de primeira ordem como outros significativos, embora não
sejam os únicos. Será no trabalho com crianças e jovens que os educadores/professores/
formadores procuram o sentido da sua atividade e o reconhecimento dos outros.
Apesar da centralidade do campo de trabalho na identidade profissional, ela não
pode ser limitada exclusivamente a ele. Deve contemplar, também, as referências nos
contextos sociais, evidenciando os aspetos de identificação e de diferenciação. Nesse
sentido, Lopes (2007, p.12) define a construção da identidade profissional como “[…]
um constructo de caráter comunicacional e epistemológico informando as relações de
formação aos níveis pessoal, interpessoal, organizacional e societal”, que implica a ideia
de que não se vive, nem se trabalha de forma isolada.
O constructo ecológico de Lopes remete-nos à definição de Tardif e Lessard (1999)
sobre “identidade profissional compósita”. Nessa perspetiva educadores/professores/
formadores de professores exigiriam de si próprios um trabalho reflexivo com variadas
posturas, atitudes, habilidades e conhecimentos que lhes permitisse adaptar-se aos
novos cenários, procurar respostas para as necessidades emergentes e, de preferência,
em equipe.
A forma como os sujeitos articulam os atos de atribuições e os atos de pertença
(Dubar, 1997) estão na origem da construção dos saberes especializados ou saberes
profissionais. Tardif (2002) caracteriza como saberes docentes os pensamentos,
ideias, juízos, discursos e argumentos que seguem certas exigências de racionalidade.
Tal racionalidade é constituída quando o sujeito tem consciência em relação ao ato
exercido, ou seja, manifesta-se quando o sujeito é capaz de justificar as suas ações por
meio da razão, procedimentos ou discursos. Por outro lado, os saberes profissionais dos
educadores/professores/formadores de professores são plurais, compósitos, heterogéneos,
temporais, pois trazem à tona, no próprio exercício do trabalho, conhecimentos e
manifestações do saber fazer e do saber ser bastante diversificados, provenientes de
fontes variadas.
A educação das crianças/jovens assenta numa “[…] construção contínua da
pessoa humana dos seus saberes e aptidões […]” (Relatório Delors, 1996, p.16). O
mesmo relatório apela ao cidadão autónomo, crítico e capaz de formular juízos que lhe
permitam decidir e viver em qualquer lugar e em qualquer momento numa perspetiva
ecológica da vida. Acentua-se, assim, a importância da ligação da criança/jovem ao
mundo através do pensamento e da ação, identificam-se as competências que esta pode
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e deve desenvolver, sem contudo recorrer a estereótipos uma vez que cada indivíduo
é único e singular.
Os saberes profissionais não se reduzem a um sistema cognitivo que, a exemplo de
um computador, processa as informações a partir de programas anteriormente definidos,
sem relação com o contexto da ação no qual está inserido ou com a história que o precede.
Os saberes profissionais são, a um só tempo, existenciais, sociais e pragmáticos (Tardif
& Raymond, 2000).
Percurso metodológico
Este estudo configura-se com um tipo de metanálise, a inspirada na metaetnografia
(Noblit & Hare, 1983, 1988) que objetiva integrar, interpretar e analisar os resultados
de um conjunto de investigações qualitativas já existentes. O processo envolve a
identificação e a desconstrução de resultados obtidos em investigações anteriores,
organizando-os em um novo conjunto, a fim de reinterpretar os resultados e, assim,
alcançar um significado mais amplo. As unidades de análise são os resultados de cinco
investigações que possuem como objetivo comum a discussão da construção das
identidades profissionais no campo da educação.
Foi no interior do grupo de pesquisa EPSAI & Formação (Escola Pública,
Saberes, Identidades & Formação) que germinaram as reflexões sobre o papel das
crianças/alunos/estudantes nas identidades profissionais docentes nos diferentes níveis
de ensino, que estão na origem deste artigo. O referido grupo de investigação tem por
objetivo a articulação das problemáticas e dos conhecimentos provenientes de diversas
áreas de educação e formação centralizados nos interesses da escola pública e nas
identidades profissionais. Os estudos selecionados para serem a fonte da metanálise
foram, inicialmente, as investigações realizadas pelas autoras do artigo, no âmbito da
educação pré-escolar, do 2º e 3º Ciclo do Ensino Básico (CEB)2 e ensino secundário (no
contexto do ensino português) e Ensino Superior (contexto brasileiro). Para completar
o quadro de análise pretendido – educação pré-escolar ao ensino superior – foi inserido
um estudo sobre 1º Ciclo do Ensino Básico, realizado por um outro integrante do grupo
de pesquisa, mas que não participou como autor do artigo.
Apresentação e discussão dos dados
As crianças e as identidades profissionais de educadores de infância
A educação pré-escolar possui um espaço peculiar no contexto do sistema educativo
português. Diferentemente dos outros níveis de ensino, reparte a sua oferta educativa, de
forma quase equivalente, entre o setor público e o setor privado.
Em 2011, Marta realizou um estudo, no âmbito da tese de doutoramento, intitulado
“A construção da identidade dos educadores de infância em Portugal na primeira década do
2
O 1º CEB correponde aos quatro primeiros anos do Ensino Fundamental, o 2º CEB corresponde ao 5º e 6º ano
do Ensino Fundamental, o 3º CEB equivale ao 7º, 8º e 9º ano do Ensino Fundamental, e o ensino secundário
corresponde ao ensino médio – do sistema de ensino brasileiro.
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
novo milénio: entre o público e o privado”. O objetivo foi indagar sobre as transformações
ocorridas nas identidades profissionais de educadores de infância do setor público e do
setor privado ao longo da primeira década do séc. XXI.
Essas transformações foram estudadas a partir da abordagem teórica da egoecologia
de Mariza Zavalloni (1984). O uso do referencial justificou-se pela possibilidade de
interseção entre a biografia pessoal e a história social e, assim, ressituar os profissionais
entrevistados na ecologia social.
No estudo colaboraram 59 educadores de infância de agrupamentos de escolas e
de instituições privadas. Foram utilizadas entrevistas elaboradas com base no Inventário
de Identidade Social (Zavalloni, 1984).
As narrativas dos educadores de infância do setor público e do setor privado
revelaram a criança como o epicentro na (re)configuração das identidades profissionais,
evidenciando a representação da mesma no seu percurso pessoal e profissional.
A imagem transmitida pelos entrevistados foi de seriedade pessoal e profissional.
Demostraram ter uma ação refletida e avaliada (sozinho e/ou em conjunto com a equipe),
sempre na perspetiva de novas estratégias, de novas atitudes, para proporcionar à criança
uma educação de infância com uma visão caleidoscópica do mundo, onde pode voar
dando “[…] asas aos pensamentos” (AC23, Ref2) (Marta, 2011, p.305).
A autora inferiu, ainda, que as relações com as crianças, com colegas, pais e
comunidades educativas e locais ocupam um lugar nuclear no percurso profissional.
Identificou uma procura do saber agir e de saber gerir as emoções possibilitando uma
entrega total às crianças – retratando um saber conviver com a vida pessoal e com a vida
profissional.
As identidades profissionais dos educadores de infância pareceram ser construídas
em lugares de vida recheada de diferentes subjetividades. E é nestes mundos – setor
público e setor privado –, que os educadores edificam e (re)configuram as suas identidades
profissionais sob e através do olhar dos outros e da própria sociedade.
É possível verificar, a partir dos resultados desse estudo, que os saberes profissionais
dos educadores se constituem nuclearmente com e para as crianças que estão sob sua
responsabilidade educativa. Assumem também importância como outros significativos
os colegas, pais e comunidade na sustentação da realidade profissional dos educadores.
Alunos e a construção das identidades profissionais de professoras do 1º. Ciclo da
Educação Básica
O artigo publicado por Fátima Pereira (2007) refere-se a uma investigação sobre o
discurso de professoras do 1.º CEB acerca das crianças e as relações educativas que se
estabelecem em contexto escolar. Trata-se de um estudo comparativo dos discursos de
dois grupos de professores, recolhidos em um dado intervalo de anos – 1990 e 2003, por
meio de entrevistas elaboradas com base no Inventário de Identidade Social (Zavalloni)
e entrevistas do tipo biográficas. Os dados obtidos resultaram na configuração de ideaistipo sobre a relação aluno-criança e a relação educativa-currículo. São esses ideaistipo (Bruyner, Herman & Schoutheete, 1991) e as respectivas análises da autora que
forneceram elementos relevantes para a discussão sobre a influência do papel dos alunos
na constituição identitária dos professores do 1º Ciclo do Ensino Básico.
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As conceções sobre a infância presentes na análise das entrevistas realizadas em
1990, revelaram uma imagem de infância ambígua e contraditória, que não partilhava a
mesma categoria social quando se encontrava fora e dentro do contexto escolar: poucas
eram as referências com relação aos processos de ensino-aprendizagem e as conceções
sobre a relação educativa inseriam-se no âmbito dos afetos e das emoções, refletindo
dualidade entre o ser criança e ser aluno; uma admissão da idiossincrasia e diversidade
dos alunos, em oposição às intenções de fazer convergir as suas atitudes com os modos
de trabalho escolar padronizados; dificuldade de motivar os alunos diante da ideia de que
a escola é uma dimensão da vida das crianças que lhes é exterior e estranha. Se por um
lado as professoras possuíam uma visão rousseauniana de criança, por outro, possuíam
uma visão de aluno como um ser dotado de vontade própria e com capacidade de trabalho
incompatível com o que era referido na condição de criança. Apesar da presença da
intenção de instruir, destacou-se nos discursos das professoras as dificuldades e frustrações
sentidas na sua realização, quer pelas características dos alunos, quer pelas próprias
incapacidades nos domínios do saber e das competências profissionais.
A partir dos dados recolhidos em 2003, a autora identificou que o conceito de
aluno sobressaía no discurso das professoras, identificou ainda a coexistência de
conceções instituídas sobre o aluno e conceções inovadoras e configuradoras de uma
grande diversidade de modos de ser aluno. Tratava-se de um aluno que não permitia a
indiferença das professoras, uma vez que interferia nas suas vidas forçando a reflexão
sobre o que faziam, a mudar os seus modos de ser professoras e a procurar recursos
e desenvolver estratégias no sentido de os cativar para a aprendizagem. Os alunos
exerciam formas de poder que as professoras contrariavam com dificuldade. Segundo
a autora, a ideia de aluno como criança e a relação educativa que se consolida pelo
afeto pode estar na origem das ambiguidades reveladas diante da necessidade de tomar
decisões imediatas no contexto de sala de aula.
No âmbito da comparação dos resultados dos dois momentos envolvidos, a
autora identificou que, apesar da existência de uma mudança nos discursos, algumas
regularidades se mantinham, nomeadamente o conflito entre o controle e a expressão dos
afetos, as dificuldades na gestão da relação educativa e em individualizar o ensino.
A análise da autora permite identificar a ambiguidade de sentidos atribuídos pelas
professoras a criança/aluno, nomeadamente na interface entre o afeto e o ensinar (e suas
implicações), como central na constituição dos saberes profissionais e por conseguinte
das identidades profissionais das professoras.
Alunos e a construção das identidades profissionais de professoras do 2º. Ciclo da
Educação Básica
Soares (2009) realiza uma investigação sobre a construção de identidades e
experiências profissionais, no âmbito do ensino regular e do Programa Integrado
de Educação e Formação (PIEF). A questão central situou-se, simultaneamente, em
compreender como as experiências profissionais dos professores podem interferir na
construção da identidade profissional docente, assim como conhecer de que forma
políticas de inclusão, mais especificamente o PIEF, podem constituir-se como modelo
a importar para o ensino regular.
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
O discurso dos entrevistados estava fortemente marcado por preocupações sobre
a educação e exclusão social, construção de identidade profissional e a dimensão
social do professor, dando conta de como os momentos vividos em contexto escolar
e de sala de aula são significativos na construção de um novo olhar sobre a educação,
salientando o impacto que a aprendizagem experiencial tem na reconfiguração da
identidade profissional docente.
Os dados foram recolhidos por meio de entrevistas semidiretivas, com professores
do 2º ciclo do ensino básico, quatro docentes do ensino regular e quatro d PIEF,
e incidiram, essencialmente, sobre a reflexão dos professores a propósito do seu
percurso pessoal e profissional, práticas da sala de aula, transformações significativas
relativamente à forma de entender a escola, a educação e o aluno. Sendo que, para
efeitos das discussões deste artigo, são utilizadas as análises relativas às reflexões dos
professores sobre os alunos.
Os resultados foram bastante consonantes, em ambos os grupos de professores,
relativamente à identificação de problemas relacionados com a educação atual e nas
questões que se prendem com o ser professor. A dimensão relacional e social que
sobressai no estudo revela que o aluno não é um mero aprendente, mas a razão de ser
do trabalho do professor, que ultrapassa a transmissão de conhecimento tendo forte
impacto na vida pessoal e profissional do docente.
É marcante o discurso sobre a necessidade do professor atender e investir,
primeiramente, na relação com o aluno, sendo esta construída numa lógica
comunicacional. Os dados indicaram ainda que o aluno é o principal impulsionador
de mudança na prática docente.
Outros registros deram conta de que os professores precisavam recorrer, no
momento da aula, a metodologias e estratégias que não estavam previstas no plano de
aula, como resposta de mobilização ou participação do aluno. Foi o caso das turmas
PIEF onde, muitas vezes, não era o conteúdo a parte mais importante da aula, mas a
pertinência da matéria para a vida pessoal do jovem. Foi verificado um forte investimento
na dimensão social e afetiva dos professores, embora esse registro tenha sido mais
intenso nos professores do PIEF.
Por fim, este estudo mostrou que foi no contexto mais desafiante que os professores
sentiram necessidade de alterar as suas práticas e de reconstruir a sua identidade pessoal
e profissional como resposta aos desafios colocados.
Em termos de saberes profissionais, o estudo permite destacar que o aluno
impulsiona à pesquisa de um aprender permanente por parte dos professores, ou seja, as
características dos alunos – pessoais, sociais e cognitivas, mobilizam os professores no
sentido de superarem a ideia de saberes acabados, bem como da perceção da importância
do aspeto relacional no seu trabalho docente.
Alunos e a construção das identidades profissionais de professoras do 3º. Ciclo da
Educação Básica e do Ensino Secundário
Matiz (2013) realizou um estudo sobre a construção da identidade de professores
de diferentes gerações, do 3º CEB e do Ensino Secundário em contexto de mudança.
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Partindo da conceção de Nias (1996) a autora segue o pressuposto do
comprometimento emocional dos professores com muitos dos aspetos do seu trabalho
como uma necessidade profissional. Entende que os professores vivem a sua profissão
a tempo inteiro, não estabelecem uma separação entre a dimensão profissional e a
pessoal, uma vez que a sua prática assenta e orienta-se na aprendizagem dos alunos,
que por sua vez, se processa através de relacionamentos que possuem uma componente
emocional.
Os dados foram alcançados por meio de entrevistas de cunho narrativo biográfico,
com trinta e dois professores. Para a análise aqui pretendida foram destacados os aspetos
que os professores realçaram como positivos e negativos no seu relacionamento com
os alunos e no modo como isso afeta sua identidade profissional.
Os professores envolvidos no estudo expressaram como sentimentos de satisfação
pessoal e profissional o relacionamento positivo que mantêm com os alunos, em termos
da transmissão de conhecimentos, do trabalho em sala de aula, da realização de projetos,
em visitas de estudo, ou do simples convívio nos intervalos. Manifestaram ainda o
sentimento de que podem fazer a diferença na vida dos alunos e que eles mais tarde
vão reconhecer, vão recordar como foi importante a influência que o professor teve na
sua formação académica e na construção da visão do mundo.
Por outro lado, os professores reconhecem que os alunos também podem ser
uma fonte de desilusão. Por exemplo, quando alguns alunos não reconhecem o papel
do professor, demonstrando desrespeito e confrontando-o sistematicamente na sua
profissionalidade, ao revelarem desinteresse pela disciplina e pela escola. Perante estas
situações os professores sentem-se frustrados por não conseguirem desempenhar o
seu papel de ensinar, sentindo, ainda, que os alunos esperam que o professor seja um
entertainer e apenas facilite na avaliação.
É possível verificar que os professores consideram os relacionamentos com
os alunos um fator essencial da sua prática quotidiana. As emoções, especialmente
no que diz respeito aos sentimentos de satisfação/frustração, que caracterizam esses
relacionamentos influenciam fortemente a sua identidade profissional.
Estudantes e identidade profissional docente de formadores de professores
Concentrada no campo da formação inicial para a docência, Dotta (2011)
realizou um estudo que objetivou conhecer e analisar as identidades profissionais
docentes de formadores de professores, que se constroem a partir de um conjunto
de intervenientes, como o tipo de instituição, o curso e as disciplinas nas quais os
formadores atuam.
Os formadores de professores apontam características dos estudantes que
podem ser agrupadas segundo aspetos psicossociais: estudantes trabalhadores,
heterogeneidade em termos de idades, com problemas familiares, oriundos de várias
profissões (no caso dos mais velhos), que moram distante da universidade, estudantes
muito jovens; e segundo aspetos académicos: pouco questionadores, participativos
e curiosos; desinteressados; sem gosto pelo estudo, leitura e reflexão; desinteresse
por algumas disciplinas; pouco comprometidos e por vezes indisciplinados; com
dificuldades na leitura, escrita e interpretação; problemas de identificação com o
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
curso, com falta de conhecimentos prévios, imaturidade, pouco politizados, com
pouca bagagem cultural.
Tais características vão na contramão das expectativas dos formadores com
relação aos estudantes, uma vez que eles esperam que os estudantes aprendam os
conteúdos ensinados, que manifestem vontade de aprender, que tenham consciência
de que não existem receitas prontas, que aprendam os conteúdos, mas que também
aprendam onde procurá-los, que tenham bom desempenho como profissionais, que
sejam pessoas melhores, e que saibam como funciona uma escola. Esperam ainda que
seus alunos adquiram o que é fundamental da disciplina, que percebam que o curso
escolhido é o que realmente querem para a vida, que sejam melhores que o formador.
Entretanto, alguns formadores não deixam de apontar a presença de alunos altamente
motivados, comprometidos, responsáveis e interessados. A referência aos estudantes
“dominadores” das tecnologias também é recorrente.
A conciliação entre as características dos estudantes apontadas e as expectativas
dos formadores encontra-se nas representações dos formadores sobre do planejamento:
consideração às especificidades dos estudantes e das turmas; cuidado em promover
a adaptação da linguagem científica às condições de entendimento dos alunos;
necessidades da turma; atenção aos conhecimentos trazidos pelos alunos.
Portanto, as características dos estudantes fazem parte das dinâmicas que
movem o desenvolvimento dos saberes profissionais práticos e que estão em constante
mudança.
A representação de criança/aluno/estudante e as identidades profissionais de
educadores/professores/formadores de professores
Nos contextos de trabalho dos profissionais da educação, desde a educação préescolar ao ensino superior, as representações sociais fazem-se sentir no estatuto atribuído à
profissão, nas funções, na opinião da comunidade educativa e nas políticas educativas.
Pode-se inferir, através das análises dos estudos em causa, que, para os professores
de todos os níveis de ensino, as crianças, os alunos, os estudantes são a razão de ser do
seu trabalho; é para e com eles que o professor trabalha e, por isso, os relacionamentos
são tão importantes na consolidação da identidade profissional do professor.
Em qualquer dos contextos educativos a dimensão relacional e social é crucial,
definindo-se numa lógica comunicacional onde o sujeito é agente ativo e participativo
no presente e no projeto de um futuro de cidadania. A ação profissional é sentida e vivida
pelos entrevistados como catalisadora, construtora e orientadora. Por conseguinte, os
desafios profissionais são ao nível das mudanças individuais da criança/aluno/estudante e
ao nível das mudanças socioeconómicas, políticas e culturais que interferem nos contextos
educativos. Aí reside o núcleo central da dupla transação identitária, onde o Eu pessoal
do educador/professor/formador de professores e o Eu profissional são (re)configurados
pelas formas de ser e de agir ao longo da vida profissional.
Estas (re)configurações conduzem o educador/professor/formador de professores
a uma reflexão sobre a sua experiência e ao reinterpretá-la, reavaliá-la e reconstruí-la,
tomam consciência da sua ação, cujas percepções os levam a compreender melhor o seu
percurso profissional e, em simultâneo, o pessoal.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
19
Neste sentido, aparece explícita a necessidade da inovação, no contexto sala de
atividades/sala de aulas, como a melhor resposta aos interesses dos discentes, apelando
à participação e à aceitação de diferentes posturas. Ora, se a criança/aluno/estudante é a
âncora da ação profissional, significa que tudo gravita à sua volta, ou seja ele é o outro
significativo de maior relevância no percurso profissional onde a dimensão pessoal e
profissional parecem ser diluídas no caminho do docente.
A capacidade de organizar, de planejar, de (re)estruturar o trabalho prende-se
com o acumular de conhecimentos pedagógicos e científicos, com as pretensões ou
crenças que os educadores/professores/formadores de professores têm em relação ao
desenvolvimento da criança/aluno/estudante – eixo nuclear da profissão –, na qual
promovem um conjunto de capacidades e aptidões a fim de saberem viver em grupo,
de se inserirem no mundo trabalho e na sociedade local e global.
Se por um lado há aspetos comuns presentes nas identidades dos educadores/
professores/formadores de professores no que se refere, principalmente, ao outro
significativo – criança/aluno/estudante e no aspeto relacional, em termos pessoais e
profissionais, por outro lado há um conjunto de aspetos que indicam especificidades
segundo os diferentes níveis de ensino.
A ação educativa do educador de infância é específica e diferencia-se dos
outros docentes pelo fato da conceção de infância ser uma etapa onde se associam as
realizações afetivas, intelectuais, sociorrelacionais cujo impacto interfere no processo
de humanização da criança. O fato da educação de infância ser um dos contextos de
socialização primária atribui-lhe especificidades enquanto primeira etapa da educação
básica.
No 1.º CEB, estão presentes sentimentos de frustração decorrentes da
ambiguidade de o caráter afetivo da educação e a necessidade de cativar os alunos
para as aprendizagens curriculares. De forma similar nos níveis subsequentes (2.º,
3.º CEB e secundário) o sentimento de frustração e de desânimo prende-se com a
“força” que o professor precisa ter para se fazer ouvir, talvez mais relacionado com
a questão da autoridade no contexto sala de aula e com uma crescente preocupação
para com os conteúdos científicos, em contraposição com as características dos
“novos” alunos.
Esses sentimentos parecem alheios à educação pré-escolar e ao ensino superior
que incidem no bem-estar da criança/estudante, mas em nuances diferentes: se no
primeiro esse bem-estar se relaciona com o processo de socialização e integração no
grupo de pares, mais numa interseção entre a ética do cuidado e a ética educativa,
no ensino superior está correlacionado com aquisição de saberes científicos para a
inserção no mundo de trabalho, sem contudo desconsiderar as angústias dos professores
e, também, as características de estudantes que não coincidem integralmente com as
expectativas.
Estes sentimentos vêm reforçar as questões dos saberes profissionais que
constituem os conteúdos assimilar e acomodar no desenvolvimento dos discentes,
corporizando-se nas relações entre uns e outros, revestidas no reconhecimento das
respectivas profissões. Constatamos que o reconhecimento dos alunos é um dos fatores
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
que o professor mais valoriza e, quando isso não acontece, a sua identidade é fortemente
abalada pela angústia e pela insatisfação profissional.
Nestes cenários movediços as identidades profissionais do educador/professor/
formador de professores se debatem entre os seus valores, a sua ética profissional, as
suas expectativas e as expectativas dos outros e da própria sociedade.
Considerações finais
Neste artigo procurou-se conhecer a representação da criança e dos jovens na
construção das identidades profissionais através de cinco estudos empíricos. Não foi
intenção fazer um estudo comparativo entre os diferentes níveis de ensino, mas abranger
as diversas perspetivas docentes para se compreender a edificação das identidades e
obter uma imagem real e alargada dos profissionais acerca da representação da criança
e dos jovens.
Ficaram visíveis os indicadores dessa representação: a relação de proximidade
e o reconhecimento. Indicadores que não dependem só da representação da criança e
dos jovens, mas, também, das características dos contextos de trabalho, das políticas
públicas e comunidade social.
A relação de proximidade entre discente e docente acompanha todo o percurso
educativo e profissional, ganhando maior ou menor visibilidade no modo como é
intersetada com a construção do saber ser e do saber estar e do saber agir. A relação
afetiva, com uma forte incidência na educação pré-escolar e no 1.º CEB, vai diluindo
fronteiras à medida que vão avançando no percurso académico, mas, sem nunca deixar
de existir. O outro indicador prende-se com o reconhecimento da ação educativa/
formativa, sendo atribuída como uma mais-valia nas configurações identitárias. O
reconhecimento do outro é gradativo e os intervenientes vão mudando ao longo da
construção dos saberes.
O estudo permitiu constatar que os educadores/professores/formadores de
professores precisam dos outros significativos como um espelho do seu desenvolvimento
pessoal e profissional onde o Eu e o Nós (re)edificam as identidades num ambiente
institucional, através da ação e da relação.
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magistério. Educação e Sociedade, 21(73), 211-234.
Zavalloni, M. & Louis-Guerin, C. (1984). Identité Sociale et Conscience – Introduction
à L’égo-écologie. Montréal: Les Presses de L’Université de Montréal.
_____________________________
Recebido em abril de 2015
Aceito em abril de 2015
Leanete Thomas Dotta: Bolsista Pós-doutorado CAPES BEX 1798-14-6, CIIE – Centro de Investigação e
Intervenção Educativas Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação Universidade do Porto.
Margarida Marta: Educadora de Infância, Doutorada em Ciências da Educação Agrupamento de Escolas
Diogo de Macedo, Olival. CIIE – Centro de Investigação e Intervenção Educativas Faculdade de Psicologia e
Ciências da Educação Universidade do Porto.
Rosa Ester Tártato Soares: Professora, Mestre em Ciências da Educação Escola Básica de Rio Tinto nº 2.
Luciana Matiz: Investigadora de Pós-doutorado Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação
Universidade do Porto.
Endereço para contato: [email protected]
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
23
Aletheia 43-44, p.24-36, jan./ago. 2014
Motivos da busca de atendimento psicológico em uma clínica
escola da Região Metropolitana de Porto Alegre/RS – Pesquisa
documental
Fernanda Pasquoto de Souza
Débora de Freitas Gonçalves Santos
Aline Groff Vivian
Resumo: O presente estudo busca a identificação dos principais motivos de busca dos pacientes
que procuram atendimento psicológico em uma Clínica Escola da Região Metropolitana de Porto
Alegre/RS. Utilizou-se uma metodologia levantamento retrospectivo documental, de consulta às
fichas de triagens realizadas na Clínica Escola no o período de janeiro de 2008 até dezembro de
2012. A amostra do presente estudo foi composta pela análise de 229 prontuários de pacientes adultos
que passaram pelo serviço-escola, incluindo os atendimentos não finalizados até o momento da
realização da pesquisa. Constatou-se que a maior parte dos atendimentos realizados na clínica-escola
foi do sexo feminino (79,9%), com uma faixa etária que variou entre 30 e 39 anos (26,3%) com
Ensino Médio Completo (37,6%). Entre os principais motivos de busca por atendimento psicológico
constamos que as queixas referentes aos Transtornos de Humor prevalecem com 47,7%, seguida
por 26,8% possuíam transtornos relativos à ansiedade e 15,5% buscaram atendimento por queixas
relacionadas a problemas psicossociais e ambientais.
Palavras-chave: Motivos de busca; Clínica-escola; Atendimento Psicológico.
Reasons of Search for Psychological Care in a School Clinic in Porto
Alegre’s Metropolitan Area – Documentary Research
Abstract: This study aims to identify the main reasons why patients search for psychological care
in a School Clinic of Porto Alegre/RS. We used a retrospective documentary research methodology,
by examining patients’ triages performed in the School Clinic from January/2008 to December/2012.
The sample of this study is composed by the analysis of medical records from 229 adult patients
who went through the service, including the cases which were not concluded up to the moment of
this research making. It was verified that the most of the people assisted in the School Clinic are
females (79.9%), with ages ranging from 30 to 39 years old (26.3%), and who have accomplished
High School education (37.6%). Among the main reasons of search for psychological care, it
was found that complaints related to Mood Disorders prevail with 47.7%, followed by 26.8% of
people with disorders related to anxiety, and 15.5% of patients looked for psychological care due
to complaints associated with psychosocial and environmental issues.
Keywords: Reasons of search; School clinic; Psychological Care.
Introdução
As clínicas escolas (CEs) foram instituídas após 27 de agosto de 1962, baseadas
na Lei 4.119 que dispõe sobre os cursos de formação em Psicologia e, que regulamenta
a profissão de Psicólogo (Brasil, 1962). Neste momento definiu-se que os cursos de
Psicologia deveriam organizar serviços de atendimento para que os alunos pudessem
praticar os ensinamentos adquiridos em sala de aula sob a supervisão de um docente. As
CEs foram instituídas com o objetivo de atender à necessidade de formação nos cursos
de Psicologia, possibilitando a aplicação na prática das técnicas psicológicas aprendidas
durante a graduação. Segundo Peres, Santos & Coelho, (2003), as clínicas possuem um
papel importante para a formação de profissionais adequadamente habilitados, capazes
de atuar, com seus conhecimentos e práticas, diante das demandas atuais da sociedade.
Segundo Mazer e Melo-Silva (2010), o estágio, seja em que âmbito aconteça,
possui papel fundamental para o estudante de psicologia no que se refere à formação
da identidade profissional. Neste ambiente o aluno dispõe de contato direto com a área
de atuação, recebendo orientação para suas atividades. “É por meio dos estágios na
graduação e da supervisão que recebe dos professores que o estudante aprende realmente
a ser psicólogo” (Mazer & Melo-Silva, 2010).
As CEs cumprem, além do papel de complementação acadêmica, com a atuação
supervisionada na prática clínica pelos estudantes em final de formação (Campezatto
& Nunes, 2007), mas também um papel social, prestando atendimento e serviços de
Psicologia à população em geral. Além disso, os atendimentos de Psicologia nas CEs
oferecem ajuda a uma parcela da população que necessitada de auxílio, os pacientes são
atendidos por alunos em formação gratuitamente ou a um valor simbólico (Honda &
Yoshida, 2012; Santeiro 2008).
Melo-Silva, Santos & Simon, (2005) referem que o termo clínica-escola veio a
ser substituído por Serviço – Escola a partir de 2004, quando ocorreu o 12º Encontro de
Clínicas-Escola do Estado de São Paulo, este nome passou a ser utilizado com o propósito
de abranger maior número de intervenções psicológicas. Segundo as considerações de
Herzberg e Chammas (2009), com esta mudança amplia-se também o entendimento de
que as intervenções nestes ambientes ultrapassam a atuação clínica, sendo possível a
viabilidade da estruturação de intervenções de acordo com a realidade e necessidades
observadas pelo local.
O Serviço Escola (SE) referente a esta pesquisa oferece atendimento há 20 anos
à comunidade da região metropolitana de Porto Alegre /RS, neste local são oferecidos
serviços de fisioterapia e fonoaudiologia, além de atividades de extensão, pesquisa e
práticas disciplinares. Os atendimentos realizados SE compreendem duas abordagens
teóricas, a cognitivo-comportamental e a psicanalítica, os atendimentos são realizados
por estudantes de psicologia através de estágios curriculares supervisionados em
Psicologia.
No SE os estudantes realizam supervisão da prática clínica, seminários teóricoclínicos, entrevistas iniciais (triagens) de pacientes, buscando o acolhimento inicial, a
identificação do motivo da consulta, levantamento da hipótese diagnóstica e a indicação
de encaminhamento ou atendimento no local. No SE é oferecido além de psicoterapia
individual, o psicodiagnóstico e a consultoria psiquiátrica, realizada por um psiquiatra do
local, para os pacientes indicados através do atendimento psicoterápico individual.
Deste modo, é possível perceber a relevância da realização de pesquisas para o
conhecimento e desenvolvimento de novos parâmetros de serviços oferecidos pelos SEs
(Serviços-Escolas). Estudos que possam caracterizar o funcionamento das SEs, identificar
o levantamento de queixas mostram-se indispensáveis para aperfeiçoar o planejamento de
medidas mais efetivas e da eficiência dos serviços oferecidos, fundamentando práticas que
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
25
atendam as necessidades da população, delineando ações mais produtivas, possibilitando
a ampliação dos atendimentos prestados, procurando e adequando as necessidades
percebidas, visando à manutenção e a qualidade do atendimento (Boaz & Nunes, 2010;
Herzberg & Chammas, 2009).
O presente estudo busca identificar os principais motivos de busca de atendimento
psicológico em uma Clínica Escola de Psicologia da região metropolitana de Porto Alegre/
RS, abrangendo a faixa etária adulta (acima de 19 anos), visando à identificação do perfil
dos pacientes atendidos no período de 2008 a 2012. Cabe salientar que esta pesquisa
faz parte de um estudo mais abrangente intitulado Perfil Sociodemográfico de pacientes
atendidos em uma Clínica Escola de Psicologia de 2008 a 2012 que tem como objetivo
mapear o perfil dos usuários do serviço de Psicologia neste período.
Método
O método utilizado no estudo trata-se de um levantamento retrospectivo e
quantitativo, realizado através de pesquisa documental que, segundo Oliveira (2007), é
aquela que recorre a materiais que ainda não receberam tratamento analítico, chamadas
fontes primárias. A amostra foi composta pela análise de prontuários de pacientes que
foram atendidos em um Serviço-Escola de Psicologia da região Metropolitana de Porto
Alegre, compreendendo o período de janeiro de 2008 até dezembro de 2012. A coleta de
dados foi realizada mediante autorização da Coordenação do Serviço-Escola.
Os prontuários são fichas que possuem os dados de frequência do atendimento
e motivo da procura por tratamento psicológico. Neste estudo, foram utilizados 229
prontuários de pacientes que passaram pelo serviço-escola. Foram utilizados os seguintes
dados: sexo, idade, escolaridade, ocupação profissional, fonte de encaminhamento, tempo
de tratamento, tipos de términos dos atendimentos, número de sessões realizadas e motivos
de término. Para a classificação das queixas, foram utilizados os critérios diagnósticos do
Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM –IV- TR.
Após coleta dos dados, foi constituído um banco de dados contemplando as
variáveis da pesquisa mencionadas anteriormente. Essa análise constituiu em descrever
as características gerais da amostra com relação às variáveis sociodemográficas e clínicas,
e a partir da sua interpretação foi possível identificar o perfil dos usuários atendidos pelo
Serviço-Escola de Psicologia em questão.
Na análise estatística, as variáveis quantitativas foram descritas por média e desvio
padrão ou mediana e amplitude interquartílica. As variáveis qualitativas foram descritas por
frequências absolutas e relativas. Para avaliar a associação entre as variáveis categóricas,
o teste qui-quadrado de Pearson foi utilizado. Em caso de significância estatística, o teste
dos resíduos ajustados foi aplicado. O nível de significância adotado foi de 5% (p≤0,05)
e as análises foram realizadas no programa estatístico Statiscal Package for the Social
Sciences- SPSS, versão 17 para Windows.
É importante informar que todas as pessoas que buscam atendimento no Serviço
Escola são informadas da possibilidade de que seus dados sejam utilizados em atividades
de pesquisa, deixando autorizado o acesso a essas informações para este fim, mantendo-se
sigilo mediante o compromisso da não identificação dos pacientes.
26
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Resultados
A amostra do presente estudo foi composta pela análise de 229 prontuários de
pacientes adultos, com idade acima de 19 anos. O período dos documentos analisados
compreende os anos de 2008 até 2012, incluindo os atendimentos não finalizados até o
momento da realização da pesquisa.
Tabela 1 – Caracterização da Amostra – Sexo e Idade, Nível de Escolaridade, Ocupação
dos Pacientes Atendidos.
Variáveis
n=229
n (%)
Idade (anos) – média ± DP
19-29
30-39
40-49
50-59
≥ 60
41,7 ± 14,0
49 (21,5)
60 (26,3)
53 (23,2)
39 (17,1)
27 (11,8)
Sexo – n (%)
Masculino
Feminino
46 (20,1)
183 (79,9)
Escolaridade – n (%)(n=186)
Ensino fundamental incompleto
Ensino fundamental completo
Ensino médio incompleto
Ensino médio completo
Ensino superior incompleto
Ensino superior completo
46 (24,7)
11 (5,9)
26 (14,0)
70 (37,6)
22 (11,8)
11 (5,9)
Profissão – n(%) (n=172)
Com ocupação
Sem ocupação
109 (63,4)
63 (36,6)
Diante da análise de 229 prontuários de atendimentos, constata-se que a maior
parte dos atendimentos realizados no serviço-escola em questão é do sexo feminino, com
79,9% em relação aos pacientes do sexo masculino com 20,1%.
Diante dos prontuários analisados, em uma faixa etária que compreendem idades
entre 19 e 79 anos, pode-se constatar que a maior parte dos pacientes atendidos tinham
idades entre 30 e 39 anos de idade (26,3%), seguidos dos que possuem idades entre 40 e
49 anos (23,2%),19 e 29 anos (21,5%) e, por fim,11,8% dos pacientes atendidos tinham
idade igual ou superior a 60 anos.
Conforme a Tabela 1 pode-se observar que à escolaridade dos pacientes atendidos
no SE, 37,6% possuem Ensino Médio Completo e 24,7% possuem Ensino Fundamental
Incompleto, sendo que os dados de Ensino Fundamental Completo e de Ensino Superior
Completo obtiveram a mesma porcentagem, 5,9% dos atendidos. Quanto aos aspectos
referentes à ocupação dos pacientes atendidos no SE foi possível observar que 63,4%
não possuem nenhuma ocupação ou trabalho.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
27
Figura 1 – Motivos de busca de atendimento dos pacientes atendidos.
A Figura 1 expressa a distribuição dos pacientes por motivos de busca de
atendimento, constatou-se que as principais queixas apresentadas como motivo de busca
para atendimento no SE, foram às queixas referentes aos Transtornos de Humor com
47,7%, seguida por 26,8% que procuraram o atendimento por apresentarem transtornos
relativos à ansiedade e, 15,5% buscaram atendimento por apresentarem queixas
relacionadas a problemas psicossociais e ambientais.
Podemos observar que entre as outras queixas apresentadas na Figura 1 estão o
luto com 3,6%, condições médicas gerais e disfunções sexuais apresentaram igualmente
o índice de 2,3% dos casos, seguidos pelas referentes aos transtornos alimentares com
1,4% e, 0,5% dos casos por abuso de substância.
Figura 2 – Distribuição dos pacientes por fonte de encaminhamento.
28
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Conforme a Figura 2 a busca pelo atendimento psicológico no SE aconteceu em
58,2% dos casos de maneira espontânea, sendo que dos pacientes que buscaram a clínica
através de outros encaminhamentos, como aqueles realizados por médicos clínicos gerais
e demais profissionais da área da saúde, como fisioterapeutas e fonoaudiólogos chegam
a 23,6% dos casos. Dos pacientes atendidos no SE 17,8% buscaram atendimento após
serem encaminhados por outros profissionais de saúde mental, como médicos psiquiatras,
neurologistas e psicólogos e, somente 0,4% foram encaminhados por instituição
escolar.
Figura 3 – Motivo de término do atendimento psicológico.
A Figura 3 mostra os dados referentes ao tipo de encerramento dos pacientes
atendidos no SE. Constatou-se que 56,3% dos atendimentos finalizados ocorreram por
motivo de desistência do paciente quanto apenas 23,4% tiveram alta e os que receberam
encaminhamentos a outros locais ou profissionais chegam a 18% dos casos. Na presente
pesquisa foram incluídos os pacientes que iniciaram atendimento até o mês de dezembro
de 2012, destes atualmente 2,3% permanecem em atendimento.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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Figura 4 – Associação entre a passagem para outro estagiário e o encerramento (p<0,001).
De acordo com a Tabela 2 foi possível constatar associação entre a passagem para
outro estagiário e o encerramento do atendimento (p<0,001). Dos 229 prontuários analisados,
218 continham informações sobre a passagem para outro profissional/estudantes durante
o atendimento psicoterápico realizado no SE. Dos atendimentos realizados 14,7% dos
pacientes atendidos passou por este processo de passagem para outro terapeuta.
Tabela 2 – Distribuição dos pacientes atendidos no SE quanto aos serviços oferecidos.
Variáveis
Amostra total
Abordagem – n(%)
Psicanálise
Psicodiagnóstico
TCC
Passagem para outro estagiário – n(%)
Sim
Não
Nº de sessões – mediana (P25 – P75)
<4
4 – 12
13 – 24
> 24
Consultoria – n(%)
Sim
Não
118 (55,4)
1 (0,5)
94 (44,1)
218
183
32 (14,7)
186 (85,3)
11 (3 – 22)
46 (25,1)
56 (30,6)
43 (23,5)
38 (20,8)
187
*p<0,05
30
n (%)
213
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35 (18,7)
152 (81,3)
Pode-se constatar a partir dos dados apresentados na Tabela 2 quanto aos
serviços oferecidos no SE pesquisado que 55,4% dos pacientes realizaram atendimento
psicológico na abordagem psicanalítica, 44,1% foram atendidos na abordagem
cognitivo-comportamental, e apenas 0,5%, um paciente, realizou apenas avaliação
psicodiagnóstica. Considerando a consultoria psiquiátrica oferecida pelo local obtivemos
187 prontuários para análise, neste item constamos que 81,3 % dos casos não participaram
da consultoria.
Dados referentes à Tabela 6 mostram informações quanto ao número de sessões
realizadas, sendo que dos 229 prontuários analisados apenas 183 continham dados sobre
item, destes 30,6% dos pacientes tiveram de 4 a 12 sessões, 25,1% realizaram no máximo
4 atendimentos, 23,5% dos pacientes atendidos realizaram de 13 a 24 sessões e 20,8%
compareceram a mais de 24 sessões.
Discussão
Foram analisados 229 prontuários de atendimentos, constatou-se que a maior parte
dos atendimentos realizados no Serviço-Escola é do sexo feminino, totalizando 79,9%
em comparação com o sexo masculino com 20,1%. A predominância do sexo feminino
é demonstrada por autores como Maravieski e Serralta (2011) realizado em uma CE da
região metropolitana de Porto Alegre/RS no período de 2003 a 2007. Naquele estudo a
prevalência de atendimentos de adultos (acima de 21 anos) foi de 62,1%, e por Costa,
Herek, Marutti, Piffer & Camargo, (2007) em um estudo realizado no Paraná com 65% de
mulheres, enquanto Gatti e Jonas (2007), apontaram que 75,13% dos pacientes atendidos
em seu SE eram mulheres.
No estudo de Campezatto e Nunes (2007), dados referentes ao motivo de maior
procura do sexo feminino por atendimento psicológico na literatura existente são
insuficientes, o que dificulta associar a uma única causa a maior procura de mulheres
adultas por psicoterapia, refere que, para este público, a psicoterapia pode estar associada
ao espaço proporcionado de autoconhecimento, reflexão e esperada melhora. Conforme
Romaro e Oliveira (2008) a maior procura das mulheres pelo atendimento psicológico
pode estar relacionada à maior facilidade e aceitação sociocultural para a exposição de
seus problemas ou expressão dos seus sentimentos, enquanto os homens sofrem maior
pressão da sociedade na expressão de seus sentimentos ou problemas, que podem ser
vistos como uma forma de fraqueza.
As principais queixas apresentadas como motivo de busca para atendimento no SE
estudado foram as referentes aos transtornos de humor com 47,7%, seguida por 26,8%
que procuraram a clínica por apresentarem transtornos relativos à ansiedade e, 15,5%
buscaram atendimento por apresentarem queixas relacionadas a problemas psicossociais e
ambientais. Podemos observar que entre as outras queixas apresentadas estão o luto com
3,6%, condições médicas gerais e disfunções sexuais apresentaram igualmente o índice
de 2,3% dos casos, seguidos pelas referentes aos transtornos alimentares com 1,4% e,
0,5% dos casos por abuso de substância.
De acordo com a pesquisa realizada por Maravieski e Serralta (2011), os principais
motivos de busca foram os sintomas depressivos (26%) e de ansiedade (13,7%). Em
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
31
uma pesquisa realizada por Bortolini, Pureza, Andretta & Oliveira, (2011) também em
um SE, os dados encontrados corroboram com os achados desta pesquisa, no estudo foi
identificado como queixa principal os transtornos de humor em 38% dos casos, seguidos
por 27,20% das queixas que culminaram em atendimento estavam relacionadas aos
transtornos de ansiedade.
Podemos identificar queixas semelhantes aos identificados na pesquisa de
Campezzatto e Nunes (2007) que sinalizam como queixas principais encontradas em um
SE, um total de 27,88% dos sujeitos pesquisados apresentavam sintomas relacionados aos
transtornos de humor, com quadros de depressão, agressividade e de ansiedade. Em outro
estudo realizado em um SE na cidade de Guaíba/RS, realizado por Villwock, Coelho,
Predebon, Mansur, Hoppe, Fronckowiak, & Devit, (2007) as queixas mais expressivas
apresentadas pelos pacientes adultos corroboram os dados deste estudo. As autoras
contataram que o principal motivo de busca por atendimento naquele SE foi a depressão
(15,2%), seguida pela ansiedade (13,6%) dos casos.
Conforme a Figura 2 a busca pelo atendimento psicológico no SE aconteceu em
58,2% dos casos de maneira espontânea, sendo que 23,6% dos pacientes buscaram a
clínica através de outros encaminhamentos, como aqueles realizados por médicos clínicos
gerais e demais profissionais da área da saúde, como fisioterapeutas e fonoaudiólogos. Dos
pacientes atendidos 17,8% buscaram atendimento após serem encaminhados por outros
profissionais de saúde mental, como médicos psiquiatras, neurologistas e psicólogos e,
somente 0,4% foram encaminhados pela escola.
Estes dados estão de acordo com o estudo de Maravieski e Serralta (2011), que
constata 50,8 % foram por procura espontânea. Outra pesquisa realizada por Lahm e
Boeckel (2008), em SE no município de Taquara/RS com 22 indivíduos, informa que
60% das pessoas que buscaram atendimento na clínica o fizeram espontaneamente.
A Figura 3 mostram dados referentes aos tipos de encerramento dos pacientes
atendidos na SE. Constatou-se que 56,3% dos atendimentos finalizados ocorreu por
motivo de desistência do paciente quanto apenas 23,4% tiveram alta, sendo que os
encaminhamentos a outros locais ou profissionais chegam a 18%. Na presente pesquisa
foram incluídos os pacientes que iniciaram atendimento até o mês de dezembro de 2012,
destes atualmente 2,3% permanecem em atendimento.
No estudo realizado por Maravieski e Serrlata (2011) encontramos um índice
também bastante expressivo de desistência do tratamento psicoterápico, 42,4% dos
casos haviam desistido do atendimento por escolha unilateral com ou sem aviso prévio
ao terapeuta. Estudos realizados em SE que tratam sobre o abandono da psicoterapia
possuem número dentro da média observada na presente pesquisa (Bortolini et al.,
2011; Campezatto & Nunes, 2007; Lhullier, Nunes, Antochevis, Porto & Figueiredo,
2000).
Conforme o estudo de Milagre e Dias (2012), sobre o abandono do atendimento
psicológico em uma SE, não é possível identificar um único fator determinante na
desistência do atendimento, foi percebido que o abandono compreende vários aspectos,
que vão desde a localização da clínica, a condução do estagiário no atendimento, as
condições financeiras do paciente, tempo de espera para o atendimento e a “resistência”
do paciente, entre outros. Segundo as autoras o que se pode fazer a fim de evita-los
32
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
é uma constante reflexão dos meios e serviços ofertados pelo local, considerando as
características e o perfil dos pacientes atendidos, possibilitando uma constante adequação
dos serviços oferecidos.
De acordo com os dados obtidos relativos ao número de sessões realizadas no SE
estudado foi constatado que 30,6% dos pacientes foram atendidos em média de 4 a 12
sessões antes do abandono, encaminhamento ou término. É importante destacar que este
dado pode indicar que estes pacientes desistiram do atendimento ou foram encaminhados
a outros locais e serviços de psicologia.
Conforme estudo de Enéas, Faleiros & Andrade, (2000) sobre psicoterapias breves
com adultos, a duração média em um SE estudada foi de 9 a 12 sessões e, embora os
autores sinalizem que não há consenso sobre a duração adequada da psicoterapia breve,
o modelo adotado pelas SEs atendem a proposta do estágio, oferecendo aos estudantes
condições de acompanhamento de um processo completo. Segundo os autores o tempo
de duração menor pode ainda, favorecer a obtenção de índices menores de interrupção
do tratamento, embora possam não influenciar que aspectos subjetivos dos pacientes os
levem a desistir da psicoterapia.
Conforme Figura 4 foi possível constatar associação entre a passagem para outro
estagiário e o encerramento do atendimento (p<0,001), podendo assim identificá-lo
como fator de proteção. No SE estudado, fonte para esta pesquisa é realizado um
processo de passagem de terapeuta, nos casos em que seja necessária uma mudança, isto
ocorre devido ao término do estágio do estudante de psicologia. Neste processo, até a
troca definitiva, o paciente é preparado para a mudança de terapeuta, sendo realizadas
algumas sessões com os dois terapeutas a fim de proporcionar melhor adaptação do
paciente à passagem.
No presente estudo, dos atendimentos realizados tivemos o resultado que 14,7%
dos pacientes passaram por este o processo de passagem para outro terapeuta. Já as
autoras Vivian, Santos e Souza, 2014, observaram que a troca de terapeuta não é um
motivo de desistência do tratamento, mas sim, que a maioria (56%) que foi atendida por
mais de um terapeuta continuou o tratamento e teve alta. Em outro estudo comparativo
em uma SE de Psicologia com pacientes que receberam acompanhamento de passagem
com dois terapeutas até a finalização da troca de profissional e, aqueles que não
participaram do mesmo processo foi possível identificar que o índice de abandono
da terapia foi menor no grupo em que houve o trabalho de passagem (Lhullier et al.,
2000).
Pode-se constatar a partir dos dados apresentados na tabela 6 quanto aos serviços
oferecidos no SE pesquisado, que 55,4% dos pacientes realizaram atendimento na
abordagem psicanalítica, 44,1% na abordagem da teoria cognitivo comportamental e
0,5% realizou atendimento com a finalidade de psicodiagnóstico. Observa-se que os
números de pacientes atendidos entre uma abordagem e outra são próximos, podemos
relacionar isto ao processo de triagem. O processo de triagem ocorre no SE no momento
inicial de atendimento ao paciente, trata-se de 3 a 4 sessões de avaliação do paciente,
neste processo é possível realizar a coleta de dados, a identificação o motivo de
busca pelo atendimento psicológico, possibilitando o planejamento do tratamento e a
identificação da abordagem mais adequada para cada caso.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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Segundo estudos que tratam sobre os procedimentos de recepção dos pacientes em
SE, sejam eles chamados de triagens, entrevistas iniciais ou de acolhimento é possível
perceber a importância de tais procedimentos. Os primeiros contatos dos pacientes
em um SE proporcionam a identificação das demandas, o conhecimento do perfil do
paciente e, possibilitam identificar o tratamento mais indicado ao paciente que procura
o atendimento psicológico (Campezato & Nunes, 2007) embora, segundo Bortolini et
al., (2011), existam poucos estudos que tratem especificamente dos atendimentos na
abordagem cognitivo comportamental.
Considerações finais
Considerando os estudos referentes aos públicos usuários de SEs, é possível perceber
a relevância de pesquisam que possibilitem a identificação da natureza, motivos de busca
e de encaminhamento para os serviços de psicologia disponíveis nestes locais, visto
que estes conhecimentos vêm ao encontro tanto do aprimoramento das práticas clínicas
dispendidas à população, quanto para a criação de novos serviços ou modalidades de
atendimento (Peres et al., 2003).
O presente estudo identificou os principais motivos de busca de atendimento
em um SE de Psicologia trouxe resultados relevantes. Conhecer o perfil da clientela
e suas respectivas demandas de atendimento psicológico em um Serviço Escola é um
procedimento que pode contribuir de forma significativa, tanto para as discussões e
reflexões sobre as práticas preventivas em psicologia e saúde, quanto para a verificação
das condições de oferta dos serviços prestados às diferenciadas solicitações da
comunidade.
Durante a realização da pesquisa observou-se alguns fatores que foram limitadores
neste estudo. Na coleta de dados, percebeu-se que algumas informações dos prontuários
analisados estavam incompletas, o que impossibilitou as sua utilização. Outro fator
importante foi à identificação das queixas, muitos prontuários continham mais de uma
queixa descrita como motivo de busca por atendimento, optando-se por padronizar as
queixas de acordo com DSM – IV-TR.
Atualmente o local estudado passa por processo de informatização e
padronização dos seus dados, os prontuários dos pacientes constituirão um banco de
dados do serviço escola, possibilitando sanar a limitação encontrada durante a coleta
de dados da pesquisa. Este processo vem contribuir e possibilitar um acesso mais fácil
às informações dos pacientes do local, com a padronização dos prontuários em um
sistema informatizado os dados servirão como fonte de informação, possibilitando
a identificação dos mesmos de forma mais rápida e efetiva. Diante da pesquisa
realizada, percebe-se a relevância de estudos que visem à identificação do perfil dos
pacientes de CE e seus motivos de busca por atendimento psicológico, para que se
possa auxiliar no planejamento de modelos de atendimento à população que procura
esse tipo de serviço, visando ampliar e desenvolver mais ações neste contexto, que
atendam tanto à demanda da clientela quanto enriqueçam a formação do alunoestagiário nas atuações clínicas.
34
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Referências
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_____________________________
Recebido em maio de 2014
Aceito em junho de 2014
Fernanda Pasquoto de Souza: Mestrado em Ciências Médicas pela Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, Brasil (2008). Professora Titular da Universidade Luterana do Brasil, (ULBRA Canoas).
Débora de Freitas Gonçalves Santos: Acadêmica do Curso de Psicologia. Universidade Luterana do Brasil,
Canoas, RS.
Aline Groff Vivian: Psicóloga, Mestre e Doutora em Psicologia (UFRGS). Professora Titular da Universidade
Luterana do Brasil, (ULBRA – Canoas).
Endereço para contato: [email protected]
36
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Aletheia 43-44, p.37-49, jan./ago. 2014
Família e monoparentalidade feminina sob a ótica de mulheres
chefes de família1
Sabrina Daiana Cúnico
Dorian Mônica Arpini
Resumo: O presente estudo teve por objetivo compreender as concepções de família trazidas por
mulheres chefes de família de periferia urbana, bem como identificar como as mães entendem seu
lugar nesse contexto familiar. A pesquisa foi realizada com dez mulheres, mães, que compunham
uma família monoparental e que residiam em periferia urbana. Os instrumentos de coleta de dados
utilizados foram entrevistas semiestruturadas e grupos focais, sendo a análise feita por meio da
análise de conteúdo temática. Os resultados apontaram para uma sobrecarga devido ao acúmulo
de funções e certo apego ao modelo nuclear de família, gerando sentimentos de fragilidade e
insatisfação entre as mães entrevistadas. Nesse sentido, destaca-se a importância da realização
de intervenções que deem conta das questões que se apresentam após o fim do relacionamento
amoroso, em especial quando se trata de famílias de periferia urbana, as quais representam um
número expressivo da realidade brasileira.
Palavras-Chave: Relações familiares; Família; Monoparentalidade.
Family and female single parenthood under the view of women heads
of household
Abstract: This study aimed to understand the meanings attributed to family by women heads of
households in urban periphery, as well as identifying how mothers understand their place in the
family context. This research was composed by ten women, mothers, who constituted a monoparental
family, living in urban periphery. Data were collected through of semi-structured interviews and
focus groups, both analyzed according to the thematic content analysis. The results pointed to an
overload, due to accumulation of functions and certain attachment to the nuclear family model,
generating feelings of fragility and dissatisfaction among those interviewed. In that sense, stands
out the importance of promoting interventions to deal with these issues that arise after the end of
the relationship, especially when it comes from families living in the urban periphery of the cities,
condition experienced by a significant number of families of the Brazilian society.
Keywords: Family relations; Family; Single parenthood.
Introdução
A família nuclear – caracterizada pela composição pai, mãe e filhos – emergiu
juntamente com a classe burguesa do século XVIII, sendo caracterizada pelo amor entre
o casal, sua união em benefício do bem estar dos filhos, a valorização da maternidade
e o estabelecimento de relações diferenciadas entre homens e mulheres (Reis, 2010;
Roudinesco, 2003). Evidentemente, o fortalecimento deste modelo familiar impactou
diretamente na vida de homens e mulheres. Neste arranjo, a mulher considerada frágil
e pouco predisposta à atividade intelectual, estaria mais apta a abnegar de seus desejos,
1
Apoio e financiamento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
ficando encarregada dos filhos e do cuidado com a casa. Isto é, coube às mulheres a
responsabilidade pela vida privada da família. Em contrapartida, o homem, visto como
mais forte e vigoroso, foi encarregado do provimento material, bem como da direção
moral da esposa e de seus filhos, voltando-se, portanto, para a vida pública (Badinter,
1985; Reis, 2010; Roudinesco, 2003).
No contexto atual, a família nuclear coexiste com uma gama de outros arranjos
familiares ricos em complexidade, tais como as famílias homoparentais ou homoafetivas,
famílias monoparentais, famílias recompostas ou reconstituídas, etc. Diversos são os
fatores que tiveram influência na consolidação destes modelos familiares, dentre os quais:
as lutas de emancipação feminina e a possibilidade de divórcio (Bossardi, Gomes, Vieira
& Crepaldi, 2013; Reis, 2010; Roudinesco, 2003; Silva, 2010).
Partindo da premissa de que o divórcio é um momento de transformação, entendese que geralmente ele irá culminar em uma reorganização familiar, que pode ter caráter
singular (famílias monoparentais) ou conjugal (famílias recompostas) (Grzybowski,
2002; Warpechowski & Mosmann, 2012). Estas observações visam destacar que,
embora a estrutura se altere com a dissolução da conjugalidade, a família, enquanto
organização, se mantém (Brito, 2014; Cano, Gabarra, Moré & Crepaldi, 2009; Cúnico
& Arpini, 2013).
Nesse contexto de mudanças, cada vez mais mulheres estão ocupando a posição
social que durante muito tempo foi de exclusividade masculina: a de chefes de suas
famílias2 (Pinto et al., 2011; Macedo, 2008). De acordo com o Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), estima-se que o número de mulheres nesta condição
aumentou de 22,2% para 37,3% entre 2000 e 2010. Destas, em torno de 17% dizem
respeito às configurações familiares em que a chefia é exercida por mulheres com filhos
e sem cônjuge (IBGE, 2012).
Em face dessa abordagem, faz-se necessário ressaltar o conjunto de mudanças
realizadas pelo IBGE, a partir do censo de 1980, que acompanharam o movimento das
transformações sociais, em especial no que se refere à queda do sistema patriarcal familiar.
A primeira mudança se deu quando o recenseador passou a atribuir ao informante à tarefa
de designar a pessoa que, segundo ele, detém a chefia familiar. Outra mudança importante
ocorreu a partir da década de 90 com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio
– PNAD, a qual introduziu o conceito de “pessoa de referência” no lugar de “chefe do
domicílio”. Assim, foi deixada ao informante a tarefa de nominar a pessoa (homem ou
mulher) que era responsável pela casa, indo de encontro a uma lógica dominante de que
a figura masculina – marido ou pai – era sempre o chefe, mesmo em circunstâncias de
inatividade (Macedo, 2008).
Considerando a especificidade das famílias de periferia urbana, estudos têm
demonstrado que, de fato, muitas das famílias são chefiadas por mulheres que
desempenham papel fundamental na educação dos filhos, na estruturação do cotidiano
e na manutenção da casa (Carloto, 2005). Contudo, não é raro encontrar casos em que,
mesmo que as mulheres sustentem economicamente suas famílias, frequentemente elas
2
Neste estudo, o termo “mulheres chefes de família” será utilizado como equivalente a “famílias monoparentais
femininas”.
38
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
sigam designando, em algum nível, um “chefe” masculino. Ou seja, nestas famílias a
identificação masculina com a autoridade moral – a que confere respeitabilidade à família
– não necessariamente se altera mesmo quando se tem a mulher no papel de provedora
(Sarti, 1994).
Vale mencionar que as famílias monoparentais femininas não necessariamente são
decorrentes de um divórcio ou de uma separação conjugal. Elas podem ser compostas por
mulheres solteiras, viúvas ou ainda por mulheres que coabitam com os filhos, parentes e
outros agregados (Macedo, 2008; Nixon, Greene & Hogan, 2012). Grande parte delas,
no que tange às periferias urbanas, são provenientes de uma gravidez precoce ou não
planejada, instabilidade familiar e/ou abandono (Pinto et al., 2011) e não, necessariamente,
pela adoção de um modelo alternativo de relações familiares (Amazonas, Damasceno,
Terto & Silva, 2003). Desta forma, estas famílias são, em grande parte, associadas às
situações de vulnerabilidade econômica, uma vez que a mulher, além de ser a provedora
do sustento familiar também assume funções domésticas e de cuidado com os filhos, o
que a vincula em trabalhos mal remunerados em tempo parcial ou intermitente (Carloto,
2005; Costa & Marra, 2013).
De fato, ao passo que é o trabalho e a emancipação feminina os responsáveis pela
inserção das mulheres de classe média no mercado de trabalho, no que tange às mulheres
de periferia urbana, o elemento motivador para esta inserção é, na maioria das vezes,
a luta pela sobrevivência (Costa & Marra, 2013). Contudo, concorda-se com Macedo
(2008), que ressalta a importância de que outros aspectos sejam levados em consideração
ao se trabalhar com esta configuração familiar, como a etapa do ciclo de vida, a raça e a
etnia, participação em redes de apoio e solidariedade, natureza do vínculo mantido – ou a
inexistência dele – com o pai de seus filhos, de modo a não vitimizar as mulheres que vivem
nesse panorama. A partir destas considerações, o objetivo deste estudo foi compreender
as concepções de família trazidas por mulheres chefes de família de periferia urbana, bem
como identificar como as mães entendem seu lugar neste contexto familiar.
Método
Trata-se de uma pesquisa de caráter qualitativo (Minayo, 2012), a qual tem por
foco a exploração das opiniões e representações sociais sobre a temática que se pretende
investigar (Gomes, 2012). Assim, o pesquisador buscará apreender a complexidade desta
experiência, estabelecendo significados para o fenômeno investigado a partir da visão
dos participantes (Creswell, 2010).
Integraram este estudo dez mulheres, mães, que compunham uma família
monoparental e que eram residentes em uma periferia urbana do interior do Rio Grande
do Sul. Na escolha pelas participantes, não houve qualquer restrição em relação ao
estado civil das mesmas, bastando que não residissem com o pai do(s) filho(s) ou outro
companheiro. As mulheres tinham entre 22 e 49 anos, sendo sete delas solteiras, uma
separada e duas divorciadas. O tempo médio de separação da última relação amorosa
variou de nove meses a quatro anos e apenas uma das entrevistadas possuía outro
relacionamento no momento em que a entrevista foi realizada. Todas as participantes
estavam empregadas, sendo este conjunto representado pela mais diversa gama de
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
39
profissões como, por exemplo: garçonete, auxiliar de serviços gerais, confeiteira,
atendente entre outras. Das dez entrevistadas, somente quatro não recebiam pensão
alimentícia, sendo que destas três já haviam entrado com uma ação judicial para solicitar
o pagamento e apenas uma relatou não ter interesse em receber nenhuma quantia do
ex-companheiro.
O estudo foi conduzido por meio da realização de entrevistas semiestruturadas e
grupos focais. A utilização da entrevista se deu por entender-se que seu emprego, em
uma pesquisa qualitativa, auxilia a explorar em profundidade os pontos de vista dos
entrevistados (Gaskell, 2005). Os grupos focais foram empregados como instrumento
complementar às entrevistas semiestruturadas. Sua utilização foi pensada em função
de se esperar que no grupo, através da possibilidade de troca e da circulação das
experiências vivenciadas pelas mães, elementos que por ventura possam não ter se
revelado nas entrevistas viessem à tona neste momento, de forma a enriquecer a pesquisa
através deste instrumento (Barbour, 2009).
A partir de consulta ao cadastro do Centro de Referência de Assistência Social
(CRAS) de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, foram contatadas àquelas
mulheres que atendiam aos critérios de inclusão. Os contatos foram feitos por telefone
e as entrevistas foram realizadas respeitando a disponibilidade de cada participante e
a partir de seu consentimento verbal e escrito (assinatura do Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido). Todas as entrevistas aconteceram nas dependências do CRAS e
foram gravadas e transcritas na íntegra para posterior análise. Esta fase da pesquisa
aconteceu no período de janeiro a março de 2013.
Na etapa de realização das entrevistas, as mulheres foram convidadas para
participarem de um segundo momento da pesquisa, envolvendo os grupos focais. Ainda
que no momento da entrevista individual todas as participantes tenham concordado
em dar seguimento às suas participações na pesquisa, das dez entrevistadas, seis foram
as que compareceram nos grupos nos horários previamente agendados. Em relação às
ausências das quatro mães, cabe informar que as justificativas estiveram basicamente
relacionadas ao trabalho, como por exemplo: indisponibilidade de tempo em função
da rotina de trabalho e necessidade de substituição de colegas que faltaram ao serviço.
Desta forma, realizaram-se dois encontros contendo três mães em cada um deles.
Os grupos foram disparados por duas situações problemas, elaboradas a partir
da realização e análise das entrevistas individuais. Uma das situações se referia ao
afastamento paterno após o final da relação amorosa e a outra ao advento da gestação em
um momento instável no relacionamento do casal. Do mesmo modo que as entrevistas,
os grupos foram gravados e transcritos na íntegra. Esta fase da pesquisa aconteceu
durante o mês de maio de 2013.
Para a análise dos dados, utilizou-se como referência a Análise de Conteúdo
Temática proposta por Bardin (2011). Desta forma, realizou-se a leitura individual
de cada entrevista – leitura inicial flutuante – possibilitando que fossem constatados
aspectos comuns entre as narrativas das entrevistadas, que foram ao final analisadas
conjuntamente. Esta análise da totalidade do material das entrevistas impulsionou a
criação das situações problemas já referidas. Em seguida, realizou-se a leitura individual
das transcrições dos dois grupos realizados.
40
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Após a leitura exaustiva das entrevistas e dos grupos focais, individualmente
e após em conjunto, o que permitiu a familiarização da pesquisadora com os dados
obtidos, foi realizada a decomposição do material em temas-eixo (Bardin, 2011). Estes
temas foram postos em quadros para melhor visualização, sendo as colunas preenchidas
com os conteúdos retirados das entrevistas e dos grupos. Tais quadros forneceram
a base das categorias estabelecidas para a análise. As categorias de análise foram
construídas em função da força discursiva com que se fizeram presentes, das temáticas
que se repetiram e ganharam mais ênfase nas colocações das mães. Certamente outros
olhares, concepções e singularidades se fizeram presentes, mas não tiveram a força de
tornarem-se categorias temáticas.
Cabe mencionar que este estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa
da Universidade Federal de Santa Maria e aprovado antes de sua execução, em
conformidade com as diretrizes do Conselho Nacional de Saúde, sob o número CAAE
05021912.7.0000.5346. A fim de preservar a identidade das participantes, as falas
serão apresentadas pela letra M (mãe), seguidas do número que representa a ordem da
realização das entrevistas e serão diferenciadas pelas letras E (entrevista) e G (grupo)
de modo a ilustrar em que momento tal narrativa veio à tona.
Resultados e discussão
Os resultados serão apresentados e discutidos conjuntamente a partir das categorias
de análise: “A família seria pai, mãe e filhos, né?”: o apego ao modelo nuclear e “Eu
me sinto extremamente carregada”: a mãe na família monoparental de periferia urbana,
utilizando-se de recursos teóricos e recortes das entrevistas e dos grupos.
“A família seria pai, mãe e filhos, né?”: o apego ao modelo nuclear
Com a legitimação do divórcio, ocorrida no Brasil em 1977, o número de
dissoluções matrimoniais cresceu aceleradamente e evidenciou diferentes modelos e
padrões de família para além da família nuclear (Vieira & Souza, 2010; Wagner, 2002).
No entanto, os posicionamentos assumidos pelas participantes deste estudo, mulheres
que compõem famílias monoparentais, elucidaram que a família nuclear segue no
imaginário social como sendo o ideal de família, conforme bem o demonstram os
recortes a seguir.
“Atualmente não porque falta um marido, né? [se constituiu a família que gostaria]
Eu casei pensando que ia ser pra sempre, mas não foi o que aconteceu (...) eu sempre
ouvi falar que o pai é a cabeça da família, né, então... se não tem o pai, não tem uma
família fundamentada, né?” (M2- E).
“Não, porque a família seria pai, mãe e filhos, né? [se constituiu a família que
gostaria] seria os meus filhos, eu, meus filhos e um pai, né, e não foi isso que aconteceu”
(M4- E).
“Eu sempre digo [para o filho] ‘o que tu tá vendo, não é assim a família, família é
pai, mãe, filho, tudo junto, então tu procura fazer uma família, sabe, que não tenha essa
separação, essas coisas’ (...) então eu sempre procuro dar esse conselho pra ele, sabe,
que na verdade a família não é a mãe e o filho, geralmente, tem que ter o... a família é
o pai junto, né? (M1-G).
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
41
Depreende-se, a partir das falas das participantes, que as posições evidenciadas
neste estudo parecem não estar em consonância com as mudanças sociofamiliares que
se vivenciam atualmente. Com efeito, ao mesmo tempo em que a situação concreta de
muitas das famílias de periferia urbana – a falta do pai biológico, o papel da mulher na
manutenção da casa e a desproteção das crianças – as afasta da realização familiar aos
moldes do modelo nuclear burguês, ela também o legitima como sendo o modelo ideal
de família, impedindo-o que desapareça (Amazonas et al., 2003; Peres, 2001).
Interessa observar ainda que, para muitas das mães entrevistadas, a separação se
configurou como sendo um marco, o qual estabeleceu o “fim” da família com a qual
idealizavam.
“Olha... ao meu ver sim, até a separação acredito que sim [se constituiu a família
que gostaria] Pra mim é... acreditava ter uma família” (M6-E)
A família nuclear parece assumir para estas mães a condição de família modelo,
aquela que é buscada e desejada, uma vez que representaria o “sucesso” de uma
configuração familiar. Isto justificaria os posicionamentos assumidos pelas participantes
que parecem estar atravessados por uma certa insatisfação com a família que hoje
constituem. Dados semelhantes foram encontrados no estudo de Peres (2001), o qual,
após ter acompanhado famílias de periferia urbana de Goiânia, identificou que para
diversos pais e mães o sentimento era de não ter conseguido formar a família desejada
ou em conformidade com as suas expectativas.
Nesse ensejo, observa-se “uma espécie de sentimento nostálgico de estabilidade
que acaba conduzindo as pessoas a se apoiarem em modelos de família hoje difíceis de
sustentar” (Reis, 2010, p.106). Desse modo, mesmo com a diversificação cada vez mais
intensa de arranjos familiares, ainda é na configuração familiar nuclear que muitas pessoas,
incluídas aqui as participantes desta pesquisa, parecem se apoiar. Pode-se pensar que isto
se dê em função dos papéis de pai, mãe e filhos estarem, de certa forma, mais claramente
definidos na família nuclear (Pereira, 2011; Reis, 2010), o que acaba por reforçar uma
certa condição de solidez deste modelo frente às demais configurações familiares.
À parte das transformações vividas pela família contemporânea, nas famílias de
periferia urbana, os padrões patriarcais e os valores tradicionais do homem como sendo
o mediador entre a família e o mundo externo ainda persistem, reafirmando a ideia de
autoridade masculina e fragilizando socialmente aquelas famílias em que não há um
homem no ambiente familiar (Sarti, 1994; 2005). As falas a seguir são exemplares nesse
sentido.
“Um pai é um... que que eu vou te dizer, a família, né, os filhos, o pai e a mãe, é
uma estrutura, né, o momento que tu não tiver um pilar, tu já sente o desequilíbrio, né,
tu vai ver que aquilo ali não vai ser fácil” (M10-E).
“Ai, a importância de um pai... ah, eu acho que é a estrutura né, o pai e a mãe junto
é mais fácil de manter a estrutura da vida, da criança, de tudo, entendeu, até mesmo pra
educar, pra tudo, né? (M8-E.)
“Eu acho que é muito importante [a presença do pai no ambiente familiar]. Tinha
que ter... em casa teria que ter a presença do pai” (M9-E).
Nesta perspectiva, observa-se que o papel da mulher na família se dá dentro de
uma estrutura em que o homem é essencial para a própria concepção do que é família
42
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
(Sarti, 2005). Assim, a presença masculina em casa parece se tornar, para estas mães,
fundamental. Nesse ensejo, percebe-se que, ainda que as participantes componham um
arranjo familiar contraditório à lógica patriarcal, é possível perceber resquícios dela em
seus relatos (Perucchi & Beirão, 2007).
Contudo, é interessante pontuar que, embora boa parte das entrevistadas tenha
relatado que não compõem a família tal como gostariam, não resta dúvida de que a
família, embora em configurações diversas, ainda continua sendo reivindicada como o
único valor seguro ao qual ninguém quer renunciar (Roudinesco, 2003), tal como indica
a fala a seguir.
“Pra mim família é um alicerce de tudo, né, é o que tu tem, né? Sem família, o que
que tu é? (...) é o que te estrutura pra ti seguir em frente, né? porque tu sozinho o que
que tu é? Tu não é nada. Eu penso que família é isso, família é tudo, né, se tu analisar
não tem o que...qual é a pessoa que vive sem ninguém? Ninguém vive sem ninguém, né,
é o meu pensamento sobre família...(M10-E).
Entende-se que é na família que irão acontecer as primeiras identificações, as quais
servirão de base para identificações futuras. Ademais, é considerando que a família é a
principal formadora da identidade e responsável pela produção dos comportamentos
de seus membros (Amazonas et al., 2003), que se reforça a importância de que ela seja
vivida em sua plenitude. Isto porque se considera que o mais importante é a qualidade
das relações estabelecidas entre seus membros, independentemente da configuração que
a família possua (Grzybowski, 2002; Wagner, 2002).
“Eu me sinto extremamente carregada”: a mãe na família monoparental de
periferia urbana
Notadamente, no que se refere à estrutura familiar, o número de lares chefiados por
mulheres tem aumentado consideravelmente (Bossardi et al., 2013; Carloto, 2005; Pinto
et al., 2011; Macedo, 2008). Entre os desafios que se apresentam às mulheres chefes de
família de periferia urbana está a importância atribuída ao lugar do homem/pai no contexto
familiar. Mesmo quando ele não é o provedor da casa, como é o caso das participantes
deste estudo, a sua “presença” permanece necessária, uma vez que ele garante o respeito
e representa a autoridade moral familiar (Sarti, 1994; 2005).
“Eu sempre coloquei pros meus filhos assim: respeito, porque ele pode não estar
em casa, mas ele é responsabilidade... é responsável pela casa (...) acho que criei eles
achando que o pai dentro de casa era a responsabilidade e o respeito” (M3-E).
“Eu acho que primeiramente um pai ele põe respeito dentro de casa, né, aquela
coisa... família é o homem da casa, né, é o homem da casa” (M5-E).
É neste contexto que cumprir o papel de provedora da família não se configura como
sendo o maior problema para a mulher de periferia urbana, acostumada a trabalhar (Pinto
et al., 2011; Sarti, 2005). O problema está em sustentar e manter a dimensão do respeito
e da autoridade que é tradicionalmente conferida pela presença masculina (Perucchi &
Beirão, 2007; Sarti, 2005).
No entanto, inegavelmente, tem-se observado que a mulher que assume a
monoparentalidade familiar tende a enfrentar certa dificuldade econômica (Nixon, Greene
& Hogan, 2013; Perucchi & Beirão, 2007; Wallerstein & Kelly, 1998), principalmente
quando passa a ser a única provedora do lar, conforme indica o relato a seguir.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
43
“Eu disse ‘olha gurias, por mais que tu dê o primeiro passo para a separação, é
doído, é bastante complicado porque tu se vê sozinha, tu se vê na parte financeira assim,
mal, tu tem que arcar com tudo, sabe, tu não saber da onde que tu vai conseguir tirar, tu
não tem ninguém que cuide do teu filho pra ficar, pra tu sair pra trabalhar’ (M1-G).
Consoante aos dados trazidos pela literatura (Carloto, 2005; Cúnico & Arpini, 2014),
algumas mães relataram não contar com o apoio do ex-companheiro, o qual também teria
se afastado física e afetivamente dos filhos após o término da relação. Nesse contexto, o
que se percebe, é que o crescimento da participação da mulher no mercado de trabalho,
o que possibilita que elas sustentem economicamente suas famílias, não é proporcional
ao crescimento dos homens na vida doméstica e de cuidado com os filhos, ainda que
existam muitos pais que desempenhem tais funções (Badinter, 1985; Freitas et al., 2009;
Staudt & Wagner, 2008).
“Ele é uma pessoa que não tem compromisso com nada, sabe... isso daí eu sinto
muita falta porque nesse lado me sufoca demais porque é elas, tem o trabalho, tem elas,
tem o... é tudo, sabe, e é eu, se elas tem que comer é eu, sabe, se elas tem que ir pro
médico sou eu, nada é com ele, sabe, ele não se preocupa com nada (M10-E).
Diante desta falta de suporte, a mãe se vê como a única responsável pela família
e pode passar a assumir uma dupla jornada de trabalho para suprir as necessidades da
casa (Nixon, Greene & Hogan, 2013; Perucchi & Beirão, 2007; Rocha-Coutinho, 2013).
Além disso, a necessidade de cuidar dos filhos é, muitas vezes, um empecilho para que
as mulheres obtenham trabalhos mais bem remunerados e com registro em carteira, o
que as leva a optarem por serviços informais ou com horários não tão rígidos (Pinto et
al., 2011).
“Eu não posso largar tudo, vamos supor, eu faço faxina hoje porque eu não posso
ter um emprego fixo assim né, por causa delas, porque eu tenho que tá sempre correndo
com elas assim, entende? (...) também não posso largar o meu serviço, se eu não trabalhar
eu não como, entende?” (M2-E).
Nesta perspectiva, tornou-se visível o interesse das mães em contar com a
participação do ex-companheiro, principalmente para compartilhar responsabilidades
e problemas (Carloto, 2005; Nixon, Greene & Hogan, 2013). Questões relacionadas à
tomadas de decisões e à sexualidade dos filhos foram alguns pontos explicitados pelas
entrevistadas, tal como ilustra a fala desta mãe.
“Assim... quando as filhas arrumam um namorado, né... aí quer ir pra casa do
namorado, quer sair, né? Aí tu fica em dúvida... “Será que eu deixo ir? Será que não?”,
né? Aí eu fico pensando, se o pai dela tivesse aqui, né... talvez a gente podia conversar e
discutir, né? Daí tu tem que resolver tudo sozinha, né. Eu acho falta, né, de uma opinião,
né”?(M7-E).
Nesse âmbito, as mães se reconheceram desempenhando concomitantemente as
funções de pai e mãe no que tange ao cuidado com os filhos. Tal situação aumentava
a sensação de estarem sobrecarregadas, uma vez que também eram responsáveis pela
manutenção da casa (Grzybowski & Wagner, 2010; Hernández & Pérez, 2009; Pinto et
al., 2011; Rocha-Coutinho, 2013).
“E... faz falta o pai, porque a gente tem que fazer dois papel ao mesmo tempo, né,
tanto fora de casa quanto dentro de casa, então é difícil, é bem difícil (...) se eu tivesse
44
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
um marido, né, eu poderia ter um esteio dentro de casa, né? Eu poderia ter mais uma
segurança a mais, né, dentro de casa...”(M2-E).
“Eu que tenho que repreender, eu tenho que bater, eu tenho que por ele de castigo,
eu tenho que ser boa, tenho que ser má, tenho que ser pai, tenho que ser mãe, sabe?
(M4-E).
“Eu me sinto extremamente carregada, eu tenho que alimentar, eu tenho que educar,
eu tenho que fazer tudo sozinha, sabe, o meu papel e o papel deles, né? (...) Se o pai
tivesse ali presente, a gente ia dividir as... né, eu não digo presente comigo, entendeu,
eu digo presente com os filhos, né? A gente ia poder dividir um pouco dessa... que é uma
carga, uma carga que a gente carrega bem pesada, né?” (M8-E).
Os aspectos acima referidos remetem ao excesso de funções que a mulher chefe
de família agrega quando não conta com o suporte do homem/pai dentro do ambiente
familiar. Nesse contexto, chama-se a atenção para a fala da participante M8, quando esta
diz “eu não digo presente comigo, entendeu, eu digo presente com os filhos, né?”, o que
parece deixar claro que a demanda por este suporte está relacionada ao envolvimento do
pai com seus filhos e não necessariamente a um anseio por restabelecer o relacionamento
desfeito.
De forma geral, a ausência do pai pode colaborar para uma mudança na relação
entre a mãe e seus filhos, levando a mãe a ser mais rigorosa na intenção de preencher
o vazio deixado pelo pai (Perucchi & Beirão, 2007). Da mesma forma, em função da
sobrecarga de funções, algumas mães podem acabar por descarregar esta tensão nos filhos
(Wallerstein & Kelly, 1998). A fala a seguir é elucidativa nesse sentido.
“Às vezes eu to muito cansada, eu to muito... to muito solitária de vez em quando,
to muito entediada, to muito... to muito irritada de vez em quando (...) me da vontade de
bater nele assim por pouca coisa que ele faça, pra mim descarregar. Eu sei que isso não
é certo, isso é errado, isso é horrível, mas eu acho que eu aproveito a hora que ele faz
alguma coisa e que eu vou bater nele, eu acho que eu descarrego muito nele” (M4-E).
Tradicionalmente, o trabalho feminino foi, e por vezes ainda o é, considerado como
complementar ao salário do marido no orçamento familiar. Além disso, as mulheres ainda
são vistas como as responsáveis pelos trabalhos domésticos e, em especial, pelo cuidado
com os filhos. Assim, ao tomarem para si a chefia de suas famílias, as mães parecem ter
que dar conta destes dois mundos – a flexibilidade em relação ao emprego e o cuidado e
o gerenciamento da casa –, o que as coloca, frequentemente, no limite de um esgotamento
nervoso (Castells, 1999), tal como a fala anterior ilustrou.
Nesta perspectiva, compreende-se a razão pela qual as mães que integraram este
estudo tenham afirmado com tanta clareza qual é a importância da presença do pai, no que
para elas constituiria um modelo familiar exemplar. Assim, quando esta figura importante
falta, os desdobramentos dessa ausência se fazem sentir também no estado psicológico da
mãe e consequentemente na sua relação com seus filhos, o que talvez explique a utilização
frequente da palavra sobrecarga – remetendo-se a um acúmulo de funções.
Por outro lado, ainda que a demanda pelo compartilhamento de tarefas tenha
sido amplamente mencionada pelas entrevistadas, é importante refletir até que ponto as
mães realmente tornam possível este compartilhamento. Não se pode negar que muitas
mulheres não conseguem se desvencilhar do modelo que lhes aprisiona, de mãe dedicada
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
45
e principal responsável pelos filhos, ainda que se descubram sobrecarregas com o cuidado
das crianças e seu exercício profissional. Para muitas delas, “dividir essa função com o
pai seria vivenciado como um poderoso abalo em sua identidade, algo que temem não
suportar” (Reis, 2010, p.118).
Neste cenário de mudanças significativas no cenário familiar, duas transformações
se impõem. Uma delas envolve as mães e a necessidade de que elas abram espaço para
que os pais ocupem um lugar importante dentro da família e possam desenvolver o seu
papel, compartilhando de forma mais igualitária as funções da parentalidade. A outra,
diz respeito aos homens/pais, no sentido de reescreverem seu lugar na relação com os
filhos. Nesse sentido, pode-se apontar a guarda compartilhada como uma estratégia para
conduzir a responsabilização parental, evitando que o pai “naturalmente” se ausente do
exercício da parentalidade e, assim, possa atender ao desejo manifestadas pelas mães de
poderem compartilhar as decisões e atribuições que dizem respeito aos seus filhos, o que
lhes deixaria, sem dúvida, menos sobrecarregadas.
Considerações finais
O contexto atual é caracterizado pelas inúmeras transformações pelas quais a
família tem passado, sendo as famílias monoparentais femininas uma realidade cada vez
mais frequente. Como em qualquer configuração familiar, há inúmeros desafios que se
apresentam a essas mulheres que são chefes de suas famílias. A dupla jornada de trabalho,
a dificuldade em conseguirem empregos melhor remunerados e a falta de apoio do excompanheiro para partilhar responsabilidades, pode fazer com que as mães sintam-se
sobrecarregadas devido ao acúmulo de funções.
Além destas questões, muitas participantes relataram com certa nostalgia que
não constituíram a família tal como gostariam em função de hoje não comporem uma
família na qual o pai se encontra presente. Nesse sentido, pode-se pensar que o apego
ao modelo nuclear, muitas vezes legitimado pelos próprios meios de comunicação,
poderia estar impedindo uma vivência mais plena da família, gerando sentimentos de
fragilidade e insatisfação entre seus membros, como os que foram relatados pelas mães
entrevistadas.
Nesse sentido, urge a realização de intervenções que deem conta das questões que
se apresentam após o fim do relacionamento amoroso, em especial quando se trata de
famílias de periferia urbana, as quais representam um número expressivo da realidade
brasileira e são, muitas vezes, caracterizadas pela vulnerabilidade social que estão
expostas. Entre as intervenções possíveis, pode-se referir o trabalho desenvolvido pelo
Núcleo de Práticas Judiciárias da instituição na qual as pesquisadoras estão vinculadas,
que oferece um serviço de acompanhamento aos pais que vivenciaram uma separação
conjugal, com foco na parentalidade. Pode-se pensar ainda em serviços como os
desenvolvidos pelos Centros de Referência e Assistência Social (CRAS), que oferecem
grupos com mulheres e que podem abordar as questões que envolvem o final da relação
conjugal e o exercício da parentalidade. Iniciativas como as oficinas de parentalidade
destinadas aos pais em processo de separação e que auxiliam no entendimento dos papéis
46
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
e no exercício destes após a separação, também são bons exemplos de intervenções que
podem ser multiplicadas, no sentido de atender as demandas dos pais no contexto da
família pós-separação.
Considerando as limitações do estudo, que teve como foco somente a participação
de mães, sugere-se a realização de pesquisas que abarquem a realidade das famílias
monoparentais incluindo a participação de outros membros. Sugere-se ainda a realização
de estudos com foco nas políticas públicas direcionadas as famílias brasileiras, sobretudo
aquelas que compõem o contexto socioeconômico e cultural aqui apresentado, de forma
a avaliar o alcance e a adequação de tais políticas.
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__________________________
Recebido em junho de 2014
Aceito em fevereiro de 2015
__________________________
Sabrina Daiana Cúnico: Doutoranda em Psicologia pela PUCRS, Mestre em Psicologia pela Universidade
Federal de Santa Maria.
Dorian Mônica Arpini: Professora Dra. Associada do Departamento de Psicologia e Professora do Programa
de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Maria.
Endereço para contato: [email protected]
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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Aletheia 43-44, p.50-65, jan./ago. 2014
A percepção de psicodramatistas e gestalt-terapeutas sobre os
fatores facilitadores de integração entre as suas abordagens
Érico Douglas Vieira
Luc Vandenberghe
Resumo: O objetivo deste artigo é descrever condições sugestivas de integração entre o Psicodrama
e a Gestalt-terapia, tema que emergiu de uma sequência de conversações com profissionais
destas abordagens. Foram entrevistados 22 profissionais que possuem um percurso significativo
nas abordagens, 11 de cada escola. A teoria fundamentada nos dados foi o método utilizado,
buscando-se a teorização emergente a partir dos depoimentos obtidos. Como condições que
sugerem a integração foram identificadas: a abertura integrativa existente na própria abordagem; a
afinidade epistemológica entre a Gestalt-terapia e o Psicodrama; a percepção dos déficits na própria
abordagem; a percepção que a integração pode ampliar a prática clínica. Esses resultados apontam
a existência de elementos que podem viabilizar a integração entre as psicoterapias.
Palavras-chave: gestalt-terapia; psicodrama; integração em psicoterapia.
The perception of psychodramatists and gestalt therapists about
the factors that facilitates integration between their approaches
Abstract: This article describes conditions that favor integration of Psychodrama and Gestalttherapy that emerged in conversations with professionals of these approaches. 22 professionals
with substantial involvement in either of these two movements were interviewed, 11 belonging
to each approach. A grounded theory analysis was used to allow theory to emerge from the
contents. Conditions that favor integration are the openness that exists in the therapist’s approach;
epistemological similarities with the other approach; the perception of deficits in the therapist’s
approach; the appreciation of integration as a way to broaden the scope of one’s clinical practice.
These results suggest that elements exist that can make psychotherapy integration viable.
Keywords: gestalt-therapy; psychodrama; psychotherapy integration.
Introdução
As possibilidades de diálogos e trocas entre abordagens psicológicas vem
despertando um crescente interesse dos pesquisadores e psicoterapeutas. Coexistem de
um lado promessas de expansão da prática profissional e da compreensão dos processos
clínicos através das aproximações entre saberes e, de outro, um receio de que uma
“mistura” teórica resulte em combinações desordenas e produtos incoerentes (Figueiredo,
2009; Norcross, 2005). Por exemplo, o termo eclético possui uma conotação negativa no
campo, revelando a ameaça que o tema da integração encerra (Gold & Stricker, 2006).
Além disso, a rivalidade entre sistemas presente na história das psicoterapias persiste
atualmente (Paris, 2013).
No entanto, ao lado da luta ideológica, há outro impulso em direção ao
estabelecimento de aproximações entre sistemas (Norcross, 2005). Watchel (2010)
argumenta que os obstáculos para o vislumbre de outras formas de ver e pensar estão
sendo cada vez mais removidos. Os pesquisadores e psicoterapeutas passam a olhar para
as outras abordagens com algum interesse e seriedade, ficando expostos a mais de uma
maneira de pensar e praticar a psicoterapia.
Surge na década de 1990 o chamado Movimento de Integração em Psicoterapia,
caracterizado pela congregação de profissionais que buscam ultrapassar as próprias
fronteiras para ver o que pode ser aprendido a partir de outras formas de fazer psicoterapia
(Hawkins & Nestoros, 1997; Norcross, 2005). Este movimento possui associações e
revistas científicas nos Estados Unidos e na Europa. No cenário brasileiro detectam-se
produções esparsas sobre aproximações entre abordagens. Parece predominar o receio
descrito acima quanto à perda da coerência decorrente da integração.
A partir das tensões descritas entre impulsos para a integração e o receio presente
no campo, surgiu a ideia de investigar, através de uma pesquisa qualitativa, como eram
as condições que estimulam aproximações entre a Gestalt-terapia e o Psicodrama.
Objetivou-se estudar as perspectivas de psicodramatistas e gestalt-terapeutas a partir
das suas narrativas quando instados a refletirem sobre as possibilidades de pontes entre
a abordagem de cada um e a outra. Na prática clínica e docente dos autores deste artigo
houve a percepção de semelhanças e afinidades entre as duas abordagens e a constatação
da escassez de estudos sobre esta aparente unidade. A partir disso, cresceu a motivação
para investigar mais profundamente este possível espaço de interseção. A expectativa
era encontrar nas ponderações dos entrevistados os fatores em comum entre as duas
escolas tais como as bases filosóficas existenciais, humanistas e fenomenológicas como
a condição principal promotora de aproximações. Apesar de este aspecto ter surgido,
outros pontos inesperados emergiram das narrativas e averiguaram-se mais importantes
como a constatação de que as abordagens foram construídas graças a intercâmbios com
diversos saberes, a consciência de falhas da abordagem de filiação que estimulam buscas
externas, a percepção de que a complexidade da prática clínica demanda estudar outros
conceitos, dentre outros aspectos que serão descritos.
Pretende-se que a análise das experiências dos psicodramatistas e gestalt-terapeutas
entrevistados possa fomentar outros estudos sobre integração entre estas duas escolas e
auxiliar o campo das psicoterapias nas reflexões sobre as condições de abertura para a
aproximação entre outras abordagens.
Método
A Teoria Fundamentada nos dados, metodologia de natureza qualitativa, foi adotada
neste estudo. Consiste numa forma de coletar e analisar material através de diretrizes
sistemáticas e flexíveis com o objetivo de construir uma teoria fundamentada nos próprios
dados (Charmaz, 2009). O agnosticismo teórico consiste na recusa do pesquisador em
alinhar sua interpretação precocemente com uma posição teórica já articulada e com
estudos existentes na área. O pesquisador deve se aproximar da realidade empírica sem
hipóteses preconcebidas objetivando a construção de códigos e categorias a partir dos
dados. Através de um ajuste adequado aos dados, procura-se uma compreensão conceitual
e abstrata da realidade estudada (Pidgeon & Henwood, 2009). Apesar de prescindir de
hipóteses para a construção do estudo, os pesquisadores possuem interesses iniciais de
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
51
pesquisa. No entanto, são necessárias comparações constantes destes interesses com os
dados emergentes (Lyn & Morse, 2013).
Para a coleta de dados a entrevista intensiva foi utilizada. Esta ferramenta permite
reflexões minuciosas e a possibilidade de exploração detalhada sobre um tema do qual os
entrevistados tenham experiências consideráveis. Permite, ainda, insights consideráveis
dos participantes e a oportunidade de abordar aspectos emergentes durante a conversa
(Charmaz, 2009).
Como participantes da pesquisa, buscamos entrevistados com base em dois
critérios: a disponibilidade em fornecer a entrevista e a capacidade de dar informações.
Os primeiros participantes foram buscados através da rede de relacionamentos do
pesquisador. Iniciado o processo das entrevistas, outros informantes foram indicados
pelo próprio entrevistado. Tal procedimento de constituição de amostra denomina-se
snowballing. A partir da disponibilidade em dar informações, o participante assinava
um termo de consentimento e autorizava a gravação em áudio da entrevista. Onze
entrevistas aconteceram nos consultórios dos profissionais, a partir de agendamento
prévio. Duas entrevistas aconteceram via Skype. Em algumas situações, o pesquisador
precisou se adequar às particularidades do momento em que o participante tinha
a disponibilidade em fornecer a entrevista. Neste sentido, nove entrevistas foram
realizadas durante congressos de Psicodrama e de Gestalt-terapia. Neste caso, o
entrevistador procurava uma sala adequada no local do evento para a realização da
entrevista. A inserção do entrevistador e entrevistados neste ambiente de congresso
pode ter funcionado como um efeito de imersão, estimulando as reflexões durante as
conversações. As vinte e duas entrevistas foram realizadas entre fevereiro de 2012
e outubro de 2013.
As entrevistas foram baseadas nos seguintes eixos norteadores: trajetória na própria
abordagem; grau de conhecimento da outra abordagem; pontos em comum entre a Gestaltterapia e o Psicodrama; reflexões sobre características das duas abordagens; possibilidades
de integrações entre as abordagens.
Os participantes foram 22 profissionais, onze psicodramatistas e onze gestaltterapeutas. Foram entrevistados 14 mulheres (06 psicodramatistas e 08 gestalt-terapeutas)
e 08 homens (05 psicodramatistas e 03 gestalt-terapeutas). Dezessete são professores de
formação na abordagem (07 de Psicodrama e 10 de Gestalt-terapia) e seis são professores
universitários (05 de Gestalt-terapia e 01 de Psicodrama). O papel de pioneirismo em
âmbito regional e nacional foi exercido por 10 informantes (06 gestalt-terapeutas e 04
psicodramatistas). Temos 10 donos de institutos de formação (06 gestalt-terapeutas e 04
psicodramatistas). Por fim, oito são autores de livros na abordagem (06 gestalt-terapeutas
e 05 psicodramatistas). A amostra é constituída por informantes que possuem percurso
respeitado em suas comunidades. Além disso, o número considerável de pioneiros e donos
de institutos sinaliza a possibilidade de serem profissionais profundamente comprometidos
com os interesses de suas comunidades. Possuem uma sólida trajetória na abordagem,
pois todos possuem experiência prática relevante, além de terem contato constante com
conceitos através de atividade docente e de produção intelectual. O encerramento da
busca de novos participantes se deu pela análise de que as perguntas de pesquisa foram
respondidas.
52
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
As entrevistas foram gravadas, transcritas textualmente e geraram o material
a ser analisado. A análise foi feita pelos dois autores que constituiam o painel de
pesquisa, ambos psicólogos clínicos. As categorias construídas foram resultado
da investigação das entrevistadas sem nenhuma adoção de hipótese ou a priori. A
intenção era conhecer algo novo que pudesse emergir das narrativas. A análise dos
dados se inicia com a codificação aberta da Teoria Fundamentada que representa uma
primeira tentativa para nomear os segmentos de dados para a compreensão do assunto
em pesquisa. A codificação pretende promover um salto dos eventos concretos para
os insights teóricos (Charmaz, 2009). Os segmentos de dados, que são os trechos
das entrevistas, foram nomeados na margem. Foram realizadas sucessivas discussões
a respeito da codificação entre a equipe de pesquisa para a ampliação da análise.
Cada entrevista foi estudada minuciosamente. As transcrições das entrevistas foram
comparadas com a finalidade de identificar padrões em comum. Várias revisões
dos códigos iniciais geraram códigos focados, que eram mais refinados. Estes
foram organizados em famílias a partir de suas semelhanças formando categorias
e subcategorias. Esta organização gerou uma tabela com os conjuntos de códigos
agrupados em categorias. A cada nova entrevista, novos códigos emergiam e eram
inseridos na tabela. Várias reconfigurações dos dados foram realizadas através da
comparação e análises repetitivas, experimentando várias maneiras de organizar os
códigos. Comparações constantes dos dados brutos e dos códigos com as categorias
emergentes levaram a uma sequência de revisões em busca dos conceitos que melhor
captassem os significados negociados nas entrevistas. Os temas que não estavam
explícitos nos conteúdos das entrevistas, mas que estavam subjacentes às falas dos
entrevistados foram escritos em memorandos. Estes textos deram suporte analítico
ao desenvolvimento das categorias e dos códigos.
Em suas narrativas, os participantes relataram perspectivas e experiências que
identificam elementos que favorecem os diálogos integrativos e as condições que
potencializam a abertura para trocas entre e o Psicodrama e a Gestalt-terapia. As
categorias construídas a partir da análise dos dados foram: (01) A própria abordagem
possui uma abertura integrativa; (02) As duas abordagens possuem pontos em comum;
(03) Percepção de falhas da própria abordagem e (04) Ampliação da prática clínica
através da integração. Os achados desta pesquisa são específicos às características desta
amostra de profissionais engajados com a abordagem de filiação nos âmbitos prático,
teórico e institucional.
Por fim, é importante informar que este trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética
em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de Goiás sob o protocolo de número
CAAE 003.0.168.000-11.
Resultados
A tabela 1 demonstra quais participantes contribuíram para a construção de cada
código, como também o agrupamento dos códigos nas categorias que compõem o eixo
das condições facilitadoras de integração. Os participantes são designados pelas letras
G para gestalt-terapeutas e P para psicodramatistas.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
53
Tabela 1 – Condições facilitadoras de integração.
Categorias
A própria abordagem
possui uma abertura
integrativa
As duas abordagens
possuem pontos em
comum
Percepção de falhas da
própria abordagem
Ampliação da prática
clínica através da
integração
54
Códigos
Participantes
A própria abordagem é construída pela integração de conceitos e realizou integrações
desde então
G5, G7, G8, P10, P11, G19
Já existem integrações entre Psicodrama e
Gestalt-terapia
G2, G3, G4, G5, G7, G8, P12,
P14, P15, P16, G18, G19, P21
O Psicodrama e a Gestalt-terapia se encontram nas suas bases filosóficas
P1, G2, G3 e G7 P10, P13, P14,
P15 e P17
O Psicodrama e a Gestalt-terapia se encontram ao valorizar a vivência e a experiência
presente
G2, G3, G4, G5, G6, G9, P13,
P14, P15 e P21
O trabalho de grupos como fator em comum
G2, G3, G7 e P15
O Psicodrama e a Gestalt-terapia se encontram ao valorizar a intersubjetividade
G3, P11, P13 e P21
O Psicodrama e a Gestalt-terapia se encontram nos aspectos pragmáticos
G5, G6, P15 e P21
Paralelos entre conceitos das duas abordagens
G5, P10, P14 e P21
A outra abordagem realiza aspecto essencial
da própria
G2, G3, G5 e G19
Critica vertente determinista da própria
abordagem
P12 e P17
Deficiências da própria abordagem estimulam buscas pessoais de integração
P9, P11, P14, P15, P17 e G20
Própria abordagem tem limitações nos trabalhos com grupos
G3 e G7
Própria abordagem hermética teoricamente
P14 e P17
Própria abordagem frágil teoricamente
P16 e P17
Outra vertente da própria abordagem é
traumática e invasiva
G18, G19 e G20
Própria abordagem pode ser traumática e
invasiva
P12 e P15
Os profissionais da própria abordagem deveriam se aprimorar mais
P1, P10, P12, P17, G8, G18,
G19 e G20
Todos os sistemas têm contribuições importantes para o entendimento da complexidade
humana
P11, P13, P15, P17 e G20
Complexidade da realidade clínica demanda
ampliação da atuação
G2, G8, P10, P13, G18 e G20
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
A própria abordagem possui uma abertura integrativa
No exercício de reflexão sobre as características da abordagem de filiação e da
outra abordagem analisada, os participantes concluem que não existe uma pureza no
percurso de uma abordagem, há uma recorrente assimilação de conceitos e práticas de
outros sistemas. Mesmo após o processo de criação e consolidação, a incorporação de
conceitos, ideias e atitudes clínicas de outras abordagens permanece.
Os participantes trazem exemplos concretos dessa observação: o Psicodrama
absorveu influências do Hassidismo que é uma corrente filosófica do Judaísmo, além de
ter tido uma grande influência do Existencialismo (P11). A metodologia psicodramática foi
construída a partir de influências do teatro (P10, P11, P14). De acordo com muitos gestaltterapeutas, sua abordagem absorveu influências do Psicodrama principalmente no trabalho
com grupos e na utilização de recursos de ação (G2, G3, G4, G5, G6, G7, G8, G18, G19
e G22). Alguns psicodramatistas também constatam esta influência do Psicodrama sobre
a visão clínica de Perls (P12, P14, P15 e P21). O florescimento do Psicodrama no Brasil
na década de 1970, que rompeu com a hegemonia da Psicanálise, abriu caminho para o
surgimento da Gestalt-terapia (P16). Muitos aspectos do Psicodrama são amplamente
utilizados pela entrevistada G5, incluindo o manejo de cenas e dramatizações. Ela usa
estas técnicas para ajudá-la a realizar os objetivos da sua própria abordagem, como a
presentificação da experiência, por exemplo.
Para alguns gestalt-terapeutas, no entanto, a influência do Psicodrama na Gestaltterapia é prejudicial. Os workshops de demonstração de Perls eram vivenciais e catárticos,
com a utilização de técnicas de dramatização. Essa forma de praticar a Gestalt-terapia
deu origem a uma vertente que é rejeitada como invasiva e traumática por certos gestaltterapeutas (G18, G19 e G20). Diferente da vertente vivencial, a vertente relacional e
dialógica veicula um discurso mais orientado pelas ideias de Martin Buber. Os gestaltterapeutas dialógicos formam um forte grupo dentro da comunidade gestáltica brasileira.
Percebe-se no grupo dialógico uma crítica às dramatizações nos workshops feitos pelo
Perls (G2, G7, G8, G18, G19, G20 e G22). As técnicas de ação são vistas como imposição
da autoridade do terapeuta. Com isso, a neurose do cliente em querer se ajustar à sociedade
é intensificada quando o cliente atende as expectativas do terapeuta.
De acordo com certos participantes, a Gestalt-terapia influencia e é influenciada
por outras abordagens, e isto é desejável (G5 e G7). A absorção das ideias de Martin
Buber tornou a Gestalt-terapia mais relacional, assim como as influências de Sartre
contribuíram para a valorização da ação. A influência que Perls recebeu das ideias de
Bergson e Nietzche é notada (G8). O trabalho com o conceito de aqui e agora é, de acordo
com o entrevistado G8, uma influência nietzschiana. Os gestalt-terapeutas atuais devem
continuar explorando e cultivando estes diálogos filosóficos para que não caiam em um
pragmatismo reducionista (G8).
Na outra via, a Gestalt-terapia inspira alguns psicodramatistas no trabalho com
atendimentos individuais (P13 e P14). O Psicodrama é uma abordagem originalmente
grupal. No entanto, os psicodramatistas contemporâneos estão interessados em
desenvolver a psicoterapia individual psicodramática e a Gestalt-terapia tem formulações
ricas para esta modalidade. Os psicodramatistas absorvem da Gestalt-terapia a forte
ênfase na construção de uma aliança terapêutica, além das técnicas adaptadas para a
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
55
situação bipessoal. Algumas técnicas de ação do Psicodrama, que foram adaptadas para
o contexto gestáltico de terapia individual, agora são assimiladas da Gestalt-terapia em
novos formatos pelos psicodramatistas.
O livre fluxo de ideias, conceitos e atitudes clínicas entre abordagens demonstrado
pelos participantes sinaliza que esta abertura integrativa perene pode abrir caminho para
novas trocas.
As duas abordagens possuem pontos em comum
A abordagem de filiação e a outra são percebidas dentro de uma visão contextual
que contém todas as outras escolas. Nesta visão, uma unidade entre o Psicodrama e
a Gestalt-terapia se insinua para os participantes. Na reflexão sobre a geografia das
abordagens, os pontos em comum se evidenciam dentro de um contexto com outras
abordagens mais divergentes epistemologicamente.
As similaridades entre as duas abordagens podem ser em parte explicadas pela
influência do teatro. O teatro como veículo de expressão humana serviu de inspiração
para a criação das duas abordagens, aspecto epistemológico que pode aproximá-las.
Perls teve uma significativa aproximação do teatro antes de conhecer o Psicodrama.
Perls foi ator de teatro e sempre teve interesse em estudar o tema (G8, G19). A
expressão “medo de palco” utilizada por ele – que representa o medo do julgamento
dos outros – pode ser fruto dessa influência (G19). Moreno toma posse de alguns
conceitos oriundos do teatro como a ideia de catarse, da tragédia grega e o conceito
de papel e, no plano metodológico, de instrumentos como protagonista, palco, plateia
e diretor (P10, P11, P14).
Alguns participantes também têm consciência de que as duas abordagens se
unem nas críticas à Psicanálise. A Gestalt-terapia veio diretamente de uma dissidência
da Psicanálise. O livro “Ego, Fome e Agressão”, de Perls, foi escrito por ele quando
ainda estava no meio psicanalítico. O autor rompeu com muitos conceitos freudianos,
pois sentiu que a Psicanálise valorizava demais o intelecto (G8). Perls “bebeu de várias
fontes”, como a Psicologia da Gestalt e a Teoria Organísmica, conseguindo formar
uma síntese nova. Ao incorporar aspectos de outras abordagens criou a Gestalt-terapia
(G19, G22).
Alguns psicodramatistas enfatizam a importância de contribuições psicanalíticas
como o inconsciente e os mecanismos de defesas (P10, P13, P14 e P16). No entanto,
sua utilização rígida pode ser um obstáculo para o entendimento do contexto do cliente.
Para alguns particpantes, a Psicanálise é vista como tendo o foco no indivíduo isolado,
imerso nele mesmo, como se seus sintomas surgissem “dentro” dele. O Psicodrama
oferece uma visão do ser humano em relação. Os conceitos como papel e contrapapel,
matriz de identidade, átomo social, sugerem que até mesmo as psicopatologias são
produzidas no ambiente social (P10 e P16).
Os participantes percebem que tanto o Psicodrama como a Gestalt-terapia
valorizam a vivência e a experiência para além de análises verbais, pois estes podem
bloquear o contato do cliente com seus sentimentos (G2, G4, G5, G6, P13, P15 e P21).
As duas abordagens desenvolveram-se em oposição a uma tendência intelectualista, pois
as psicoterapias que buscavam somente o insight intelectual reduziam o potencial de
56
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
expressão dos indivíduos (G2). O Psicodrama e a Gestalt-terapia possuem em comum
uma visão de homem calcada nos pressupostos da Fenomenologia e do Existencialismo
(P1, G2, G3, G7, P10, P14 e P17). Outro ponto de convergência é a perspectiva de uma
relação horizontal entre terapeuta e cliente para romper com o poder hierarquizado
do terapeuta (G3 e P13). A distância entre terapeuta e cliente dificulta a conexão e as
possibilidades de mudança do cliente. É desejável que o terapeuta se apresente menos
como técnico e mais como pessoa – claro que como uma pessoa qualificada – e as duas
abordagens buscam isso (G2 e G3).
As duas abordagens se encontram também ao valorizarem a intersubjetividade
porque percebem o ser humano em função do contexto de suas relações, além de
utilizarem-se da relação terapêutica como motor para as transformações dos indivíduos
(G2, G3, P11, P13 e P21). A valorização do trabalho com grupos também é uma
importante similaridade (G2, G3, G7 e P15). Ambas enfatizam a experiência presente,
procurando trabalhar com a presentificação, com o foco no como o cliente vivencia
no aqui e agora aspectos do passado e projeções futuras (G5, G6 e P9). Porém,
as semelhanças filosóficas se expressam em formulações teóricas muito diversas
(G6). Deve se ter o cuidado em comparar conceitos que podem parecer similares na
superfície, mas que se mostram teoricamente diferentes quando examinados mais
detidamente (P17).
Às vezes, as similaridades mais importantes não são aquelas que aparentam
serem as mais óbvias. A distinção entre figura e fundo da Gestalt-terapia se assemelha à
distinção entre temas protagônicos e temas correlatos do Psicodrama (P10). O conceito
de awareness da Gestalt-terapia tem ligação com o conceito de espontaneidade do
Psicodrama (P21).
Vários gestalt-terapeutas consideram que os psicodramatistas realizam aspectos
que são centrais na Gestalt-terapia, como o contato com os sentimentos (G2), a
concretização e a ação (G3 e G5) e a presentificação da experiência (G5 e G19). O
Psicodrama trabalha com um enfoque sistêmico e contextual que é similar ao que
a Gestalt-terapia chama de teoria de campo (G3). Assim, se torna compreensível a
observação que o aprimoramento da própria abordagem conduz à semelhança com a
outra abordagem (P14).
Portanto, os participantes percebem aproximações entre o Psicodrama e a Gestaltterapia através dos seus pressupostos filosóficos e visão de homem que podem inseri-las
no grupo das abordagens que valorizam a experiência presente, a vivência através da
ação, a intersubjetividade e a horizontalidade na relação terapêutica.
Percepção de falhas da própria abordagem
No processo de reflexão estimulado pelas entrevistas, a visão crítica e a humildade
dos participantes em reconhecer as lacunas da abordagem de filiação podem quebrar a
autossuficiência e permitir a possibilidade de fertilização por influências externas.
Alguns entrevistados consideram que a própria abordagem carece de fundamentos
teóricos, além de não fornecerem todos os aportes metodológicos necessários para a
prática (P11, P14, P15, P17 e G20). O distanciamento das tradições originais, pela
desvalorização do trabalho com grupos (G5) e o engano em acreditar que somente no
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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atendimento individual é possível um enfoque fenomenológico (G3), prejudicaram
a Gestalt-terapia. O Psicodrama também se distanciou da tradição original por
desconsiderar o trabalho com as questões sociais e com o desejo de transformação
social (P16). O Psicodrama inclui vertentes deterministas que vão contra a essência
aberta da abordagem. As teorias da Matriz de Identidade e do Núcleo do Eu não devem
ser seguidas à risca, sob pena de encaixar os sujeitos em fases do desenvolvimento
(P12 e P17). Alguns psicodramatistas criticam o hermetismo teórico nos escritos de
Moreno que são considerados de difícil entendimento (P14 e P17). Insistir muito nas
dramatizações, impondo ao cliente a realização da técnica, pode ser contraterapêutico
(P15). Falta uma teoria de desenvolvimento mais consistente (P16 e P17) e essa
carência do cultivo de fundamentos teóricos, faz com que alguns psicodramatistas
trabalhem de forma excessivamente pragmática. Com isso, a abordagem perde espaço
na atualidade (P17).
Críticas são tecidas visando os profissionais da própria abordagem que deturpam
sua essência quando deixam de aprofundar e buscar o aperfeiçoamento. Isto pode,
por exemplo, resultar em práticas diretivas na Gestalt-terapia que é uma abordagem
essencialmente não diretiva. Há uma contradição entre uma filosofia libertária retratada
nos conceitos e as práticas autoritárias de alguns profissionais na Gestalt-terapia
(G8). Alguns “defeitos” humanos, como o narcisismo e a competividade, são grandes
obstáculos para a prática da Gestalt-terapia (G18 e G20). Os psicodramatistas podem
ficar detidos na execução das técnicas, que são eficazes, sem tentar entender as matrizes
teóricas de onde surgiram. Dessa forma, prestam um desserviço à abordagem que luta
para romper um preconceito de que o Psicodrama seria somente um conjunto de técnicas
(P10, P12 e P17). Com a ênfase no “fazeísmo”, termo utilizado por um entrevistado
(G8), os profissionais querem somente aplicar técnicas, sem uma reflexão sobre os
fundamentos filosóficos (G8 e P17).
Os participantes gostariam que as suas abordagens desenvolvessem um corpo
teórico mais robusto e que os profissionais as representassem de forma mais adequada.
Há uma insatisfação com profissionais que se prendem na execução de técnicas sem o
esforço em aprofundar nos fundamentos teóricos. Estas lacunas podem abrir caminho
para aprender como o outro lida com estas questões.
Ampliação da prática clínica através da integração
A percepção das potencialidades de outras abordagens, a complexidade da
realidade que se apresenta ao profissional e a constatação da insuficiência da própria
abordagem em responder a esta complexidade podem, conjuntamente, facilitar a busca
por outros recursos. Há o vislumbre de que seria benéfico o estabelecimento de pontes
entre abordagens e de que a prática profissional pode ser ampliada.
Muitos profissionais acham enriquecedor o estudo de diversas abordagens, e para
alguns isso é realmente indispensável: “A minha maior diferença é que me recuso a
ficar restrita por qualquer sistema teórico, o ser humano é tão complexo que acho
que precisamos de todos para ajudá-lo” (P13). A complexidade da prática clínica traz
questões que uma abordagem sozinha não pode responder, estimulando o profissional
para uma abertura para conhecer outros sistemas (P10 e G20). Ao dialogar com
58
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
outros sistemas, os profissionais podem se beneficiar com a riqueza que as diferentes
perspectivas trazem para a compreensão do ser humano (P11, P13, P15, P17 e G20).
A conexão com o cliente exige a transcendência dos modelos teóricos, o profissional
não deve se prender às teorias para não ofuscar a percepção do cliente (G2, G8, P13,
G18 e G20). Por exemplo, para P13 a relação terapêutica é mais importante para o
sucesso do trabalho do que a teoria.
Muitos profissionais entrevistados estudam diversas abordagens para contemplar a
diversidade da experiência pessoal, e um dos entrevistados chega a sentir a necessidade
deste estudo. A partir da fala de P9, para que a prática aconteça em sintonia com
a identidade do profissional é necessário o estabelecimento de pontes com outras
abordagens. As características pessoais do profissional podem facilitar a integração
especialmente, a humildade intelectual que promove o cultivo de uma atitude de
constante busca de estudos e melhorias (G20).
A admiração pela outra abordagem pode ser um fator importante para a construção
de pontes epistemológicas bem como a percepção dos aspectos em comum com a
própria abordagem (P1, G5 e P13). Perceber a forma distinta como a outra abordagem
trabalha algum fator que é importante na própria abordagem, fomenta uma relação
de proximidade e uma vontade em aprofundar os conhecimentos na outra abordagem
(P1, G5 e P13).
Portanto, conseguir intervir em realidades complexas, a preocupação ética em
atender eficazmente a clientela e a busca pessoal pelo aperfeiçoamento guiam os
profissionais para o exercício da integração.
Discussão
Os estudos sobre aproximações entre abordagens são escassos na literatura e o
desenho predominante é de natureza teórica. Milanello (2005) buscou compreender
as compatibilidades entre Moreno e Winnicott quanto à ideia de amadurecimento
psicológico. Bezerra (2007) investigou as afinidades epistemológicas entre a
Gestalt-terapia e a Abordagem Centrada na Pessoa, traçando as necessidades atuais
de reformulações destas escolas diante dos desafios contemporâneos. Calderoni
(2010) objetivou em seu trabalho identificar as convergências e possibilidades de
complementação entre o Psicodrama e a Dasenisanalyse de Medard Boss. Philippi
(2004) realizou estudo teórico sobre as aproximações entre a Gestalt-terapia e as Terapias
Sistêmicas quanto ao conceito de subjetividade. O que se conclui é que tais estudos de
natureza teórica priorizam o ponto de vista do pesquisador e não as perspectivas dos
psicoterapeutas. O presente estudo, por sua vez, procurou privilegiar as percepções dos
psicodramatistas e gestalt-terapeutas sobre as possibilidades de aproximações entre suas
abordagens. Foi adotado o referencial da pessoa que vive a realidade na base e não o
ponto de vista do pesquisador acadêmico, nos casos de estudos bibliográficos.
Nas reflexões sobre o processo de formação e desenvolvimento de sua abordagem,
alguns participantes percebem uma realidade dinâmica de trocas de conceitos com
outras escolas. Cada abordagem encontra-se em permanente transformação para
tentar responder aos anseios de sua comunidade profissional e às necessidades da
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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clientela atendida. Neste sentido, a integração representa um importante papel para
o enriquecimento de cada abordagem, pois a assimilação de outras ideias representa
uma condição vital para o amadurecimento (Norcross, 2005). Esse fluxo integrativo
é criativo e inovador, já que os aspectos assimilados sofrem modificações para a
composição coerente com as ideias da abordagem (Stricker, 2010). Este insight dos
participantes pode provocar uma tensão reflexiva para os que censuram ou possuem
receio quanto à integração.
Como exemplo da realidade dinâmica das abordagens, pode-se perceber a diferença
entre a Gestalt-terapia centrada em workshops de ação, praticada em sua origem, e seu
exercício atual calcado na relação terapêutica. A partir da década de 1980, os gestaltterapeutas trocaram o modelo tradicional de ação do terapeuta sobre o cliente por outro que
considera ambos como pertencentes a um campo relacional. Há uma maior identificação
com a chamada Gestalt-terapia relacional, que pôde ser elaborada graças à influência do
filósofo Martin Buber (Frazão & Fukumitsu, 2013). Os gestalt-terapeutas encontram-se
divididos entre um grupo que permanece com interesse nas contribuições dos recursos
de ação do Psicodrama e o outro grupo dos gestalt-terapeutas relacionais que preferem
o afastamento do Psicodrama. Este grupo tece severas críticas às técnicas de ação e esta
repulsa pode ter desestimulado possíveis trocas entre as duas abordagens.
Apesar de alguns bloqueios, através das narrativas dos participantes pode
ser notado um canal de influência entre a Gestalt-terapia e o Psicodrama. Os
psicodramatistas puderam construir modalidades individuais de atendimento clínico
com a ajuda de ideias da Gestalt-terapia (Fonseca, 2000). Os achados da pesquisa e a
literatura apontam para uma significativa influência que o Psicodrama exerceu sobre
a Gestalt-terapia. Fritz Perls, que participou de sessões de Psicodrama dirigidas por
Moreno, incorporou a técnica da cadeira vazia na Gestalt-terapia (Blatner, 1996) e
as dramatizações, mas com a denominação de experimentos. No entanto, Perls já
havia participado ativamente do teatro expressionista alemão antes de conhecer o
Psicodrama (Lima, 2013). O trabalho de cunho experiencial da Gestalt-terapia não
pode ser creditado somente pela influência do Psicodrama. É plausível supor que o
Psicodrama despertou o interesse de Perls pelo seu prévio gosto pelo teatro como
veículo de expressão humana. Na sua autobiografia, Perls (1979, p.248) menciona
a palavra “psicodrama”, quando explica os procedimentos que adotava nos seus
workshops ao pedir aos membros do grupo para verbalizarem seus sentimentos como
se alguém significativo estivesse presente. Em outra obra, Perls (1988) aponta uma
unidade entre sua abordagem e o Psicodrama:
Há muitas escolas, além da nossa, que fazem uso do método da auto expressão como
um meio de reidentificação. [...] eu gostaria de selecionar a técnica psicodramática
de Moreno como uma das demonstrações mais vívidas do modo de aplicar a técnica
de ir e vir (Perls, 1988, p.105)
A assimilação de procedimentos técnicos pode transformar a técnica em algo novo.
Enquanto no Psicodrama, a dramatização é utilizada para resgatar a espontaneidade,
procurando novas respostas para situações vividas (Moreno, 1975), Perls (1988) sugeria
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
aos seus clientes que vivessem novamente uma situação para ganharem consciência dos
modos pelos quais estavam se bloqueando e interrompendo o fluxo das experiências.
Essa metamorfose é típica na assimilação integrativa, que é a incorporação de atitudes,
perspectivas e técnicas provenientes de outras abordagens, porém mantendo a própria
visão clínica. Os procedimentos clínicos incorporados mudam em função do novo
contexto em que são utilizados, levando à acomodação da técnica assimilada que ganha
uma finalidade diferente (Lampropoulos, 2001).
Um espaço de unidade entre o Psicodrama e a Gestalt-terapia foi delineado.
Inicialmente, a equipe de pesquisa tinha a expectativa de que as bases fenomenológicas
e existenciais seriam os principais pontos em comum citados. De fato, a pouca
literatura disponível que trata da unidade entre as duas abordagens é centrada na
base fenomenológico-existencial compartilhada (Almeida, 2006) ou na influência
de Moreno sobre o trabalho de Perls (Blatner, 1996). O presente trabalho traz alguns
avanços na investigação deste espaço de unidade. Outros aspectos filosóficos e
metodológicos foram apontados tais como: a valorização da presentificação da
experiência, a adesão à tendência anti-intelectual em psicoterapia, o trabalho com
a dimensão intersubjetiva e contextual do ser humano e a busca de uma relação
terapêutica horizontal.
É interessante observar que mesmo possuindo formulações teóricas muito diferentes,
as abordagens possuem estas afinidades filosóficas que podem gerar condutas semelhantes
dos seus profissionais. A afinidade metodológica detectada revela que o Psicodrama e a
Gestalt-terapia possuem algumas concepções semelhantes sobre o papel do terapeuta,
a visão de mundo e de ser humano e os mecanismos de mudança. Os participantes
perceberam estas afinidades quando pensaram na inserção do Psicodrama e da Gestaltterapia dentro de um contexto global com todas as outras abordagens. Os entrevistados
questionam a relação de poder entre terapeuta e cliente, argumentando em favor de uma
maior horizontalidade. Neste sentido, o terapeuta deve estar presente como uma pessoa
e não como um técnico distante. Ele não deve se colocar como uma autoridade que sabe
mais do cliente do que ele mesmo. O terapeuta se coloca como não diretivo porque existe
uma crença nos recursos saudáveis do cliente. Esta concepção sobre a horizontalidade na
relação terapêutica pode estimular reflexões críticas no campo da psicoterapia sobre os
caminhos da mudança e os papeis do terapeuta e do cliente no processo terapêutico. O
Psicodrama e a Gestalt-terapia se inserem na Terceira Força em Psicologia, movimento
constituído por psicoterapias humanistas que enfocam o aumento das capacidades
expressivas dos indivíduos bem como a busca por relações sociais mais autênticas (SáJunior, 2009).
A abertura para reconhecer as próprias lacunas foi outro importante aspecto da
pesquisa. Tendo em vista que a amostra é constituída por profissionais profundamente
engajados, o reconhecimento das falhas exigiu uma atitude corajosa e não defensiva.
Gostariam que as abordagens fossem mais sólidas do ponto de vista teórico. Reprovam
as atitudes tecnicistas sem fundamentação teórica dos profissionais e o distanciamento
das tradições originais. Apontam contradições como práticas diretivas e teorias
deterministas que contrastam com as filosofias libertárias de suas abordagens. Estas
reflexões podem quebrar a autossuficiência e o fechamento e podem representar um
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
61
primeiro passo para a busca de outros sistemas que poderiam ajudar a corrigir as falhas
ou suprir o profissional dos aspectos que a própria abordagem não consegue fornecer
(Watchel, 2010). A inadequação de uma abordagem única para lidar com a diversidade
e a complexidade dos problemas psicológicos levam os clínicos a procurarem soluções
eficazes fora dos seus paradigmas particulares (Norcross, 2005). A integração pode ser
uma relevante ferramenta para solucionar os impasses vividos nas comunidades de
psicodramatistas e gestalt-terapeutas.
A possibilidade de empoderamento do terapeuta na incursão em outros saberes
também é um ponto que merece destaque. Permanecer cego às contribuições de outras
escolas pode diminuir as possibilidades de ação do psicoterapeuta (Norcross, 2005).
Uma única abordagem não consegue contemplar a riqueza pessoal do terapeuta e não
consegue se ajustar à complexidade das realidades enfrentadas. Terapeutas que ganham
experiência se afastam dos métodos puros nos quais foram treinados e se dirigem
para a construção de modelos mais individualizados difíceis de serem atribuídos a
qualquer abordagem isolada (Gold & Stricker, 2006). Na conduta dos terapeutas,
ao buscarem desenvolver um estilo próprio, a aquisição de subsídios técnicos e
teóricos é uma realidade (Neto & Penna, 2006). Mesmo sendo profissionais altamente
comprometidos em divulgar e promover a abordagem de filiação, os participantes
revelaram a preocupação ética em seres mais fieis às necessidades do cliente. De fato,
a habilidade do psicoterapeuta em responder à individualidade do cliente livre das
limitações de qualquer ideologia terapêutica, é uma exigência ética presente na discussão
sobre integração. Para Gold e Stricker (2006), a recusa do psicoterapeuta em trabalhar
de acordo com as necessidades do cliente devido à fidelidade à sua abordagem pode
produzir uma profunda sensação de desconsideração nos clientes.
Na busca de outros saberes, dois processos emergiram dos dados. Por um lado,
há os profissionais que examinam conhecimentos de outras abordagens utilizando o
critério da semelhança, buscando ajuda em abordagens que sejam mais afins com a
própria. Há um fluxo livre em acessar uma abordagem que possui uma linguagem mais
próxima. A ponte entre a Gestalt-terapia e o Psicodrama se aproxima deste processo.
Outro tipo de integração é a escolha de uma abordagem mais divergente, supostamente
com mais chance de poder contribuir com elementos ausentes na própria abordagem.
No primeiro caso, temos o fortalecimento de elementos da própria abordagem por
contribuições similares, enquanto no segundo temos a expansão da abordagem com
elementos de uma abordagem complementar à própria.
O presente estudo apresenta suas especificidades considerando-se as abordagens
estudadas e a constituição da amostra. O trabalho está circunscrito ao espaço de
interseção entre duas abordagens com afinidades filosóficas. Outros achados poderiam
resultar da investigação entre abordagens mais divergentes epistemologicamente. Além
disso, a amostra constitui-se de profissionais experientes, com papel de pioneirismo,
donos de institutos e autores de livros. Existem limitações para se estender os achados
a outros contextos e informantes. As conclusões poderiam diferir se fosse estudada a
percepção de alunos de graduação ou de estudantes de cursos de formação em Gestaltterapia ou Psicodrama, por exemplo. Portanto, outros estudos analisando a percepção
62
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
de outros grupos a respeito da interseção entre estas abordagens ou investigando a
integração entre escolas divergentes se fazem necessários.
Considerações finais
As pontes já construídas entre o Psicodrama e a Gestalt-terapia são pouco
exploradas na literatura profissional. Numa sociedade competitiva, as diferenças entre as
abordagens recebem muita ênfase (Norcross, 2005). Essa pesquisa pretende contribuir
para diminuir essa lacuna e para estimular novos estudos. Os achados podem também
servir para nortear estudos sobre condições de abertura para integração entre outras
abordagens.
Os pontos de unidade entre as duas abordagens aparecem nas reflexões sobre as
características de cada uma dentro de um contexto mais amplo contendo as demais
abordagens psicológicas. É desafiador entender de que maneira arcabouços teóricos
tão diversos como os do Psicodrama e da Gestalt-terapia podem gerar atitudes clínicas
semelhantes como a busca da horizontalidade na relação terapêutica, a ênfase no
aqui e agora, a valorização da vivência e da experiência. Outras pesquisas podem
investigar como os fatores específicos de cada abordagem fazem os fatores em comum
manifestarem-se. O território das chamadas psicologias humanistas ou terceira força
em Psicologia convida para futuras investigações. Pode ser enriquecedor entender as
convergências, divergências e possibilidades de cooperação entre outras escolas deste
grupo de abordagens.
A investigação deste espaço de interseção gerou possibilidades não imaginadas no
início do processo. A expectativa era de que somente a categoria dos fatores em comum
fosse elaborada. As reflexões sobre as limitações da própria abordagem e sobre as
possibilidades de ampliação da prática profissional revelaram a flexibilidade e ausência
de dogmatismo dos participantes. Atravessou as narrativas uma atmosfera de abertura, de
preocupação ética com a clientela e de curiosidade intelectual. A constatação de que as
abordagens se constituíram através da incorporação de conceitos de outros saberes e de
que seus impasses atuais podem ser resolvidos através de contribuições externas libera
o campo para novas cooperações entre escolas. Inclusive, pode quebrar o tabu referente
à conotação negativa do tema da integração.
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_____________________________
Recebido em julho de 2014
Aceito em abril de 2015
Érico Douglas Vieira: Graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais, Especialização
em Psicodrama pelo Instituto Mineiro de Psicodrama Jacob Levy Moreno, Mestrado em Psicologia pela
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Doutorado em Psicologia pela Pontifícia Universidade
Católica de Goiás, exercendo a Docência como Professor Adjunto do curso de Psicologia da Universidade
Federal de Goiás – Regional Jataí.
Luc Vandenberghe: Graduação e Mestrado em Psicologia Clínica da Rijks Universiteit Gent, Bélgica
e Doutorado em Psicologia pela Université de l’Etat à Liège, Bélgica. É Professor Adjunto da Pontifícia
Universidade Católica de Goiás e orientador dos Programas de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia e
em Ciências Ambientais e de Saúde.
Endereço para contato: [email protected]
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
65
Aletheia 43-44, p.66-90, jan./ago. 2014
Representações sociais sobre a psicologia e o psicólogo em
universitários de uma faculdade privada de Rondônia, Brasil
Cleber Lizardo de Assis
Géssica Alves de Souza Matthes
Resumo: A Psicologia e o Psicólogo no Brasil ainda são marcados por diversos estereótipos sociais.
A partir da Teoria das Representações Sociais, busca-se identificar as representações sociais sobre a
Psicologia e o Psicólogo em sujeitos universitários de uma Faculdade Privada de Rondônia. Estudo
quantitativo, com instrumento próprio e uma amostra de 110 sujeitos. Resultados: o psicólogo
tem importância social, como um estudioso do comportamento, da mente, das emoções e dos
relacionamentos humanos, com locus de trabalho na área da saúde, escolar, jurídica, organizacional e
do trabalho, e clínica; visto como uma pessoa normal, embora “complicado”, utilizando da dinâmica
de grupo, escuta, testes e “conselhos” como instrumentos de trabalho; sobre a relação Psicologiaoutros campos de saber, busca-se na religião, amigos e familiares a resolução de problemas, sem
diferenciar bem a Psiquiatria da psicologia. Conclui-se que uma percepção do psicólogo e da
psicologia vem se modificando diante de estereótipos e representações sociais tradicionais.
Palavras-chave: Representação Social; Psicólogo; Psicologia.
Social representations of psychology and psychologist at private university
of the Rondônia, Brazil
Abstract: The Psychology and Psychologist in Brazil are still marked by many social stereotypes.
From the Theory of Social Representations, we seek to identify the social representations of
Psychology and Psychologist in university subjects a Private School of Rondônia. Quantitative
study, with own instrument and a sample of 110 subjects; Results: psychologist has social
importance, as a scholar of behavior, mind, emotions and human relationships with locus of work
in health, education, legal, organizational and work, and clinic; seen as a normal person, although
“complicated”, using group dynamics, listening, testing and “advice” as working tools; on the
relationship psychology-other fields of knowledge, we seek in religion, friends and family problem
solving, without differentiating well Psychiatry of the Psychology; We conclude that a perception
of psychologists and psychology has been changing the face of traditional stereotypes and social
representations.
Keywords: Social Representation; Psychologist; Psychology.
Introdução
A Psicologia é uma profissão recente que vem conquistando mais espaço em
campos de atuação e teorias, além de estar em constante crescimento e aprimoramento
profissional no Brasil, desde sua regulamentação da Lei n° 4.119 de 27 de agosto de 1962
(Brasil, 1962), no entanto, ainda é uma profissão bastante estereotipada como ligada
apenas à clínica e cujo profissional visto como um “médico de doido” entre outros.
Tais estereótipos podem ser percebidos mesmo nesta região do Estado de Rondônia,
onde o curso de psicologia tem sido ofertado e onde tem formado as primeiras turmas
entre os anos de 2010 a 2012. Mas, como seria a representação social que o público
universitário tem dessa profissão e profissional? Há elementos-comuns entre sua
percepção e o chamado “senso comum”? Os diversos estereótipos tradicionais acerca
desse profissional e profissão tem sofrido modificações?
Considerando que tem havido uma imagem social distorcida e equivocada junto
ao público leigo e também de profissionais do ramo acerca do psicólogo e da Psicologia,
(Mello, 1975; CFP, 1988; Carvalho & Kavano, 1982; Leme, Bussab & Otta, 1989,
Weber, 1991; Weber, Rickli & Liviski, 1994), assim como carece de pesquisas sobre
as percepções e modos de compreensão social sobre a psicologia na região norte do
país (estado de Rondônia, em especial), justifica-se a necessidade de estudos sobre a
representação social dessa profissão e profissionais.
Nesse sentido, objetiva-se identificar quais as Representações Sociais sobre
a profissão Psicologia e o profissional Psicólogo em sujeitos universitários de uma
Faculdade Privada de Cacoal-RO.
A psicologia no Brasil
No Brasil, a Psicologia passou a ser ensinada no início do século XIX, na Faculdade
de Direito de São Paulo, como parte de uma mais abrangente “ciência do homem” e na
década de 1930 é inserida no ensino superior, com a criação da primeira Universidade
de Ensino Superior do País, a USP, em São Paulo, no ano de 1934, de forma que até
o início daquele século “não havia no Brasil uma psicologia propriamente dita, com
terminologia própria, um conhecimento definido ou uma prática reconhecida”, mas
“mesmo assim, era crescente o interesse da elite brasileira pela produção e aplicação
de saberes psicológicos” (Pessotti, 1988, citado por Pereira & Neto, 2003, p.21). Daí
surgiram os testes de inteligência, um maior interesse pela subjetividade e uma atração
por estudos do comportamento humano e com forte influência/relação com o saber
médico (Pereira & Neto (2003).
Segundo Pereira e Neto (2003), enquanto a psicologia desenvolvia um
conhecimento especializado e conquistava um mercado consumidor de seus serviços,
começaram a ser elaborados anteprojetos para a regulamentação da profissão e no dia
27 de agosto de 1962 foi aprovada a Lei nº 4.119, que regulamentou a profissão de
psicólogo, ano em que foi emitido o Parecer 403 do Conselho Federal de Educação
(Brasil, 1962), estabelecendo o currículo mínimo e a duração do curso universitário
de Psicologia. Já num aspecto profissional, de acordo com o Catálogo Brasileiro de
Ocupações (Conselho Federal de Psicologia 2008), as áreas de atuação do Psicólogo
são a Psicologia Clínica, Psicologia do Trabalho, Psicólogo do Trânsito, Psicólogo
Jurídico, Psicólogo Educacional, Psicólogo do Esporte, Psicólogo Social e Professor
de Psicologia (Ensino Superior), no entanto, há diversas áreas de inserção atual da
Psicologia e que não estão citadas nesse Catálogo.
Representação social da psicologia e do psicólogo
Sem nos aprofundar na história rica e fecunda da Psicologia no país, importa
apresentar sucintamente o marco teórico-conceitual para, em seguida, fazer uma breve
exposição do que tem se configurado em “representações sociais” da Psicologia e do
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
67
Psicólogo no Brasil. Para o criador dessa Teoria das Representações Sociais, Moscovici
(2012, p.37):
Essas representações, que são partilhadas por tantos, penetram e influenciam
a mente de cada um, elas não são pensadas por eles; melhor, para sermos mais
precisos, elas são repensadas, recriadas e reapresentadas.
O conceito de Representação Social designa um conhecimento específico do senso
comum, relacionado a uma forma de pensamento social, produzido e partilhado nas
relações que as pessoas estabelecem entre si. Dessa forma, o profissional da Psicologia,
é visto socialmente como sujeito integrado à comunidade, mas também contribui
com o seu fazer cotidiano e para essas inter-relações que forjam o estabelecimento
de Representações Sociais acerca de seu papel e de sua prática, o que é reconstruído
de forma dinâmica entre o conhecimento científico e o chamado “senso comum”
(Sancovschi, 2007; Lahm & Boeckel, 2008; Araújo, 2008; Arruda, 2002).
Já para Borsezi (2006), a representação social constitui-se através de diversas
mediações realizadas de diferentes formas, como os meios de comunicação de massa,
principalmente os televisivos, por pessoas que já utilizaram os serviços de um Psicólogo,
por exemplo. É neste “lugar” social que se formam as representações sociais que são
apropriadas pelo discurso científico, a partir da análise do discurso sobre “os outros”
ou sobre fenômenos como profissões – alvo deste estudo. Ou seja, este pressuposto de
apropriação sugere que um discurso pode ser agrupado e estudado, de acordo com as
verbalizações dos sujeitos sobre algo/alguém.
Nesse sentido, adotamos alguns estudos sobre a RS da Psicologia/Psicólogo
para nosso comparativo, tal como em Praça e Novaes (2004, p.2), numa pesquisa
realizada em 1999, com 375 alunos de graduação na área da saúde, sobre a sua
visão em relação a prática do profi ssional de psicologia, onde a maioria das
respostas revela como objeto de estudo da Psicologia o comportamento e os
fenômenos psicológicos; como local/área de trabalho, evidenciou-se um alto índice
que apontou o hospital, a escola, a clínica e o presídio; em relação ao objetivo
Profissional, revelou um maior percentual em melhorar a qualidade de vida; no
item Instrumento do Psicólogo, o maior índice referiu-se a ouvir, aplicação de
entrevistas, testes e dinâmicas de grupo; na categoria Características do Psicólogo,
o maior índice foi de respostas observador, equilibrado e confiável; na categoria
Credibilidade do Trabalho, as respostas mostraram uma representação altamente
positiva em relação ao profissional de psicologia; já em relação à Imagem da
Psicologia e do Psicólogo, a subcategoria “De médico, psicólogo e louco todo
mundo tem um pouco”, mostra um índice percentual de 37,9% para os estudantes de
outros cursos e, para os de Psicologia, 14%, considerando que, nessa subcategoria
está presente a representação de que o psicólogo é “maluco”, equiparando psicólogo
e louco, apontando certa forma de contradição em relação aos dados encontrados
na categoria “características do psicólogo” onde aquele profissional é visto como
“observador, equilibrado e confiável.”
68
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Já Weber, Paiva e Biscaia (2005)1 realizaram uma pesquisa em que foram
comparados os dados de Weber (1991), com o objetivo de identificar a imagem que se
tem do Psicólogo e da Psicologia em uma amostra de 400 pessoas de ambos os sexos
com idade entre 18 e 60 anos, indicando: Sobre o objeto e a natureza da Psicologia,
predominaram respostas como “tipo de conhecimento” (43,3%), “ciência (15,5%) e
31,8% não conseguiram definir a Psicologia, o que comparando com a pesquisa de Weber
(1990) percebeu-se um declínio no número de pessoas que definem a psicologia como
ciência, de 29,1% em 1990 para 15,5% dos participantes em 2002.
Se referindo ao objeto da Psicologia, a maioria das respostas referiu-se a “pessoa/
ser humano/personalidade” (37,5%), “funções mentais e sentimentos” (27%) e 16,5%
não sabiam definir o objeto da Psicologia. Comparando com a pesquisa de 1990, o
maior resultado se referia às funções mentais e o segundo objeto mais citado foi o
“comportamento humano”, o que nos mostra uma significativa diferença. (Weber, Paiva
e Biscaia, 2005).
Sobre a definição do Psicólogo (“quem é e o que faz o Psicólogo?”), 53,3%
consideraram o Psicólogo um profissional, 34,8% não souberam especificar e 12% o
definiram como uma pessoa qualquer ou um amigo, diferente da pesquisa de 1990, onde
o Psicólogo era visto como uma pessoa qualquer e nesta de 2002 já é visto como um
profissional (Weber, Paiva e Biscaia, 2005). De forma relacionada, sobre “o que faz um
Psicólogo?”, 55% dos entrevistados apontaram como função, “ajudar, conversar e orientar
o cliente”, “tratar a saúde mental” (16%) e “resolver problemas” (8,6%), diferente da
pesquisa de 1990, onde a maior frequência de respostas foram em relação a “tratar de
saúde mental e problemas mentais” (21,5%) e “ajudar/conversar/orientar” (20,5%).
Outros elementos e categorias dessa pesquisa não serão abordados aqui, mas
segundo Weber, Pavei e Biscaia (2005), pode-se perceber com essa pesquisa que, tanto
em 1990 quanto em Weber (1991), a Psicologia é considerada uma profissão, mas poucos
a consideram como ciência, cabendo à categoria de Psicólogos lutar para mudar essa
realidade de como somos vistos por pessoas leigas.
Já a pesquisa de Leme, Bussab e Otto (2008), em relação ao campo de representação
ou imagem, investigou-se o que os sujeitos entendem do trabalho do Psicólogo, por
categorias aproximativas como “guia espirituais” e “confidentes”. Na primeira parte,
identificou-se que a maior incidência de respostas recai na aproximação em relação às
profissões: aqui obteve-se respostas como “é médico de louco”, onde a aproximação é
com a psiquiatria, “exerce uma função assistencial” e ainda, numa aproximação com a
Psicanálise, respostas do tipo “a imagem de um paciente deitado no divã contando sua
vida”, seguida pela dos guias espirituais; ocorreram ainda, além de uma “mistura de paide-santo com profissionais de segunda categoria”, “o público leigo imagina o Psicólogo
como um bruxo”, “um mago com poderes de resolver problemas a curto prazo” e com
igual frequência, a imagem do pai, amigo e do conselheiro (Leme, Bussab e Otto, 2008).
O psicólogo ainda foi rotulado como “um profissional do blábláblá, e ainda por cima
atuando apenas com a elite”, mas também como “alguém não tão necessário a sociedade,
um capricho ou privilégio para algumas poucas pessoas” (Leme, Bussab e Otto, 2008,
1
Por limitação e escopo desse trabalho, recomendamos ao leitor uma leitura integral das duas pesquisas.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
69
p.5). O emprego do rotulo “charlatão” traz a ideia de cobranças ilegítimas ao cobrar
pelo serviço prestado (“um charlatão que cobra caro pelo que aprendeu numa faculdade
fácil”). Segundo Leme, Bussab e Otto (2008), essa categoria de resposta está ligada ao
preconceito e desconhecimento em relação ao Psicólogo.
Já no âmbito geográfico de nosso estudo, no contexto da região Norte do país
foi criado o Conselho Regional de Psicologia, com a Resolução do CFP n° 005/11,
onde instituiu o CRP-20: “Art. 1 o – Fica criado o Conselho Regional de Psicologia
da 20 a Região, de sigla CRP-20, com jurisdição nos estados de Amazonas, Acre,
Rondônia e Roraima, e com sede na cidade de Manaus – AM.” (Conselho Federal
de Psicologia, 2011). Dessa forma, em Rondônia o curso de psicologia é ofertado em
faculdades privadas e pública das cidades de Cacoal, Pimenta Bueno, Rolim de Moura
e Vilhena, Ariquemes e na Capital Porto Velho e, nesse contexto, objetiva-se verificar
as percepções e representações sociais sobre essa ciência e profissão em universitários
dessa região do país.
Método
Participaram da pesquisa 110 sujeitos de ambos os sexos (55 homens e 55 mulheres),
com idade acima dos 18 anos, estudantes de uma faculdade privada da cidade de Cacoal/
RO, escolhidos aleatoriamente a partir dos cursos: Administração, Ciências Contábeis,
Economia, Biomedicina, Engenharia Ambiental e Arquitetura.
Os critérios para a seleção e aplicação do instrumento excluem estudantes de
psicologia e pessoas que fizeram ou fazem atendimento psicológico com psicólogo, por
serem considerados pelos pesquisadores, de menor contato direto e permanente com
esse profissional. Para a determinação estatística da amostra, foi feito um cálculo para a
configuração do tamanho da amostra com base na estimativa da proporção populacional
da referida faculdade2.
Foram elaborados e aplicados os seguintes instrumentos: 1) Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido; 2 – Formulário Estruturado autoaplicativo em Escala Likert, com
questionário sociodemográfico integrado, criados pelos autores (em anexo).
A Escala Likert consiste em um tipo de escala psicométrica, usada habitualmente
em questionários e é utilizada em pesquisas de opinião, especialmente em pesquisas
quantitativas, e se harmonizou com a natureza de nosso problema investigado, de modos
que a associamos às categorias de análise de cunho qualitativo, permitindo um cruzamento
metodológico quantitivo e qualitativo, viabilizando a apreensão das representações sociais
do sujeito.
2
A fórmula para cálculo do tamanho da amostra para uma estimativa confiável da proporção populacional
(p) é dada por: n – número de indivíduos na amostra; Z – valor crítico que corresponde ao grau de confiança
desejado; p – proporção populacional de indivíduos que pertence a categoria que estamos interessados em
estudar; q – proporção populacional de indivíduos que não pertence à categoria que estamos interessados em
estudar (q = 1 – p); E – margem de erro ou erro máximo de estimativa. Identifica a diferença máxima entre a
proporção amostral e a verdadeira proporção populacional (p): Grau de confiança de 95% e margem de erro
de 5%; A UNESC tem 2062 alunos e 152 de psicologia Logo: q = 152/2062 = 0,073 e p = 0,926. Total de
indivíduos da amostra:n = [(1,96)^2 (0,073)*(0,926)]/(0,05)^2 n = 104,92 ou seja, 105 pessoas
70
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Para a coleta de dados, foram elaboradas as seguintes categorias e suas respectivas
frases evocativas criadas pelos pesquisadores a partir das pesquisas supracitadas e que
serviram para que o sujeito manifestasse sua opinião e percepção a respeito da profissão
Psicologia e do profissional Psicólogo:
Categoria 1 – Importância e Credibilidade Profissional:
A Psicologia e o Psicólogo tem importância na sociedade
A Psicologia e o Psicólogo são importantes para a saúde mental das pessoas
Categoria 2 – Atribuições do Psicólogo:
O Psicólogo estuda e trata o comportamento humano
O Psicólogo estuda e trata a mente humana
O Psicólogo estuda e trata das emoções humanas
O Psicólogo estuda e trata dos relacionamentos humanos
O Psicólogo contribui para a saúde mental e qualidade de vida humana
O Psicólogo serve para resolver problemas que o psiquiatra não resolve
Categoria 3 – Áreas de Atuação do Psicólogo:
O Psicólogo atua na clínica
O Psicólogo atua na área da saúde
O Psicólogo atua na área educacional
O Psicólogo atua na área social
O Psicólogo atua na área organizacional e do trabalho
O Psicólogo atua na área jurídica
O Psicólogo atua na área esportiva
Categoria 4 – Características e Imagem Social do Psicólogo:
O Psicólogo é uma pessoa bem resolvida emocionalmente
O Psicólogo é uma pessoa que compreende os problemas humanos
O Psicólogo é uma pessoa “complicada”
O Psicólogo é uma pessoa liberal
Sobre a expressão: “psicólogo é coisa para doido”
Sobre a expressão: “de psicólogo e louco, todo mundo tem um pouco”
Categoria 5 – Formas e Modos de Trabalho do Psicólogo:
O Psicólogo utiliza da escuta em seu trabalho
O Psicólogo utiliza de testes em seu trabalho
O Psicólogo utiliza de dinâmicas em seu trabalho
O Psicólogo utiliza de conselhos em seu trabalho
Categoria 6 – Relação Psicologia e Outros Campos de Saber:
A religião resolve os problemas em que a psicologia atua
A psiquiatria resolve os problemas em que a psicologia atua
A própria pessoa resolve os problemas em que a psicologia atua
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
71
A filosofia resolve os problemas em que a psicologia atua
Amigos e familiares resolvem problemas em que a psicologia atua
A coleta de dados ocorreu de forma coletiva, em sala de aula, durante o período
noturno e com a duração média de 20 minutos, após uma apresentação da proposta da
pesquisa e orientação de preenchimento do instrumento.
Em relação à análise dos dados, foram tratados de forma quantitativa, por frequência
simples, sem correlação de idade, gênero, curso e outras categorias que poderão ser
analisadas em estudos posteriores, seguido de produção de gráficos no programa Excell
for Windows.
Resultados e discussão
Para a elaboração dessa seção, retomamos a noção de “Representação social”
postulada por Moscovisci (2012, p.37), especialmente quando a concebe como produto
partilhado por sujeitos sociais, de modos que tais representações dinâmicas se “penetram
e influenciam” na mente de cada indivíduo, seja na dimensão do pensamento e da prática
cotidianas, o que a torna dinamicamente recriada a partir da interação social.
Nesse sentido, ao abordarmos esse tipo de conhecimento específico do “senso
comum”, devemos relacioná-lo às interações e trocas sociais que ocorrem entre a própria
ciência psicológica e o contexto social em suas múltiplas dimensões (tipos de grupos
sociais, recortes geográfico, de gênero e formação etc), de modos que, ao explorar a forma
como se concebe o profissional Psicólgo e a sua ciência/profissão Psicologia, devemos
saber que a partir dessas inter-relações se forjam o estabelecimento das Representações
Sociais acerca de seu papel e de sua prática, num processo permanente e dinâmico de
reconstrução entre o conhecimento científico e o chamado “senso comum” (Sancovschi,
2007; Lahm & Boeckel, 2008; Araújo, 2008; Arruda, 2002).
Portanto, os dados aqui coletados e analisados referem-se a um restrito recorte
contextual e de público com suas respectivas particularidades representacionais sobre o
Psicólogo e a Psicologia, mas que devem ser consideradas portadoras de elementos que
podem apontar certos conjuntos de sentidos que compõe o discurso social sobre essa
ciência e seu profissional num contexto maior.
Concordamos e defendemos a importância do psicólogo/psicologia tal como
aparece em destaque em Weber, Paiva e Biscaia (2005, p.3) que ainda ressaltam ser a
Psicologia muito mais complexa do que o “senso comum” faz crer, defendendo, nesse
sentido, um maior conhecimento de suas possibilidades e seus limites enquanto área de
conhecimento e profissão, bem como entender que as subdivisões ocorrentes não são
rígidas nem estáticas, mas estão como que entrelaçadas e sempre em movimento, assim
como o ser humano. Esse entrelaçar, supomos, ocorre entre o saber social e a ciência,
bem como da interação entre a ciência psicológica e o social. Vamos agora aos dados e
sua discussão com a literatura pertinente3:
3
Legenda para as imagens gráficas desta seção: Vermelho= discordo totalmente, Amarelo= discordo
parcialmente, Marrom= tenho dúvidas, Verde= concordo parcialmente e Azul= concordo totalmente
72
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Em relação à Categoria Importância e Credibilidade Profissional, os sujeitos
concordam de forma quase unânime (n=104, figura 1) que o psicólogo tem importância
na sociedade, sendo o mesmo padrão de resposta que inclui a sua importância na saúde
mental das pessoas (n=102, Figura 2), o que aponta um certo conhecimento desta profissão
e sua possível contribuição social. Essa importância atribuída ao profissional e à ciência
psicológica pode ser atribuída, por complementaridade categórica, à alta frequência de
concordância de seu papel junto à atuação junto à saúde mental das pessoas, reconhecida
pela maioria quase absoluta (n=102, Figura 2).
Figura 1
Figura 2
A Psicologia e o Psicólogo têm importância
na sociedade - TOTAL
70
66
80
70
60
67
60
50
38
40
30
50
40
35
30
20
20
10
0
A Psicologia e o Psicólogo são importantes para a
saúde mental das pessoas - TOTAL
0
10
4
2
0
0
4
4
1
1
DT
D.P
T.D
C.P
C.T
DT
D.P
T.D
C.P
C.T
Em relação à Categoria – Atribuições do Psicólogo, a maioria compreende que o
Psicólogo é um profissional que estuda e trata diversos fenômenos humanos, tais como
o “comportamento humano” (n=103, Figura 3), as “emoções humanas” (n=99, Figura
4), a “mente humana” (n= 92, Figura 5), os “relacionamentos humanos” (n=87, Figura
6), o “Psicólogo contribui para a saúde mental e qualidade de vida humana” (n= 86,
Figura 7). No entanto, importante salientar que a frase evocativa “O Psicólogo serve para
resolver problemas que o psiquiatra não resolve” obteve um índice maior de dúvida (n=45,
Figura 8), acima dos dois níveis de concordância (n= 42, Figura 8), o que nos permite
inferir que os sujeitos não diferenciam bem a especificidade dessas duas profissões, posto
que ambas podem tratar de questões humanas apontadas acima.
Os resultados nessa categoria reforçam os resultados da pesquisa de Praça e Novaes
(2004, p.15 e 16), em que a representação social da psicologia está associada às questões
do comportamento e ao funcionamento psíquico, envolvendo emoções e patologias.
Para Weber, Pavei e Biscaia (2005), se referindo à pesquisa realizada em 1990,
constatou-se que o objeto mais citado pela população referia-se às funções mentais ou
da alma e sua atuação resumia-se à manutenção da saúde mental. Esses mesmos autores,
numa pesquisa de 2005, o objeto mais citado foi o “ser humano”. A partir disso, pode-se
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
73
perceber que a conceituação do objeto da psicologia atribuído pela população na verdade
se refere a diversos objetos, ou seja, embora lato sensu, a psicologia tem como “fim maior’
o ser humano, sabemos que possui um objeto multifacetado em torno desse humano,
sendo que ainda não se pode excluir as dimensões social, política, cultural e religiosa.
Já para Tourinho, Carvalho Neto e Neno (2004, p.1), após realizar uma discussão sobre
os múltiplos objetos e, portanto, olhares e práticas da Psicologia, “o sucesso de cada
abordagem psicológica depende, em alguma medida, do reconhecimento do caráter
multifacetado do campo da Psicologia e da capacidade de responder de modo consistente
e integrado às diferentes demandas sociais que definem esse campo”.
Figura 3
Figura 4
O Psicólogo estuda e trata o comportamento
humano
O Psicólogo estuda e trata as emoções
humanas - TOTAL
70
58
60
52
50
50
45
47
40
40
30
30
20
20
10
0
60
0
10
6
1
0
1
1
1
DT
D.P
T.D
C.P
DT
C.T
Figura 5
T.D
C.P
C.T
O Psicólogo estuda e trata os relacionamentos
humanos - TOTAL
60
60
49
50
43
40
30
30
20
0
14
10
4
0
1
DT
37
20
15
10
50
50
40
74
D.P
Figura 6
O Psicólogo estuda e trata a mente
humana - TOTAL
0
5
3
D.P
T.D
1
5
1
C.P
C.T
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
DT
D.P
T.D
C.P
C.T
Figura 7
Figura 8
O Psicólogo contribui para a saúde mental
e a qualidade de vida humana - TOTAL
O Psicólogo serve para resolver problemas que o
Psiquiatra não resolve - TOTAL
50
50
45
45
41
40
40
35
35
30
30
25
25
26
20
20
10
1
17
15
14
15
0
45
45
10
7
0
16
4
1
1
DT
D.P
T.D
C.P
C.T
DT
D.P
T.D
C.P
C.T
Em relação à Categoria 3 – Áreas de Atuação do Psicólogo, os sujeitos se mostram
bem informados em relação ao locus de trabalho do psicólogo, em termos de áreas de
atuação profissional, sendo a que obteve o maior índice de concordância, a área da
educação (n=96, Figura 9), seguido da área social (n=94, Figura 10), área da saúde
(n=93, Figura 11), área organizacional e do trabalho (n= 88, Figura 12), área clínica
(n= 73, Figura 13), área esportiva (n= 71, Figura 14) e área jurídica (n= 57, Figura
15). Importante salientar que a área clínica como área de atuação do psicólogo apareceu
com um alto índice de dúvida (n=32), bem como um nível médio de dúvida sobre a área
jurídica (n=38) e a área esportiva (n=26).
Importante destacar ainda que, segundo a percepção dos sujeitos pesquisados, os
dados coletados parecem contradizer aquilo que aponta a literatura pesquisada sobre as
áreas de maior atuação do psicólogo no Brasil e que indicavam ser a área clínica aquela
que mais absorve o profissional (Weber, Pavei & Biscaia, 2005).
Por haver um alto índice de dúvida em relação a atuação na área clínica e um
maior índice de concordância com a área da educação, seguida da área social, saúde,
organizacional e do trabalho, esportiva e jurídica, talvez possamos inferir que essas
diversas áreas mais “sociais” e “públicas”, bem como as chamadas “emergentes” tem
ganhado visibilidade e destaque para tais sujeitos pesquisados, o que lhes favorece maior
contato profissional nesses espaços, diferente de sua procura na própria clínica. No
entanto, tal hipótese poderia ser verificada em estudos posteriores, mas importa salientar
que após 10 anos daquela pesquisa referida acima, pode ter havido uma mudança sobre
a representação social sobre o psicólogo e sua área de atuação.
Essa mudança na percepção dos sujeitos pode ser atribuída ainda ao próprio
fazer do psicólogo na atualidade, deixando como locus exclusivo a clínica e atuando
especialmente junto às políticas públicas, em espaços sociais e institucionais como
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
75
CRAS, CREAS, CAPS e outros dispositivos, como fruto de uma nova postura social e
política da Psicologia engendrada a partir da década de 1990, em que “a profissão foi
sendo construída, ou melhor, inventada pelos psicólogos” de modos que “foram sendo
inauguradas práticas e novos campos, tornando a Psicologia uma profissão de interesse
social.” (Bock, 2011, p.1)4.
Figura 9
Figura 10
O Psicólogo atua na área educacional - TOTAL
60
55
60
53
50
50
41
40
41
40
30
30
20
20
10
0
O Psicólogo atua na área social - TOTAL
0
10
4
10
0
2
7
4
1
DT
D.P
T.D
1
C.P
C.T
T.D
C.P
C.T
Figura 11
Figura 12
O Psicólogo atua na área da saúde - TOTAL
O Psicólogo atua na área organizacional
e do trabalho - TOTAL
60
52
50
41
40
30
28
20
10
0
D.P
DT
0
3
1
DT
D.P
T.D
C.P
50
45
40
35
30
25
20
15
10
5
0
45
43
14
6
2
C.T
1
DT
D.P
T.D
C.P
C.T
Foge ao escopo deste trabalho, realizar uma discussão sistemática sobre os fatores sociais e políticos que
marcam essa mudança na identidade da Psicologia brasileira, especialmente, a partir da democratização do país,
da emergência dos movimentos sociais, da pulsação da Psicologia Social e Comunitária e outros fatores. Para
tal reflexão, remetemos ao leitor os textos de Bock, Ferreira, Gonçalves, & Furtado, (2007) e Bock (2011)
4
76
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Figura 13
Figura 14
O Psicólogo atua na área esportiva - TOTAL
O Psicólogo atua na área clinica - TOTAL
45
40
35
30
25
20
15
10
5
0
45
40
35
30
25
20
15
10
5
0
40
33
32
2
1
42
8
3
1
1
DT
D.P
T.D
29
26
C.P
DT
C.T
D.P
T.D
C.P
C.T
Figura 15
O Psicólogo atua na área jurídica - TOTAL
40
38
35
31
30
26
25
20
15
13
10
5
3
0
1
DT
D.P
T.D
C.P
C.T
Em relação à Categoria 4 – Características e Imagem Social do Psicólogo, a
subcategoria “O psicólogo é uma pessoa que compreende os problemas humanos” teve
alta frequência de concordância (n= 80, Figura 16), ao mesmo tempo que apareceram nas
subcategorias “O psicólogo é uma pessoa bem resolvida emocionalmente”, uma frequência
de concordância (n=39, Figura 17) bem próxima da frequência de resposta “tenho dúvida”
(n= 37, Figura 17), além uma alta frequência de discordância (n=34, Figura 17); Somando
isso à frequência de discordâncias e dúvidas relacionadas as subcategorias “O Psicólogo é
uma pessoa “complicada”, onde a maior parte dos sujeitos tiveram dúvidas ou não souberam
responder (n= 36, Figura 18), além de um nível expressivo de concordância (n=32, Figura
18), parece apontar que, mesmo não sendo uma pessoa “bem resolvida emocionalmente”
e “complicada”, é também aquele que compreende as pessoas que trata.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
77
Na subcategoria “O psicólogo é uma pessoa liberal”, para os sujeitos há uma
frequência maior de discordância (n= 42, Figura 19) que o de concordância (n=30, Figura
19), sendo que a maioria teve dúvida sobre essa condição (n=33, Figura 19).
Valendo-se de frases populares relacionadas à imagem social do psicólogo, em
relação à subcategoria “Sobre a expressão: ´de psicólogo e louco, todo mundo tem um
pouco” a concordância (n= 46, Figura 20) ficou bem próxima da discordância (n= 43,
Figura 20), mas na subcategoria “Sobre a expressão: ´psicólogo é coisa para doido” a
frequência maior foi a discordância (n= 70, Figura 21).
Esses resultados apontam uma possível “evolução” do que o público leigo pensa
sobre o psicólogo e sua função, demonstrando também que o psicólogo é visto como uma
pessoa “normal” (mesmo que “complicado” e não “bem resolvido emocionalmente”) e
se constitua num profissional que possa compreender o sujeito e lhe ajudar na sua saúde
mental, o que não se reduz a tratar de ‘doido’, confrontando certo estereótipo de que
psicólogo tem bola de cristal ou que não comete erros (Bock, 2000, citado por Praça
& Novaes, 2004, p.2). Com isso também pode-se dizer que o psicólogo é gente com
potencialidades e fragilidades humanas como os sujeitos dos quais se trata.
Tais considerações podem ser verificadas na pesquisa de Weber, Pavei e Biscaia
(2005) que discutem haver erroneamente na população uma imagem distorcida e
estereotipada em relação ao psicólogo, de modos que no referido estudo, os autores
consideram que os resultados derrubaram alguns mitos de grande parte do imaginário
social que ainda considera o psicólogo como “médico de loucos” ou que acha que
“ninguém precisa procurar um psicólogo”.
Figura 16
Figura 17
O Psicólogo é uma pessoa que compreende
os problemas humanos - TOTAL
O Psicólogo é uma pessoa bem resolvida
emocionalmente - TOTAL
60
40
56
30
40
25
30
20
24
20
13
11
10
0
24
22
15
10
15
12
5
2
0
1
DT
78
37
35
50
D.P
T.D
1
C.P
C.T
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
DT
D.P
T.D
C.P
C.T
Figura 18
Figura 19
O Psicólogo é uma pessoa “complicada” - TOTAL
40
35
36
35
20
20
15
15
10
25
25
24
25
19
33
30
30
20
O Psicólogo é uma pessoa liberal - TOTAL
8
19
17
11
10
5
5
0
0
1
DT
D.P
T.D
1
C.P
C.T
DT
Figura 20
30
20
C.T
Sobre a expressão: “psicólogo é coisa
para doido” - TOTAL
50
22
19
16
15
C.P
60
27
21
T.D
Figura 21
Sobre a expressão: “de psicólogo e louco, todo
mundo tem um pouco” - TOTAL
25
D.P
52
40
30
10
20
5
10
0
18
14
9
10
0
1
1
DT
D.P
T.D
C.P
C.T
DT
D.P
T.D
C.P
C.T
Na penúltima categoria 5, sobre Formas e modos de trabalho do Psicólogo a
frequência de respostas dos sujeitos parece apontar um certo entendimento por parte dos
leigos sobre os instrumentos de trabalho utilizados pelos psicólogo, sendo as maiores
concordâncias: “O Psicólogo utiliza de técnicas de dinâmica de grupo em seu trabalho”
(n= 80, Figura 22), “O Psicólogo utiliza da escuta em seu trabalho” (n= 76, Figura 23),
“O Psicólogo utiliza de testes em seu trabalho” (n=75, Figura 24), com o destaque na
subcategoria “O Psicólogo utiliza de conselhos em seu trabalho” com uma alta frequência
de concordância (n= 83, Figura 25), o que nos remete a certo imaginário persistente de
que uma das atribuições do psicólogo é a de ser conselheiro.
A prevalência de “conselhos” como modo de atuação do psicólogo ainda permanece
forte não apenas em sujeitos sem contato direto com aquele profissional, mas ocorre
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
79
também em estudantes de psicologia, o que se constitui num forte elemento imaginário
que persiste no tempo. Já as “técnicas de dinâmicas de grupo” como métodos/formas
de atuação do psicólogo, apareceram como destaque e atribuímos isso a uma maior
visibilidade da atuação do psicólogo junto aos diversos grupos e organizações e, talvez,
a uma postura mais social e menos individualizante, embora a imagem do “aplicador de
teste” ainda perdure de acordo com a percepção dos sujeitos, o que pode ser atribuído
em grande parte à tradição que marcou o nascimento da psicologia e sua inserção no
Brasil, onde marcadamente emergiu como ciência atrelada à psicometria, forjando um
imaginário social acerca de seus métodos. (Bock, 2011).
Figura 22
Figura 23
O Psicólogo autiliza testes
em seu trabalho - TOTAL
O Psicólogo utiliza técnicas de dinâmica
de grupo em seu trabalho - TOTAL
50
45
40
35
30
25
20
15
10
5
0
44
36
24
4
2
45
40
35
30
25
20
15
10
5
0
41
34
23
5
1
1
DT
D.P
T.D
C.P
C.T
DT
Figura 24
T.D
C.P
60
49
50
31
40
34
30
22
20
6
C.T
O Psicólogo utiliza conselhos
em seu trabalho - TOTAL
45
10
6
14
7
5
0
1
1
DT
80
D.P
Figura 25
O Psicólogo utiliza escuta
em seu trabalho - TOTAL
50
45
40
35
30
25
20
15
10
5
0
4
D.P
T.D
C.P
C.T
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
DT
D.P
T.D
C.P
C.T
Em relação à Categoria 6 – Relação Psicologia e Outros Campos de Saber, as
respostas para as afirmações: “A religião resolve os problemas em que a psicologia
atua” teve frequência de concordância maior (n= 41, Figura 26), embora quase a
mesma frequência tenha dúvida (n=35, Figura 26), ou seja, a grande maioria de sujeitos
preferem procurar na religião a solução para seus problemas psíquicos, enquanto uma
grande parcela tenha dúvida sobre o que procurar, o que parece também ignorar a
função que cabe à psicologia em seu diferencial da religião.
Na subcategoria “A psiquiatria resolve os problemas em que a psicologia atua” a
frequência de concordância (n=38, Figura 27) foi menor que a de dúvida (n=43, Figura
27), parecendo sinalizar certa indiferenciação entre essas duas categorias profissionais;
Na subcategoria “A filosofia resolve problemas em que a psicologia atua”, prevaleceu
uma alta frequência de dúvida (n=44, Figura 28) em relação às outras opções, apontando
ainda uma possível indiferenciação desses dois campos de saberes.
Já na subcategoria “A própria pessoa resolve os problemas em que a psicologia
atua”, a maior parte dos sujeitos tinha dúvidas (n=38, Figura 29), enquanto aparece
um nível similar de concordância (n=35, Figura 29), o que parece apontar que, apesar
de considerar importante o papel do psicólogo, ainda se tem dúvida de procurá-lo
para resolver seus problemas. Aliás, amigos e familiares tiveram a maior frequência
de concordância (n=48, Figura 30) quando se afirmou na subcategoria “Amigos e
familiares resolvem problemas em que a psicologia atua”, embora diante de um alto
índice de dúvida (n=32, Figura 30).
Nesta categoria pode-se observar que os entrevistados ainda encontram na religião
ou em outros saberes a resolução de seus problemas, não dando exclusividade ao
Psicólogo, o que, de certa forma, ocorre pelo fato da proximidade histórica de funções
que as pessoas atribuem ao psicólogo e que se aproxima de demais papéis como de
líderes religiosos, médicos, amigos, (Sarriera & Ribeiro, 1997, citado por Censi, 2006).
Nesse sentido, é importante ressaltar que na pesquisa de Weber (1991), a maior parte
da amostra não conseguiu definir psicologia ou não a consideram como ciência, o que
pode influenciar na descredibilidade do profissional psicólogo.
Assim, pode-se entender que, a partir da representação social do psicólogo
apontadas nas frequências de respostas dos sujeitos, ao trabalhar sob influência do
modelo médico e sacerdotal, os processos de ancoragem e objetificação auxiliam
na construção da representação social da psicologia, pois os sujeitos ancoram o
desconhecido, o distante e não familiar, em algo que conhecem, ou seja, o trabalho
do médico, sendo que tal lógica pode ser aplicada ao sacerdote, a outras categorias
profissionais que guardam similaridades e de certa forma ao amigo.
O próprio fazer do psicólogo, devido aos múltiplos objetos, teorias e metodologias
que fundam a sua ciência e profissão, vão marcando sua identidade multifacetada e
produzindo uma representação social também diversificada na sociedade, na academia
e no próprio meio psi, de modos que, “os discursos e fazeres dos psicólogos repercutem
crenças, desconfianças, interesses, projetos, necessidades e expectativas socialmente
enraizadas“ (Tourinho et al., 2004, p.23).
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
81
Figura 26
Figura 27
A religião resolve os problemas em que
a psicologia atua - TOTAL
A psiquiatria resolve os problemas
em que a psicologia atua - TOTAL
40
50
45
40
35
30
25
20
15
10
5
0
35
35
30
25
20
22
22
19
15
9
10
5
0
1
DT
50
45
40
35
30
25
20
15
10
5
0
D.P
T.D
C.P
43
19
9
1
C.T
DT
T.D
C.P
C.T
Figura 29
A filosofia resolve os problemas
em que a psicologia atua - TOTAL
A própria pessoa resolve os problemas
em que a psicologia atua - TOTAL
40
38
35
30
25
21
22
20
21
17
15
16
17
13
10
6
5
0
1
DT
D.P
T.D
1
C.P
C.T
DT
Figura 30
Amigos e familiares resolvem os problemas
em que a psicologia atua - TOTAL
35
32
31
30
25
20
15
15
17
14
10
5
0
1
DT
82
D.P
Figura 28
44
19
14
D.P
T.D
C.P
C.T
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
D.P
T.D
C.P
C.T
Conclusão
A Psicologia como uma ciência e profissão tem conquistando mais espaço social,
profissional e político, estando, portanto, em constante aprimoramento no Brasil, desde
que ganhou oficialidade em 27 de agosto de 1962, entretanto, nesses cinquenta anos
ainda não produziram uma plenitude de compreensão sobre seu papel e natureza junto à
sociedade, ao chamado “senso comum”, mesmo que este seja um público universitário.
Caberia indagar se tal “plenitude” será alcançada um dia, posto que uma representação
social de qualquer fenômeno, seja de uma profissão e de seu profissional, modificam de
forma dinâmica no próprio campo científico-profissional e na interação social.
Podemos concluir, tomando por base nos dados junto aos 110 sujeitos de ambos
estudantes universitários de uma faculdade privada de Cacoal-RO, que a representação
social da Psicologia enquanto ciência e do Psicólogo enquanto profissional, possui os
seguintes traços constitutivos: há um reconhecimento da importância do profissional
psicólogo e de sua ciência, especialmente no cuidado da saúde mental; em relação às
atribuições do psicólogo, este estuda e trata as emoções humanas, a mente humana, os
relacionamentos humanos, no entanto, os sujeitos não diferenciam bem a especificidade
da Psicologia em relação a outros conhecimentos e disciplinas, como a Psiquiatria, a
Filosofia e a Religião.
Em relação à percepção sobre as áreas de atuação da psicologia, a área clínica já não
é tão predominante como em alguns anos, apresentando um maior índice de concordância
com a percepção da presença profissional na área da educação, área social, da saúde,
organizacional e do trabalho, esportiva e jurídica, talvez por serem áreas mais “sociais”
e “públicas”, o que pode favorecer um maior contato com o profissional e que aponta
uma nova face social da Psicologia engendrada nas três últimas décadas. Esse mesmo
público leigo vê o psicólogo como uma pessoa “normal” (e mesmo que “complicado” e
não “bem resolvido emocionalmente”) e como um profissional que pode compreender o
sujeito e lhe ajudar na sua saúde mental, o que não se reduz a tratar de ‘doido’, tal como
apontam certos estereótipos (“psicólogo é para louco”, por exemplo).
Em relação às formas e métodos utilizados, para os sujeitos pesquisados, o psicólogo
utiliza de técnicas de dinâmica de grupo, da escuta, de testes e de conselhos em seu
trabalho, sendo que essa última representação nos remete à persistência de um imaginário
desse profissional como conselheiro.
Já em relação à especificidade da atuação da Psicologia, especialmente em relação
a outros saberes ou campos, seja a religião, a psiquiatria, a própria pessoa, os amigos e
a família, foram apontados como possíveis solucionadores dos problemas dos sujeitos,
embora haja uma afirmação da importância da Psicologia, mas sob algumas dúvidas sobre
sua efetividade, o que pode indicar um possível desconhecimento ou indiferenciação
entre esses elementos e saberes.
A referente pesquisa abrange apenas uma pequena amostra da população
universitária da região de Cacoal-RO, embora significativa estatisticamente sobre o
público da faculdade escolhida, com o objetivo de verificar a visão desse público leigo
para com o profissional psicólogo e com própria profissão de psicologia. Nesse sentido,
destacamos o alcance da pesquisa para o âmbito local e micro-regional, mas também
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
83
seu limite e a não pretensão de grandes generalizações para outros contextos e públicos;
apontamos e defendemos, portanto, a necessidade de novas investigações que investiguem
tanto a mesma categoria de sujeitos, como outras categorias profissionais, com recorte
de gênero, estrato socioeconômico e geografia, de modos a obtermos um quadro mais
amplos sobre as representações sociais sobre a Psicologia e o Psicólogo.
Finalmente, entendemos que, para ser reconhecida pelo público em geral, pode
ser necessário uma maior divulgação desta ciência e profissão, com o incentivo das
universidades, dos Conselhos de classe e dos próprios profissionais em realizar pesquisas
e campanhas que favoreçam o conhecimento e a credibilidade do saber psicológico,
além de trabalhos que desmistifiquem as diversas imagens e estereótipos do profissional
Psicólogo e da ciência/profissão Psicologia.
Importa salientar, finalmente, que a Psicologia é uma ciência ainda jovem e uma
profissão mais jovem ainda e, portanto, em construção no país, tornando-se cada vez
mais conhecida e importante na dinâmica social, embora carregada de estereótipos e
incompreensões, até que, enfim, possa se tornar numa “ciência da vida cotidiana”.
Referências
Araújo, M. C. (2008). A teoria das representações sociais e a pesquisa antropológica.
Revista Hospitalidade. 2(1), 98-119.
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
85
ANEXOS
UNESC
Faculdades Integradas de Rondônia
Graduação em Psicologia
E-Mail: [email protected]
– Internet: www.unescnet.br
Ψ
PESQUISA EM PSICOLOGIA:
“CULTURA PSI NA AMAZÔNIA OCIDENTAL”: REPRESENTAÇÕES
SOCIAIS SOBRE A PSICOLOGIA E O PSICÓLOGO EM UNIVERSITÁRIOS
DE UMA FACULDADE PRIVADA DE CACOAL-RO
QUESTIONÁRIO SOCIODEMOGRÁFICO
I – IDENTIFICAÇÃO
Nome: ________________________________________________________________
______________________________________________________________________
II – DADOS SOCIODEMOGRÁFICOS
1- Idade: ____________
2 - Estado civil: ( ) Solteira/o ( ) Casada/o ( ) Separada/o ( ) Viúva/o ( ) União estável
3- Escolaridade:
( ) Nenhuma
( ) Ensino Fundamental: ( ) Incompleto ( ) Completo
( ) Ensino Médio: ( ) Incompleto ( ) Completo
( ) Ensino Superior: ( ) Incompleto ( ) Completo
4 - Profissão/ocupação
(atual):_________________________________________________________________
5 - Renda Familiar:
( ) Menos de um salário mínimo
( ) De 1 a 3 salários
( ) De 4 a 7 salários
( ) Acima de 10 salários
6 - Tem filhos: ( ) Sim ( ) Não – Quantos: _______
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
87
13- O psicólogo atua na área organizacional e do trabalho
12- O psicólogo atua na área social
11- O psicólogo atua na área educacional
10- O psicólogo atua na área da saúde
9 – O psicólogo atua na área clínica
8- O psicólogo serve para resolver problemas que o psiquiatra não resolve
7- O psicólogo contribui para a saúde mental e qualidade de vida humanas
6- O psicólogo estuda e trata dos relacionamentos humanos
5- O psicólogo estuda e trata das emoções humanas
4- O psicólogo estuda e trata a mente humana
3- O psicólogo estuda e trata do comportamento humano
2- A Psicologia e o Psicólogo são importantes para a saúde mental das pessoas
1- A Psicologia e o Psicólogo tem importância na sociedade
Afirmativas
Discordo
Totalmente
Discordo
Parcialmente
Tenho dúvida
Concordo
Parcialmente
Instruções
Apresentaremos diversas frases relacionadas à Psicologia e ao Psicólogo.
Pedimos que leia atentamente e marque na coluna à direita, a resposta que melhor represente a sua opinião.
Concordo
Totalmente
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS SOBRE A PSICOLOGIA E O PSICÓLOGO EM UNIVERSITÁRIOS DE UMA
FACULDADE PRIVADA DE CACOAL-RO
FORMULÁRIO
88
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Cacoal, _____de _________________de 2013
–
Discordo
Totalmente
Discordo
Parcialmente
Assinatura:_________________________________
30- Amigos e familiares resolvem os problemas em que a Psicologia atua
29- A filosofia resolve os problemas em que a Psicologia atua
28- A própria pessoa resolve os problemas em que a Psicologia atua
27- A psiquiatria resolve os problemas em que a atua
26- A religião resolve os problemas em que a Psicologia atua
25- O psicólogo utiliza de conselhos em seu trabalho
24- O psicólogo utiliza de dinâmicas em seu trabalho
23- O psicólogo utiliza de testes em seu trabalho
22- O psicólogo utiliza da escuta em seu trabalho
21- Sobre a expressão: “de psicólogo e louco, todo mundo tem um pouco”
20- Sobre a expressão: “psicólogo é coisa para doido”
19- O psicólogo é uma pessoa liberal
18- O psicólogo é uma pessoa “complicada”
17- O psicólogo é uma pessoa que compreende os problemas humanos
16- O psicólogo é uma pessoa bem resolvida emocionalmente
15- O psicólogo atua na área esportiva
14- O psicólogo atua na área jurídica
Afirmativas
Tenho dúvida
Concordo
Parcialmente
Concordo
Totalmente
UNESC
Faculdades Integradas de Rondônia
Graduação em Psicologia
E-Mail: [email protected]
– Internet: www.unescnet.br
Ψ
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
TÍTULO DA PESQUISA: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS SOBRE A
PSICOLOGIA E DO PSICÓLOGO EM UNIVERSITÁRIOS DE UMA
FACULDADE PRIVADA DE CACOAL-RO
Prezado Sr(a),
Você está sendo convidado a participar de uma pesquisa que estudará e Identificaráas
representações sociais que a população tem a respeito da profissão Psicologia e o
profissional Psicólogo.
• A sua participação nesse estudo consiste em oferecer informações que se dará
através de um questionário.
• Seus dados pessoais e outras informações que possam lhe identificar serão
mantidos em sigilo e os resultados gerais obtidos nesta pesquisa serão utilizados apenas
para alcançar os objetivos propostos.
• Sua participação é muito importante e voluntária. Você não terá nenhum gasto
e também não receberá nenhum pagamento por participar desse estudo.
As informações obtidas nesse estudo serão confidenciais, sendo assegurado o sigilo
sobre sua participação, quando da apresentação dos resultados em publicação científica
ou educativa, uma vez que os resultados serão sempre apresentados como retrato de um
grupo e não de uma pessoa. Você poderá se recusar a participar ou a responder algumas
das questões a qualquer momento, não havendo nenhum prejuízo pessoal se esta for a
sua decisão.
Os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido, assinados pelos sujeitos da
pesquisa, deverão, obrigatoriamente, ser arquivados pelo pesquisador responsável,
durante um período mínimo de 5 (cinco) anos após o encerramento do estudo (Res.
CNS 196/96 – Item IX.2.e).
Os resultados dessa pesquisa servirão para conhecimento acadêmico e científico
sobre as representações sociais da população de Cacoal-RO a respeito da Psicologia e
do profissional de psicologia.
Você receberá uma cópia deste termo onde consta o telefone e o endereço do
pesquisador responsável, podendo tirar suas dúvidas sobre o projeto e sua participação,
agora ou a qualquer momento, com o Pesquisador responsável: Prof. Ms. Cleber Lizardo
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
89
de Assis e a Acadêmica de Psicologia Gessica Alves de Souza Matthes. Rua dos Esportes,
1038, Incra, Cacoal – RO, Tel. (69) 3441-4503
Cacoal, ____ de ________________ de 2013.
Dou meu consentimento de livre e espontânea vontade para participar deste
estudo.
Nome do participante:_______________________________________________
Assinatura do participante:____________________________________________
Data:____/_____/_____
Obrigado pela sua colaboração e por merecer sua confiança.
Nome do Pesquisado-: Cleber Lizardo de Assis
Assinatura do pesquisador:____________________________________________
Data:____/_____/_____
_____________________________
Recebido em agosto de 2014
Aceito em janeiro de 2015
Cleber Lizardo de Assis: Mestre em Psicologia/PUC-MG, Professor das Faculdades Integradas de CacoalUNESC/RO; Doutorando em Psicologia, USAL/AR.
Géssica Alves de Souza Matthes: Graduanda em Psicologia pelas Faculdades Integradas de Cacoal- UNESC/RO.
Endereço para contato: [email protected]
90
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Aletheia 43-44, p.91-104, jan./ago. 2014
Equilibristas embriagados: a dinâmica familiar alcoolista
pelos vieses da Psicoterapia Familiar Sistêmica
Marciana Zambillo
Cláudia Mara Bosetto Cenci
Resumo: Apresenta-se, a partir da psicoterapia familiar sistêmica, um estudo de caso de uma
família com um de seus membros identificado com problemas relacionado ao uso abusivo de
álcool. Tem-se como objetivo compreender como o desenvolvimento do sintoma (usar e abusar de
álcool) retroalimenta a homeostase familiar a partir de um estudo de caso. A coleta dos dados foi
realizada a partir do atendimento psicoterápico ocorrido durante 20 sessões em uma clínica-escola de
Instituição de Ensino Superior. O estudo demonstrou que o uso abusivo de álcool se desenvolve como
sintoma familiar para encobrir conflitos ou disfunções nas relações. No caso da família estudada,
o sintoma encobria a comunicação disfuncional. O desejo e a busca por abstinência ocorria, mas a
manutenção da mesma era incerta, uma vez que se fazia necessária para a homeostase do sistema. A
partir da intervenção pode-se considerar que as mudanças na família são possíveis, houve definição
e demarcação das fronteiras do sistema e subsistema familiar, desde que haja reflexão, construção
de novos significados e transformações no modo de funcionar da família como um todo. Neste
estudo foram atingidos uma melhora na expressão dos afetos, abertura para comunicação assertiva,
entendimento da corresponsabilidade no sistema familiar.
Palavras-chave: uso abusivo de álcool; dinâmica familiar; psicoterapia familiar sistêmica.
Drunken juggler: The alcoholic family dynamics by biases of Systemic
Family Psychotherapy
Abstract: Presents, from the systemic family therapy, a case study of a family with one member
identified as related to alcohol abuse problems. Has been aimed at understanding the development of
the symptom (use and abuse of alcohol) feeds back the family homeostasis from a case study. Data
collection was conducted from psychotherapy occurred during 20 sessions in a clinical school of
Higher Education Institution. The study showed that alcohol abuse develops as a family symptom
to cover dysfunction or conflicts in relationships. In the case of the family studied, the symptom
covered the dysfunctional communication. The desire to search for the withdrawal occurred, but
maintaining it was uncertain since it was required for the homeostasis of the system. From the
intervention can be considered that changes in the family are possible, was the definition and
demarcation of the boundaries of the system and subsystem family, provided there is reflection,
construction of new meanings and transformations in the way of functioning of the family as a
whole. This study achieved an improvement in the expression of affect, openness to assertive
communication, understanding of responsibility in the family system.
Keywords: alcohol abuse; family dynamics; systemic family psychotherapy.
Introdução
A família pode ser considerada como instituição social, passível de ser reconhecida
e analisada por diferentes enfoques teóricos. Neste artigo, propõe-se analisá-la e
compreendê-la sob a ótica da Psicologia Sistêmica. A Teoria Psicológica Sistêmica
entende a família como um sistema social aberto composto por elementos em constante
interação, que estabelece trocas com o exterior e com a realidade circundante, interagindo
duplamente com o externo, levando para ele e trazendo dele influências gerais. Essas
interações e trocas cotidianas fazem da família um sistema dinâmico, em constante
mudança. Mudanças que surgem como forma de sobreviver, adaptar-se e superar possíveis
dificuldades que possam afetar a dinâmica do sistema ao longo do seu desenvolvimento
no ciclo de vida familiar.
O que é pensamento sistêmico? Vasconcellos (2005) responde este questionamento
destacando três dimensões, que, segundo ela constituem uma visão de mundo sistêmico.
São elas: a) Complexidade: É ver e pensar as relações existentes em todos os níveis da
natureza e buscar sempre a compreensão dos acontecimentos (sejam físicos, biológicos
ou sociais) em relação aos contextos em que ocorrem; b) Instabilidade: É ver sempre
o dinamismo das situações, pois o mundo está constantemente no “processo de tornarse” sendo assim configura-se em imprevisível e incontrolável. Entretanto, é necessário
acreditar nos recursos de auto-organização dos sistemas e em suas possibilidades de
mudança e evolução dos mesmos; c) Intersubjetividade: É reconhecer que não existem
realidades objetivas, elas são construídas na interação com o mundo. Estas realidades
vão se instalando e agindo também recursivamente sobre as interações com situações
e pessoas.
Vasconcellos (2002) ressalta que quando se refere ao pensamento sistêmico já está
se reportando a um pensamento construtivista, ou seja, pressuposto epistemológico da
intersubjetividade, da crença que a realidade é uma construção partilhada individual e
coletivamente. Para atingir o pensamento sistêmico é necessário fazer a ultrapassagem
de três pressupostos epistemológicos constituintes do paradigma da ciência tradicional,
ou seja, a) do pressuposto da simplicidade para o pressuposto da complexidade: o
reconhecimento de que a simplificação obscurece as inter-relações e que é imprescindível
ver e lidar com a complexidade do mundo em todos os seus níveis; b) do pressuposto da
estabilidade para o pressuposto da instabilidade do mundo: o reconhecimento de que o
mundo é um constante processo de tornar-se e que a considerações de indeterminação,
irreversibilidade e incontrolabilidade desses fenômenos; c) do pressuposto da objetividade
para o pressuposto da intersubjetividade na construção do conhecimento do mundo: o
reconhecimento de que não existe uma realidade independente de um observador e, de
que, o conhecimento científico do mundo é construção social.
Entende-se o uso abusivo e dependente de álcool como um fenômeno complexo,
multifacetado e multifatorial e nesta compreensão, o alcoolismo é entendido como um
sintoma de crise nas relações interpessoais. Isto é, o uso abusivo ou dependente do álcool
denuncia que algo no sistema familiar está disfuncional, o que não é entendido como
uma patologia individual, mas como um sintoma que ao mesmo tempo possui a função
de encobrir uma dificuldade familiar denuncia a necessidade de mudança nas relações
interpessoais, pois os indivíduos da família nuclear estão em sofrimento psíquico seja de
forma explícita pelo pedido de auxílio ou de forma implícita. O sintoma em um membro
da família (Nichols & Schwartz, 2006/2007) pode ter uma função estabilizadora, ou seja,
homeostática beneficiando a interação familiar. Considera-se assim, não o indivíduo com
92
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
necessidades relacionadas ao consumo de álcool, mas a família com estas necessidades.
Dentre as intervenções psicoterapêuticas possíveis, está o modelo de entendimento e
tratamento proposto pela Terapia Familiar Sistêmica, que indica o tratamento para toda
a família e não apenas ao indivíduo identificado com problemas relacionado ao uso e
abuso de álcool. Dessa forma, no tratamento buscar-se comprometer todos os membros
da família na busca por mudanças, resultando num sistema familiar mais engajado e
menos fragmentado para o enfrentamento da problemática relacional.
Esse estudo de caso apresenta a compreensão e análise das questões investigadas
a partir de uma intervenção psicoterápica familiar sistêmica com uma família com
problemas decorrentes do uso e abuso de álcool encaminhada para atendimento familiar
numa instituição de ensino superior com o intuito de auxiliar a família no entendimento
de sua coparticipação no padrão de funcionamento das relações intrafamiliares. A partir
do atendimento familiar acredita-se que a família reconhece e desenvolve habilidades
relacionais para o enfrentamento do uso abusivo de álcool possibilitando assim a proteção
não só da família atendida, mas também das novas gerações oriundas desta que terão a
oportunidade de desenvolver melhor qualidade de vida.
O estudo de caso é entendido (Serralta, Nunes & Laks Eizirik, 2011) como um
subtipo de pesquisa que utiliza uma estratégia de investigação naturalística e flexível.
Neste estudo utilizou-se o estudo de caso único que se caracteriza por ser um fenômeno
individual, particular e complexo. Sendo assim o caso é entendido como uma unidade
específica, um sistema cujas partes estão integradas. Cabe ressaltar que um estudo de
caso envolve análise do conteúdo do caso em profundidade, nos quais o pesquisador
está interessado em obter qualidade de dados, em um número limitado de participantes
exigindo descrições cuidadosas e detalhadas. Yin (2010) ressalta que o estudo de
trabalhar a subjetividade na busca de conhecimento científico, que não há possibilidade
de generalização dos resultados assim como não possui um único e claro conjunto de
resultados.
Tem-se como objetivo compreender como o desenvolvimento do sintoma (usar
e abusar de álcool) retroalimenta a homeostase familiar a partir de um estudo de caso
familiar.
Método
O presente estudo define-se como estudo de caso, por permitir uma percepção da
realidade a partir dos ensinamentos advindos de referencial teórico e das características
próprias do caso a ser estudado. Conforme Pereira, Godoy e Terçariol (2009), oferece a
possibilidade de alargamento da visão, apreendendo o indivíduo em sua integridade e em
seu contexto, permitindo a análise da dinâmica dos processos em sua complexidade. Por
se tratar de um procedimento de pesquisa qualitativa, não busca generalizar os resultados
que alcança no estudo, nem a criação de modelos que se pretendam universais e, sim,
uma forma maior aproximação com a realidade.
A família que participou deste estudo de caso chegou ao atendimento, no serviço
que se configura como uma clínica escola de uma faculdade do Rio Grande do Sul, por
encaminhamento feito pela psicóloga responsável de uma instituição psiquiátrica na
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
93
qual Pedro1 esteve internado para tratamento do uso abusivo de álcool. Os atendimentos
iniciaram após a alta de Pedro. As sessões de psicoterapia foram realizadas com Pedro (60
anos), sua esposa Joana1 (60 anos) e seu filho José1 (32 anos). Esporadicamente, Laura1
(08 anos), neta do casal e sobrinha de José, se fazia presente.
Os instrumentos utilizados foram um aparelho mp3 para a gravação em áudio de
todas as sessões, a transcrição de todas as sessões e o genograma da família, através
do qual foi possível obter uma visão ampliada histórico-contextual familiar, visando
registrar, segundo McGoldrick, Gerson e Petry (2012), informações sobre os membros
da família e suas relações em pelo menos três gerações. Este instrumento exibe dados
familiares de forma a possibilitar o entendimento dos padrões familiares, das interações,
levantando hipótese sobre os problemas que se desenvolvem no contexto da familiar ao
longo do tempo.
O caso foi atendido de março a dezembro de 2012, em sessões semanais, com
duração de uma hora e trinta minutos cada sessão (foram realizadas 20 sessões) na
clínica-escola. Os atendimentos foram realizados por duas estagiárias do curso de
psicologia, pertencentes ao grupo de psicoterapia familiar sistêmica. O atendimento em
dupla, numa coterapia, refere-se ao funcionamento das sessões com, no mínimo, dois
estagiários psicoterapeutas de família em igual nível hierárquico e poder de decisão.
Todos os atendimentos foram gravados em áudio, posteriormente transcritos e discutidos
semanalmente pela equipe de supervisão, composta por uma professora supervisora e
outros estagiários do atendimento sistêmico. Durante o processo terapêutico, em uma
das sessões, toda a equipe participou do atendimento, estando presente na sala de Gesell
(sala de espelhos), interagindo com a família e com a dupla terapêutica que estava sendo
observadas. O projeto de pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em
Pesquisa de uma Instituição de Ensino Superior do Rio Grande do Sul. A família foi
convidada a participar da pesquisa no primeiro encontro, após lhe foi apresentado o
funcionamento da instituição, os procedimentos quanto aos atendimentos e solicitada a
assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
A dinâmica da família com problemas relacionados ao uso abusivo de álcool pela
perspectiva da terapia familiar sistêmica
A família enquanto instituição social e de laços afetivos, segundo Dessen (2010)
passou por diversas configurações, mudanças e adaptações de acordo com cada contexto
sociocultural e histórico. Desta forma, também houve uma gama de possibilidades
teóricas que se empenharam em compreendê-la e analisá-la, sendo a teoria psicológica
sistêmica familiar uma delas. A Teoria Psicológica Sistêmica, de acordo com Farinha
(2005), é extraída da Teoria Geral dos Sistemas de Von Bertalanffy, que por sua vez,
parte do pressuposto de que os sistemas funcionam de forma aberta, dinâmica com ordens
e processos em constante interação que se influenciam reciprocamente. Alves (2003)
explica que é aberto porque estabelece trocas com o exterior e com o meio que o rodeia,
interagindo duplamente, levando para ele e trazendo dele influências gerais.
1
Todos os nomes e sobrenomes contidos nesse artigo são fictícios e não fazem qualquer referência aos nomes
originais.
94
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
A racionalidade sistêmica, de acordo com estudos de Ponciano e Carneiro (2006) e
Costa (2010), compreende que se deve considerar mais o todo que a soma de suas partes,
e cada parte só pode ser entendida no contexto de um todo, ou seja, as mudanças que
acometem alguma parte, afeta, de alguma forma, todas as outras partes. Isso acontece,
pois o sistema é formado de elementos atuantes e interdependentes que respondem um ao
outro de forma autocorretora, funcionando como um complexo de elementos colocados
em interação. Assim, a problemática do uso abusivo do álcool não é encarada como uma
demanda particular, mas de todo o sistema familiar.
Nesta perspectiva, Sudbrack (2010) destaca que não é possível entender a família
por meio da análise individual de um único membro. Faz-se necessário, identificar
os padrões e relações interpessoais estabelecidos entre os familiares, considerando os
diferentes subsistemas que compõem o sistema familiar. Segundo Alves (2003), a família
é formada por diversos subsistemas tais como: (a) conjugal (marido e mulher) – é o
espaço privado de suporte afetivo e emocional do casal; (b) parental (pais e filhos) – cuja
principal função é facilitar o adequado desenrolar do processo evolutivo e promover a sua
educação e socialização. É necessária uma grande flexibilidade e uma constante evolução
e adaptação às diferentes fases do desenvolvimento humano; (c) fraternal (conjunto de
irmãos) – primeiro grupo onde a criança aprende a funcionar interpares, a negociar, a
competir, a fazer aliados, etc.
Os subsistemas têm fronteiras que, segundo Carneiro (1996), definem quem pode
ou não participar deles. Para que o funcionamento familiar seja adequado, estas fronteiras
devem ser nítidas. De acordo com Minuchin (1982), quando as fronteiras, os limites dos
papéis e subsistemas não são claros, podem colocar a família em duas extremidades
opostas e disfuncionais, numa ponta famílias emaranhadas, noutra desmembradas. Nas
famílias emaranhadas, as fronteiras entre gerações e indivíduos são difusas, mal definidas,
enquanto a fronteira com o exterior é rígida, havendo um mito de unidade que tolera
poucas diferenças na individualização; são sistemas relativamente fechados e isolados
em relação ao meio. A ligação afetiva é muito forte ou ligada, muita lealdade e muita
dependência. Já as famílias desmembradas, de acordo com Minuchin (1982), tendem a
ser excessivamente abertas, os papéis parentais são instáveis, apesar de uma aparente
rigidez. As famílias saudáveis emocionalmente, segundo Carneiro (1996), possuem
fronteiras claras. Se as fronteiras entre os subsistemas familiares são claras as famílias
possuem um nível de comunicação e interação que facilita as trocas interacionais e assim
aumenta o nível de qualidade relacional e psíquica.
Os padrões relacionais, de acordo com Sudbrack (2010), estão em constante
mudança, já que a família é uma estrutura em movimento contínuo. Para manter o estado
de equilíbrio, o sistema modifica-se e adapta-se às mudanças internas e externas. Quando
a família não consegue adaptar-se a essas mudanças e o equilíbrio se vê ameaçado,
instaura-se uma crise no funcionamento relacional. Steinglass (1971, apud Alves,
2003) desenvolveu um modelo de funcionamento familiar que representa relações de
codependência. Este modelo pressupõe que os membros da família interagem uns com
os outros regidos por leis de equilíbrio comparáveis às da física. Essa crise, diz Sudbrack
“se expressa por intermédio do comportamento inadequado ou do sofrimento de um
dos membros que assume este lugar, denominado ‘paciente identificado (PI)’” (2010,
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
95
p. 928). O papel do paciente identificado é garantir o equilíbrio do sistema e denunciar
a necessidade de mudança nas relações familiares. O PI, segundo Burd (2004) passa
a ser o único motivo do sofrimento da família, ele precisa ser cuidado e protegido por
ela. A doença desvia a atenção da família do momento de mudanças que precisam ser
realizadas.
A doença emerge, pontua Mello Filho (2004), como resultante dos conflitos
familiares subjacentes. O PI passa a funcionar como ‘bode expiatório’ dos problemas
familiares não resolvidos. Essa doença aparece em configurações familiares patológicas
que propiciam a descompensação de um ou mais membros. Quando um membro deste
sistema exibe uma doença identificável, protege os demais membros, permanecendo
estes, sadios.
O uso de álcool e outras drogas, de acordo com Caputo e Bordin (2008) e
Brusamarello, Sureki, Borrile, Roehrs e Maftum (2008), é um mecanismo desenvolvido
na tentativa de focar a atenção da família no sujeito adicto e não na resolução da crise no
sistema familiar que é anterior ao uso abusivo ou dependente.
Para Sudbrack, (2010, p. 930) “a dependência de produtos tóxicos encobre, na
maior parte das vezes, dependências relacionais e, em certos casos, mascara distúrbios
severos de natureza psiquiátrica”. O autor destaca que não há um indivíduo adicto, mas
sim um sistema adicto, que envolve pelo menos uma pessoa além do usuário da substância
psicoativa, e estes são chamados codependentes.
Conforme a teoria sistêmica, as relações entre o álcool e família não se resumem
exclusivamente aos efeitos negativos da dependência em si. De acordo com Alves (2003) o
uso abusivo de álcool tem sua origem nas comunicações disfuncionais entre os membros da
família. Em outras palavras, as perturbações comunicacionais dificultam o funcionamento
e a possibilidade de cumprir as funções familiares. Assim, a problemática envolvendo
o álcool poderia reduzir transitoriamente as tensões familiares e paradoxalmente,
aumentando a curto, e às vezes mesmo em longo prazo, a estabilidade familiar.
Alves (2003), compila diferentes estudos e autores que pensaram o uso abusivo de
álcool a partir de uma perspectiva sistêmica, destacando Ewinge e Fox (1968), Steinglass
(1971), Davis (1974), Gacic (1977) e Aleksic e Gacic (1981). De modo geral, os autores
são unânimes ao ver no o uso abusivo de álcool um mecanismo homeostático, com
efeitos adaptativos, que permite a família manter certo equilíbrio e resistir à mudança,
ajudando a manter a coesão familiar. Também consideram o uso abusivo de álcool como
um sintoma da comunicação, classificando as comunicações na família alcoólica como
disfuncionais, superficiais e incongruentes.
Segundo Alves (2003), o tratamento direcionado ao o uso abusivo de álcool na
década de 40, centrava-se nos modelos moral e médico individual. Na década de 50, com
a perspectiva biopsicossocial, é dada mais atenção ao cônjuge do alcoolista e na década
de 70, finalmente, a todo o sistema familiar.
É devido a esse entendimento, diz Sudbrack (2010), que a perspectiva sistêmica
propõe que a família toda seja envolvida no tratamento e não apenas o paciente identificado,
pois toda a família é responsável pelo sintoma. Para Falceto (2008) a justificativa de se
tratar toda a família é com base no argumento da retroalimentação constante em todos os
movimentos realizados pelos integrantes do núcleo familiar. A mudança de um membro
96
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da família interfere nos demais e o movimento da família interfere na atitude de um
membro desta família.
Apresentação do caso
A família foi encaminhada para atendimento clínica-escola em questão por uma
clínica psiquiátrica, na qual Pedro estava internado para tratamento do uso dependente
de álcool pela segunda vez em 4 meses. Pedro explica que um dos critérios propostos
pela clínica para receber alta da internação seria o início de um processo psicoterápico
familiar.
Pedro é o primeiro filho de 13 irmãos, todos filhos biológicos. Seu pai era alcoolista
e dono de um bar. Aos 14 anos Pedro saiu da casa dos pais e passou trabalhar e morar em
granjas. Nesta época, teve as primeiras experiências com álcool. Bebia com frequência
e em grandes quantidades.
O uso de álcool diminuiu quando Pedro estava com 25 anos, passando a beber
esporadicamente, quando se casou com Joana. Joana é filha mais velha e biológica de
Eulália, nunca teve contato com o pai, embora saiba quem é. Tem uma irmã de criação 22
anos mais jovem. Após o casamento, o casal passou a morar com Eulália, mãe de Joana,
com quem residiram até o falecimento da mesma. O casal, em quatro anos de matrimônio,
vivenciou três abortos. Depois disso, nasceu o primeiro filho José. Quando José tinha 2
anos nasceu o segundo filho, Roberto, que faleceu com pouco mais de 30 dias de vida.
Três anos depois, nasceu o terceiro e último filho do casal, Carlos.
Após o nascimento dos três filhos, Joana tornou-se obesa. Posterior à morte de
Roberto, em 1982, Pedro voltou a beber de forma frequente e intensa. Esse padrão de
uso perdurou até 1994, por 12 anos, quando então, a família providenciou uma internação
psiquiátrica para Pedro. O tratamento teve duração de 30 dias e Pedro permaneceu em
abstinência por 14 anos, até 2008.
Carlos (27 anos), filho mais novo, saiu de casa quando se casou. Ficou casado por
dois anos com Olívia e teve a filha Laura. Após a separação de Carlos e Olívia, Laura
ficou morando com a mãe, mas os avós paternos pediram sua guarda e permanecem com
ela. Nesta mesma época, Pedro com 56 anos, foi orientado pela empresa onde trabalhava
a retomar os estudos. Pedro relata que ao retomar os estudos houve também o retorno ao
convívio social de forma mais intensa junto aos colegas de aula e, como culturalmente
as relações sociais são permeadas pelo uso de álcool, Pedro, frente a tal exposição
gradualmente retomou o consumo de álcool até retornar ao padrão de uso abusivo.
Carlos casou-se novamente, sua segunda esposa Taís já tinha uma filha chamada
Patrícia, que, no momento do atendimento, morava com seu pai. No período do
atendimento Pedro, Joana, José e Laura residiam na mesma casa. No porão, moravam
Carlos, Taís e a filha Muriele, de 5 meses.
José tinha 32 anos na época do estudo, morava com os pais, trabalhava em turnos
rotativos, namorava uma mulher dez anos mais velha. Frequentava uma igreja diferente
daquela que família participava. Tinha poucos relacionamentos sociais, estava acima do
peso e mantinha-se, a maior parte do tempo isolado da família, permanecendo no quarto
ou pilotando sua moto. Laura tinha 08 anos de idade, estudava no Ensino Fundamental,
o restante do tempo passava com os avós. José é seu padrinho, o relacionamento entre
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ambos é muito próximo e por isso acabou assumindo responsabilidades, de acordo com a
família, “como se fosse um pai”. Pedro desenvolveu artrose no joelho direito, as perícias
médicas indicaram que a causa fora suas atividades laborais, após duas cirurgias, Pedro
foi aposentado por invalidez. Joana dedica-se aos afazeres domésticos e a vendas de
lingerie para suas vizinhas e conhecidas. A família de classe C tinha seus rendimentos
oriundos das vendas de lingerie de Joana, da aposentadoria de Pedro e do salário de José,
aproximadamente dois mil e quinhentos reais por mês, que serviam ao sustendo regular dos
três e da neta Laura. Esporadicamente ajudavam nos gastos de Carlos, Taís e Muriele.
A figura abaixo apresenta a família Tavares, destacando o tipo de relação estabelecida
entre seus membros.
Resultados
A família atendida procurou o tratamento psicoterápico na tentativa de resolver
o consumo abusivo de álcool feito por Pedro. A procura de tratamento (Falceto, 2008)
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costuma ocorrer por meio de um membro da família para ajudar o familiar identificado
como problemático. Quando ocorre este pedido de atendimento a família já enfrentou
inúmeras dificuldades intrafamiliares tais como: a quebra da rotina familiar, situação de
vulnerabilidade, desamparo e frustração, aumento de conflitos já existentes no núcleo
familiar, além de dúvidas com relação ao tratamento psicoterápico (Medeiros, Maciel,
Sousa, Tenório-Souza & Dias, 2013). A família manteve-se engajada ao longo do
tratamento, apesar de cancelarem algumas sessões, quando a homeostase familiar era
ameaçada durante o processo. Quando algum membro da família modificava sua forma
de agir e/ou se relacionar com os demais buscando a mudança, seja em termos de se
independização e ou expressão de afetos, os demais boicotavam o movimento de mudança
faltando ao atendimento para não precisar mudar seu padrão de funcionamento. No
entanto, a família, depois de um tempo para resignificar a mudança comparecia novamente
a sessão e mostravam-se dinâmicos, colaborativos, ágeis, e muito inteligentes.
Nos primeiros encontros das psicoterapeutas estagiárias com a família, partiu-se
da demanda trazida por eles, ou seja, o uso abusivo de álcool de Pedro. Na tentativa de
ampliar o entendimento sobre dependência, investigaram-se quais seriam as dependências
de cada um dos membros da família. Dessa forma, referiram que, Pedro ingeria bebidas
alcoólicas para “afogar as mágoas” e não precisar falar delas; Joana extrapolava sua
tristeza e mágoas comendo excessivamente e fazendo caretas que inibissem a vontade
do outro dialogar com ela, mantendo-se com obesidade mórbida, diabetes em nível
elevado e muitas dores nos joelhos; e José, para dar conta das tensões isolava-se da
família depositando toda a sua atenção na televisão, internet e pilotando velozmente.
O isolamento fazia com que José não externalizasse seus sentimentos, explodindo em
rompantes de agressividade e picos de hipertensão arterial, que, por vezes, o levaram
ao hospital. Vale ressaltar que as dependências ou abusos mapeados pela família foram
desenvolvidas, segundo entendimento coletivo feito nas sessões, como mecanismo
de evitar o diálogo sobre a mágoa, sentimento que é repetido seguidamente pelos três
integrantes, segurando-a somente para si devido à culpa de senti-la.
Segundo Costa (2010), a formulação teórica da dinâmica familiar compreende
o surgimento dos sintomas como uma função estabilizadora de um movimento de
mudança iminente, portanto, com função homeostática. Pode-se pensar, desta forma,
que a abertura para o diálogo, o falar de si e ouvir o outro é um movimento que implica
colocar-se, vislumbrar os próprios pontos de vista e dos demais, um movimento de
mudança. Neste sentido, não é um familiar que tem um sintoma, mas uma família com
sintoma. A equipe psicoterapêutica partiu da hipótese de que o uso abusivo de álcool
denunciava um funcionamento de codependência e comunicação disfuncional da família
como um todo.
O álcool, a comida e o isolamento têm em comum a missão de entrar em cena
quando existe a necessidade de comunicar sentimentos de tristeza, mágoa, irritação ou
frustração com relação ao outro. A tendência dos membros da família de guardar a mágoa
e diluí-la na raiva, no álcool ou na comida surge pelo medo de entristecer o outro, ao
manifestar sentimentos de desagrado e descontentamento. Para não amargurar o outro e
perder seu amor, reprimem a fala. No entanto, pela circularidade postulada por Nichols
e Schwartz (2007), segundo a qual os membros familiares funcionam por influências
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mutuas, ao deixarem de falar, também deixam de escutar, ou seja, não há conversa a ser
escutada. Assim, a comunicação paira no terreno dos ‘não-ditos’, dos ‘acho-que’. Esse
funcionamento mantêm a homeostase familiar, sendo comum em famílias alcoolistas as
dificuldades de comunicação (Trindade, Costa & Zilli (2006).
O medo de perderem um ao outro pelo desgosto mantém a família fusionada e
emaranhada. Quanto mais o álcool ameaçava a família, mais ela precisava se unir para
combatê-lo. O fusionamento limita o espaço de performace das individualidades e,
consequentemente, a expressão de desagrado. Tolerar, estar fusionado ao outro e reduzir
o espaço de si mesmo torna as situações bastante difíceis de serem suportadas, assim,
o álcool, a comida e o isolamento são mecanismos de escape utilizados numa espiral
repetitiva. O emaranhamento refere-se, segundo Minuchin (1982), às fronteiras difusas e
aos papéis mal definidos entre as gerações e subsistemas, o que propicia um fusionamento
familiar. A falta de diferenciação dos subsistemas desencoraja a exploração autônoma e
o domínio dos problemas. Em outras palavras, se os papéis e fronteiras não são claros,
logo a ligação afetiva se torna forte de tal maneira que desemboca na dependência,
expressando, de acordo com Trindade, Costa e Zilli (2006), dificuldades de adaptação e
falta de capacidade da família para se relacionar com o ambiente social.
O funcionamento do sistema compreende diversos subsistemas, onde se configuram
as alianças. Wendt e Crepaldi (2008), ressaltam que a aliança faz alusão às lealdades
invisíveis que interferem no processo de fusão ou diferenciação. Na família atendida,
percebeu-se que as alianças existentes eram entre Joana e José, o que garantia a organização
do lar. Pedro e Carlos formavam uma aliança ao serem cúmplices para encobrir segredos
relacionados ao uso de álcool de ambos e quebra de regras familiares, por exemplo:
omitir onde se estava, com quem e por qual motivo. Outra aliança, José e Laura, onde
José sente-se e porta-se como pai de Laura, ao passo que a menina o reconhece como
tal. As alianças transgeracionais, segundo Trindade, Costa e Zilli (2006) revelam como
uma geração acaba por interferir demasiadamente na outra, impedindo que o novo núcleo
familiar forme uma nova identidade e uma nova configuração mais saudável. No entanto,
alertam Wendt e Crepaldi (2008), podem ser modificadas, principalmente, nos ciclos de
transição pelos quais passam a família.
O casal demonstrou situações de insegurança quanto ao desejo amoroso. Joana
desconfia que Pedro se envolveu em relacionamentos extraconjugais, ao passo que Pedro
não acredita que Joana queira estar casada com ele e quando embriagado questionava a
esposa sobre sua fidelidade. A suspeita de adultério de ambos os cônjuges gera estresse
e violência psicológica conjugal. Vale ressaltar que em momentos de embriagues, as
agressões também eram físicas. Quando Pedro abusava do álcool geralmente ficava
agressivo com as pessoas da rua e da família, nestes momentos José com então 12 anos
de idade precisa ir buscar o pai e levá-lo para casa. As pessoas zombavam de Pedro ou
respondiam as suas provações e isso deixava José com o sentimento de obrigação de
defendê-lo. A raiva de José nestes momentos era direcionada aos zombadores. O fato
de ter que recolher o pai fazia o filho ficar ainda mais próximo da mãe, consolidando
a aliança entre eles. Enquanto a aliança entre mãe e filho é fortalecida, a de esposa e
esposo enfraquece. A aliança entre José e Joana torna-se rígida para fortalecê-los e
darem conta da embriaguez. Ao unir mãe e filho, afasta e não deixa espaço para o pai.
100
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Pedro, ao sentir-se sozinho e sem esposa, faz uso abusivo de álcool e assim mantém a
homeostase familiar.
Joana é uma mãe muito cuidadosa, preocupada e protetora dos filhos, em
contrapartida, descuida da sua relação conjugal, distanciando-se do seu papel de mulher
e esposa. Enquanto Pedro, desvalidado devido ao alcoolismo, assume o papel de filho de
Joana e José. A literatura, segundo Alves (2003), propõe hipóteses teóricas sobre os filhos
e as companheiras de indivíduos com problemas relacionados ao uso abusivo de álcool,
e os reajustamentos comportamentais no casal e na família. Sintomas comuns são nas
companheiras são as cefaleias, obesidade, depressão, doenças psicossomáticas e outras
doenças relacionadas com o estresse. Normalmente as esposas são mulheres inseguras.
José teve diversas namoradas ao longo da vida, mas nenhuma satisfez a família.
A família desqualifica as companheiras encontradas por José e espera que ele possa ser
feliz com outra pessoa. A possibilidade de José encontrar uma pessoa e construir sua vida
com ela ameaça o sistema familiar emaranhado, nesta lógica, nenhuma nora será boa
o suficiente. A saída do filho de casa significa que Pedro e Joana terão tempo e espaço
para enxergarem-se enquanto casal e vivenciarem-se nele. José sente-se responsável pela
família e sobrecarregado pelas obrigações financeiras, de cuidado e gestão da família.
Embora reconheça as vantagens de ficar na casa dos pais, como a acomodação de não
precisar escolher e responsabilizar-se pelo rumo de sua própria vida. Dentro dessa
racionalidade, José tem obrigações que extrapolam suas condições e o sobrecarregam.
Precisou assumir os cuidados com o pai, as despesas da casa, a gerência a assistência junto
a mãe e a adoção emocional da sobrinha, não fazer uso de álcool ou cigarro, gostar de ficar
em casa, ter poucos amigos. Ao Carlos resta o papel de durão, irresponsável e acobertado
pelo pai. Carlos e Pedro tecem suas relações na troca de vícios, se emprestam cigarros,
se acobertam na embriagues. Carlos teve uma filha não planejada, impõe-se diante da
família, não assume as despesas da casa, saiu da casa dos pais para se casar e retorna
quando o primeiro casamento encerra. Mantém-se vivendo nas dependências da casa dos
pais e os pais por sua vez mantém retroalimentando a dinâmica de dependência do filho
que apresenta dificuldade para tornar-se adulto e responsabilizar-se pelos próprios atos.
Discussão e considerações finais
A perspectiva familiar sistêmica da psicologia diferencia-se das outras abordagens
de entendimento familiar pelo seu método e teoria. A psicoterapia sistêmica familiar parte
do entendimento do sistema e seus subsistemas e não da visão individual das temáticas.
Trata-se de compreender o sistema familiar como um todo, sendo que as mudanças que
acometem alguma parte, afetam, de alguma forma, todas as outras partes. A família é
formada de membros atuantes e interdependentes que exercem influências mútuas e
transgeracionais em interação.
Assim, de acordo com este viés, todas as problemáticas são encaradas como
demandas familiares e não unicamente individuais. O sintoma se desenvolve para encobrir
um conflito ou um funcionamento disfuncional. No caso da família estudada, o sintoma
encobria a comunicação disfuncional da família ao mesmo tempo que denunciava a
possibilidade de uma reorganização familiar, que foi possível a partir da busca pelo
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
101
tratamento familiar, no qual todos os membros são corresponsáveis pela dinâmica que
se estabelece e assim possibilitar a mudança inter-relacional. A busca pela abstinência
ocorria, mas a manutenção da mesma era incerta, já que era necessário para a manutenção
da homeostase do sistema familiar no qual o o uso abusivo de álcool encobria conflitos
velados. O sintoma era um reforçador, para manter a comunicação disfuncional e dessa
forma mantinham-se os papéis indefinidos e as fronteiras difusas. Esse funcionamento
permitia que a família se mantivesse unida, ainda que emaranhada.
A partir da intervenção podem-se perceber mudanças na família, como o
reconhecimento do papel e importância de cada um no funcionamento da dinâmica
familiar; o entendimento da corresponsabilidade de todos pelo sustento, organização e
gestão da vida familiar, como as despesas, a educação, a alimentação, a higiene, a saúde,
a expressão dos afetos, a resolução dos conflitos. Assumir a responsabilidade e dividi-la
com os demais permite o movimento duplo: de ser parte fundamental daquele grupo, sem,
no entanto, sobrecarregar uma única pessoa, promovendo laços de afeto e solidariedade. A
melhora da comunicação verbal e não verbal entre os indivíduos possibilitou a expressão
dos desejos, a diminuição da frustração, o compartilhamento das tristezas e a minimização
da culpa. Estes resultados foram atingidos por meio da delimitação de fronteiras entre
os subsistemas da família e a demarcação e o respeito ao espaço individual do outro no
sistema familiar.
A intervenção na dinâmica familiar alcoolista realizada pelo viés da psicoterapia
sistêmica, parte do pressuposto que a abstinência alcoólica, desejada pela família,
não é possível sem a construção de novos significados e transformações no modo
de funcionar da família como um todo. O sistema familiar é dinâmico por natureza,
por tanto as transformações são possíveis. A família atendida conseguiu, ao longo do
processo terapêutico, engajar-se no tratamento, refletir e esforçar-se para mudar seu
comportamento. Tal mudança foi observada a partir do reconhecimento do papel de cada
um, na melhora da comunicação verbal e não verbal entre os indivíduos, delimitação
de fronteiras entre os subsistemas e respeito ao espaço individual do outro no sistema
familiar.
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_____________________________
Recebido em agosto de 2014
Aceito em janeiro de 2015
Marciana Zambillo: Graduada em psicologia; Mestranda em Psicologia Social e Institucional pela Universidade
Federal do Rio Grade do Sul – UFRGS.
Cláudia Mara Bosetto Cenci: Psicóloga; Doutoranda em Psicologia Clínica PUC/RS; Professora da IMED/RS.
Endereço para contato: [email protected]
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Aletheia 43-44, p.105-115, jan./ago. 2014
Assertividade em mulheres dependentes de crack
Márcia Cristina Henrique de Souza
Bruna Krimberg Von Mühlen
Leda Rúbia Maurina Coelho
Cristiano Pereira de Oliveira
Viviane Samoel Rodrigues
Margareth da Silva Oliveira
Marlene Neves Strey
Resumo: O objetivo deste estudo foi averiguar a assertividade de mulheres dependentes de
crack, durante a sessão “Recusas Eficazes”, retirada de um manual de terapia baseado nos
estágios de mudança para tratamento em grupo de usuários de drogas. Constitui-se de uma
pesquisa exploratória e descritiva de abordagem qualitativa que teve como cenário uma
Comunidade Terapêutica feminina, tendo seu delineamento através da transcrição da sexta
sessão produzida ao longo do ensaio clínico randomizado intitulado “Estudo da efetividade
da intervenção do modelo transteórico para pacientes dependentes de crack”. Foi utilizada a
técnica da análise de conteúdo, que originou as seguintes categorias a posteriori: “Estratégias
de oferta da droga” e “Temáticas emergentes na discussão após a técnica de role-play”. Dentre
os achados deste estudo destaca-se que durante a dramatização as participantes revelaram que
utilizaram no exercício as mesmas estratégias de oferta que muitas vezes foram utilizadas
por outras pessoas para convencê-las ao uso em suas experiências cotidianas vivenciadas
anteriormente, eliciando reflexões sobre como recusar e sentimentos de nojo e medo da
droga. Por isso, entender a dinâmica de recusa das drogas possibilita a descoberta de novas
intervenções em prevenção à recaída neste.
Palavras-chaves: Assertividade, Crack, Mulheres.
Assertiveness for women’s crack dependent
Abstract: The objective of this study was to determine the assertiveness of women dependent
crack, during the session “Refusals Effective”, taken from a manual therapy based on the
stages of change for treatment in drug users group. It consists of an exploratory and descriptive
qualitative approach that took place at a community women’s therapy, taking your design
through the transcript of the sixth session produced over randomized clinical trial entitled “Study
of the effectiveness of the intervention of the transtheoretical model for dependent patients crack
“. We used the technique of content analysis, which yielded the following back-categories “of
drug supply strategies” and “Emerging Issue in the discussion after the role-play technique.”
Among the findings of this study highlight the need to role play the participants revealed that
used in the exercise the same offer strategies that have often been used by others to convince
them to use in their everyday experiences previously experienced, eliciting thoughts on how
to refuse and feelings of disgust and fear of the drug. Therefore, understanding the dynamics
of drug refusal enables the discovery of new interventions on relapse prevention in this.
Keywords: Crack, Assertiveness, Women’s.
Introdução
No Brasil, os usuários de crack, são em sua grande maioria, do sexo masculino, ou
seja, 78,7%, apesar de pesquisas brasileiras anteriores demonstrarem proporções bem
próximas entre homens e mulheres (Fiocruz, 2013). Resultados apresentados nesta mesma
pesquisa que versam sobre as mulheres usuárias de crack são preocupantes, revelando que
44% sofrem violência sexual, 10% estavam grávidas no momento da entrevista e 50%
mencionaram que engravidaram enquanto faziam uso regular do crack (Fiocruz, 2013).
Mas, apesar disso, as mulheres acabam sempre buscando mais suporte social do que os
homens (Porter, Marco & Schwartz, 2000). O consumo de crack no Brasil passou a ser
considerado um grave problema de saúde pública, responsável por 70% das internações por
uso de substâncias (Filho, Turchi, Laranjeira & Castelo, 2003; Pulcherio, Stolf, Pettenon,
Pulcherio & Kesler et al., 2010; Raupp & Adorno, 2011). Além disso, inúmeros estudos
evidenciam a relação entre o consumo de crack e a violência e a criminalidade (Filho et
al., 2003; Ribeiro, Dunn, Sesso, Dias & Laranjeira et al., 2006; Oliveira & Nappo, 2008;
Pulcherio et al., 2010; Raupp & Adorno, 2011).
Já se considerou assertividade ou comportamento assertivo sinônimo de
Habilidades Sociais por Argyle (1967). “Habilidades Sociais” é um construto
considerado descritivo, como classes de comportamentos sociais que contribuem
para o sucesso do cumprimento de uma tarefa social visando à competência social.
Dentro deste conceito estão as Habilidades Sociais Assertivas de Enfrentamento,
compreendidas em Direito e Cidadania, Habilidades Sociais Empáticas, Habilidades
Sociais de Trabalho e Habilidades Sociais de Expressão de Sentimento Positivo (Del
Prette & Del Prette, 2010a).
Compreendendo-se que a Assertividade envolve questões de enfrentamento no
contato com outras pessoas, ser assertivo, portanto, envolve poder afirmar-se, expressar
pensamentos, sentimentos e crenças de maneira direta, honesta e apropriada, não violando
direitos e produzindo uma imagem positiva de si mesmo e de sentimentos de respeito
(Del Prette & Del Prette, 1999). Na tentativa de restaurar o equilíbrio, as habilidades
assertivas específicas para agir de acordo com a decisão de recusar bebida alcoólica e o
consequente enfrentamento poderão ser utilizadas (Monti, Kadden, Rohsenow, Cooney
& Abrams, 2005).
Atualmente, as habilidades sociais têm sido foco de vários estudos sobre a
implicação de comportamentos na qualidade de vida dos indivíduos. Caballo (2002) e Del
Prette e Del Prette (1999) descrevem as formas assertiva, não assertiva e agressiva como
sendo as três maneiras do indivíduo se comportar. Portanto, as habilidades sociais são
classes de respostas comportamentais, uma vez que comportamentos sociais específicos
são agrupados sob a categoria de “habilidade social” (Del Prette & Del Prette, 2009).
As disfunções de ordem comportamental e/ou psicopatológica podem interferir de
maneira negativa nas habilidades sociais e, portanto, contextos de uso e dependência de
substâncias podem estar associados a déficits em tal área (Caballo, 2005). No contexto de
consumo de drogas, ser habilidoso socialmente representa importante fator de proteção
(Wagner & Oliveira, 2009), pois a habilidade de recusar a droga possibilitará que a
abstinência seja mantida.
106
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Com a impossibilidade de se manter a abstinência, ocorre um fenômeno que é
recorrente em se tratando de dependência química: a recaída. Existem muitos fatores
envolvidos na dependência química e estes podem ocasionar uma recaída quando não
estiverem bem resolvidos, como, por exemplo, a abstinência. Manter-se abstinente é difícil,
pois uma série de estímulos de ordem emocional, cognitiva, física e social interferem
nesse processo. É preciso compreender que o organismo abstinente passa por estados
de fissura, estados emocionais negativos e desconfortos fisiológicos característicos
que podem apresentar-se como suor frio e tremedeiras, e isso torna a abstinência um
grande desafio na manutenção do tratamento da dependência química (Diehl, Cordeiro
& Laranjeira, 2011).
Segundo Wiekiewitz e Marlatt (2004), indivíduos que estão tentando manter
comportamentos saudáveis, tais como abster-se de beber ou de usar drogas, enfrentam
o desafio de equilibrar as situações do contexto e suas possíveis consequências. Assim,
é necessário que o dependente químico desenvolva estratégias de enfrentamento diante
de situações de risco que podem levá-lo a uma recaída no comportamento de uso da
substância.
Para manter-se a abstinência e favorecer um período de estabilidade em relação ao
controle do uso de drogas é necessário prevenir a recaída. Neste contexto a abordagem
da Prevenção à Recaída se torna imprescindível para o sucesso de um tratamento. É
uma abordagem dentro de uma categoria geral da terapia cognitivo-comportamental que
compõe áreas para avaliação como as habilidades e recursos que podem ser ambientais,
sociais, emocionais e cognitivos (Carroll & Rawson, 2009). Frente a estudos que
confirmam os prejuízos de longo alcance trazido pelo uso de drogas, faz-se necessário
a apropriação de maiores conhecimentos acerca de como usuários de crack lidam com
estratégias de recusa para o uso da droga.
Com isto, o objetivo deste estudo foi averiguar a assertividade de mulheres
dependentes de crack, internadas em comunidade terapêutica, durante a sexta sessão
“Recusas Eficazes”, retirada do livro “Tratamento em grupo para usuários de drogas:
Um manual de Terapia baseado nos Estágios de Mudança” (Velasquez, Maures, Crouch
& Diclemente, 2013). Analisar o conteúdo de tal sessão torna-se relevante no sentido de
trazer dados sobre como mulheres usuárias de crack vivenciam a experiência de oferta e
recusa da droga, ou seja, sua assertividade neste contexto. A análise das falas de mulheres
dependentes de crack apresentam uma riqueza de dados acerca de suas vivências, crenças,
anseios e dúvidas frente ao mundo do uso e à necessidade de dizer não a tantas situações
tentadoras surgidas.
Método
Trata-se de uma pesquisa de caráter descritivo e exploratório, de abordagem
qualitativa, tendo como cenário uma Comunidade Terapêutica – CT feminina da
região metropolitana de Porto Alegre. O tratamento em CT é uma opção mais popular
e acessível que busca adaptar-se a diversos níveis socioeconômicos e culturais,
visando proporcionar aos pacientes o aprendizado de novas formas de relacionamento
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
107
e estratégias para lidar com adversidades, intervindo num sentido de evitar recaída
e promover a reinserção social com um novo estilo de vida (Herzog & Wendling,
2013). Na CT onde foi desenvolvido o estudo, encontravam-se aproximadamente vinte
mulheres entre 18 e 59 anos dependentes de álcool e outras drogas. Foram participantes
do estudo seis mulheres, apenas as dependentes de crack que estavam participando
da sexta sessão de tratamento do ensaio clínico randomizado intitulado “Estudo da
efetividade da intervenção do modelo transteórico para pacientes dependentes de crack”,
o qual é composto de oito sessões.
Durante a sessão “Recusas Eficazes” foram seguidas as instruções do manual
de Velasquez et al., (2013) e foi realizado um role play (dramatização), onde as
participantes ficavam em duplas, simulando situações de oferta de crack, enquanto uma
tinha como tarefa tentar por três minutos completos incentivar e convidar a fumar, a
outra recusava durante três minutos dizendo apenas a palavra “não”, depois deste tempo
invertiam os papéis. Passado este exercício, foi realizada uma discussão com o grupo
utilizando as seguintes questões: Como se sentiu ao dizer “não”? Você duvida da sua
capacidade de se manter dizendo não? Quais foram os seus pensamentos quando você
estava tentando recusar? Que emoções você experimentou? A referida sessão ocorreu
no primeiro semestre de 2013 e após ser transcrita na íntegra, foi utilizada a técnica de
análise de conteúdo proposta por Bardin (2006), onde a partir da leitura do material
foram construídas as unidades temáticas, resultando na construção de duas categorias
e dez subcategorias construídas a posteriori.
A pesquisa foi desenvolvida em consonância com a Resolução nº 466/12 CNS,
foi apreciada e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) sob o nº 11/05322.
Resultados
As categorias e subcategorias foram definidas a posteriori, ou seja, emergiram
a partir de repetidas leituras das informações obtidas na transcrição da sessão. A
primeira categoria, “Estratégias de oferta da droga”, discorre sobre os argumentos
utilizados pelas mulheres que durante o role play tinham a tarefa de oferecer crack
para a sua dupla, esta categoria foi subdividida em subcategorias denominadas: efeito;
facilidade de aquisição; socialização; e sexualidade. A segunda categoria denominada
“Temáticas emergentes na discussão após a técnica de role play” versa sobre os
conteúdos verbalizados pelas participantes, orientados pelas questões norteadoras
já referidas no método e teve como subdivisão as subcategorias: lembranças do
contexto de uso, consequências da insistência para o uso; dificuldades na realização do
exercício; medo e nojo da droga; reconhecimento de sentimentos e de si; e estratégias
de prevenção a recaída.
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Tabela 1 – Estratégias de oferta de droga.
Categoria
Subcategorias
Unidades temáticas
Efeito
“É puro, consistente, pouca cinza a gente vai usar.”
“Fica nessa tal de cocaína aí que não dá nada. Isso aí já passou, já
era a moda da cocaína, agora a moda é pedra.”
“Vamo tu vai ver que ligeirinho tu fica louquinha.”
Facilidade de
aquisição
“Eu boto pra ti, vem? Tu não vai precisar gastar nada, eu tenho
bastante dinheiro.”
“Ah! mas tu não precisa gastar nada guria, consegui fazer um assalto lá que nossa senhora! peguei de tonel.”
“Vamo lá to de carro! Até um carro eu consegui pra gente dá uma
banda hoje.”
Socialização
“Vou ficar te esperando, eu não vou usar enquanto tu não chegar,
vai ter bastante ainda quando tu chegar. É que bah, ficar sozinha
não dá”
“Vai usar com esses caras da rua, usa comigo que tem mais
confiança. Tu sabe que né, não vou te fazer mal nenhum, não vou
te roubar depois nem nada, porque tu sabe que esses caras né, vão
querer fazer maldade contigo.”
“Vai ta todo mundo reunido lá pra gente dá uns estouro toda a
nossa galera aquela lá. A galera ta toda reunida lá em cima, fazendo
um luau lá, dando uns estouro, tomando umas bira, vamo lá?”
Sexualidade
“Altos corpinho... Vamo? Vamo? Vamo?”
“O carinha aquele que tu ta dando uns beijinho ta indo lá, vamo?”
Estratégias
de oferta da
droga
Fonte: Dados da pesquisa.
Como se pode observar na Tabela 1, em relação às estratégias de oferta da droga,
o tema efeito enquanto estratégia de oferta da droga trouxe aspectos sobre a pureza e a
consistência da droga, o fato de dispensar outros aparatos como a cinza que serve para
queimar a pedra de crack, bem como diminui o de efeito da cocaína enaltecendo os efeitos
do crack como droga da moda. As estratégias de persuasão nesse sentido trouxeram
justificativas que valorizavam os efeitos psicoativos da droga ofertada.
A facilidade de aquisição da droga também foi utilizada como argumento de oferta.
A relação com a quantidade de dinheiro leva a pensar na possibilidade de aquisição de
uma quantidade “atraente” de droga. Também se evidencia nos discursos de oferta que
não haverá muito esforço para conseguir a droga e que um carro facilitará sua aquisição.
Em um dos diálogos aparece a ligação entre ato ilícito para conseguir dinheiro para
compra da droga.
A questão da socialização durante o consumo da droga aparece como uma das
razões utilizada como estratégia de oferta da droga. Há também a menção de situações
onde pessoas “da rua” não seriam confiáveis e fumar crack acompanhada de alguém
confiável seria positivo. Neste sentido das relações, pretextos apelando à sexualidade
também apareceram.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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Tabela 2 – Temáticas emergentes na discussão após a técnica de role play.
Categoria
Temáticas emergentes
na discussão após a
técnica do role-play
Subcategorias
Unidades temáticas
Lembranças do
contexto de uso
“Daí a gente começa a lembrar das coisas que a gente fez,
mas não deu vontade de usar assim, passa um filme da tua
vida (...) daí tu vai usando aquilo ali como argumento”
“E eu acho que isso eu lembrando é uma maneira de eu não
voltar a fazer mais (...) porque pra mim é muito triste eu me
lembrar das coisas erradas que eu fiz sabe?”
Consequências da
insistência para
o uso
“É que daí tu deixa a pessoas naquela insistência, porque se
tu prolonga um assunto e deixa a pessoa ficar na insistência, é porque tu vai recair, porque tu vai acaba aceitando
aquilo que aquela pessoa está oferecendo.”
“Chega a dar vontade de sair correndo.”
“No momento do exercício eu não vou negar me deu
vontade.”
“Disse muitos não, foi que conseguiram me convencer, fui
pela bebida e a bebida tu sabe é a porta de entrada né.”
Dificuldades na
realização do
exercício
“Eu achei que de começo eu ia ficar um pouco nervosa,
mas depois foi fluindo todos aqueles argumentos (...) dizer
não foi tranquilo, até cansativo, hehe.”
“Eu acho que se eu tivesse na rua eu já teria ido.”
“Eu achei que ia ser difícil pra mim fazer”
Medo e nojo da
droga
“Eu não lembro do crack como prazer, eu lembro do crack
como um nojo, sabe, pra mim me trouxe muita coisa ruim,
me dá nojo de lembrar assim do que eu fiz.”
“Também tenho nojo do que eu passei, mas ao mesmo
tempo eu tenho vontade, eu tenho medo que eu possa recair
entendeu?”
Reconhecimento de
sentimentos e de si
“Eu não era nada na verdade, posso dizer que eu virei gente
no momento em que eu entrei aqui. Porque eu não sabia
quem eu era, eu comecei a me conhecer aqui dentro, aqui
estou tendo a oportunidade de me conhecer, hoje eu posso
te dizer quem eu sou, mas antes eu não tinha personalidade,
eu não tinha caráter... eu não não tinha identidade nenhuma,
porque a droga me tirou tudo isso sabe?”
Estratégias de Prevenção a Recaída
“Tu não deve procurar amigos da ativa ou lugares da ativa,
de tu tanto dizer não e ir te irritando, tu acaba dizendo: ah,
vamo de uma vez pra tu para de me incomodar ”
“É um não e tchau.”
Fonte: Dados da pesquisa.
Quanto às temáticas emergentes na discussão após a técnica do role-play, a
subcategoria lembranças do contexto descreveu experiências muito semelhantes ao
conteúdo do role-play, apresentando identificação da vida real com a dramatização.
Emergiram lembranças negativas do passado expressadas em sentimentos atuais.
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
As participantes também discutiram sobre momentos em que houve insistênsia
durante a dramatização, onde se sentiram pressionadas a usar. Houve momentos de
ansiedade que podem ser exemplicados pela vontade de fugir durante a dramatização, o
que pode também refletir a ambivalência em relação ao uso.
Manifestações sobre sentimentos negativos em relação ao uso e a droga foram
descritos. Durante a discussão do role-play as participantes também relataram sobre
o reconhecimento seus sentimentos, bem como descreveram possíveis estratégias de
prevenção a recaída.
Discussão
O efeito do crack é rápido e é a sensação de euforia causada que fará com que o
usuário se motive a repetir o uso. Trata-se de uma euforia instantânea trazendo em seguida
o forte desejo de um novo episódio de consumo (Araújo, Pansard, Boeira & Rocha, 2010).
O crack aumenta a atividade basal do sistema de recompensa cerebral centenas de vezes
gerando um prazer artificial e intenso de forma imediata e por mais estranho que pareça
muitas pessoas ainda acreditam que as drogas são inspiradoras ou esclarecedoras como
se fosse uma “abertura” da mente (Ribeiro & Laranjeira, 2012). Muitas vezes ocorre uma
migração da cocaína para o crack pela busca de potencialização dos efeitos da substância,
mas não é somente isso que impulsiona o consumo de uma determinada droga. Os efeitos
imediatos do uso de cocaína são euforia, aumento da energia e da frequência cardíaca,
redução da fadiga e o apetite (Carroll & Rawson, 2009). Além disso, o estudo de Sayago,
Lucena-Santos, Ribeiro, Yates e Oliveira (2013) aponta que, quando comparadas aos
homens, as mulheres são significativamente mais propensas à dependência de crack.
Assim, confirma-se o que é trazido no discurso das participantes sobre a importância que
há em se produzir efeito maior, mais potente, que cause maior sensação prazerosa.
Ainda na subcategoria efeito podemos perceber o quanto se faz presente a ideia
de que os usuários apreciam as drogas “da moda” para estar em evidência, ter status.
Vive-se numa sociedade que cultua o prazer imediato, em que os objetos tornam-se
descartáveis, imperando a lógica da sedução em detrimento do autoritarismo, além de
ser uma sociedade que se organiza em torno da diversidade de opções, porque a todo
instante algo novo precisa ascender aspectos subjetivos e sociais em relação ao início
do uso do crack são pouco discutidos na literatura, mas a busca por novas sensações ou
pela droga da moda está ligada a uma forma de sociedade de consumo e essa discussão
se faz necessária (Jorge, Quinderé, Yasui & Albuquerque, 2013).
Em termos de aquisição da droga fica evidente nos resultados deste estudo que
dinheiro, ter um carro, pode ser estímulo para retomar o contexto de uso, assim como
a prática de crimes, que na fala surge como “assalto”. O Brasil, considerado mercado
emergente de cocaína assim como Venezuela, Equador, Argentina, Uruguai, Guatemala
e Honduras na América Central e Jamaica e Haiti no Caribe, é o maior mercado de
cocaína da América do Sul e, enquanto cai a demanda nos EUA, a Europa ganha espaço
no mercado (UNODCCP, 2010). O acesso e a compra do crack é facilitado até mesmo
através de formas de entrega como o delivery e as pedras tem tido novas apresentações
(Ribeiro & Laranjeira, 2012).
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
111
As falas refletem ainda a relação dos usuários com o contexto social. Podemos
observar que os aspectos negativos de experiências com pessoas não tão confiáveis
estão presentes. Usuários de crack tornam-se indivíduos incapacitados socialmente, já
tendo perdido vínculos passando a estar mais isolados, afastados do meio familiar e
escolar (Frandoloso, 2008). Mas os usuários são capazes de perceber que não estar em
convívio social pode ser doloroso tanto que, nas falas, vemos o quanto se preocupam
em não estarem em uso sozinhas, mas indo para um lugar seguro para fazer o uso,
como meio de proteção contra pessoas não tão confiáveis. O espaço de uso baseia-se na
desconfiança e compartilhar experiências positivas se torna cada vez menos possível.
Por estarem desorganizados socialmente passam a tentar organizar-se de outra forma,
uma forma que não se pode mais confiar em ninguém, em que ninguém confia mais
em você (Jorge et al., 2013).
As participantes relataram os momentos de raiva e irritação que sentiram no
momento em que se sentiam pressionadas a dizer não, esta irritação com a insistência da
outra pessoa parece ilustrar um embate entre usar ou não usar, ressaltando a importância
de reconhecer possíveis gatilhos para recaída. Monti et al., (2005) relaciona a abstinência
com a utilização de mais habilidades de enfrentamento. Poder perceber a força da palavra
não no outro pode despertar a sensação de que é possível mesmo posicionar-se e recusar.
O fato de estar sendo pressionada, persuadida, fazia com que se achassem tentadas ao
uso e a ambivalência em relação a manter-se abstinente novamente surgia. Na discussão
posterior ao role-play conseguiram refletir sobre o reconhecimento do quanto é difícil
resistir a droga. Mas que também pode ocorrer o movimento contrário no sentido de
mudar o comportamento a partir das más lembranças, das consequências negativas do
tempo de uso (como nojo e receio já que se sente tão impotente perante a droga). As
pessoas com questões referentes às drogas experimentam motivações flutuantes e este
conflito é chamado de ambivalência (Miller & Rollnick, 2001). O seu derivado mais
sujo e nocivo fica acessível às camadas inferiores socialmente, aos miseráveis que não
tem acesso à cocaína de boa qualidade (Jorge et al., 2013).
Segundo Monti et al., (2005), receber uma oferta de bebida ou ser pressionado
a beber significa situação de alto risco e é muito comum em pessoas que decidiram
parar com o uso. Quanto às estratégias de prevenção à recaída a discussão após a
atividade de dramatização mostrou-se produtiva. Evitar lugares e pessoas foram
relatadas como estratégias para manter-se longe do contexto de uso e abstinente,
assim como ter consciência dos sinais e avisos em relação à recaída também. Existe
na literatura evidência de utilização do afastamento do contexto social de uso da droga
como um recurso de prevenção, bem como afastamento dos amigos de consumo, como
forma de não permitir o início da fissura (Chaves, Sanchez, Ribeiro & Nappo, 2011).
Afastar-se dos locais de consumo e dos amigos de uso são estratégias importantes
apontada pelos dependentes e corroborada pela literatura. O engajamento verdadeiro
em novos comportamentos é fundamental para que haja mudança (Carroll & Rawson,
2009) e, no decorrer da atividade foi possível perceber-se o quanto se faz necessário
um enfrentamento assertivo no contexto de oferta de crack, sendo importante o papel
do grupo no desenvolvimento da intervenção. Conforme Souza & Pinheiro (2012) o
112
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
grupo tem potencialidades específicas na intervenção em saúde, onde os participantes
acolhem a fala um do outro, têm a possibilidade de concordar ou discordar, bem como
relatar experiências parecidas como aconteceu nesta atividade.
Considerações finais
O presente estudo qualitativo possibilitou uma aproximação da compreensão a
respeito de como mulheres dependentes de crack em tratamento vivenciaram o uso de
drogas e como percebem atualmente suas habilidades de enfrentamento e assertividade
em relação à oferta da droga. As participantes demonstraram muitas questões em torno
de como recusar drogas e as discussões a respeito foram muito interessantes e pode se
perceber uma disponibilidade em falar e refletir sobre suas vivências e sentimentos.
A análise dos aspectos de enfrentamento e assertividade de mulheres dependentes
de crack através de uma atividade de role-play pode revelar situações de oferta e de
recusa da droga. Podemos perceber durante a análise que o efeito, facilidade de aquisição,
socialização são aspectos importantes para o usuário, o que ficou registrado em sua fala
enquanto oferecia a droga ao parceiro no role-play.
Quanto às limitações deste estudo, destaca-se a ausência da anállise das mulheres
pertencentes ao grupo controle (lista de espera, visto que como já foi descrito no método,
este estudo deriva de um ensaio clínico randomizado) para uma comparação entre as
participantes que se encontram em programa de tratamento. A importância de novas
pesquisas que estudem a assertividade de dependentes de crack pertencentes a diferentes
grupos (como por exemplo: os que fazem tratamento ambulatorial em Centros de Atenção
Psicosocial, os que participam de grupos de mútua ajuda, etc) se justifica para que
tenhamos subsídios para programas de tratamento para fortalecimento das habilidades
de recusa, visando a prevenção a recaída.
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_____________________________
Recebido em setembro de 2014
Aceito em março de 2015
Márcia Cristina Henrique de Souza: Psicóloga. Mestranda PUCRS.
Bruna Krimberg Von Mühlen: Psicóloga. Doutoranda PUCRS.
Leda Rúbia Maurina Coelho: Psicóloga. Doutoranda PUCRS.
Cristiano Pereira de Oliveira: Psicólogo. Mestrando PUCRS.
Viviane Samoel Rodrigues: Psicóloga. Doutora PUCRS.
Margareth da Silva Oliveira: Psicóloga. Doutora. Profa. PPG PUCRS.
Marlene Neves Strey: Psicóloga. Doutora. Profa. PPG PUCRS.
Endereço para contato: [email protected]
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
115
Aletheia 43-44, p.116-128, jan./ago. 2014
Abandono de tratamento de adolescentes com uso abusivo de
substâncias que cometeram ato infracional
Ilana Andretta
Jéssica Limberger
Margareth da Silva Oliveira
Resumo: Este estudo objetiva verificar fatores relacionados ao abandono precoce do tratamento
de adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa em meio aberto encaminhados para
tratamento por uso de drogas. Trata-se de um estudo quantitativo, transversal e correlacional, tendo
como participantes 135 adolescentes. Os instrumentos foram: protocolo de dados sociodemográficos,
entrevista semiestruturada para diagnóstico e comorbidades, de acordo com critérios do DSM IVTR, Inventário de Depressão de Beck (BDI) e Inventário de Ansiedade de Beck (BAI). Fatores
relacionados ao abandono do tratamento foram: não estar estudando, expulsão ou suspensão da
escola, idade precoce para uso de álcool, usar cocaína e ser abusador de tabaco. Abusadores de
cocaína e de crack apresentavam maiores escores de sintomas no BDI e escores do BAI não
apresentaram relevância estatística com abuso de substâncias. Conclui-se que tais fatores devem ser
considerados no aprimoramento dos tratamentos disponíveis. Estratégias nas escolas de prevenção
do uso de drogas são imprescindíveis.
Palavras-chave: adolescentes; drogas; abandono de tratamento.
Treatment’s dropout of substance abuse adolescents who committed
an infraction
Abstract: This study aims to identify factors related to early dropout of treatment of adolescents
in compliance with socio-educational measure in an open way, referred to treatment for drug
use. This is a quantitative, cross-sectional and correlational study, whose participants are 135
adolescents. The instruments were: sociodemographic data protocol, semi-structured interview
for diagnosis and comorbidities, according to DSM IV-TR, the Beck Depression Inventory (BDI)
and Beck Anxiety Inventory (BAI). Factors related to the abandonment of treatment were: not to
be studying, expulsion or suspension from school, early age for alcohol use, cocaine use and be
tobacco abuser. Abusers of cocaine and crack had higher symptoms scores on the BDI and BAI
scores did not show statistical significance with substance abuse. It concludes that such factors
should be considered in the improvement of the treatments available. Strategies of prevention of
the drug use in schools are essential.
Keywords: adolescents; drugs; treatment dropout.
Introdução
A adolescência é uma etapa complexa do ciclo vital, constituída por transformações
no organismo e nos papéis sociais. Nesta etapa de transição entre a infância e a vida
adulta, os adolescentes buscam alcançar os objetivos relacionados às expectativas
culturais da sociedade em que vivem, expondo-se muitas vezes a situações de risco,
como o uso de substâncias psicoativas (Bessa, 2012). Os problemas relacionados ao
uso incluem comorbidades e envolvimento com atos infracionais, tornando-se um
problema de saúde pública, que necessita de uma atenção especial dos profissionais
da área da saúde (Andretta & Oliveira, 2011; Pinto, Luna, Silva, Pinheiro, Braga &
Souza, 2014).
Dados do VI Levantamento Nacional sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas
entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio das Redes Pública e Privada de Ensino
nas 27 Capitais Brasileiras demonstram que a maioria dos adolescentes que referiram
algum consumo de drogas possuía idade maior de 16 anos, também havendo relatos
na faixa de 10 à 12 anos. O uso na vida de alguma droga (exceto álcool e tabaco) foi
referido por 25,5% dos estudantes; o uso no último ano foi referido por 10,6% e o uso
no mês foi referido por 5,5% dos adolescentes (Carlini, 2010).
O uso de drogas em adolescentes que cometeram ato infracional tem sido
evidenciado em estudos nacionais e internacionais. Um estudo brasileiro com 150
adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa evidenciou que há uma
correlação significativa entre o uso de drogas e a prática de atos infracionais, sendo que
o uso de drogas precedeu os atos infracionais (Martins & Pillon, 2008). Outro estudo
brasileiro analisou a percepção dos pais sobre as causas da delinquência no Brasil,
onde o uso de drogas foi apontado como a principal causa (Lubenow, Fonseca, Julio,
& Silva, 2010). Na Espanha, dos 654 adolescentes do Serviço de Justiça Juvenil, a
maioria (58%) utilizava drogas, sendo mais frequente o consumo de diversas drogas
ao mesmo tempo (32,3%), seguido do consumo conjunto de tabaco e álcool (23,9%)
(Martínez, Banqueri, & Lozano, 2012). No Chile, 100 adolescentes que infringiram a
lei foram comparados com 100 adolescentes não infratores, ambos do sexo masculino.
Dos adolescentes infratores, 26% eram usuários de drogas, em comparação com 0% no
outro grupo (Cova, Pérez-Salas, Parada, Saldivia, Rioseco & Soto, 2012).
Dentre as intervenções voltadas para adolescentes com uso abusivo de
substâncias, a Entrevista Motivacional e a Psicoeducação tem demonstrado resultados
positivos nesta população, na diminuição da quantidade do uso de álcool, tabaco e
maconha e abstinência para cocaína, crack e solventes (Andretta & Oliveira, 2008;
Andretta & Oliveira, 2011; McCambridge & Strang, 2004). A Entrevista Motivacional
é uma intervenção breve e focal que objetiva realizar mudanças nos estados internos
de motivação dos indivíduos, a fim de que eles venham a abandonar a dependência
de substâncias ou outros tipos de comportamentos problemáticos. Desta forma, há
um aumento da motivação intrínseca do paciente e diminuição da ambivalência
em relação à mudança (Miller & Rollnick, 2001). A psicoeducação, por sua vez,
busca informar ao paciente dados sobre o seu diagnóstico de maneira clara e direta,
a fim de diminuir o uso de drogas (French, Zavala, McCollister, Waldron, Turne &
Ozechowski, 2008).
A permanência em tratamento por usuários de drogas é reconhecidamente baixa.
Em um estudo de metanálise, usuários de cocaína e opioides obtiveram as maiores
taxas de abandono (42% e 37% respectivamente) quando comparados aos usuários de
maconha (27,8%) ou múltiplas drogas (32,3%) (Dutra, Stathopoulou, Basden, Leyro,
Power & Otto, 2008). Na Espanha, 50,5% (n=45) usuários de cocaína abandonaram
o tratamento, sendo que 30,8% dos abandonos ocorreram nos três primeiros meses
(Sánchez-Hervás, et al., 2010). Os índices de abandono na adolescência são ainda
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
117
maiores devido à ausência de motivação para mudança, visto que a maioria dos
adolescentes vem para tratamento através de encaminhamentos de outras fontes, como
suas famílias, escola ou o sistema de justiça (Scaduto & Barbieri, 2009).
O abandono precoce nos tratamentos ocorre quando o paciente termina o tratamento
sem que haja um acordo entre ele e seu terapeuta em relação aos objetivos iniciais
do tratamento. Segundo Manrique (2004), a adesão ao tratamento se define como a
consonância entre a conduta do paciente com as instruções do terapeuta, e o término ou
abandono ocorre quando o paciente não cumpre o contratado com o terapeuta. Trata-se
de um processo multifatorial que se estrutura em uma parceria entre quem cuida e quem é
cuidado e refere-se à frequência, à constância e à perseverança na relação com o cuidado
em busca da saúde (Silveira & Ribeiro, 2005).
Os índices de abandono de tratamento na adolescência merecem atenção dos
pesquisadores, pois há necessidade de pesquisas que possibilitem modelos de compreensão
e intervenção, a fim de promover a permanência no tratamento de adolescentes com
uso abusivo de substâncias (Scaduto & Barbieri, 2009). Tendo em vista os aspectos
considerados, este estudo objetiva verificar quais foram os fatores relacionados ao
abandono precoce do tratamento em adolescentes que cometeram ato infracional, em
cumprimento de medida socioeducativa, encaminhados para tratamento devido o uso
de drogas.
Método
Este estudo se caracteriza por ser uma pesquisa de cunho quantitativo, transversal
e de alcance correlacional (Sampieri & Lucio, 2013).
Participaram deste estudo 135 adolescentes usuários de drogas, que cometeram
ato infracional. Tais adolescentes foram encaminhados para tratamento psicológico
por instituições responsáveis pela execução de medida socioeducativa em meio aberto,
localizadas na região metropolitana. Os critérios de inclusão para o preenchimento do
protocolo de pesquisa foram: ser usuário de drogas e ter cometido ato infracional, ter
escolaridade mínima da 5ª série e idade entre 12 e 19 anos. Os critérios de exclusão
foram: ter síndrome de privação grave ou alguma dificuldade cognitiva que prejudicasse
seu entendimento.
1) Protocolo de avaliação de dados sociodemográfico;
2) Entrevista semiestruturada para avaliação de padrão de consumo de substâncias,
diagnóstico de abuso e dependência de substâncias e comorbidades (Transtorno de
Déficit de Atenção e Hiperatividade, Transtorno Opositivo Desafiador e Transtorno de
Conduta), de acordo com os critérios diagnósticos do DSM-IV-TR (American Psychiatric
Association, 2002);
3) Inventário de Depressão de Beck (BDI) e o Inventário de Ansiedade de Beck
(BAI), para avaliação a intensidade dos sintomas de ansiedade e de depressão, tanto em
pacientes psiquiátricos como na população em geral. Ambos foram validados para o
Brasil por Cunha (2001) que apresenta estudos psicométricos, sendo o Alfa de Cronbach
do BAI de 0,92 e do BDI de 0,89.
118
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
O BDI é composto por 21 itens que descrevem sintomas depressivos avaliados pelo
autorrelato referente aos últimos 15 dias e as pontuações sugerem de 0 a 11 pontos sintomas
mínimos, de 12 a 19 pontos sintomas leves, de 20 a 35 pontos sintomas moderados, e de 36
a 63 pontos, sintomas graves. O BAI é composto por 21 itens que apresentam informações
descritivas dos sintomas de ansiedade dos últimos 7 dias, que deve avaliados pelo sujeito,
em razão da gravidade e frequência de cada item numa escala de 0 a 3 pontos. Os níveis
variam de 0 a 10 pontos para mínimo, de 11 a 19 pontos param leve, de 20 a 30 pontos
para moderado, e de 31 a 63 pontos para grave.
O projeto de pesquisa obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, sob parecer 06/03462. Os
adolescentes foram contatados, com explicação sobre a pesquisa, assinando o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) ao concordar com a participação no estudo.
Os responsáveis pelos adolescentes com idade inferior a 18 anos foram informados e
concordaram com a participação, mediante assinatura do TCLE. Assegurou-se a devolução
dos dados a todos os sujeitos.
Os adolescentes vinculados a este estudo foram encaminhados por instituições
responsáveis pela execução de medida socioeducativa da região metropolitana a fim
de realizarem tratamento para o uso de drogas. Os atendimentos foram realizados por
estudantes do curso de Psicologia em uma clínica-escola de uma universidade da região
metropolitana, com supervisão semanal. A avaliação foi realizada através do questionário
de dados sociodemográficos, entrevista clínica com os critérios diagnósticos do DSM-IVTR, BAI e BDI. O tratamento foi composto por 5 sessões de Entrevista Motivacional e
de Psicoeducação. Os pacientes que aderiram ao programa foram aqueles que concluíram
todas as etapas deste processo.
Os dados quantitativos foram descritos por média, desvio padrão ou mediana e
intervalo interquartil, dependendo de sua distribuição; e dados qualitativos, por frequência
absoluta e relativa. Para avaliação das variáveis categóricas, foi utilizado o teste Quiquadrado. Para comparar a média das variáveis com distribuição normal em relação à
adesão ao tratamento foi utilizado o teste T de Student. Os escores das variáveis que não
apresentaram distribuição normal foram analisados em relação à adesão ao tratamento
através do Teste Não Paramétrico Mann-Whitney. Os dados foram compilados no
software estatístico SPSS versão 11.0 e o nível de significância foi de 5%. A partir dos
resultados significativos, fez-se análise bivariada através da Regressão Logística – Post
Hoc Bonferroni.
Resultados
Dos 135 adolescentes, 35,6% (n=48) finalizaram o programa de atendimento e
serão chamados, a partir de agora, de grupo que aderiu ao tratamento (GA). Os demais
64,4% (n=87) não completaram todo o processo e serão chamados, a partir de agora, de
grupo que não aderiu ou abandonou o tratamento (GN).
Iniciaram algum tipo de intervenção 51,9% dos adolescentes (n=70), sendo
26,7% (n=36) alocados no grupo da Entrevista Motivacional e 25,2% (n=34) no
grupo da Psicoeducação. Dos adolescentes que foram alocados no grupo da Entrevista
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
119
Motivacional, 11,1% (n=4) abandonaram o processo antes de concluir a intervenção, e
outros 13,9% (n=5) antes da conclusão da reavaliação. Já no grupo da Psicoeducação,
32,3% (n=11) abandonaram o processo antes de concluir a intervenção, e 5,9%,
(n=2) antes de concluir a reavaliação. Ao relacionarmos o grupo ao qual o sujeito
foi alocado com a etapa em que ocorreu o abandono do processo, não encontramos
diferença estatisticamente significativa (p=0,072).
Concluíram o processo no grupo da Entrevista Motivacional 75% (n=27)
dos adolescentes e no grupo da Psicoeducação 61,8% (n=21). Comparando os
que foram alocados em cada grupo e os que aderiram ao tratamento não houve
diferença estatística (p=0,459). O GA apresentou média de idade 16,3 anos (DP=
1,28), com 93,8% (n=45) sujeitos do sexo masculino, 68,8% (n=33) que conviviam
com os pais, 58,3% (n=28) com ensino fundamental completo, e 91,5% (n=43)
que estavam estudando no momento da avaliação. Já haviam sido expulsos 29,8%
(n=14) dos adolescentes. Em comparação ao GN, houve uma diferença significativa
estatisticamente de p=0,001 na variável estar estudando e já ter sido expulso. Em
relação aos familiares usuários de drogas, 52,1% (n=25) dos adolescentes afirmaram
ter algum familiar com problemas relacionados com o uso de drogas ilícitas, 37%
(n=17) afirmaram que o pai possuía problemas associados ao uso de álcool e 13%
(n=6) relataram que a mãe possuía problemas associados ao uso de álcool.
O GN apresentou média de idade de 16,3 anos (DP=1,37), com 93,1% (n=81)
adolescentes do sexo masculino, 41,9% (n=36) viviam com os pais, 75,6% (n=65) tinham
ensino fundamental incompleto, 55,3% (n=47) estavam estudando e 61,9% (n=52) já
haviam sido expulsos. Afirmaram ter familiar com problemas relacionados ao uso de
drogas ilícitas 50% (n=41) dos sujeitos. Destes, 26,5% (n=22) afirmaram que o pai tinha
problemas associados ao uso de álcool e 15,7% (n=13) afirmaram que a mãe apresentava
problemas associados ao uso de álcool. A Tabela 1 apresenta as médias de idade de início
do uso de cada droga nos adolescentes.
Tabela 1 – Média de idade dos adolescentes do início do uso de drogas.
GA
GN
Variável *
Média
DP
Média
DP
p
Idade do primeiro uso de álcool
13,6
1,47
12,8
2,13
0,003
Idade do primeiro uso de tabaco
13,1
2,24
12,6
2,17
0,955
Idade do primeiro uso de maconha
13,7
1,69
13,4
1,82
0,582
Idade do primeiro uso de cocaína
14,7
1,97
14,1
1,75
0,386
Idade do primeiro uso de crack
14,8
1,72
14,7
1,48
0,347
Idade do primeiro uso de solvente
14,3
1,81
13,8
2,08
0,151
* Variáveis correlacionadas através do teste T de Student.
120
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Conforme os resultados da Tabela 1, nos dois grupos a média de anos para o
início do uso de drogas é semelhante, com exceção ao álcool, que é significativamente
inferior (p=0,003). No GA, o uso atual de álcool foi de 81,3% (n=39), de tabaco 72,9%
(n=35), de maconha 68,8% (n=33), de cocaína 2,1% (n=1), de crack de 2,1% (n=1), e
de solvente de 6,3% (n=3). No GN, o uso atual de álcool foi de 72% (n=59), de tabaco
71,4% (n=60), de maconha 65,1% (n=54), de cocaína 15,7% (n=13), de crack 13,3%
(n=11), e de solvente 8,8% (n=7). A maioria dos adolescentes participantes deste estudo
já fez ou faz uso atual de álcool, tabaco e maconha. A metade deles já fez uso de cocaína,
mas usa atualmente apenas uma pequena porcentagem da amostra, sendo que, no GN é
maior que no GA (p=0,017).
Segundo os resultados da Tabela 2, há uma alta porcentagem de comorbidades
nos dois grupos, principalmente em relação aos transtornos disruptivos. O Transtorno
de Conduta (TC) é a prevalência mais alta, tanto no GA, 36,4% (n=16) quanto no GN
32,8% (n=20), precedido pelo Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e
pelo Transtorno Opositivo Desafiador. Não foram encontradas diferenças estatísticas
significativas entre os grupos.
Tabela 2 – Descrição de frequência e porcentagem de diagnósticos por grupo.
GA
Variável*
GN
%
N
%
N
P
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade
28,3%
13
21%
13
0,495
Transtorno Opositivo Desafiador
18,2%
10
16,4%
10
0,800
Transtorno de Conduta
36,4%
20
32,8%
20
0,835
0%
3
3,9%
3
0,285
Abusador álcool
66,7%
42
54,5%
42
0,196
Dependência tabaco
66,7%
36
43,9%
36
0,018
Abusador de Tabaco
8,3%
23
28%
23
0,007
Dependência maconha
60,4%
30
39,5%
30
0,027
Abusador maconha
31,3%
33
43,4%
33
0,191
Dependência cocaína
2,1%
3
3,7%
3
1,000
Abusador de cocaína
10,6%
21
25,9%
21
0,042
Dependência crack
6,4%
14
17,7%
14
0,105
Abusador de crack
14,9%
14
17,7%
14
0,807
Dependência solvente
4,2%
5
6,4%
5
0,708
Abusador de solvente
8,3%
10
12,8%
10
0,565
Dependência álcool
*Variáveis relacionadas através do teste Qui-quadrado.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
121
Em relação aos diagnósticos relacionados ao uso de substâncias, há uma maior
porcentagem de dependentes de álcool no GN, com 3,9% (n=3) e de dependentes de crack,
com 17,7% (n=14). No GA há maior porcentagem de dependentes de tabaco, sendo 66,7%
(n=32) e de maconha 60,4%, inclusive, esta última, sendo estatisticamente, significativa
(p=0,018) para tabaco e (p=0,027) para maconha. Há também uma prevalência maior no
GN para drogas consideradas pesadas, como cocaína, crack e solventes, sendo que para
cocaína houve relação estatisticamente significativa (p=0,042).
De acordo com os resultados apresentados na Tabela 3, descrita abaixo, em relação
à razão de chance para abandono do tratamento, foi identificado que os sujeitos que não
estavam estudando apresentavam 7,69 vezes mais chances de abandonar o tratamento. Os
sujeitos que afirmaram terem sido expulsos ou suspensos da escola em algum momento
da vida apresentaram 2,83 vezes mais chances de abandono.
Quem não apresentava diagnóstico de dependência de tabaco, teve razão de
chances para abandono 1,56 vezes maior, abusadores de tabaco apresentaram 329%
mais chances de abandono, os sujeitos que não possuíam diagnóstico de dependência de
maconha apresentaram 134% mais chances de abandono, os indivíduos que faziam uso
de cocaína no momento da avaliação apresentaram razão de chance para abandono 7,73
vezes superior dos que não faziam uso, e, por fim, abusadores de cocaína apresentaram
194% mais chances de abandono do que os não abusadores.
Tabela 3 – Razão de chances de abandono ao tratamento.
RC
IC - 95%
Não estudar
7,69
2,86 – 26,38
Expulso ou Suspenso
2,83
1,78 – 8,23
Não dependente de tabaco
1,56
1,22 – 5,37
Abusador de tabaco
3,29
1,38 – 13,29
Não dependente de maconha
1,34
1,12 – 4,90
Uso atual de cocaína
7,73
1,10 – 68,98
Abusador de cocaína
1,94
1,03 – 8,41
Variável
*Cálculo de razão de chances feito através de regressão logística.
No que diz respeito aos escores no BAI e no BDI, a mediana de intensidade de
sintomas de ansiedade no GA foi de 10 (6;14), e no GN foi de 8 (2;13) (p=0,066). A
mediana de intensidade de sintomas de depressão no GA foi de 12,5 (7; 18,75) e no GN 11
(7; 19) (p=0,804). Desta forma, todos os escores foram classificados como mínimos. Além
disso, os escores dos inventários BDI e BAI foram relacionados com os diagnósticos de
dependência ou abuso de cada substância. Abusadores de cocaína e abusadores de crack
apresentavam escores de intensidade de sintomas superiores no BDI, daqueles indivíduos
que não possuíam estes diagnósticos (p=0,024 e p=0,025, respectivamente). Dependentes
de tabaco apresentaram uma tendência (p=0,051) a obterem escores superiores no BDI
122
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
maior do que em indivíduos que não apresentavam dependência desta substância. Já em
relação aos escores do BAI, os dependentes de maconha apresentaram escores superiores
do que indivíduos que não possuíam tal diagnóstico (p=0,028).
As relações entre os escores do BDI e o diagnóstico de dependência de álcool
(p=0,376), abuso de álcool (p=0,914 e p=0,494), abuso de tabaco (p=0,473), dependência
de maconha (p=0,062), abuso de maconha (p=0,563), dependência de cocaína (p=0,749),
dependência de crack (p=1,000), dependência de solvente (p=0,924) e abuso de solvente
(p=0,531) não apresentaram relevância estatística. Da mesma forma, as relações entre os
escores do BAI e os diagnósticos de dependência de álcool (p=0,543), abuso de álcool
(p=0,494), dependência de tabaco (p=0,511), abuso de tabaco (p=0,090), abuso de maconha
(p=0,146), dependência de cocaína (p=0,227), abuso de cocaína (p=0,193), dependência
de crack (p=0,483), abuso de crack (p=0,770), dependência de solvente (p=0,676) e abuso
de solvente (p=0,719) também não apresentaram relevância estatística.
Discussão
A alta taxa de abandono dos adolescentes neste estudo (64,7%) causou surpresa
para a equipe, pois, acreditava-se que houvesse controle maior pelos executores das
medidas socioeducativas em meio aberto, criando algum tipo de contrato mais rígido
na exigência de tratamento. Fica evidente que o sistema socioeducativo ainda necessita
incorporar e universalizar em suas práticas os avanços consolidados na legislação, como o
acompanhamento efetivo aos adolescentes, proporcionando mudanças de comportamentos
diante dos atos cometidos (Souza & Costa, 2012).
Alguns fatores são citados na literatura como preditivos para a adesão ao tratamento
na adolescência. São eles: características demográficas, variáveis ambientais e sociais,
tipo de tratamento recebido, além da boa aliança terapêutica e do relato de satisfação
com o tratamento. A gravidade da sintomatologia é apontada como fator de risco para o
abandono (Martínez, Fuentes & García, 2013; Tetzlaff, Kahn, Godley, Godley, Diamond
& Funk, 2005).
Adolescentes que eram abusadores e não dependentes de tabaco apresentaram maior
abandono ao tratamento, bem como os não dependentes de maconha. O pouco tempo
de uso de drogas, faz com que os adolescentes tenham dificuldades em compreender os
inúmeros prejuízos que a droga lhe causou e lhe causará (Dutra et al., 2008).
O atendimento a adolescentes com uso abusivo de substâncias configura-se um
desafio, tendo em vista que em um estudo com 418 pacientes atendidos em um Centro
de Atenção à Usuários de Drogas, identificou-se que ter idade menor ou igual a 18 anos
aumenta o risco de abandono de tratamento (Valencia & Villanueva, 2014). Desta forma,
há necessidade de acompanhamento e estratégias como da Entrevista Motivacional, tendo
em vista que adolescentes com menor motivação interna possuem mais probabilidade
de abandono de tratamento precoce, principalmente quando não são estabelecidas
metas claras de tratamento com a inclusão do adolescente no processo (Schroder,
Sellman, Frampton & Deering, 2009). Além disso, para a permanência do adolescente
no tratamento, são necessárias informações claras sobre o prejuízo das drogas e sobre a
evolução do processo de dependência. Assim, proporciona-se uma maior conscientização
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
123
dos adolescentes sobre o uso, sendo um motivador para o tratamento (French, Zavala,
McCollister, Waldron, Turner & Ozechowski, 2008).
No presente estudo, a idade de início do uso de álcool está diretamente ligada ao
abandono do tratamento, pois quanto mais cedo se consome álcool, menores são as chances
de aderir ao tratamento. Conforme dados de um estudo brasileiro com 776 estudantes,
houve associação significante entre o consumo frequente e abusivo de bebidas alcoólicas
e a faixa de 17 a 19 anos, com idade precoce de iniciação ao consumo (≤ 13 anos) (Costa,
Matos, Carvalho, Amaral, Cruz & Lopes, 2013).
A intensidade de sintomas de depressão e ansiedade costuma ser associada ao
abandono de tratamentos (Sousa, Ribeiro, Melo, Maciel & Oliveira, 2013; Donkin &
Glozier, 2012). A maior intensidade de sintomas depressivos associa-se a motivação para
mudança e a maior consciência das consequências do uso de drogas (Cahill, Adinoff,
Hosig, Muller & Pulliam, 2003), Cabe salientar, que nesta população, os escores de
sintomas de ansiedade e depressão foram mínimos, corroborando que pessoas com
baixa ansiedade e menos preparadas para efetuar mudanças em suas vidas abandonam
tratamentos terapêuticos (Al-Asadi, Klein & Meyer, 2014).
Estar usando cocaína atualmente e ser abusador desta droga também foram fatores
relacionados ao abandono da terapia, e identificou-se uma tendência a esta relação também
com indivíduos que usam crack atualmente. O poder de lesividade de drogas, como a
cocaína e o crack associa-se com o abandono do tratamento. Para tanto, a multiplicidade
de tratamentos propostos (grupos terapêuticos, suportes para familiares e tratamentos
médicos) contribui na permanência no tratamento (Dualibi, Ribeiro & Laranjeira, 2008;
Manrique, 2004). Assim, o enfoque para o tratamento deve ser mais abrangente, intensivo
e prolongado, tendo em vista que drogas como a cocaína e o crack têm um poder de
causar dependência rapidamente, e os adolescentes são mais suscetíveis a sintomas de
abstinência que os adultos (Bessa, 2012).
Evidenciou-se fatores de proteção à permanência do tratamento, como estar estudando
e não ter sido expulso da escola. Desta forma, a escola desempenha um importante papel
na vida dos adolescentes, lhes proporcionando interação social, envolvimento com pares
e grupos e possibilitando a autoexpressão. Neste contexto o jovem aprende a conviver
em sociedade, a lidar com as regras e a desenvolver habilidades para interagir com os
demais (Costa, Lima & Pinheiro, 2010; Pinheiro, Picanço & Barbeito, 2011).
O baixo desempenho e o abandono escolar constituem fatores de risco associados
à problemas de saúde mental em adolescentes, como o uso de drogas e comportamentos
delinquentes (Cardoso & Malbergier, 2014; Pinto, Luna, Silva, Pinheiro, Braga & Souza,
2014). Além disso, baixos níveis educacionais e dificuldades escolares relacionam-se
com o abandono terapêutico, pois sujeitos com menor grau de instrução apresentam
maior dificuldade de comunicação com os profissionais que os atendem (Silva, Moura
& Caldas, 2014).
A dependência de tabaco em estudantes relaciona-se com a falta de interesse pelos
estudos e baixo rendimento acadêmico (Yañez, Leiva, Gorreto, Estela, Tejera & Torrent,
2013). O uso de tabaco e outras drogas interfere nos resultados escolares, visto que
repetências, abandono da escola e suspensão são fatores que interagem entre si e estão
ligados ao uso de drogas e atos infracionais (Fraga & Costa, 2014).
124
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Na adolescência, as dificuldades escolares geralmente estão ligadas ao uso
de drogas e a comorbidades. A presença de comorbidades foi alta nos dois grupos
dessa pesquisa, principalmente no que diz respeito ao transtorno de conduta. A
presença de comorbidades em usuários de drogas é frequente, com prognóstico
desfavorável para o tratamento desse transtorno (Silva, Kolling, Carvalho, Cunha
& Kristensen, 2009). Adolescentes com transtornos externalizantes (TDAH, TOD
e TC) abandonam seus tratamentos e têm funcionamento negativo na escola,
envolvendo-se em problemas com a justiça (Magallón-Neri, Díaz, Forns, Goti,
Canalda & Castro-Fornieles, 2012).
Considerações finais
O tratamento de adolescentes usuários de drogas em cumprimento de medida
socioeducativa em meio aberto constitui-se um desafio aos profissionais, pois além de
buscar a prevenção da reincidência de atos infracionais, há a busca pela redução do uso
de drogas. Para tanto, há necessidade de trabalhar com a motivação do adolescente,
que pode mostrar-se ambivalente neste processo.
Neste estudo, os fatores que apresentaram relação com o abandono do tratamento
foram: não estar estudando no momento, ter sido expulso ou suspenso da escola em
algum momento da vida, idade precoce para início do primeiro uso de álcool, usar
cocaína atualmente, não apresentar diagnóstico de dependência de tabaco, ser abusador
de tabaco, não apresentar diagnóstico para dependência de maconha e ser abusador de
cocaína. Diante de tais achados, evidencia-se a importância do papel social da escola
na vida dos adolescentes.
Além dos fatores relacionados aos adolescentes, percebe-se a necessidade de
um acompanhamento efetivo no cumprimento de medidas socioeducativas em regime
aberto. Desta forma, necessita-se articulação entre as redes de proteção social a
crianças e adolescentes propostas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e pela Lei
12.594/2012, que institui o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo.
A realização de estudos como este, avaliando fatores associados ao abandono,
tem indiscutível relevância social, pois possibilitam o aprimoramento dos tratamentos
disponíveis. As limitações deste estudo foram não ter avaliado índices de satisfação
do paciente com a terapia, não ter filmado as sessões de tratamento bem como não
ter padronizado algum instrumento para a verificação da qualidade do atendimento.
Sugere-se que futuros estudos avaliem o atendimento realizado, dada a sua relevância
no sucesso terapêutico.
Referências
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_____________________________
Recebido em novembro de 2014
Aceito em fevereiro de 2015
Ilana Andretta: Graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
(PUCRS), especialista em Psicoterapia Cognitivo-comportamental, mestrado em Psicologia e doutorado em
Psicologia pela PUCRS. Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade do Vale
do Rio dos Sinos – UNISINOS.
Jéssica Limberger: Graduação em Psicologia pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Mestranda em
Psicologia Clínica na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Bolsista CAPES/PROSUP.
Margareth da Silva Oliveira: Graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul (PUCRS), Mestrado em Psicologia pela PUCRS, Doutorado em Psiquiatria e Psicologia Médica
pela Universidade Federal de São Paulo e Pós-Doutorado na University of Maryland Baltimore County
(UMBC-USA). Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul (PUCRS).
Endereço para contato: [email protected]
128
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Aletheia 43-44, p.129-146, jan./ago. 2014
Sexualidade na adolescência: um estudo com escolares
da cidade de Manaus/AM
Nália de Paula Oliveira
Jorge Umberto Béria
Lígia Braun Schermann
Resumo: Estudo transversal de base escolar com objetivo de investigar sexualidade de adolescentes
da cidade de Manaus/AM, comparando rapazes e moças. Um total de 1747 adolescentes de 12 a 19
anos responderam questionário anônimo e autoaplicado. Cerca de 53,6% dos adolescentes já teve
relação sexual, sendo o percentual mais elevado nos rapazes (68,0%). A idade média da iniciação
sexual foi maior nas moças (14,6 anos) que nos rapazes (13,1 anos). O preservativo foi usado na
primeira relação sexual por 65,8% dos adolescentes. As primeiras fontes de informações sobre
relação sexual são família e professor/escola. Rapazes e moças conhecem programas de educação
sexual oferecidos pela escola (66,5%) e município (33,7%). História de gravidez foi relatada
por 12,8% da amostra e abuso sexual por 9,0%. Este estudo mostra precoce iniciação sexual dos
adolescentes escolares de Manaus/AM. Família e escola possuem importante papel na educação
sexual desta população, necessitando orientações específicas.
Palavras-chave: Adolescência; sexualidade; estudo de base escolar.
Adolescent sexuality: A school-based study in the city
of Manaus/AM, Brazil
Abstract: Cross-sectional study performed with students from state schools in the city of Manaus/
AM. A sample of 1747 teenagers from 12 to 19 years-old answered an anonymous self-administered
questionnaire about sexuality. About 53.6% of teenagers have already had sexual relation and the
percentage is higher for boys (68.0%) than for girls (43.6%). The average age of their first sexual
relation was higher among girls (14.6 years) than boys (13.1 years). Condom was used at first
sexual relation by 65.8% of teenagers. Boys (80.3%), more than girls (73.8%), believe they have
an excellent knowledge of sexuality. The primary sources of information about sex/pregnancy
are: family and teachers/school. Teenagers are awared about sex education programs offered by
schools (66.5%) and government actions (33.7%). Pregnancy cases were reported by 12.8% of the
sample and sexual abuse by 9.0%. This study shows that sexual initiation in adolescent students
of Manaus is precocious. Family and schools play an important role in sexual orientation among
teenagers, requiring specific guidance.
Keywords: Adolescence; sexuality; school-base study.
Introdução
A adolescência é a fase na qual, geralmente, o indivíduo inicia sua vida sexual.
Pelas características específicas dessa fase do desenvolvimento, como menor condição
de controle dos impulsos, a iniciação sexual pode estar associada a comportamentos de
riscos às contaminações com DST/AIDS e à gravidez precoce. Segundo registros da
Organização Mundial da Saúde, metade das novas infecções por HIV no mundo surgem
em pessoas menores de 24 anos, sendo que a maioria se infecta por via sexual (Cruzeiro,
Souza, Silva, Pinheiro, Rocha & Horta, 2010). Sexualidade na adolescência é, portanto,
tema de interesse da saúde pública.
O Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais estima aproximadamente 734
mil pessoas vivendo com HIV/aids no Brasil no ano de 2014, correspondendo a uma
prevalência de 0,4%. Desde o início da epidemia de Aids no Brasil até junho de 2014,
foram registrados no país 757.042 casos de aids, sendo 593.217 (78,4%) notificados no
Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), 42.006 (5,5%) e 121.819
(16,1%) no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e Siscel/ Siclom (Sistema
de Controle de Exames Laboratoriais/Sistema de Controle Logístico de Medicamentos),
respectivamente, identificados pelo relacionamento probabilístico dos dados como
subnotificação do SINAN. Em 2010, a proporção de casos de Aids oriundos do SINAN
correspondia a 69,4%, passando para 64,8% em 2013, o que mostra um aumento na
subnotificação dos casos no SINAN (Brasil, 2011).
A distribuição proporcional dos casos de Aids no Brasil segundo região mostra
uma concentração dos casos nas regiões Sudeste e Sul, correspondendo a 54,4% e
20,0% do total de casos identificados de 1980 até junho de 2014; as regiões Nordeste,
Centro-Oeste e Norte correspondem a 14,3%, 5,8% e 5,4% do total dos casos (Brasil,
2011).
Em 2013, o ranking da taxa de detecção de Aids entre as Unidades da Federação
indica que os estados do Rio Grande do Sul e Amazonas apresentam as maiores taxas,
com valores de 41,3 e 37,4 casos para cada 100 mil habitantes. Foram registrados no
Brasil, desde 1980 até junho de 2014, 491.747 (65,0%) casos de Aids em homens e
265.251(35,0%) em mulheres. A razão de sexo também varia de acordo com a faixa
etária; entre os mais jovens (13 a 19 anos), existem 30% a mais de homens que mulheres
notificadas com Aids (razão de sexo de 13 casos em homens para cada 10 casos em
mulheres) no ano de 2013 (Brasil, 2011). Neste contexto a população jovem é colocada
no topo das prioridades do debate público sobre as políticas em resposta à epidemia
pelo HIV/AIDS, no Brasil e no mundo (Brasil, 2011).
Quanto à gravidez na adolescência, os registros do Ministério de Saúde apontam
que o número de partos em adolescentes de 10 a 19 anos em 2007 foi de 594.2005;
em 2008 caiu para 487.173 e até outubro de 2009 foram registrados 408.400 partos
o que revela uma redução de 34,6% ao longo da década. Mesmo havendo queda na
fecundidade em adolescentes em todo o Brasil, ainda é preocupante a gravidez em
adolescentes, visto que se configura um problema social e de saúde pública (Brasil,
2011; Ott & Sucato, 2014).
Na Região Norte do Brasil e especificamente em Manaus/AM não há estudos, até
o momento, com uma análise abrangente a respeito da sexualidade na adolescência. O
presente trabalho visou investigar a sexualidade de adolescentes escolares da cidade de
Manaus/AM, identificando aspectos de saúde geral e de vulnerabilidade para gravidez
adolescente e DST/AIDS entre rapazes e moças.
130
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Método
Trata-se de um estudo transversal de base escolar, em que foram entrevistados
adolescentes entre 12 e 19 anos, de ambos os sexos, estudantes do ensino fundamental
e médio da rede estadual de ensino da cidade de Manaus/AM.
Ao todo, 187.550 alunos estavam matriculados da 5º série do ensino fundamental
ao 3º ano do ensino médio da rede estadual em 2009, distribuídos em 06 distritos
escolares, abrangendo todas as zonas geográficas da cidade. A amostra do presente
estudo foi probabilística por conglomerados (cluster) considerados como os distritos
escolares. No cálculo do tamanho da amostra foi considerado o nível de confiança
de 95%, com poder de 80%, e risco relativo 1,5. No intuito de buscar uma referencia
para o cálculo da amostra, foi considerado o índice de prevalência de gravidez adotado
por Béria, Morris, Carret, Oliveira e Rosa (1998) em estudos sobre a sexualidade na
adolescência realizado nas cidades de Pelotas e Canoas no estado Rio Grande do Sul.
Esses estudos estimavam uma prevalência de gravidez de 10% nos adolescentes que não
usaram camisinha e de 5% nos que usaram camisinha. Para tanto seriam necessárias,
neste estudo, 1326 pessoas. Acrescentando-se 30% para controle de fatores de confusão
e mais de 20% para perdas, resultou um total de 1989 adolescentes. Para se chegar a esse
número foram selecionadas 66 turmas considerando a média de 35 alunos por turma,
perfazendo um total de 2310 adolescentes. A seleção das turmas foi realizada através
de sorteio, com a utilização de tabela de números aleatórios, respeitando a proporção de
turmas entre os distritos escolares. A lista das escolas, agrupadas por distritos escolares,
foi fornecida pela Secretaria Estadual de Educação – SEDUC (2009).
O instrumento utilizado para a coleta de dados foi um questionário autopreenchido,
anônimo, composto por 74 perguntas sobre aspectos socioeconômicos, conhecimentos
sobre a sexualidade, práticas sexuais, comportamento de prevenção e risco, uso de
contraceptivos, prevalência de DST/AIDS, conhecimento e acesso aos programas de
educação sexual e prevenção das DST/AIDS. Devido à natureza do tema não permitir a
validação das respostas, a estratégia utilizada na tentativa de aumentar a fidedignidade
das respostas dos adolescentes foi utilizando questionário anônimo e autoaplicado
preenchido em sala de aula e sem a presença do professor.
O questionário baseou-se no instrumento utilizado por Béria et al., (1998) em
pesquisas realizadas no Estado do Rio Grande do Sul, em que relação sexual é definida
como sexo vaginal, oral ou anal.
Após a aprovação pelo Comitê de Ética da ULBRA Canoas, cada escola
participante do estudo foi contatada e agendado início da coleta, que aconteceu entre
os meses de março e julho de 2010. Ao adentrar na sala de aula, os entrevistadores
apresentaram os objetivos da pesquisa, sendo garantido o anonimato e o direito de
se retirar da pesquisa a qualquer momento. Foi solicitada a assinatura do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) por parte dos adolescentes com idade de
18 anos ou mais. No caso dos menores de idade o TCLE foi encaminhado aos pais e/
ou responsáveis para assinatura, sendo autorizada a participação na pesquisa somente
após a entrega do TCLE preenchido.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
131
O questionário foi aplicado nas salas de aulas por pesquisadores treinados,
os quais ofereciam as instruções de forma verbal e esclareciam dúvidas. Após o
preenchimento, os adolescentes depositavam o questionário em um envelope pardo
como forma de garantir o anonimato. A média de tempo utilizada pelos adolescentes
para o preenchimento do questionário foi de 55 minutos. Foi realizado um estudo
piloto com 40 adolescentes em duas escolas diferentes das participantes do estudo para
testar a compreensão dos adolescentes sobre as questões incluídas no instrumento e os
procedimentos da pesquisa.
Os questionários foram revisados e inseridos no programa EPIDATA 3.1. com
dupla digitação, sendo realizada correção de erros encontrados. Após, os dados foram
migrados para o pacote estatístico SPSS 18.0 for Windows para fins de análise. Toda
a análise foi estratificada por sexo. Foram utilizadas estatística descritiva, tais como:
frequência, média e desvio-padrão e estatística inferencial, através de análises bivariadas,
cruzando as variáveis independentes (conhecimentos sobre a sexualidade, práticas
sexuais, comportamento de prevenção e risco, uso de contraceptivos, prevalência de
DST/AIDS), conhecimento e acesso aos programas de educação sexual e prevenção das
DST/AIDS com a variável dependente (sexo). Foi utilizado o teste do qui-quadrado para
as variáveis qualitativas, para variáveis ordinais com mais de dois níveis, foi utilizado
o teste de tendência linear, com o objetivo de identificar possíveis diferenças entre os
extratos, e o teste t de Student para as variáveis intervalares. O nível de significância
considerado nas análises foi de 5%.
Resultados
Participaram do estudo 1747 adolescentes escolares de 12 a 19 anos. As perdas
foram de 17,94%, 2,06%, menos que o previsto no cálculo amostral. As perdas ocorreram
por recusa em preencher o questionário (1,36%), não autorização dos pais (4,67%) e
não comparecimento no dia do preenchimento (11,91%). Foram realizadas até cinco
tentativas para a aplicação dos questionários, sempre buscando o maior número de alunos
participantes.
A Tabela 1 apresenta as características sociodemográficas dos adolescentes.
Considerando o total de participantes neste estudo, a maioria (59.2%) eram moças. A
média de idade dos adolescentes foi de 15,4 anos para os rapazes (DP+ 2,12) e de 15,1 anos
para as moças (DP+ 2,07). A grande maioria dos adolescentes eram solteiros (96,4% dos
rapazes e 94,9% das moças). Mais moças (89.4%) do que rapazes (84,2%) manifestaram
ter religião (p<0,05), bem como praticar a religião (65% das moças 57,9% dos rapazes,
p<0,05). Em relação à realização de uma atividade profissional com rendimento financeiro,
41,7% dos rapazes e 26,6% das moças estavam inseridos no mercado profissional de
alguma forma, (p<0,001).
132
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Tabela1 – Características sociodemográficas de adolescentes de escolas públicas de Manaus, AM, 2010.
Variáveis
Masculino
Sexo (n=1747)
Feminino
Total
%
%
%
40,8
59,2
100,0
Situação Conjugal
Solteiro
96,4
94,9
95,5
(n=1747)
Casado/Morando junto
3,5
4,9
4,3
Idade (em anos)
12 a 13
22,7
26,7
35,1
(n=1747)*
14 a 15
26,9
31,3
29,5
16 a 17
26,9
25,3
26,0
18 a 19
23,4
16,6
19,4
Tem religião*
84,2
89,4
87,2
Pratica religião *
57,9
65,0
62,1
41,7
26,6
32,7
Religião (n=1747)
Trabalha (n=1747)**
*p<0,05; **p<0,001
No que diz respeito ao conhecimento sobre sexo, a Tabela 2 mostra que mais rapazes
(80,3%) do que moças (73,8%) julgam ter um excelente conhecimento sobre o assunto
(p<0,05). No entanto, mesmo com altos percentuais declarados sobre conhecimento da
sexualidade, há interesse nos adolescentes em aprender mais sobre o tema, o que foi
revelado por 89,1% dos rapazes e 93,3% das moças. O aprendizado já adquirido sobre o
assunto pelos adolescentes, representado aqui pelas primeiras informações sobre relação
sexual/gravidez, teve como fonte de informação mais significativa a família (70,8% dos
rapazes e 83,0% das moças, p<0,001) seguido dos amigos/colegas (72,2% dos rapazes e
71,5% das moças); o professor/escola (62,2% dos rapazes e 69,0% das moças, p<0,05)
e a TV/Rádio (63,5% dos rapazes e 61,1% das moças).
Investigaram-se também os médicos/serviços de saúde, livros e filmes como fonte de
informação e observou-se que quando comparadas aos rapazes, mais moças manifestaram
obter informações sobre sexo através de médicos/serviços de saúde (p<0,000) e livros
(p<0,05), e menos através de filmes (p<0,001).
Dentre os assuntos abordados em casa sobre educação sexual, aqueles femininos
(corpo da mulher, menstruação, virgindade, gravidez, método para não engravidar) foram
mais prevalentes nas moças enquanto que nos rapazes prevaleceu assuntos como corpo
do homem e relação sexual. Assuntos sobre DST e AIDS, foram igualmente tratados com
rapazes e moças no meio familiar.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
133
Tabela 2 – Conhecimento sobre sexualidade e AIDS de adolescentes de escolas públicas de Manaus,
AM, 2010
Variáveis
Masculino
Feminino
Total
%
%
%
Conhecimento sobre sexo
Excelente/Bom
80,3
73,8
76,4
(n =1728)**
Regular
16,7
21,6
19,6
Ruim/Péssimo
3,0
4,6
3,9
89,1
93,3
91,6
Gostaria de aprender mais sobre sexo, gravidez e AIDS
(n=1721)**
Primeiras informações
Família (n = 1572)**
70,8
83,0
78,2
sobre sexo
Amigos/Colegas (n =1427)
72,2
71,5
71,8
Professor/Escola (n =1409)*
62,2
69,0
66,3
Tv/Rádio (n =1348)
63,5
61,1
62,1
Revistas/Jornais (n =1348)
56,4
55,2
55,7
Médico/Serviço de saúde (n =1348)**
32,0
45,9
40,4
Filmes (n =1347)**
57,4
43,8
49,4
Livros/Livretos (n =1327)
44,8
50,1
47,9
Parceiro/Namorado (n =1366)*
40,0
34,5
36,7
Métodos para não engravidar (n =1508)**
63,8
81,4
74,7
DST (n =1531)
72,6
72,7
72,6
Menstruação (n =1511)**
39,2
92,1
72,5
Gravidez (n =1482)**
61,0
78,9
72,1
Relação Sexual (n =1506)*
73,4
67,7
69,9
Virgindade (n =1489)**
54,2
78,7
69,4
AIDS (n =1457)
63,7
64,6
64,2
Corpo de Mulher (n =1449)**
54,2
62,6
59,3
Corpo de Homem (n =1419)**
40,9
33,8
36,6
Educação sexual em casa
*p<0,05; **p<0,001
Os totais não coincidem devido à falta de informações para algumas variáveis.
Em se tratando da percepção dos adolescentes sobre vulnerabilidade para infecção
pelo HIV, a Tabela 3 mostra que 65,9% dos rapazes e 76,9% das moças (p<0,001) julgam
ser impossível ou quase impossível contrair HIV/AIDS. A grande maioria dos adolescentes
134
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
aceita se o parceiro oferece camisinha (91,3%) e refere que faria teste para verificar a
existência de HIV (80,1%).
Tabela 3 – Percepção da vulnerabilidade para infecção pela AIDS e uso do preservativo de adolescentes de
escolas públicas de Manaus, AM, 2010
Variáveis
Masculino
Feminino
Total
%
%
%
Percepção de vulnerabilidade
impossível/quase impossível
65,9
76,9
72,4
para AIDS
muito possível/possível
16,8
12,3
14,1
(n= 1705)**
pouco possível
17,3
10,9
13,5
77,1
82,1
80,1
Faria teste de AIDS
(n = 1712)*
Aceita se o parceiro
aceita bem
90,2
92,4
91,3
oferece camisinha
aceita contrariado
2,8
2,5
2,7
(n= 905)
desconfia dele(a)
2,5
2,8
2,7
perde o tesão
1,3
1,2
1,2
não aceita
2,3
0,9
1,7
*p< 0,05; p<0,001Os totais não coincidem devido à falta de informações para algumas variáveis.
No que diz respeito às práticas sexuais, a Tabela 4 mostra que mais rapazes (68,0%)
do que moças (43,6%) são sexualmente ativos. A média de idade da primeira relação
sexual é maior nas moças (14,6 DP+ 2,07) do que nos rapazes (13,1; DP+ 2,12; p<0,001),
revelando que as moças se iniciam mais tardiamente. Na primeira relação sexual, 76,9%
das moças declararam ter utilizado preservativo enquanto que somente 55,5% dos rapazes
o fizeram (p< 0,001). Esta prática se modifica quando se trata da última relação sexual,
verificando-se percentuais semelhantes para rapazes (76,75%) e moças (74,3%). O número
de parceiros sexuais nos últimos três meses foi de nenhum para 22.8% dos adolescentes,
um para 55,7%, de dois a quatro para 15,2% e cinco ou mais para 6,3%. Foi observada
maior prevalência de apenas um parceiro sexual nas moças (70,4%) do que nos rapazes
(42,2%), e maior prevalência de dois ou mais parceiros nos rapazes (32,6%) quando
comparados às moças (9,4%) (p<0,001).
Na última relação sexual, o parceiro foi do sexo oposto para 90,6% dos rapazes e
95,6% das moças. O parceiro da última relação sexual já era conhecido antes para a maioria
dos adolescentes (95,6% meninas e 84,1% meninos, p<0,001). A última relação sexual
ocorreu há menos de um mês para 59,8% das moças enquanto para os rapazes esse número
cai para 49,9% (p<0,05). Quanto à preferência sexual do parceiro, a Tabela 4 mostra que
tanto rapazes (87,3%) quanto moças (89,0%) preferem parceiro do sexo oposto ao seu.
Em se tratando da atitude adotada pelos adolescentes em relação à sexualidade, observase que mais rapazes (74,2%) que moças (59,0%) estão fazendo algo para se proteger da
AIDS (p<0,001). Neste contexto, as atitudes mais prevalentes foram: o uso de camisinha,
sendo que os rapazes a utilizam mais que as moças (p<0,05); ter menos parceiros sexuais,
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
135
sendo mais predominante entre as moças quando comparadas aos rapazes (p<0,001);
ter parado de usar álcool/drogas antes de transar, não diferindo entre moças e rapazes; e
estar em abstinência sexual, sendo esta atitude mais adotada por moças que por rapazes
(p<0,001). A Tabela 4 mostra ainda que 12,8% dos adolescentes apresentaram histórico
de gravidez e 9% de abuso sexual, sendo estes mais frequentes nas moças (16,4 e 11,7%)
do que os rapazes (9,5 e 5,1%) respectivamente.
Tabela 4 – Práticas sexuais de adolescentes de escolas públicas de Manaus, AM, 2010.
Variáveis
Já teve relação sexual (n = 1699)*
Masculino
Feminino
Total
%
%
%
68,0
43,6
53,6
Idade da primeira
5
0,7
0,2
0,5
relação sexual (em anos)
6
0,4
0,0
0,2
(n= 886)*
7
0,7
0,0
0,3
8
1,5
0,5
1,0
9
1,5
0,2
0,9
10
7,5
1,2
4,4
11
6,4
1,6
4,1
12
15,4
7,6
11,6
12
17,0
10,6
13,9
14
22,5
21,5
22,0
15
13,0
26,6
19,6
16
9,5
16,0
12,6
17
2,0
9,7
5,8
18
1,5
2,3
1,9
19
0,2
1,4
0,8
na primeira relação sexual
(n = 897)*
na última relação sexual
(n = 908)
55,5
76,9
65,8
76,7
74,3
75,6
Número de parceiros sexuais
25,2
20,2
22,8
nos últimos 3 meses
(n = 908)*
42,2
22,9
70,4
6,9
55,7
15,8
9,7
2,5
6,3
90,6
95,6
93,0
84,1
96,5
90,0
Uso de preservativo
Parceiro na ultima relação sexual
sexo oposto (n = 903)*
Conhecia o parceiro antes da
relação sexual (n = 900)*
136
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Masculino
%
Variáveis
Quando ocorreu a última relação
Sexual
(n = 900)
Preferência sexual
(n = 907)**
Feminino
%
Total
%
Há menos de 1 mês
49,9
59,8
54,7
15,4
De um a dois meses
17,8
12,9
De três a quatro meses
10,7
8,8
9,8
Mais de cinco meses
21,6
18,5
20,1
Sexo oposto
7,3
89,0
88,1
Mesmo sexo
3,2
4,4
3,7
Os dois sexos
5,1
1,6
3,4
Os dois, prefere do mesmo
2,5
1,6
2,1
Os dois, prefere o oposto
1,9
3,4
2,6
74,2
59,0
65,3
Protege-se da AIDS (n = 1681)**
Usa camisinha
Formas de proteção da AIDS
(n = 1009)
95,5
92,3
93,9
64,4
77,5
71,1
Tem menos parceiros
sexuais (n = 872)**
Parou de usar álcool/dogas
antes de transar
(n = 739)
62,7
61,8
História de gravidez (n=114)**
9,5
16,4
História de abuso sexual (n = 1658)**
5,1
11,7
62,2
Parou de transar
12,8
9,0
* p<0,05, **p<0,001
Os totais não coincidem devido à falta de informações para algumas variáveis.
A Tabela 5 apresenta dados referentes ao conhecimento e ao acesso a programas
de educação sexual e de prevenção da AIDS, revelando que há o conhecimento
desses programas por parte dos adolescentes tanto na escola (66,5%) quanto no
município (33,7%), sendo esse conhecimento mais prevalente nas moças do que
nos rapazes (p<0,05). O acesso a esses programas foi maior na escola (38,5%) do
que no município (17,5%). Mais moças (43,0%) do que rapazes (31,8%) afirmaram
participar destes programas na escola (p<0,001) e 52,1% de todos os adolescentes que
participaram da pesquisa manifestaram mudar o comportamento após a participação
nesses programas.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
137
Tabela 5 – Conhecimento de acesso aos programas de educação sexual e prevenção de adolescentes
de escolas públicas de Manaus, AM, 2010.
Variáveis
Masculino
%
Feminino
%
Total
%
Conhece programas de
na escola (n = 1631)*
62,5
67,4
65,5
educação sexual
no município (n = 1384)
35,6
32,5
33,7
Participa de programas
na escola (n = 1371)**
31,8
43,0
38,5
de educação sexual
no município (n = 1162)
15,5
18,8
17,5
50,7
53,0
52,1
Mudou o comportamento
ao participar dos programas de
educação sexual (n = 1075)
Gostaria que tivessem programas
de educação sexual
na escola (n = 1584)**
no município (n = 1366)*
87,4
76,8
94,0
82,1
91,4
79,9
Obtém dos postos de saúde
do município
Folhetos informativos (n = 1494)**
Camisinha (n = 1514)**
61,6
53,3
70,1
39,4
66,7
45,0
Pílulas anticoncepcionais (n = 1407)**
Testes para AIDS (n = 1414)
17,9
23,5
26,1
21,9
22,9
22,6
*p<0,05; **p<0,001
Os totais não coincidem devido à falta de informações para algumas variáveis.
Quanto à participação do município na sexualidade dos adolescentes, observouse que se dá primeiramente com a distribuição de folhetos informativos, sendo mais
obtido pelas moças (70,1%) que pelos rapazes (61,6%) (p<0,001); seguido pela entrega
de camisinhas, com obtenção maior pelos rapazes (53,3%) que pelas moças (39,4%)
(p<0,001); pílulas anticoncepcionais, com maior obtenção por parte das moças (26,9%)
que dos rapazes (17,9%) (p<0,001); e pela oferta de teste para AIDS, não se diferenciando
a obtenção entre rapazes e moças (22,6% dos adolescentes).
Discussão
Do total da população estudada de 1747 adolescentes escolares com idade de 12 a 19
anos, 53,6% relataram ter iniciado atividade sexual. Em outro estudo com escolares do 9°
ano de Goiânia-GO (n=3.099), com predomínio das idades de 13 a 15 anos, a prevalência
de relação sexual alguma vez foi de 26,5% (Sasaki, Leles, Malta, Sardinha, & Freire,
2015). Já em Porto Velho-RO, a prevalência de início de vida sexual foi de 25,5% em
996 escolares do 8º ano e no sul do Brasil, o percentual foi de 45,0 % em uma amostra
de 1091 escolares de 12 a 19 anos (Bielenki & Béria, 2008). Ao ser comparada a idade
média de início da atividade sexual dos adolescentes de Manaus com o encontrado no
Sul do País, observa-se mais precocidade em Manaus, tanto para as moças (idade média
de 14,6 anos em Manaus e de 15 anos no Sul) quanto para os rapazes (idade média de
13,1 anos em Manaus e de 14 anos no Sul). Essa diferença regional na idade de iniciação
sexual dos adolescentes pode refletir maior vulnerabilidade dos adolescentes do Norte
138
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
do país em relação aos da região Sul, pois quanto mais cedo ocorre a iniciação sexual,
menos condições o adolescente possui de se proteger e buscar orientações adequadas,
ficando mais exposto ao risco de contrair DST/AIDS e de viver gravidez não planejada
(Bielenki & Béria, 2008; Epstein, Bailey, Manhart, Hill, Hawkins, Haggerty & Catalano,
2014; Siegel, Lekas, Ramjohn, Schrimshaw & VanDevanter, 2014).
O início da vida sexual ocorreu em média 1 a 2 anos mais cedo para os rapazes
quando comparado às moças, o que também foi observado em outros estudos (Teva,
Bermudez, Ramiro & Ramiro-Sanchez, 2013; Cruzeiro, Souza, Silva, Horta, Muenzer,
Faria & Pinheiro, 2008; Romero, Medeiros, Vitalle & Wehba, 2007; Oliveira- Campos,
Giatti, Malta & Barreto, 2013; Rocha, Horta, Pinheiro, Cruzeiro & Cruz, 2007; Marinho,
Aquino & Almeida, 2009). Os indivíduos do sexo masculino tem chances mais elevadas
de iniciar a vida sexual mais cedo, o que coincide com as expectativas sociais que
continuam pressionando os rapazes para iniciação sexual precoce como simbolismo
de maturidade. A iniciação precoce está associada a comportamentos que apresentam
riscos à saúde (Cruzeiro et al., 2008). Estudos sugerem que adolescentes que iniciam
a vida sexual mais cedo mantém padrões de comportamento que os colocam em risco,
tais como carregar armas e uso de bebidas alcoólicas (Bemfam, 1999; Jeremić, Matejić,
Soldatotović & Radenović, 2014).
A diferença na idade de iniciação sexual entre moças e rapazes tem sido atribuída por
alguns autores à normatividade de gênero e à expectativa de atitudes e práticas distintas
para homens e mulheres no campo da sexualidade (Borges & Schor, 2005; Taquette,
Vilhena & Paula 2004).
A iniciação sexual mais precoce dos adolescentes do presente estudo torna-se
um problema de saúde pública, pois esse comportamento está acompanhado por uso
inconstante de preservativo, principalmente na primeira relação sexual. As moças do
presente estudo reduziram o uso de preservativo comparando a primeira e a última relação
sexual. Esse resultado coincide com estudos que indicam tendência crescente do uso de
métodos contraceptivos e de camisinha na iniciação sexual, mas com diminuição do uso
na medida em que os relacionamentos se estabelecem (Gubert & Madureira, 2008).
Os adolescentes do presente estudo declararam excelente conhecimento sobre
sexualidade (80,3% rapazes e 73,8% moças), sendo que mais rapazes que moças acreditam
estar muito bem informados, o que se assemelha ao observado por Bielenki e Béria (2008)
na região Sul do país. Estes dados mostram que a crença a respeito da informação sobre
sexualidade é inerente aos adolescentes independente da região, revelando também o
sentimento de onipotência, tão característico dessa fase do desenvolvimento humano.
Esse sentimento também foi observado por vários autores ao referirem que os jovens
possuem a convicção de que DST e AIDS “nunca irá acontecer com eles” (Lunardelli,
2002; Trajman et al., 2003; Crosby, DiClemente, Wingood, Salazar, Harrington &
Davies, 2003; Camargo & Botelho, 2006). Este achado aponta para um sentimento de
invulnerabilidade em que o adolescente julga ser inatingível por um vírus sobre o qual
conhece bem. Essa crença pode dificultar o trabalho de intervenção, pois não há percepção
de vulnerabilidade.
Jeolás e Ferrari (2003) chamam atenção para a dificuldade em mudar valores e
pensamentos cultural e socialmente preestabelecidos, necessário na intervenção com
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
139
adolescentes. Outro ponto que contribui para essa dificuldade é a escolaridade, pois
estudos indicam que a maior escolaridade está associada à maior frequência do uso do
preservativo nas relações sexuais (Lunardelli, 2002; Béria, Morris, Carret, Oliveira &
Rosa, 1998; Souza-Jr, Szwarcwald & Castilho, 2007; Teixeira, Knauth, Fachel & Leal,
2006; Takiuti, Julien, Garrido, Fernandes, Monteleone & Prebil, 2001).
A grande maioria dos adolescentes estudados (89,1% rapazes e 93,3% moças)
gostariam de aprender mais sobre o assunto sexo, sendo a família e os amigos/colegas,
o professor/escola e a mídia (TV e rádio) as principais fontes de informação. Zenevicz e
Béria (2003) mostram que, em sua maioria, estudantes/adolescentes em Concórdia-SC
conhecem os riscos da AIDS, mas chama atenção ao fato de que estarem informados não
é suficiente para mudança de comportamento. Querer aprender mais sobre sexualidade
também foi encontrado por Barros, Barreto, Pérez, Santander, Yépez, Abad-Franch &
Aguilar, (2001) em estudo realizado no Equador e conclui que os adolescentes têm um
interesse muito grande em melhorar seus conhecimentos sobre sexualidade.
Camargo e Botelho (2006) relatam a escola e a televisão (44,8% e 41,5%),
seguidos dos folhetos informativos e a família (36,6% e 34,1%) como fontes principais
de informação sobre sexualidade para os adolescentes, o que se confirma também por
Romero et al., (2007). Hoyos e Sierra (2001) afirmam que a troca de informação entre
amigos proporciona um melhor nível de conhecimento. Estes resultados chamam atenção
para a importância da família estar disponível e ter condições de orientar os filhos quanto
à sexualidade, situação em que o diálogo ganha espaço importante (Ohene, Ireland &
Blum, 2005). Compartilhar ideias no ambiente familiar é o melhor caminho para negociar
e aprender os códigos morais, servindo de base para desenvolvimento de ideias e conceitos
próprios pautados em responsabilidade e afeto (Zenecvicz & Béria, 2003). Isso indica a
importância da educação como contribuinte para adoção de um comportamento sexual
mais saudável, o que coincide com as conclusões de outro estudo feito no Sul do país
(Bielenki & Béria, 2008).
Em relação ao número de parceiros sexuais nos últimos três meses, constatou-se
que a maioria dos participantes afirma ter possuído apenas um, sendo este já conhecido,
e de sexo oposto ao seu. Neste ponto houve uma diferença entre os gêneros, sendo esta
prática mais frequente entre as moças, o que remete à possibilidade de que possuem
parceiros fixos com envolvimento afetivo-emocional. Resultados semelhantes também
foram encontrados por Béria et al., (1998). A manutenção de apenas um parceiro sexual
também pode ser visto como uma medida protetora contra o HIV (Zenecvicz & Béria,
2003).
Os resultados do presente estudo mostram que a grande maioria dos adolescentes
aceitaria se o parceiro oferecesse camisinha, bem como faria o teste para verificar a
existência de HIV, indicando disponibilidade para adoção de um comportamento sexual
preventivo, o que é relevante para os cuidados com a saúde sexual (Calazans, Araujo,
Venturini & França Junior, 2005). Em relação ao uso de preservativo, observa-se diferença
entre os gêneros, pois as moças afirmaram ter utilizado mais preservativo que os rapazes
na primeira relação sexual, o que se inverteu na última relação. Resultados semelhantes
também foram encontrados por outros autores (Béria et al., 1998) no Sul do país, podendo
indicar que o envolvimento afetivo-emocional mais comum nas moças interfere em seu
140
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
comportamento preventivo de modo a negligenciar a prevenção, prevalecendo a confiança
na relação com o parceiro (Cano & Ferriani, 2000). Estudos nacionais e internacionais
(Bozon & Heilborn, 2006; Rissel, Richters, Grulich, Visser & Smith, 2003; Tequette,
Vilhena & Paula, 2004; Heilborn & Cabral, 2006; Rosenthal, Von Ranson, Cotton, Biro,
Mills & Succop, 2001; Paiva, Peres & Blessa, 2002; Miranda, Gadelha & Szwrcwald,
2005) indicam aumento no uso de preservativo entre jovens em geral e, particularmente,
na ocasião da iniciação sexual.
O uso de preservativo também está relacionado a outros fatores tais como ser do
sexo feminino e ter baixa escolaridade (Béria et al., 1998; Zenecvicz & Béria, 2003).
Outros estudos mostram que a maior escolaridade está associada à maior frequência do
uso de preservativo nas relações sexuais (Lunardelli, 2002; Trajman et al., 2003; Crosby
et al., 2003; Zenecvicz & Béria, 2003).
Quanto à preferência sexual, 88,1% declararam ter relações sexuais apenas com
parceiros do sexo oposto, e mais rapazes tiveram relações sexuais com parceiros do mesmo
sexo quando comparado às moças, o que também foi encontrado por Heilborn e Cabral
(2006). Outro ponto relevante desse estudo foi a ocorrência de gravidez, relatada por 12,8%
dos adolescentes participantes, semelhante ao encontrado por Béria et al., (1998).
Os dados epidemiológicos sobre gravidez mostram que houve redução de 34,6%
no índice de gravidez no país, apontado pelo Ministério da Saúde (Brasil, 2011) com
uma taxa de redução de 34,6%, sendo a região sul aquela que concentra maior redução
(36,50%) e a região norte (21,90%) a menor. Esta mudança no quadro nacional poderia
ser atribuída às ações do Ministério da Saúde através da distribuição de preservativo e
às campanhas de DST/AIDS.
A maior história de gravidez relatada pelas moças, também pode refletir a diferença
de gênero no poder de tomada de decisão na negociação do uso de preservativo (Aquino,
Almeida, Araújo & Menezes, 2006). Mesmo em situações em que teoricamente o controle
para o sexo protegido está sob o poder das mulheres, como é o caso do preservativo
feminino, a adoção de medidas preventivas ainda não é frequente (Takiuti et al., 2001;
Calazans et al., 2005; Aquino et al., 2006).
Outro achado do presente estudo a ser destacado é o conhecimento de programas de
educação sexual tanto na escola quanto no município por parte dos adolescentes, sendo
maior o acesso na escola e mais procurado pelas moças que pelos rapazes, havendo o relato
de mudança de comportamento após participação nestes programas de educação sexual.
Embora um pouco mais da metade dos adolescentes pesquisados conhecem programas de
educação sexual na escola e somente 38,5% participam desses programas, o dado reforça
a importância social da escola na mudança de comportamento com o intuito de promover
educação sexual dos adolescentes, revelando que jovens que participam destes programas
tem maior conhecimento do próprio corpo e maior sensibilização para responsabilidade
diante da vivência da sexualidade, conforme aponta Takiuti et al., (2001).
Hoyos e Sierra (2001) concluem que alto nível de conhecimento acerca da AIDS é
fator predisponente para o uso de camisinha. Um estudo indica que trabalhar a mudança
de comportamento visando uma sexualidade mais responsável e saudável, caracteriza
uma árdua e demorada tarefa, necessitando de intervenções frequentes, pois objetiva
a reconstrução de atitudes responsáveis (Takiuti et al., 2001). Para realizar trabalhos
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
141
de intervenção, é preciso conhecer as atitudes e comportamentos dos adolescentes e
traçar corretamente as estratégias para abordar a prevenção do HIV e obter resultados
significativos que se traduzem em mudanças na prática (Zenecvicz & Béria, 2003; Hoyos
& Sierra, 2001).
Vale ressaltar a necessidade de que as informações precisam ser repassadas,
respeitando as diversidades existentes na população, salientando a importância de que
todas as ações educativas destinadas à orientação sexual devem ser contínuas, colocandose como um desafio que é necessário ser assumido por todos os envolvidos com o público
adolescente, desde os pais, profissionais da área da saúde e educação, mídia, governos e
a sociedade de forma geral, sempre no intuito de permitir aos adolescentes condições de
vivenciar sua sexualidade com saúde e responsabilidade associada ao prazer.
Enfim, a presente pesquisa identificou início da vida sexual dos rapazes escolares do
Norte mais precoce quando comparados aos do Sul do país. A maioria dos adolescentes
julga ter bom conhecimento sobre sexo, sendo as principais fontes de informação a
família, a escola/professor, os amigos e a mídia (TV e Rádio), mesmo assim manifestaram
interesse em ter mais conhecimento sobre a temática. As moças usaram mais preservativos
que os rapazes na primeira relação sexual, mas diminuíram o uso quando a relação se
tornou estável. O relato de gravidez foi mais mencionado pelas moças. Estas, também
apresentaram maior participação nos programas de educação sexual oferecidos pelas
escolas. Moças e rapazes que participaram dos programas de educação sexual nas escolas
referem ter mudado de comportamento.
Todos esses dados mostram a necessidade de trabalhar a temática sexualidade de
forma mais contínua, iniciando o mais cedo possível. Sugere-se que esse trabalho se inicie
na escola ainda no ensino fundamental por meio de oficinas, jogos, cine-foro, dinâmicas
e vivencias que permitam ao adolescente maior conhecimento, criando um espaço para
discussão, esclarecimento e desenvolvimento de um comportamento sexual preventivo.
Sugere-se, ainda, intervenção da escola junto aos pais, inserindo nas reuniões periódicas
com pais do ensino fundamental oficinas para trabalhar na preparação para educação sexual
em casa. O município, igualmente, deve se responsabilizar por campanhas informativas
sobre DST/AIDS, trabalhando a questão da sexualidade e ao mesmo tempo estimulando
a aproximação e acolhimento dos filhos por parte dos pais.
Em relação à gravidez sugere-se que a escola trabalhe em parceria com a Secretaria
Municipal de Saúde, inserindo no currículo escolar atividades com profissionais da
saúde, no intuito de propor um espaço de informação e discussão sobre a temática. A
distribuição de preservativos deve ser ampliada para atender a demanda reprimida no
sentido de combater as DSTs/AIDS e a gravidez não planejada.
Finalizando salienta-se que as ações educativas destinadas à prevenção das DSTs/
AIDS e gravidez não planejada devem iniciar no ensino fundamental e serem contínuas,
como um componente curricular, sendo assumidas pela escola, professores, pais,
profissionais da saúde e município.
Como limitações do estudo, podem-se mencionar dificuldades no acesso a alguns
alunos matriculados, o que gerou 17,94% de perdas, sendo a maioria (11,91%) pelo não
comparecimento dos adolescentes no dia do preenchimento do questionário. Não sabemos
quanto deste não comparecimento se deu em função de recusa ou devido à paralisação no
142
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
transporte coletivo na cidade de Manaus, que ocorreu no período de coleta, dificultando
o acesso dos alunos à escola.
Referências
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Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Universidade Luterana
do Brasil, Canoas, RS, Brasil
____________________________________
Recebido em outubro de 2014
Aceito em março de 2015
Nália de Paula Oliveira: Professora, Curso de Psicologia Centro – Universitário Luterano de Manaus; Mestre
em Saúde Coletiva – Universidade Luterana do Brasil.
Jorge Umberto Béria: Professor Adjunto, Curso de Medicina e Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva
Universidade Luterana do Brasil.
Lígia Braun Schermann: Orientadora, Professora Adjunta, Curso de Psicologia e Programa de Pós-Graduação
em Saúde Coletiva – Universidade Luterana do Brasil.
Endereço para contato: [email protected]
146
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Aletheia 43-44, p.147-159, jan./ago. 2014
Integrando método clínico e investigação empírica para
a compreensão do abandono em psicoterapia psicanalítica
Aline Alvares Bittencourt
Maria Cristina Vieweger de Mattos
Farid Rodrigues Bessil
Fernanda Barcellos Serralta
Silvia Pereira da Cruz Benetti
Resumo: O presente artigo busca contribuir para a diminuição da lacuna entre a prática clínica e
a pesquisa empírica em psicoterapia. Especificamente, o estudo visa refletir sobre o abandono em
psicoterapia psicanalítica, levantando hipóteses sobre fatores que poderiam facilitar ou dificultar
a adesão ao processo. Foram analisadas as sessões iniciais de dois tratamentos psicoterápicos
com pacientes que apresentam Transtorno de Personalidade Borderline conduzidas pela mesma
terapeuta. Os tratamentos possuem desfechos diferentes: um apresentou boa adesão e o outro
foi interrompido precocemente. As sessões de ambos os casos foram gravadas em vídeo e
posteriormente codificadas por duplas de juízes independentes com instrumentos do tipo q-sort
que avaliam diferentes aspectos do processo terapêutico. Os resultados obtidos foram integrados
com o método clínico de entendimento psicanalítico e sugerem que, na psicoterapia psicanalítica
com pacientes borderline, a ausência de comportamentos típicos no processo inicial pode ser um
sinal de resistência e pseudocolaboração.
Palavras-chave: processo terapêutico; psicoterapia psicodinâmica; transtorno de personalidade
borderline.
Combining clinical method and empirical research to understand dropout
in psychoanalytic psychotherapy
Abstract: This paper attempts to contribute to reducing the gap between clinical practice
and empirical research in psychotherapy. Specifically, the study aims to examine dropout in
psychoanalytic psychotherapy by formulating hypotheses about factors that may facilitate or hinder
adherence to process. The initial sessions of two psychotherapies with Borderline Personality
Disorder patients conducted by the same therapist are analyzed. The treatments have different
outcomes: one had good compliance and the other was early interrupted. The initial sessions of
both cases were videotaped and then encoded by pairs of independent judges with q-sort type
instruments that assess different aspects of the therapeutic process. The results were integrated
with the clinical method of psychoanalytic understanding and suggest that in psychoanalytic
psychotherapy with borderline patients, the absence of typical behaviors in the initial process can
be a sign of resistance and pseudo-collaboration.
Keywords: psychotherapy process; psychodynamic psychotherapy; borderline personality
disorder.
Introdução
Este artigo busca contribuir para a diminuição da lacuna existente entre a prática
clínica e a pesquisa empírica, “conjugando subjetividade e objetividade, de modo a
contemplar exigências e interesses clínicos e metodológicos” (Serralta, Nunes & Eizirik,
2011, p. 503). A pesquisa psicanalítica típica utiliza o método clínico no qual intervenção
e pesquisa coincidem. Ela é heurística e parte da observação do cotidiano e se descobre
a partir do próprio método. Parte-se do pressuposto que a psicanálise não pertence nem
às ciências naturais nem às ciências humanas, mas introduz um novo paradigma que
implica numa relação dialética entre sujeito e objeto (Silva, Yazigi & Fiore, 2008). Por
outro lado, a pesquisa empírica é comprometida com o pensamento crítico e com a
aplicação de métodos científicos oriundos das ciências naturais e humanas para estudar
conceitos e processos psicanalíticos bem como resultados e processos de mudança em
psicoterapia e em psicanálise. Ao recusar a inclusão de outros métodos para dialogar
com o método psicanalítico, a psicanálise vem, ao longo das últimas décadas, perdendo
espaço na academia e interlocução com outros campos do saber. A integração entre
pesquisa empírica e prática psicanalítica e a construção de elos entre psicanálise e outras
disciplinas, como psicologia, psiquiatria e neurociências, por exemplo, é necessária para
ajudar a reestabelecer a psicanálise como uma disciplina relevante nos meios acadêmicos
e de saúde mental (Fonagy, 2004).
Uma minoria de psicanalistas e psicoterapeutas de orientação psicanalítica vem
promovendo estudos empíricos nas mais diferentes áreas de aplicação da psicanálise
e contribuindo para a difusão e resistência desta disciplina na academia. A pesquisa
psicanalítica tem ampliado seu espaço no meio científico a partir da publicação de
uma série de revisões importantes e meta análises sobre os resultados das intervenções
psicoterápicas nessa abordagem teórica. Nesse caso, os estudos confirmam a efetividade
e a eficácia das psicoterapias psicanalíticas em distintos quadros clínicos e faixas etárias,
apontando que os ganhos obtidos com a psicoterapia psicanalítica se assemelham a de
outras abordagens terapêuticas anteriormente pesquisadas (Abbass, Hancock, Henderson
& Kisely, 2006; Gerber, Kocsis, Milrod, Roose, Barber, Thase, Perkins & Leon, 2011;
Leichsenring, Hiller, Weissberg & Leibing, 2006).
Com o passar dos anos, a pesquisa empírica em psicoterapia de orientação
psicanalítica vem crescendo significativamente, no entanto a compreensão dos aspectos
que levam à mudança continuam carecendo de pesquisas. Clínicos buscam em suas
supervisões entender e elucidar o processo, pesquisadores com seus instrumentos buscam
quantificar acontecimentos, mas pouco juntam suas forças. Estudos empíricos sistemáticos
do processo terapêutico são bastante semelhantes aos estudos de caso tradicionais, mas
cumprem com exigências cientifico-metodológicas de validade e fidedignidade dos dados
e da sua interpretação (Serralta, Nunes & Eizirik, 2011). Não obstante, a maior parte dos
clínicos não conhece e não consome esse tipo de estudo.
A investigação em psicoterapia centraliza-se em dois grandes eixos. O primeiro
relaciona-se à eficácia da psicoterapia (outcome research) e o segundo a investigação
sobre o processo terapêutico (process research). Nesse último, procura-se compreender
como ocorre o processo psicoterapêutico, identificando o que acontece nas sessões nas
diferentes abordagens psicoterapêuticas e buscando estabelecer conexões sobre a relação
processo-resultados (Sousa, 2006; Serralta & Streb, 2003).
O investimento em pesquisas de avaliação de processo pode beneficiar pacientes e
terapeutas, visto que a partir destas investigações é possível conhecer os mecanismos da
148
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
ação terapêutica e assim estabelecer caminhos que possibilitem uma maior qualidade dos
atendimentos psicológicos oferecidos, os quais se refletirão tanto em nível do treinamento
profissional como da sustentação de ações em saúde mental (Lhullier, 2002).
Atualmente sabe-se que cerca de 80% dos pacientes apresentam uma mudança
clinicamente significativa quando comparados com a amostra de pessoas que não
realizaram psicoterapia e encontrando-se com o mesmo tipo de problemática (Lambert
& Olges, 2004; Sousa, 2006). No entanto, entre as pessoas que chegam à psicoterapia,
os altos índices de abandono evidenciam que uma pequena parcela dos pacientes que
buscam auxílio psicológico de fato chega a concluir os tratamentos que inicia. Estudos
de meta análise mostram que 1 a cada 5 pacientes interrompe a psicoterapia sem concluíla (Greenberg & Swift apud Jung, Serralta, Nunes & Eizirik, 2013). Há, portanto,
uma defasagem entre a necessidade de ajuda psicológica da população, a procura por
atendimento especializado e os benefícios recebidos com os tratamentos psicoterápicos
(Gastaud & Nunes, 2010).
O abandono de tratamento na psicoterapia vem ganhando amplo espaço de pesquisa
e discussão no meio clínico e cientifico. As altas taxas de abandono estimadas pela
literatura nacional e internacional justificam a crescente preocupação com este fenômeno.
Nas políticas públicas de saúde, o abandono ou interrupção do processo terapêutico
é apontado como uma situação com implicações sérias nas trajetórias de saúde dos
indivíduos e com alto custo econômico e social (Benetti & Cunha, 2008).
Ainda que possam referir algum ganho (Jung et al., 2013), os pacientes que
abandonam não se beneficiam totalmente do atendimento e acabam perdendo as
esperanças de serem ajudados (Gastaud & Nunes, 2010). Ocorre o desgaste financeiro
e afetivo do paciente, além de frustração para o terapeuta e para o serviço que presta o
atendimento, os quais se sentem incapazes, incompetentes e desacreditados (Luk, Staiger,
Mathai, Wong, Birleson & Adler, 2001; Jung et al., 2013).
Considerando a importância de harmonizar a pesquisa com a prática clínica e de
estudar e compreender os fatores associados ao abandono em psicoterapia psicanalítica,
este artigo visa apresentar e discutir dois casos atendidos em psicoterapia psicanalítica
que estão sendo analisados em profundidade com diversos instrumentos e métodos de
avaliação do processo terapêutico pelo grupo de pesquisa em psicoterapia vinculado ao
PPG em Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Os dois
casos são de pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), atendidas
em psicoterapia psicanalítica, em consultório particular, pela mesma terapeuta. Os casos
apresentam desfechos distintos: um aderiu ao tratamento e já se encontra há mais de um
ano em psicoterapia e o outro abandonou depois de 20 sessões.
Método
Este é um estudo de dois casos que conjuga o método clínico psicanalítico com
o método empírico de estudo de caso sistemático. O estudo de caso é uma abordagem
metodológica que tem como objetivo a análise em profundidade de um fenômeno dentro
do seu contexto, permitindo que se compreenda, explore ou descreva os acontecimentos
dentro do tempo e do lugar ao qual pertencem (Stake, 2011).
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
149
Entendendo que a pesquisa psicanalítica pode coexistir com outros métodos de
investigação da clínica psicanalítica, este projeto adota o modelo de estudo sistemático
de caso. Segundo Edwards (2007), este tipo de estudo busca compreender os fatores
que contribuem para a mudança dentro do contexto clínico natural considerando o rigor
metodológico da pesquisa empírica. Serralta, Nunes e Eizirik (2011) explicam que esse
delineamento pode fazer uso de medidas objetivas aplicadas às sessões gravadas de
psicoterapia, fazendo frente à dificuldade encontrada em avaliar e mensurar aspectos
subjetivos dos processos terapêuticos. Salientam os autores que este tipo de estudo pode
ser uma adição ou complemento aos estudos de caso tradicionais na psicanálise e que
possuem potencial para ajudar a diminuir a lacuna existente entre a prática clínica e a
pesquisa empírica.
Partindo do pressuposto que, no atendimento clínico em psicoterapia de orientação
psicanalítica, a realidade vivida entre psicoterapeuta e paciente é difícil de ser retratada,
principalmente considerando os modelos de pesquisa empíricos, o estudo conjuga o
método clínico freudiano, no qual, o terapeuta é o pesquisador e a pesquisa empírica,
que busca aumentar a validade do estudo através da aplicação de medidas objetivas e de
múltiplas perspectivas de observação em relação ao material clínico.
Os casos em análise
Caso 1
Mariana, 21 anos, realizou triagem em uma clínica psiquiátrica privada em março
de 2013, por se cortar em momentos de raiva e ter crises de choro desde os 12 anos.
Com 11 anos seu pai, que era alcoolista, faleceu subitamente. Na adolescência, com 13
anos, namorou por um ano um rapaz mais velho, também alcoolista. Com ele, Mariana
começou a beber em excesso. Fez diversas psicoterapias desde os 14 anos com uso de
medicação e, sempre que se sentia melhor abandonava os tratamentos. Mariana refere
ser bissexual. Relaciona-se com meninos e meninas, mas atualmente pouco sai de casa.
Nega relacionamentos promíscuos. A paciente apresenta comportamentos fóbicos, não
consegue sair de casa para festas, não consegue andar de ônibus e nem ir à aula. Também
apresenta algumas compulsões e tem rituais para dormir. Mesmo assim, tem pesadelos e
muitas vezes não consegue conciliar o sono. Após a triagem, Mariana foi encaminhada
para atendimento psicoterápico e psiquiátrico em consultório particular. O psiquiatra
responsável pelo caso diagnosticou-a com TPB (DSM-V; APA, 2013), diagnóstico
também confirmado pela terapeuta.
Caso 2
Juliana, 19 anos, realizou triagem em março de 2013 em uma clínica psiquiátrica.
Queixava-se de irritabilidade e tristeza desde a infância. Referiu ter recebido diagnóstico
de TDAH quando criança. Já fez uso de maconha e relata desejo do uso de outras drogas.
Seus pais se separam quando ela era pequena. Desde então, passou a viver com a mãe.
Refere que sua mãe é depressiva e negligente. Possui um irmão alcoolista e usuário de
drogas. Juliana faz uso excessivo de álcool, desde os 14 anos. Teve um envolvimento
150
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
amoroso duradouro com um homem mais velho e casado. A paciente refere ter realizado
psicoterapia em diversos momentos, desde a infância, com um histórico de abandonos
precoces dos tratamentos. Depois da avaliação inicial, o psiquiatra responsável pelo
caso diagnosticou-a com TPB (DSM-V; APA, 2013). Foi encaminhada para psicoterapia
individual e acompanhamento psiquiátrico em consultório particular. Havia, recentemente,
abandonado a escola e sido demitida de uma empresa prestadora de serviços, por erros e
faltas no trabalho. Possui um namorado que apresenta transtorno de humor.
Terapeuta
A terapeuta possui treinamento formal em psicoterapia psicanalítica em uma
instituição local, cujo modelo de formação é baseado no tripé: Seminários teóricos,
supervisões e tratamento pessoal há, em média, nove anos. A terapeuta é a mesma nos
dois casos.
Psychotherapy Process Q-Set (PQS)
O PQS (Jones, 2000) é um instrumento do tipo Q-sort que busca descrever o
processo psicoterápico e tem como unidade de análise a sessão terapêutica. Foi criado
por Enrico E. Jones em 1985 e publicado pela primeira vez em 2000. Consiste em 100
itens que descrevem o comportamento do terapeuta (n=41), o comportamento do paciente
(n= 40) e a interação entre paciente e terapeuta (n=19), que devem ser distribuídos por
juízes independentes (observadores externos treinados na aplicação do instrumento)
em categorias de um continuum que vai do menos característico (categoria 1) ao mais
característico (categoria 9). A distribuição dos itens em cada categoria é fixa de modo a
manter conformidade com a curva normal. A distribuição dos itens nas categorias deve
levar em consideração frequência, intensidade e importância de um item em relação
aos demais, necessitando de tempo e reflexão (Ablon, Levy & Smith-Hansen, 2011;
Serralta, Nunes, & Eizirik, 2007). O PQS esta disponível em diversas línguas, tais como:
Alemão, japonês, português, espanhol, italiano e norueguês (Ablon et al., 2011). A versão
em português do PQS foi elaborada por Serralta et al., (2007) e foi testada em estudos
anteriores (Brandtner, 2012; Serralta et al., 2007; Serralta et al., 2011) mostrando uma
medida fidedigna e capaz de produzir descrições confiáveis do processo terapêutico de
diferentes abordagens de psicoterapia.
Adolescent Psychotherapy Q-Set (APQ)
O APQ é uma adaptação para o uso em psicoterapias de adolescentes do
Psychotherapy Process Q-set (PQS) de Enrico Jones (2000). Consiste em 100 itens
que descrevem o comportamento do terapeuta (n=30), o comportamento do paciente
(n= 40) e a interação entre paciente e terapeuta (n=30), que devem ser distribuídos por
juízes independentes (observadores externos treinados na aplicação do instrumento)
em categorias de um continuum que vai do menos característico (categoria 1) ao mais
característico (categoria 9). A distribuição dos itens em cada categoria é fixa de modo
a manter conformidade com a curva normal. Os itens descrevem comportamentos
observáveis ou marcadores linguísticos manifestos, evitando itens mais inferenciais como
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
151
a descrição das atividades mentais ou estados psicológicos inconscientes. Não obstante,
alguns itens envolvem algum grau de inferência. A terminologia teórica também é evitada,
de modo a permitir uma avaliação “não saturada” do processo. O APQ é um instrumento
ateórico que descreve as atitudes e vivências do adolescente (Bambery, Porcerelli & Ablon,
2009). A medida de avaliação é a sessão terapêutica gravada em toda a sua extensão. A
versão em português foi elaborada por Silvia Benetti e encontra-se atualmente em estudo
(Benetti, Esswein, Bernardi, Midgley, Calderon, 2014).
Foram avaliadas as quatro sessões iniciais de cada um dos casos com o PQS ou
com o APQ. O caso 1 (Mariana) foi avaliado com o PQS e o caso 2 (Juliana) com o
APQ, respeitando a idade das pacientes. Estas sessões, bem como as demais sessões
de ambos os tratamentos, haviam sido gravadas em áudio para subsidiar os estudos de
processo desenvolvidos pelo grupo de pesquisa. As gravações das sessões foram avaliadas
individualmente, de modo independente, por duplas de avaliadores previamente treinados
na aplicação do PQS e do APQ. Caso a fidedignidade entre as avaliações tenha sido
abaixo de 0,7 (Correlação de Pearson) foi utilizado um terceiro avaliador. Para as análises
subsequentes foi utilizada a média das pontuações entre os dois avaliadores.
Para a descrição geral do processo terapêutico, foi feito um ordenamento simples, a
partir das médias de cada item dos instrumentos (PQS ou APQ), dos itens mais e menos
característicos da psicoterapia. Os 10 itens mais e menos característicos de cada caso
foram utilizados para formar narrativas do processo. Essas narrativas foram comparadas
qualitativamente entre si. Dados oriundos das observações da terapeuta complementam a
descrição do processo. Na discussão, os resultados advindos dos dados empíricos foram
integrados à compreensão clínica realizada pela terapeuta.
O presente estudo está vinculado a um projeto de pesquisa mais amplo já em
andamento (Psicoterapia psicanalítica na adolescência – Características e avaliação do
processo terapêutico), aprovado no Comitê de Ética da Universidade do Vale do Rio
dos Sinos (protocolo no 12/028). A paciente e a terapeuta leram e assinaram o Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), elaborado conforme as diretrizes
regulamentadoras de pesquisa envolvendo seres humanos, fornecido pela pesquisadora
coordenadora do projeto.
Resultados
Segue a descrição, utilizando do PQS, das quatro primeiras sessões do tratamento
psicoterápico da Mariana:
Nestas quatro primeiras sessões Mariana não tem dificuldades de começar os
diálogos, sem fazer longas pausas (PQS 25), se mostrando disposta a quebrar silêncios
ou fornecer assuntos quer espontaneamente quer em resposta às indagações da terapeuta
ativamente lhes dando segmento ou elaborando (PQS 15) e trazendo temas e materiais
significativos que, de modo importante, estão relacionados com seus conflitos psicológicos
(PQS 88). Parece desarmada ou sem bloqueios (PQS 97). Seu discurso é claro e organizado
(PQS 54) e prontamente compreende os comentários da terapeuta (PQS 5). Parece sentirse desinibida, autoconfiante ou segura de si (PQS 61), expressa ressentimentos, raiva,
amargura, ódio ou agressividade para com os outros (PQS 84) e contempla ou persegue
152
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
linhas de pensamento que podem ser emocionalmente estressantes ou perturbadoras (PQS
58) para ela. Mostra estar confiando na terapeuta (PQS 44), não busca aprovação, afeição
ou simpatia da mesma (PQS 78) e não parece preocupada com o tipo de impressão que
está criando ou com possíveis julgamentos (PQS 53).
A terapeuta, por sua vez, se comunica com estilo claro e coerente (PQS 46) solicita
mais informações ou elaborações (PQS 31) parecendo confiante, segura e não defensiva
(PQS 86). Demonstra habilidade para intuir o mundo interno da paciente, é empática (PQS
6), e questiona a visão da Mariana acerca de experiências e acontecimentos (PQS 99),
promovendo discussões sobre lembranças ou reconstruções dos primeiros anos de vida
(PQS 91). Não assume uma atitude de superioridade (PQS 51) e mostra-se genuinamente
responsiva e afetivamente envolvida no processo (PQS 9).
Conforme as observações clínicas da terapeuta referentes às quatro sessões iniciais
de Mariana: A paciente descreve sua mãe como uma pessoa frágil, que chora muito e não
consegue entender suas necessidades. Seu pai, falecido, é lembrado como um homem
forte, com problemas de alcoolismo e bastante agressivo. Na primeira sessão conta, de
forma agressiva, que as psicoterapias anteriores a estressavam e que não ajudavam em
nada; também refere que quando parava de tomar o remédio “surtava” e agredia muito a
mãe com “frases desnecessárias”. Nesta mesma sessão, Mariana conta à terapeuta que uma
vez chegou à pedir para sua mãe interná-la, mas esta não atendeu ao seu pedido. Quando
a terapeuta tenta explorar o motivo desta recusa, a paciente responde aos gritos: “Como
ela ia ficar sozinha!?”. Nas sessões seguintes, a terapeuta registra que a ideia de que a
psicoterapia pode não ajudar continua presente. Na terceira sessão, por exemplo, a paciente,
afirma que por ter voltado a contar sua vida na terapia os seus pesadelos reapareceram e
conclui acusatoriamente: “os pesadelos são, em parte, culpa tua (terapeuta) que me faz
lembrar dessas coisas”. A terapeuta busca compreender empaticamente Mariana e procura
explorar sua história de vida sem pré-julgamentos. Mariana descreve sua relação com os
amigos com muita ambivalência – ora conta das festas e “porres” que tomam com muito
orgulho, ora relata desconforto na presença deles. Seus afetos são também contraditórios.
Relata que preferir ficar sozinha, mas se fica sozinha, sente-se angustiada. Conforme a
terapeuta, a paciente é muito agressiva e impulsiva em algumas situações. Por outro lado,
conta momentos dolorosos de sua vida, como a morte do pai, sem demonstrar nenhum
afeto e, às vezes, com tom afetivo contrário ao esperado na situação, por exemplo, rindo
muito de um episódio supostamente muito doloroso relacionado à doença do seu pai.
No início do tratamento, o trabalho da terapeuta foca o entendimento da história de vida
da paciente, a exploração dos motivos da busca de tratamento e no assinalamento das
distorções dos seus afetos. A paciente aceita as interpretações da terapeuta, embora as
rebata inicialmente com um “não”: “Será que esse monte de pesadelos não é a tua própria
história guardada dentro de ti? Será que quando tu ri da enfermeira, o medo e a tristeza
que tu tem não vão para dentro de ti e depois saem como pesadelo?”. E a paciente logo
responde: “Não, eu ri e rio até hoje porque ela é burra, mas eu lembrei que tenho que te
contar que tenho muita vontade, às vezes, de matar alguém. Imagino as mortes, mas não
é ninguém especial, parece que isto está dentro de mim”.
Segue a descrição, utilizando do AQS, das quatro primeiras sessões do tratamento
psicoterápico da Juliana:
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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Nas primeiras quatro sessões a paciente Juliana inicia sem dificuldades indo direto
ao que considera importante (APQ 30), é particularmente dócil e respeitosa (APQ 20) e
trabalha com a terapeuta de uma forma colaborativa (APQ 87), mostrando-se disposta
a quebrar silêncios e trazer tópicos importantes às sessões (APQ 15) e transmitindo a
sensação de que a terapeuta compreende as suas experiências e sentimentos (APQ 14).
Juliana fala sobre si e sobre outros com compaixão e preocupação (APQ 25), discute suas
relações sociais ou familiares ou seus envolvimentos emocionais (APQ 63) manifestando
tensão, ansiedade ou preocupação ao longo das sessões (APQ 07) e experimentando afetos
de desconforto ou incômodos (APQ 26), mas sem expressar sentimentos de ser tratada
injustamente (APQ 55). As respostas ou comportamentos da terapeuta indicam que ela
está ouvindo a paciente e lhe encorajando a falar (APQ 03) embora ofereça declarações
tímidas ou provisórias sobre o conteúdo da mente da jovem (APQ 89) e não haja discussões
de sonhos ou fantasias (APQ 90).
A terapeuta se comunica com Juliana em um estilo claro e coerente (APQ 46),
solicitando mais informações ou elaborações de algumas ocorrências (APQ 31).
Permanece empática quando confrontada com intensos sentimentos ou impulsos da
jovem (APQ 37) e trabalha com ela para tentar dar sentido à sua experiência (APQ 09).
A paciente e a terapeuta demonstram uma compreensão mútua em relação aos eventos
ou sentimentos (APQ 38), mas a interação entre as duas não é foco de discussão (APQ
98). A paciente parece ser capaz de gerenciar o término das sessões sem dificuldades
(APQ 52).
Conforme as observações clínicas da terapeuta referentes às quatro sessões iniciais
de Juliana: A paciente inicia o tratamento pedindo ajuda da terapeuta para organizar
seus estudos: “Eu não consigo sozinha, parece que sou preguiçosa”. Troca de assunto
diversas vezes e a terapeuta sente que é difícil acompanhar sua linha de pensamento.
Conta da igreja que frequentava e logo depois diz que já não frequenta mais. Refere que
seus pais não aprovariam seu interesse por Reiki e ficariam bravos com ela se soubessem
disso. Descreve todos os seus amigos como “legais” e “divertidos”; elas a chamam de
“doidinha”. Fala positivamente do namorado e dos sogros, mas mostra-se ambivalente:
“A mãe dele (namorado) quer me cuidar e o pai diz que eu sou praticamente da família,
mas um dia eles me chamaram e disseram que eu estava indo muito lá, que a casa perdia
a intimidade. Foi um conselho legal, um cuidado. A mãe dele (namorado) faz comidas
especiais para a namorada do irmão dele, mas para mim nunca fez nada especial. Mas
eu não vejo nada de mais nisso, sei que eles gostam muito de mim”. Juliana conta que é
insegura e que acha que todo mundo vai abandoná-la e por isso tem crises de ciúmes dos
amigos e do namorado. Conforme a terapeuta, Juliana parece muito infantil, inclusive no
seu tom de voz. A terapeuta faz observações sobre o comportamento de Juliana, buscando
clarificar aspectos do seu funcionamento: “Então foi por isso que no primeiro dia tu me
perguntaste se eu atendia muitos pacientes?”. Sente-se convidada a perguntar e acaba
por fazer, muitas vezes perguntas sobre aspectos da vida e da experiência da paciente.
A paciente fala por diversas vezes na sua antiga terapeuta, às vezes positivamente e às
vezes negativamente: “A minha ex-terapeuta também queria que eu viesse duas vezes
na semana, mas eu não gostava, não me ajudava em nada”. Quando a terapeuta diz que
seria importante que ela viesse duas vezes na semana, aceita de pronto. As colocações da
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terapeuta são aceitas, mas sempre acompanhadas de dúvidas: “Eu já tinha pensado isso
com a minha ex-terapeuta. Será que é por isso mesmo?”. Somente na segunda sessão fala
sobre seus pais. O pai é visto como ‘coitadinho’ por viver sozinho. Refere não entender
o porque dele viver sozinho. Quanto à mãe, afirma: “Ela vive para o trabalho... diz que
tem várias formas da gente dar amor e que a dela é se matando de trabalhar para eu ter
as coisas. Mas quando eu era pequena, eu queria outro tipo de amor...”.
Discussão
No contexto clínico existe um grupo de pacientes que coloca o nosso conhecimento
tradicional em prova: os pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline (TPB).
Estes sujeitos apresentam um sofrimento intenso que se manifesta por sintomas no
corpo, autoagressões, abusos de substância, ideação suicida e angústia extrema. Devido
a gama bem variada de sintomas apresentados, os pacientes com TPB sobrecarregam os
serviços de atenção primária, sem conseguir encontrar ajuda farmacológica que alivie
momentaneamente sua angustia. Buscam auxílio, mas não conseguem responder à ajuda
oferecida, questionando o papel do psicoterapeuta e gerando frustrações (Bilbão, 2010;
Chagnon, 2009).
Os pacientes com TPB são impactantes, perturbados e perturbadores; estão agarrados
a uma linha tênue, linha esta que separa a neurose e a psicose, um lugar de máxima
turbulência mental. Eles querem sobreviver, e para isso se agarram com todas as suas
forças a essa linha, já que não possuem recursos psíquicos maiores (Czerny, 2007). Não
são neuróticos e nem psicóticos. Por um lado se angustiam e temem cair na fragmentação
psicótica, ao mesmo tempo em que anseiam pelas sólidas defesas psicóticas; e, por outro
lado, desejam e o temem a genitalidade para a qual não estão preparados (Hornstein,
2010).
Para esses pacientes aceitar ajuda implica em uma quebra da onipotência, uma ferida
narcísica que provoca baixa aderência ao tratamento, inveja acentuada e dificuldade no
acesso e no aproveitamento das interpretações. A aliança terapêutica é particularmente
difícil de estabelecer e exige que o terapeuta seja ativo, flexível e continente para poder
tolerar as atuações, a agressividade e a angústia sem perder a capacidade de pensar e
interpretar. O risco de suicídio pode levar a modificações no setting, sem descartar a
possibilidade de hospitalizações, podendo implicar em problemas éticos e legais (Romaro,
2002).
Mariana e Juliana apresentam características e comportamentos típicos de pacientes
borderline: foram negligenciadas pelos pais, temem o abandono e a solidão, apresentam
histórico de uso abusivo de álcool e drogas, apresentam múltiplos sintomas da esfera
afetiva (ansiedade, depressão) e exibem dificuldades no manejo de impulsos. Ambas,
portanto, podem ser consideradas casos típicos deste transtorno.
Experiências traumáticas na infância são associadas com comportamentos
destrutivos na idade adulta. A alta prevalência de histórias de abuso sexual na infância
em pacientes com TPB levou muitos autores a estudarem a relação do abuso com o
desenvolvimento e a etiologia desta patologia (Ferraz, Portella, Vállez, Gutiérrez, MartínBlanco, Martín-Santos & Subirà, 2013). Depois de décadas de pesquisa, o papel do abuso
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155
e da negligência na etiologia do TPB ainda não está suficientemente claro, pois conforme
Hernadez, Arntz, Gaviria, Labad, e Gutiérrez-Zotes (2012) cada resultado de pesquisa
pressupõem um tipo de relação entre o TPB e os maltratos na infância.
A história das pacientes revela que ambas iniciaram e abandonaram psicoterapia
múltiplas vezes. Podem ser, portanto, consideradas pacientes difíceis e com dificuldades
para estabelecer ou manter a aliança terapêutica e o vínculo com o terapeuta. O que se
passou durante as sessões que levou Mariana a seguir o tratamento e Juliana abandonar,
visto que ambas têm em sua história abandonos recorrentes?
Observando a descrição das quatro primeiras sessões, obtidas através dos itens
do PQS que caracterizaram esse processo inicial, Mariana parece sentir-se desinibida,
autoconfiante e segura de si, expressando ressentimentos, raiva, amargura, ódio ou
agressividade para com os outros, não busca aprovação, afeição ou simpatia da terapeuta
e não parece preocupada com o tipo de impressão que está criando ou com possíveis
julgamentos da mesma. Conforme se depreende das observações clínicas feitas pela
própria terapeuta, esta percebe claramente a desconfiança inicial de Mariana com o
tratamento (“a psicoterapia pode não ajudar”), bem como a carga pulsional agressiva da
paciente que é expressa na transferência. A terapeuta compreende, acolhe e direciona a
sua ação à experiência afetiva contraditória da paciente. Já a descrição do processo inicial
da psicoterapia de Juliana, obtida com o PQS, mostra que a paciente é particularmente
dócil e respeitosa, trabalha com a terapeuta de uma forma colaborativa transmitindo a
sensação de que esta compreende as suas experiências e sentimentos. Fala sobre si e
sobre outros com compaixão e preocupação experimentando afetos de desconforto ou
incômodos, mas sem expressar sentimentos de ser tratada injustamente. Conforme a
terapeuta, Juliana é frágil e infantil, o que talvez explique a posição menos interpretativa
da terapeuta e sua opção por não trabalhar, neste primeiro momento, as representações
contraditórias exibidas pela paciente.
Nos chama a atenção que a primeira paciente, apesar de não ser dócil como a
segunda, de ter comportamento agressivo e de ser desafiadora, forma um vínculo com a
terapeuta, onde podem trabalhar em psicoterapia seus sentimentos de abandono e raiva.
Juliana por sua vez, por sentir-se abandonada e não amada, torna-se dócil nas sessões,
não podendo agredir abertamente a terapeuta ou os demais com medo de não ser amada
ou de ser abandonada. Desta maneira, sua docilidade expressava sua resistência e sua
problemática. A terapeuta de alguma maneira sentia esta resistência ao dar declarações
“tímidas ou provisórias sobre o conteúdo da mente da jovem”, tendo dificuldade em atingir
seus sonhos ou fantasias, ou seja, seu inconsciente. Juliana não se permitia vivenciar o
abandono nos términos das sessões, mostrando gerenciá-los bem (resistência).
Desta maneira, quando a raiva, agressividade ou medo de abandono começou a
surgir, Juliana abandonou o tratamento para evitar estas vivencias. Abandonando antes
de ser abandonada, ela atuou seu conflito, não deixando possibilidade de elaboração. A
terapeuta foi quem ficou abandonada e não se sentindo capaz.
Os quadros de TPB se apresentam como um grande desafio para a teoria e para
a técnica psicanalítica, pois colocam em xeque o uso das principais ferramentas deste
enquadre: a associação livre, a transferência, a interpretação e a manutenção do setting.
Assim, as pesquisas em psicoterapia psicanalítica devem avançar, buscando novas
156
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
formas de intervenção para esse grupo de pacientes. O TPB não é propriamente um tipo
de patologia nova, mas com o avanço nos estudos podemos buscar o que se apresenta
nas bordas do funcionamento psíquico, justificando que novos modos de intervenção,
que estejam além da técnica psicanalítica clássica, possam ser propostos (Junqueira, &
Junior, 2006).
A investigação acerca dos mecanismos de mudança nas psicoterapias contribui ao
ensino, promove a discussão teórico-clínica e auxilia no aprimoramento de terapeutas em
formação. Além disso, gera o conhecimento que favorece o atendimento adequado das
demandas dos pacientes. Segundo Serralta, Nunes & Eizirik (2007), o estudo minucioso
do processo terapêutico possibilita a geração e a avaliação de modelos explicativos de
ação terapêutica.
Neste artigo não apresentamos nenhuma resposta à questão dos fatores associados
à adesão ou abandono na psicoterapia psicanalítica com pacientes borderline, mas sim
levantamos, através da descrição de dois casos clínicos, uma problematização sobre
esse tema. Levantamos uma hipótese: a de que em pacientes borderline, a ausência de
comportamentos típicos (como controle, postura desafiadora, expressão da agressão), no
processo inicial pode ser um sinal de resistência e pseudocolaboração.
Esta é apenas uma hipótese que merece ser mais bem esclarecida em estudos
sistemáticos do processo terapêutico de pacientes borderline que aderiram e não aderiram
à psicoterapia psicanalítica. Defendemos nesta apresentação que o estudo empírico do
processo terapêutico pode ajudar a elucidar o que ocorre no campo terapêutico e na
interação paciente-terapeuta que pode explicar desfechos distintos em pacientes com
funcionamento semelhantes tratados pela mesma psicoterapeuta. A análise intensiva do
processo terapêutico desses dois casos está sendo conduzida pelo grupo de pesquisa e
esperamos no futuro próximo poder apresentar alguns dos resultados encontrados.
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_____________________________
Recebido em dezembro de 2014
Aceito em março de 2015
Aline Alvares Bittencourt: Especialista em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica pelo ESIPP, mestranda
em Psicologia Clínica pela UNISINOS.
Maria Cristina Vieweger de Mattos: Especialista em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica pelo Instituto
Contemporâneo de Psicanálise e Transdiciplinaridade, mestranda em Psicologia Clínica pela UNISINOS.
Farid Rodrigues Bessil: Especialista em Psicoterapia de Orientação Psicanalítica pelo ESIPP.
Fernanda Barcellos Serralta: Doutora em Ciências Médicas: Psiquiatria (UFRGS), Professora do Programa
de Pós-Graduação em Psicologia da UNISINOS.
Silvia Pereira da Cruz Benetti: Phd in child and family studies (Syracuse University), Professora do Programa
de Pós-Graduação em Psicologia da UNISINOS.
Endereço para contato: [email protected]
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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Aletheia 43-44, p.160-173, jan./ago. 2014
Estresse em adolescentes: estudo com escolares de uma cidade
do sul do Brasil
Lígia Braun Schermann
Jorge Umberto Béria
Maria Helena Vianna Metello Jacob
Guilherme Arossi
Mariana Canellas Benchaya
Nádia Krubskaya Bisch
Sofia Rieth
Resumo: Estudo analítico transversal com objetivo de avaliar a prevalência e os fatores associados
ao estresse em adolescentes escolares de Canoas/RS. Participaram do estudo 475 adolescentes, de
14 a 18 anos, que responderam a Escala de Stress para Adolescentes (ESA) e a um questionário
sobre dados sociodemográficos, relações familiares, sexualidade, uso de drogas e comportamento
de risco. Os resultados apontaram prevalência de estresse de 10,9 %. Além do ambiente familiar,
os fatores associados a níveis mais elevados de estresse foram ‘achar possível contrair AIDS’,
‘ter sofrido acidente no último ano’, ‘não ter usado camisinha na primeira e na última transa’ e
‘já ter tido alguma DST’. Conclui-se que especialmente o ambiente familiar e as práticas sexuais
são significativos ao aumento de estresse em jovens e, portanto, necessitam de intervenções que
promovam comportamentos saudáveis para esta população.
Palavras-chave: adolescente; estresse; sexualidade.
Stress in adolescencents: A study with schoolars from a city in southern
Brazil
Abstract: Study with analytic cross sectional design that aimed to evaluate the prevalence and
associated factors related to stress in school adolescents from the city of Canoas/RS. The sample
consisted of 475 adolescents, aged 14-18 years, who answered the Stress Scale for Adolescents
and a questionnaire about socio-demographic data, family relations, sexuality, drug use and risk
behavior. The results revealed 10.9% of stress prevalence in the adolescents. Besides the family
environment, factors associated with higher levels of stress were ‘possibility to contract AIDS’,
‘having suffered an injury in the last year’, ‘have not used a condom in the first and in last sex
intercourse’ and ‘have had an STD’. In conclusion, the family environment and sexual practices
are especially significant to the increased stress in the studied adolescents and therefore require
interventions that promote healthy behaviors for this population.
Keywords: adolescent; stress; sexuality.
Introdução
Os adolescentes têm sido confrontados, na sociedade atual, com inúmeros
componentes estressores da vida diária, além das mudanças emocionais, cognitivas e
fisiológicas características do seu estágio do desenvolvimento (Bluth & Blanton, 2014).
O estresse pode ser definido como um conjunto de reações corporais a determinado
estímulo que ameaça o seu equilíbrio, constituindo um mecanismo de defesa fisiológico
inato do homem. Este evento pode ser positivo ou negativo e pode desencadear respostas
hormonais e comportamentais (Wosiski-Kuhn & Stranaha, 2012; Margis, Picon, Cosner
& Silveira, 2003).
Inúmeras pesquisas científicas têm se dedicado ao detalhamento das variáveis
associadas ao estresse que atinge crianças e adolescentes (Sbaraini & Schermann, 2008; Mota
& Rocha, 2012; El-Sheikh, Tu, Erath & Buckhalt, 2014; Rozemberg, Avanci, Schenker &
Pires, 2014). Há evidências de que o estresse está associado a vários comportamentos de risco
no adolescente, especialmente relacionados à sexualidade (uso indevido e/ou insuficiente
de camisinha), mau relacionamento familiar e uso de drogas (Beserra, Araújo & Barroso,
2006; Elkington, Bauermeister & Zimmerman, 2010; Souza & Baptista, 2008).
Na adolescência, o processo de desenvolvimento adquire características especiais,
como busca de identidade, independência, juízo crítico, sensibilidade, afetividade,
elaboração de um projeto de vida, sexualidade e educação. (Bee & Bjorklund, 1999; Bee,
2000; Olds & Papalia, 2013). O produto final decorrente de todas estas características leva
o adolescente a definir o que considera de importância fundamental: o seu estilo de vida
(Câmara, Aerts & Alves, 2012). Nesta fase do desenvolvimento há uma ambivalência
demonstrada nas atitudes contraditórias, oscilações de humor, incertezas, angústias e
sensibilidade ao prazer, as quais os adolescentes vivenciam intensamente (Ferreira, Alvim,
Teixeira & Veloso, 2007; Senna & Dessen, 2012). Tais características podem contribuir
para uma maior vulnerabilidade desta faixa etária no que se refere a comportamentos de
risco. Além disso, aspectos emocionais também estão associados com a vulnerabilidade
presente na adolescência, tais como mudanças de humor e baixa habilidade no manejo
de eventos estressantes (Silva, Horta, Pontes, Faria, Souza, Cruzeiro & Pinheiro, 2007;
Coutinho & Heimer, 2014). Estes aspectos reduzem a capacidade do adolescente em
apresentar respostas adaptadas e adequadas frente a situações e pressões sociais, o que
pode contribuir para o surgimento de sintomas de estresse.
A presente pesquisa objetivou conhecer a prevalência de estresse em adolescentes
escolares e os fatores associados, enfatizando-se os aspectos relacionados à família, à
sexualidade, ao uso de drogas e comportamentos de risco. Esta pesquisa faz parte de
um estudo mais amplo sobre “Sexualidade na Adolescência em Tempos de Aids”, no
município de Canoas/RS (Bielenki , 2008; Rolim, 2008)
Método
O estudo possui delineamento analítico transversal, sendo realizado com 475
adolescentes de 14 a 18 anos matriculados nas 13 escolas estaduais de Ensino Fundamental
e Médio da cidade de Canoas/RS, região metropolitana de Porto Alegre, no ano de 2007.
Os instrumentos utilizados foram a Escala de Stress para Adolescentes (ESA) e
um questionário. A ESA, elaborada por Tricoli & Lipp (2005), é composta por 44 itens
e verifica a existência, ou não, do sintoma de estresse, bem como a fase do estresse, em
adolescentes de 14 a 18 anos e de ambos os sexos. A Escala também permite relacionar
o estresse a sintomas psicológicos, cognitivos, fisiológicos e interpessoais. No presente
estudo, utilizou-se somente dados referentes à existência ou não do sintoma de estresse. A
ESA foi validada e padronizada em adolescentes moradores de diversas cidades do estado
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
161
de São Paulo, Campo Grande (MS) e João Pessoa (PB), sendo obtido coeficiente alpha de
Cronbach de 0,9394 para a frequência (sintomas) e de 0,9398 para intensidade (fase).
O questionário, baseado em Béria et al., (1998), contém questões referentes a dados
sociodemográficos (sexo, idade, escolaridade, estado civil, religião, trabalho, moradia,
renda), relações familiares (relacionamento com o pai e a mãe, ambiente em casa,
interesse dos pais pelo desempenho escolar, morte familiar significativa no último ano),
comportamento de risco, uso de drogas e abuso (conhecimento sobre sexo, proteção contra
a AIDS, possibilidade de contrais AIDS, consumo de álcool, uso de drogas injetáveis,
abuso sexual, acidentes no último ano com atendimento médico) e práticas sexuais (já
transou, preferência sexual, uso da camisinha na primeira e última transa, pessoa da
última transa, número de pessoas com quem transou nos últimos 3 meses, conversa com
parceiro sobre AIDS, contração de DSTs, gravidez).
A ESA e o questionário eram anônimos e autoaplicáveis, sendo respondidos em
sala de aula, sem a presença do professor. O anonimato garantiu o sigilo dos indivíduos,
minimizando possíveis vieses dos dados coletados.
Após contatos com a equipe diretiva das escolas, foram agendadas datas de visitas
para a entrega do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Aos menores de
18 anos era solicitado o consentimento assinado pelo responsável. A professora da turma
recolhia os TCLE assinados e, na sequência, era agendado o dia da coleta de dados. Para
aplicar o instrumento aos alunos que estavam ausentes, os pesquisadores retornaram às
escolas em até duas ocasiões subsequentes.
Previamente ao início da coleta de dados, foi realizado um estudo piloto em uma
escola de cidade vizinha, para verificação e adequação dos procedimentos envolvidos.
Os dados obtidos foram digitados em um banco desenvolvido no programa
Epidata versão 3.1, sendo realizada dupla digitação independente para verificação de
inconsistências, que foram corrigidas. A análise estatística foi estratificada por presença, ou
não, de estresse, utilizando-se o Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão
18.0. Foi realizada análise bivariada para verificar a associação das variáveis independentes
com o desfecho, calculando-se a razão de prevalência bruta e seus intervalos de confiança.
O nível de significância adotado para todas as análises foi menor do que 5%.
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos
e Animais da Universidade Luterana do Brasil, sob o número 2005-384H, estando de
acordo com as normas vigentes da Resolução número 196-96 do Conselho Nacional de
Saúde/Ministério da Saúde.
Resultados
A prevalência de estresse na amostra estudada foi de 10,9 %, sendo 10,3% nos
rapazes e 11,4% nas moças. Em relação às características dos adolescentes, a maioria
é do sexo feminino (58,9%), possui entre 14 e 15 anos (48,6%), está cursando o ensino
médio (84,2%), é solteiro (95,1%), pratica alguma religião (60,2%), não trabalha (79,9%)
e mora com os pais (95,6%). O pai é quem possui a maior renda em casa (63,1%) e 42,7%
deles tem o ensino médio como escolaridade. A Tabela 1 apresenta a comparação das
variáveis sociodemográficas entre os adolescentes com e sem estresse. Não foi observada
diferença significativa em nenhuma análise realizada.
162
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Tabela 1 – Estresse e características sociodemográficas dos adolescentes de 14 a 18 anos de escolas públicas
de Canoas, RS.
Sem estresse
Sexo
Com estresse
Valor
n
%
N
%
pa
Masculino
175
41,4
20
38,5
0,766
Feminino
248
58,6
32
61,5
14 e 15 anos
202
47,8
29
55,8
16 e 17 anos
186
44,0
21
40,4
18 anos
35
8,3
2
3,8
Variáveis
(n=475)
Idade
(n=475)
0,384
Escolaridade (n=474)
Ensino Fundamental
68
16,1
6
11,8
Ensino Médio
355
83,9
45
88,2
Solteiro
401
95,0
51
98,1
Casado/mora junto
21
5,0
1
1,9
Estado civil
0,542
(n=474)
0,494
Pratica religião (n=418)
Sim
249
65,5
23
60,5
Não
131
45,5
15
39,5
Trabalha
(n=469)
Sim
84
20,1
10
19,6
Não
334
79,9
41
80,4
Pais
404
95,7
49
94,2
Outros
18
4,3
3
5,8
Pai
260
63,1
32
62,7
Mãe
120
29,1
15
29,4
Outro
32
7,8
4
7,8
Mora com
0,593
1,000
(n=474)
0,493
Maior renda em casa (n=463)
0,999
Escolaridade da pessoa com maior
renda em casa
(n=458)
Ensino Fundamental
115
28,2
15
30,0
Ensino Médio
175
42,9
21
42,0
Ensino Superior
72
17,6
11
22,0
Não completou
46
11,3
3
6,0
0,641
nenhum nível
a
teste do qui-quadrado para comparação entre os grupos de adolescentes com e sem estresse.
No que concerne ao ambiente familiar (Tabela 2), a maioria dos adolescentes
estudados manifestou bom relacionamento com o pai (70,9%) e com a mãe (85,2%),
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
163
bom ambiente em casa (79,8%) e pais que se interessam pelo desempenho escolar
(97,2%). Quando comparados os adolescentes com e sem estresse, observa-se uma
maior prevalência de estresse nos adolescentes que classificaram seu relacionamento
com o pai e com a mãe como regular/ruim e naqueles que manifestaram ser o ambiente
em casa regular/ruim. Ainda, os pais dos adolescentes com estresse são percebidos
como se interessando menos pelo desempenho escolar de seus filhos do que os pais
dos adolescentes sem estresse. Um pouco menos da metade dos adolescentes (41,2%)
relatou morte de alguém significativo no último ano.
Tabela 2 – Estresse e relações familiares dos adolescentes de 14 a 18 anos de escolas públicas de Canoas, RS.
Sem estresse
Com estresse
RP não ajustado
Valor
n
%
n
%
(IC95%)
pa
Bom
297
73,5
26
51,0
1
0,002
Regular/ruim
107
26,5
25
49,0
2,67 (1,48-4,82)
Bom
356
88,3
30
60,0
1
Regular/ruim
47
11,7
20
40,0
5,00 (2,66-9,60)
Bom
346
88,6
21
41,2
1
Regular/ruim
63
15,4
30
58,8
7,85 (4,23-14,57)
Sim
416
98,6
45
86,5
1
Não
6
1,4
7
13,5
10,78 (3,47-33,49)
169
40,1
26
50,0
1
252
59,9
26
50,0
0,67 (0,38-1,19)
Variáveis
Relacionamento com pai (n=455)
Relacionamento com mãe (n=453)
0,000
Ambiente em casa (n=460)
0,000
Pais se interessam pelo
desempenho escolar (n=474)
0,000
Morte significativa de
familiar no último ano (n=473)
Sim
Não
0,182
teste do qui-quadrado para comparação entre os grupos de adolescentes com e sem estresse.
a
As características sobre comportamentos de risco, uso de drogas e abuso estão
apresentadas na Tabela 3. A maioria dos adolescentes classifica seu conhecimento
sobre sexo como bom (75,9%), diz proteger-se contra a AIDS (61,2%), faz uso
eventual do álcool e não sofreu abuso sexual (97,1%). Não considerar possível pegar
AIDS e não ter sofrido acidentes com atendimento médico no último ano aparecem
como fatores de proteção com, respectivamente, 46% e 54%. menos prevalência de
estresse no adolescente. Apenas dois adolescentes com estresse utilizaram drogas
injetáveis.
164
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Tabela 3 – Estresse e comportamentos de risco, uso de drogas e abuso dos adolescentes de 14 a 18 anos de
escolas públicas de Canoas/RS.
Sem estresse
Variáveis
Com estresse
RP não ajustado
Valor
(IC95%)
pª
0,731
n
%
n
%
Bom
325
76,8
39
75,0
1
Regular/ruim
98
23,2
13
25,0
1,10 (0,57-2,15)
Conhecimento sobre sexo (n=475)
Protege-se contra a Aids (n=441)
Sim
248
62,9
28
59,6
1
Não
146
37,1
19
40,4
1,15 (0,62-2,14)
Possível
132
31,5
24
46,2
1
Impossível
287
68,5
28
53,8
0,54 (0,30-0,96)
Nunca
159
37,9
18
34,6
1 a 4 vezes/mês
229
54,5
25
48,1
2 ou mais vezes/semana
32
7,6
9
17,3
0,637
Possibilidade de contrair Aids (n=471)
Consumo de álcool
0,042
(n=472)
0,064
Uso de drogas injetáveis (n=463)
Sim
0
0,0
2
4,0
1
Não
413
100,0
48
96,0
9,60 (7,35-12,55)
0,011
Já sofreu abuso sexual (n=471)
Sim
12
2,9
3
5,8
1
Não
407
97,1
49
94,2
0,48 (0,13-1,77)
Sim
61
14,5
14
26,9
1
Não
361
85,5
38
73,1
0,46 (0,23-0,90)
0,223
Acidente no último ano com
atendimento médico
(n=474)
0,027
teste do qui-quadrado para comparação entre os grupos de adolescentes com e sem estresse.
a
No que se refere às práticas sexuais (Tabela 4), os dados mostram que, no
momento da coleta, 50,1% do total da amostra ainda não havia mantido relação
sexual. Dentre aqueles que já haviam transado, 94,8% preferiam manter relação
sexual com pessoas do sexo oposto. A maioria usou camisinha na primeira e na última
transa (82,1 e 74,3% respectivamente), transou no último mês (53,2%), transou a
última vez com alguém que já conhecia (90,4%), nos últimos três meses transou com
somente uma pessoa (60,3%), conversa com seu parceiro sobre AIDS (56,3%), não
teve nenhuma doença sexualmente transmissível (91,8%) e não engravidou (94,3%).
Quando comparados os adolescentes com e sem estresse, aqueles que não usaram
camisinha na primeira e na última transa apresentaram, respectivamente, 4 e 2,4 vezes
mais chance de apresentar estresse e os que não tiveram nenhuma DST apresentaram
94% menos prevalência de estresse.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
165
Tabela 4 – Estresse e práticas sexuais dos adolescentes de 14 a 18 anos de escolas públicas de Canoas/RS.
Sem Estresse
Variáveis
Já transou
N
%
Com estresse
N
%
RP não ajustado
Valor
(IC95%)
pª
0,660
(n=474)
Sim
203
48,1
27
51,9
1
Não
219
51,9
25
48,1
0,86 (0,48-1,53)
194
96
25
92,6
1
8
4
2
7,4
1,94 (0,39-9,65)
Preferência sexual
(n=229)
Heterossexual
Homo/bissexual
0,334
Usou camisinha
na primeira transa
(n=230)
Sim
172
84,7
14
51,9
1
Não
31
15,3
13
48,1
5,15 (2,21-12,01)
156
46
77,2
22,8
15
12
55,6
44,4
1
2,71 (1,19-6,20)
Menos de 1 mês
103
50,7
15
57,7
De 1 a 4 meses atrás
49
24,1
2
7,7
Há mais de 5 meses
51
25,1
9
34,6
0,000
Usou camisinha
na última transa
Sim
Não
(n=229)
0,031
Quando foi a última transa (n=229)
0,149
Com quem transou a última
vez (n=229)
Conheceu naquele dia/
só de vista
14
6,9
3
11,1
1
Já conhecia antes
188
93,1
24
88,9
0,60 (0,16-2,22)
0,432
Quantas pessoas transou
nos últimos 3 meses(n=230)
Somente uma
116
57,1
13
48,1
Duas ou mais
33
16,3
5
18,5
54
26,6
9
33,4
sobre Aids (n=220)
Sim
Não
110
83
57,0
43,0
13
14
48,1
51,9
1
1,42 (0,64-3,20)
0,414
Já teve alguma DST (n=223)
Sim
Não
2
195
1,0
99,0
4
22
15,4
84,6
1
0,06 (0,01-0,03)
0,002
8
192
4,0
96,0
2
25
7,4
92,6
1
0,52 (0,10-2,59)
0,338
Nenhuma
Conversa com parceiro
0,666
Já engravidou alguém
ou já engravidou (n=227)
Sim
Não
teste do qui-quadrado para comparação entre os grupos de adolescentes com e sem estresse.
a
166
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Discussão
A prevalência total de estresse na população adolescente de 14 a 18 anos do presente
estudo foi de 10,9%. Esse dado está próximo ao obtido por Machado, Veiga e Alves (2011),
que identificou 13% de prevalência de estresse entre alunos do 3º ano do ensino médio
do Distrito Federal. Outros estudos identificaram maiores níveis de estresse em crianças
e pré-adolescentes de 8 a 14 anos (18,2%) (Sbaraini & Schermann, 2008), bem como em
estudantes de medicina (49,7%), (Aguiar, Vieira, Vieira, Aguiar & Nóbrega, 2009).
As características sociodemográficas não mostraram associação significativa com o
estresse dos adolescentes na presente pesquisa. Este dado discorda de relatos da literatura,
onde as meninas aparecem como mais estressadas que os meninos, especialmente por
mostrarem-se mais preocupadas e insatisfeitas com sua estética e beleza (Caires & Silva,
2011; Calais, Andrade & Lipp, 2003; Sbaraini & Schermann, 2008 ).
Os dados obtidos no presente estudo apontam o ambiente familiar como importante
modulador do nível de estresse dos adolescentes. Há maior prevalência de estresse em
jovens que julgam o ambiente familiar, o relacionamento com o pai e o relacionamento
com a mãe como “regular/ruim”, comparativamente aqueles que os julgam “bom”. Este
resultado corrobora o estudo de Souza e Baptista (2008), que associa suporte familiar e
saúde mental, e caracteriza a família como a fonte estressora mais expressiva, ressaltando
a maneira como afeta a saúde mental dos sujeitos. Para Ximenes (2011), a estrutura e
o funcionamento familiar mostram-se associados ao desenvolvimento de Transtorno
de Estresse Pós-Traumático (TEPT). O bom funcionamento familiar é relatado como
possuindo um efeito protetor para jovens que passam por situações de perda e trauma. No
estudo citado, a violência familiar aparece associada ao TEPT em crianças e adolescentes,
relacionando o ambiente familiar com a prevalência de estresse.
Ainda em relação ao ambiente familiar, a percepção dos adolescentes de que os pais
não se interessam pelo seu desempenho escolar mostrou-se associado ao maior nível de
estresse. Segundo Souza e Baptista (2008), o suporte familiar pode ser determinado com
o grau de atenção, carinho, proximidade afetiva e diálogo que sustenta o relacionamento.
A falta de interesse no desempenho escolar pode ser compreendida como uma falta de
atenção, diálogo e afeto dos pais. Deste modo, a falta de suporte familiar, que engloba o
interesse na instância escolar/acadêmica, pode ser geradora de estresse e afetar a saúde
mental do adolescente. Igualmente, estudo com adolescentes escolares de Porto Velho/
RO mostrou associação entre falta de suporte familiar e início precoce de vida sexual
(Vanzin, Aerts, Alves, Câmara, Palazzo, Elicker, Evangelista & Neto, 2013).
Pesquisa de comportamento, atitudes e práticas da população brasileira, realizada
pelo Ministério da Saúde, em 2011, revelou que em termos de indicador de conhecimento
correto de formas de transmissão do HIV, os menores percentuais foram obtidos pelos
jovens de 15 a 24 anos (51,7%). Estudo com jovens cearenses entre 13 e 16 anos,
com enfoque na promoção de saúde, relatou que a prática de educação em saúde
possibilitou apreender informações sobre as DSTs e Aids. As políticas públicas para
a saúde vêm, nos últimos anos, desenvolvendo atenção especial à população jovem,
fato este justificado pela vulnerabilidade aos riscos à saúde (doenças transmissíveis e
sexualmente transmissíveis) (Costa, Camurça, Braga & Tatmatsu, 2012). Apesar disso,
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
167
40% dos novos casos de HIV estão na faixa dos 15-24 anos (Organização Panamericana
de Saúde, 2012), o que ilustra a pouca efetividade dos programas educativos sobre
sexualidade e do papel da informação, que, por si só, ainda é controverso, merecendo
investimentos das políticas públicas.
Os adolescentes do presente estudo que não usaram camisinha na primeira e na
última relação sexual, apresentaram mais prevalência de estresse do que aqueles que
usaram. Estes achados estão em consonância com os dados de Elkington, Bauermeister
e Zimmerman (2010), onde o sofrimento psicológico, mensurado em instrumentos que
avaliam depressão e ansiedade (sintomas resultantes de excesso de estresse) está associado
ao uso inconsistente de camisinha. No entanto, os autores entendem o comportamento
sexual de risco, uso inadequado do preservativo, como um fator relacionado indiretamente
ao sofrimento psicológico, estando associado fortemente ao uso de substâncias psicoativas,
sendo estas, por sua vez, relacionadas diretamente ao sofrimento psicológico.
Conforme Wong, Kipke, Weiss e McDavitt, (2010), eventos estressores parecem
estar associados ao aumento da prevalência de uso de drogas e de transmissão de HIV
também em adolescentes homossexuais do sexo masculino. Estes autores compreendem
o sofrimento psicológico proveniente dos eventos aversivos como influenciador dos
comportamentos de risco à saúde como uso de drogas e uso inconsistente de preservativos,
principalmente em homens que buscam no “consumo e distração” como uma ferramenta
para lidar com o estresse (Caires & Silva, 2011). Todavia, estes pesquisadores não
entendem o estresse e o sofrimento psicológico como fatores de risco determinantes
com relação à exposição a Aids, ressaltando a importância das estratégias de coping e o
suporte familiar como instâncias protetoras. Estudos apontam ainda a associação entre
o uso de métodos contraceptivos e a prevalência de depressão e estresse (Hall, Moreau,
Trussell & Barber, 2013a; Hall, Moreau, Trussell & Barber, 2013b). A consistência no
uso de contraceptivos semanais foi 15% mais baixa em mulheres que apresentam estresse
moderado ou severo, apresentando, conforme outro estudo, duas vezes menos prevalência
de uso contraceptivo.
Segundo Santos (2008), existe relação entre uso de preservativo por jovens e
estrutura familiar, sendo o uso de preservativo mais frequente em adolescentes cujos pais
não são divorciados/separados, defendendo a hipótese de que famílias monoparentais ou
reconstituídas podem estar relacionadas aos comportamentos de risco nos adolescentes.
Considerando a influência do suporte familiar e a qualidade dos relacionamentos familiares
na prevalência de estresse dos adolescentes, e a relação da mesma com a frequência do
uso de preservativos, verifica-se semelhança entre os resultados e a literatura.
O quadro frágil agrava-se quando falamos do ambiente familiar, onde não raro
os pais consideram-se despreparados para conversar com seus filhos sobre sexualidade
e fatores associados. Somado a isso, a ociosidade na comunidade juvenil pode ser mal
preenchida, com o uso de drogas e a marginalidade (Beserra et al., 2006). Apenas dois
indivíduos com estresse fizeram uso de drogas injetáveis nesta pesquisa, e nenhum dos
não estressados. Caires e Silva (2011) relatam que meninos com estresse buscam a
distração e consumo de drogas como alternativas para controlar o estresse, o que pode
explicar resultados aqui encontrados. Dado corroborado por Farias Jr et al., (2009), que
identificaram um significativo maior consumo de drogas entre meninos.
168
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
A partir do exposto, observa-se que o estresse está associado a inúmeros
comportamentos de risco no adolescente, relacionando-se com uso indevido/
insuficiente da camisinha (Elkington, Bauermeister & Zimmerman, 2010), mau
relacionamento familiar (Souza & Baptista, 2008) e uso de drogas (Beserra, Araújo
& Barroso, 2006).
Além disso, outros estudos evidenciam o estresse como um fator associado aos
diversos comportamentos que acarretam um aumento da vulnerabilidade. Os resultados
da presente pesquisa mostram que os adolescentes com estresse apresentaram mais
episódios de acidentes com atendimento médico no último ano do que aqueles sem
estresse, o que pode ser consequência de um estilo de vida mais vulnerável. Embasando
isso, Ozdemir, Bayrakci, Teksam, Yalçin e Kale, (2012) publicaram estudo sobre casos
de envenenamentos atendidos entre 1985 e 2008 em uma rede hospitalar. Os dados
mostram que 67.4% dos envenenamentos foram acidentais, e a maioria dos casos no
gênero feminino aconteceram nas idades entre 13 e 16 anos. Outro estudo investigou
adolescentes de 12 a 18 anos, com diagnostico de autolesão não suicida, filhos de veteranos
de guerra com estresse pós-traumático relacionado ao combate. A autolesão não suicida
é um problema clinico significativo nos adolescentes – filhos destes combatentes – a
qual parece ser influenciada por fatores clínicos e familiares (Boričević Maršanić, Aukst
Marbetić, Ožanić Bulić, Duretić, Kniewald, Jukić & Paradžik, 2014).
Um estudo epidemiológico com 233 estudantes (media de idade 14,47 anos) examinou
a frequência de comportamentos problemáticos na adolescência e a associação com o
estresse psicológico autorreferido. Os adolescentes que reportaram estresse psicológico
apresentaram maior chance de praticar automutilamento, fumar regularmente, consumir
maconha ou destruir coisas (Lacina, Staub-Ghielmine, Bianchi, Schmeck & Schmid,
2014). Acidentes com veículos motores lideram causas de morbidade e mortalidade em
adolescentes. No entanto, um estudo conduzido no Alabama (EUA) sobre colisões de
veículos automotores com adolescentes mostrou correlação negativa nos últimos 12 anos.
Os autores atribuem tal fato às leis mais rígidas para condutores adolescentes, ao maior
uso do cinto de segurança e à maior conscientização dos comportamentos de risco na
condução de veículos por sujeitos na adolescência (Monroe, Irons, Crew, Norris, Nichols
& King, 2014). Tais estudos reforçam a importância de identificar fatores de risco e
introduzir medidas preventivas associadas ao estresse na adolescência.
Neste sentido, Murta, Borges, Ribeiro, Rocha, Menezes e Prado (2009)
desenvolveram um programa de habilidades para a vida para adolescentes de 12 a 14
anos, com o intuito de psicoeducar e praticar habilidades sociais, cognitivas e de manejo
de estresse. Foi realizada uma avaliação de follow-up com os pais dos adolescentes,
um ano após o término do grupo de habilidades para a vida. Foram relatadas diversas
melhoras comportamentais e sociais pelos pais, assim como melhora no estado geral de
saúde dos filhos e ausência de envolvimento com álcool, drogas, de casos de gravidez e
doenças sexualmente transmissíveis. Dessa forma, os achados da presente pesquisa são
corroborados pela literatura científica, apontando para uma associação entre prevalência
de estresse e comportamento sexual de risco e enfatizando a importância da prevenção.
Por fim, como limitação do estudo, salienta-se a impossibilidade de estabelecer
relações causais definitivas por tratar-se de um delineamento transversal.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
169
Conclusão
Pode-se concluir, a partir da análise e discussão dos resultados desta pesquisa, que
(1) o ambiente familiar (qualidade do relacionamento do adolescente com pai e mãe e
qualidade do ambiente domiciliar) é um componente essencial para evitar o estresse em
jovens, sendo significativa a valorização e interesse dos pais pelas atividades dos filhos; (2)
comportamentos de risco, como acidentes e o sexo desprotegido geram estresse, podendo
criar ciclos viciosos que retroalimentam o próprio estresse; (3) apesar de terem acesso ao
conhecimento, muitos jovens se expõem à DST, e isso gera estresse; (4) há uma relação
entre o uso de camisinha na primeira e última transa e o estresse na adolescência.
O estudo sugere ações públicas de (1) conscientização dos pais sobre sua importância
no desenvolvimento psicológico dos filhos adolescentes; (2) maior atenção ao manejo de
estresse de meninos e (3) campanhas de intensificação sobre práticas sexuais saudáveis.
Ainda, os dados obtidos demonstram que há urgência na ampliação de ações e estratégias
em relação à educação para a saúde na adolescência, buscando a conscientização do
público juvenil, de seus pais e da sociedade. Sobretudo, novas investigações com
caráter longitudinal devem ser elaboradas para verificar causas e consequências dos
comportamentos que podem estar relacionados ao estresse.
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
do estado do Rio de Janeiro. Tese de doutorado não publicada. Programa de
Doutorado em Ciências na área da Saúde Pública. Escola Nacional de Saúde Pública
Sergio Arouca. Rio de Janeiro, RJ.
_____________________________
Recebido em março de 2015
Aceito em abril de 2015
Lígia Braun Schermann: Professora Adjunta do Curso de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em
Promoção da Saúde da ULBRA.
Jorge Beria: Professor Adjunto do Curso de Medicina e do Programa de Pós Graduação em Promoção da
Saúde da ULBRA.
Maria Helena Vianna Metello Jacob: Professora Adjunta do Curso de Educação Física e do Programa de
Pós-Graduação em Promoção da Saúde da ULBRA.
Guilherme Arossi: Professor Adjunto do Curso de Odontologia e do Programa de Pós Graduação em Promoção
da Saúde da ULBRA.
Mariana Canellas Benchaya: Psicóloga, Doutoranda em Ciências da Saúde da Universidade Federal de
Ciências da Saúde de Porto Alegre.
Nadia Krubskaya Bisch: Psicóloga, Doutoranda em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Ciências
da Saúde de Porto Alegre.
Sofia Rieth: Bolsista de Iniciação Científica, Curso de Psicologia, Programa de Pós-Graduação em Promoção
da Saúde da ULBRA.
Endereço para contato: [email protected]
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
173
Aletheia 43-44, p.174-187, jan./ago. 2014
Autoestima e cuidados pessoais em mulheres de 60 a 75 anos
Aparecida Duridan
Daiane Ferreira dos Santos
Ana Lucia Gatti
Resumo: Este estudo objetivou verificar possíveis relações entre os cuidados com o corpo e a
autoestima em mulheres entre 60 e 75 anos, por meio de um estudo transversal. Participaram da
pesquisa 24 mulheres, com idade média de 65 anos e dois meses, residentes na cidade São Paulo,
as quais foram selecionadas por conveniência e responderam um Questionário de Caracterização,
a Escala de Autoestima de Rosenberg e o Questionário de Cuidados Pessoais. Verificou-se que
as mulheres apresentaram autoestima elevada e baixo nível de cuidados pessoais. A correlação
de Pearson entre a autoestima e os cuidados pessoais não foi estatisticamente significante. A
desejabilidade social pode ter interferido nos resultados, assim como a adequação do instrumento
de avaliação dos cuidados pessoais. Outros estudos com maior número de participantes e revisão
do material empregado são sugeridos.
Palavras-chave: envelhecimento; idosas; estética.
Self-esteem and personal care in women aged between 60 and 75 years
Abstract: This study aimed to investigate possible relationships between body care and self-esteem
in women between 60 and 75 years, through a cross-sectional study. 24 women participated in
the survey, with an average age of 65 years and two months, residents in São Paulo, which were
selected by convenience and answered a Characterization Questionnaire, Rosenberg´s Self-Esteem
Scale and the Questionnaire of Personal Care. It was found that women had high self-esteem and
low levels of personal care. Pearson´s correlation between self-esteem and personal care was not
statistically significant. The social desirability may have influenced the results, as well as the
suitability of the instrument for assessing personal care. Further studies with larger numbers of
participants and review of the material used are suggested.
Key-words: aging; elderly; esthetics.
Introdução
O envelhecimento é um processo natural da vida do ser humano que se caracteriza
por sua heterogeneidade, multicausalidade e multifatorialidade (Araújo, Sá & Amaral,
2011). Pode-se dizer, assim, que é um processo que traz algumas contradições, pois,
segundo Falcão e Carvalho (2010), há pessoas idosas que se mantém saudáveis, indicando
que pode haver várias maneiras de se vivenciar o processo de envelhecimento, enquanto
outras expressarão problemas em várias áreas. De acordo com Schneider e Irigaray (2008),
a velhice ainda é muito temida pelos indivíduos e vista como uma etapa desagradável da
vida, dado que muitos idosos rejeitam seu próprio processo de envelhecer em virtude de
uma imagem distorcida que constroem de si mesmos, contribuindo para o desenvolvimento
de sentimentos de autodesvalorização e possivelmente uma baixa autoestima (Chaim,
Izzo & Sera, 2009). Assim, à medida que a idade avança, certos indivíduos poderiam ter,
cada vez mais, sua autoestima rebaixada.
A autoestima é um conjunto de sentimentos e pensamentos que o indivíduo tem
em relação a si mesmo. Refere-se a uma representação pessoal, que pode ser positiva
ou negativa (Hutz & Zanon, 2011). Para Maçola, Vale e Carmona (2010), ela pode ser
considerada como um juízo de valor em relação a si mesmo e começa a ser moldada já na
infância, é de grande importância e influencia na relação do indivíduo consigo mesmo e
com os outros, na percepção de acontecimentos e também no próprio comportamento.
Hewitt (2009, citado por Hutz & Zanon, 2011) sugere que uma autoestima elevada
surge da aceitação dentro do campo social e do reconhecimento positivo de pessoas
consideradas significativas para o individuo, como pais, professores e companheiros.
Assim, mesmo com experiências anteriores de aceitação, em uma sociedade capitalista,
na qual o novo é sempre mais valorizado, a desvalorização pode acometer o idoso, pois
o velho passa a ser descartado ou percebido como fora de moda (Schneider & Irigaray,
2008).
Por outro lado, em relação ao padrão corporal, a imposição da sociedade faz com que
os indivíduos busquem freneticamente adequar-se, trazendo a impressão de que o corpo
entra e sai da moda como se fosse tendência ditada a cada estação. Esse padrão estético
considerado ideal associa, historicamente, mulher e beleza. Alterações corporais são feitas
através de cirurgias estéticas que ultrapassam os limites para as transformações físicas,
acarretando um processo que a princípio incide sobre o imaginário e depois implicará
na relação social do indivíduo (Paixão & Lopes, 2014).
Ainda quanto ao gênero, Santos e Maia (2003) ressaltam que as diferenças
encontradas em relação à autoestima muitas vezes estão ligadas a fatores culturais da
atualidade, que valoriza imagens idealizadas de beleza física, principalmente em relação
às mulheres. Destas é esperado que sejam sempre belas, mas os padrões que lhes são
exigidos desconsideram a passagem do tempo.
Como afirmam Fontes, Borelli e Casotti (2012), a atratividade física é considerada
um elemento central da feminilidade, por isso o consumo de práticas de beleza costuma
ser maior entre as mulheres. A fim de evitar sentimentos negativos, como a insatisfação
e a baixa autoestima, elas recorrem a diversas opções de embelezamentos que estão
disponíveis no mercado, as quais compreendem: cosméticos, exercícios, tratamentos
estéticos, dietas e cirurgias plásticas estéticas (Strehlau, Claro & Laban, 2010).
O autocuidado é uma atividade do indivíduo apreendida e orientada para um
objetivo. É uma ação desenvolvida em situações concretas da vida, e que o indivíduo
dirige para si mesmo ou para regular os fatores que afetam seu próprio desenvolvimento,
atividades em benefício da vida, saúde e bem estar (Silva, Oliveira, Silva, Polaro,
Radünz, Santos & Santana, 2009). Deste modo, pode-se pensar que as diversas opções
de embelezamento também têm caráter de autocuidado. Por outro lado, uma preocupação
exacerbada com o aspecto externo poderia ser entendida como vaidade, tomando-se a
acepção de “valorização que se atribui à própria aparência ou quaisquer qualidades físicas
ou intelectuais fundamentada no desejo de que tais qualidades sejam reconhecidas ou
admiradas pelos outros” (Houaiss & Villar, 2001, p.2823).
Moura, Santos, Visciglia e Gatti (2012) buscaram analisar a relação entre o cuidado
com o corpo e a saúde psíquica em 20 mulheres com média de idade de 23,3 anos que
residiam no estado de São Paulo. Os autores criaram, para a pesquisa, um questionário
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
175
de cuidados pessoais, com o intuito de avaliar o nível de cuidado com o corpo, o tempo
que a participante despendia neste cuidado, o orçamento dedicado aos procedimentos
estéticos, preocupação e satisfação com a autoimagem. Verificou- se na pesquisa, por
meio de correlação, que as mulheres que mais se cuidavam apresentaram prejuízo em
algumas áreas quanto à saúde psíquica, a saber, stress psicológico e desconfiança no
próprio desempenho, avaliados por meio do Questionário de Saúde Geral de Goldberg.
Destaca-se, entretanto, que não se pôde afirmar se o fato das mulheres se cuidarem
compromete sua saúde ou se é o seu estado psíquico que interfere em seus cuidados
exacerbados.
Em função da importância da autoestima, surgiu a necessidade de sua avaliação,
a qual teve por consequência o desenvolvimento de escalas que têm por intuito aferi-la.
No Brasil, duas têm sido utilizadas: a de Steglich, de 1978, a qual compreende ainda
a autoimagem, e a de Rosenberg (1989 apud Hutz & Zanon, 2011).
Quanto à primeira, Guimarães, Kaneoya, Soares, Machado e Fernandes (2011)
utilizaram o questionário de Autoestima e Autoimagem de Steglich (1978) em seu estudo
na população de descendentes japoneses de Santa Catarina no Brasil e de Yamanashi no
Japão. Verificaram que a qualidade de vida dos participantes foi considerada de boa a
muito boa, sendo que os descendentes de Santa Catarina obtiveram escores superiores.
A autoestima e a autoimagem obtiveram conceito baixo, não diferindo entre os grupos
pesquisados.
Já a de Rosenberg, adaptada por Hutz em 2000, teve sua validação e normatização
em 2011 (Hutz & Zanon, 2011). É um material que tem sido usado em diversas
pesquisas, tanto no Brasil como no exterior, a exemplo da dissertação de Rodrigues
(2011), em Portugal. As idosas institucionalizadas, participantes do estudo, apresentaram
qualidade de vida e autoestima moderadas; o trabalho também enfatizou a importância
da autoestima na qualidade de vida e vice-versa.
No Brasil, Ferreira, Santos e Maia (2012) utilizaram também como instrumento
a escala de autoestima de Rosenberg. Participaram do estudo 65 idosos usuários da
rede pública de saúde do município de Natal-RN, com idade média de 71 anos, sendo a
maioria do sexo feminino. As autoras identificaram nos idosos uma autoestima elevada,
considerada um recurso psicológico útil auxiliando no enfrentamento dos desafios de
adaptação na velhice.
Meurer, Benedetti e Mazo (2011), valendo-se do mesmo instrumento, buscaram
explorar a associação dos fatores motivacionais para a prática de exercícios físicos
com a autoestima de idosos. Participaram do estudo 111 idosos, dos quais 90 eram
mulheres, com idade média de 67 anos e 4 meses, praticantes do programa “Floripa
Ativa”, que acontece junto aos Centros de Saúde do Município de Florianópolis. A
autoestima foi considerada elevada (35,22±3,93) e associada à motivação pela prática
de exercícios físicos.
Já Antunes, Mazo e Balbé (2011) compararam a percepção de autoestima e de
saúde com os aspectos sociodemográficos de idosos praticantes de exercício físico,
conforme o sexo. Compuseram a amostra 165 idosos (132 do sexo feminino), com
média de idade de 69,14 anos (DP= 6,04), integrantes do programa de exercícios
176
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
físicos do Grupo de Estudos da Terceira Idade – GETI, da Universidade do Estado
de Santa Catarina. Os idosos apresentaram elevada autoestima. Verificou-se diferença
entre os gêneros.
Estudos que abordassem a relação entre a autoestima e os cuidados pessoais,
tais como avaliados pelo trabalho de Moura et al., (2012), não foram localizados nas
bases de dados que congregam artigos científicos. Quando os cuidados pessoais são
investigados, referem-se especialmente às atividades da vida diária, como o Índice de
Barthel (Minosso, Amendola, Alvarenga & Oliveira, 2010; Girondi, Hammerschimidt,
Tristão & Fernandes, 2014), utilizado para a aferição da independência funcional de
idosos, população de especial interesse para as autoras do presente estudo. O objetivo
geral da pesquisa foi verificar possíveis relações entre o cuidado com o corpo e a
autoestima em mulheres idosas por meio do Questionário de Cuidados Pessoais e da
Escala de Autoestima de Rosenberg, em um estudo piloto.
Método
As participantes foram selecionadas por conveniência. Seu recrutamento foi
feito por outros pesquisadores da mesma instituição, os quais arrolaram, em diferentes
bairros da cidade de São Paulo, idosas que preenchiam os requisitos estabelecidos na
presente investigação. No estudo foram incluídas 24 mulheres com idade de 60 a 75
anos, alfabetizadas, sendo que todas residiam com familiares ou sós, mas nenhuma se
encontrava institucionalizada. Foram excluídas mulheres que tinham deficiência física
evidente, que dificultasse a locomoção, dado a possibilidade de incremento da ansiedade
que as questões poderiam acarretar. Também foram excluídas pessoas cegas e surdas
e que teriam dificuldade de compreender ou responder os instrumentos (como o caso
de disléxicas). Considerou-se, para o cálculo do número de participantes, o nível de
significância do estudo (5%) e a estimativa do coeficiente de correlação (0,5), o que
indicaria um número mínimo corrigido de 16 idosas, ao qual foi acrescido 50%.
Os instrumentos utilizados foram a Escala de Autoestima de Rosenberg, adaptada
e validada por Hutz (2011) e o questionário de Cuidados Pessoais de Moura, Santos,
Visciglia e Gatti (2012), além do Questionário de Caracterização, que contava com
perguntas referentes à identificação da participante. Este último foi construído para os
fins da pesquisa.
O instrumento Escala de Autoestima de Rosenberg é uma medida unidimensional,
constituída por 10 afirmações relacionadas a um conjunto de sentimentos de autoestima
e autoaceitação, que avalia a autoestima global. Os itens são respondidos em uma escala
tipo Likert de quatro pontos, variando entre concordo totalmente, concordo, discordo
e discordo totalmente, e pode ser aplicado a pessoas de qualquer idade.
O Questionário de Cuidados Pessoais (Moura et al., 2012) é constituído por 10
questões fechadas, respondidas em uma escala, variando de zero a quatro, tipo Likert,
que visam avaliar o nível de cuidado com o corpo, o tempo despendido aos cuidados , o
custo financeiro dedicado a procedimentos estéticos, a preocupação e satisfação com a
autoimagem. Permite a quantificação das respostas de modo a que os valores superiores
correspondam ao maior uso de tempo, energia e dinheiro da participante.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
177
Após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética (registrado sob o número
CAAE 30087214.0.0000.0089), as participantes foram indicadas por pessoas próximas
às pesquisadoras. Depois de contato e aceitação, elas foram consultadas quanto ao dia,
horário e local mais conveniente para a coleta de dados da pesquisa. Cada participante
preencheu e assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para fins
legais e éticos, em duas vias, uma das quais ficou com a participante e outra com as
pesquisadoras.
Primeiramente foi aplicado o Questionário de Caracterização para colher
informações pessoais das 24 participantes e, logo após, os dois instrumentos referentes
ao tema da pesquisa. Antes das aplicações dos instrumentos, as pesquisadoras deram
orientações gerais sobre eles.
Após a coleta, os dados referentes à caracterização e a ambos os instrumentos
foram inseridos em planilhas. Realizou-se o cálculo de média e desvio padrão. A partir
dos resultados dos Questionários de Autoestima e de Cuidados Pessoais, foi realizado
o cálculo da prova de correlação de Pearson, tomando-se p= 0,05.
Resultados
A contabilização dos dados do Questionário de Caracterização revelou que a média
de idade das participantes foi de 65 anos e dois meses. Quanto ao local de nascimento,
18 são naturais do Estado de São Paulo, duas da Bahia, duas de Pernambuco, uma da
Paraíba e uma do Estado de Minas Gerais. Identificou-se que 54,16% das participantes
não estavam trabalhando no momento da coleta dos dados.
Os resultados do Questionário de Cuidados Pessoais, como apresentados na tabela
I, revelaram que o valor médio obtido no instrumento foi de 4,62, com desvio padrão
3,1. Destaca-se, entretanto, que houve ampla variabilidade quanto à contribuição de cada
uma das questões para a composição do escore.
As participantes 12 e 22 apresentaram as maiores pontuações da amostra, onze e
treze pontos, respectivamente, denotando, assim, maior preocupação que as demais quanto
aos cuidados. A pergunta que mais contribuiu para este resultado foi a que indagava se
a mulher considerava os cuidados que tinha com o corpo e sua aparência um problema,
na qual a resposta foi afirmativa. A participante 22 respondeu de igual modo também à
pergunta que indagava se a mulher já tinha tido problemas financeiros por conta de sua
vaidade.
Tabela 1 – Total de respostas por participante no Questionário de Cuidados Pessoais.
Participantes
178
Questões
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
Total
1
1
1
1
1
0
0
3
0
0
0
7
2
0
0
1
1
1
0
1
0
0
0
4
3
1
0
2
1
1
0
2
0
0
0
7
4
2
0
0
1
0
1
2
0
0
0
6
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Participantes
Questões
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
Total
5
0
0
0
0
0
0
2
0
0
4
6
6
0
0
0
1
0
0
0
0
0
0
1
7
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
0
8
0
0
0
1
0
0
0
0
0
0
1
9
0
0
1
1
0
0
1
0
0
0
3
10
1
0
0
0
0
0
0
0
0
0
1
11
1
0
0
0
0
0
1
0
0
0
2
12
3
0
0
1
0
0
3
0
0
4
11
13
0
0
0
1
0
0
2
0
0
0
3
14
1
0
1
1
0
0
2
0
0
0
5
15
2
0
0
1
0
0
2
0
0
0
5
16
0
0
1
0
0
0
2
0
0
0
3
17
1
0
0
1
0
0
0
0
0
0
2
18
0
0
0
1
0
1
2
0
0
0
4
19
0
0
1
1
0
1
2
0
0
0
5
20
0
0
0
2
0
1
1
0
0
0
4
21
0
0
1
1
0
1
2
0
0
0
5
22
1
0
0
1
0
1
2
4
0
4
13
23
0
0
1
1
1
0
2
0
0
0
5
24
1
3
0
1
1
0
3
0
0
0
8
Total
15
4
10
20
4
6
37
4
0
12
111
Nos valores inferiores, as participantes 6, 8 e 10 obtiveram apenas um ponto,
caracterizando uma menor preocupação em relação aos cuidados pessoais e a participante
7 obteve zero, ou seja, a menor somatória de pontos permitida para o instrumento. Tal
valor, entretanto, não significa uma ausência de cuidados, mas o menor investimento
refletido em todas as questões. Entretanto, pode-se afirmar que, dentre as pesquisadas,
os cuidados pessoais, segundo inferido pelo instrumento, possuem pouca relevância no
cotidiano.
Ao analisar os resultados por questões do Questionário de Cuidados Pessoais,
foi possível perceber que a questão que perguntava se a mulher já tinha enfrentado
dificuldades de relacionamento por causa de sua vaidade (questão 9) não obteve qualquer
ponto. A questão sobre qual seria o nível de preocupação da participante em relação
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
179
à sua própria imagem obteve a maior somatória de pontos (37), ou seja, as mulheres
desta pesquisa demonstraram preocupar-se com a imagem corporal.
A segunda questão com maior pontuação desta pesquisa foi a que perguntava com
que frequência a participante ia ao salão de beleza ou centros estéticos semanalmente.
Apenas cinco participantes responderam-na com o valor mínimo, o que correspondia
a nenhuma. Destaca-se que a questão 3 investigava o número de procedimentos
cirúrgicos estéticos aos quais as participantes haviam se submetido. Por meio desta
questão verificou-se que a maioria das participantes da presente pesquisa (62,5%) não
realizou qualquer cirurgia plástica. Embora tivessem uma faixa etária mais avançada,
foi verificada menor incidência de submissão a cirurgias plásticas.
Quanto ao segundo instrumento, a partir das análises das respostas da Escala de
Autoestima de Rosenberg, foi obtida a média do grupo de 34,04 pontos, desvio padrão de
3,489, com intervalo médio de 30,51 a 37,49. Os resultados, por participante e questão
estão apresentados na tabela 2. As participantes desta pesquisa foram classificadas como
referindo autoestima elevada, pelos parâmetros do instrumento. A partir da realização
do teste t, verificou-se que não houve diferença significativa entre a média obtida no
presente estudo e a média obtida na pesquisa de Rodrigues (2011), embora a pontuação
encontrada neste tenha sido maior.
Tabela 2 – Resultados obtidos por participante da Escala de Autoestima de Rosenberg.
Participantes
180
Questões
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
Total
1
2
3
4
3
4
4
3
2
3
4
32
2
3
4
4
3
4
4
4
4
4
4
38
3
4
4
4
4
4
4
2
4
4
4
38
4
3
4
4
4
4
4
3
3
4
4
37
5
3
3
3
4
2
3
4
3
3
3
31
6
4
4
4
4
4
4
3
4
2
4
37
7
3
3
3
3
2
3
3
2
4
4
30
8
3
3
3
3
3
4
4
2
3
3
31
9
3
3
4
3
3
3
3
3
4
3
32
10
3
3
3
4
2
4
2
4
4
3
32
11
3
3
3
3
3
3
3
2
3
3
29
12
3
4
3
3
3
3
4
2
2
4
31
13
3
4
4
4
3
3
3
2
3
4
33
14
4
4
4
4
4
3
4
3
4
4
38
15
4
4
4
4
4
4
4
2
4
4
38
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Participantes
Questões
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
Total
16
3
3
4
3
3
3
1
3
3
4
30
17
4
4
4
4
3
3
3
3
3
3
34
18
4
4
4
4
4
3
4
4
2
3
36
19
4
4
4
4
4
4
4
4
2
3
37
20
3
3
3
2
2
3
3
2
4
3
28
21
4
4
3
4
4
3
3
3
3
3
34
22
4
4
4
4
1
4
4
3
4
4
36
23
3
3
4
3
3
3
4
4
4
4
35
24
4
4
4
4
4
4
4
4
4
4
40
Total
81
86
88
85
77
83
79
72
80
86
817
A participante 24 obteve destaque, pois atingiu a pontuação máxima, ou seja,
40 pontos, assim considerando-se uma autoestima extrema. Já no valor inferior,
a participante 20 destacou-se com 28 pontos, chamando a atenção também para a
pontuação baixa assinalada nas perguntas 4- “Eu acho que sou capaz de fazer as
coisas tão bem quanto a maioria das pessoas” e 5-“ Eu acho que eu não tenho muito
do que me orgulhar”.
Ao analisar os resultados por questão foi possível perceber que a questão 8“Eu gostaria de poder ter mais respeito por mim mesmo” obteve o menor somatório
de pontos do grupo, com 8,26 % das respostas, ou seja, a maioria das participantes
discordou desta afirmação. Entretanto, no geral, a faixa de variação da somatória por
questão (72 a 88) bem como do total de pontos por participante (28 a 40) revelam
pequena amplitude.
Os dados de ambos os instrumentos foram submetidos à prova de correlação,
tomando-se p= 0,05. A correlação de Pearson apontou valor igual a 0,3077, resultado
não significante (p crítico= 0,396), demonstrando, assim, que não houve correlação
entre os resultados dos instrumentos aplicados. De acordo com este resultado, pode-se
inferir que autoestima e cuidados pessoais, tal como mensurados pelos questionários,
não têm interferência mútua ou não caminham de modo paralelo.
Discussão
Os resultados obtidos no estudo evidenciaram um baixo nível de cuidados
pessoais, se comparado ao de Moura et al. (2012), no qual foi usado o mesmo
questionário. No trabalho citado, a média do grupo foi de 13,7, com desvio padrão
3,18, ou seja, a se considerar que variabilidade é semelhante, a diferença entre as
médias pode ser decorrente da diferença etária entre os grupos, dado que o estudo
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
181
anterior contou com mulheres entre 20 e 30 anos, e o atual com as participantes
entre 60 e 75 anos.
Entretanto, a preocupação referida com a imagem, em ambos os estudos, é
o elemento mais presente. Schilder, citado por Silva, Venditti Jr. e Miller (2010),
ressalta que as primeiras experiências infantis são importantes para o processo de
desenvolvimento da imagem corporal e diz que nunca paramos de ter tais experiências,
ou seja, exploramos nosso corpo do nascimento à morte. Acrescenta que a imagem
corporal é formada em nossa mente, ou seja, é o modo pelo qual o corpo se apresenta
para nós. A se considerar tal assertiva, poder-se-ia pensar que a preocupação seria
gradativamente reduzida com a idade.
Por outro lado, para algumas das idosas, os maiores cuidados podem estar
relacionados ao medo da vivência de algo que para estas participantes ainda é
desconhecido, ou seja, a perda da imagem de si mesmas e o medo de não serem
reconhecidas pelo outro. Segundo Valença, Nascimento e Germano (2010), tal situação
torna-se mais evidente durante as mudanças ocorridas no processo fisiológico do
envelhecimento, de tal forma que as mulheres vivenciariam uma luta constante contra
esse processo que é natural.
Já Barros (2005) traz a concepção de imagem corporal, nas perspectivas da
psicanálise e da sociologia, e diz que esta envolve a reflexão dos desejos, atitudes
emocionais e interação com os outros, não sendo somente uma construção cognitiva.
Neste sentido, pode-se entender que a preocupação com a imagem corporal das
participantes é o resultado da interação entre elas, o meio em que vivem e as expectativas
que têm em relação aos fatores determinados pela cultura e a sociedade, o que faria
com que as mulheres mais velhas da pesquisa pudessem ter uma maior aceitação de
si mesmas.
Todavia, os cuidados dos quais se valem as mulheres mais velhas e mais novas
para a manutenção da aparência podem ser bastante distintos, em função dos ditames
específicos e dos recursos disponíveis em seus diversos momentos históricos. Além
disso, Valença, Nascimento e Germano (2010) afirmam que o ideal da eterna juventude
é buscado pela maioria das mulheres, muitas vezes influenciado pelo olhar de perfeição
física construído por valores culturais e socioeconômicos, não em função de um olhar
sobre si mesmas de autocuidado e de respeito ao próprio corpo. Tais fatores seriam
refletidos na divergência encontrada no resultado das pesquisas que utilizaram o mesmo
instrumento.
A asserção das idosas de que não tiveram problemas de relacionamento por causa
da vaidade pode ser um dos elementos que as distingue das mais jovens. Entende-se
aqui que a vaidade é caracterizada como sendo uma preocupação exacerbada e uma
avaliação excessivamente positiva da aparência física, como o fazem Avelar e Veiga
(2013). Destaca-se que a preocupação com a aparência tem sido cada vez mais presente
na sociedade atual, a qual oferece, a cada dia, mais recursos, antes não disponíveis,
para o aprimoramento do aspecto estético.
Hoje, os inúmeros produtos e serviços de beleza trazem a garantia de tornar as
pessoas mais belas com objetivo de gerenciar a impressão que a aparência causa nos
outros. Dessa forma, conscientemente ou não, os benefícios associados com a beleza
182
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
geram recompensas sociais como, por exemplo, elogios e conquistas amorosas (Abdala,
2004). De acordo com Avelar e Veiga (2013), as recompensas sociais obtidas servem
como motivadores para a exacerbação da vaidade física na sociedade contemporânea,
trazendo, como consequência, o aumento do consumo de produtos estéticos.
Importa referir que um estudo conduzido no Rio Grande do Sul, em que foi
verificada a busca de cirurgia plástica, pela primeira vez, por mulheres de mais de 50
anos (Audino & Schmitz, 2012), trouxe como resultado uma maior incidência de busca
pelos procedimentos por mulheres mais jovens, sendo que, gradativamente, houve
redução nas faixas etárias mais elevadas. No total do grupo pesquisado, apenas 13%
corresponderam à faixa entre 62 e 67 anos e 5% tinham acima de 68 anos.
Assim, no geral do instrumento de cuidados pessoais, a pontuação baixa na
presente pesquisa, em comparação com a pesquisa de Moura et al., (2012), pode, em
parte, ser justificada pelas idades das participantes deste trabalho, que são de uma faixa
etária mais avançada que do estudo anterior. Além disso, a maioria das participantes
desse estudo não exerce atividades fora de casa, o que fez com que se pensasse
inicialmente que poderiam se preocupar menos com a aparência, porém notou-se que
aquelas que trabalham fora de casa também apresentaram baixa pontuação no cômputo
geral do instrumento.
Outro fator a ser considerado refere-se ao questionário em si, elaborado e
utilizado em 2012, e ainda não validado, sendo esta sua segunda utilização. A criação
deste Questionário de Cuidados Pessoais, como qualquer instrumento, requer um
número maior de pesquisas e estudos que comprovem sua validade. Deste modo, é
necessário verificar, de modo mais atento, a adequação das questões para a população
idosa.
Quanto ao instrumento que avaliou a autoestima, Rodrigues (2011) estabeleceu
valores para interpretação dos pontos obtidos. Considerou a pontuação de 10 a 20
como referente a uma baixa autoestima, os valores 21 a 30 a uma média autoestima e
elevada autoestima a pontuação de 31 a 40, sendo a média das participantes do presente
estudo considerada elevada. Esse dado pode ser interpretado valendo-se do viés da
desejabilidade social.
Oliveira (2013) ressalta a importância de se estudar a desejabilidade social no
contexto da avaliação psicológica e diz que os indivíduos tendem a dar respostas pouco
sinceras, com o objetivo de apresentar uma autoimagem positiva, principalmente em
relação às medidas de autorrelato, nas quais reportam comportamentos, traços e atitudes
que muitas vezes não correspondem a sua real imagem. Tal conceito pode justificar as
respostas das participantes, enquanto grupo, as quais teriam tentado demonstrar uma
representação exageradamente positiva de si.
Outro fator que muito provavelmente interferiu na comparação com o trabalho
de Rodrigues (2011) é a característica das participantes do estudo. Ainda que ambos
os grupos sejam constituídos por idosas, um deles é de institucionalizadas, enquanto
o outro não. Ressalta-se que a autoestima não é estática, apresenta altos e baixos, pois
sofre influência de acontecimentos sociais, emocionais e psicossomáticos. Quanto ao
grupo institucionalizado, pode-se pensar que as perguntas suscitaram sentimentos de
inferioridade (Mosquera & Stobäus, 2006) e/ou sua avaliação ocorreu em um momento
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
183
pouco propício, em função de circunstâncias especificas, entre elas a própria condição
de institucionalização.
Alguns estudos nacionais (Antunes et al., 2011; Ferreira et al., 2012; Meurer et
al., 2011) com o uso do mesmo instrumento identificaram nas mulheres pesquisadas
uma autoestima elevada, assim como na presente pesquisa. Os autores apontaram que
a autoestima satisfatória está relacionada à saúde, ao bem-estar e à felicidade. Dessa
forma, ameniza os efeitos negativos do processo de envelhecimento, sendo considerada
como um recurso psicológico útil para o idoso, aparecendo como um fator protetor, ou
seja, auxiliando no enfrentamento dos desafios de adaptação na velhice. Nesse sentido,
o alto resultado obtido pelas participantes da presente pesquisa pode ser interpretado
como uma forma positiva que as mulheres dessa faixa etária encontraram de vivenciar
o processo de envelhecimento, demonstrando que, apesar das mudanças psicológicas,
físicas e culturais que acontecem por conta da idade, possuem uma representação
pessoal positiva.
Disto infere-se que, de modo geral, as participantes sentem-se confiantes e
acreditam nas próprias competências, características estas associadas a uma alta
autoestima (Gomes & Silva, 2013). Também pode indicar que, dada a aceitação do
envelhecimento, a preocupação com os diversos modos estéticos de retardá-lo não
se faz tão presente, o que redundaria na correlação verificada entre os instrumentos
utilizados na pesquisa.
Considerações finais
Não foi identificada associação entre os cuidados com o corpo e a autoestima para
o grupo investigado e por meio dos instrumentos utilizados. Os resultados obtidos nos
instrumentos revelaram uma autoestima elevada e um nível de cuidados pessoais abaixo
da média, se comparado ao estudo anterior com o mesmo instrumento. A não correlação
entre os instrumentos utilizados pode estar associada ao fato das mulheres desta pesquisa
sentirem-se seguras quanto à sua aparência, ou seja, por terem uma elevada autoestima
acreditam nas suas competências não vendo a questão dos cuidados pessoais como algo
relevante. Outra hipótese levantada que justificaria tal resultado seria o fato de que os
hábitos considerados como cuidados pessoais para esta faixa etária podem diferir dos
hábitos das mulheres do estudo ao qual a presente pesquisa foi comparada, as quais eram
de uma faixa etária menor.
A possibilidade de que o grupo de idosas da pesquisa seja algo homogêneo seria
também uma possível causa para a baixa correlação encontrada. A despeito de serem
advindas de distintos bairros, não houve controle quanto a uma estratificação por
renda ou outros dados sociodemográficos que, eventualmente, poderiam interferir nos
resultados.
A pesquisa evidenciou que alguns de seus aspectos merecem novas investigações.
A adequação dos instrumentos utilizados, especialmente em relação ao Questionário
de Cuidados Pessoais, que foi utilizado pela segunda vez, é um deles. Seria importante
uma investigação em que fossem levantados, junto a idosas de diversas faixas etárias,
184
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
condições econômicas e culturais os cuidados que dispensam a sua aparência, para uma
ampliação do questionário de cuidados pessoais, se os resultados assim sugerirem.
Outra possibilidade seria a composição de amostras mais amplas e a introdução do
gênero masculino, a fim de comparação dos dados. Propõe-se, ainda, uma ampliação do
Questionário de Caracterização dos participantes no sentido de obter mais informações
que possibilitem a averiguação de outros fatores que possam estar subjacentes aos dados
obtidos, como condição econômica, nível de escolaridade, estado atual de saúde. Os
vários aspectos apontados, entende-se, devem despertar o interesse para realização de
futuros trabalhos nesta mesma temática, a qual não tem sido referida quer em estudos
nacionais quer em internacionais.
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_____________________________
Recebido em janeiro de 2015
Aceito em abril de 2015
Aparecida Duridan: Aluna da Graduação do Curso de Psicologia da USJT – Universidade São Judas
Tadeu.
Daiane Ferreira dos Santos: Aluna da Graduação do Curso de Psicologia da USJT – Universidade São Judas
Tadeu.
Ana Lucia Gatti: Doutora em Psicologia, Professora do Curso de Psicologia e do Mestrado em Ciências do
Envelhecimento da Universidade São Judas Tadeu.
Endereço para contato: [email protected]jt.br
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
187
Aletheia 43-44, p.188-202, jan./ago. 2014
Dependência de álcool e recaída: considerações
sobre a tomada de decisão
Ana Cristina Bertagnolli
Christian Haag Kristensen
Daniela Schneider Bakos
Resumo: O objetivo do trabalho foi compreender as recaídas de indivíduos alcoolistas no que
diz respeito a sua relação com a tomada de decisão. Parece haver disfunções no córtex préfrontal ventromedial em dependentes de álcool, o que faz com que estes indivíduos possuam
prejuízos na tomada de decisão semelhantes aos apresentados por pacientes não alcoolistas
que possuem lesões nesta mesma área cerebral. Ambos fazem escolhas que proporcionam
recompensas imediatas e desconsideram os prejuízos negativos futuros associados a estas.
Existe um forte debate no que diz respeito à relação entre o uso de álcool e a tomada de decisão.
Para contemplar o objetivo, foi realizada uma revisão assistemática da literatura. Enquanto para
alguns autores o prejuízo na tomada de decisão é decorrente de danos neurológicos causados
por substâncias, para outros os déficits na tomada de decisão são anteriores ao uso do álcool
e conduzem os indivíduos a este comportamento.
Palavras chaves: tomada de decisão, dependência de álcool, recaída em alcoolistas.
Alcohol dependence and relapse: Some considerations concerning
decision-making
Abstract: The aim of this study was to understand the relapse of alcoholics with regard to their
decision making processes. There seems to be dysfunction in the ventromedial frontal cortex
in alcoholic patients, which lead to deficits in decision making similar to those presented by
nonalcoholic patients who have lesions in the same circuits. Both make choices that provide
immediate rewards, in the context of negative future losses. There is a strong debate regarding
the relationship between alcohol use and decision making. To address the objective, was
performed an unsystematic review. While for some authors deficits in decision making are
due to neurological damage caused by substances, for other deficits in the decision predated
the use of alcohol and lead individuals to this behavior.
Key-words: decision-making, alcohol dependency, relapse of alcoholics.
Introdução
Indivíduos alcoolistas, apesar de compreenderem os prejuízos associados ao uso
de álcool e sofrerem consequências advindas deste, ainda assim mantêm um padrão
crônico de consumo. Mesmo aqueles que buscam tratamento muitas vezes acabam
por apresentar altas taxas de recaída. Estes aspectos no comportamento de pacientes
alcoolistas são sugestivos de dificuldades que vão além de prejuízos de memória e
atenção, indicando o envolvimento de déficits em funções executivas. As funções
executivas podem ser definidas como um conjunto de processos cognitivos que permitem
que o indivíduo direcionar comportamentos a metas futuras e monitorar a eficácia destes
comportamentos. Desta forma, podem nater os comportamentos eficientes e abandonar
os comportamentos ineficientes (Lezak, 1995).
O objetivo do estudo foi compreender, através de uma revisão assistemática da
literatura, as recaídas de indivíduos alcoolistas em sua relação com a tomada de decisão.
Para isso, serão abordadas as caracteísticas, prejuízos e prevalência da dependência de
álcool bem como sua etiologia e os modelos de tratamento. Quanto à tomada de decisão,
será revisado o conceito, a abordagem neuropsicológica, a avaliação da tomada decisão
e os substratos neurais da mesma. Finalmente, a tomada de decisão em indivíduos
alcoolistas será discutida.
Dependência de álcool
Características, prejuízos e prevalência
A Dependência Química é caracterizada, segundo as normas da American Psychiatric
Association (1994), por uma preocupação compulsiva em obter e utilizar determinada
substância, apesar das consequências negativas sociais e ocupacionais. O diagnóstico
correto, realizado através das entrevistas iniciais ou da observação da evolução clínica,
facilita a abordagem terapêutica e as estratégias de prevenção de recaída (Zaleski et al.,
2006). Os critérios da dependência de álcool envolvem critérios relacionados a perda de
controle, a tolerância física e abstinência, a interferência do álcool no trabalho ou vida
acadêmica e uso do álcool em situações arriscadas. (APA, 2003).
A exposição crônica ao álcool pode resultar em consequências físicas, psicológicas
e sociais. Indivíduos dependentes de álcool não conseguem manter seus empregos, o
que resulta em prejuízos nas relações interpessoais e problemas financeiros. Existe um
aumento na probabilidade de indivíduos alcoolistas se envolverem em comportamentos
de risco considerando que, quando intoxicados, não conseguem avaliar o real risco das
situações (Kessler, 2009). Por ser uma droga lícita, a sociedade parece ser permissiva
em relação ao uso do álcool, que é incentivado tanto no ambiente domiciliar quanto
em festividades. Esta postura ignora as diversas complicações decorrentes do abuso da
substância (Sousa & Oliveira, 2010).
O abuso de álcool está entre os transtornos mais prevalentes apresentados pela
população ao longo da vida. A prevalência do abuso de álcool é em torno de 15,1% e
a de dependência da substância é de aproximadamente 6,5%. A alta prevalência destes
transtornos tem sido motivo de preocupação para os profissionais de saúde mental. A alta
prevalência do abuso e dependência de álcool corresponde a mais pessoas que precisam
de ajuda do que os recursos de tratamento disponíveis (Kessler et al., 2005).
Os indivíduos se engajam em comportamentos de risco como forma de obter uma
gratificação mesmo diante de perigos ou danos. A maneira como as pessoas processam a
tomada de decisão vem sendo aprimorada através da integração de várias disciplinas, como
a Psicologia, a Economia Comportamental e a Neurociência. Dificuldades neurobiológicas
acarretam prejuízos na tomada de decisão. A tomada de decisão é comprendida como a
escolha entre duas ou mais alternativas concorrentes, demandando análise dos custos e
benefícios envolvidos. Para que a tomada de decisão seja vantajosa, é necessário prever
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
189
os custos e os beneficios em curto, médio e longo prazo. Indivíduos com prejuízos na
tomada de decisão tendem a preferir comportamentos que geram gratificações imediatas
e desconsideram os prejuízos destes comportamentos a longo prazo. Diferentes estruturas
estão envolvidas na tomada de decisão e prejuízos em algumas desssas estruturas – como,
por exemplo, no córtex pré-frontal – podem levar a dificuldades na tomada de decisões
(Bechara, Damasio, Damasio & Anderson, 1994; Bechara, Tranel, Damasio & Damasio;
1996, Bechara, 2001).
Os prejuízos funcionais apresentados por alcoolistas podem ocorrer como resultados
negativos decorrentes do uso, mas também podem ocorrer em função de prejuízos em
outras funções cognitivas, como a tomada de decisão ou o controle de impulsos. Ainda
não é claro se os prejuízos na tomada de decisão são consequência da dependência de
álcool ou se conduzem os indivíduos a este comportamento. Independentemente de a
tomada de decisão ser a causa ou a consequência do alcoolismo, é necessário entender
as bases neurais deste prejuízo (Mitchell, Fields, D’Esposito & Boettiger, 2005).
O córtex pré-frontal é particularmente vulnerável a disfunções causadas pelo uso
prolongado do álcool. As disfunções executivas estão associadas a prejuízos no córtex
pré-frontal e indivíduos que abusam do álcool tendem a possuir metabolismo dimminuído
nesta região (Kril, Halliday, Svoboda & Cartwrigth, 1997). O abuso do álcool causa
disfunções no córtex pré-frontal e os indivíduos com estas disfunções possuem mau
desempenho em testes que avaliam as funções executivas, como planejamento, por
exemplo. As disfunções pré-frontais observadas em alcoolistas são similares àquelas
identificadas em pacientes com lesões pré-frontais ventromediais, ou seja, estes indivíduos
parecem ser insensíveis às consequências futuras de suas decisões e fazem escolhas
que propiciem resultados positivos imediatos. Os prejuízos da dependência de álcool
se refletem na tomada de decisão, quando as consequências negativas não são levadas
em consideração de maneira efetiva antes da escolha de uma ação específica (Mitchel,
Colledge, Leonard & Blair, 2005). Estes sujeitos apresentam um padrão de comportamento
guiado por recompensas imediatas, o que faz com que não resistam ao impulso de beber,
apesar de estarem cientes das futuras consequências adversas deste comportamento
(Bowden-Jones, McPhillips, Rogers, Hutton & Joyce, 2005).
Etiologia
A dependência química está relacionada à interação entre diversos fatores
complexos, incluindo aspectos sociais, biológicos e psicológicos. Cada um destes está
presente em diferentes graus na etiologia da dependência química. Os fatores biológicos
estão relacionados à diferenças individuais na resposta ao uso de álcool devido à questões
como o sexo, idade e herança genética. Os aspectos psicológicos incluem os esquemas
de cada indíviduo edificados ao longo da vida e as consequentes reações emocionais
referentes à ativação destes. Os fatores sociais referem-se à classe socioeconômica,
nível de escolaridade e religião (Washton & Zweben, 2009). Rozin e Zagonel (2012),
em estudo sobre os fatores de risco para o desenvolvimento da dependência de álcool
em adolescentes, identificaram diversos fatores de risco para o desenvolvimento da
dependência de álcool. Entre estes, o início precoce do uso, a influência da mídia, a baixa
autoestima do adolescente, o uso da substância por algum membro da família, a pressão
190
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de colegas, a violência doméstica, entre outros. A imaturidade do córtex pré-frontal,
especialmente das funções relacionadas ao controle inibitório, durante a adolescência
torna os indivíduos mais vulneráveis ao desenvolvimento de um transtorno aditivo. A
imaturidade desta região costuma ultrapassar os 20 anos e, quanto mais tarde ocorrer o
uso do álcool, menor será o risco do desenvolvimento de um transtorno ligado ao uso
desta substância (Kessler, 2009). Diversos fatores de risco devem ser considerados para
o desenvolvimento da dependência química. Os fatores sociais são considerados os mais
importantes para o surgimento da dependência química. Conviver com pessoas em que
o uso de álcool é incentivado contubui para o surgimento da dependência química nos
indivíduos mais suscetíveis (Washton & Zweben, 2009). O álcool é a substância que
mais leva seus usuários à morte, além de causar diversas mortes que seriam passíveis de
prevenção, como os acidentes de trânsito (Sousa & Oliveira, 2010).
O comportamento de ingerir álcool é inicialmente positivamente reforçado, já que
sua ingestão gera bem-estar e diminuição da ansiedade. Este tipo de reforçamento continua
até o aparecimento dos sintomas de abstinência, quando a falta do álcool gera sensações
desagradáveis. A partir deste momento, o reforço positivo dá lugar ao reforço negativo, ou
seja, o indivíduo faz uso do álcool para se esquivar das sensações desagradáveis geradas
pela abstinência. O uso do álcool pode passar então a ser duplamente reforçado, sendo
utilizado para diminuir os sintomas da abstinência e para gerar sensações de bem-estar
(Washton & Zweben, 2009).
Modelos de tratamento
Prochaska e Diclemente desenvolveram o Modelo Transteórico que possui como
objetivo descrever os estágios de mudança pelos quais as pessoas passam. Os autores
referem-se à mudança de comportamento como um processo no qual as pessoas
experienciam diferentes níveis de motivação (Oliveira, Laranjeira, Araújo, Camilo, &
Schneider, 2003). O modelo transteórico de Prochaska e Diclemente propõe diferentes
estágios de prontidão para mudança, cada um com características bem específicas: précontemplação, contemplação, ação e manutenção.
Na pré-contemplação o indivíduo não apresenta crítica sobre o abuso da substância
e não mostra intenção de largá-la. Os indivíduos que chegam para tratamento neste estágio
são comumente levados pelos seus familiares (Oliveira et al., 2003). Buscar tratamento
não significa necessariamente que o indivíduo esteja motivado para a mudança, o que
faz com que estratégias elaboradas para pacientes que já se encontram na fase de ação
sejam pouco eficazes (Orsi & Oliveira, 2006). A contemplação é caracterizada pela
ambivalência: o indivíduo reconhece o problema, mas fica dividido entre as vantagens
e desvantagens da interrupção do uso da substância. Na ação ocorre a escolha de uma
estratégia para mudar e na manutenção se busca a consolidação dos ganhos obtidos. O
objetivo é manter os ganhos e evitar a recaída.
O indivíduo não percorre os estágios de forma linear, começando na précontemplação e terminando na manutenção, e sim percorre todos os estágios diversas
vezes. Pode apresentar características de todas as fases, sem que uma necessariamente
prevaleça sobre a outra. O modelo de Prochaska e Diclemente mostra que a motivação
é um processo, o que impede que os terapeutas subdividam os pacientes em “motivados
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e desmotivados” (Oliveira et al., 2003). O modelo neurobiológico também é bastante
estudado no tratamento da dependência química. As alterações neuroquímicas
acompanham tanto o uso quanto a abstinência da substância, estando associadas a
alterações cognitivas e comportamentais (Araújo, Oliveira, Pedroso, Miguel & Castro,
2008).
É importante para a obtenção de bons resultados e tarefa do terapeuta avaliar
os estágios motivacionais e promover tratamentos que sejam adequados ao estágio
de motivação que o paciente se encontra (Orsi & Oliveira, 2006). Parece haver
maior eficácia e aderência ao tratamento e menor ambivalência quando a intervenção
motivacional é utilizada (Oliveira et al., 2003). Pacientes com dependência química
demandam maior esforço por parte do terapeuta para estabelecer uma aliança capaz de
promover mudanças em seu comportamento e aumentar as possibilidades de aderência
à terapia proposta (Mathias & Cruz, 2007; Zaleski et al., 2006). Entre as variáveis que
aumentam a adesão dos pacientes ao tratamento podem ser identificadas: possuir filhos
e uma relação conjugal estável, as crenças relativas ao consumo do álcool (percepção de
responsabilidade pessoal pelo uso), apresentar comorbidade com outra psicopatologia
e tratamentos anteriores. Estão negativamente associados à adesão fatores como a
redução do consumo por pressão familiar e sentir-se satisfeito ou consolado quando
alcoolizado. Ter se envolvido em agressões físicas com os amigos também parece
ser um preditor de baixa adesão ao tratamento (Ribeiro et al., 2008). Correa Filho e
Baltieri (2012) identificaram alguns fatores associados a maior adesão ao tratamento,
entre eles, a preferência por cerveja, idade mais avançada e participação em grupos de
Alcoolicos Anônimos (AA).
Quanto maior a gravidade da dependência do álcool e maiores os prejuízos
psicossociais e clínicos, maior é a motivação para a mudança. Sendo assim, o grau
mais severo de alcoolismo não está necessariamente associado a um pior prognóstico
(Oliveira et al., 2003). Por outro lado, sugere-se que a severidade da dependência
química aumenta significativamente a motivação para mudar apenas no início do
tratamento, não permanecendo estável ao longo do mesmo, visto que tanto fatores
sociais quanto psicológicos podem aumentar ou diminuir a motivação para a mudança
ao longo do tempo (Carpenter, Miele & Hasin, 2002).
O uso de psicofármacos também pode auxiliar na redução da fissura e na manutenção
da abstinência. O tratamento farmacológico deve ser pensado como uma importante
ferramenta médica para a abordagem dos pacientes, embora não deva ser utilizada como
estratégia terapêutica principal, visto que diversos fatores, além dos biológicos, são
importantes na gênsese da dependência do álcool (Castro & Baltieri, 2004).
Tomada de decisão: conceito
As funções executivas são aquelas que dependem do funcionamento do córtex
pré-frontal, a parte mais anterior do lóbulo frontal. Estas funções compreendem
processos cognitivos complexos e são responsáveis pelas ações intencionais. Referemse sempre ao controle voluntário sobre o ambiente e ao planejamento de ações para a
realização de determinado objetivo em determinado intervalo de tempo. As funções
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executivas dependem de componentes como atenção, programação e planejamento de
sequências, inibição de processos e monitoramento (George, Rogers & Duka, 2005;
Kristensen, 2006).
Diversas dimensões estão presentes em alguns modelos teóricos das funções
executivas. Existem os componentes “frios”, que são baseados na lógica, como o
raciocínio verbal, a resolução de problemas, o sequenciamento, a resistência à interferência
e a flexibilidade cognitiva e existem os componentes “quentes”, que envolvem um
determinado alerta emocional associado às respostas de recompensa e punição, a regulação
do comportamento social e à tomada de decisão (Chan, Shum, Toulopoulou & Chen,
2008). Habilidades como considerar eventos no passado, monitorar a situação presente
e fazer predições a respeito do futuro são essenciais para decidir de maneira vantajosa. A
tomada de decisão é um aspecto importante do comportamento e através de seu estudo,
com base na neuropsicologia, podemos obter conhecimentos que possibilitam a análise
de outros comportamentos impulsivos (Dom, Wilde, Hulstinjn, Brink & Sabbe, 2006;
Kristensen, 2006).
Abordagem neuropsicológica da tomada de decisão
A capacidade de tomar decisões é um importante aspecto do funcionamento
adaptativo e as pessoas são continuamente expostas a situações que requerem
escolhas, sejam elas efetuadas de forma pré consciente ou a partir de processos
reflexivos. A tomada de decisão requer a análise de características das opções
disponíveis e a estimativa das consequências futuras acarretadas pela escolha
(Schneider, 2006).
Segundo a abordagem neuropsicológica da tomada de decisão, sinais emocionais
e fisiológicos atribuem valor a determinadas opções influenciando, desta maneira, as
escolhas de um indivíduo. Estes sinais somáticos se desenvolvem conforme a nossa
aprendizagem e podem ocorrer antes mesmo do processamento cortical. Pacientes
com lesões do córtex pré-frontal ventromedial não obtêm os sinais somáticos que
os previnam de consequências negativas futuras (Bechara et al., 1994; Bechara et
al., 1996).
O comportamento de tomar decisões, a partir da abordagem neuropsicológica,
passou a ser extensivamente analisado a partir de drásticas modificações comportamentais
percebidas em pacientes que sofreram lesões na região pré-frontal ventromedial. O
córtex pré-frontal ventromedial é importante para a avaliação de consequências positivas
e negativas, tarefa essencial para a tomada de decisão. A partir de lesões nesta área,
estes indivíduos passaram a decidir de maneira extremante disfuncional, o que gerava
diversos prejuízos em vários aspectos de suas vidas (Bechara, 2001; Gaudriian, Grekin
& Sher, 2007; Manes et al., 2002). Apesar dos prejuízos severos na vida social, pessoal,
profissional e financeira, as testagens conduzidas com esta população mostraram que as
funções cognitivas (como memória operacional e atenção) se encontravam preservadas e
não explicavam os comportamentos disfuncionais (Bechara et al., 1994). Anteriormente
à lesão, estes pacientes eram descritos como bem sucedidos em diversos aspectos da
vida, como relações interpessoais, desempenho no trabalho, habilidades financeiras,
vida social, etc. Após a lesão estes sujeitos passaram a tomar decisões claramente
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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desvantajosas para suas vidas. Alguns perdiam o controle dos gastos e iam à falência,
mesmo tendo sido alertados por parentes e amigos (Bechara, 2001).
Estes indivíduos também se mostravam incapazes de aprender a partir de
experiências anteriores, o que fazia com que eles tomassem decisões desvantajosas
repetidamente. Suas decisões passaram a ser movidas apenas por recompensas imediatas
e os prejuízos decorrentes destas escolhas eram ignorados (Bechara, 2001; Bechara et
al., 1994; Bechara et al., 1996; Manes et al., 2002). Além dos prejuízos na tomada de
decisão, estes pacientes apresentavam habilidades de expressar emoção comprometidas,
não conseguindo demonstrar sentimentos adequados em determinadas situações.
Estes prejuízos sugerem que a lesão acarretava também alterações nas emoções e nos
sentimentos (Bechara, 2001; Bechara et al., 1994). Desenvolver uma tarefa experimental
para detectar os prejuízos na tomada de decisão que eram óbvios no funcionamento
cotidiano destes pacientes era um dos grandes desafios para os pesquisadores da área
(Bechara, 2001).
Avaliação da tomada de decisão: IGT
O Iowa Gambling Task (IGT) foi desenvolvido para analisar o processo de tomada
de decisão destes indivíduos, que os conduz a tantos prejuízos. O IGT tem sido utilizado
tanto com populações clínicas, como dependência química, jogo patológico, transtorno
de personalidade antissocial (Bechara et al., 1994), bulimia nervosa e transtorno de
personalidade borderline (Dom et al., 2006), quanto com populações saudáveis (Bechara
et al., 1994).
No Brasil, Schneider e Parente (2006) adaptaram o IGT para o Português Brasileiro.
Esta versão diferencia-se da anterior principalmente pelas instruções iniciais oferecidas
aos participantes, que incluem uma dica quanto à existência de diferenças entre os quatro
baralhos. Além disso, a versão adaptada oferece um feedback visual, oferecido ao longo
do jogo através de uma barra no canto superior da tela, o que possibilita uma ideia dos
valores ganhos e perdidos ao longo da tarefa (Bakos, Parente & Bertagnolli, 2010). Há
também a versão desenvolvida por Malloy-Diniz et al., (2008) que adaptaram a versão
original em Inglês do IGT para o Português Brasileiro, a qual foi chamada de Iowa
Gambling Task Versão Brasileira (IGT-Br).
O IGT apresenta uma situação de tomada de decisão financeira sob incerteza,
apresentando quatro baralhos associados a escolhas monetárias que permitem ao
pesquisador observar se as decisões tomadas pelos participantes são avaliadas, segundo
Bakos et. al., (2010), em habilidades decisionais adaptativas ou prejudicadas. As
escolhas feitas pelos participantes permitem identificar se os mesmos evitam situações
de risco ou as buscam. O instrumento possibilita que os prejuízos apresentados por
estes pacientes sejam detectados e medidos em laboratório possibilitando, assim, a
investigação dos fatores associados ao prejuízo na tomada de decisão (Bechara et
al., 1994).
O teste simula tão bem as situações cotidianas que ocorre em tempo real e
proporciona aos participantes reforço e punição (ganho e perda de dinheiro) e oferece
escolhas que podem ser arriscadas e rodeadas de incertezas. O cálculo e a predição da
contingência de cada escolha não são possíveis. A única maneira de possuir um bom
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desempenho neste teste é seguir a “intuição”. Por possuir estas características, o IGT
teve sucesso na detecção dos prejuízos dos pacientes com déficits no córtex pré-frontal
ventromedial. O IGT mostra que pacientes com lesões no córtex pré-frontal ventromedial
são guiados apenas por reforços imediatos, visto que não consideram as consequências
negativas futuras de suas escolhas (Bechara et. al., 1994). A performance dos pacientes
sem disfunções no córtex pré frontal ventromedial no teste melhora conforme eles são
testados novamente, e isso não acontece com pacientes com lesões na região pré-frontal
ventromedial, que repetem o mau desempenho no IGT mesmo tendo sido submetidos
várias vezes ao teste (Bechara et al., 1994; Bechara et al., 1996; Manes et al., 2002).
Substrato neural da tomada de decisão
Para explicar os déficits na tomada de decisão destes pacientes foi proposta por
Bechara, em 1994, a Hipótese do Marcador Somático (HMS). A HMS mostra que a
ativação de marcadores somáticos é necessária para a tomada de decisões vantajosas.
As decisões dependem de sinais emocionais e o objetivo destes marcadores é atribuir
valor às escolhas disponíveis. O sentimento visceral de “intuição” que temos enquanto
escolhemos entre algumas opções reflete o conselho do nosso corpo sobre a decisão. Os
sinais somáticos dirigem as pessoas para comportamentos associados a resultados positivos
e derivam de experiências prévias com situações que apresentam reforço e punição
(Bechara et al., 1994; Bechara et al., 1996; Gazzaniga & Heatherton, 2005; Schneider,
2006). Bechara et al., (2000) adicionaram a medida psicofisiológica e investigaram os
resultados da tomada de decisão através da mensuração de respostas de condutividade
dérmica emitidas pelos participantes ao longo de seu desempenho no IGT.
Os marcadores somáticos auxiliam na tomada de decisão de várias maneiras.
Os sinais somáticos ajudam a inibir a tendência dos indivíduos a buscar recompensas
imediatas e a manter em mente o cenário de consequências negativas futuras no caso
da preferência por recompensas imediatas em detrimento de escolhas mais vantajosas
(Bechara et al., 1996). Em termos neurais, estes indivíduos perderam, ou possuem
disfunções, em um sistema crítico, localizado no córtex pré-frontal ventromedial
que conecta o conhecimento de experiências prévias com respostas biológicas e
emocionais. O córtex pré-frontal ventromedial é conectado com outras estruturas do
cótex pré-frontal e com estruturas subcorticais, responsáveis por regulação de bases
biológicas, emocionais e comportamentais, como a amígdala e o hipotálamo (Bechara
et al., 1996).
Indivíduos com lesões no córtex pré-frontal ventromedial não geram respostas de
condutividade dérmica ao escolherem cartas dos baralhos desvantajosos e a falta desta
resposta é consequência de uma disfunção do sistema neural, levando a uma inabilidade
em gerar os marcadores somáticos. Quando o IGT é utilizado em pacientes com lesões em
outras regiões do cérebro, os resultados obtidos são bastante parecidos com os resultados
dos pacientes controles. Este dado remete a disfuncionalidade à região ventromedial do
córtex pré-frontal. A falta de reações de condutividade dérmica explica a insensibilidade
destes indivíduos para consequências negativas futuras (Bechara et al., 1994; Bechara
et al., 1996; Bechara, 2001).
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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Tomada de decisão em dependentes de álcool: provável disfunção na região
ventromedial do córtex pré-frontal
Diversos estudos apontam para uma associação entre o uso do álcool e prejuízos
neuropsicológicos (Ahmadi et al., 2013; Rose, Brown, Field & Hogarth, 2013;
Komreich et al., 2013). Estudos com neuroimagem funcional revelam anormalidades
no funcionamento da área ventromedial do córtex pré-frontal de dependentes de álcool.
Dependentes de substâncias químicas possuem os mesmos prejuízos na tomada de
decisão que os pacientes que possuem lesões no córtex pré-frontal ventromedial. A HMS
utilizada para estudar a tomada de decisão em pacientes com lesões neurológicas também
fornece uma explicação neural para a compreensão da dependência química (Bechara et
al., 1996; Bechara, 2001).
Dependentes químicos possuem em comum características comportamentais
parecidas com pacientes com lesões no córtex pré-frontal ventromedial. Ambos fazem
escolhas que proporcionam recompensas imediatas e desconsideram consequências
futuras negativas. Parece que o julgamento pobre e o déficit na tomada de decisão estão
associados aos prejuízos na ativação de estados somáticos devido a uma lesão ou disfunção
do córtex pré-frontal ventromedial (Bechara, 2001)
Quando comparados aos pacientes controles, os pacientes dependentes de álcool
possuem um mau desempenho no IGT. Conforme se habituavam ao jogo, os pacientes
controles tendiam a escolher os baralhos vantajosos, enquanto que os pacientes
dependentes de álcool tinham dificuldades em aprender as estratégias implícitas da
tarefa e de agir conforme o conhecimento que deveria ter sido adquirido ao longo do
jogo. Este comportamento é muito semelhante ao dos pacientes com lesões no córtex
pré-frontal ventromedial, o que faz com que os alcoolistas insistam em escolher cartas
dos baralhos desvantajosos (Dom et al., 2006). A geração antecipatória de reação de
condutividade dérmica nos pacientes usuários de drogas é menor que nos pacientes
controles, porém maior que nos pacientes com lesões no córtex pré-frontal ventromedial
(Bechara, 2001).
Pacientes com lesões no córtex pré-frontal ventromedial não costumam se tornar
dependentes químicos e isto provavelmente se deve ao fato destes pacientes serem bastante
protegidos pela família, não possuindo álcool e drogas disponíveis em seu ambiente. Os
pacientes com lesões no córtex pré-frontal ventromedial, se expostos a drogas e álcool
seriam extremamente suscetíveis a se tornarem dependentes. Isto porque, estes são
movidos pela recompensa imediata e ignoram as consequências negativas no longo prazo,
possuindo déficits de julgamento e prejuízos na tomada de decisão (Bechara, 2001).
É provável que o desempenho no IGT seja diferente entre dependentes e abusadores
de substâncias químicas. Os dependentes de substâncias químicas apresentam prejuízos
na tomada de decisão e continuam com o uso da substância independentemente das
consequências negativas que enfrentam. Estes indivíduos não interrompem o uso de
substâncias mesmo diante da perda do emprego, do cônjuge, envolvimento com a lei ou
outras consequências negativas adversas. Já os abusadores de substâncias não parecem
apresentar prejuízos na tomada de decisão. Eles parecem descontinuar o uso da substância
quando se deparam com prejuízos severos (Bechara, 2001).
196
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
A impulsividade torna os indivíduos suscetíveis ao uso de álcool ou o uso de álcool os
torna impulsivos?
A impulsividade refere-se à preferência por pequenas e imediatas recompensas
em detrimento de recompensas maiores oferecidas depois de mais tempo, refletindo
dificuldades no controle inibitório. Sujeitos com estas características fazem escolhas
que proporcionem vantagens imediatas, porém mais arriscadas ou desvantajosas
no longo prazo. Indivíduos com alguns transtornos psiquiátricos apresentam estas
características, entre eles, dependentes de álcool (Kessler, 2009; Vassileva, Gonzalez,
Bechara & Martin, 2007).
A impulsividade pode influenciar a decisão nas primeiras escolhas do IGT e sua
influência declina conforme a tarefa progride (Gaudriian et al., 2007). Os comportamentos
impulsivos predizem o abuso de álcool, mas sugerem também que o oposto pode ser
vedadeiro, isto é, os efeitos do álcool nas funções executivas podem ser primários (George
et al., 2005).
Nem todos os dependentes químicos mostram prejuízos em tarefas que avaliam a
impulsividade, sugerindo que fatores de risco adicionais podem aumentar a vulnerabilidade
à impulsividade (Vassileva et al., 2007). Dois fatores que aumentam esta vulnerabilidade
são a presença de comportamentos antissociais e o uso de múltiplas drogas (Mitchell et
al., 2002).
O comportamento de risco aumenta devido à dificuldade de os indivíduos manterem
em mente os custos e os benefícios associados à determinada decisão. O álcool dificulta a
habilidade dos participantes de perceber com eficácia e manipular mentalmente todas as
informações disponíveis para tomar decisões vantajosas (memória operacional). Sendo
a impulsividade um comportamento desregulado resultante de um planejamento pobre
e sem reflexão, a memória de trabalho exerceria uma função modulatória, o que mostra
que as funções executivas são importantes para diminuir a impulsividade causada pelo
álcool. Embora o IGT não exija muita demanda de memória de trabalho, o uso do álcool
prejudica mesmo tarefas que exijam pouca memória de trabalho (Manes et al., 2002;
George et al., 2005).
A dependência de álcool está frequentemente associada a psicopatologias que
envolvem dificuldades no controle inibitório, como é o caso do transtorno de conduta
na infância, transtorno de personalidade antissocial e abuso ou dependência de outras
substâncias (Cantrell, Finn, Martin & Lucas, 2008). Os prejuízos inibitórios parecem estar
conectados com os prejuízos na tomada de decisão destes indivíduos, favorecendo-os
a optarem por recompensas imediatas, mostrando que há uma conexão entre controle
inibitório e prejuízos decisionais.
Indivíduos que possuem psicopatologias que estão associadas a dificuldades no
controle inibitório mostram um mau desempenho no IGT. Estes dados parecem refletir
mais uma negligência para consequências futuras, sejam elas positivas ou negativas,
do que uma maior sensibilidade para recompensas imediatas. Dependentes de álcool
escolhem mais em função de sua insensibilidade para consequências futuras do que em
função de recompensas imediatas (Cantrell et al., 2008).
Há, ainda, alta prevalência de comorbidade entre os transtornos de personalidade
do cluster B e a dependência de álcool. Porém, o prejuízo na tomada de decisão
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
197
aparece nos pacientes dependentes de álcool independentemente da presença de
comorbidade com transtornos de personalidade, embora os prejuízos na tomada de
decisão sejam mais severos na presença de um transtorno de personalidade do cluster
B (Dom et al., 2006).
O álcool causa prejuízos na tomada de decisão ou estes prejuízos já estavam presentes
quando ocorreu o início do uso de álcool?
Parece que o julgamento pobre e o déficit na tomada de decisão tornam os sujeitos
suscetíveis a se tornarem adictos. Estes indivíduos representam uma população de risco
pelo alto potencial de se tornarem usuários de substâncias (Bechara, 2001).
Adolescentes e jovens adultos que se envolvem em “farras” com álcool (heavy
binge drinking), definida por 21 ou mais drinks por semana, apresentam déficits em
algumas funções neuropsicológicas, como atenção e memória (Gaudriian et al., 2007).
A decisão pelo uso ainda na adolescência é grave, por se tratar de uma fase em que
os adolescentes se acham onipotentes e subestimam os riscos. É também no final da
adolescência que ocorre um aumento no uso do álcool devido às festas de formatura e à
entrada na universidade (Gaudriian et al., 2007; Kessler, 2009). Em termos biológicos,
o cérebro dos adolescentes é bastante vulnerável aos efeitos do uso exagerado do
álcool. O córtex pré-frontal torna-se maduro ao longo da adolescência e esta parte
do cérebro pode ser especialmente vulnerável aos efeitos do uso excessivo do álcool.
(Kessler, 2009). Quanto mais cedo é o início das “farras” que envolvem bebidas, pior
é o desempenho no IGT.
Quando foram comparadas as farras com álcool de indivíduos que se encontravam
no final da adolescência (18 a 19 anos) com indivíduos que se encontravam no início
da vida adulta (entre 20 e 21 anos), concluiu-se que os participantes que estão no final
da adolescência apresentam pior desempenho no IGT. Não é possível determinar que
aspecto da ingestão de álcool conduzia ao mau desempenho no IGT – se a quantidade
de álcool ingerida, a frequência da ingestão ou o padrão de consumo. Os déficits na
tomada de decisão podem tanto ser resultado do uso excessivo de álcool e alteração
nas funções cerebrais quanto à presença de prejuízos na tomada de decisão já nesta
etapa da vida (Gaudriian et al., 2007).
Os prejuízos na tomada de decisão permanecem quando estes indíviduos
deixam de ser dependentes de álcool. Este achado sugere que estes sujeitos sempre
tiveram prejuízos na tomada de decisão e que estes prejuízos aumentaram as
chances de se tornarem dependentes químicos, ou, ainda, que o uso de substâncias
tóxicas pode causar danos neurológicos que interferem na tomada de decisão
mesmo no período de abstinência. A primeira hipótese parece estar mais correta,
conforme resultados de um estudo que mostra um prejuízo no desempenho no
IGT, independentemente da substância utilizada pelos mesmos (Barry & Petry,
2008). Ademais, o histórico familiar é relevante e parece haver um componente
hereditário nas funções pré-frontais, embora apenas os usuários de substâncias
químicas pareçam estar sob maior risco para desenvolver disfunções nesta região
(Dolan, Bechara & Nathan, 2008).
198
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Considerações finais
O funcionamento adaptativo requer habilidades de tomar decisões considerando as
consequências futuras das mesmas. Decidir de maneira disfuncional pode gerar diversos
prejuízos ao longo da vida, já que esta habilidade é necessária cotidianamente. Não
se sabe ao certo se alcoolistas já possuem prejuízos na tomada de decisão ou se estes
prejuízos são resultado da neurotoxicidade da substância utilizada no sistema nervoso.
Porém, considerando que diferentes drogas causam danos diversos ao sistema nervoso,
parece provável que dependentes de álcool sempre tenham tido prejuízos na tomada de
decisão, prejuízos estes que os tornaram mais propensos a se tornarem alcoolistas.
Considerando especificamente indivíduos alcoolistas, é importante manter em
mente que os sinais emocionais que guiam a tomada de decisão vantajosa parecem
menos intensos que os presentes das demais pessoas. Este dado é clinicamente relevante
quando se conduz uma terapia com dependentes de álcool, por ser sugestivo de que
estes indivíduos possuem disfunções nas bases neurais necessárias para tomar decisões
de forma vantajosa. A disfunção do córtex pré-frontal ventromedial parece tornar os
indivíduos insensíveis a consequências negativas futuras e mais propensos a optarem
por recompensas imediatas. O uso do álcool caracteriza-se como uma recompensa
imediata por causar bem-estar e diminuir a ansiedade e os sintomas de abstinência
quando estes começam a se manifestar.
Os dados aqui apresentados são relevantes para o tratamento psicológico
de alcoolistas, uma vez que podem embasar o uso de intervenções específicas.
Considerando que estes indivíduos parecem apresentar disfunções nas bases neurais
necessárias para decidir de forma vantajosa, é importante que sejam monitorados de
forma próxima e constante por familiares e profissionais.
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_____________________________
Recebido em dezembro de 2010
Aceito em junho de 2013
Ana Cristina Bertagnolli: Graduação em Psicologia pelo Centro Universitário Franciscano (2005), Mestrado
em Cognição Humana pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2013). É especialista em
Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais pela WP – Centro de Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais
(2007) e em Neuropsicologia do Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Christian Haag Kristensen: Graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul (1992), Doutorado em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande
do Sul (2005), com estágio no exterior na University of Arizona (USA). Atualmente é Professor Adjunto e
Pesquisador no Curso de Psicologia e no Programa de Pós-Graduação na Pontifícia Universidade Católica do
Rio Grande do Sul, com ênfase na pesquisa em Transtorno de Estresse Pós-Traumático, Psicoterapia CognitivoComportamental e Neuropsicologia.
Daniela Schneider Bakos: Graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul (2001), doutorado em Psicologia do Desenvolvimento (2008) pela Universidade Federal do Rio Grande do
Sul. É especialista em Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos
(2004). Atualmente é professora da graduação do Curso de Psicologia da Universidade Luterana do Brasil.
Endereço para contato: [email protected]
202
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Aletheia 43-44, p.203-212, jan./ago. 2014
Representações parentais: bases conceituais e instrumento
de avaliação
Paula Casagranda Mesquita
Sílvia Pereira da Cruz Benetti
Resumo: O conceito da representação mental tem se tornado um constructo relevante na psicanálise,
estando associado a diferentes denominações e definições. Desta forma, o objetivo deste artigo é
abordar as bases conceituais do constructo da representação parental, na perspectiva da psicanálise
contemporânea, a partir da contribuição da teoria das relações objetais e da teoria do apego. Além
disso, buscou-se demonstrar as possibilidades de avaliação sobre as representações mentais,
principalmente da representação parental sob a perspectiva da criança, destacando o instrumento
MacArthur Story Stem Battery (Emde, Wolf & Oppenheim, 2003). Ressalta-se que o entendimento
contemporâneo do mundo interno de representações do indivíduo reflete um esquema complexo
de transações dialéticas entre as experiências reais, as regras de organização do conhecimento
interpessoal e a história pessoal. O MSSB indicou ser um instrumento amplamente utilizado em
investigações, com características úteis para o trabalho clínico.
Palavras-chave: representações parentais; bases conceituais; avaliação.
Parental representation: Conceptual basis and an instrument
of assessment
Abstract: The concept of mental representation has become a relevant construct in psychoanalysis
and is associated with different definitions. Therefore, the aim of this article is to discuss about
the conceptual basis of the parental representation, in the modern psychoanalysis perspective,
considering the contribution of the object-relations theory and the attachment theory. Moreover,
the possibilities of evaluation of the mental representations – mainly of the parental representation
on the child’s perspective – using the instrument MacArthur Story Stem Battery (Emde, Wolf &
Oppenheim, 2003) – were evaluated. It is relevant to emphasize that the modern understanding
of the inside world of representations of the person reflects a complex scheme of dialectical
transactions among the real experiences, the rules of organization of the interpersonal knowledge
and the personal history. The MSSB has been quite a useful instrument, with suitable characteristics
for the clinical work.
Keywords: parental representations; conceptual basis; evaluation.
Introdução
As primeiras experiências com os cuidadores na infância, tanto na perspectiva
da psicologia do desenvolvimento, quanto da psicologia clínica, são consideradas
como fundamentais para o desenvolvimento emocional do indivíduo (Stein, Siefert,
Stewartd & Hilsenroth, 2010). Em consequência disso, a compreensão do processo
e da dinâmica dos distintos elementos envolvidos na relação criança e cuidador tem
recebido grande contribuição de diversas abordagens teóricas, as quais enfatizam tanto
elementos comportamentais, no desenvolvimento do vínculo cuidador-criança, quanto
intrapsíquicos e cognitivos. Tal é o caso da abordagem da teoria do apego e da psicanálise,
bem como da teoria da cognição social. Na teoria do apego, a qualidade do vínculo
estabelecido entre a criança e a mãe, bem como a internalização dessas experiências,
resultam em modelos internos de funcionamento (Bowlby, 1984/2004), que gradualmente
estabelecem estruturas afetivas e cognitivas que influenciarão o comportamento posterior
do indivíduo, principalmente na dimensão relacional (Manashko, Besser & Priel, 2009).
Já na perspectiva psicanalítica das relações objetais, a ênfase do entendimento se volta
para os aspectos intrínsecos associados à representação do objeto. Por fim, a teoria da
cognição social prioriza os esquemas ou scripts resultantes das interações (Lukowitsky
& Pincus, 2011).
Comum a essas abordagens, porém, está a noção de que as características
representacionais das figuras parentais funcionam como modelos que estruturam a
maneira como o sujeito vivencia a si próprio e aos demais, como também organizam
suas experiências, modulam o afeto e o comportamento e suas relações interpessoais
(Waniel, Besser & Priel, 2006). Além disso, influenciam características da personalidade
e se associam à manifestação de psicopatologia, já que níveis de sintomatologia são
determinados por aspectos qualitativos dessas representações, resultantes de interações
em que predominam experiências positivas versus situações de maior vulnerabilidade
e risco (Priel, Besser, Waniel, Yonas-Segal & Kuperminc, 2007).
Em função desses aspectos, conforme Lukowitsky e Pincus (2011), o constructo
da representação mental tornou-se uma ferramenta de base panteórica, que fornece
conhecimentos essenciais para o entendimento dos aspectos intrínsecos ligados à
representação do self e dos demais. Especialmente na psicanálise contemporânea,
pesquisas sobre o desenvolvimento infantil têm integrado conceitualmente conceitos da
teoria da relação objetal e da teoria do apego, oferecendo marcos teóricos importantes
para o estudo da personalidade, da psicopatologia e do processo terapêutico.
Com base nesse entendimento, um corpo expressivo de trabalhos, focalizando
a identificação de características do processo de desenvolvimento emocional, tem se
dirigido para o estudo e compreensão das características das representações mentais
de crianças e adolescentes acerca das figuras cuidadoras. O interesse principal desses
trabalhos é priorizar a identificação daqueles elementos associados à psicopatologia,
visando, portanto, o aprimoramento das intervenções, bem como o desenvolvimento
de ações preventivas em saúde mental. Nessa direção, a compreensão dos fatores
interpessoais e intrapessoais na construção das representações parentais das crianças,
especialmente da representação materna, tornou-se foco de pesquisas, principalmente
nas situações de maior vulnerabilidade de desenvolvimento (Priel, Besser, Waniel,
Yonas-Segal & Kuperminc, 2007). Diante disso, no âmbito da pesquisa empírica,
especialmente na avaliação da representação parental e/ou da representação materna,
distintos contextos têm sido investigados, tais como crianças no contexto da adoção
(Priel, Kantor & Besser, 2000), crianças institucionalizadas (Pinhel, Torres & Maia,
2009; Sousa & Cruz, 2010), no âmbito da violência doméstica (Stover, Van Horn
& Lieberman, 2006) e nos casos de negligência e abuso (Hodges, Steele, Hillman,
Henderson & Kaniuk, 2003).
204
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Paralelamente a esse interesse, o próprio avanço dos trabalhos colocou um desafio
aos pesquisadores acerca da avaliação e interpretação do constructo. Dessa maneira,
verificou-se a necessidade de aprimoramento de instrumentos capazes de investigar as
representações mentais acerca das figuras parentais em crianças e adolescentes.
Uma das aproximações resolutivas baseia-se nas técnicas avaliativas que utilizam
narrativas infantis sobre as experiências com cuidadores, as quais têm se mostrado como
um recurso fértil de investigação das singularidades das representações de crianças e
adolescentes acerca das figuras parentais. Observa-se que a partir da idade de 4-5 anos,
as crianças comunicam seus modelos representacionais em narrativas válidas e eliciadas
por histórias incompletas que funcionam como dispositivos de avaliação de padrões
interativos de cuidado e relacionamento familiar (Yoo, Popp & Robinson, 2013).
Um dos instrumentos desenvolvidos com base nesses pressupostos é o MacArthur
Story Stem Battery (MSSB, Emde, Wolf & Oppenheim, 2003). Trata-se de um método que
utiliza narrativas para estudar áreas que abrangem tanto o desenvolvimento moral quanto
a expressividade emocional, o comportamento pró-social, a representação parental, os
mecanismos defensivos, a regulação emocional e as estratégias de resolução de conflitos
(Emde, Wolf & Oppenheim, 2003). Trabalhos investigativos, utilizando-se do MSSB,
têm se valido de abordagens oriundas de aportes psicanalíticos e socioconstrutivistas, que
resultaram em informações importantes sobre as representações de cuidado e proteção
parental e os mecanismos defensivos das crianças frente ao conflito nas relações familiares
(Holmberg, Robinson, Corbitt-Price, & Wiener, 2007).
Assim, o objetivo deste artigo é discutir inicialmente as bases conceituais sobre a
noção de representação mental com base na contribuição da teoria do apego e das relações
objetais. A seguir, apresenta-se o instrumento MacArthur Story Stem Battery (MSSB),
como uma técnica de avaliação infantil importante para a investigação das características
da representação parental em crianças em situação de maior vulnerabilidade, tais como
violência e maus-tratos, adoção e psicopatologia parental.
Bases conceituais: representação mental, teoria das relações de objeto e teoria do
apego
O conceito da representação mental tem se tornado, há mais de quatro décadas,
um constructo relevante na psicanálise, estando associado a diferentes denominações
e definições que abrangem desde a representação do objeto, da representação da
palavra ou coisa, da representação do self, até a representação psíquica dos objetos
internos e externos (Zanatta & Benetti, 2012, Beres & Joseph, 1970). Na perspectiva da
psicanálise contemporânea, trabalhos sobre as representações mentais, especialmente
em relação à figura materna têm utilizado, em sua maioria, a contribuição da teoria
das relações objetais (Waniel, Priel & Besser, 2006) e da teoria do apego (Stover, Van
Horn & Lieberman, 2006).
Na abordagem psicanalítica, a teoria das relações objetais considera que as relações
com os objetos primários são internalizadas ou introjetadas formando a base do processo
identificatório que regula os estados afetivos internos originados da energia pulsional.
As experiências internalizadas do eu com o outro servem como base para a construção
de estruturas representacionais complexas, que seriam as representações de objeto, as
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
205
quais incluem esquemas conscientes e inconscientes de si e do outro, funcionando como
modelos através dos quais as experiências afetam o comportamento, os sentimentos e a
cognição (Priel et al., 2007).
A teoria psicanalítica das relações de objeto sustenta que é através das relações com
os demais que se constituem os blocos fundamentais da vida mental do sujeito. Nessa
perspectiva, a ênfase no aspecto diádico e de reciprocidade no desenvolvimento psíquico
se contrapõe, de certa forma, à ênfase exclusiva dos elementos pulsionais na estruturação
psíquica do sujeito. O termo relacional inclui tanto o espaço interpessoal, abrangendo
as interações entre o indivíduo e o mundo social, bem como as relações interpessoais
externas, ou seja, o espaço intrapsíquico das próprias relações internas, a autorregulação
e a regulação mútua (Sauberman, 2009).
É nessa matriz relacional com os objetos primários, essencialmente a mãe, que se
desenvolvem as estruturas psíquicas, as quais se organizam a partir das representações
dos objetos primários, principalmente entre as trocas iniciais com a mãe, que são
internalizadas como uma representação mental do objeto. Dessa maneira, as experiências
com as figuras cuidadoras iniciais são organizadas em modelos internos de funcionamento
que, gradualmente, estabelecem estruturas afetivas e cognitivas que influenciarão o
comportamento posterior (Manashko, Besser & Priel, 2009). As falhas na capacidade
de representação objetal teriam efeitos prejudiciais no desenvolvimento psicológico da
criança.
Por sua vez, a contribuição da Teoria do Apego fundamenta-se no entendimento de
que a interação criança-figura cuidadora desenvolve-se tanto como resultado da capacidade
parental de proporcionar a satisfação das necessidades da criança, como também da própria
busca da criança por uma proximidade física com a mãe, que acontece nos primeiros
anos de vida e permanece durante toda a primeira infância (Bowlby, 1984/2009). A Teoria
do Apego enfatiza os comportamentos infantis na perspectiva de eliciar, desenvolver
e manter o vínculo com as figuras cuidadoras. É somente por essa proximidade que a
criança poderá construir uma representação da figura de apego que estabelecerá uma base
segura para que ela possa explorar o ambiente. Dessa forma, o apego é compreendido
como um conjunto de comportamentos do bebê que visam à proximidade com a mãe e à
exploração do ambiente. Além disso, o apego também é influenciado pelo modo como os
pais, ou substitutos deles, se comportam, cuidam, confortam e protegem a criança, bem
como os seus afetos e sentimentos com relação a ela (Bowlby, 1984/2009; Ainsworth,
1969). Entretanto, a teoria do apego também destaca o aspecto representacional dos
vínculos iniciais, descrevendo como as interações estabelecidas com os cuidadores irão
determinar os modelos internos de funcionamento, associados aos estilos de apego. Isso
porque, com base nos padrões de apego, o sujeito constrói modelos internos do mundo
e de si próprio neste mundo (Bowlby, 1984/2004, p. 254).
Ainsworth (1969) explicita que neste laço afetivo que caracteriza o apego há
uma ligação recíproca entre a interação da criança e o comportamento materno. Sendo
assim, a mãe influencia a forma e a intensidade do apego, quando é presente ou ausente,
quando aceita ou rechaça a criança, ou mesmo quando ocorrem situações de dificuldades
no estabelecimento do vínculo e a consequente manifestação de transtornos do apego.
As interações no contexto familiar e a qualidade do vínculo mãe-bebê formam a base
206
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
para a construção das representações que afetam a forma como a criança interpreta e
interage com a realidade, no desenvolvimento da sua autoestima, da autoconfiança e
da sua sociabilidade. Assim, o aspecto representacional dos vínculos iniciais, com base
nas interações estabelecidas com os cuidadores, irão determinar os modelos internos de
funcionamento, associados aos estilos de apego (Custódio & Cruz, 2008).
Independente da especificidade de cada constructo, Priel et al., (2007) destacam
que o aspecto representacional dessas interações ou a representação das figuras parentais
integra elementos tanto da teoria das relações de objeto quanto da teoria do apego.
Refletindo sobre os posicionamentos da teoria das relações de objeto e da teoria do apego,
Priel, Kantor e Besser (2000) consideram que em ambos os modelos a representação
de objeto é que media as respostas da criança e as expectativas dos outros. Assim, as
representações acerca das figuras parentais são compreendidas como evidências das
experiências interpessoais reais e de fatores intrapsíquicos, sendo justamente os aspectos
do desenvolvimento do apego, como da representação objetal o foco de investigações
sobre o papel dessas internalizações precoces no desenvolvimento do comportamento, da
cognição e do afeto do indivíduo ao longo da vida. Evidencia-se, por conseguinte, que o
entendimento contemporâneo do mundo interno de representações do indivíduo reflete
um esquema complexo de transações dialéticas entre as experiências reais, as regras de
organização do conhecimento interpessoal e a história pessoal.
Representação parental: estratégias de avaliação
Conforme Emde, Wolf e Oppenheim, (2003), a tradição do trabalho clínico com
crianças demonstrou que, ao produzir narrativas, a criança manifesta características
fundamentais de seu mundo interno, incluindo temas emocionais, conflitos e defesas
frente às situações de vida. Desta forma, as crianças desenvolvem representações mentais
que codificam as experiências de si mesmas e de seus pais, que depois influenciam as
histórias construídas por elas (Clyman, 2003). Em termos conceituais, as representações
narrativas podem ser consideradas como multideterminadas, mas são essencialmente
influenciadas pelas percepções das crianças de suas experiências de vida. Por conseguinte,
os fundamentos teóricos das abordagens psicanalíticas das relações objetais e da teoria
do apego, bem como do cognitivismo, têm proporcionado elementos interpretativos
fundamentais para a avaliação e o entendimento dessas representações.
Um dos incentivos ao desenvolvimento da MSSB foi o desenvolvimento de
uma aproximação sistemática do estudo do mundo emocional das crianças. A técnica
narrativa do MSSB iniciou-se com base no trabalho do grupo de pesquisa organizado
por Bretherton, Emde, Openheimn e Wolf e, alicerçados no trabalho já realizado com o
Attachment Story Completion Task (ASCT), que avaliava o apego; assim, introduziram
novas lâminas com temáticas relacionais e pró-sociais. Inicialmente, a técnica consistia
de 30 narrativas, que são inícios de histórias, chamadas de histórias-tronco. Hoje, porém,
trabalha-se com um total de 15, sendo que duas não são avaliadas e têm a função de
introduzir e finalizar a aplicação. Embora se tenha elaborado essas 15 histórias, elas
são aplicadas a partir do tema que se quer estudar. Além disso, as crianças utilizam uma
família de bonecas para desenvolver e finalizar as histórias (Hodges, Steele, Hillman
& Henderson, 2003).
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
207
O instrumento (MSSB) tem sido amplamente utilizado na investigação das
representações parentais, porque permite capturar a continuidade das reações das crianças
através de histórias em que elas enfrentam um dilema que revela aspectos de seu mundo
interno (Emde, Wolf & Oppenheim, 2003). Além das representações parentais, a avaliação
das narrativas tem potencial para acompanhar as mudanças nas representações internas,
quando a criança é colocada em um novo ambiente, principalmente no caso de crianças
adotadas (Hodges et al., 2003). Também é possível avaliar o estilo e a coerência da
narrativa, os conflitos familiares, a culpa, os medos, a ansiedade, a regulação emocional,
as reações diante da não satisfação dos desejos, temas orais, entre outros (Warren, 2003).
Segundo o autor, a abordagem do jogo narrativo tornou-se útil para estudar crianças em
risco e com transtornos identificados, pois fornece uma medida obtida diretamente da
criança sobre temas e representações em relação às experiências de relacionamentos
interpessoais.
O MSSB foi avaliado em seus modos de padronização em várias pesquisas (Emde,
Wolf & Oppenheim, 2003; Robinson & Mantz-Simmons, 2003). Um dos trabalhos que
investigava as representações parentais e as defesas em crianças maltratadas constatou
que o instrumento têm modos padronizados e confiáveis para a utilização clínica e para
a aplicação na pesquisa, mostrando-se adequado para a investigação de características
particulares dos grupos (Hodges et al., 2003). Atualmente, o interesse dos pesquisadores
tem se deslocado para o nível representacional, utilizando as narrativas como forma válida
e eficaz para captar a qualidade dos modelos internos dinâmicos nas crianças (Emde, Wolf
& Oppenheim, 2003; Maia, Ferreira, Veríssimo, Santos & Shin, 2008).
No âmbito da violência doméstica, Stover, Van Horn e Lieberman (2006)
investigaram as representações maternas em um grupo de 40 crianças com idades entre
2 e 5 anos, com história de violência doméstica, utilizando-se do instrumento MSSB
(Emde, Wolf & Oppenheim, 2003). Meninos de pais divorciados e que haviam presenciado
violência entre o casal tinham uma representação materna mais negativa, principalmente
nos casos em que as visitas dos pais eram menos frequentes. Para os autores, esses meninos
percebiam a falta de contato com o pai como culpa da mãe. Já as meninas representavam
as mães de forma mais positiva. Esse resultado nas crianças do sexo masculino sugere
uma diferença importante na relação da mãe com o filho, comparando-se à filha. Mães que
identificaram características de seu ex-parceiro em seu filho podem, sem saber, moldar
o comportamento e as crenças sobre a criança, resultando em representações maternas
mais negativas nos meninos.
Ao examinar as representações parentais, ainda no âmbito dos maus-tratos, Stronach,
Toth, Rogosch, Oshri, Manly e Cicchetti, (2011) investigaram 92 crianças em idade préescolar, vítimas de maus-tratos, e 31 crianças sem experiência de maus-tratos. A avaliação
das narrativas do MSSB (Emde, Wolf & Oppenheim, 2003) permitiu identificar que as
crianças vítimas de maus-tratos tiveram menores índices de apego seguro e maiores índices
de apego desorganizado do que as crianças não maltratadas. As representações parentais
identificaram figuras negativas e as representações do self das crianças associavam-se a
imagens grandiosas e poderosas de si mesmas.
Sousa e Cruz (2010), numa investigação com crianças portuguesas, analisaram o
modo como as experiências de maus-tratos estão associadas ao processo de construção
208
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
dos modelos representacionais das figuras parentais de crianças institucionalizadas.
Participaram deste estudo 22 crianças em idade escolar e institucionalizadas. Como
instrumento foram utilizadas as narrativas no MSSB, comparadas com narrativas de
crianças não institucionalizadas. As primeiras representavam as figuras parentais como
menos sensíveis e responsivas às suas necessidades e desejos, e menor atribuição de
um final positivo às narrativas.
Em todas as situações de vulnerabilidade retratadas nos estudos acima citados,
as características das representações das figuras parentais indicavam que as vivências
traumáticas estavam associadas tanto a conteúdos negativos acerca do cuidado e
proteção parental quanto à própria representação de si mesmo. Em geral, os personagens
dos pais são identificados como passíveis de rejeição ou agressão, refletindo suas
representações e suas estratégias de regulamentação da emoção (Clyman, 2003).
Ao contrário, estudos com crianças sem indicadores clínicos e em contextos de
pouca vulnerabilidade indicam que as temáticas das narrativas infantis apresentam
figuras parentais benevolentes, atentas e disponíveis à criança quando esta enfrenta
uma situação de conflito e angústia. Por exemplo, Von Klitzing, Kelsay, Emde, Robert,
Robinson e Schmitz, (2000), num estudo longitudinal que contou com a participação
de 652 crianças gêmeas, constatou que as narrativas no MSSB caracterizadas por temas
agressivos e/ou incoerentes associavam-se a problemas de comportamento infantil.
Ao contrário, crianças sem diagnóstico clínico produziram narrativas com temáticas
positivas, resolutivas e figuras parentais colaboradoras.
Em síntese, os estudos até o momento indicam que a avaliação das representações
das figuras parentais, através de instrumentos narrativos como o MSSB, oferecem dados
importantes para o trabalho clínico e também para o desenvolvimento de intervenções
que promovam práticas parentais positivas e afetivas. No geral, crianças em situação
de vulnerabilidade e risco para problemas de saúde mental apresentam narrativas em
que os temas de perigo, agressão desregulada e uma acentuada ênfase no papel infantil
para a resolução de problemas (poder da criança) distinguem esse grupo das crianças
que não apresentam risco.
Para além do aspecto avaliativo das representações de crianças, o MSSB também
foi utilizado para identificar o resultado de intervenções clínicas dirigidas para grupos de
risco. Toth, Maughan, Manly, Spagnola, e Cicchetti (2002), por exemplo, investigaram
a eficácia de dois modelos de intervenção com crianças vítimas de maus-tratos. Esses
modelos tinham como objetivo modificar as representações internas das crianças em
relação ao self e aos demais, sendo que o primeiro consistia em psicoterapia parental e
da criança e o segundo baseava-se em visitas domiciliares. As crianças que apresentaram
maior modificação das representações de si e dos demais, avaliadas pelo MSSB, foram
aquelas que se submeteram à psicoterapia. Outro estudo comparativo foi desenvolvido
por Robinson, Herot, Haynes, e Mantz-Simmons (2000), que acompanharam durante
os 2 primeiros anos crianças de mães em situação economicamente vulnerável e com
poucos recursos emocionais. As avaliações identificaram maior regulação emocional e
diminuição da agressão nas crianças que participaram do acompanhamento que incluía
visitas domiciliares.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
209
Considerações finais
Este artigo abordou, sob o ponto de vista teórico, a contribuição de abordagens
psicanalíticas contemporâneas que se utilizam de conceitos da teoria das relações
objetais e da teoria do apego para embasar a compreensão dos aspectos intrínsecos e
comportamentais ligados às representações parentais em crianças e adolescentes. Da
mesma forma, foi considerada a importância de técnicas de avaliação do constructo
representação mental, o MSSB, instrumento que avalia aspectos representacionais, a
expressividade emocional, o comportamento pró-social, os mecanismos defensivos, a
regulação emocional e as estratégias de resolução de conflitos.
Dessa forma, o instrumento tem se mostrado uma ferramenta importante para a
pesquisa e para o atendimento clínico de crianças e adolescentes em inúmeros contextos.
Espera-se, portanto, ter contribuído para a discussão e sugestão de práticas em saúde
mental que beneficiem populações de interesse.
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_____________________________
Recebido em julho de 2013
Aceito em outubro de 2013
Paula Casagranda Mesquita: Psicóloga, Mestre em Psicologia Clínica. Universidade do Vale do Rio dos
Sinos.
Sílvia Pereira da Cruz Benetti: Doutora em Psicologia. Universidade do Vale do Rio dos Sinos.
Endereço para contato: [email protected]
212
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Aletheia 43-44, p.213-226, jan./ago. 2014
Pesquisa em psicoterapia e psicanálise
Paula von Mengden Campezatto
Maria Lucia Tiellet Nunes
Milena da Rosa Silva
Resumo: No decorrer do último século, as ciências empíricas e a psicanálise não desenvolveram
proximidade, mantendo-se como campos à parte do conhecimento científico hegemônico.
Atualmente, a comunidade psicanalítica se depara com pressão significativa para aumentar as
pesquisas empíricas. A literatura internacional revela várias linhas de investigação do tema, ligadas
aos resultados e processo do tratamento. São discorridas as dificuldades e vantagens de pesquisar.
Enfatiza-se a necessidade de que o pesquisador em/sobre psicoterapia e psicanálise tenha real
conhecimento da clínica e de seu método de trabalho, na intenção de tornar-se um instrumento
“calibrado” para apreender os processos mentais conscientes e inconscientes. Enfatiza-se a pesquisa
empírica sobre psicoterapia e psicanálise como uma das vertentes de aplicação prática dos construtos
teóricos desenvolvidos em sua metapsicologia. Dessa forma, poderá principalmente compreender
o que funciona, para o que funciona e como funciona este tipo de intervenção.
Palavras-chave: Pesquisa; Psicoterapia; Psicanálise.
Research in psychotherapy and psychoanalysis
Abstract: During the last century, empirical sciences and psychoanalysis did not develop approach,
keeping the field far away of the hegemonic scientific knowledge. Currently, the psychoanalytic
community is facing significant pressure to increase empirical research. The international literature
reveals several lines of research theme, linked to results and process of treatment. Were listed the
difficulties and advantages of realizing research. It’s emphasized the need for the researcher to
have actual knowledge of the clinic and it’s method of work, becoming na instrument “calibrated”
to seize the conscious and unconscious mental processes. It is argued that empirical research on
psychotherapy and psychoanalysis is one of the aspects of practical application of theoretical
constructs developed in it’s metapsychology. Thus, it may mainly contribute expanding the
knowledge that what works, for what works and how this type of treatment works.
Keywords: Research; Psychotherapy; Psychoanalysis.
Introdução
A psicanálise foi definida por Sigmund Freud abrangendo três áreas, que incluem
um método de tratamento dos transtornos psíquicos; uma teorização organizando os
conhecimentos sobre o funcionamento psíquico advindos dessa experiência prática,
e um procedimento de investigação dos processos psíquicos inconscientes, que de
outra forma são pouco acessíveis (Freud, 1922/1996). Assim sendo, Freud já referia a
indissolubilidade entre a investigação (pesquisa) e a clínica, ambas inseridas no próprio
conceito da psicanálise, demonstrando que a observação é uma das melhores formas de
sanar as curiosidades sobre os fenômenos (Freud, 1922/1996). Porém, nesse contexto, a
pesquisa estava circunscrita à investigação analítica clínica, realizada pelo analista em
minuciosos estudos de caso.
Os trabalhos de Freud, estudos de caso único, detalhados e minuciosamente
descritos, buscavam o desenvolvimento e a avaliação da teoria e da técnica psicanalítica.
Entretanto, o método psicanalítico utilizado por Freud não é reconhecido por muitos
pesquisadores que defendem o método científico tradicional, por considerarem a sua
metodologia incapaz de ser replicada. Da mesma forma, pesquisas empíricas sobre
psicoterapia também não se mostram interessantes aos clínicos psicanalíticos, que as
rejeitam em prol do método clínico psicanalítico, considerado teórica e tecnicamente
consagrado. Barros (2006) lembra que o próprio Freud, apesar de ter despendido um
tempo monumental na construção da psicanálise, nunca se interessou por nenhuma outra
técnica de psicoterapia que não fosse a própria psicanálise. A ideia de que a psicanálise
era a única psicoterapia verdadeira e científica permeou todos os anos de vida de Freud
e marcou significativamente essa área (Wallerstein, 2005).
No decorrer do último século, as ciências empíricas e a Psicanálise não
desenvolveram proximidade, mantendo-se como campos à parte do conhecimento
científico hegemônico. Existe uma questão, debatida desde a época de Freud, acerca
da cientificidade da Psicanálise, e, se ciência, que tipo de ciência, e o lugar da pesquisa
organizada em relação a ela. Para ele, a priori, a psicanálise era uma ciência biológica
(ciência da mente dentro de um corpo biológico), a qual deveria se ancorar firmemente
na sua matriz fisiológica e química. Freud nunca relacionou a natureza da psicanálise
como ciência à necessidade de pesquisas utilizando o método científico hegemônico,
através das quais essa ciência cresceria (Wallerstein, 2009). Recentemente, todavia, o
debate acerca da cientificidade da psicanálise perdeu força na medida em que se passou
a questionar a concepção de um modelo único de ciência e de metodologia científica. A
tendência atual é reconhecer que cada disciplina utilize métodos de pesquisa adequados
e coerentes à sua área e seu objeto de estudo (Santos & Zaslavsky, 2007).
Sendo assim, as temáticas pesquisa, psicoterapia e psicanálise necessitam ser
exploradas na busca de uma aproximação. Partindo deste pressuposto, o presente
artigo apresenta uma revisão assistemática das principais ideias de autores clássicos e
contemporâneos que exploram o assunto, buscando apresentar suas tendências atuais.
Pesquisa, psicoterapia e psicanálise: intersecções
Atualmente, existe forte tendência que privilegia o que pode ser comprovado
empiricamente. Ainda que se reconheça a importante relação entre prática clínica e pesquisa,
existe grande distância entre essas duas áreas, havendo necessidade de colaboração entre
esses campos, por sua complementaridade na formação do conhecimento em psicoterapia.
Nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, muitos dos recursos disponíveis para
a saúde mental somente são destinados a modalidades de tratamento comprovadamente
efetivas no tratamento psicológico dos pacientes (Fonagy, 2003).
Com a crescente demanda de comprovação da psicoterapia como tratamento efetivo
para desordens mentais, percebe-se, nas últimas décadas, um crescimento da produção
teórica mundial geral a respeito dos resultados das psicoterapias, demonstrando uma
aproximação ascendente entre a pesquisa e a clínica. A maior parte das publicações são
artigos empíricos produzidos nos Estados Unidos e Europa, caracterizados por rigor
metodológico. A maior concentração dos artigos está centrada na abordagem teórica
214
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
da Terapia Cognitivo-Comportamental (Campezatto, Vieira & Nunes, 2013). Deakin e
Nunes (2008) atribuem essa questão às peculiaridades das abordagens teóricas de cada
tipo de tratamento psicoterapêutico e ao fato de as pesquisas se adequarem às demandas
dos planos de saúde de forma a receber o reembolso dos custos dos tratamentos, e não da
necessidade de aprimoramento técnico-clínico. Os estudos sustentam que há tratamentos
eficazes para uma série de psicopatologias em um espaço de tempo curto e, portanto, com
custo mais acessível do que os extensos tratamentos baseados na teoria psicanalítica.
A comunidade psicanalítica se depara com pressão significativa para aumentar as
pesquisas empíricas em todos os aspectos da teoria psicanalítica. São consideradas tanto
a necessidade de avançar nos conhecimentos científicos, como a responsabilidade social
por demonstrar a efetividade dos tratamentos psicoterapêuticos e psicanalíticos. Também
se faz necessário incrementar trocas profissionais com outras ciências e com o universo
acadêmico e clínico (Kernberg, 2006). Turato, Magdaleno Junior e Campos (2010)
consideram a necessidade de comprovar quantitativamente os resultados da psicanálise
uma tarefa impossível, pois a psicanálise não é própria do campo das quantidades e sim
das qualidades (subjetividade). Por isso, os autores salientam a necessidade de se construir
modelos próprios de investigação desta disciplina, uma vez que se sabe que a psicanálise
funciona, mas o desafio seria buscar evidências disso.
Pesquisa em psicanálise e psicoterapia
Apesar da necessidade apontada no tocante à realização de pesquisas empíricas
sobre psicoterapia psicanalítica e psicanálise, muitos autores discutem as possibilidades
de realização deste tipo de investigação. São duas as posições opostas centrais na literatura
internacional sobre o tema, representadas por Wallerstein (2005), defensor da pesquisa
empírica, e por André Green, contrário à mesma (Green, 2005).
Green (2005) salienta que a psicanálise deve se manter como disciplina única e sui
generis, prática que tem por base o pensamento clínico que emerge no consultório, do
qual deriva suas hipóteses teóricas e suas conceitualizações para enriquecer sua base de
conhecimento. Para este autor, a pesquisa somente é válida quando realizada no interior da
sessão psicanalítica, vendo como incompatíveis a psicanálise e as exigências do método
científico. A identificação de muitos psicanalistas com a posição de Green é refletida pelo
escasso número de pesquisas empíricas de tratamentos psicanalíticos, principalmente
se comparadas ao número de publicações existentes em outros referenciais teóricos
(Campezatto, Vieira & Nunes, 2013).
Barros (2006) salienta que alguns autores consideram que o próprio espírito da
psicanálise, sua natureza em si, estaria sendo violentado pelas demandas feitas a ela pela
pesquisa empírica. Nesse caso, o grande desafio seria desenvolver métodos desenhados
especificamente para não violentar nem a natureza nem o “espírito” daquele objeto que
está sendo estudado.
Já Wallerstein (1998; 2005; 2009) defende tanto a utilização de métodos qualitativos
como quantitativos na pesquisa em psicanálise, dependendo de qual seria o mais
apropriado para responder a cada pergunta. Considera a psicanálise como uma ciência
compromissada tanto com a elaboração de leis gerais a respeito da mente como com as
diferenças e especificidades de cada indivíduo sob estudo. Considera possível e desejável
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
215
realizar pesquisa empírica em psicanálise, que deve responder a questões sobre resultado
e processo psicoterapêutico. Essa posição, segundo Eizirik (2006), vai ao encontro do
crescente número de estudos desse tipo publicados na literatura internacional, sendo que,
atualmente, é privilegiado o estudo do processo psicoterapêutico.
A discussão gerada pela impossibilidade de união entre prática clínica psicanalítica e
pesquisa é evidenciada por Herrmann (2004). O autor anuncia a existência de três formas
de pesquisa em psicanálise, a investigação clínica, o comentário teórico e a pesquisa
empírica. Os defensores da investigação clínica deliberam sobre a autenticidade do
fenômeno vivo e a naturalidade de sua pesquisa, sendo esse o próprio ofício do psicanalista.
O comentário teórico é defendido por sua sutileza e retomada da obra freudiana, uma
vez que diz respeito a textos sobre a aplicação do método psicanalítico na clínica. Os que
defendem a pesquisa empírica argumentam a falta de rigor metodológico na clínica, a
subjetividade e a singularidade do processo psicoterapêutico, evidenciando a necessidade
de metodologias de pesquisa aceitáveis no mundo científico para que, então, as demais
áreas científicas, reconheçam a psicanálise como ciência. Contudo, Herrmann (2004)
salienta que a solução não consiste em escolher uma das três formas. Considera ser
possível habitar a clínica e, nesse ambiente naturalístico, procurar o rigor metodológico
possível – que em geral supera muito o da pesquisa quantitativa enxertada na clínica,
mas sem perder de vista a crítica e a criação de teorias.
Perron (2006) salienta a necessidade de libertação do fascínio exercido pelos
modelos baseados na ciência experimental e, mais precisamente, nas ciências exatas. Para
tanto, é necessário o desenvolvimento de modelos epistemológicos e técnicos que sirvam
ao nosso campo, que se baseia no funcionamento mental humano. Neste sentido, Irribary
(2003) destacou que o trabalho de análise prioriza o estilo e a marca singular daquele que
se coloca como analista. Por isso, a pesquisa psicanalítica é sempre uma apropriação do
autor, e o pesquisador psicanalítico é o primeiro sujeito de sua pesquisa. Por trabalhar
com a impossibilidade de previsão do inconsciente, a pesquisa em psicanálise não poderia
jamais exigir uma sistematização completa e exclusiva.
Perron (2006) diferencia a pesquisa em psicanálise da pesquisa sobre psicanálise.
A pesquisa em psicanálise busca conhecer melhor o que acontece durante o tratamento,
ou seja, entender melhor o processo psicanalítico em si. Poderia ser realizada unicamente
por psicanalistas praticantes e bem treinados. Já a pesquisa sobre psicanálise seria uma
abordagem a respeito da psicanálise a partir de fora, ou das suas bordas – trabalho sobre
indicação de tratamento, técnicas terapêuticas, funcionamento de instituições – e também
análises críticas dos seus conceitos ou hipóteses, estudos da história da psicanálise. Poderia
ser realizada por alguém que não seja psicanalista, desde que esteja em associação próxima
com a psicanálise (Perron, 2006).
Ainda que persista, em parte, a discussão sobre a possibilidade de pesquisa
empírica na psicanálise e na psicoterapia psicanalítica, muitos estudos vêm ocorrendo,
demonstrando algumas das possibilidades reais de avanço na pesquisa em psicoterapia.
A literatura internacional revela várias linhas de investigação do tema, o que denota
contribuições significativas para a área.
Consideram-se quatro gerações da pesquisa empírica na Psicanálise de acordo
com o alcance e abrangência a que se atinge (Bucci, 2007). A primeira se caracterizou
216
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
por pesquisadores individuais envolvidos no desenvolvimento de medidas objetivas de
determinados aspectos do processo de tratamento, além de busca de estabelecimento
de sua validade e confiabilidade; na segunda fase, houve a aplicação das medidas
desenvolvidas na primeira geração em material clínico oriundo de estudos
cooperativos, bem como a expansão do desenvolvimento de instrumentos; a terceira
geração de pesquisa começou a alargar o escopo de observação, buscando a conexão
entre clínica e pesquisa. Wallerstein (2002) assinala que os avanços metodológicos
e os recursos de áudio, vídeo e informática permitem que atualmente estejamos na
quarta geração de pesquisa, alcançando os estudos de processo psicoterapêutico.
Destaca a existência de grupos engajados no “estudo microscópico da interação
momento-a-momento do processo de interação psicanalítica, em cada sessão ou
em pequenos segmentos de sessão” (p.46). Os estudos de processo examinam os
padrões de comunicação entre paciente e terapeuta de forma intensiva, sistemática
e sequencial (Charman, 2003).
O desenvolvimento de tecnologias, como gravação em áudio e filmagem das
sessões, favoreceu a elaboração de pesquisas de processo, pois viabilizou registros
objetivos, evitando a crítica em relação aos relatos de casos elaborados a partir da
memória dos próprios psicoterapeutas, os quais apresentam limitações (Bucci, 2007;
Wallerstein, 2005).
A temática da gravação das sessões de psicoterapia está longe de encontrar
consenso na literatura. Autores referem a possibilidade de ampliação dos conhecimentos
e entendimento mais aprofundado do que se passa nas sessões com o uso da gravação
(Domingues & Serralta, 2005; Kächele, Thomä, Ruberg & Grünzig, 1988; Peuker,
Habigzang, Koller & Araujo, 2009; Yoshida, 2008); outros consideram a exposição
dos pacientes e a interferência negativa da gravação no processo psicoterapêutico e no
desenvolvimento da aliança terapêutica, segundo os estudos de Kachele et al., (1988) e
Thomä e Kachele (1990).
Porém, o expresso verbalmente, registrado com o auxílio da tecnologia não apreende,
por si só, justamente o que se aproxima do conteúdo de interesse nas investigações
psicanalíticas. Por isso, ainda que a utilização de tais tecnologias seja muito questionada
no meio psicanalítico, a utilização dessas gravações e transcrições, juntamente com os
tradicionais registros de memória por parte do psicoterapeuta, parece ser a melhor forma
de aproximar o pesquisador à essência do processo terapêutico. Cada tipo de registro,
incluindo os relatos a partir da memória do psicoterapeuta, traz riqueza e privilegia
alguns aspectos, de modo que sua escolha deve se dar de acordo com os objetivos da sua
utilização (Silva, Steibel, Sanchez, Campezatto, Barcellos, Fernandes & Klarmann et al.,
2014). A experiência de escuta de tons, silêncios e suspiros, em uma gravação de áudio,
complementa as informações contidas em uma transcrição, que por sua vez contribui para
o relato de memória, vivaz e com sentimentos contratransferenciais e contextualizações
(Silva, Hallberg, Steibel, Campezatto & Klarmann, 2011).
Além do registro preciso das sessões através de tecnologias, a introdução de
instrumentos com o objetivo de medir variáveis do processo analítico, em sessões
gravadas e transcritas, trouxe uma enorme contribuição na área da pesquisa psicanalítica
(Almeida, 2011).
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
217
De acordo com Wallerstein (2002), há duas questões que a pesquisa em psicanálise
busca responder, direcionadas aos resultados e processo do tratamento. Os resultados
estão vinculados a quais mudanças ocorrem durante um tratamento, em virtude deste, e
o processo de como essas ocorrem.
Pesquisas de processo e resultado de psicoterapia
Existem duas diferentes modalidades de aproximação ao estudo empírico das
psicoterapias: as que envolvem avaliação de resultado, que são as de eficácia e de
efetividade, e as que avaliam o processo psicoterapêutico, que enfocam especialmente
como ocorrem as mudanças no contexto da psicoterapia (Peuker, et al., 2009). A eficácia
se propõe a medir o quanto uma determinada intervenção produz um resultado benéfico
em condições ideais de observação; trata-se do resultado experimental em laboratório,
ou seja, mesurando-se a intervenção em uma amostra homogênea, através do controle
rígido de variáveis. A efetividade se propõe a medir o quanto uma determinada intervenção
produz um resultado benéfico, quando empregado no mundo real (condições habituais
de uso), em uma população definida (Deakin & Nunes, 2008).
Hilliard (1993) questiona tanto os estudos de eficácia como os de efetividade, ao
dizer que pode estar havendo erro metodológico ao avançar em pesquisas em psicoterapia
que comparam grupos antes que se tenha uma real clareza de como ocorrem os processos
psicoterapêuticos individualmente. A investigação deveria estar direcionada a saber como
um terapeuta, em particular, afetou o comportamento do paciente, através de análises
caso-a-caso, na intenção de constituir um escopo teórico e empírico consistente para
então fazer comparação entre sujeitos.
Nesse sentido, alguns pesquisadores passaram a defender que somente o estudo do
processo psicoterapêutico pode oferecer respostas mais específicas sobre o impacto da
psicoterapia nos tratamentos emocionais, buscando assim esclarecer o que as pesquisas
de resultado, que envolveram estudos de eficácia e efetividade, não resolveram (Kächele,
2000). O estudo de processo pode se dar através de metodologias quantitativas ou
qualitativas, mas a psicanálise dialoga mais facilmente com esta segunda perspectiva.
No estudo qualitativo, o observador é o instrumento de captação do fenômeno
(Cassorla, 2003). Esse instrumento tem que estar “calibrado” da melhor forma possível
(como ocorre com os das ciências experimentais). No entanto, calibrar-se a observação
humana é mais difícil, sendo a teorização do método e o treinamento indispensáveis.
Não podemos cair na ingenuidade de que existem métodos “puros” ou objetivos, sem
determinantes humanos. Saber o máximo sobre esses determinantes é o que torna o
conhecimento em científico e não pseudocientífico. O pesquisador precisa se envolver
com o objeto de estudo, se misturar, “ser ele”, já que sua subjetividade tem importância
especial, ao contrário das “ciências duras”. Essa subjetividade, porém, necessita ser
avaliada objetivamente, de modo que o pesquisador se divide; uma parte se mescla com
o objeto de estudo e outra parte observa essa dinâmica (Cassorla, 2003).
O pesquisador, ao trabalhar nesse paradigma qualitativo, pode se aprofundar nas
questões subjacentes, ao observar, escutar, relatar e interpretar o caso clínico. Nesse
sentido, pode ser importante uma mudança epistemológica no método, que valorize o
papel da subjetividade e a existência de múltiplas verdades, especialmente na pesquisa
218
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
em psicoterapia (Berríos & Lucca, 2006). De qualquer forma, as análises qualitativas
têm sido consideradas a melhor maneira de descrever processos de mudança psicológica
e a complexidade de uma psicoterapia (Diniz-Neto & Féres-Carneiro, 2005). Assim,
encontramos um movimento recente que busca assegurar conhecimentos mais precisos
sobre os mecanismos de mudança em psicoterapia através de estudos de caso, com
uma metodologia mais rigorosa (Jung, Nunes & Eizirik, 2007), de forma a manter o
ambiente natural e subjetivo da psicoterapia, porém com registros mais claros e precisos
do tratamento, uso de medidas e procedimentos válidos e confiáveis.
Os estudos de processo têm auxiliado a compreender o chamado “Veredicto
Pássaro Dodô”1 (Luborsky, Singer & Luborsky, 1975), que afirma a equivalência das
diferentes abordagens de psicoterapia em termos de seus resultados, sendo sustentado
por diversas meta-análises (Luborsky, Rosenthal, Diguer, Andrusyna, Berman, Levitt,
Seligman & Krause, 2002). O veredicto pássaro Dodô tem sido questionado por
pesquisadores que o consideram um mito que reflete uma série de limitações das
pesquisas: diferentes tipos de variáveis, de delineamentos e de procedimentos utilizados
(Serralta, Nunes & Eizirik, 2007).
Faz-se necessário compreender os fatores inespecíficos ou comuns (presentes em
qualquer abordagem de psicoterapia) e os específicos (que caracterizam uma abordagem
particular). Para Galatzer-Levy, Bachrach, Skolnikoff & Waldron (2000), a presença de
processo analítico é apenas uma entre outras formas, e bastante discutível, de estabelecer se
um determinado tratamento é ou não é uma psicanálise; em anos recentes, alguns analistas
passaram a considerar a presença de processo analítico como definindo a psicanálise e
acrescenta que tal definição é um desafio, pois é difícil demonstrar empiricamente a
presença do processo nos tratamentos.
Embora o conceito de processo não seja claro e nem consensual na literatura
psicanalítica, a referência de Freud (1913/1996) ao tema em “Sobre o início do tratamento”
é uma das mais importantes:
[o analista] põe em movimento um processo, o processo de solução das repressões
existentes. Pode supervisionar esse processo, auxiliá-lo, afastar obstáculos em seu
caminho, e pode indubitavelmente invalidar grande parte dele. Mas, em geral,
uma vez começado, [o processo] segue sua própria rota e não permite que, quer
a direção que toma, quer a ordem em que colhe seus pontos, lhe sejam prescritas
(p.172).
Estudando especificamente o processo psicoterapêutico, Krause, Parra, Aristegui,
Dagmino, Tomicic, Valdés, Vilches, Ben-Dov, Reyes, Altamir e Ramirez (2006)
apresentaram em seu artigo de revisão três linhas de investigação com procedimentos
metodológicos alternativos. Os autores destacaram que a pessoa do terapeuta tem papel
fundamental, independente da linha de pesquisa de processo que esteja sendo realizada. A
Referência ao livro de Lewis Caroll “Alice no país das maravilhas”, no qual o pássaro Dodô, após uma corrida
na qual todos chegam ao final do percurso, proclama que ‘todos venceram e todos devem ser premiados’.
Original publicado como Alice’s Adventures in Wonderland em 1865 por Charles Lutwidge Dodgson sob o
pseudônimo de Lewis Caroll. Itaipava (RJ): Editorial Arara Azul, 2002.
1
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
219
primeira linha, intitulada “o estudo do processo terapêutico”, centra-se tanto na interação
terapêutica como no processo de mudança experimentado durante a relação e estuda os
episódios relevantes de mudança psicoterápica. Essa linha de investigação é adequada
para abarcar assuntos de maior complexidade, abandonando a premissa da homogeneidade
do processo psicoterapêutico. Para tanto, é importante a análise das relações sequenciais
dos dados e a identificação de eventos ou episódios relevantes de mudança. Os autores
referiram que, metodologicamente, faz-se necessária maior flexibilidade para analisar os
dados dessa linha, o que se traduz em interesse crescente pelos métodos de investigação
qualitativos, uma vez que a percepção humana é o melhor “instrumento de coleta” de
padrões e episódios do processo psicoterapêutico, além de combinar métodos qualitativos
com quantitativos.
Já a segunda linha de investigação, denominada “o estudo dos fatores de mudança
inespecíficos” – ou fatores comuns a diferentes tipos de psicoterapias – busca descobrir
que fatores da psicoterapia transversais a diferentes tipos de psicoterapias seriam
responsáveis pelos processos de mudança. Em termos gerais, os fatores inespecíficos
ou comuns incluem condições gerais da terapia, tais como: aliança terapêutica, a
estrutura da situação terapêutica, a função do terapeuta, a forma de interação entre
os envolvidos nas sessões, a forma como se organiza e se transmite os conteúdos
terapêuticos e a capacidade do paciente em se ajudar (Krause et al., 2006). Esses se
diferenciam dos elementos específicos das psicoterapias, ou seja, aqueles considerados
técnicos e que distinguem diferentes tipos de psicoterapia. Estudos têm demonstrado
que os elementos inespecíficos são preditores de resultados psicoterapêuticos em
diferentes tipos de psicoterapias, contudo não há produção científica satisfatória para
elucidar de que forma estes fatores colaboram na mudança em psicoterapia (Serralta,
Nunes & Eizirik, 2007).
A terceira linha é denominada “relação de tipo de tratamento com tipo de
problema”, busca elaborar listas de tratamento, com apoio empírico, para temas
específicos, como depressão, fobias, bulimia, entre outros (Krause et al., 2006).
Em relação especificamente à pesquisa de processo psicoterapêutico no Brasil,
Serralta, Nunes e Eizirik (2007) afirmaram que este é um campo que se encontra
em desenvolvimento inicial, pois ainda não há estudos sistemáticos do processo
psicoterapêutico e poucas são as medidas disponíveis para os pesquisadores interessados
nesse tema. Contudo, os autores observaram recente interesse por essa temática,
expresso pelas publicações de trabalhos sobre fatores do paciente associados à
capacidade de formar aliança terapêutica e sobre a associação entre aliança terapêutica e
transferência. Observaram ainda um maior interesse, entre pesquisadores, na elaboração
de versões brasileiras de instrumentos que avaliam fatores que integram ou influenciam
o processo da psicoterapia, como transferência, contratransferência, aliança terapêutica
e mecanismos de defesa.
Ainda no que diz respeito ao estudo da mudança psicológica, Yoshida (2008)
salienta a importância da escolha do critério de mudança. Em suas pesquisas, menciona
que a busca da avaliação de mudança com significância clínica, e não apenas estatística
se faz importante, e que este pode ser buscado tanto na perspectiva do paciente
(avaliação do bem-estar por meio de autorrelatos), do profissional da saúde (baseado
220
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
no referencial teórico) e da sociedade (efeitos do tratamento, passar a enquadrar-se em
uma população funcional).
Em resumo, a pesquisa apresenta uma série de questões ainda não resolvidas quanto
ao conceito de processo psicoterapêutico. Em alguns estudos de resultado, há investigações
que se referem a processo, mas não o conceituam; em outros, que o conceituam, repetese o que se vê na clínica: uma variedade de definições e muitas vezes conceituações
a posteriori, confundindo-se processo (ou seja, desenvolvimento do tratamento) com
resultado. O conceito de “processo” permanece em aberto, ambíguo e variando conforme
o autor ou a pesquisa. E essa inexatidão conceitual que impregna a psicanálise é um
complicador importante para a pesquisa (Santos & Zaslavsky, 2007).
Sobre as dificuldades e vantagens de pesquisar...
Perante o exposto até o momento, enfatiza-se a necessidade de que o pesquisador
em/sobre psicoterapia e psicanálise tenha real conhecimento (vivencial) da clínica e de seu
método de trabalho, na intenção de tornar-se um instrumento “calibrado” (Cassorla, 2003)
para apreender os processos mentais conscientes e inconscientes. Esse fator, enriquecedor
sob o aspecto empírico, torna-se difícil na medida em que clínicos não dispõem do
extenso tempo necessário para a execução de ambas as tarefas – clinicar e pesquisar.
A verba destinada à pesquisa é escassa na maioria das instituições, provavelmente pela
pouca valorização da atividade por muitos clínicos, conforme exposto no decorrer deste
artigo. E os clínicos, na maioria das vezes profissionais autônomos, pouco podem dispor
de horas de trabalho.
Além de todas as dificuldades para que pesquisadores e clínicos busquem as
devidas conexões para considerarem suas práticas complementares no fortalecimento das
psicoterapias e da psicanálise, também se apresentam dificuldades práticas, que corroboram
para que a pesquisa fique relegada a uma minoria de clínicos. Deakin e Nunes (2008), ao
realizar pesquisa sobre efetividade da psicoterapia psicanalítica de crianças, propuseram
como uma saída às dificuldades de pesquisar a intersecção clínica e investigação, tendo
como ponto de partida a universidade, que poderá auxiliar na adaptação de métodos.
Tal alternativa parece solução bastante eficaz na implementação de uma mentalidade
ampliada da clínica, que pode contribuir grandemente para estudos de resultado como o
proposto pelas autoras. As investigações no contexto das clínicas-escola universitárias
vêm se desenvolvendo de forma crescente com dissertações de mestrado como as de
Konrat (2012), “A relação entre sexo e idade e queixas de crianças em psicoterapia”;
Merg (2009), “Características da clientela infantil em Clínicas-Escola”; Boaz (2009),
“Caracterização das queixas apresentadas por meninos e meninas encaminhados a clínicasescola”; e Campezatto (2006), “As clínicas-escola de cursos de Psicologia da Região
Metropolitana de Porto Alegre”, e contribuíram para a construção de um panorama geral
das práticas exercidas nas clínicas-escola, bem como na descrição da clientela que utiliza
seus serviços, os tipos de terapia e o desfecho geral dos atendimentos.
No entanto, para as pesquisas de processo, que exigem do clínico/pesquisador
bagagem diferenciada, consideram-se as instituições de formação de psicoterapeutas
e psicanalistas locais mais propícios para a aquisição de material clínico para realizar
pesquisas empíricas, em comparação com os consultórios dos profissionais. A rotina
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
221
de ambulatório inclui aspectos favorecedores da aceitação do paciente em participar de
tais estudos, que envolvem a participação de secretária (agendamentos, pagamentos,
administração das salas), triador, prontuários institucionais, sala de espera compartilhada
com outros pacientes e a assinatura de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido,
no qual o paciente autoriza o uso de seus dados para estudos, supervisão e pesquisa.
Salienta-se que estes locais, com diversas nomenclaturas como cursos de formação, de
especialização, entre outros, são considerados clínicas-escola de pós-graduação, onde
os profissionais podem e devem tomar contato com as diversas facetas de utilização de
conhecimento clínico – dentre elas, a pesquisa.
Sabe-se da existência de iniciativas dessa natureza, em que psicoterapeutas/
pesquisadores de centros de formação buscam inserir a investigação em suas instituições
através da execução de dissertações de mestrado e teses de doutorado de seus membros,
tendo como suporte metodológico a Universidade. Destacam-se os trabalhos de Gastaud
(2013), “Indicação, concordância em iniciar tratamento e melhora inicial na psicoterapia
psicanalítica”, Deakin (2008), “Avaliação dos Resultados de Psicoterapia Psicanalítica
com Crianças”, Dian (2007) “Psicoterapia Psicanalítica com Crianças: Avaliação e
Resultados”. Há também a experiência de promoção da interface entre psicanálise,
psiquiatria e universidade por meio do compartilhamento de conhecimento, como o
fazem Silva, Yazigi e Fiore (2008), ao ilustrarem um processo psicanalítico realizado
na universidade.
Mesmo assim, considera-se que a dificuldade de executar pesquisas sobre
psicoterapia envolve diversos fatores, entre eles a dificuldade de acesso a dados de
prontuários que, quando existem, estão em sua maioria mal preenchidos, com diversos
campos em branco e com expressões e termos técnicos não acordados entre profissionais
que os preenchem (Campezatto & Nunes, 2007). Percebe-se uma confusão acerca do
resguardo do sigilo e confidencialidade do material, tanto quando se trabalha com
prontuários e materiais advindos de arquivos como com material advindo diretamente de
sessões psicoterapêuticas gravadas em áudio e/ou vídeo. Tais aspectos resultam em uma
comum recusa por parte de psicoterapeutas em participar de estudos empíricos (Serralta,
Nunes & Eizirik, 2007). Ao citarem as razões dadas pelos terapeutas a se recusarem a
participar de pesquisas, Vachon, Susman, Wynne, Birringer, Olshefsky e Cox (1995)
mencionam a falta de tempo, o desconforto em gravar as sessões e considerar seus
pacientes contraindicados a participarem de pesquisas.
O temor de exposição dos próprios psicoterapeutas, o receio acerca da exposição
e possível quebra de sigilo dos pacientes, bem como possível interferência negativa da
gravação em áudio ou outros registros sistemáticos no processo psicoterapêutico e no
desenvolvimento da aliança terapêutica também são aspectos significativos que interferem
na execução destas investigações (Silva et al., no 2014).
Santos & Zaslavsky (2007) acrescentam que os resultados e conclusões de uma
pesquisa tendem a ser modestos, em contraste com a riqueza livre e descritiva dos relatos
clínicos que os psicoterapeutas produzem e têm acesso. Fonagy (2003) corrobora a ideia,
referindo que o fato empírico soa enfadonho diante das evocativas narrativas clínicas. Além
disso, as teorias psicanalíticas surgem da clínica, como se verifica desde a obra de Freud.
Tais teorias são profundas e ousadas, contribuindo para o arcabouço teórico disponível
222
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
aos psicoterapeutas, que recorrem a este tipo de publicação. Em contraste, o pesquisador
empírico muitas vezes necessita ficar atrelado aos fatos evidentes e objetivos.
Faz-se necessário, portanto, esforço de integração dos resultados das investigações.
Cada pesquisa tende a trazer pequena contribuição ao conhecimento da psicoterapia e
da psicanálise, mas um grande conjunto de pequenas contribuições pode apresentar
material de significativo interesse a clínicos e investigadores. Por todo o exposto, portanto,
enfatiza-se a ideia de que a pesquisa empírica sobre psicoterapia e psicanálise é uma das
vertentes de aplicação prática dos brilhantes construtos teóricos desenvolvidos em sua
metapsicologia. Dessa forma, poderá principalmente contribuir para o acesso de uma
maior quantidade de pacientes a esse tipo de intervenção, na medida em que possa se
expandir os conhecimentos de o que funciona, para o que funciona e como funciona
esse tipo de intervenção. Será possível sua divulgação, constante aprimoramento teóricotécnico e facilitará o treinamento e a formação de novos profissionais a trabalharem com
essa práxis.
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_____________________________
Recebido em abril de 2014
Aceito em abril de 2015
Paula von Mengden Campezatto: Psicóloga. Psicoterapeuta de Crianças, Adolescentes e Adultos. Mestre
e Doutoranda em Psicologia Clínica, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Bolsista do
CNPq. Sócia efetiva do IEPP – Instituto de Ensino e Pesquisa em Psicoterapia, Porto Alegre, Rio Grande do
Sul, Brasil.
Maria Lucia Tiellet Nunes: Psicóloga. Doutora em Psicologia Clínica (Tratamento e Prevenção) pela
Universidade Livre de Berlim. Professora titular aposentada da PUCRS, Faculdade de Psicologia.
Milena da Rosa Silva: Psicóloga. Professora do Departamento de Psicanálise e Psicopatologia e do Programa
de Pós-Graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura, Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio
Grande do Sul e Sócia Graduada do IEPP – Instituto de Ensino e Pesquisa em Psicoterapia, Porto Alegre, Rio
Grande do Sul, Brasil.
Endereço para contato: [email protected]
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Aletheia 43-44, p.227-238, jan./ago. 2014
A família no acompanhamento de sujeitos psicóticos:
os encargos subjetivos oriundos do sofrimento psíquico
Nayara Gomes Braga
Nathália de Freitas Costa Fernandes
Tiago Humberto Rodrigues Rocha
Resumo: O presente artigo teve como objetivo conhecer a história do tratamento em saúde mental a
partir do relato de um usuário dos serviços e de um familiar responsável pelo cuidado, investigando
as repercussões subjetivas de ser o familiar responsável pelos cuidados de um psicótico. Trata-se de
um estudo qualitativo e exploratório. Para coleta de dados, optou-se pela entrevista semiestruturada,
realizada com o usuário de um Centro de Atenção Psicossocial e com sua cuidadora. Os dados
coletados foram organizados e analisados por meio da técnica de análise de conteúdo. Os resultados
mostraram que a posição da mãe é de cuidadora exclusiva, o que repercute em encargos subjetivos
que atingem níveis emocionais, físicos e inter-relacionais, dadas as dificuldades de se conviver
com o sofrimento psíquico. Sugere-se que os serviços de saúde mental desenvolvam programas de
orientação aos familiares cuidadores, bem como apoio no enfrentamento das situações de crise.
Palavras-chave: cuidadores; encargo subjetivo; psicose.
The family follow up of a psychotic person: Subjective burdens from
distress
Abstract: This paper aimed to know the history of mental health treatment from report of an user
of the services and his family care, and also investigating the subjective effects on the psychotic’s
family caregiver. The study is based on qualitative and exploratory research. The information
was verified though a semi-structured interview held with an user of a Psychosocial Care Center
and his caregiver. The information collected were organized and analyzed by the technique of
content analysis. The results showed that position of mother is exclusive caregiver, being so the
impact on caregiver is subjective burdens affecting emotional, physical and inter-relational
levels, due to the reason of difficulties on living with mental suffers. The suggestion would be
a development of orientation programs through mental health services governmental to family
caregivers as well to support crisis situations.
Keywords: caregivers; subjective burden; psychosis.
Introdução
A reforma psiquiátrica tem como principal vertente a desinstitucionalização e
desconstrução dos manicômios acompanhada por progressiva substituição por outras
práticas terapêuticas alternativas à institucionalização (Gonçalves & Sena, 2006).
Em consonância a esses apontamentos, Rocha (2012) salienta que esse movimento
antimanicomial propõe uma mudança nas formas de se pensar e representar a loucura para
além da pragmática do tratamento. Ainda que o modelo antigo de assistência psiquiátrica
prevaleça no país, um novo modelo psiquiátrico propõe a desconstrução do antigo.
A Reforma Psiquiátrica começou no Brasil no final dos anos 70, após a visita do
psiquiatra italiano Franco Basaglia ao Hospital Colônia de Barcelona, em Minas Gerais.
Rocha (2012) retomando Basaglia, afirma que o mesmo comparou as condições oferecidas
pelo Hospital a um campo de concentração Hitlerista, devido às péssimas condições
sanitárias e desumanas do local. A Reforma foi e ainda é um movimento que mostra as
inconveniências do hospital psiquiátrico, fazendo parte atualmente, das políticas públicas
de saúde. De acordo com Amarante (1995), no Brasil o movimento antimanicomial
propunha as comunidades terapêuticas como alternativa à institucionalização psiquiátrica,
objetivando implantar práticas democráticas e coletivas para transformar a dinâmica da
instituição asilar.
Surgem então os Centros de Atenção Psicossociais (CAPS), promulgada pela lei
10.216, Lei da Reforma Psiquiátrica ou Lei Paulo Delgado, assumindo, assim, expressiva
importância no cenário das novas práticas em saúde mental, considerado como um
dispositivo estratégico para reversão do modelo asilar. Em consonância, Rocha (2012)
acrescenta que esse modelo propõe um sistema comunitário mais humanizado para o
tratamento das psicoses. Os CAPS, portanto, são serviços comunitários ambulatoriais e
regionalizados onde os usuários têm consultas médicas, terapêuticas, atividades lúdicas
e recreativas voltadas para o tratamento e reabilitação psicossocial. Além disso, é uma
instituição própria dentro da gestão pública, em que seus principais norteadores são
acesso, integralidade e resolutividade no serviço prestado onde os sujeitos são acolhidos
por uma equipe multiprofissional (Onocko-Campos & Furtado, 2001). Ainda em tempo,
cabe lembrar que o processo de desisntitucionalização não envolve somente a transposição
dos muros da instituição manicomial. Assim, o processo de desinstitucionalização abarca
além disso uma “reconstrução subjetiva do paciente, que vivencia a priorização de
intervenções potencializadoras de sua saúde e que possibilitem sua reprodução social,
tirando a exclusividade da cura” (Rocha, Soares & Freitas, 2012, p.235). Retirá-lo da
condição coadjuvante de paciente e transformá-lo em sujeito, eis o mote que deve orientar
a prática em saúde mental.
Quanto à reforma do modelo manicomial e abertura dos primeiros CAPS, Amarante
(1995) destaca que ainda em 1987, na cidade de São Paulo, foi criado o Centro de Atenção
Psicossocial Professor Luiz da Rocha Cerqueira, exercendo forte influência nos serviços
de todo o país. Ainda no estado de São Paulo, mais precisamente na cidade de Santos,
após várias denúncias de maus-tratos, ocorreu a intervenção da Secretaria de Saúde na
Casa de Saúde Anchieta, determinando o fechamento da mesma. O processo santista “foi,
certamente, o mais importante da psiquiatria pública nacional e que representou um marco
no período mais recente da reforma psiquiátrica brasileira” (Ibid, 1995, p.83).
A onda de reformas atingiu o país por inteiro. No Rio Grande do Sul, em 1988,
entrava em vigor O Projeto Nossa Casa, na cidade de São Lourenço do Sul- RS, no
qual ainda não era credenciado como CAPS, uma vez que esse conceito foi legalmente
atribuído a partir da portaria 224/92, desempenhando, entretanto, tarefas similares aos
CAPS quanto a ênfase no tratamento terapêutico, a reinserção social e ocupacional dos
sujeitos (Hirdes, 2009). A Lei Estadual n° 9.716, foi aprovada somente em 1992, colocando
o estado como um destaque no processo de implantação da reforma, já que a Lei nacional
n° 10.216, foi consolidada apenas em abril de 2001 (Ibid, 2009).
Considerando o sofrimento psíquico como um processo multideterminado, ou seja,
que requer uma atuação multiprofissional, os familiares e o meio social desempenham
228
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
igualmente papéis importantes para a reabilitação do sujeito (Rocha & Silva, 2013).
A psicose influencia sobremaneira a vida dos familiares com quem eles convivem,
sendo geralmente os pais os responsáveis pelos cuidados e os que mais sofrem com
os encargos subjetivos relativos ao ato de cuidar. Por encargos subjetivos entende-se o
impacto provocado pela presença do sujeito adoecido junto ao ambiente familiar. Com
fins didáticos, na construção deste texto preservamos o termo sobrecarga sempre que se
referir a pesquisas referenciadas, a fim de manter a fidedignidade ao original. Para nossa
própria escrita, privilegiamos os termos encargos subjetivos e mal-estar, por acreditar
que os mesmos estejam em maior consonância com a terminologia psicanalítica.
Trabalhos como o de Pegoraro e Caldana (2006) e Colleti, Martins, Tanios e
Rocha (no prelo) apontam que circunstâncias de sofrimento psíquico envolve mudanças
na estrutura dos familiares envolvidos com o cuidado, abarcando níveis emocionais,
econômicos e práticos. Os encargos subjetivos podem ser apontados, por exemplo, no
modo como o cuidador lida com sua realidade a partir do diagnóstico ou surgimento da
psicose. Nesse sentido, surgem adaptações na vida familiar que ocasionam mudanças
no cotidiano, envolvendo por vezes desistência de planos e abnegação de vontades para
se viver uma realidade construída a partir das necessidades do psicótico. Rocha e Silva
(2013) apontam que alterações no comportamento do sujeito psicótico e principalmente
os sintomas que emergem durante as crises podem desencadear constrangimento no
cuidador que geralmente encontra-se impotente para lidar com tais momentos.
A superproteção é outro encargo considerável, uma vez que os cuidadores tendem
a superprotegerem os psicóticos, principalmente quando esse cuidado permeia a
relação mãe-filho. Compreende-se, porém que esse cuidado excessivo veta a liberdade
e autonomia do sujeito, o que impede o desenvolvimento do mesmo. A culpa também
é outro significante que pode estar presente e que contribui para os sentimentos como
solidão, ansiedade e vergonha, por parte de quem estão envolvidas nos cuidados do
sujeito. Evidencia-se também a condição narcísica parental como um dos encargos
subjetivos de forte expressividade nesse contexto. Os pais que desde a gestação criam
fantasias e idealizações de um filho perfeito e saudável podem sentir-se feridos ao quebrar
o ideal familiar ao enfrentar a realidade de lidar com um filho psicótico (Rocha & Silva,
2013).
O familiar responsável pelos cuidados acaba por ficar a maior parte do tempo
dentro de casa e com grandes dificuldades de realizar atividades sociais. Esse cuidador
pode ser prejudicado ao estar inserido nesse contexto que muitas vezes também o leva a
sofrer. A desinstitucionalização tem consequências diretas na vida do responsável pelo
cuidado do sujeito, pois ao retirar o psicótico do hospital psiquiátrico inevitavelmente
receberá os encargos subjetivos relativos ao ato de cuidar. A esse familiar, muitas vezes,
resta apenas os serviços substitutivos, como por exemplo, os CAPS, como fonte de apoio
(Zanetti & Galera, 2007).
Sabemos que diferentes vivências são experimentadas por psicóticos, que frequentam
instituições que os auxiliam em momentos de crise e na manutenção do tratamento. A
vivência dos sujeitos nesses locais mostram diferentes formas de tratamento dado a eles.
Diante dessa realidade o presente artigo objetivou conhecer a história do tratamento em
saúde mental a partir do relato de um usuário dos serviços e de um familiar responsável
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
229
pelo cuidado, investigando as repercussões subjetivas de ser o familiar responsável pelos
cuidados de um psicótico.
O sujeito e seu familiar cuidador
O presente artigo trata de um estudo exploratório, fundamentado na abordagem
de pesquisa qualitativa. Constitui-se enquanto um relato de experiência das discentes a
partir da disciplina Vivência Profissional V da matriz curricular do curso de Psicologia
da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Para fins de coleta das informações
optou-se pela utilização de entrevistas semiestruturadas elaboradas a partir dos objetivos
deste estudo. As entrevistas procuraram abordar questões relacionadas aos períodos de
internações e ao histórico de tratamento em saúde mental direcionadas ao usuário, bem
como questões quanto as implicações em ser cuidadora, reportadas a mãe do sujeito. As
entrevistas realizadas tiveram duração aproximada de 50 minutos, sendo seis entrevistas
com o usuário do serviço e duas com sua cuidadora. Os encontros com o usuário foram
realizados no próprio CAPS, durante os intervalos entre suas atividades. Quanto a
cuidadora, nos encontramos em sua residência de forma individual, com o consentimento
tanto desta quanto do sujeito atendido. Os dados coletados foram organizados e analisados
por meio da técnica de análise de conteúdo.
Este estudo teve como participantes um sujeito psicótico que possui histórico
de internações psiquiátricas e também usuário dos serviços oferecidos pelo CAPS.
Participou também desse estudo a mãe desse sujeito, que, por sua vez, é o familiar
responsável pelo cuidado do referido. O entrevistado, José (nome fictício) tinha 48 anos
quando foi abordado para o estudo. Sua hipótese diagnóstica apontava para um quadro
de esquizofrenia. Sua mãe, Divina (nome fictício), trata-se de uma senhora idosa que
reside com o filho e é responsável pelos cuidados do mesmo. Nos relatos da mãe, ela
conta que seu filho foi internado pela primeira vez aos 20 anos de idade e, desde então,
tem um histórico assíduo de internações em Hospital Psiquiátrico, sendo que sua última
internação datava de aproximadamente 4 meses. Até a data da entrevista José realizava
acompanhamento apenas no CAPS.
A convivência com a psicose
Na revisão de literatura, observa-se que o cuidado ao sujeito psicótico geralmente
fica por conta da mulher, em específico a mãe, que, além de cumprir a função de cuidar
tem ainda outras funções ligadas às tarefas domésticas e o cuidado com outros membros da
família (Barroso, Bandeira & Nascimento, 2007; Brischiliari & Waidman, 2012; Pegoraro
& Caldana, 2006), o que, de certa forma, está em consonância como caso aqui apresentado.
Brischiliari e Waidman (2012, p.151) apontam que “presa à função de cuidadora, ela não
se permite sequer adoecer, pois se encontra na posição de responsável pelos cuidados à
família”. Esta centralização de papéis sobre a mulher traz-lhe consequências, tanto em
assumir funções geralmente desempenhadas por homens que exigem força física, quanto
ao custo que este encargo emocional possa acarretar para sua saúde e qualidade de vida,
abstraindo-lhe tempo para cuidado próprio e lazer. Com relação a essa afirmação, Divina
nos diz que a maior parte de seu tempo é despendido nos cuidados com o filho e nos
230
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
afazeres domésticos. Parece haver no imaginário do cuidador, uma espécie de possibilidade
de cambiamento entre o cuidado de si pelo cuidado do outro, uma espécie de negociação
por meio do esquecimento de si em prol das demandas do outro.
Para a família, o impacto dos sintomas e da vivência com o sujeito psicótico
provoca grande sofrimento. Brischiliari e Waidman (2012) afirma que para aliviar esse
sofrimento uma das formas mais utilizadas é o afastamento ou isolamento social, ou
seja, os familiares deixam de frequentar sua casa e por outro lado, os que residem com o
psicótico pouco saem ou não exercitam o convívio social, com receio de alguma atitude
lhes cause constrangimento. Dessa forma, o afastamento ocorre como meio de se proteger
dos desafios oriundos do mal-estar ocasionado pela psicose, em que o necessário seria
a procura de ajuda de um profissional que esclarecesse sobre a mesma, auxiliando o
familiar a manejá-la. Com relação a isso, Divina nos diz que seus filhos pouco frequentam
sua casa, devido aos problemas enfrentados no que diz respeito a José, e em função dos
cuidados que presta ao filho adoecido, relata que raramente faz visitas aos demais filhos
que residem em sua cidade.
Devido ao acúmulo de tarefas tanto domésticas quanto de cuidados com o sujeito
psicótico, o familiar cuidador recebe, então, encargos que podem atingir níveis emocionais,
físicos e financeiros. De acordo com Barroso et al., (2007, p.271) a sobrecarga subjetiva
refere-se “às percepções, preocupações, sentimentos negativos e incômodos gerados
por tornar-se cuidador de um paciente psiquiátrico”, mais especificamente refere-se à
percepção ou avaliação pessoal do cuidador sobre a situação. Enquanto que, a sobrecarga
objetiva refere-se às dificuldades concretas e observáveis geradas pelo papel de cuidador,
como por exemplo, mudança das atividades cotidianas, limitações no estabelecimento de
vínculos sociais, perdas financeiras, realização de múltiplas tarefas e constante supervisão
de comportamentos problemáticos (Barroso et al., 2007; Brischiliari & Waidman, 2012;
Estevam, Marcon, Antonio, Munari & Waidman, 2011). Pode-se constatar que, as diversas
restrições a que o cuidador está sujeito, como seu lazer e atividades sociais prejudicadas,
tem elevado potencial para gerar encargos subjetivos nesses familiares.
No relato da cuidadora entrevistada, ela destaca que sua rotina, desde o início
das crises do filho, se resume a “ser uma dona de casa” (SIC), pois, como ela mesma
expõe, não recebe visita de familiares, mas, ocasionalmente, visita alguns de seus filhos.
Portanto, seu dia a dia compreende-se a ficar em casa e cuidar do filho psicótico. Quanto
a isso, Santos e Cardoso (2012) afirmam que restrições quanto à vida social e pessoal
são passíveis de afetarem a qualidade de vida do familiar cuidador, contribuindo para a
sobrecarga dos mesmos. Pode-se pensar então, que, essa mudança na rotina da cuidadora,
a restrição do convívio social e de lazer, podem já demarcar um indicativo de mal-estar
da cuidadora em evidência.
De acordo com relatos de Divina o primeiro surto de seu filho ocorreu enquanto o
mesmo servia ao Tiro de Guerra em Brasília (DF), ocasião coincidente com a crise política
e econômica que assolava o país na década de 90, período este governado por Fernando
Collor de Melo. Devido à crise na economia brasileira, a inflação beirava 2.000% ao
ano, na circunstância, a medida adotada foi o confisco pelo Banco Central de quantias
superiores a 50 mil cruzados novos depositados em poupança. Divina associa a ida do
filho para o Tiro de Guerra e a crise econômica ao primeiro surto de José.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
231
O cuidado nos períodos de surto
Em relação ao próprio desejo, Divina nos relata submeter-se a vontade de José,
como forma de evitar conflitos e tentar minorar o mal-estar oriundo da fase aguda de
seus momentos de surto. De acordo com seus relatos, o filho mostra-se desnorteado e
agressivo, comportando-se de maneira destoante de seu modo comum de ser quando
não está em crise. Em tais períodos, Divina acaba encontrando na internação do filho em
hospital psiquiátrico, uma alternativa para amenizar o sofrimento enfrentado. De acordo
com Pegoraro e Caldana (2006) o medo ou o estado de alerta que alguns cuidadores
experienciam durante um surto psicótico, seja pelos comportamentos apresentados ou
mesmo por uma possível agressão à família, contribuem para os encargos emocionais.
Essas mesmas autoras verificaram maior grau de encargos subjetivos em momentos de
crise, quando comparados a momentos sem crise, pois na crise, o familiar cuidador se
depara com a sensação de impotência quanto ao modo de atuar diante dos comportamentos
apresentados, de forma que recorrem ao auxílio e cuidado dos serviços de saúde. Santos
e Cardoso (2012) apontam que no cuidado da pessoa em sofrimento mental, o cuidador
necessita desenvolver recursos internos bem como estratégias para lidar com as situações
vividas e se adaptar às mesmas. O que pode ser percebido nas atitudes que Divina toma
para evitar que José se altere.
Apesar do mal-estar vivido por Divina ela não se permite abandonar o filho, pois
como a mesma relata “ele não tem condições de ficar sozinho” (SIC). Além disso, ela não
possui saídas para deixá-lo, visto que seus outros filhos se distanciaram e não a ajudam no
cuidado de José. Essa mãe e cuidadora expressa sua dificuldade em lidar com José, mas
afirma que deve ter paciência, acrescentando que “só mãe consegue”. Assim, ela assume
um papel de cuidadora que lhe foi atribuído pelas situações em que vive, apesar de também
considerar como uma incumbência própria (Estevam et al., 2011). Percebe-se assim, sua
fala corrobora este estudo ao enfatizar que esse papel de cuidadora de um sujeito psicótico
é algo tão natural quanto ser mãe. Em seu imaginário, Divina parece estar margeada pelas
características da beleza da mulher da era Vitoriana, quando a presteza com os afazeres
do lar e o cuidado com o outro diziam dos valores atribuídos ao feminino.
Em seus relatos sobre as dificuldades de convivência com os períodos de crise,
Divina deixa claro o desejo de que os outros, principalmente seus familiares, aceitem
José, assim como ela o aceita. Brischiliari e Waidman (2012) corroboram em seus estudos
ao dizerem que o desejo de ver a união da família com o sujeito psicótico, onde haja
compreensão, aceitação e amizade entre eles demonstra a busca por superar os problemas
relacionados à psicose. Porém, essa preocupação em obter a união da família pode indicar
que o cuidador esteja considerando um substituto para assumir seu papel. Os cuidadores
imaginam que em sua ausência os conflitos podem se intensificar, para tanto, tentam unir
os membros da família, e assim, juntos, busquem soluções para seus problemas.
Apesar de toda adversidade dos momentos de crise. Divina afirma que jamais se
desesperou com a circunstância em que vive, enfatizando que deve seguir a vida. O
estudo de Estevam et al., (2011) e Colleti et al., (no prelo) confirmam a posição da mãe,
ao considerarem que apesar de os familiares expressarem que a vida segue seu curso,
percebe-se que as circunstância vividas lhes causam muito sofrimento. Diante do exposto,
denota-se no discurso de Divina seu mal estar expresso por uma emotividade contida e
232
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
uma fala engasgada ao referir-se ao filho, simultaneamente a sua tentativa de conseguir
superar a situação. Barroso et al., (2009) chegam à mesma conclusão em seus estudos
aos afirmarem que os familiares mesmo ao se sentirem sobrecarregados, demonstram
satisfação em cuidar do ente, o que pode ser explicado pela companhia que esse familiar,
mesmo adoecido, proporciona. De certa forma, parece ser o caso de Divina, já que ela é
uma senhora que mora sozinha com o filho e quase não tem convívio social.
Com relação a tal situação, somos também levados a refletir sobre uma possível
modalidade de regulação de gozo que pode estar como pano de fundo de tal estado de
mal-estar suportado. Devemos lembrar que o conceito de gozo, como bem nos lembra
Lacan (1985/1973) pode levar o sujeito à experiência das mais elevadas condições de
êxtase aos mais funestos estados de destrutividade. Por não se tratar de um estudo com
substancial aprofundamento vertical, mas sim de natureza mais exploratória, não podemos
conjecturar em que medida tal extração de gozo possa estar presente no estabelecimento
do laço entre a mãe e o filho. Porém tal colocação não poderia deixar de ser mencionada
e carece de uma investigação mais aprofundada em estudos futuros.
Percebe-se na fala de Divina certa valorização do hospital psiquiátrico especialmente
para os períodos agudos dos surtos, dizendo que “eles tratam bem também, mal de nós
se não fosse lá” (SIC), remetendo-se ao serviço oferecido pelo hospital. Ela demonstra
receio de que algum dia o hospital psiquiátrico possa ser fechado, se apoiando na oferta
do hospital de tal forma que atribui a ele uma entidade salvadora, pois, quando José entra
em crise, Divina solicita o serviço do hospital psiquiátrico que prontamente o busca e o
interna. Como ela mesma diz “ele vai ruim e volta bom do sanatório” (SIC). De acordo
com Estevam et al., (2011) e Colleti et al., (no prelo) a internação por vezes torna-se
uma alternativa para a situação insuportável de ansiedade e temor diante de um surto, e,
de certa forma, representa uma via de manutenção da estrutura familiar.
Divina parece desconhecer as demais alternativas em saúde mental, como por
exemplo, os serviços ambulatoriais ou o próprio CAPS, atribuindo ao hospital psiquiátrico
um local privilegiado para os momentos de crise do filho. Divina, assim como grande
parte da própria população que faz uso dos serviços de saúde mental parece não estar
informada sobre todo o processo da reforma psiquiátrica iniciada ainda em fins da década
de 80. O conhecimento da possibilidade e participação para criação de uma rede de apoio
integral da qual seu filho possa se beneficiar evitando a internação no hospital psiquiátrico,
auxiliaria no progresso e bem-estar mental de ambos. De acordo com Paiva e Yamamoto
(2007) por falta de opção, os familiares acabam por ceder a opção de levar o sujeito em
crise para o hospital psiquiátrico, colocando em risco os ganhos de ressocialização obtidos
nos Centros Psicossociais. Dessa maneira, a reforma psiquiátrica precisa de avanços para
que os usuários dos serviços substitutivos sejam beneficiados nos momentos críticos e
sejam sanados do enclausuramento do hospital.
Divina diz que as internações no hospital psiquiátrico não duram mais que 40
dias, mas que, como José apresentava crises muito frequentes, ela chegou a oferecer
que seu filho morasse na instituição, prometendo até um abono caso eles o aceitassem,
porém seu pedido foi negado. Santos e Cardoso (2012) afirmam que a busca pela
internação psiquiátrica pode ser devido à falta de suporte para lidar com a situação de
surto, objetivando assim, alívio do sofrimento tanto de si próprios quanto do familiar
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adoecido. Muitas vezes, dadas as condições sociais de miserabilidade, vilipêndio e
descartabilidade das classes mais baixas de uma sociedade, conviver com a loucura
se torna insuportável.
Ao ser introduzida a questão dos CAPS, como possível suporte também para
os momentos de crise, Divina demonstra não conhecer os princípios que regem essa
instituição. Apesar do desconhecimento, afirma ter notado melhoras em José desde
que ele a tem frequentado, uma vez que suas crises não têm sido tão frequentes,
atribuindo a isso o efeito das medicações que ele toma e do suporte psicológico que
ele recebe. Divina diz apenas frequentar as reuniões que acontecem no CAPS, quando
sua presença é solicitada. Embora não questione o tratamento concedido ao filho, ela
diz sentir-se desconfortável ao ouvir do mesmo, reclamações sobre medicamentos e
injeções. Os estudos de Estevam et al., (2011) indicam que o desconhecimento sobre
o sofrimento psíquico e de sua sintomatologia, deixam uma lacuna na compreensão
do quadro do familiar, carecendo, assim, de informações qualificadas. José relata que
frequenta o CAPS duas vezes na semana há aproximadamente dez anos, declarando
que se sente “estruturado físico e mentalmente”(SIC) ao conversar com a psicóloga e
em atividades grupais.
A desinstitucionalização tem a ver com a mudança na forma da concepção de
sujeito pelo saber psiquiátrico. Anteriormente, este conferia à suposta “doença” o foco
de sua intervenção, ao invés de trabalhar o sofrimento do sujeito. A instituição como
forma de separação entre o sujeito e meio social não perderá suas forças se apenas
desospitalizarmos, no sentido de retirarmos o sujeito dos hospitais psiquiátricos. Faz-se
necessário a mudança do paradigma sobre a loucura. A desinstitucionalização segundo
Rotelli (2001, p.94) é voltada então para “reconstruir as pessoas como atores sociais, para
impedir-lhes o sufocamento sob o papel, o comportamento, a identidade estereotipada
e introjetada que é a máscara que se sobrepõe à dos doentes”. Para tanto, a ênfase não
mais recai sobre a “doença” e sim sobre o sujeito, no qual surge a importância de sua
reinserção social e da consideração de sua subjetividade.
Instituições, alienação e o sujeito psicótico
Após a ocorrência do primeiro surto, iniciou-se o percurso de José pelos serviços
de Saúde Mental. Com relação às internações em hospital psiquiátrico, Divina conta
que nas primeiras vezes o filho voltava para casa machucado, desconhecendo quem
ocasionava as agressões. Ele não sabia se eram causadas pelos próprios profissionais do
hospital psiquiátrico ou demais internos. Com relação a esse recorte do caso, Basaglia
(1985) diz que em instituições totalitárias a violência é difundida como forma de
dominação e de exclusão. Violência essa provinda dos próprios técnicos do hospital
psiquiátrico, buscando legitimação a partir de seu conhecimento técnico-científico
para a propagação de formas de violência, como essa brevemente elucidada no caso
de José. Por vezes essas formas de violência são veladas, e o indivíduo sequer chega
a ter consciência dela, por isso a dúvida da mãe de José em reconhecer se o filho foi
de fato violentado.
Em relação ao Hospital Psiquiátrico, José afirmou gostar muito da instituição,
embora relate não ter abertura para conversar com os profissionais que trabalham no
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local, ressaltando que, diferentemente do CAPS, participou apenas uma vez de um
grupo dirigido por uma psicóloga. Chauí (1980) pontua que esse contrassenso é uma
consequência da própria contradição do mundo social. As relações do indivíduo com
sua classe apontam para uma relação alienada. A sociedade, o estado e as instituições
aparecem para o sujeito com sua força, com seu poder, numa posição já concebida, os
dominando e os fazendo submissos. Tal relação de dominação e submissão acontece de
maneira tão imediata e determinada, que não permite ao indivíduo pensar ou agir por si
só, mas sim, ser e agir a partir do que é infligido a ele. Percebe-se, pois, que a ideologia
é um fenômeno utilitário, que acontece pelas condições concretas da existência social
do sujeito. A partir do momento que permeia esse tipo de relação, os sujeitos passam
a não reconhecer-se como os próprios fazedores e mantenedores da circunstância. A
autonomia da instituição para com eles acaba acontecendo inversamente, enquanto
aqueles são os impulsionadores das ações destes (Chauí, 1980). Esse processo se
concretiza, portanto, por meio da alienação. As condições reais de existência do
sujeito não são mais produzidas por si, mas, como consequência das forças externas
institucionais.
Outro ponto relevante do discurso do sujeito aponta que seus dias eram monótonos
e sua rotina consistia em fazer as refeições diárias básicas, ser medicado e relaxar
no pátio, onde permanecia a maior parte do tempo. O hospital psiquiátrico pode ser
visto, na perspectiva ideológica, como um lugar zero de troca. Isso quer dizer que,
enquanto seus internos são as mercadorias que detém um valor de troca baseado no
seu tempo de investimento, de engajamento, cuidado e serviço dedicado aos mesmos,
essa instituição sequer parece investir nos sujeitos (tornados eternos pacientes) para
que socialmente sejam mais valorizados e reinseridos com maior dignidade no meio
social (Chauí, 1980).
Em um fragmento do seu discurso, José relata um mal-estar comum de ocorrer
na instituição. Na ocasião, um dos profissionais da enfermagem, estava “dominando
os mais fracos” (SIC), o que despertou sentimentos de raiva e levou José a agredir o
profissional. De acordo com Basaglia (1985) uma das características mais marcantes
de uma instituição é a clara divisão entre os que tem poder e os que não o tem,
resultando na divisão das funções e o estabelecimento de uma relação de opressão
e de violência. O autor destaca ainda que os detentores do saber médico utilizam-se
de seu conhecimento técnico para fazer com que seu objeto de violência, no caso o
sujeito institucionalizado, se adapte a violência, sem sequer chegar a ter consciência
dela e sem poder reagir a ela. Uma das formas de poder descritas por Foucault (1988)
em relação aos corpos, diz respeito à domesticação exercida pelos dispositivos do
biopoder. Para tanto, há necessidade de se adestrar o homem, moldá-lo segundo as
necessidades e interesses da instituição, torná-lo dócil para facilitar a adaptação aos
sistemas de controle, que caracterizam, entretanto, as instituições de disciplina. Como
já identificado, no relato de Divina há evidências da ocorrência de hematomas no corpo
do filho que, poderiam ter acontecido em decorrência de comportamentos considerados
indevidos pelos profissionais que “dominam os mais fracos” (SIC), em um local onde
o cuidado humano deveria ser referencial.
José não se reconhece mais como produtor de sua própria história, sendo
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progressivamente submetido ao meio que o insere, o hospital psiquiátrico. Basaglia
(1985, p.121) diz que ao ser inserido em uma instituição, o sujeito não é mais visto
como sujeito, e sim como um corpo doente, sendo levado “a fazer dessa instituição seu
próprio corpo, incorporando a imagem de si que a instituição lhe impõe”. O sujeito se
torna então, objeto da instituição, subordinado a dominação técnica enquanto que seus
desejos e seu Eu lhe são negados. No caso de José, pode-se pensar que, devido ao seu
longo histórico de internações psiquiátricas, tenha perdido parte de sua identidade ao
se identificar com a instituição. Assim, podemos conjeturar que, ao se referir a esse
estabelecimento, faz menção a ele como um lugar bom e agradável, ainda que o mesmo
seja lócus de tamanhas mazelas.
Considerações
No processo de escuta de Divina, pudemos perceber que o convívio com a psicose
exigem que ela assuma posições para além de ser mãe, a de cuidadora exclusiva do filho,
que, por sua vez, são passíveis de acarretar encargos físicos e emocionais, provocando
um constante estado de alerta à espera de um iminente surto de José. Percebemos, dessa
forma, o desamparo e a falta de apoio da mesma no que se refere aos serviços de saúde
mental disponíveis a ela, tanto o hospital psiquiátrico quanto o CAPS, pois, tais instituições
não conseguem suprir sua demanda emocional, além de não receber também apoio dos
familiares nos cuidados do filho psicótico. Diante disso, a evidente vulnerabilidade da
cuidadora, clama pelo apoio das equipes atuantes nos serviços de saúde mental, no sentido
de acompanhá-la em suas vivências com o filho e esclarecer-lhe sobre estratégias de
enfrentamento nas situações de crise.
Quanto a José, ao ser inserido em uma instituição totalitária, parece vivenciar uma
relação de dominação e submissão nas ocasiões de internação em alguma instituição
manicomial. Tal modelo de tratamento que vigorou desde fins da idade média, não zela
pela autonomia, alienando ainda mais o sujeito em dispositivos protecionistas e que não
permitem o deslizamento de novos sentidos à psicose.
Em relação ás acadêmicas, o presente relato de experiência propiciou, além do
acréscimo de conhecimento, o desenvolvimento de estratégias para a conduta profissional
em situações de vulnerabilidade e risco. O referido trabalho oportunizou também, ampliar
o conhecimento acerca da temática discutida, que abarca o histórico de saúde mental e
o papel do cuidador envolvido no processo, população esta que desfruta de pouco zelo
apesar do sofrimento que permeia suas vidas.
Pensando que a proposta do CAPS é o tratamento do mal-estar e reinserção do
indivíduo à sociedade, deve-se também incluir a família ligada a esse sujeito fazendo
a articulação conjunta entre serviço e familiares para que a internação em hospital
psiquiátrico seja de fato o último recurso. Por se tratar de um relato de experiência, o
presente estudo traz consigo algumas limitações, sendo apenas um recorte da realidade
das vivências de todos os envolvidos, o que, de certa forma, não permite generalizações.
Embora, seja perceptível a presença de encargos subjetivos na cuidadora, avaliou-se
esse aspecto apenas de modo subjetivo por meio de relatos da participante em momentos
pontuais de sua história de vida.
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_____________________________
Recebido em maio de 2014
Aceito em julho de 2014
Nayara Gomes Braga: Acadêmica de Psicologia da Universidade Federal do Triângulo Mineiro.
Nathália de Freitas Costa Fernandes: Acadêmica de Psicologia da Universidade Federal do Triângulo
Mineiro.
Tiago Humberto Rodrigues Rocha: Psicólogo, Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia
(UFU), Doutorando em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), Professor Assistente do
Departamento de Psicologia Clínica e Sociedade da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM),
Membro do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP-SP (LATESFIP).
Endereço para contato: [email protected]
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Aletheia 43-44, p.239-247, jan./ago. 2014
Compartilhando saberes: relato de uma intervenção
com professores
Magda Pozzobon
Fernanda Aparecida Szareski Pezzi
Angela Helena Marin
Resumo: O presente artigo consiste no relato da experiência de uma intervenção desenvolvida com
55 professores de uma escola pública da rede de ensino fundamental de São Leopoldo/RS. Esta
consistiu em três encontros mensais, realizados na própria instituição, cujo objetivo foi facilitar
um ambiente para reflexões sobre motivação para o trabalho, comunicação e relacionamento entre
colegas e entre professor-aluno, além de destacar a importância do papel do professor. Constatouse que os participantes mostravam-se ávidos e dispostos a buscar soluções para os conflitos que
viviam no trabalho e ficou explícita a necessidade de serem reconhecidos e manterem-se motivados
diante dos dilemas profissionais. Aponta-se para a necessidade de intervenções de fluxo contínuo
que possam instrumentalizar os professores, especialmente no que tange às questões de motivação,
relacionamento interpessoal e autoestima.
Palavras-chave: professor; trabalho docente; intervenção.
Sharing knowledge: Report of an intervention with teachers
Abstract: This paper is a report of an intervention developed with 55 teachers of an elementary
public school of São Leopoldo/RS. This consisted of three monthly meetings held at the institution
with objective to facilitate reflections on work motivation, communication and relationship between
colleagues and between teacher and student, highlighting the importance of the teacher’s role.
Participants showed up eager and willing to seek solutions to the conflicts that they lived at work
and it was explicit their need to be recognized and remain motivated to face professional dilemmas.
It points to need for continuous flow of interventions that can improve the teachers´ work, especially
in motivation, interpersonal relationships and self-esteem.
Keywords: teacher; teaching; intervention.
Introdução
O trabalho com professores e equipes diretivas do sistema de ensino da rede
pública possibilita observar a ansiedade e o sofrimento emergentes no cotidiano escolar.
Nesse sentido, os professores são bastante exigidos em suas habilidades de resolução
de conflitos, seja com seus alunos ou colegas de trabalho, sentindo-se, muitas vezes,
emocionalmente despreparados e desgastados, o que pode levar ao estresse e à Síndrome
de Burnout, especialmente quando se percebem pouco valorizados e instrumentalizados
para a realização de suas atividades (Leite & Löhr, 2012; Barutçu & Serinkan, 2013).
A docência exige do professor a capacidade de se comunicar afetivamente, de
motivar o aluno e incentivá-lo nos seus desafios e progressos (Demetriou & Wilson,
2009; Immordino-Yang & Damasio, 2007), além da habilidade de resolver problemas
interpessoais inerentes ao convívio grupal (Ribeiro, 2010). Desta forma, a atuação
do professor acaba influenciando a motivação do aluno e o seu envolvimento com o
estudo (Cunha, 2005; Del Prette & Del Prette, 2001; Ribeiro, 2008). De igual forma, o
modo como o professor se expressa e compartilha sua autoridade imprime um padrão
de funcionamento na turma (Guimarães, 2001; Guimarães & Boruchovitch, 2004),
podendo prevenir, inclusive, o bullying, fenômeno que tem atingido em proporções
preocupantes (Oliveira-Menegotto, Pasini, & Levandowski, 2013).
Nesta perspectiva, compreende-se que apesar das muitas dificuldades e desafios
existentes no sistema escolar e no processo de ensino-aprendizagem, como em
qualquer profissão, ensinar tem suas possibilidades e limites e os professores devem ser
desafiados a assumirem suas responsabilidades, seu papel, visando mais eficácia em suas
atividades e atitudes (Mellouki & Gauthier, 2004). Para tanto, sua instrumentalização
se faz necessária (Guimarães & Boruchovitch, 2004), tendo em vista que, quando bem
preparados, constituem uma grande ajuda para os alunos, podendo ensiná-los e ajudálos a enfrentar problemas emocionais ou interpessoais.
Em contraponto, estudos indicam que o professor não se encontra
instrumentalizado, pois tem havido uma perda progressiva de seu poder e sua
autoridade, reforçada pela concomitante perda de autoridade das figuras parentais,
sinalizando um momento de carência de referências para todos: pais, professores e
alunos (Antelo, 2004). Tal dado reforça a necessidade de repensar a formação dos
professores, pois um profissional autômato, sem poder, com sua identidade fragilizada
pouco consegue auxiliar na construção de um ser autônomo. Conforme Honorato
(2011), é preciso preparar-se para os desafios que este momento exige, buscando o
maior empoderamento do professor, o encontro de sua identidade e consequentemente,
sua capacidade de formar cidadãos.
Nesse sentido, intervenções com professores no sistema escolar têm sido indicadas
com vistas a auxiliá-los a lidarem com o estresse e o adoecimento oriundo de sua
profissão (Barutçu & Serinkan, 2013) e algumas têm sido desenvolvidas e avaliadas
por pesquisadores (Andaló, 1984; Cunha & Betini, 2003; Honorato, 2011; Leite &
Löhr, 2012; Patias, Blanco, & Abaid, 2009). De modo geral, tais intervenções, por se
constituírem como espaços que auxiliam a ressignificar o modo de ver e de fazer dos
professores, proporcionam a eles se moverem de uma posição de culpabilização para
uma postura de mediação, pois ampliam seu olhar, escuta, sensibilidade, identidade,
consciência e motivação frente ao processo de ensino-aprendizagem. Assim, acreditase na validade de intervenções que instrumentalizem o professor, mesmo que sejam
pontuais e de curta duração.
Com esse intuito, o objetivo do presente estudo foi descrever uma intervenção
desenvolvida com professores de uma escola pública da rede de ensino fundamental
de São Leopoldo/RS. Esperava-se proporcionar um espaço de escuta e discussão com
vistas a perceber a motivação dos professores, bem como auxiliá-los na busca de um
novo posicionamento em relação à comunicação e a resolução de conflitos entre colegas
e em sala de aula. Além disso, pretendia-se valorizar e destacar a importância do papel
do professor na sociedade atual.
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Método
A proposta da intervenção nasceu da necessidade, observada pela equipe diretiva
de uma escola pública da rede de ensino fundamental de São Leopoldo/RS, de motivar os
profissionais a pensar em possibilidades de maior aproximação entre eles e seus alunos,
visando imprimir maior envolvimento e comprometimento de todos para fortalecer
o processo de ensino-aprendizagem de crianças e adolescentes. A equipe diretiva
possibilitou que os encontros fossem realizados no horário das reuniões já previstas na
carga horária docente. Participaram, portanto, todos os professores da escola, totalizando
55 profissionais. A coordenação da intervenção foi realizada por duas psicólogas que já
estavam inseridas nesta escola por serem mestrandas no Programa de Pós-graduação em
Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), que tinha estabelecido
uma parceria com o local para desenvolver uma proposta de pesquisa.
Como dito, este estudo faz parte de um projeto de pesquisa maior1, motivo pelo qual
os procedimentos éticos de autorização da Secretaria de Educação de São Leopoldo-RS
e a carta de anuência da Direção da Escola para a realização da intervenção já haviam
sido cumpridas (Protocolo de aprovação do CEP-Unisinos N° 12/084).
A intervenção consistiu na realização de três encontros de frequência mensal com
os professores no auditório da escola, que foram planejados e organizados de acordo com
a disponibilidade do grupo na ocasião. O primeiro e o terceiro encontros tiveram uma
hora e meia de duração e o segundo, uma hora. Foram abordados os seguintes temas:
1) motivação; 2) comunicação e relações interpessoais; 3) importância do professor
e sua relação professor-aluno. Destaca-se que os temas dos dois últimos encontros
foram sugeridos pelos próprios participantes. Como uma forma de avaliação, ao final
de cada encontro, os professores responderam a um questionário sobre o trabalho
desenvolvido.
Resultados e discussão
No primeiro encontro a intervenção teve seu início com a exibição do filme
motivacional intitulado “O sapinho surdo”, cujo objetivo principal foi mostrar a
importância da motivação diante dos desafios do cotidiano. A intenção era estimular a
reflexão sobre o trabalho em equipe (apoio, estímulo), motivação individual e grupal e
rede de apoio. Foi proposto que os professores se reunissem em grupos por afinidade
e debatessem sobre o tema motivação, a partir de duas perguntas: 1) o que mantém
sua motivação diária para o trabalho? 2) Quais as motivações que a/o mantém nesta
profissão?
Esta atividade foi seguida pela exposição dos conteúdos debatidos em quatro grupos
(G1-G4) e vários temas foram explicitados, tais como a necessidade de contar com os
colegas e a importância de manter a motivação, apesar do cansaço, conforme explicitam as
falas: “É muito difícil se “automotivar” diante das dificuldades. Precisamos de parcerias
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Projeto de pesquisa financiado pelo CNPq, que tem como título: “Fracasso escolar: sintoma e/ou reatividade
ao sistema de ensino?”, coordenada pela Dra. Angela Helena Marin.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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que realmente funcionem para não nos sentirmos isolados diante dos problemas” (G1)2;
“O que nos move é a necessidade do trabalho, a construção de amizades sinceras e o
reconhecimento!” (G2); “O que nos motiva é realizar sonhos, metas e objetivos (...) os
desmotivadores também nos motivam!” (G3); “Apoiar-se uns nos outros, procurando
apoiar quem está mais vulnerável e buscar amparo naqueles em quem confiamos quando
estamos exauridos e desesperançados” (G4).
Um dos professores relatou emocionado uma experiência pessoal, relacionando o
sucesso em sua carreira e a relação prazerosa na sua vida particular decorrente de sua
profissão. Ele referiu a sensação de orgulho e felicidade por poder sustentar sua família
e ter comprado sua casa, o que o mantém motivado. Por outro lado, outros professores
relataram as dificuldades que encontravam em manter sua motivação frente aos desafios
diários. Alguns rostos na plateia apresentavam sinais de cansaço e seus corpos revelavam
uma postura de desânimo e desmotivação.
Seguiu-se uma roda de elogios, em que cada um se dirigia ao centro do grupo
e suas qualidades eram nomeadas e reconhecidas por todos os demais integrantes. O
encontro foi finalizado com uma música e muitos professores dançaram espontaneamente,
demonstrando prazer por participarem desta atividade lúdica. A coordenadora da escola,
orientada anteriormente por uma das psicólogas, tomou a palavra e elogiou todo o grupo
de professores, parabenizando-os pela colaboração, persistência e profissionalismo que
vinham demonstrando. A seguir, foi solicitado o preenchimento de uma avaliação da
atividade e sugestões para os próximos encontros. As principais temáticas sugeridas
foram: relações interpessoais, resolução de conflitos e convivência.
Observou-se que o clima tenso do início foi aos poucos sendo amenizado e os
debates aqueceram o encontro, motivando a participação e o envolvimento de todos. A
roda de elogios emocionou muitos participantes e tornou o grupo mais receptivo. Houve
troca de abraços e muitas lágrimas. A música também trouxe o desejo e a motivação
para cantar e dançar em grupo, imprimindo sensibilidade ao encontro. Contudo, nenhum
questionamento foi proferido pelos professores às psicólogas durante todo o encontro,
causando a sensação de que aceitaram as atividades, mas não se sentiram à vontade para
interagir, perguntar, contrapor, dar opinião de forma livre ou participar mais ativamente,
lembrando a passividade a que se refere Honorato (2011). Alguns professores também
foram embora sem preencherem o instrumento de avaliação. No entanto, nenhum deles
deixou o ambiente da escola durante a realização da atividade, pois, de acordo com a
equipe diretiva, o abandono durante as formações era uma atitude que vinha se repetindo
nesta escola há bastante tempo.
O segundo encontro, por sua vez, ocorreu um mês após e iniciou com a apresentação
de slides que contemplaram o tema “comunicação e relacionamento interpessoal”.
Um elo de relação com o primeiro encontro foi estabelecido em busca de reforçar as
aprendizagens adquiridas, seguido por uma vivência de comunicação em duplas, na qual
cada professor deveria escutar o colega e, em seguida, era pelo outro escutado. Após este
exercício, foi promovida uma reflexão sobre como cada um se percebeu ao escutar e ser
escutado. Em uma discussão dinâmica entre as psicólogas e os professores, exemplos da
2
A letra e o número entre parênteses identificam o grupo no qual a fala foi verbalizada.
242
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forma como a comunicação e as relações interpessoais se estabeleciam no seu cotidiano
foram trabalhados.
Os professores mostraram-se, novamente, esquivos no início das atividades, mas
a tentativa de proximidade e a utilização de humor e exemplos do cotidiano por parte
das psicólogas possibilitou risadas e respostas mais espontâneas. A temática trabalhada
mobilizou bastante o grupo e proporcionou reflexões sobre o comportamento e a
responsabilidade de cada um frente aos desafios do convívio entre colegas, na relação
com os alunos e também com seus familiares. Perceberam-se reações afetuosas e
algumas expressões de raiva, observadas no questionário de avaliação do encontro, que
foi respondido com fortes traços do lápis na resposta “ruim” ou “insatisfeito” com as
atividades desenvolvidas. Entende-se que responsabilizar-se por seus comportamentos
significa não culpabilizar o outro e este entendimento pode passar por uma primeira fase
de negação.
Por fim, no terceiro encontro, teve-se como objetivo exaltar a importância do
professor e da relação afetiva entre professor-aluno, especialmente porque o encontro
ocorreu no “Dia do Professor”. Para este momento, foram preparadas atividades com a
utilização de recursos expressivos, tendo em vista a importância da arte como expressão
da subjetividade humana e a suas possibilidades lúdicas e terapêuticas (Vasconcellos
& Giglio, 2007). Na tentativa de propiciar novos agrupamentos entre eles e evitar a
tendência percebida de trabalharem sempre com as mesmas pessoas foram distribuídos
papéis contendo números de um a seis e solicitado que se reunissem pelo número, assim
formando seis grupos (G1 a G6) de professores de vários locais do auditório.
Cada grupo foi separado em uma sala de aula. Foi dado o poema “O professor e o
aluno”, de autoria de Silas Corrêa Leite, e solicitado que lessem e trocassem opiniões,
impressões e emoções sobre ele. Ao final da discussão, cada grupo foi orientado a
expressar a essência do que foi debatido por meio de recursos expressivos e apresentar
ao grande grupo, sendo que: o G1 deveria fazer uma peça teatral e o G2 um teatro mudo;
o G3 confeccionaria algo utilizando sucatas (garrafas pet descartáveis, potes, caixinhas,
linhas, fitas, lãs, papéis diversos, tintas, pincéis); o G4 faria uma colagem em papel
pardo, utilizando papéis coloridos, revistas, tesouras, cola, grampeador, fitas, lã, canetas
coloridas, lápis e giz de cera; o G5 faria uma pintura a guache em cartolina branca; e o
G6 comporia a letra para uma melodia já existente, fazendo uma paródia.
As apresentações dos trabalhos realizados ocorreram em meio a risadas e palmas
de uma plateia receptiva, que homenageava cada grupo que se apresentava. Após as
apresentações, houve uma dinâmica na qual os professores foram comparados a luzes,
pois iluminam mentes, corações, sonhos e caminhos, ajudando a construir futuros. Cada
um segurou uma pequena vela e, a partir de uma chama inicial, todos foram acendendo
sua luz, incitando a ideia de que podem se iluminar, acendendo motivações e outros
sonhos entre eles, para que sempre se sintam aquecidos nesta chama. O encerramento
ocorreu com uma música trazida pelos próprios professores.
Constatou-se que no início do terceiro encontro ocorreram algumas reclamações
sobre a separação dos grupos e as tarefas propostas. Entretanto, as atitudes de rejeição
desapareceram ao longo do encontro e todos se comprometeram com as atividades. Os
grupos trabalharam com coesão, criatividade e a colaboração foi homogênea. A dinâmica
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com as velas causou bastante emoção, mas novamente o encerramento revelou um rápido
afastamento entre os colegas, numa demonstração de que seriam necessários vários
encontros para que uma aproximação mais efetiva ocorresse.
Considerando o conjunto dos encontros, algumas questões se destacaram e é
importante refletir sobre elas. O trabalho teve início num clima tenso, por isso buscou-se
fazer a aproximação entre os professores e as psicólogas através da empatia. Falou-se sobre
a admiração pela profissão, sua importância social e de que modo a intervenção poderia
colaborar para que todos refletissem sobre temas que considerassem importantes em seu
fazer diário. Apesar disso, houve tentativas de esquiva ao contato por meio da escolha
de lugares situados ao fundo do auditório, comportamento que se repetiu a cada novo
encontro, como se não houvesse possibilidade de avançar na aproximação e intimidade.
Assim, cada novo encontro era um recomeço, o que nos remete às considerações de
Mahoney e Almeida (2005) e de Ribeiro (2010) quando se referem às dificuldades
afetivas que podem envolver o processo de ensino-aprendizagem, especialmente devido
às limitações dos profissionais de educação na expressão de seus sentimentos.
Neste mesmo sentido, Patias et al., (2009) encontraram resistência por parte dos
professores na intervenção que realizaram, mas obtiveram resultados satisfatórios quanto
à instrumentalização destes profissionais. Leite e Löhr (2012) também discutiram que o
início de um trabalho de intervenção com professores e o estabelecimento de um vínculo
podem ser dificultados devido ao processo de culpabilização que ocorre na escola, ou
seja, a tendência de a culpa pelas dificuldades encontradas serem atribuídas a eles e o
consequente julgamento de que uma intervenção poderia ter a mesma intenção. Assim,
para os autores, as intervenções devem ter o objetivo de instrumentalizar estes profissionais
com vistas à deslocá-los da postura de culpabilização para a da mediação e resolução das
dificuldades encontradas no cotidiano profissional. A brevidade da intervenção realizada
não possibilitou este movimento, mas percebeu-se o desejo dos professores de continuarem
obtendo ajuda para este fim, pois mesmo com os aparentes comportamentos evitativos,
constatou-se que todos permaneciam até o término das atividades.
Ressalta-se, também, que durante duas oportunidades em que as psicólogas foram
convidadas pela equipe diretiva para lanchar junto com os professores, não houve
nenhuma tentativa de aproximação, mas sim de afastamento. Este comportamento pode
ser entendido como timidez, baixa autoestima ou baixa capacidade dos professores em se
relacionarem afetivamente, haja visto que os temas relações interpessoais e resolução de
conflitos foram solicitados pela maioria deles. Por outro lado, o convite para o trabalho
tinha partido da equipe diretiva e não havia o estabelecimento de um vínculo anterior
com esses profissionais, o que pode ter intimidado os participantes e dificultado o contato.
Nesta perspectiva, ressalta-se a importância da construção de uma relação de confiança
e afeto entre os professores e os coordenadores da intervenção, bem como entre seus
pares, afim de que este espaço se torne potencializador de aprendizagens (Nunes, Pontes,
Silva, & Dell’Aglio, 2014).
Juntamente com as reflexões apresentadas, pode-se pensar sobre a perda de poder
e autoridade à qual se refere Antelo (2004), que também foi expressa pelos professores
através do modo como se omitiram de fazer perguntas, contrapor as psicólogas ou oferecer
outro ponto de vista, mantendo-se numa posição passiva diante das propostas trabalhadas
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
nos encontros. Essa passividade remete a pensar na possibilidade de fazer parte do contexto
que apontam Cunha (2005), Del Prette e Del Prette (2001) e Ribeiro (2008), sobre a
carência de uma formação mais global destes profissionais, que inclua razão, emoção,
consciência e curiosidade por uma visão histórico-cultural mais ampliada.
A pouca instrumentalização dos professores para lidarem com os conflitos em sala
de aula e o escasso desenvolvimento de habilidades para o relacionamento entre colegas
foi sinalizada pelos próprios participantes, o que vem ao encontro do que sugere Woolfolk
(2000) sobre a importância de oferecer aos professores um melhor preparo acerca das
dinâmicas de comportamento humano, para reconhecerem melhor suas próprias emoções
e, em consequência disso, as de seus alunos e dos colegas. Estes ganhos poderiam marcar
a mudança que o processo de ensino-aprendizagem necessita e merece. Destaca-se,
assim, que é possível pensar em estratégias simples que venham ao encontro do resgate
e fortalecimento da relação professor-professor-equipe diretiva e professor-aluno, para
que possam superar as dificuldades decorrentes das situações cotidianas dentro do sistema
escolar (Wagner, Dotta, & López, 2006).
Quando incentivada, a equipe diretiva conseguiu acolher os professores, elogiandoos e parabenizando-os. Este seria um comportamento importante de manter, pois, de
acordo com Leite e Löhr (2012), a falta de reconhecimento pode reforçar o desânimo e
o desgaste emocional dos professores, colaborando para o aumento do adoecimento no
trabalho. Foi possível perceber o esforço da equipe diretiva para auxiliar os profissionais
e manter os momentos de formação apesar das inúmeras demandas de ordem institucional
e burocrática que precisavam dar conta em conjunto com os professores, naquele único
horário remunerado que dispunham para decidir essas questões.
Por fim, salienta-se que o processo de ensino-aprendizagem é multifacetado,
construído nas relações escolares e na história de vida de cada participante e, portanto,
interligado às estruturas sociais e políticas (Asbahr & Lopes, 2006). Desta forma, ao
planejar estratégias e intervenções, não se deve atribuir responsabilidade maior a equipe
diretiva, professor ou aluno, mas refletir sobre a importância destes personagens na história
e na construção do processo de ensino-aprendizagem.
Considerações finais
Frente ao exposto, acredita-se que cada professor teve a possibilidade de refletir
sobre essas questões propostas para tentar se reposicionar frente aos seus colegas e alunos.
A experiência de trabalho com esse grupo foi bastante positiva e reforça a necessidade da
realização de mais trabalhos de apoio na área educacional. Sabe-se que historicamente
a psicologia contribuiu com a educação na produção de laudos e pareceres dos alunos
e, atualmente, o desafio centra-se em promover a saúde mental na escola, considerando
os diferentes agentes e os seus papeis na instituição (Guzzo, Mezzalira, Moreira, Tizzei,
& Neto, 2010).
Uma limitação importante do presente estudo diz respeito à motivação dos
professores para participarem das intervenções, pois esta decorreu de uma solicitação
da escola, considerando o cumprimento de carga horária remunerada. Portanto, não foi
possível avaliar até que ponto era um desejo deles permanecerem e participarem dos
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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encontros. Quanto ao fato de os professores evitarem expressar opiniões e escolherem
uma posição mais passiva diante das atividades, podemos inferir que o receio de críticas
ou julgamentos por parte dos colegas pode ter intimidado os profissionais, visto que, de
acordo com as avaliações dos encontros, os professores, em sua maioria, mostraram-se
satisfeitos. Para uma melhor efetividade, sugere-se a realização de intervenções com um
grupo menor de professores, pois um grande grupo não permitiu maior aproximação,
aprofundamento do vínculo, apoio às individualidades e um trabalho motivacional mais
consistente.
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_____________________________
Recebido em março de 2015
Aceito em abril de 2015
Magda Pozzobon: Psicóloga. Mestranda em Psicologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos
(Unisinos).
Fernanda Aparecida Szareski Pezzi: Psicóloga. Mestre em Psicologia pela Unisinos. Professora do Curso
de Psicologia da Sociedade Educacional Três de Maio (SETREM).
Angela Helena Marin: Psicóloga. Mestre e Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande
do Sul. Professora dos Cursos de Graduação e de Pós-graduação em Psicologia da Unisinos.
Endereço para contato: [email protected]
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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Aletheia 43-44, p.248-251, jan./ago. 2014
Avaliação dos comportamentos dependentes
Leda Rúbia Maurina Coelho
Margareth da Silva Oliveira
Comportamentos dependentes são transtornos complexos que se multiplicam
a partir de predisposição genética, processos socioculturais, vulnerabilidades
psicológicas, expectativas cognitivas positivas sobre os efeitos e consequências do
consumo de álcool e outras drogas (bem como de outros comportamentos), traços
de personalidade e temperamento, ausência de um repertório de habilidades de
enfrentamento adequadas e baixa autoeficácia. Tal conceito foi postulado pelo modelo
biopsicossocial, um modelo integrativo que, segundo Donovan (2009), é o modelo
que pode proporcionar maior clareza para a área dos comportamentos dependentes,
ampliando a probabilidade de evitar recaídas de forma mais eficaz.
O livro Avaliação dos Comportamentos Dependentes – 2ª edição –, organizado
por Dennis Donovan e Alan Marlatt, foi projetado para ser usado em conjunto com a
2ª edição de outro livro organizado também por estes autores Prevenção de Recaída:
estratégias de manutenção no tratamento de comportamentos adctivos, visando
aumentar a congruência e a inter-relação dos materiais; os mesmos autores de cada
capítulo foram convidados a escrever tanto os capítulos de avaliação quanto o de
prevenção de recaída. Quando utilizados em conjunto, os livros fornecem informações
para o planejamento e a condução de um processo avaliativo mais focado em fatores de
risco de recaída em um determinado comportamento dependente e oferece condições
de construir um plano de tratamento individualizado destinado a prevenir a recaída
e, caso ela ocorra, minimizar seus danos. A base para o planejamento do tratamento
e da prevenção de recaída está na avaliação de situações que representam alto risco
de recaída, avaliação das habilidades de enfrentamento, das expectativas cognitivas
sobre o comportamento e percepção dos benefícios e consequências negativas do
comportamento dependente.
Para apresentar diferentes tipos de avaliação em variados comportamentos
dependentes a obra está dividida em treze capítulos. No primeiro capítulo é apresentada
uma introdução sobre a avaliação dos comportamentos dependentes na prevenção
de recaída, discorrendo desde informações históricas até conceitos fundamentais
que darão subsídios aos capítulos posteriores. Neste capítulo é apresentada uma
breve visão geral da prevenção de recaída, onde a recaída é definida como um
retorno à mesma intensidade do comportamento dependente, por exemplo ao abuso
de álcool, enquanto que um lapso pode ser descrito como o uso inicial de bebidas
alcoólicas depois de um período de abstinência ou um evento discreto, diferente da
recaída, que envolve neste exemplo o uso ou abuso continuado depois deste deslize
inicial. Ainda neste texto introdutório são apresentados diferentes domínios, fatores,
dimensões e tipos de avaliação de comportamentos dependentes, conceituando cada
uma destas.
O livro segue apresentando especificidades na avaliação dos comportamentos
dependentes em culturas das minorias étnicas onde são problematizadas as
diferenças culturais na avaliação neuropsicológica, de comportamentos, de fatores
cognitivos, na experiência de autoeficácia, bem como na avaliação de habilidades
para múltiplas culturas. Os autores destacam que a validação de instrumentos de
avaliação apropriados para uso em culturas diversas é um dos maiores desafios
dos pesquisadores sobre dependências. A partir do terceiro capítulo a obra inicia o
tratamento de temáticas de avaliação de comportamentos dependentes específicos,
sendo o primeiro deles direcionado aos problemas com álcool. Entre as diversas
avaliações apresentadas destacam-se as perguntas sobre quantidade e frequência
da ingestão de bebidas alcoólicas, gravidade da síndrome de abstinência do álcool,
avaliação das dimensões cognitivas e comportamentais (o que inclui a avaliação da
prontidão para mudança, autoeficácia, estratégias de enfrentamento e expectativas
em relação ao resultado do beber), e a avaliação de psicopatologias comórbidas. A
avaliação do comportamento de fumar é descrita na sequência e envolve, entre outros
itens, o histórico do fumar e parar, quantidade do fumar e natureza do hábito, diários
de automonitoramento, medidas neuroquímicas, motivação para parar, avaliação do
humor e outros transtornos psiquiátricos e avaliações relevantes para compreender
a recaída.
O quinto capítulo discorre sobre a dependência de cocaína listando
diversos instrumentos de avaliação selecionados para populações de usuários de
cocaína e derivados que foram construídos para diferentes constructos. O texto
descreve os transtornos comórbidos e de personalidade, sugerindo uma avaliação
multidimensional que vise auxiliar no planejamento e avaliação dos resultados do
tratamento. O texto avaliação dos transtornos por uso de anfetamina apresenta a
substância psicoativa, seu histórico e dados epidemiológicos (destacando populações
vulneráveis). Apresenta também um sistema de avaliação que contempla critérios
diagnósticos que permitem avaliar o uso e a dependência no passado e no presente.
Considerações médicas na avaliação dos usuários de metanfetamina e avaliação
de condições para alcançar a abstinência também estão descritas em detalhes no
decorrer deste capítulo.
Segundo o texto, a avaliação do uso de opioides deve contemplar os critérios
diagnósticos, considerando os sistemas de avaliação de sintomas biológicos/físicos –
onde a tolerância e a gravidade dos sintomas de abstinência determinam a necessidade
de desintoxicação –, avaliação psicológica, de transtornos psiquiátricos e de outros
transtorno de uso de substâncias, avaliação social/ cultural e avaliações específicas
relacionadas a prevenção de recaída (como por exemplo: situações de alto risco e
de eficácia de resposta). Já os transtornos por uso de cannabis são contemplados
no oitavo capítulo, onde os autores explanam sobre a aplicabilidade de um modelo
biopsicossocial para transtornos causados pelo consumo desta substância específica.
Além de ser discutido o papel da avaliação no tratamento são descritos fatores
psicossociais, biológicos e de saúde no uso e abuso da maconha. São apontadas
como possibilidades de avaliação: a gravidade da dependência, consequências
negativas, deficiências cognitivas, situações de alto risco, autoeficácia, habilidades de
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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enfrentamento e expectativas. O nono capítulo inicia conceituando drogas recreativas,
alucinógenos inalantes e esteroides, e na sequência versa sobre o diagnóstico de cada
uma destas substâncias e dificuldades adicionais a este, em função dos transtornos
psiquiátricos concomitantes comuns aos indivíduos que são dependentes deste grupo
de substâncias.
Trazendo à tona a questão da avaliação de transtornos alimentares e obesidade,
o décimo capítulo apresenta a avaliação dos aspectos comportamentais, psicológicos
e sociais dos transtornos alimentares, incluindo as medidas de dimensões múltiplas
(cognições e comportamentos) em formato de entrevistas e de inventários estruturados.
Também apresenta medidas de cognições relacionadas ao comer e medidas de
expectativas do ato de comer. Já os transtornos relacionados ao jogo estão contemplados
no décimo primeiro capítulo, onde os autores conceituam o jogo patológico e o
discutem como uma questão de saúde pública. São abordados fatos históricos do
jogo patológico, sintomas, epidemiologia, estimativas de prevalência, tendências
em diferentes segmentos da população, a prevalência de transtornos relacionados, a
prática e alicerces da avaliação e diagnóstico, bem como instrumentos de rastreamento
e obstáculos deste processo.
Os dois últimos capítulos referem-se, respectivamente, a transgressores
sexuais e comportamentos sexuais de risco. No penúltimo capítulo a aplicação da
prevenção a recaída na transgressão sexual é descrita sugerindo a identificação do
ciclo de recaídas. Ainda são apresentados um exemplo de caso hipotético, explanadas
limitações da aplicação da terminologia da prevenção de recaída para transgressão
sexual, resultados de pesquisas recentes na área e avaliação dos fatores dinâmicos
no planejamento e implementação do tratamento (os quais são exemplificados em
um apêndice contendo relatório de avaliação de riscos dinâmicos). O décimo terceiro
capítulo finaliza o livro abordando o que são comportamentos sexuais de risco,
apresenta o estado do campo de estudo, as propriedades de medidas psicométricas
sólidas para aplicação nestes comportamentos e seus modos de administração
(que podem ser no formato de questionário autoaplicável, entrevista por telefone,
entrevista em pessoa, autoentrevista assistida por computador). Este último capítulo
contempla ainda a avaliação culturalmente apropriada dos comportamentos sexuais
de risco, considerando diferenças culturais que não podem ser banalizadas nem super
enfatizadas, pois se corre o risco de fortalecer a estigmatização.
Por fim, é importante ressaltar que o texto possibilita uma leitura acessível do
modelo biopsicossocial a partir de capítulos independentes que contemplam diversas
áreas das dependências, indo além do abuso de álcool e outras drogas. A obra se apresenta
como uma excelente fonte de inspiração para o planejamento e desenvolvimento de
processos avaliativos e intervenções baseadas em evidências.
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Referências
Donovan, D. M. & Marlatt, G. A. (Orgs.) (2007). Avaliação dos comportamentos
dependentes. São Paulo: Roca.
Donovan, D. M. (2009). Avaliação dos comportamentos dependentes na prevenção da
recaída. In: Donovan & Marlatt (Orgs.), Avaliação dos comportamentos dependentes
(pp.1-50). São Paulo: Roca.
_____________________________
Recebido em março de 2015
Aceito em abril de 2015
Leda Rúbia Maurina Coelho: Psicóloga. Doutoranda PUCRS.
Margareth da Silva Oliveira: Psicóloga. Doutora Profa. PPG PUCRS.
Endereço para contato: [email protected]
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Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
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1) Os artigos inéditos deverão ser encaminhados em disquete ou CD e uma via
impressa, digitada em espaço duplo, fonte Times New Roman, tamanho 12 e paginada
desde a folha de rosto personalizada. A folha deverá ser A4, com formatação de margens
superior e inferior (no mínimo 2,5 cm), esquerda e direita (no mínimo 3 cm). A revista
adota as normas do Manual de Publicação da American Psychological Association - APA
(4ª edição, 2001).
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
253
2) O número máximo de laudas deve atender a seguinte orientação: relatos de
pesquisa (25 laudas); artigos de revisão/atualização (20 laudas); relatos de experiência
profissional (15 laudas), comunicações breves (5 laudas) e resenhas (máximo de 5
laudas).
3) Encaminhamento: toda correspondência deve ser encaminhada à revista
Aletheia, aos cuidados do Editor Responsável.
4) Todo manuscrito encaminhado à revista deverá ser acompanhado de uma carta
de autorização, assinada por todos os autores, onde deve constar:
a) a intenção de submissão do trabalho à publicação;
b) a autorização para reformulação da linguagem, se necessário;
c) a transferência de direitos autorais para a revista Aletheia.
5) O artigo deve conter:
a) folha de rosto identificada: título do artigo em língua portuguesa; nome dos
autores; formação, titulação e afiliação institucional dos autores; resumo em português
de 10 a 12 linhas; palavras-chave, no máximo 3; título do artigo em língua inglesa;
abstract compatível com o texto do Resumo; key-words; endereço para correspondência,
incluindo CEP, telefone e e-mail.
b) folha de rosto não identificada: título do artigo em língua portuguesa; resumo
em português, de 10 a 12 linhas, 3 palavras-chave, título do artigo em língua inglesa,
resumo (Abstract) em inglês, compatível com o texto do Resumo; key-words.
c) corpo do texto.
d) sugere-se que os artigos referentes a relatos de pesquisa apresentem a seguinte
seqüência: Título; Introdução; Método (população/amostra, instrumentos, Procedimentos
de coleta e Análise de dados – incluir nessa seção afirmação de aprovação do estudo em
Comitê de Ética em Pesquisa de acordo com Resolução 196/96 do Conselho Nacional
de Saúde – Ministério da Saúde); Resultados; Discussão, Referências (títulos em letra
minúscula e em seções separadas). Usar as denominações tabelas e figuras (não usar a
expressão quadros e gráficos). Colocar tabelas e figuras incorporadas ao texto. Tabelas:
incluindo título e notas de acordo com normas da APA. Formato Word – ‘Simples 1’.
Na publicação impressa, a tabela não poderá exceder 11,5 cm de largura x 17,5 cm de
comprimento. O comprimento da tabela não deve exceder 55 linhas, incluindo título
e rodapé(s). Para assegurar qualidade de reprodução, as figuras contendo desenhos
deverão ser encaminhadas em qualidade para fotografia (resolução mínima de 300
dpi). A versão publicada não poderá exceder a largura de 11,5 cm para figuras. Anexos:
apenas quando contiverem informação original importante, ou destaque indispensável
para a compreensão de alguma seção do trabalho. Recomenda-se evitar anexos.
6) Trabalhos com documentação incompleta ou não atendendo às normas adotadas
pela revista (APA, 4ª edição) não serão avaliados.
254
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Normas para citações
- As notas não bibliográficas deverão ser colocadas ao pé das páginas, ordenadas
por algarismos arábicos que deverão aparecer imediatamente após o segmento de texto
ao qual se refere a nota.
- As citações dos autores deverão ser feitas de acordo com as normas da APA (4ª
edição).
- No caso da citação integral de um texto: deve ser delimitada por aspas, e a citação
do autor seguida do ano e do número da página citada. Uma citação literal com 40 ou mais
palavras deve ser apresentada em bloco próprio em itálico e sem aspas, começando em
nova linha, com recuo de 5 espaços da margem, na mesma posição de um novo parágrafo.
A fonte será a mesma utilizada no restante do texto (Times New Roman, 12).
• Citação de um autor: autor, sobrenome em letra minúscula, seguida pelo ano da
publicação. Exemplo: Rodrigues (2000).
• Citações de dois autores: cite os dois autores sempre que forem referidos no
texto. Exemplo: (Carvalho & Santos, 2000) – quando os sobrenomes forem citados entre
parênteses, devem estar ligados por &. Quando forem citados fora de parênteses, devem
ser ligados pela letra e.
• Citação de três a cinco autores: citar todos os autores na primeira referência,
seguidos da data do artigo entre parênteses. A partir da segunda referência, utilize o
sobrenome do primeiro autor, seguido de e cols. Exemplo: Silva, Foguel, Martins e Pires
(2000), a partir da segunda referência, Silva e cols. (2000).
• Artigo de seis ou mais autores: cite apenas o sobrenome do primeiro autor, seguido
de e cols. (ANO). Na seção referências, todos os autores deverão ser citados.
• Citação de obras antigas, clássicas e reeditadas: citar a data da publicação original,
seguida da data da edição consultada. Exemplo: (Kant 1871/1980).
• Autores com a mesma idéia: seguir a ordem alfabética de seus sobrenomes e não
a ordem cronológica. Exemplo: (Foguel, 2003; Martins, 2001; Santos, 1999; Souza,
2005).
• Publicações diferentes com a mesma data: acrescentar letras minúsculas, após o
ano de publicação. Exemplo: Carvalho, 1997, 2000a, 2000b, 2000c.
• Citação cuja idéia é extraída de outra ou citação indireta: utilizar a expressão
citado por. Ex: Lopes, citado por Martins (2000),...
Na seção Referências, incluir apenas a fonte consultada (Martins).
• Transcrição literal de um texto ou citação direta: sobrenome do autor, data, página.
Exemplo: (Carvalho, 2000, p.45) ou Carvalho (2000, p.45).
Normas para referências
As referências bibliográficas deverão ser apresentadas no final do artigo.
Sua disposição deve ser em ordem alfabética do último sobrenome do autor e em
minúsculo.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
255
Livro
Mendes, A. P. (1998). A família com filhos adultos. Porto Alegre: Artes Médicas.
Silva, P. L., Martins, A., & Foguel, T. (2000). Adolescente e relacionamento familiar.
Porto Alegre: Artes Médicas.
Capítulo de livro
Scharf, C. N., & Weinshel, M. (2002). Infertilidade e gravidez tardia. Em: P. Papp
(Org.), Casais em perigo, novas diretrizes para terapeutas (pp. 119-144). Porto Alegre:
Artmed.
Artigo de periódico científico
Dimenstein, M. (1998). O psicólogo nas Unidades Básicas de Saúde:
desafios para a formação e atuação profissionais. Estudos de Psicologia,
3(1), 95-121.
Artigos em meios eletrônicos
Paim, J. S., & Almeida Filho, N. (1998). Saúde coletiva: uma “nova saúde pública”
ou campo aberto a novos paradigmas? Revista de Saúde Pública, 32 (4) Disponível:
<http://www.scielo.br> Acessado: 02/2000.
Artigo de revista científica no prelo
Albuquerque, P. (no prelo). Trabalho e gênero. Aletheia.
Trabalho apresentado em evento científico com resumo em anais
Corte, M. L. (2005). Adolescência e maternidade. [Resumo]. Em: Sociedade
Brasileira de Psicologia (Org.), Resumos de comunicações científicas. XXV Reunião
Anual de Psicologia (p. 176). Ribeirão Preto: SBP.
Tese ou dissertação publicada
Silva, A. (2000). Conhecimento genital e constância sexual em crianças préescolares. Dissertação de Mestrado ou tese de Doutorado. Programa de Estudos de PósGraduação em Psicologia do Desenvolvimento, Universidade Federal do Rio Grande do
Sul. Porto Alegre, RS.
Tese ou dissertação não-publicada
Silva, A. (2000). Conhecimento genital e constância sexual em crianças préescolares. Dissertação de Mestrado ou tese de Doutorado não publicada. Programa de
Estudos de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento, Universidade Federal
do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS.
Obra antiga e reeditada em data muito posterior
Segal, A. (2001). Alguns aspectos da análise de um esquizofrênico. Porto Alegre:
Universal. (Original publicado em 1950).
256
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Autoria institucional
American Psychological Association (1994). Publication manual (4ª ed.).Washington:
Autor.
Endereço para envio de artigos
Universidade Luterana do Brasil
Curso de Psicologia
Revista Aletheia
Av. Farroupilha, 8001 – Bairro São José
Sala 121 - Prédio 01
Canoas – RS – Brasil
CEP: 92425-900
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
257
Instructions to authors
Editorial policy
Aletheia is a three-times yearly journal edited by the Psychology Program of the
Lutheran University of Brazil, which purpose is to publish papers in Psychology and
related sciences. Only unpublished papers will be accepted into these categories: original
articles, review/update articles, professional experiences reports, brief communications
and book reviews.
Original articles: empirical research reports with scientific methodology.
Review articles/ Update articles: systematic and update reviews about relevant
themes according with editorial policy.
Professional experiences reports: case reports with discussion of its conceptual or
therapeutic implications; description of intervention procedures or strategies of psychology
practitioners’ interest.
Brief communications: brief reports of professional experiences or preliminary
communications of original character.
Book review: critical review of recently published books that may be of interest
to psychology.
Ethical aspects: All the articles involving research with human subjects must state
that individuals included in these studies gave a Written Informed Consent, according
to the national and international ethical regulations. In case of research with animals,
authors must confirm that the study was done in accordance with the ethical care standards
for the animals involved in the research. The authors are also requested to state in the
“Methods” section that the research protocol was previously approved by a Research
Ethics Board.
Disclosures: The authors are requested to disclose all possible kinds of conflict of
interest (professionals, financials, direct or indirect benefits), if the case. The failure to
disclose properly can lead to publication refusal or cancellation.
Editorial rules
1. Only unpublished articles will be accepted.
2. The articles will be evaluated by the Editors.
3. After initial evaluation, the Editors will send the submitted papers to the
Editorial Board, which will be helped, whenever necessary, by ad hoc consultants
of recognized expertise in the knowledge area. The Editorial Board and ad hoc
consultants will analyze the manuscript, suggest modifications, and recommend or
not its publication.
258
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
4. The papers may be: a) fully accepted; b) accepted with modifications; c) fully
refused. In any of the situations the author will be properly communicated. The originals
will not be returned in any case.
5. The authors will received a copy of the consultants’ analysis and will be informed
about recommended modifications.
6. When the modified version of the manuscript is sent (this may happen up
to 15 days after receiving the notification), the authors must include a letter to the
Editors, elucidating the changes that have been made and justifying the ones they
did not judge relevant to make. All modifications must be highlighted with Word’s
tool “yellow brush”. The modified version of the article may be sent by e-mail
([email protected]).
7. The Editors have the right to make small modifications in the text.
8. The final decision of publication of a manuscript will always be of the Editor
and of the editorial board in charge. They will take into consideration the original text,
the consultant’s recommendations and the modified version of the article.
9. Articles may be submitted in other languages besides Portuguese (Spanish and
English)
10. Regardless the number of authors, two copies of the journal per published article
will be offered. The electronic version of the printed article (PDF file) can be accessed
in Aletheia homepage www.ulbra.br/psicologia/aletheia.
11. The opinions emitted in the articles are full responsibility of author(s), and its
acceptance does not mean that Aletheia supports it.
12. Total or partial reproduction can be made only after permission of the Editor.
Aletheia owns the copyrights and will not transfer them to authors.
Preparation of manuscripts
1) The unpublished articles must be sent in diskettes or CD and also one printed
copy, typed in double space, Times New Roman letter, size 12, numbered since the title
page. The sheet must be A4, with inferior and superior margins of 2,5 cm, and right and
left margins of 3 cm. The journal follows the rules of Manual of Publication of American
Psychological Association - APA (5th edition, 2001).
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
259
2) The maximum number of pages should be as follow: Original articles (25 pages);
Review articles/Uptade articles (20 pages); Professional experiences reports (15 pages);
Brief communications (5 pages); Book review (5 pages).
3) Submissions: All correspondence should be addressed to Aletheia in behalf of
the Editor in charge.
4) Every manuscript sent to the Journal must be accompanied by an authorization
letter, signed by all of the authors, stating:
a) The intention of submission the article to publication;
b) Authorization for modification of language if necessary;
c) Transference of copyrights for Aletheia Journal.
5) The manuscript should contain:
a) Title page: article title in Portuguese ; authors’ name; authors’ essential title and
institutional affiliation; abstract in Portuguese from 10 to 12 lines; key words, at least
3; article title in English; abstract compatible with the text of Portuguese abstract ; key
words; Correspondence address, including Zip Code, telephone and e-mail.
b) Non identified title page: article title in Portuguese; abstract in Portuguese from
10 to 12 lines; key words, at least 3; article title in English; abstract compatible with the
text of Portuguese abstract ; key words;
* If article was not written in Portuguese, it must contain the same information in
its original language.
c) Body of the text.
d) Original articles may have the following sequence: Title, Introduction,
Method (population/sample; instruments; procedures; and data analysis. In this
section the study approval in a Ethics Research Committee should be stated), Results,
Discussion, Conclusion or Final Considerations, References (in small letters and in
separate section). Use the denomination “table” and “figure” (and not graphs or other
terms). Place tables and figures embedded in the text. Tables: including title and
notes in accordance with APA’s standards . Word format - ‘Simple 1’. In the printed
version the table may not exceed 11.5 cm wide x 17.5 cm in length. The length of
the table should not exceed 55 lines, including title and footer(s). To ensure quality,
the reproduction of pictures containing drawings should have photograph quality
(minimum resolution of 300 dpi). The printed version can not exceed 11.5 cm width
for pictures. Appendixes: only when they contain new and important information,
or are essential to highlight and make more understandable any section of the paper.
The use of appendixes should be avoided.
260
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
6) Papers with incomplete documentation or that do not attend the norms adopted
by Aletheia (APA, 4th edition) will not be appraised.
Citations norms
- The non bibliographical notes must be put in the lower margin of pages, arranged
by Arabic numerals that must appear immediately after the segment of text to which the
note refers to.
- The authors’ citations must be done in agreement with norms of APA (4th edition).
- In the case of full citation of a text: it must be delimited by quotation mark and the
author’s citation followed by the year and number of page mentioned. A literal citation
with 40 or more words must be presented in proper block and in italic without quotation
mark, starting a new line, with pullback of 5 spaces of margin, in the same position of
a new paragraph. The letter will be the same used in the remaining of text (Times New
Roman, 12).
• Citation of an author: author, last name in small letter, followed by the year of
publication. Example: Rodrigues (2000).
• Citation of two authors: cite both authors always that they are referred in the text.
Example: (Carvalho & Santos, 2000) – when the last names are cited between parentheses:
they must be connected by &. When they are cited outside the parenthesis they must be
connected by the letter e.
• Citation from three to five authors: cite all the authors in the first reference, followed
by the date of article between parentheses. Starting from the second reference, use the last
name of the first author, followed by e cols. Example: Silva, Foguel, Martins and Pires
(2000), starting from the second reference, Silva and cols. (2000).
• Article of six or more authors: cite just the last name of the first author, followed
by e cols (YEAR). In the references all the authors must be cited.
• Citation of old, classic and reedited works: cite the date of original publication,
followed by the date of edition consulted. Example: (Kant 1871/1980).
• Authors with the same idea: follow the alphabetical order of their last names
and not the chronological order. Example: (Foguel, 2003; Martins, 2001; Santos, 1999;
Souza, 2005).
Different publications with the same date: Increase capital letter, after the year of
publication. Example: Carvalho (1997, 2000a, 2000b, 2000c).
• Citation whose idea is extracted from other or indirect citation: Use the expression
cited by. Ex: Lopes, cited by Martins (2000),...
In the Bibliographical References, include just the source consulted (Martins).
• Literal transcription of a text or direct citation: last name of author, date, page.
Example: (Carvalho, 2000, p.45) or Carvalho (2000, p.45).
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
261
References norms
The bibliographical references must be presented at the end of article. Its disposition
must be in alphabetical order of the last name of author in small letter.
Book
Mendes, A.P. (1998). A família com filhos adultos. Porto Alegre: Artes Médicas.
Silva, P.L., Martins, A., & Foguel, T. (2000). Adolescente e relacionamento familiar.
Porto Alegre: Artes Médicas.
Chapter of book
Scharf, C. N., & Weinshel, M. (2002). Infertility and late pregnancy. Em P. Papp
(Org.), Couples in danger,, new guideline for therapists (pp. 119-144). Porto Alegre:
Artmed.
Article of scientific journal
Dimenstein, M. (1998). The psychologist in the Basic Units of Health:
Challenges for the formation and professional performance. Studies of Psychology,
3(1), 95-121.
Articles in electronic means
Paim, J. S., & Almeida Filho, N. (1998). Collective Health: a “new public health”
or open field for new paradigms? Magazine of Public Health, 32 (4) Available: <http://
www.scielo.br> Accessed: 02/11/2000.
Article of scientific journal in press
Albuquerque, P. (no prelo). Gender and work. Aletheia.
Work presented in congress
Silva, O. & Dias, M. (1999). Unemployment and its repercussions in the family.
Em Annals of XX Meeting of Social Psychology, pp. 128-137, Gramado, RS.
Thesis or published dissertation
Silva, A. (2000). Genital knowledge and sexual constancy in pre-school children.
Master dissertation or doctorate thesis. Program of Graduate Studies in Psychology of
Development, Federal University of Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS
Thesis or non-published dissertation
Silva, A. (2000). Genital knowledge and sexual constancy in pre-school children.
Master dissertation non-published or doctorate thesis (non-published). Program of
Graduate Studies in Psychology of Development, Federal University of Rio Grande do
Sul. Porto Alegre, RS
Old work reedited in posterior date
Segal, A. (2001). Some aspects of analysis of a schizophrenic person. Porto Alegre:
Universal. (Original published in 1950)
262
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
Institutional Authorship
American Psychological Association (1994). Publication manual (4th edition).
Washington: Author
Address for submissions
Universidade Luterana do Brasil
Curso de Psicologia
Revista Aletheia
Av. Farroupilha, 8001 – Bairro São José
CEP: 92425-900
Sala 121 - Prédio 01
Canoas – RS – Brasil
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
263
Instrucciones a los autores
Política editorial
Aletheia es una revista quadrimestral editada por el Curso de Psicología de la
Universidad Luterana de Brasil, destinada a la publicación de trabajos de investigadores,
implicados en estudios producidos en el área de la Psicología o ciencias afines. Serán
aceptados solamente trabajos no publicados que se encuadren en las categorías de relato
de investigación, artículo de revisión o actualización, relatos experiencia profesional,
comunicaciones breves y reseñas.
Relatos de investigación: investigación basada en datos empíricos, utilizando
metodología y análisis científica.
Artículos de revisión/actualización: revisiones sistemáticas y actuales sobre
temas relevantes para la línea editorial de la revista.
Relatos de experiencia profesional: estudios de caso, contiendo discusión de
implicaciones conceptuales o terapéuticas; descripción de procedimientos o estrategias
de intervención de interés para la actuación profesional de la psicología.
Comunicaciones breves: relatos breves de experiencias profesionales o
comunicaciones preliminares de resultados de investigación.
Reseñas: revisión crítica de libros recién publicados, orientando el lector cuanto
a sus características y usos potenciales.
Aspectos éticos: Todos los artículos implicando investigación con seres
humanos deben declarar que los participantes del estudio firmaron algún Término
de Consentimiento Libre y Esclarecido, de acuerdo con las directrices brasileñas e
internacionales de investigación. En el caso de investigación con animales los autores
deben atestar que el estudio ha sido realizado de acuerdo con las recomendaciones éticas
para este tipo de investigación. Los autores también son solicitados a declarar, en la
sección “Método”, que el protocolo de la investigación ha sido previamente aprobado
por algún Comité de Ética en Investigación del local de origen del proyecto.
Conflictos de interés: los autores deben declarar todos los posibles conflictos
de interés (profesionales, financieros, beneficios directos o indirectos), si es el caso.
El fallo en declarar conflictos de interés puede llevar a la recusa o cancelación de
la publicación.
Normas editoriales
1. Serán aceptados solamente trabajos inéditos.
2. El artículo pasará por la apreciación de los Editores.
264
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
3. Seguido de una evaluación inicial, los Editores enviarán para apreciación del
Consejo Editorial, que podrá hacer uso de consultores ad hoc de reconocida competencia
en el área de conocimiento. La Comisión Editorial y los Consultores ad hoc analizan el
artículo, sugieren modificaciones y recomiendan o no su publicación.
4. Los artículos podrán recibir: a) aceptación integral; b) aceptación con
reformulaciones; c) recusa integral. En cualquier de estas situaciones el autor será
debidamente comunicado. Los originales, en ninguna de las posibilidades, serán
devueltos.
5. El autor del artículo recibirá copia de los pareceres de los consultores. Será
informado sobre las modificaciones que necesiten ser realizadas.
6. En el envío de la versión modificada del artículo (en el límite máximo de 15
días después del recibimiento de la notificación), los autores deberán incluir una carta
al Editor, esclareciendo las alteraciones hechas y aquellas que no juzgaran pertinentes
y la justificativa. En el texto, las modificaciones hechas deberán estar destacadas con
la herramienta Word “pincel amarillo”. El envío del archivo con las modificaciones
realizadas puede ser realizado por e-mail ([email protected]).
7. Los Editores se reservan el derecho de hacer pequeñas alteraciones en el
texto de los artículos.
8. La decisión final sobre la publicación de un manuscrito siempre será del Editor
Responsable y del Consejo Editorial, que hará una evaluación del texto original, de
las sugerencias indicadas por los consultores y las modificaciones enviadas por el
autor.
9. Los artículos podrán ser escritos en otra lengua además del portugués (español
e inglés).
10. Independientemente del número de autores, serán ofrecidos dos ejemplares
por trabajo publicado. El archivo electrónico con la publicación en PDF estará
disponible en el site www.ulbra.br/psicologia/aletheia.
11. Las opiniones emitidas en los artículos son de entera responsabilidad de los
autores, su aceptación no significa que la Revista Aletheia o el Curso de Psicología
de la ULBRA le soportan.
12. La materia editada por la Aletheia podrá ser impresa total o parcialmente,
des de que obtenida la autorización del Editor Responsable. Los derechos autorales
obtenidos por la publicación del artículo no serán repasados para el autor del
artículo.
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
265
Presentación de los originales
1) Los artículos inéditos deberán ser enviados en disquete o CD y una vía impresa,
digitada en espacio doble, fuente Times New Roman, tamaño 12 y paginado desde la
hoja de rostro personalizada. La hoja deberá ser A4, con formatación de márgenes
superior e inferior (mínimo de 2,5 cm), izquierda y derecha (mínimo de 3 cm). La
revista adopta las normas del Manual de Publicación de la American Psychological
Association - APA (4ª edición, 2001).
2) El número máximo de laudas debe atender a la siguiente orientación: Relatos
de investigación (25 laudas); Artículos de revisión/actualización (20 laudas); Relatos
de experiencia profesional (15 laudas), Comunicaciones breves (5 laudas) y Reseñas
de libros (máximo de 5 laudas).
3) Dirección: Toda correspondencia debe ser dirigida a la Revista Aletheia, a la
atención del Editor Responsable.
4) Todo manuscrito dirigido a la Revista deberá acompañar una carta de
autorización, firmada por todos los autores, donde deberá constar:
a) la intención de sumisión del trabajo a la publicación;
b) la autorización para reformulación del lenguaje, si necesario;
c) la transferencia de derechos autorales para la Revista Aletheia.
5) El artículo debe contener:
a) Hoja de portada identificada: título del artículo en lengua portuguesa; nombre
de los autores; formación, titulación y afiliación institucional de los autores; resumen
en portugués de 10 a 12 líneas; palabras-clave, en el máximo de 3; título del artículo
en lengua inglesa; abstract compatible con el texto del resumen; keywords; dirección
para correspondencia, incluyendo CEP, teléfono y e-mail.
b) Hoja de portada no identificada: título del artículo en lengua portuguesa o
castellana; resumen en portugués o castellano, de 10 a 12 líneas, 3 palabras-clave,
título del artículo en lengua inglesa, resumen (abstract) en inglés, compatible con el
texto del Resumen en lengua original; keywords.
c) Cuerpo del texto.
d) Sugiérase que los artículos referentes a Relatos de Investigación presenten la
siguiente secuencia: Título; Introducción; Método (populación/muestra, instrumentos,
procedimientos de recogida y análisis de los datos, (incluir en esta sección afirmación
de aprobación del estudio en Comité de Ética en Investigación de acuerdo con la
Resolución 196/96 del Consejo Nacional de Salud – Ministerio de Salud o declaración de
haber atendido a los criterios de dicha resolución); Resultados; Discusión, Referencias
(títulos en letra minúscula y en secciones separadas). Utilizar las denominaciones
tablas y figuras (no utilizar la expresión cuadros y gráficas). Dejar las tablas y figuras
266
Aletheia 43-44, jan./ago. 2014
incorporadas al texto. Tablas: incluyendo título y notas de acuerdo con las normas de la
APA. Formato Word – ‘Sencillo 1’. En la publicación impresa la tabla no podrá exceder
11,5 cm de ancho x 17,5 cm de largo. El largo de la tabla no debe pasar de 55 líneas,
incluyendo título y notas al pié. Para garantizar cualidad de reproducción, las figuras
que contengan dibujos deberán ser dirigidas en cualidad para fotografía (resolución
mínima de 300 dpi). La versión publicada no podrá ultrapasar el ancho de 11,5 cm
para figuras. Anexos: solo cuando tengan información original importante, o destaque
indispensable para la comprensión de alguna sección del trabajo. Recomendase
evitar anexos.
6) Trabajos con documentación incompleta o no atendiendo las normas adoptadas
por la revista (APA, 4ª edición) no serán evaluados.
Normas para citaciones
- Las notas no bibliográficas deberán ser puestas al pié de las páginas, ordenadas
por números arábicos que deberán figurar inmediatamente después del segmento de
texto al cual se refiere a la nota.
- Las citaciones de los autores deberán ser hechas de acuerdo con las normas
de la APA (4ª edición).
- En el caso de la cita integral de un texto: debe ser delimitada por comillas
y la citación del autor, seguida del año y del número de la página citada. Una cita
literal con 40 o más palabras debe ser presentada en bloque propio y en cursiva y sin
comillas, empezando en nueva línea, con una retirada de espacio de 5 espacios del
margen, en la misma posición de un nuevo párrafo. La fuente será la misma utilizada
en el restante del texto (Times New Roman, 12).
• Citación de un autor: autor, apellido en letra minúscula, seguida por el año
de publicación. Ejemplo: Rodrigues (2000).
• Citaciones de dos autores: cite los dos autores siempre que sean referidos en el
texto. Ejemplo: (Carvalho & Santos, 2000) - cuando los apellidos sean citados entre
paréntesis: deben estar separados por &. Cuando sean citados fuera del paréntesis
deben ser vinculados pela letra e, en publicaciones en portugués y por la letra y para
publicaciones en castellano.
• Citación de tres a cinco autores: citar todos los autores en la primera referencia,
seguidos de la fecha del artículo entre paréntesis. A partir de la segunda referencia,
utilice el apellido del primero autor, seguido de y cols. Ejemplo: Silva, Foguel, Martins
y Pires (2000), a partir de la segunda referencia: Silva y cols. (2000)
• Artículo de seis o más autores: cite solamente el apellido del primero autor, seguido
de y cols. (AÑO). En la sección Referencias, todos los autores deberán ser citados.
• Citación de obras antiguas, clásicas y reeditadas: citar la fecha de la publicación
original, seguida de la fecha de la edición consultada. Ejemplo: (Kant 1871/1980).
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• Autores con la misma idea: seguir el orden alfabético de sus apellidos y no el orden
cronológico. Ejemplo: (Foguel, 2003; Martins, 2001; Santos, 1999; Souza, 2005).
• Publicaciones distintas con la misma fecha: Añadir letras minúsculas, luego
el año de publicación. Ejemplo: Carvalho, 1997, 2000a, 2000b, 2000c.
• Citación cuya idea es extraída de otra o citación indirecta: Utilizar la expresión
citado por. Ej.: Lopes, citado por Martins (2000),...
En la sección Referencias, añadir solamente la fuente consultada (Martins).
• Transcripción literal de un texto o citación directa: apellido del autor, fecha,
página. Ejemplo: (Carvalho, 2000, p.45) o Carvalho (2000, p.45).
Normas para referencias
Las referencias bibliográficas deberán ser presentadas en el final del artículo.
Su disposición debe ser en orden alfabético del último apellido del autor (cuando
presente más de uno) y en minúscula. En el caso de autores hispánicos, se puede
utilizar la normativa de la APA, y presentar los dos apellidos a la vez, separados por
un guión. Ej.: Martínez-Cruz.
Libro
Mendes, A. P. (1998). A família com filhos adultos. Porto Alegre: Artes
Médicas.
Silva, P. L., Martins, A., & Foguel, T. (2000). Adolescente e relacionamento
familiar. Porto Alegre: Artes Médicas.
Capítulo de libro
Scharf, C. N., & Weinshel, M. (2002). Infertilidade e gravidez tardia. Em: P.
Papp (Org.), Casais em perigo, novas diretrizes para terapeutas (pp. 119-144). Porto
Alegre: Artmed.
Artículo de publicación periódica científica
Dimenstein, M. (1998). O psicólogo nas Unidades Básicas de Saúde: desafios
para a formação e atuação profissionais. Estudos de Psicologia, 3(1), 95-121.
Artículos en medios electrónicos
Paim, J. S., & Almeida Filho, N. (1998). Saúde coletiva: uma “nova saúde pública”
ou campo aberto a novos paradigmas? Revista de Saúde Pública, 32 (4) Disponível:
<http://www.scielo.br> Acessado: 02/2000.
Artículo de revista científica en prensa
Albuquerque, P. (en prensa). Trabalho e gênero. Aletheia.
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Trabajo presentado en evento científico con resumen en anales
Corte, M. L. (2005). Adolescência e maternidade. [Resumo]. Em: Sociedade
Brasileira de Psicologia (Org.), Resumos de comunicações científicas. XXV Reunião
Anual de Psicologia (p. 176). Ribeirão Preto: SBP.
Tesis o monografía publicada
Silva, A. (2000). Conhecimento genital e constância sexual em crianças préescolares. Dissertação de Mestrado ou tese de Doutorado. Programa de Estudos de
Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento, Universidade Federal do Rio
Grande do Sul. Porto Alegre, RS.
Tesis o monografía no-publicada
Silva, A. (2000). Conhecimento genital e constância sexual em crianças préescolares. Dissertação de Mestrado ou tese de Doutorado. Programa de Estudos de
Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento, Universidade Federal do Rio
Grande do Sul. Porto Alegre, RS.
Obra antigua y reeditada en fecha muy posterior
Segal, A. (2001). Alguns aspectos da análise de um esquizofrênico. Porto Alegre:
Universal. (Original publicado em 1950).
Autoría institucional
American Psychological Association (1994). Publication manual (4ª ed.).
Washington:Autor
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