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Apresentação
Nasci durante a segunda guerra mundial, uma espécie de precursor do baby-boomer
de pós-guerra. Meu pai foi um self-made-man, formado em direito, funcionário publico
federal. Minha mãe ficou órfã recém-nascida e foi „criada com vó‟, de forma que era
dengosa. Tiveram cinco filhos que educaram com extrema dedicação e carinho.
Desde pequeno que sou um leitor regular e depois de maduro comecei a escrever.
Minha irmã, que tem um doutorado em língua portuguesa, sempre critica meus
escritos, argumentando que ficam com um estilo de relatório técnico!
Sou geólogo profissional e navegador amador. Casei aos 25 anos com uma estudante,
filha de militar, com quem tive um casal de filhos. Fizemos algumas viagens „préhistóricas‟, isto é, que não foram registradas em relatório: visitamos de carro as
cataratas de Iguaçu antes da construção da barragem, descemos o Amazonas a partir
de Manaus num navio de cruzeiro, atravessamos do lago Titicaca para visitar Macchu
Picchu. Com 5 anos de casado tive a oportunidade de fazer um mestrado no exterior e
escolhi a Universidade do Texas em Austin, EUA, para onde fui com a família. Na volta
a mãe dos meninos resolveu separar e fizemos um divórcio amigável. Foi a partir dai
que passei a viajar sistematicamente nas férias, um comportamento viciante que teve
continuidade na fase de aposentado, quando embarquei Mila, a tripulante que deu
certo, e aconteceu também me tornar avô babão.
No meu arquivo são 54 relatórios de viagem cobrindo aspectos da história, geografia e
geologia de todos os continentes, incluindo velejadas em cruzeiros pelo Caribe e
Polinésia, mais quatro travessias a vela do oceano Atlântico, e seis cruzeiros e regatas
na costa brasileira.
Destes relatórios resolvi selecionar 27 para compor um e-book no intuito de ocupar
dignamente o tempo de aposentado, enquanto aguardo Mila se aposentar para que
possamos nos mudar para o Pinauna 7, um veleiro „de responsa‟ preparado para nos
levar até o farol do fim do mundo.
O que observei neste período em cada local visitado tem que ser associado a uma
data. Por exemplo, Londres de 1987 é uma cidade britânica, em 2011 é uma cidade
muçulmana. Nos países ditos emergentes o contraste no final do Sec.XX é gritante:
Carmópolis, no interior de Sergipe era uma vila onde se instalou a Petrobras para
desenvolver um campo de petróleo. Morei lá no final dos anos de 1960. Passei lá em
2005 e simplesmente não reconheci a cidade. Isto sem falar na China, onde se
constrói um prédio em uma semana. A fila anda...
As viagens estão aqui relatadas em ordem cronológica, a partir de 1991,
ser agrupadas geograficamente:
mas podem
1. Américas 1.a- Amazônia (2002.03,05) 1.b- Brasil de norte a sul 1989,2005[3],
2008 [2], 2010,2011 1.c- América do Norte (1994,99,2006) 1.d-América Central
(1995,2009) 1.e- Cone sul da América do Sul (1990,95,2010) 1.f- Galápagos
(2010)
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2. Europa 2.a- Europa latina (2004,2007) 2.b- Anglo-saxônica (2007,2011) 2.cEscandinávia (1997)
3. Oceania 3.a- Austrália (1985) 3.b- Nova Zelândia (2006)
4. Ásia 4.a- Rússia (1991) 4.b- China (1993) 4.c- Extremo Oriente (1993)
5. África 5.a- África do Sul (2003) 5.b- Angola (1982) 5.c- Marrocos (1996) 5.dEgito (2012)
6. Velejando em cruzeiros e em travessias oceânicas 6.a- Caribe (1988,
1996,2003,2012) 6.b- Polinésia (1989) 6.c- Travessias do Atlântico (1998,
2000,2001.2003)
6.d- Cruzeiros e regatas na costa brasileira
(1988,1989,1992,1997,2008,2011)
Salvador, BA, 2014
[email protected]
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Sumário
Amazônia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
Estados Unidos e o Pinauna V . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16
Cruzeiro no Curumin; Viagem ao Pantanal, Bariloche, lagos Andinos, Atacama e
Macchu Picchu, 1990 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28
Rússia em 1991. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
China, 1993 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 44
Saara, 1996 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55
Península Ibérica e Costa Atlântica da França . . . . . . . . . . . . . . . 60
A Europa dos Habsburg. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
Itália e Grécia em 2004. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84
Escandinávia, 1997 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 91
2000 – Regata do Descobrimento– Diário de Bordo do Navegador. . . . . . . 101
Turquia e o retorno de catamarã . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 114
África do Sul em 2003. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 122
Velejando de Salvador para as Granadinas . . . . . . . . . . . . . . .
126
Cruzeiro no Alasca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143
Visita à Nova Zelândia em 2006 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 151
Maranhão e Piaui, 2008 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
159
Fernando de Noronha e as Refeno (Regata Fernando de Noronha). . . . . . 169
Lua de mel no Caribe: Cuba e Panamá em 2009 . . . . . . . . . . . . . 180
Cruzeiro Austral em 2010 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
186
Live aboard em Galápagos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
200
Live aboard em Abrolhos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
207
Live aboard nas Bahamas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
214
Turistando de carro no Reino Unido . . . . . . . . . . . . . . . . . .
222
Cruzeirando na foz do Rio são Francisco . . . . . . . . . . . . . . . .
234
Egito em 2012 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
242
Caribe venezuelano 2012. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 261
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Amazonia
Esta região todo brasileiro deveria visitar antes de fazer qualquer turismo no exterior. É
um bioma único, de uma riqueza magnífica, ainda semi-virgem. A abundância de água
doce na bacia amazônica é tão incomum que, com o uso extensivo que a população
humana faz alhures e a perspectiva de crise deste recurso limitado e tão necessitado,
principalmente na Ásia, onde se concentra a maior parte da população humana, não
creio que seja possível preservar por mais meio século a „rain-forest‟, de onde escoa
15% da água doce que flui dos continentes para os oceanos.
Meu primeiro contato com a bacia amazônica foi em 1964, quando, estudante de
geologia, fui estagiar na Petrobras na antiga SRAZ, Serviço Regional da Amazônia.
Naquele tempo viajei para Belém num DC-6 da VARIG, carregando um rifle de caça
como bagagem de mão. A partir de Belém se acessava a Amazônia
de DC-3 e de
Catalina, que pousava na água.
Nas minhas primeiras férias de casado, em 1970, fui com Licinha de avião para
Manaus e retornamos para Salvador num navio da estatal Lloyd Brasileiro, que fazia
escalas em Belém, Fortaleza e Recife. Na descida do Amazonas vi, descendo o rio,
entre Manaus e Santarém, um pedaço da barranca, como uma ilha flutuante com uma
palmeira em pé. Em 1972 fui numa excursão geológica no rio Tapajós, onde fotografei
no aeroporto de Itaituba a altitude do aeroporto:
24m acima do nível do mar, que dista 1000 km da
foz do Amazonas. O rio Tapajós em Itaituba tem
no canal principal 80m de profundidade e ainda
corre 250 km até desaguar no Amazonas, isto é,
um afluente do Amazonas escava seu canal
abaixo do nível do mar! O Tapajós desagua no
Amazonas em Santarém, e ai, você em pé na
margem do Amazonas não vê a outra margem.
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Depois de aposentado, no inverno de 2002, aproveitei uma milhagem que ia expirar e
peguei um voo Salvador – Santarém, aonde cheguei às 22 horas. A cidade cresceu
muito desde a última vez que estive aqui, têm agora 30 mil habitantes, um calçadão
novo ao longo do rio Tapajós. Instalei-me num hotel no centro. No dia 4 de julho sai
cedo pelo calçadão onde ficam batelões que eles chamam de „recreio‟ e peguei o
ultimo camarote disponível no B/M (barco a motor) São Francisco de Paula que sai
hoje à noite para Macapá. O camarote é um cubículo com beliche e ventilador. Mas é
muito melhor que ir na rede cuidando da sacola. Conversei com um agricultor que
deixou de ser barqueiro, pegou um financiamento do Banco da Amazônia a 1% ao ano
e está plantando feijão e mandioca. A viagem é tranquila: comida boa e farta, bem
feita. Eu ficava para o „segundo-turno‟ e descia quando alguém da tripulação ia me
chamar. À noite o instrumento de navegação é um farol para iluminar os tronco de
árvores e umas ilhas de capim que descem o rio. O barco funciona como um
instrumento de integração regional, entrando pelos „paraná‟, que são os chute-cut-off,
atalhos, onde o rio é mais estreito. Logo na saída de Santarém passa o encontro das
águas escuras do Tapajós com as águas barrentas do Amazonas. O barco para no
caminho para desembarcar pessoas, bujões de gás, combustível e víveres, e
embarcar a produção local de requeijão e produtos da floresta. A densidade
demográfica é muito baixa. São 530 km rio abaixo (386 milhas náuticas) até Macapá,
cobertas em dois dias, numa velocidade cerca de 10 nós, incluindo a correnteza. A
navegação é toda “no olho” com conhecimento local. O prático não usa carta náutica
nem instrumentos eletrônicos. Depois de receber o afluente Xingu pela margem
direita, na fronteira sul do Amapá, na altura do meridiano 51°30‟W, o Amazonas
recebe o rio Jari pela margem esquerda, 300 km antes do oceano aberto, e começa a
deixar uma carga de fundo na forma de barra da boca do canal principal, que forma a
ilha de Gurupá, alinhada longitudinalmente por 130 km, e dividindo o fluxo por dois
distributários (mapa abaixo). Para além de Gurupá, na direção nordeste, ocorre uma
diversidade de ilhas longitudinais formando um estuário onde o rio e a maré oceânica
travam um embate de gigantes. Defronte a Macapá, bem na linha do equador, onde a
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maré tem mais de 3m de amplitude, existe uma estação de coleta de água doce que
abastece a cidade! Para jusante, a nordeste, ficam as ilhas Caviana e Mexiana, que já
constituem a frente deltaica. É ai que se observa o fenômeno da pororoca, na
mudança da maré morta para maré grande, quando o oceano se exibe para o rio.
O rio rasga a plataforma continental rasa, onde a isóbata de 50m fica 300 km mar
adentro, escava um canal submarino com profundidade maior que 100m, e vai
alimentar diretamente o talude continental. O Amazonas forma um High Constructive
Tide Dominated Delta. Na planície deltaica a jusante da ilha de Gurupá, em frente a
Macapá, existe uma maré de 3,5m. O fluxo é contínuo, axial, homopicnal, e a água
doce vai até a plataforma continental. O delta é alongado e só a parte a oeste de
Marajó faz parte do processo atual. A ilha de Marajó está estabilizada com 8 km de
sedimentos terciários.
Em 2003 fui levar um catamarã Lagoon 41 de Salvador para os Estados Unidos e
passei pelo „cone do Amazonas‟. Cruzamos o equador na longitude ʎ=43°27‟W,
profundidade ~3000m.
Dia 25 de outubro, em plena
época de furacão no Caribe, o
vento diminuiu para força3, força
2, e rondou para NE. O trecho de
vento fraco foi de 0,5° de latitude
e 1° de longitude, 1,5 a 2,0°N e
45°40‟ W a 46°40‟W. Às 10h
subimos o talude continental,
cruzando as isóbatas de 2000 e
1000m. Antes do almoço houve
um show de golfinhos na água
azul profundo. Durante a noite
cruzamos o canal principal que
alimenta o talude no cone do Amazonas. Na plataforma, entre as isóbatas de 30 e
200m, há na carta 10 da DHN um ponto circular marcando 471m. Passei nele; vinha
com profundidade mensurável na sonda que tem registro analógico até 200m, e perdi
o fundo por 36 minutos. Interpretei não como uma anomalia pontual, circular, mas
como o talveg de um canal distributário com largura de 4 milhas, vindo do cabo Norte
e de Macapá o qual não foi convenientemente mapeado.
Abaixo: trecho da carta náutica DHN 10, Costa Norte da América do Sul, entre as
latitudes 2 – 8° N e as longitudes 45 -53° W. A linha riscada com marcas das datas de
26 a 30 de outubro de 2003 é a rota do Blooper por sobre a plataforma continental
entre as isóbatas de 50m (limite azul escuro e azul claro) e 200m. A feição Cone do
Amazonas se estende da borda da plataforma até a isóbata de 3000m.
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Este canal deve alimentar a cabeceira do grande leque no talude, o qual forma o “cone
do Amazonas‟. A isóbata de 10m está a 50 milhas da costa! Tudo aqui na foz do
Amazonas é grandioso. Este modelo que visualizo para o Amazonas como um delta
construtivo dominado por maré não existe nas classificações dos modelos deltaicos,
mas a foz do Amazonas é algo exclusivo, merece um projeto específico a ser feito com
um navio oceanográfico. Os poços de petróleo perfurados na costa do Amapá
atravessam uma seção de calcários marinhos de 3500m de espessura, formação
Marajó, datada como Terciário inferior até o Mioceno (até 12 milhões de anos), uma
seção absolutamente incompatível com a foz de um rio como o Amazonas, o que leva
à interpretação que até o Mioceno o Amazonas corria para oeste. Acontece que
durante o Mioceno houve o levantamento dos Andes, invertendo a drenagem da
região, e a partir dai os calcários da Formação Marajó são recobertos pelos
sedimentos terrígenos do Grupo Pará, atestando a chegada da drenagem do
Amazonas para leste.
Para mim faltava explorar o alto Amazonas, e em junho de 2005 aproveitei uma
viagem com Mila para o Peru e após visitar Macchu Picchu e o rio Urubamba no
inverno, voamos de Lima para Iquitos, a capital da Amazônia peruana.
O rio Urubamba desce em corredeira de Macchu Picchu por 350km, no vale oriental,
separando a 3ª crista da 2ª dos Andes, até receber o rio Tambo pela margem
esquerda e formar o Ucayali. O Ucayali vai meandrando por 900 km para norte, entre
a 2ª e a 1ª crista, até receber também pela margem esquerda o rio Maranon, formando
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o Amazonas, que já passa em Iquitos com esse nome. De Iquitos até a tripla fronteira
Colombia (Leticia), Brasil (Tabatinga) e Peru (Santa Rosa) o Amazonas corre 200
milhas náuticas (em segmentos de reta, 350 km) e ao entrar no Brasil muda de nome
para São Limões (Solimões), por mais 1700 km até receber o rio Negro pela margem
esquerda, quando volta a se chamar Amazonas. Em todo o percurso de 7000 km, o rio
Amazonas recebe mais de mil afluentes, e sua bacia hidrográfica abrange a área de 7
milhões de km2 (equivalente à Europa continental). Quinze por cento da água doce do
planeta escoa para o oceano pela foz do Amazonas. A vazão média entre 1973 e 1990
foi de 209.000 metros cúbicos por segundo. É de uma grandiosidade que tem que ser
vista e admirada, porque é único no mundo! Até o Mioceno a drenagem era para
oeste, para o Pacífico, inverteu quando do levantamento dos Andes, que dobrou,
empurrou e continua empurrando a plataforma continental pacífica de oeste para leste.
Iquitos, que devido ao porto tem um comércio ativo que abastece toda a região, já
experimentou dois ciclos exploratórios, o da borracha (1879 a 1912) e do petróleo
(desde 1970, com construção de uma refinaria em 1982). Hoje é a porta de entrada
para o turismo ecológico que explora a biodiversidade da floresta amazônica e conta
com uma estrutura receptiva: hotéis, agências, transporte terrestre (triciclos
motorizados, vans, motos que se aluga por 5 soles/hora).
Alugamos o motocar de Tante
e fizemos um dia inteiro de
turismo por US$60, incluindo a
viagem de barco para visitar a
comunidade dos Bora, subindo
o rio Nanái e entrando pelo rio
Momón. Lá comprei uma
pintura de piranha na casca de
árvore que eles usam como
roupa, e Mila me fotografou
dançando com uma nativa
lindinha, corpo de mulher, seios
de fora, 16 anos. O chefe da
tribo, Rubem, tirou retrato com
Mila. Almoçamos na cidade, ceviche com abóbora e aipim. Visitamos o barco que sai
amanhã para Leticia (fronteira com o Brasil, 200 milhas rio abaixo, 2 dias de viagem).
Cobra 60 soles por pessoa em camarote duplo. Levam a comida no camarote.
Preferimos ir num barco rápido que cobra 60 dólares por pessoa até Santa Rosa e faz
a viagem em 12 horas.
Iquitos fica na foreland basin, na mesma latitude de Fernando Noronha, 3°50‟ ao sul
do equador, e na longitude 73°20‟W. Caminhando de volta para o hotel, paramos ao
meio dia numa praça para observar o relógio de sol. Fomos abordados pelo guia
Donaldo, 58 anos, filho de espanhol, querendo vender tour. Conversamos um bocado.
Disse ele que levou cinco anos fazendo levantamento do rio com um ecosonda, da
margem até a profundidade de 150 pés (45m). Só uma vez na desembocadura de um
tributário ele perdeu o fundo. A profundidade média é de 20 metros, e a correnteza
agora em junho, com o rio baixo, 2 nós. Época boa para subir é março, com o rio
cheio, com menos chance de encalhar. Nos mapas o rio tem uma sinuosidade baixa,
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< 1,5, o que seria um padrão braided. Mas o volume de água é tão grande que a bacia
hidrográfica funciona como um lago, sendo o rio o talveg. A carga suspensa é enorme
e flui pelo „lago‟, mas a carga de fundo, de cascalho e areia, é restrita ao talvegue.
Olhando o rio, as barras que os pilotos chamam de praia e só descobrem quando ele
está bem baixo (que ainda não é o caso) são, creio, point-bars, o que caracteriza
padrão meandrante. Os pilotos fazem as curvas pelo caminho mais longo, como
recomenda a „regra da volta de fora‟ e atravessam o rio no meio
nos trechos retos. Os pilotos que vi e conversei não usam mapa
nem eco-sonda. Pelos mapas vamos entrar no Brasil no
meridiano 70°W, quando o rio Javari (Yavan) que separa o Peru
do Brasil entra no Amazonas pela margem direita. O rio Javari
corre SW-NE e passa a 160 km a leste de Iquitos. O Amazonas
corre o tempo todo pelo hemisfério sul, só cruzando o equador
na foz, defronte a Macapá, no Amapá. Mas ainda tem Brasil até
5° N.
Em Iquitos rearrumamos a bagagem, roupa de frio embaixo. Dia
14 de junho, saímos do hotel num motocar às 5h. O barco
chegou às 6, com um gordo na entrada futucando a bagagem e se dizendo alfândega.
Desatracamos às 7h. Às 8:20 passamos a entrada do rio Napo, um grande na margem
esquerda, que vem do Equador. Levantei e fui falar com o motorista. Estamos
andando a 45 km/h. A água é cor de café com leite, com muito material solto, folhas,
troncos de árvores. Às 8:50 onde o Amazonas faz uma sinuosidade para N visível na
escala 1:15.000.000, o motorista passou para a margem esquerda, seguindo a regra
das curvas mais longas. Até aqui vinha pelo meio ou pela margem direita. 12:00,
paisagem incrivelmente homogênea; largura do rio de pouco menos de 1 km, cor
marrom terra, café com leite, mais escuro na sombra e mais marrom no sol, margens
sub-verticais; raríssimas barras
longitudinais,
necessariamente
fixadas por vegetação alta, de 5m.
Estamos na época de meia-baixa, e
as barras ainda não emergem; a
baixa mesmo é de setembro a
novembro. Existem baixios onde os
navios encalham; mas não os vi até
agora. O motorista concordou com
a opinião de Donaldo, a melhor
época para subir o rio é março-abril,
no final da enchente. Às 15 h
paramos em San Paldo para
abastecer 200 litros de diesel. O barco não tem hélice, é um sistema de turbina
hidrojato, manobra com muita facilidade e não vibra. Quando um basuro prende na
turbina o motorista sente, engrena ré, limpa o basuro e continua. Já fez esta operação
três vezes.Em Chimbote, imediatamente antes da fronteira com a Colômbia houve
inspeção policial. Tomaram os passaportes e entraram numa casa na margem. Cada
passageiro foi chamado para receber o passaporte e tornar a embarcar. Para mim a
parada serviu para um cigarro. Chegamos em Santa Rosa às 17 horas. O policial
peruano tomou o passaporte dos estrangeiros e se mandou. O pessoal foi andando
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atrás sem saber para onde ia. Acabamos chegando nums barracos de madeira. Nosso
grupo era um casal de ingleses, 3 australianos, um casal de mexicanos e um
colombiano. Entramos na imigração, mas os passaportes estavam na policia. A
inglesa chegou com o dela e fui à policia deixando Mila na imigração. Lá o policial
conferia os passaportes num livro grande, e disse que ele os devolveria na imigração.
Voltei. Um australiano barbicha tinha tido o passaporte roubado em Lima, pegou outro
na embaixada e uma declaração, e estava com problemas. Servi de intérprete entre a
funcionária da imigração e ele. Cada um explicou seu ponto de vista e no final a
mulher disse que liberava se o australiano pagasse US$20. Ele topou na hora! Me
agradeceram, liberaram meu passaporte e o de Mila e nos mandamos de volta para o
porto. Pegamos uma canoa com motor Honda refrigerado a ar e com uma rabeta
comprida sub-horizontal, sem reversor, e atravessamos a fronteira fluvial para
Tabatinga, no Brasil. A rabeta é comprida para que o ângulo da hélice seja adequado
para empurrar. Se fosse mais curta empurraria o fluxo para cima e não para frente. O
fulano da canoa cobrou 10 soles, paguei 2 dólares. Ele não entendia bem o cambio,
mas aceitou. De imediato pegamos um taxi, uma Belina velha que nos levou até o
porto, onde fomos informados que dois navios sairiam amanhã para Manaus.
Entramos no melhorzinho e escolhemos a melhor suíte de bordo (cama de casal,
cômoda, banheiro). O camarote simples era 600 reais, a suíte 700. Na rede 200. O
cambio deles era R$2,3/dólar e como eu só tinha dólar, não aceitei. Seguimos no
mesmo taxi e fui jantar com Mila um pirarucu ótimo. Lá ela disse que tinha $ em reais
e que pagaria o barco. Em compensação
em Manaus eu a levaria para o hotel da
Varig. Passamos no mercado, tomamos
um moto-taxi e voltamos para o Oliveira V
onde nos instalamos na suíte, cabine 7,
com ar condicionado 110V alimentado
com energia do píer. Dormimos bem e no
dia seguinte tomamos o desjejum com o
que compramos no mercado ontem. O
barco ia sair às 15 horas, de forma que
tomamos um taxi e fomos a Letícia, na
Colômbia. A fronteira é uma rua, a
Avenida Internacional.
Rodamos a
cidade, cuja população é na maioria de
índios, visitamos as curiosidades turísticas e
voltamos para almoçar em Tabatinga no
mesmo lugar do peixe de ontem.
Compramos lençol e sacola e embarcamos.
A operação de desatracar é controlada por
rádio. O timoneiro só vê a frente, e o
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comandante na borda diz o que deve ser feito com os motores e com o leme. Quando
suspenderam as defensas (pneus grandes) o operador abriu as máquinas. Bonita a
saída! É como navegar no oceano sem ondas. Logo na largada cruzamos por duas
lanchas que traziam pessoal da universidade, e o prático João e o imediato Erivaldo,
que se revezam no leme a cada 6 horas, tocaram para leste, em „área de segurança
nacional‟ na direção de Benjamin Constant.
Largamos de Benjamin Constant às 18 horas. A lua estava no zênite, em Virgem, e
Júpiter bem próximo. O sol em Touro já estava abaixo do horizonte, e levou Mercurio,
Venus e Saturno com ele. O primeiro jantar a bordo foi pobrezinho, uma sopa com
farinha. Tomamos banho na suíte e dormimos bem, sem ar condicionado. A coberta
que Mila comprou foi ótima. Houve vento de leste à noite e a manhã toda, força 3,
5-10 nós, de proa. Os pilotos fazem as curvas sempre pelo lado mais longo, o mais
fundo.
16 de junho, quinta-feira. O café da manhã foi café, leite, pão, manteiga e cream
cracker. Nada mais. A fulana disse que amanhã vai ter queijo. A topografia do entorno
é baixa, montanha só na nascente dos tributários e a relação carga de fundo/carga
suspensa deve ser muito baixa. O alto teor de carga suspensa deveria dar um padrão
meandrante, mas o volume de água é tão grande que o „lago‟ desce quase retilíneo.
Às 11h, hora de Lima, paramos em Santo Antônio do Içá. Demorou uns 40 min, e foi
servido almoço porque o barco funciona no horário de Manaus. Almoçamos com duas
colombianas de Bogotá, estudantes de ecologia, Maria Alexandra e Maria Camargo,
que queriam saber sobre o Brasil, estavam indo passear no sul. O almoço foi galinha,
macarrão, arroz, farinha, suco de maracujá de caixa. O equipamento de navegação é
um farol possante que não pode ficar aceso mais de dois minutos. Só. Não tem nem
bussola. O barco é de aço, tem 39 metros, 2 motores Scania de 375 hp, 2 grupos
geradores e custou 1,8 milhão de reais, sem financiamento. Consome 1600l de diesel
na viagem de 3 dias. Foi feito em Manaus. Gilmar, o proprietário, estava a bordo e
disse que vai fazer outro de 45 metros. Este, com dois anos já se pagou. Segundo
Gilmar, se fosse feito no estaleiro que o banco financia ia custar o dobro.
Com 22 horas de navegação rio abaixo, incluindo as duas paradas, já tínhamos
andado 120 milhas, e a topografia da margem esquerda mostrava barreiras vermelhoamareladas, provavelmente bauxita.
Às 13:30 paramos junto ao rio Putumayo, de água preta, que entra no Amazonas pela
margem esquerda. Este rio nasce nos Andes colombianos e passa 200km a norte de
Iquitos, fazendo a fronteira entre Colombia e Peru até entrar no Brasil. Na época da
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borracha, os capatazes da Peruvian Amazon Company, de Julio C..Arana desciam de
Iquitos até aqui para subir o rio Putumayo, nas margens do qual ficavam os
entrepostos onde recebiam, pesavam e tratavam o látex coletado pelos índios. O
Putumayo entra no Amazonas na latitude 3°‟S, longitude 68°W, onde vi um tronco de
sumaúma, também chamada de barriguda, a maior árvore da floresta (70m, da altura
das sequoias), que os índios chamam de „mãe das árvores‟ (foto abaixo) usada para
fazer o flutuador velho. Havia também um flutuador novo feito de açacu (árvore do
diabo).
Sumaúma, a „mãe das árvores‟, do tope de uma sequoia.
Às 18h estávamos no meridiano 67°W, pouco antes do rio Jutai. Aqui o Amazonas fica
largo, umas três vezes a largura anterior a montante. Quando o rio fica largo perde
competência e deixa a carga de fundo como barras longitudinais. Aqui o leito se enche
dessas barras, espaçadas por paranás (do tupi, canal que liga dois rios), que são
braços dos rios caudalosos, separados do curso principal por uma ilha. As barras se
constituem em ilhas e são fixadas por uma vegetação nativa de tacanas ou flecheiras,
um mato alto, parecendo trigo com 3m de altura, de onde os índios tiram as suas
flechas.
Estamos chegando na metade do percurso Iquitos-Manaus. No final da tarde
chegaram uns estratos pesados com chuva e vento de uns 18 nós. Durou pouco, a
nuvem fica quase parada e a gente passa por ela. O jantar foi igual ao almoço, galinha
com macarrão, arroz e farinha. O imediato Erivaldo disse que se colocar linha de
arrasto pega peixe. Eles tem uma pá (hélice) de reserva para o caso de bater num
12
tronco. Às 21h, adiantei o relógio 1 h para a hora de Manaus. Mais tarde passamos
por Juruá; as cidades ficam no geral onde um tributário entra no Amazonas. O Erivaldo
fez uma manobra de atracar e desatracar espetacular. Fui para a cabine assistir a
desatracação. Ele opera os dois motores e o leme com maestria, num navio com 430
toneladas. Então fui dormir pensando que a ocupação humana na Amazônia é ainda
muito esparsa; a floresta não é um lugar facilmente habitável, é um ambiente fechado,
escuro e intransitável, ajustado para quem anda saltando de galho em galho. Para o
superpredador se instalar numa região dessas é necessário remover a floresta e
destruir sua rica biodiversidade. Com a projeção da explosão demográfica da espécie
humana e com as limitações de água doce no planeta, não creio que esta floresta seja
preservada por mais meio século.
17 de junho, sexta-feira. Acordei às 02:30 com barulho diferente. Quando abri a porta
havia o maior temporal lá fora. Vento de 25 nós, ondas de 0,5m, o marinheiro arriando
as cortinas. Comi uma maçã e fui na cabine de comando. Não se via nada à frente, a
bandeira da Amazonia na proa estava tesa para bombordo. Os relâmpagos
circundantes de vez em quando iluminavam a costa a boreste, bem próxima. O farol
de bordo sendo aceso com frequência. Na cabine o clima estava tenso, o piloto
reclamando pelo rádio das luzes abaixo para serem apagadas. Estava escuro na
cabine. Cumprimentei João e fiquei quieto. Com pouco ouvi uma voz tensa, creio que
era Walter, o veinho Comandante, resmungando de „passageiro‟. Sai e fui para a
cabine. Quando entrei na cabine ouvi os motores roncando forte, creio que em ré.
Possivelmente encalhou. Mas eles livraram o barco e seguiram, tudo absolutamente
escuro. Ai o vento amansou e a chuva passou. Eles abriram o motor e tocaram para
tirar o atraso! Tudo no sentimento, realmente um sistema de navegação primitivo,
perigoso e suscetível de
invocar superstições e
crendices. Acordei pela
manhã com a moça da
cozinha batendo na porta.
Durante
a
manhã
fotografei duas samaumas
na beira do rio; a foto da
esquerda tem Mila e João,
com a sumaúma se
destacando lá no fundo. O
almoço hoje teve feijão.
Havia no restaurante uma
índia bonita, sozinha, com
um filho de 2 anos e um
diamante de 3 a 4 quilates no pescoço. Dormi um pouco depois do almoço. Depois fui
à cabine de comando. João estava no turno e dei aula para ele de mapa. Ele deve ter
uns 50 anos, 34 dos quais navegando no trecho Manaus-Tabatinga. Já trabalhou em
balsa de petróleo. Um prático cobra diária de R$100 mais passagem de volta se for o
caso. Na época de baixa, setembro a novembro, poucos práticos se arriscam a passar
no rio. Na época de cheia têm muitos. Quando da enchente, dezembro até fevereiromarço, descem muitos troncos no rio e tem mosquito. A época certa para vir é de
março a maio porque tem menos tronco e não tem mosquito.19h, hora de Manaus. O
13
jantar acabou às 18h. Mila e eu fomos os
últimos a entrar. A índia bonita do diamante
não quis jantar; está numa rede a boreste, do
lado da chuva, mais para a popa. Acabamos
de passar o terminal de gás de Urucu. O rio
Urucu engata no Coari, que logo depois entra
no Amazonas que aqui fica largão, 3km ou
mais, a 63°W. Faltam umas 200 milhas
náuticas para Manaus. O terminal fica na
margem direita, é grande e bem iluminado.
Havia um navio de gás atracado com proa para montante. Cerca de uma dúzia de
esferas de GLP no terminal. Mais ao fundo tive a impressão no lusco-fusco que era um
grande tanque de óleo. Uma antena grande de comunicação. Tudo no padrão
Petrobras, se destacando na paisagem em relação a todo o resto que já passamos.
No largo, a bombordo, uma cidade iluminada mais a jusante. O jantar, para variar, foi
galinha, arroz e macarrão. Mila está ameaçando que nunca mais come galinha com
macarrão. Antes do jantar conversamos com Wilson Paraná, garimpeiro de ouro. Ele
draga cascalho no rio onde tem sumaúma porque a sumaúma usa o cascalho para
fixar as longas raízes. O ouro é removido do cascalho com mercúrio, que faz um
amálgama com o ouro fino disseminado, sendo depois separado por fusão, sendo o
mercúrio descartado num processo altamente impactante. Garimpar na terra dos
índios é ilegal e a Policia Federal quando chamada pelos índios prende o garimpeiro.
Paraná disse que a policia federal é séria, mas que a policia militar e principalmente a
policia civil, são na maioria de meliantes.
Houve um bingo no bar mas não fomos. Existe uma pequena parte de passageiros
mal educados que não merecem a nossa presença. Mila e eu jogamos cartas na
cabine e dormimos. Acordei de madrugada, estava uma noite linda, a ursa menor
subindo no horizonte a bombordo. A polar não apareceu, estava abaixo do horizonte.
Também estamos a sul do paralelo de 3°S!
18 de junho - Acordamos com a moça do restaurante batendo na porta para o café da
manhã. Chegamos no restaurante às 06:45 e já não havia pão nem maçã. Não faz
mal, Mila está emagrecendo. Fotografamos um transporte de açacu. Os troncos
externos têm uma argola cravada e o conjunto é circundado por cabo de aço. Vai uma
barca puxando na frente e outra empurrando atrás.
Às 10 h chegamos em Mancapuru e entramos no „furo‟, um paraná que liga o
Amazonas com o rio Negro, cortando caminho. A partir de Mancapuru já existe estrada
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que vai até Manaus, e de lá para Porto Velho e Cuiabá, para o sul, e para Boa Vista e
Venezuela, para o norte. Junto com a estrada corre um gasoduto. O „furo só funciona
com o rio cheio. Em setembro não da para passar, está seco, e o Oliveira V tem que
fazer uma volta de 2 horas pelo „encontro das águas‟. Um peixe enorme pulou na
entrada do furo. A correnteza era muito forte. Parecia uma zona de crevassing do
Amazonas que entrava no rio Negro. Na saída do furo vimos a refinaria de Manaus e
logo depois, para o norte, a cidade, onde Erivaldo fez a manobra de atracação no
porto flutuante às 11h. Despedimo-nos da tripulação e descemos. Na ponte existe uma
placa gigante marcando a variação do nível do rio, que chega a mais de 20 metros.
Estava agora a meia altura; sem duvidas foi uma época boa para a viagem: zero
mosquito! Ao desembarcar fomos a pé passando pelas lojas da zona franca. Manaus é
hoje uma cidade industrial, com mais de 500 indústrias que recebem incentivos fiscais.
Por mais cuidado ambiental que haja, a chegada do „desenvolvimento‟ na área tende a
trazer junto a imundície e a poluição. Nos instalamos no hotel, almoçamos e fomos
visitar o Teatro Amazonas, de 1896, a expressão mais significativa da riqueza da
região durante o Ciclo da Borracha.
Depois fomos ver o por do sol em Ponta
Negra, o point do turismo de Manaus.
19 de junho de 2005 – Após 15 dias
viajando,
voamos
Manaus-Brasilia
observando a transição entre a floresta
primária, desabitada no Amazonas,
cortada por estradas e exibindo algum
desmatamento
no
Pará,
e
a
transformação da floresta em campos de
soja no Mato Grosso. Se voce quizer ver a
rain forest trate de ir logo, porque na minha opinião o tal do desenvolvimento vai
acabar com ela.
15
ESTADOS UNIDOS E O PINAUNA V
Os Estados Unidos todo mundo que vai ao cinema ou assiste televisão conhece. A
indústria de Hollywood vende a imagem que eles querem que você veja. Em 30 anos
de visitas pude observar uma mudança notável neste país. Em 1968 os gringos
colocaram um homem na lua, ganharam a corrida espacial, estavam orgulhosos,
receptivos e consumiam metade do petróleo produzido no mundo. Eu tive a
oportunidade de escolher uma universidade em qualquer lugar do mundo para fazer
um mestrado em Sedimentologia, patrocinado pela Petrobras, e escolhi a
Universidade do Texas em Austin. Na chegada lá, em 1973, fui a uma apresentação
dos novos alunos, onde cada um dizia quem era e porque foi para lá. Eu disse que
havia escolhido o Departamento de Geologia da UT em Austin porque julguei que era
o melhor do mundo e de saída conquistei a simpatia dos gringos.
Instalei-me
num
apartamento
confortável
com
uma
mulher
maravilhosa e dois filhos
pequenos,
comprei
um
Mustang mecânico para
mim
e
um
Pontiac
automático para ela e
conclui meu mestrado com
louvor no menor tempo
registrado em mais de cem
anos
de
tradição
do
departamento. Os meninos
frequentaram o kindergarten
e aprenderam a falar inglês. Viajamos de carro nas férias de fim de ano para o Grand
Canyon
e
para
a
Califórnia, e de novo nas
férias
de
verão
atravessando o México
de norte a sul até
Acapulco. Os gringos
eram
simpáticos,
hospitaleiros, bonitos, e
tinham o melhor padrão
de vida do mundo. No
final do mestrado vendi
os carros e aluguei um
trailer
U-Haul
onde
acomodei a mudança e
com o qual atravessamos
os estados do Texas, Louisiana, Mississipi, Alabama e Florida até Miami, de onde
voamos de volta para casa.
16
Depois deste período de admiração,
voltei aos EUA regularmente a cada
10 anos, observando que o povo
ficava menos hospitaleiro, mais
gordo e cheio de restrições. Nos
anos 80 minhas viagens aos EUA
foram para participar de congressos
de geologia. Nos anos 90 além de
congressos, fui também a um boatshow na Flórida durante a
construção do Pinauna V, e fiz em
1999 um tour de carro alugado pelo
„far-west‟ para mostrar o país a Mila.
Mas ai a impressão já foi muito diferente: os gringos vinham sendo acusados de
imperialismo e poluidores do mundo, estavam cheios de restrições aos estrangeiros no
país deles, criando dificuldades para a concessão de visto de entrada; com a extinção
da URSS em 1991 se sentiam os donos do mundo e implantaram a globalização como
estratégia para o domínio das economias de mercado. Na Califórnia era quase
impossível fumar, num approach hipócrita de controlar a poluição e preservar a saúde
de uma população obesa. Com o consumo crescente de petróleo e a oferta
estabilizada no inicio do Sec.XXI, os gringos passaram a garantir o fornecimento deles
com guerras no Iraque e na Líbia, e em 2001 foram atingidos no templo lá deles, as
torres gêmeas do World Trade Center em Nova York. A partir dai se sentiram acuados
e sempre com medo. A última vez que fui lá foi em 2006, para levar Mila que não
conhecia os Estados Unidos; em 2007 meu visto de dez anos expirou e não me
interessei em renovar.
Até a década de 1990 segui o refrão de meu mestre de vela, Davi Pezão: 20 anos, 20
pés, 30 anos 30 pés, 40 anos 40 pés. Mas dai resolvi fazer um downsizing e
encomendei um Delta 32 no Rio Grande do Sul, um projeto novo recém-lançado, que
veio ocupar um espaço no mercado nacional deixado vago com o fechamento dos
estaleiros que existiam no país, no Rio e em S.Paulo. O meu era o casco nº 6, o
primeiro a vir para a Bahia e deveria ficar pronto em outubro de 1994. A outra opção
de ter um barco novo aqui no Brasil, onde a importação ainda não era permitida, era
comprar um projeto e construir de forma amadora. Por este caminho eu poderia ter
feito um catamarã, cujos projetos tiveram um grande avanço nesta década de 1990,
mas a construção era muito trabalhosa e o resultado final não era satisfatório.
17
A indústria gaúcha e a Delta Yachts fabricavam o barco quase todo: casco, mastro,
ferragens de convés, gaiutas, catracas, marcenaria ... importados eram apenas os
eletrônicos e o motor. Eu já tinha experiência com as catracas e gaiutas nacionais, e
não queria arriscar no barco novo, de forma que decidi ir em fevereiro ao boat show de
Miami e comprar esses equipamentos por lá. Neste início de 1994 a moeda nacional
era lixo, e em janeiro a caderneta de poupança pagou „juros e correção monetária‟ de
40% no mês. Tudo era negociado em dólar americano, que na época era a moeda
forte no mundo todo. Fui com Marco Tulio, um colega da Petrobrás que também tinha
barco e queria ir ao boat-show, e me ajudaria a carregar como bagagem o que fosse
possível, desde que eu fosse de guia com ele à Disneyworld em Orlando.
Viajamos dia 17, visitamos os expositores dia 18, compras dia 19, velejamos num
Melvin 24 dia 20, visitamos os barcos que estavam na água dia 21. Comprei gaiutas,
enrolador de genoa e head-foil, catracas, stoppers, estação de vento, velocímetro e
profundímetro, um receptor GPS recém-lançado, o Garmin 75, ferragens. O material
mais volumoso foi encaminhado por um despachante local direto para o estaleiro no
Rio Grande do Sul. Alugamos um carro e fomos pela costa leste até Orlando dia 22,
passamos o dia 23 no Epcot Center, retornamos a Miami pela turnpike dia 24 e
voamos de volta para casa dia 25.
No início de setembro o Ricardo Weber, proprietário do estaleiro Delta, veio a
Salvador explicar o atraso que ocorreu na laminação do casco 6 e levou uma parcela
de vinte mil dólares. No início de outubro ele ligou dizendo que havia colocado o
convés e fui a Porto Alegre. Lá constatei que as anteparas do barco eram de madeira
escura, e eu tinha especificado clara. Era tanta mão de obra trocar as anteparas, que
Ricardo resolveu laminar um casco novo, o nº7, me prometendo que ficaria pronto
antes do nº6. Nesta viagem acertei com ele as modificações que queria fazer no
projeto, e ele aceitou tudo sem custo adicional para compensar o atraso que era
penalizado com cláusulas contratuais ruins para ele. O casco novo deveria ser
laminado com resina estervinílica abaixo da linha d‟água, mudei a disposição da mesa
de navegação, removi portas internas das cabines de proa e popa, ampliei a cozinha
instalando uma lixeira entre o fogão e a geladeira, fizemos uma segunda geladeira por
trás dos assentos de bombordo a ser refrigerada com compressor, especifiquei a
instalação de um boiler para ter água quente no banheiro, o tecido dos estofados,
instalei mais um banco de baterias, passa mão de apoio por dentro da cabine e por
fora, mudei o sistema de burro e amantilho, deixei para ser executado um sistema de
trilho na frente do mastro para a self-tacking-jib e um suporte para âncora com rolete
na proa... foram mais de 40 itens. Ricardo me levou numa viagem no carro dele até
Panambi, para comprar um compressor da Compac para a geladeira, e na volta
passamos em Caxias do Sul para definir as ferragens na Nautec e discutir com
Amilcar as modificações no mastro e na retranca. Combinamos que o Pinauna ia sair
com quilha curta, calado de 1,6m, quilha esta que o Nestor Volker ainda estava
projetando. Foi uma semana no Rio Grande do Sul, onde Ricardo foi um anfitrião
cortês, me levou para visitar os clubes náuticos de Porto Alegre, o Veleiros do Sul, o
Jangadeiros e o Guaíba. Acho que para ele foi bom ter um cliente exigente e que sabe
o que quer, porque ele viu a possibilidade de melhorar o produto que vende usando a
minha experiência.
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Dia 8 de dezembro, uma quinta-feira, foi feriado em Salvador, e fui a Porto Alegre ver
o Pinauna. Ricardo me pegou no aeroporto. Na sexta fomos a Caxias do Sul ver a
mastreação e estabelecer as modificações que pedi. Boris Ostergreen dimensionou o
tamanho do trilho da buja self-tacking. No sábado passei o dia no estaleiro, e constatei
que o barco estava mais atrasado do que eu supunha. Combinamos que, já que ele
tinha que sair do estaleiro em Gravatai, de caminhão, ao invés de ir para água no rio
Guaíba deveria seguir até a Marina Brachuy, a meio caminho entre São Paulo e Rio
de Janeiro. Época boa de velejar para o norte é o inverno, com vento sul. Subir no
verão com corrente contra navegando duas mil milhas de contravento é coisa para
uma tripulação de regata, e com esta providência, já que eu queria chegar em
Salvador navegando, cortei o percurso pela metade. Ainda assim foi dureza, que o
diga minha filha Liana, tripulante valente que veio comigo em janeiro de 1995.
Na virada do ano 94-95 eu estava sem barco, coisa que não acontecia há 1/5 de
século. Fui de moto com Cris acompanhar a procissão marítima do 1º de janeiro,
assistimos a chegada da galeota na boa Viagem e o desembarque da imagem do Bom
Jesus dos Navegantes nos ombros dos carregadores vestidos de vermelho e amarelo.
Tirei férias em janeiro de 1995 e viajei com Liana no Fiat Tipo de Felipão, levando o
equipamento do barco novo (caíque, remos, salva-vidas, defensas, material de
cozinha e mesa, roupa de cama e banho, equipamento de mergulho e de pesca,
croque, âncora e cabos, ferramentas, etc.) e com a tarefa de entregar o carro de
Felipe em São Paulo. Com os bancos traseiros arriados o carro ficou com todo o
compartimento de bagagem praticamente cheio até o teto. Saímos dia 6 direto para a
fazenda de Vicka 30 km a SSW de Ipiau, nas nascentes do rio do Peixe. Passamos o
dia 7 na fazenda e seguimos no domingo para sul pela BR-101 numa viagem de 400
km. Em Itamaraju desviamos para sudeste pelo Parque do Descobrimento e fomos
pernoitar numa pousada na praia, em Alcobaça. No dia seguinte retornamos para a
BR-101 mas tornamos a entrar para a praia em Mucuri, onde almoçamos. Estes
desvios para leste serviram tanto para que Lia conhecesse por terra a costa do
extremo sul da Bahia quanto para que víssemos as alternativas para uma eventual
aterragem de emergência quando estivéssemos subindo com o barco.
Nossa estirada diária não era mais que 400 km. Ao entrar no Espírito Santo fizemos
uma parada em São Mateus, na base operacional da Petrobrás, onde visitamos o
pessoal da geologia. Telefonei para Ricardo em Porto Alegre, e ele me confirmou que
o Pinauna seria embarcado dia 13, e que seguiria para Porto Brachuy, Ψ=22°57‟S,
λ=44°23‟W, onde ele tinha gente de apoio para fazer a montagem do mastro e os
acabamentos finais. Boa notícia, o parto da criança estava próximo! Seguimos para
Vitória e nos instalamos no apartamento de Reco.
Na terça-feira 10 o Fiat não quis pegar. Liguei para a concessionária Fiat de Vitória,
que rebocou para oficina com bagagem e tudo. Lá foi diagnosticado que a central
eletrônica de injeção não funcionava, e eles não tinham outra para repor! A solução
encontrada foi remover uma de um Tempra da loja e instalar no Tipo. À noite visitamos
Marcio Cruz no hotel, ele estava como instrutor da meninada do Iate Clube da Bahia
que disputava um campeonato nacional de Optmist na raia de Vitória.
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Na quarta 11, mais uma esticadinha de pouco menos de 400km, agora para oeste,
atravessando a Serra do Caparaó até Viçosa onde visitamos André. Quinta com rumo
sul até o Rio, onde pernoitamos com Raul e Marilda. Visitei Marcio Melo, que me
ofereceu o Apt.205, Bloco 2, Península 1, Marina Brachuy, no Saco do Canto Largo;
peguei as chaves e segui para lá na sexta.
E ai começaram as „dores do parto‟, de sábado a segunda de olho no pátio esperando
o caminhão. Nada do Pinauna chegar. Compramos panelas de aço inox, „da boa‟,
mantimentos, Lia cozinhou feijão com carne moída, ficou ótimo. Ligamos para Porto
Alegre e recebemos a desculpa de que havia morrido o pai do Demétrio, dono da
transportadora e motorista do caminhão, mas que o Pinauna sairia na terça. Na terça
fomos visitar a usina nuclear em Angra dos Reis, passeamos por Paraty, um antigo
entreposto de ouro e porto de venda de escravos, hoje sujo e cheio de mosquitos de
mangue. Seguimos pela BR-101 pela beira da praia até Caraguatatuba, SP, defronte a
Ilha Bela, onde estão os mais ricos Yacht Clubes do Brasil, ao longo do canal de São
Sebastião. É rico, mas o canal tem uma milha de largura. Hoje eu estou um tanto
azedo com a demora do Pinauna.
De Caraguatatuba subimos a Serra do Mar e descemos no Vale do Rio Paraíba do
Sul, na direção de São José dos Campos. Esta região é das mais ricas e
desenvolvidas do Brasil, e ai estão instaladas grandes indústrias e centros de ensino,
com destaque para a Embraer e o ITA, Instituto Tecnológico da Aeronáutica.
Pernoitamos num hotel em Jacarei, a 80 km de São Paulo.
Na quarta 18 passamos num posto em Jacarei e mandamos lavar o carro por fora e
por dentro. Entramos em São Paulo e deixamos o carro na garagem da Tenenge,
limpo e abastecido, as chaves com Emilia, secretária de Felipe. Falei no telefone com
Felipão que estava em Londres, fomos de taxi para a rodoviária do Tietê, lanchamos e
pegamos o primeiro ônibus da Cometa para o Rio. Ufa, não consigo respirar direito em
São Paulo! A estrada BR-116, Via Dutra, no estado de São Paulo vai beirando o curso
do Rio Paraíba do Sul entre a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira até Barra Mansa;
daí a estrada atravessa a Serra do Mar para a costa e o rio a contorna pelo norte, indo
desaguar em São João da Barra, perto da fronteira entre o Rio de Janeiro e o Espírito
Santo. Vamos passar lá orçando e com corrente contra dentro de alguns dias.
Mas hoje descemos do Cometa em Barra Mansa e pegamos o ultimo ônibus do dia
para Angra, de pé os 70 km ao longo da fronteira entre São Paulo e Rio. Chovia a
cântaros. Em Angra fomos a uma farmácia, comprei remédio para a coriza alérgica
que desenvolvi em poucas horas de São Paulo, e aproveitamos para equipar uma
caixa com os remédios para a farmácia de bordo. Pegamos um taxi e chegamos na
Marina Brachuy às 23:30.
A quinta foi de telefone e expectativa. Na sexta Marcio e Leslie chegaram com as
filhas para o final de semana e levaram Lia para passear de lancha. Eu peguei uma
carona num Chevette com moradores de Brachuy e fui na rodoviária de Angra pegar
as velas Diamond que chegaram do Rio. Acertei uma despachante, Lilia, para
providenciar com a Capitania dos Portos a vistoria e a licença de viagem, uma vez que
eu queria inscrever o barco no porto de Salvador. No sábado sai com a turma e fomos
mergulhar na Baia de Angra, a família de Márcio e a do sócio dele na lancha, Nilo
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Azambuja, também geólogo da Petrobras. Matamos uns meretes, e à noite fizemos
churrasco. No domingo, 22 de janeiro, nova saída para mergulho, e voltamos cedo
porque o pessoal ainda ia retornar para o Rio. Às 14 horas estávamos de volta, e de
longe eu fui o primeiro a ver: o Pinauna estava sobre a carreta em frente ao estaleiro
na Marina Brachuy.
O motorista da carreta, Jair, tinha um recado de Dalmo (o „montador‟ de Brachuy): ele
tinha sido contratado por Ricardo para montar o barco. Embora fosse domingo,
começamos o trabalho imediatamente e antes do por do sol Lia fez o batismo com
champagne e o Pinauna foi para água, ficando atracado no píer G, na casa de Márcio.
Domingo, 22 de janeiro de 1995, batismo do Pinauna V
Na segunda-feira cedo começamos a montagem. Lilia trouxe os milicos da marinha,
providenciou a vistoria e a expedição da licença de viagem, tudo sem complicação.
Ótimo o serviço de Lilia, que cobrou R$150. A lingada do travel-lift custou R$160.
Paguei a Jair R$2500 do transporte.
Mas você não acha que o parto de um barco novo aqui no Brasil é assim indolor, né?
Com o barco na água liguei o motor e verifiquei que uma das três baterias não
carregava, a geladeira não ligava, nem os instrumentos nem a bomba de
pressurização. Dalmo trouxe um português muito competente, o Sarmento, que
consertou tudo ($90) exceto o piloto automático que diagnosticou como com um
transistor queimado.
Na terça o trabalho de parto continuou e a criança só nasceu na quarta ao meio dia.
Ao abastecer de diesel vimos que o tanque vazava. Consertamos as conexões. O
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estai de popa estava mal posicionado e transferimos as ferragens fazendo novos furos
na popa. O estai de proa era muito curto, o que resolvemos com um esticador enorme;
o tensor do mastro dentro da cabine muito longo, cortamos o terminal prensado e
colocamos um terminal Norsemann. Não vieram a enora e uma adriça, e o Dalmo
resolveu com um jeitinho. Montamos o enrolador de genoa e ao subir a buja ela se
mostrou um pouco comprida demais na testa por causa do esticador grande demais
abaixo do enrolador. Deu para tensionar, mas a parte de cima do enrolador ficou
atritando com o mastro e o estai de proa.
Na quarta arrumamos a bagagem no barco, fechamos as contas e largamos do píer G
na casa de Marcio para a casa de Dalmo às 14:30. Abastecemos de água, fixamos a
enora, uma ultima revisão na parte elétrica e ao por do sol saímos motorando umas 15
milhas até Porto Galo, atrás da Ilha Grande, na saída da Baia de Angra dos Reis para
o leste. A lua estava no quarto minguante e só ia sair à meia-noite, a maré morta, com
amplitude de menos de meio metro. Passamos pelo terminal da Petrobras e
ancoramos 3 milhas adiante, na Enseada de Itapinhoacanga. Instalamos as talas da
vela mestra, tudo pronto, fomos dormir.
Quinta-feira, 26 de janeiro de 1995. Acordei às 02:00, sem despertador. Liana muito
disposta, sempre valente, baixou o espírito de minha bisavó Joviniana, a índia kiriri, e
andava descalça pelo convés. Subimos a vela mestra, subimos a âncora e largamos
para levar o Pinauna para casa, uma lua minguante ainda baixa na proa. Velejamos
em orça umas 10 milhas quando a maré virou de enchente e o vento entrou duro, 32
nós. Estávamos no 2º rizo e o Pinauna se comportou bem, exceto que havia um
vazamento de diesel que nos fez enjoar e vomitar. Ao meio dia o vento morreu e
motoramos. Às 16 horas atracamos na piscina do Iate Clube do Rio de Janeiro, onde
Fillet de Cação nos recebeu e nos deu muita atenção. Na perna inaugural foram 70
milhas em 11 horas.
Sexta-feira, 27 de janeiro. No Rio tentei consertar Madalena, o Autohelm 4000, sem
sucesso. Comprei um 2000, que foi batizado de Marilia, e conclui a instalação às 19
horas. A latrina vazou e tive que levar o barco para Marina da Glória. Chico, da IMS
trocou por uma nova na garantia Nautec. Aproveitei para comprar um rotor de bomba
d‟água Yanmar de reserva. Visitaram o barco Chico, Vania, Marcinha e o velho Coca.
Jantamos macarronada de Lia a bordo e fomos dormir às 23 horas.
Sábado, 28 de janeiro. Acordei a 01:30. Preparamos e saímos. Quando botamos a
cara fora da Baia da Guanabara chegou uma frente fria, que esta época do ano ainda
chega ai pelo trópico de Capricórnio. Baixamos a grande que estava no 2º rizo e
seguimos de buja em popa rasa, com relâmpagos e mar ainda liso. Pela manhã a
ressaca aliviou e entramos pelo boqueirão de Cabo Frio. Contornando a Ilha dos
Porcos subimos 5 milhas para noroeste, adentrando o Rio Itajuru, o dreno natural da
Lagoa de Araruama, atracando no píer da sub-sede de Cabo Frio do Iate Clube do Rio
de Janeiro. Almoçamos, abastecemos de diesel e resolvemos que não iríamos dormir
naquele riozinho de 50m de largura, ambiente de lancheiro, com correnteza apesar de
bem protegido para qualquer vento. Uma decisão ousada, que valeu uma noite
memorável.
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Desatracamos, vela em cima, contornamos a Ponta da Lajinha, a Ilha dos Papagaios,
e seguimos de escota folgada para nordeste. Quando passamos a Ilha do Breu,já
noite
escura,
a
pauleira
recomeçou, agora à vera,
com
vento
duro
do
quadrante
oeste,
muita
chuva,
trovões
e
relâmpagos. O mar ainda
não tinha tido tempo de
levantar,
e
as
ondas
estavam pequenas. Resolvi
entrar no Saco do Forno 5
milhas à frente, no Cabo de
Búzios. Enrolei a buja,
desacoplei Marilia e Liana
foi timonear debaixo de forte
chuva. Estava frio, e a índia
kiriri aceitou calçar meia e
Liana na proa, entrando no Boqueirão de Cabo Frio
sapato emprestado. Fui para a mesa de navegação para marcar os rumos, porque fora
não se via absolutamente nada. Quando aproamos para a entrada do saco,
Ψ=22°46,2‟S, λ=41°52,5‟W, o vento vinha lá de dentro, canalizado e zangado. Achei
perigoso, e tinha que decidir rápido porque se começasse a entrar, navegando por
instrumento não seria seguro manobrar com o erro de 100m que o GPS tinha naquele
tempo. ARRIBA, LIANA, rumo 70 de bussola por meia milha. Desci a vela mestra,
ferrei tudo e voltei para mesa de navegação. Vamos entrar a motor no Saco do
Forninho, rumo magnético 10. Foi bem mais fácil, o Forninho está protegido dos
ventos de oeste por um morro alto. Fomos indo devagar esperando a hora de mudar
de rumo para M50 quando Liana falou:
- Pai, vi agora num relâmpago que há um morro enorme na frente.
- OK, já vamos arribar 40° para boreste.
Ancoramos em Ψ=22°45,7‟S, λ=41°52,2‟W, 4m de profundidade. Liana secou o barco
e dormiu. Eu ainda tomei um uisquinho, fumei um cigarrinho e curti o orgulho de ter
uma filha como essa.
Domingo, 29 de janeiro. Após
longo descanso e café da
manhã com frutas, saímos
debaixo de uma chuvinha fina.
Quando liguei Marilia, o piloto
automático comprado no Rio
dois dias atrás, não funcionou.
Ai fiz uma proposta insana para
Lia, de seguirmos timoneando
na mão, e ela aceitou!
Aproamos para o Cabo São
Tomé 70 milhas na frente,
23
onde a costa muda para nordeste, e fomos indo com ventinho maneiro a cerca de 10
milhas da costa, eu indignado com a perspectiva de passar quase duas semanas
timoneando e imaginando uma improvisação para nos livrar daquele castigo! Depois
do almoço vi uma ilha a bombordo, e embora não tivesse carta de detalhe, ficou claro
que estávamos atravessando a zona de oleodutos da Bacia de Campos, e no nosso
través estava Macaé com porto e toda a estrutura logística da Petrobras. Ah Lia, acho
que temos uma boa chance de melhorarmos nossa qualidade de vida. Rumo noroeste,
vamos para Macaé!
Chegamos à noite, sem carta de detalhe. Estávamos já dentro do porto, com defensas
na borda, procurando uma vaga no píer, quando fomos reconhecidos por Zé Carlos,
um assistente de geologia que trabalhou comigo no Delta de Camamu cerca de 15
anos atrás. Saudou-nos, orientou para que fossemos para o píer 2 e ajudou a amarrar
o barco.
Segunda, 30 de janeiro. Desembarquei cedo, no início do expediente, com uma sacola
contendo os dois AutoHelm que não funcionavam. Fui direto ao SEGMAR (Geologia
Marinha), onde eu era conhecido, e expliquei meu problema. Me levaram a João
Machado, o técnico em eletrônica do SEOGED (Geodésia). Ele abriu os pilotos e
pediu o manual, o que não ajudou muito porque o manual de operação não tem
detalhamento dos circuitos eletrônicos. Alta tecnologia, ele comentou. Madalena ele
disse que precisava trocar peças, as quais não existiam em Macaé. Mas Marília
estava boa, era só secar e proteger os circuitos contra umidade. Com equipamento
apropriado foi rapidinho. Testou e funcionou. Aleluia! Bendita seja a Petrobras e seus
técnicos competentes! Despedidas e agradecimentos, votos de bons ventos e boa
viagem, voltei para o Pinauna e fui interceptado pelo pessoal da Capitania que chegou
num jipe Toyota. Pediram documentos e explicaram que o chefe da segurança havia
informado que eu havia saído com uma sacola de equipamentos. Tudo esclarecido
desatraquei e fui reabastecer no cais dos pescadores, a contrabordo de um pesqueiro.
Às 14 horas estávamos largando direto para Vitória, 170 milhas para nordeste.
31 de janeiro, 6º dia desde a largada em Brachuy, 26º desde a saída de Salvador. Dia
de lua nova, Marte circulando pelo céu a noite toda. Passamos o Cabo São Tomé por
dentro, às 4 da manhã, final da enchente, motorando sem vento, muito tranquilo. A
maré hoje aqui tem amplitude de 1m. Pouco adiante o nordeste entrou duro. Pelo dia
choveu e acalmou o vento. À tarde ele voltou forte e foi num crescendo estabilizando à
noite em força 6. Enrolei a buja e fui ajudando com o motor a 2000rpm. O mar
cresceu, a buja provavelmente mal travada desenrolou um tanto e a escota
endoidecida chicoteava pelos estais. Coloquei um cinto de segurança e fui para proa;
tive que desatar a escota do olhal e ela acabou caindo no mar. Fiquei irritado de início,
mas me acalmei e compreendi que aquele mar e aquele vento me haviam feito chegar
ao meu limite. Marília estava funcionando bem, deixei o barco motorando devagar e fui
deitar, Liana em turno de vigia. É a segunda vez que passando por aqui no verão o
vento me joga na lona.
1 de fevereiro de 1995, quarta-feira. Chegamos em Vitória ao meio dia. Vicka estava
no cais. Almoçamos, fiz papeis no clube registrando entrada e saída para a Capitania.
Está em curso o campeonato de pesca do clube, e hoje chegou um marlin de 218 kg.
24
Vicka e Lia limparam o barco todo e levaram a roupa suja para lavar na cidade. Eu
reapertei os estais e consertei um vazamento no sistema de água pressurizada.
2 de fevereiro, dia de Yemanjá, festa no mar da Bahia. Permanecemos atracados no
píer do Iate Clube de Vitória. Exatamente sete anos depois, em 2/2/2002 este Pinauna
V sob o comando de Pedro Bocca se chamava Boccalivre e o Pinauna VI, um
catamarã de 29 pés foi para o mar, de novo com Liana.
Reabastecemos o barco e saímos do Iate Clube de Vitória à zero hora do dia 3,
mestra no 2º rizo; contornamos o Porto de Tubarão e fomos cambando em frente a
Vitória no entorno da isóbata de 20 m. Passamos o baixo de Carapebus por dentro ao
amanhecer do dia e continuamos com um progresso de menos de duas milhas por
hora para frente. Na altura de Jacareipe, 20°10‟S resolvemos ajudar com o motor e em
3 horas andamos 14 milhas na direção do objetivo. Desliguei o motor e seguimos mais
um pouco, mas estava muito duro. Em frente à Barra do Riacho (19°50‟S) vimos o
terminal da Aracruz Celulose contornando a Praia da Concha. No verso da carta 1420
tinha o detalhe do porto com entrada balizada, e não resistimos: folguei pano e
entramos para descansar. Reapertei os estais que haviam desenroscado porque eu
não travei os esticadores com pino de segurança.
Ficamos no PortoCel até o por do sol, quando o vento amainou e rondou para norte.
Saímos às 19h, e às 22h o vento merrecou; motoramos para NE até a foz do Rio
Doce, em Regência (19°39‟S), onde a costa começa a infletir para norte. Até o meio da
manhã o progresso foi de menos de 3 nós no bordo de fora.
Às 9 h do dia 4 de fevereiro, um sábado, se é que isso tem alguma importância,
chegamos à latitude da Lagoa Monsaraz (19°26‟S) e ai a costa fica NNW até
Conceição da Barra. Cambamos para o bordo de dentro, e fomos orçando
confortavelmente com um vento leste força 4 até o por do sol, quando o vento foi
rondando para sueste. Uma beleza! Neste dia testamos a genoa leve, colocamos linha
e embarcamos uma sororoca quase imediatamente, o que nos permitiu almoçar e
jantar muito bem. Ao por do sol, na altura do paralelo 19°S passamos por uma
plataforma de petróleo, e quando estávamos a 20 milhas de São Mateus Vicka falou
para casa no rádio VHF de bordo, via São Mateus Rádio. Bons tempos aqueles
quando não se usava telefone celular. Liana e eu nunca sentimos necessidade de ter
que nos comunicar com alguém em terra. Eu até hoje sou assim, mas creio que Lia já
ficou dependente do tal de telemóvel!
Pela noite continuamos no mesmo bordo e avançamos 40 milhas para NE amurados
por boreste, com proa em Abrolhos. Na manhã do dia 5 o vento caiu e motoramos
contra uma corrente N de 2 nós que me obrigou a corrigir o rumo em 30° para
compensar a deriva lateral, até que o diesel acabou! Quem liga, isto é um veleiro!
Como premio por estarmos sem motor embarcamos uma albacora grande. Passamos
no canal entre as ilhas de Siriba e Sueste, e pegamos uma amarração no porto a sul
de Santa Bárbara. À noite ventou forte, e se não estivéssemos numa boa amarração
poderíamos ter tido problemas! Passamos quase 24 horas em Abrolhos. Lá estava
fundeada a lancha Sra. De Abrolhos, de Ciro, amigo de Thales e Chico Diabo. Ele nos
deu 20 litros de diesel. Os milicos do farol vieram a bordo com ferramentas para
ajudar, mas eu já havia extraído o ar e o motor estava funcionando.
25
Visitamos a ilha de Siriba com Daniela e Ana Cláudia, biólogas do IBAMA.
Mergulhamos ali pelo porto, e ao meio dia do dia 6 de fevereiro saímos de vela em
cima por entre a Ilha Redonda e Santa Bárbara, pelo canal de dentro, no rumo de
Porto Seguro, 100 milhas para nor-noroeste, que fizemos em 26 horas.
No início da tarde estávamos orçando com menos de 10 metros de água debaixo da
quilha, e deixamos o Parcel das Paredes cinco milhas para sotavento. Quando o recife
Timbebas estava 10 milhas a sota no través, começamos a folgar escota no paralelo
17°35‟, na expectativa de termos uma noite mais confortável. No início da noite
andávamos bem, com progresso de 6 nós, mesmo contra corrente, uma lua em quarto
crescente caída para oeste, quando rompeu a adriça de aço da genoa, bem no
terminal. Foi consequência do mau posicionamento devido a que o olhal de tope ficou
muito alto, por causa do esticador enorme abaixo do enrolador que compensava o
estai mais curto. Tornei a subir a genoa na adriça do balão, mas pela madrugada o
vento acabou, e passamos no través dos recifes Itacolomis (Ponta de Corumbau)
motorando até gastar metade do diesel da Sra. De Abrolhos. Pela manhã voltamos a
velejar e às 14 horas do dia 7 de fevereiro estávamos ancorados por trás do recife que
protege a Passarela do Álcool em Porto Seguro. Era final da vazante, não dava para
investir o Rio da Ajuda até a bomba de diesel, e fomos esperar a maré encher
comendo camarão na Passarela.
Ontem fez um mês da nossa saída de Salvador, Liana tinha compromisso de trabalho
e resolveu desembarcar. Vicka também. Aproveitei que estava em terra e convidei em
sequência Cris, Lena, Pedro Bocca e Pedro Mutti, para fazerem Porto Seguro –
Salvador comigo, as 240 milhas finais, com previsão de dois a três dias, mas todos
arranjaram uma desculpa. Ai liguei para Mano, o mais ocupado de todos, dizendo que
precisava de um cozinheiro de bordo, que Lia e Vicka estavam deixando as comidas
prontas, era só esquentar, e a gente viria jogando damas. Ele deixou o taxi em casa,
foi para a rodoviária e às 6 horas da manhã do dia seguinte estava embarcado.
Na preamar do dia 7, às 20 horas, entrei com o Pinauna para o ponto de
abastecimento, onde dormimos muito bem com o barco parado. Lia e Vicka
desembarcaram às 7 horas do dia 8, Mano já a bordo. Mano e eu abastecemos de
diesel, gelo, água, gás e ainda aproveitamos a preamar da manhã para atravessar o
baixio do Rio da Ajuda. Ancoramos para arrumar tudo, reapertamos o estaiamento,
instalamos uma adriça reserva de genoa; às 11 horas subimos a vela mestra e saímos
costeando até safar o recife Itassepocu de Fora. Um bordo curto para fora, de duas
26
horas até a isóbata de 30m sobre o banco de Royal Charlotte e cambamos para N-NE
com um ventinho E-SE que se manteve até Salvador! Mano tem sangue bom!
Liana deixou um bilhete dentro do livro do diário de bordo:
“Pai. Foi uma grande jornada que empreendemos e aqui começa uma nova
etapa. Fico grata pelo Encontro com você e com a ampliação dos meus
recursos e limites. Acho que a natureza não dispõe suas forças para nós a
dominarmos; ela se oferece gentilmente para que dominemos a nós mesmos.
Por isso agradeço cada provação, afinal de contas as dores passam e o
aprendizado permanece. Espero você em Salvador. Que a maré, o sol e as
estrelas os conduzam em Bem Aventurança ao porto de origem.
Permanecemos juntos. Um beijo cheio de amor. Lia.”
Essa menina é um doce. Ela que caminhou 900 km o ano passado no Caminho de
Santiago, uma parte com o joelho machucado, disse depois em casa que esta
travessia no contravento foi mais dura que a caminhada. Mano ficou encantado com o
bilhete, mas achou a parte dele macia. Também pudera, ficamos durante dois dias
num bordo só, vento aparente a 50-60° da proa, escota da genoa no barber-hauler,
jogando damas, ao meio-dia quando o vento caia mais uma motorada para carregar as
baterias. Após o por do sol do dia 9, uma quinta feira, propus a Mano:
- Vamos jantar? e ele:
- Temos um problema. Não tem arroz.
Fui ao armário da cozinha e mostrei a ele um saco com quase um quilo de arroz. E
ele, com um espanto desanimado:
- Mas está cru!
Grande cozinheiro que arrumei! Aproveitei a oportunidade para exibir meus parcos
dotes culinários e depois registrei no diário de bordo: “jantamos bem; noite confortável
com bom progresso”.
Na madrugada do dia 10 de fevereiro, após o deitar da lua, apreciei a esteira brilhante
que o Pinauna abria nas águas azuis ricas em plâncton no través de Camamu.
Passamos o farol da Barra ao por do sol, deixei Mano na Ribeira para pegar o carro
em casa e segui para o Aratu, onde Mano já estava me esperando no píer.
No sábado 11 voltei ao clube e nem consegui lavar o barco por dentro. Foi visita o dia
todo. Fui dormir na casa de Cris e a visitação continuou por todo o domingo. Na
segunda 13 acordei em casa baratinado, achando que estava no barco! Voltei ao
trabalho, fui visitar Mãe que estava internada no hospital. Cris comprou um carro novo
e veio me visitar. Lena trouxe acarajé e veio me visitar. Tina ligou. No final da próxima
semana é carnaval mas por hoje não ficou nada acertado quem é que vai sair no
Pinauna.
27
1990 – Cruzeiro no Curumim e Viagem ao Pantanal, Lagos
Andinos, Atacama e Macchu Picchu
Dia 2 de fevereiro, uma sexta-feira, embarcamos no Curumim com destino a Abrolhos.
Lito disse que não saia dia de sexta porque era supersticioso. Esperamos dar meianoite e largamos da Marina Porto dos Tainheiros. Enquanto eu subia a vela mestra
disse a Lena que mantivesse rumo zero magnético, mas ela aproou para Plataforma.
Reclamei e ela disse que estava no rumo zero. Fui olhar e comuniquei a Lito que a
bússola dele estava errada. E agora?!, perguntou ele. Eu tinha levado um binóculo
com alidade, lia o rumo, via o que a bússola maluca marcava, e fomos tocando.
Estabelecemos turnos de 3 horas para cada casal.
Depois do jantar do sábado dia 3, era meu turno, o vento era um ESE de uns 10 nós, e
uma nuvem preta se formou a barlavento. O mar estava arrumado, a velejada
confortável, quando a nuvem chegou com uma refrega pequena. Sem fazer barulho o
mastro arriou para sotavento, dobrando entre o garlindéu e a primeira cruzeta. Chamei
Lito com voz tranqüila, e ele levantou irado dizendo que era meu turno e que o
deixasse dormir.
- Mas o mastro caiu, disse eu.
- Isso não é hora para brincadeira, disse ele.
- Então olhe!
Ele olhou para cima de dentro da cabine e ficou estupefato.
- E isso são modos de me dizer?
- O que você quer, que fique pulando e gritando?
Ai a chuva da nuvem preta chegou, fininha.
- O que você acha? Da para esperar a chuva passar?
A chuva foi rápida. Todos no convés para trabalhar. Lito foi para proa e começou a
desarmar o enrolador da genoa. Soltei a adriça e recolhemos o head-foil e a genoa
sem maiores danos, mas a mestra não tinha como tirar do mastro dobrado, a menos
que cortasse. Coloquei um moitão de escota de balão no ultimo furo do guard-rail, na
popa, passei por ele a adriça da genoa e puxei o tope do mastro para a popa com a
catraca grande. O mastro ficou como um cotovelo, a parte dobrada lançada para fora a
boreste, e o tope apoiado no convés e amarrado no guarda-mancebo de popa. Lena
foi engatinhando pelo mastro, agora quase na horizontal, e recolheu a vela mestra
para cima, dobrando sobre o mastro e ferrando da melhor maneira possível. Estelinha
ajudava como podia. Em meia hora não tinha mais nada na água e estávamos prontos
para navegar. Marquei a direção de Ilhéus no rádiogoniômetro, ligamos o motor e pela
madrugada atracamos com defensas por bombordo no cais do Porto de Malhado.
28
Acordamos tarde, olhamos o estrago e vimos que a solução era um mastro novo.
Fomos almoçar na cidade, e disse a Lito que ia passar numa agencia de turismo e
arrumar uma passagem de avião para mim e para Lena para Porto Seguro, afim de
aproveitar as férias. Ai Estelinha disse: também vou! E Lito: eu não vou ficar aqui
sozinho!
Voltamos para o barco de barriga cheia, bom humor, e sentamos debaixo de uma
árvore para tomar um licor. A parte de cima do mastro, de baixo da primeira cruzeta
até o tope estava aproveitável, e sugeri que tentássemos fazer uma mastreação de
fortuna. Todo mundo aderiu no maior entusiasmo. Trabalhamos até a hora do jantar
removendo o mastro, separando o material aproveitável e serrando no ponto que fletiu.
Fomos jantar pitu no 'Céu é o Limite', um restaurante típico na margem do Rio
Cachoeira que eu tinha ficado freguês o ano passado quando estava remapeando a
Bacia de Almada. No dia seguinte ao meio dia estava pronto: enfiamos o pedaço de
mastro na enora, usamos os estais de força como brandais e estai de proa, e um dos
brandais como estai de popa. A vela mestra não dava para usar, secamos e
guardamos; subimos a genoa com o punho da escota na adriça, isto é, a esteira como
testa, a valuma como valuma, e o tope como ponto de escota que era caçado quase
na popa. Reabastecemos o barco, e Lito entusiasmado: pronto, vamos para Abrolhos!
Mas eu não compartilhava com as maluquices de Lito. No dia seguinte, terça-feira dia
6, navegamos para o norte com vela e motor. Pela tarde entramos em Itacaré. Dia
seguinte continuamos para norte e entramos em Camamu. Lena resolveu
desembarcar e voltar de ônibus para Salvador. Não registrei o motivo que ela deu,
mas lembro que Lito estava ficando chato, grosseiro e brigando com Estelinha. Na
quinta, dia 8, fizemos Camamu – Morro de São Paulo, quando embarcamos uma
barracuda que Lito serviu com vinho. No sábado de madrugada estávamos de volta à
Ribeira, mas o mastrinho de fortuna ficou em operação por todo o resto do ano!
Dia 1 de julho sai de férias, viajando com Lena para pescar no Pantanal do Mato
Grosso, esquiar em Bariloche na Argentina, atravessar os Lagos Andinos até Puerto
Montt, rodar de Toyota no Deserto de Atacama e visitar Macchu Picchu no Peru.
Fomos de avião para Corumbá, Mato Grosso do Sul, margem esquerda do rio
Paraguai, na tríplice fronteira Brasil, Bolívia e Paraguai. Corumbá fica bem no meio da
América do Sul, numa planície baixa e extensa, o Pantanal, com altitude entre 100 e
200 metros, entre os Andes e o Planalto Central do Brasil. Nesta planície acumulamse por sobre um substrato de calcário pré-Cambriano sedimentos aluviais trazidos das
áreas altas, compondo um excelente modelo sedimentar em bacia intra-cratônica.
Julho é o mês que chove menos e a temperatura é mais amena. De Corumbá fomos
para o sul, numa kombi da Evidência Liguepesca, uma empresa de turismo, num safári
para a Fazenda Santa Clara. Ao longo da estrada brincamos com uma sucuri, vimos
muitos jacarés, tuiuiús, capivaras e cotias. Um pássaro comum na estrada é o carcará.
Os peões tem sotaque de paulista.
Da sede da fazenda subimos de 'voadeira' o rio Abrobal no final da tarde para ver o
poleiro onde as garças e os frangos d'água vão dormir. Estimamos que chegaram uns
5000 pássaros no poleiro. No dia seguinte saímos para passeio a cavalo e pesca de
29
barranco. Sai montado em Maravilha, uma égua velha e fogosa. Lena foi num cavalo
preto e preguiçoso. Fomos tocar o gado e o cavalo preto não queria galopar. Troquei
com Lena e quando chicoteava o cavalo ele saltava e empinava, mas acabou se
acomodando. As fotos abaixo mostram na esquerda uma revoada de pássaros indo
para o poleiro, e na direita Lena na Fazenda Santa Clara com três das mais de 600
espécies de aves catalogadas na região.
Em julho de 1990 estava em curso a 14ª copa do mundo de futebol na Itália. Dia 3
voltamos de ônibus para Corumbá, e havia um jogo Itália e Argentina. A Itália, anfitriã
e favorita, perdeu nas semifinais por pênaltis. Assistimos a final, Argentina e Alemanha
em Buenos Aires, no Clube Náutico San Isidro. A Alemanha foi campeã!
Dia 4 de julho embarcamos às 7 horas no Trem do Pantanal, onde nos divertimos
numa cabine simples mas privada. Havia um vagão restaurante. A locomotiva era uma
'Maria Fumaça' que atravessa todo o Mato Grosso do Sul a 40 km/h, uma viagem
tranquila com uma paisagem que não cansa; no segundo dia cruza o Rio Paraná logo
abaixo de onde ele recebe o Tietê e ai pudemos sentir o contraste entre as regiões
sudeste e centro-oeste do Brasil. No estado de São Paulo a ferrovia segue paralela ao
Rio Tietê uns 30 km pelo sul, chegando a Bauru, fim da linha de 1200 km. A viagem
durou 36 horas. Em Bauru fomos visitar o campus da UNESP, jantamos e seguimos
na mesma noite, às 23:30, agora num trem expresso da decadente Rede Ferroviária
Noroeste.
Chegamos em São Paulo às 6 da matina, dia 6. Visitamos Felipão que nos esperava
no apartamento dele. Ele foi trabalhar e nos deixou à vontade. Tomamos banho e
seguimos para o aeroporto de Guarulhos de onde voamos para Buenos Aires
chegando à noite. Tínhamos reserva no Hotel Regente.
No sábado, dia 7 fizemos um city tour e à noite fomos ao 'Tango Mio' assistir um show
com jantar. Coisa de turista, mas Lena gostou. Fazia frio. No domingo passamos o dia
no iate clube em San Isidro, um dos maiores de Buenos Aires e que tem convenio com
o Iate Clube da Bahia. Tadinhos dos argentinos, ficaram desolados com o gol de
pênalti dos alemães aos 40 minutos do segundo tempo. Nem deu para ver muito
choro, porque o jogo logo acabou e fomos embora.
30
O Rio Paraguai depois que atravessa os alagadiços do Pantanal no Brasil e no
Paraguai, delimita a fronteira nordeste Argentina - Paraguai no Chaco, e na cidade
Argentina de Corrientes se junta com o Rio Paraná, seguindo pela Argentina com o
nome de Paraná, até que em Buenos Aires recebe pela margem esquerda o Rio
Uruguai, formando uma baía com 120 milhas náuticas de comprimento. Esta baía é
conhecida como Rio de la Plata; a água é barrenta, cheia de barras de areia e lama e
com uma maré com amplitude máxima de 0,6m. O acesso por mar de Montevidéu até
Buenos Aires é feito através de um canal artificial, o Canal Punta Índio, com
profundidade de 10m. No dia 9 de julho fizemos um tour num catamarã grande, e à
noite fomos a uma churrascaria famosa, onde soubemos que Fernando Collor,
presidente do Brasil, havia jantado na véspera.
Dia 10 o vôo da manhã que tínhamos reservado para Bariloche não existia mais.
Fomos num vôo direto às 16 horas, atravessando os Pampas argentinos e o Rio
Colorado já no escuro, pois aqui no inverno o sol se põe às 16:30. Em compensação o
Cruzeiro do Sul estava alto, a 70° de altura. Bariloche fica na borda noroeste da
Patagônia, 1400 km a sudoeste de Buenos Aires, no meio da cadeia dos Andes, na
margem sul do lago Nahuel Huapi; na mesma latitude de Puerto Montt (41°S) e a uns
50 quilômetros da fronteira com o Chile. Em Bariloche o hotel Bela Vista dizia não ter
confirmação da reserva (o que achei que era mentira) e nos deslocou para o Nevada.
Para compensar os transtornos jantamos hoje uma truta deliciosa. Na quarta, 11 de
julho fizemos um tour matinal de ônibus, beirando o lago, e à tarde fomos ao Cerro
Catedral, onde alugamos roupa para neve, subimos no teleférico e descemos
escorregando do 3° para o 2° estágio. Decididamente esta não é a minha praia.
Bariloche tem uma paisagem belíssima, mas é uma arapuca para o turista. Fiquei
agoniado quando cheguei e aliviado quando sai.
Dia 12 caímos fora da Argentina. O 'Cruce de Lagos' é um percurso de uns 200 km,
que fizemos em dois dias. Saímos do hotel de ônibus até Pto. Blest, na beira do lago
31
Nahuel Huapi, onde embarcamos num catamarã. Embora as montanhas na Patagônia
tenham entre 1000 e 3000 metros de altitude, os lagos, com profundidade máxima da
ordem de 200-300 metros, são escalonados, o Nahuel Huapi, o mais alto do percurso,
com a superfície na cota de 767 metros. Os lagos juntam a água do degelo, e tornamse mais baixos para oeste, na direção do Pacífico.
Desembarcamos em Puerto Pañuelo, e pegamos um microônibus que seguiu por uma
estradinha sem pavimento próxima à geleira do Tronador. A fronteira com o Chile
passamos a pé, carregando as sacolas. Um ônibus chileno nos levou até Puella, na
beira do lago Todos os Santos, onde nos instalamos no hotel Natura Patagônia, que
Lena gostou.
Dia seguinte embarcamos numa lancha, a MN. Puella e navegamos pelo lago Todos
os Santos que de manhã estava emoldurado com um arco-íris. O guia nos falou dos
Alacalufe, 'os gigantes do fim do mundo' que viviam por aqui até 1920.
Desembarcamos em Petrohué e seguimos de ônibus até Puerto Varas, onde visitamos
o cassino e nos instalamos no Hotel Cabanas do Lago. No sábado, 14 de julho,
chegamos em Puerto Montt. Esta região experimentou no final do Séc. XIX uma
colonização alemã, bem preservada na arquitetura. Ela ocupa uma posição
estratégica, como ponto de partida para atrações turísticas dos fiordes do sul do Chile
e como porto marítimo para as regiões mais austrais da América. Daqui saem os
cruzeiros do Skorpios, que visitam as geleiras azuis, resquícios da ultima glaciação, a
um preço (janeiro de 2008) de 2 mil dólares por passageiro, tudo incluso a partir de
Puerto Montt.
À tardinha saímos do aeroporto internacional "El Tepual", para uma rápida parada em
Santiago, onde nos instalamos num 5 estrelas 'downtown', o Hotel Galerias. Dia
seguinte à tarde voamos para Calama, no norte do Chile, pouco acima de Antofagasta.
O Chile é uma tripa com 4 mil km de comprimento de norte a sul, e uma largura
variável de 100 a 300 km. Calama fica no trópico de Capricórnio, na mesma latitude do
Rio de Janeiro, e funciona como base de apoio da maior mina de cobre conhecida em
atividade, Chuquicamata. Esta região é a porta do deserto mais árido do mundo,
32
1. Skorpios em Puerto Montt;
2. Eu nas dunas no deserto de Atacama;
3.
Arco-iris contornando o derrame de lava no lago Todos os Santos.
4. Lena
atravessando a pé a ponte na fronteira Argentina – Chile.
O Atacama, na parte mais baixa do Altiplano entre a Cordilheira Ocidental e a
Cordilheira Central dos Andes (San Pedro de Atacama, h=2400m).
Em Calama vi o tal do 'Trem da Morte', que vem de Corumbá. É horrível, um misto de
carga e passageiros que anda a 10 km/h. Alugamos um jipe Toyota para visitar as
minas e o deserto.
Quem trabalha nas minas ganha de 3 a 6 vezes mais que os outros trabalhadores do
Chile. Mas a condição de trabalho é muito dura, principalmente na fundição. É um dos
piores ambientes de trabalho que já vi. O minério ocorre no granodiorito com uma
concentração de 1,4 % de cobre. A parte de cima é de óxidos (ankerita, brochantita e
atacamita), e para baixo ocorrem sulfetos (calcosina, covelina, calcopirita e enargita).
A fase inicial da lavra, a que mobiliza os maiores volumes, funde o minério a 1300°C
separando o 'mate', com 44% de cobre. Dai o minério vai para os fornos conversores,
onde se injeta ar para eliminar impurezas e se obtém o 'blister' a 99%. Dai para os
fornos de refino, onde ajustando o teor de oxigênio se elimina o enxofre conseguindo o
cobre anódico com 99,6 até 99,8% de cobre. A fundição opera 1700 toneladas por dia.
Seguimos para sudeste, na direção da tripla fronteira Chile, Bolívia e Argentina, pelo
Vale da Lua até San Pedro de Atacama. Visitamos o museu onde fica exibida 'Miss
Chile', a múmia desidratada de uma mulher de 2000 anos, bem preservada, com os
33
cabelos penteados. A mumificação é rudimentar, mas o clima é tão seco que
encontram-se pelo
campo verdadeiros
cemitérios, os mais
velhos datados de
6000 anos, onde
tem
ocorrido
vandalização.
Paramos em um
destes próximo à
Pukara de Quitou,
uma antiga fortaleza
dos Incas, e Lena
sentou para ser
fotografada
carregando a múmia
de um bebê.
O Chile mantém ai um 'Instituto de Invesigaciones Arqueológicas' ligado à Universidad
Del Norte. A ocupação mais velha foi datada de 13 mil anos; o início da atividade
agrícola e a domesticação da llama de 6 a 5 mil anos; cerâmica e metalurgia do cobre
4 mil anos, quando os Atacameños tornaram-se sedentários, isto é, com habitação
fixa. Eles foram dominados pelos Incas quando da expansão do império destes, no
ano 1450 do nosso calendário. Em 1600 chegaram os espanhóis.
Em San Pedro de Atacama pernoitamos na única pousada existente. Estava frio,
abaixo de zero, e jantamos com os pés quase dentro da lareira, com vinho e
conhaque. Estávamos empoeirados da viagem no jipe e Lena decidiu tomar banho
antes de dormir. Eu tirei as botas e o casaco e me entoquei debaixo dos cobertores de
roupa e tudo. A água quente não funcionou, ela tomou banho gelado e foi deitar. Eu
acordei com o barulho dela batendo os dentes, tiritando de frio. Acendi a luz, a menina
estava roxa, mas não reclamava. Puxei-a para debaixo de minhas cobertas que já
estavam aquecidas, ela parou de tremer e conseguiu dormir.
No dia seguinte saímos cedo para ver a atividade vulcânica (El Tatio geysers) ao
amanhecer. O Salar de Atacama é um sabkha1 limitado a leste por um arco vulcânico
na borda ocidental da Cordilheira Central e a oeste por enormes dunas eólicas. Alguns
vulcões estão ativos, com fumarolas contínuas e eventuais explosões de cinza e lava.
Até cerca de 5 km do vulcão o chão é de dejetos vulcânicos. Daí para o interior do
salar começa anidrita nodular, halita em placas que se quebram de forma pentagonal
e hexagonal, e depois montículos como pequenos domos. A zonação se repete
simetricamente para oeste até o campo de dunas. As dunas são pouco móveis apesar
do vento forte, contínuo e frio. Existe pouca areia e a forma das dunas acompanha o
controle da estrutura dobrada, daí ser irregular.
1
Sabkha – ambiente sedimentar em clima árido onde ocorre deposição de evaporitos: anidrita, halita e
eventualmente sais de potássio.
34
À tardinha voltamos para Calama, devolvemos o carro, nos banhamos num hotel, e às
21:30 de terça-feira 17 de julho de 1990 embarcamos num ônibus de boa qualidade
para uma viagem noturna de 600 quilômetros até Arica, extremo norte do Chile, na
fronteira com o Peru. Em Arica, na manhã do dia 18 pegamos um táxi na rodoviária e
fomos a uma agência de turismo, que nos encaminhou a um 'coletivo', uma lotação
que atravessa a fronteira até Tacna, no Peru.
Ai o mundo muda, socialmente para muito pior. Caminhamos até a estação ferroviária,
e não vimos perspectiva de ir de trem até Cuzco. Caminhamos para a rodoviária, e
após atraso de 3 horas partimos num ônibus velho para Arequipa, 350 km para
noroeste, o quartel general do Sendero Luminoso. A viagem foi muito interessante e
perigosa. Várias paradas para que a polícia vistoriasse o ônibus. Lena com folhas de
coca escondidas na caixa dos óculos, lá pras tantas aderiu ao procedimento normal e
fez xixi na beira da estrada.
Em Arequipa pegamos um táxi e fomos à estação ferroviária, que não funcionava!
Uma aglomeração de pessoas irritadas e barulhentas. Ai resolvemos descansar, e nos
instalamos num hotel razoavelmente confortável, com diária de 40 dólares.
No dia seguinte fomos para o aeroporto e conseguimos um vôo para Cuzco, após
alguns pequenos inconvenientes. Tudo no Peru estava mal, o presidente Alberto
Fujimori, apoiado pelas Forças Armadas havia implantado uma ditadura fisiológica e o
povo estava revoltado e oprimido. Mas chegamos em Cuzco pela tarde.
35
Em Cuzco, que eu tinha visitado em 1984, a situação estava deplorável. Muita miséria.
Ficamos num hotel que faltava água. Depois descobrimos que todos faltavam. Lena foi
a um city tour e eu fui providenciar a viagem para Machu Picchu. À noite fomos a um
jantar de turista, com show, na Plaza de Armas. Fomos para Machu Picchu num trem
de turista, caro para o padrão local mas com um mínimo de eficiência. A foto abaixo à
esquerda é num ponto
onde o trem tem que
manobrar na encosta da
montanha, na margem
do rio Urubamba. A da
direita é numa das
portas de entrada da
cidade,
exibindo
a
engenharia dos incas.
Na descida das ruínas,
enquanto o microônibus
fazia o zigue-zague da
estradinha
que
vai
contornando o morro,
um adolescente de seus
15 anos desce correndo
em linha reta e espera o ônibus em cada nível, bradando 'good-bye'. Em baixo, junto
ao trem ele se chega para receber uma propina pelo feito. Em 1984 ele bradava
'adiós'; perguntei porque havia mudado, e ele: - estou fazendo este trabalho há 2 anos;
o outro já é homem!
No sábado, 21, fizemos um vôo doméstico Cuzco – Lima, com grande atraso. Como
tínhamos tempo fomos almoçar na cidade para Lena conhecer. Lá havia uma
passeata e estava faltando luz e água. Fizemos uma conexão para São Paulo, onde
comprei no duty-free-shop um forno de microondas para substituir o velho de 3 anos
que pifara (este novo ainda funciona normal, com 18 anos nunca quebrou!) , e
embarcamos num DC10, classe executiva, retornando ao trabalho na segunda 23.
36
RUSSIA, 1991
Neste ano montei um projeto para sempre que possível viver no verão, e marquei
férias para julho. Foi em 1991 que houve uma abertura na possibilidade de visitar a
União Soviética, um país criado em 1922 com o objetivo comunista, onde não existia a
propriedade privada dos meios de produção. O sistema comunista funcionou durante
décadas, como uma utopia operária onde haveria uma distribuição igualitária da
riqueza por toda a população. Ao final da 2ª Guerra Mundial a URSS era uma potência
com extraordinário desenvolvimento social e econômico. Mas nos anos 70, o modelo
político-econômico soviético que havia transformado o país numa superpotência,
começava a dar sinais de exaustão. Apesar de o povo poder comprar apartamento
barato, ter saúde pública e ensino gratuito, as condições de vida da população quando
comparadas com as do mundo capitalista começaram a piorar rapidamente. No final
dos anos 80 o presidente da URSS Mikhail Gorbatchev ciente dos problemas que o
país atravessava decidiu adotar dois conjuntos de reformas. A Perestroika, ou
Reestruturação, que visava mudar as condições econômicas do Estado permitindo a
volta da propriedade privada e do capitalismo, e a Glasnost, ou Transparência, com o
objetivo de mudar a estrutura política e abrir caminho para o surgimento de
mecanismos de expressão democrática. Em 1990 Gorbatchev ganhou o Premio Nobel
da Paz. Em 1991 abriu o país ao turismo internacional e eu fui numa das primeiras
levas, permanecendo na Rússia no período de 1 a 14 de julho. No dia 19 de agosto
irrompeu uma tentativa de golpe de estado organizado pelos militares conservadores,
o qual foi controlado no dia 21 pelo Presidente da Rússia, Boris Yeltsin com o apoio
popular de milhares de manifestantes que se reuniram em Moscou, debaixo de chuva
forte, na região do Parlamento. Em 25 de dezembro, Mikhail Gorbatchev foi à TV
anunciar que estava renunciando ao cargo de presidente da URSS, que deixava de
existir. A bandeira vermelha com a foice e o martelo foi substituída nos mastros do
Kremlin pela bandeira branca, azul e vermelha da Federação Russa.
A minha viagem de ida foi Salvador, Rio, Frankfurt, Moscou, onde integrei um grupo de
espanhóis e argentinos para irmos juntos para Sibéria. O visto para União Soviética
era dado ao grupo, e de cada um era exigido um seguro saúde particular. A diferença
de fuso horário de Salvador para Moscou era de seis horas, adiantando o relógio.
Minha primeira impressão sobre os russos foi no vôo da Lufthansa, Frankfurt-Moscou,
quando sentei junto a um grupo de músicos que tinha ido se apresentar na Alemanha.
Achei que os russos externam um sentimento de falta de individualidade, não gostam
de quem são. Achavam triste estar bebendo vodka Smirnoff 'made in USA'.
Quando aterrissamos no Aeroporto Internacional de Moscou eu estava viajando há 22
horas. Nós turistas aguardamos confinados mais de uma hora para liberar a bagagem.
A polícia alfandegária então nos encaminhou para um salão que parecia uma estação
rodoviária, suja, que suponho era a imigração, tudo escrito naquele alfabeto diferente.
Tentando, acabei chegando a um balcão onde uma mulher grande e gorda falava
inglês. Mostrei meu passaporte e ela abriu um caderno enorme, enorme mesmo, tanto
37
no tamanho quanto no numero de páginas e foi folheando até achar meu nome; mas
não carimbou o passaporte, simplesmente me disse o hotel que eu deveria ficar.
- E como vou pra lá?
- Seu grupo vai chegar daqui a três horas.
- Posso pegar um táxi?
- Naturalmente. E me apontou para um fulano.
Ai ficou tudo mais fácil. No táxi troquei dólar por rublo; no 'cambio negro', onde o dólar
valia 30 (trinta) vezes mais que o cambio oficial! Na recepção do hotel, que era
obviamente propriedade do Estado, me deram a chave de um quarto e perguntaram,
em inglês, se eu preferia jantar às 7 ou às 8 horas. Preferi mais cedo, subi, tomei
banho e esperei a hora do jantar. No restaurante fui encaminhado para uma mesa, e
um rapaz deixou de uma só vez um prato de sopa, umas almôndegas com verdura,
um sorvete e um café! Tinha cinzeiro na mesa.
Depois do jantar finalmente localizei meu grupo. O guia local, um russo que apelidei de
Major, marcou a hora da saída na manhã seguinte, falando castelhano fluente. Foram
dois dias em Moscou, quando visitamos o Kremlin e a Praça Vermelha, templos da
igreja ortodoxa, de gosto discutível, o suntuosíssimo túmulo de Lênin – que morreu em
1924 - com o corpo embalsamado e muito bem cuidado, a exposição dos 'Avanços
Econômicos da Rússia', com um pavilhão dedicado às conquistas espaciais, onde
pude ver as cápsulas que levam gente para o espaço, e na ultima noite o Circo de
Moscou.
Ai voamos Moscou – Yrkutsk passando por cima dos montes Urais. A diferença de
longitude de Moscou para Yrkutsk, que está no meio da Sibéria, é de 70°, ou seja, 5
horas, quase a mesma coisa que de Moscou para o Brasil! Não é à-toa que a Rússia é
o maior país do mundo.
Yrkutsk está no planalto central siberiano, na beira do lago Baikal, o maior do mundo
em volume de água, em profundidade e em idade, 25 milhões de anos. Deságuam
nele cerca de 300 rios, e sai só um, o Rio Lena, que drena para o Oceano Ártico. Em
Yrkutsk juntou-se ao nosso grupo uma guia local, Tatiana, e quando nos vimos foi
paixão à primeira vista. E olhe que ela só fala russo! Mas o Major havia levado para
auxiliá-lo um rapaz colombiano que estudava geologia em Moscou, estava em férias
de verão e foi junto. O rapaz obviamente falava russo, e me tratava com a deferência
que um estudante de geologia dedica a um geólogo experiente. Tatiana nos levou
para velejar no lago Baikal, e na volta pedi ao estudante para convidá-la para jantar
fora do hotel. Foi um jantar monumental, com vodka, champagne e caviar, e no final,
com o cambio negro, ficou o preço de um MacDonalds! Tatiana me levou para casa
dela e começamos um romance que durou 3 dias mas foi intenso.
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Se você olhar bem a foto da proa do catamarã, vai ver uma catraca, um bujão de gás
e um stopper de adriça num lugar esquisito. Veleiro nestas paragens não é uma coisa
corriqueira. O bujão de gás é para o aquecimento da cabine, coisa que neste dia de
verão (5 de julho 1991) não foi necessário. Na foto da direita, Tatiana, com cabelos
castanhos, coisa pouco comum a oeste dos Urais. O que se observa na Rússia
siberiana é que quando você vai andando para leste a influência européia vai se
esmaecendo, os tipos físicos e os costumes passam a ser mais influenciados pelos
mongóis, pelos chineses e no extremo leste pelos japoneses.
A conversa com Tatiana no começo foi complicada. Ela tinha em casa um dicionário
inglês-russo, e eu tinha uma 'pesca' onde conseguia dizer o som equivalente às 33
letras do alfabeto cirílico, uma mistura da simbologia grega e hebraica. Mas depois de
uns conhaques com café ela falava russo e eu falava português, ambos em alto astral
e bom humor, e passamos a nos comunicar maravilhosamente bem. Uma coisa não
consegui entender: ela me deu um maço de cigarros de fumo preto, tipo os Gauloises
franceses, a parte de cigarro com uns 4 cm (o nosso tem 6cm), e no lugar do filtro, um
tubo de papelão vazio do mesmo tamanho do cigarro. Só dias depois, no trem, o
Major me explicou: o tubo longo e vazio é porque no inverno todos usam luvas
grossas, e sem o tubo o cigarro queima as luvas!
A despedida de Tatiana foi na estação ferroviária, as espanholas fazendo a maior
onda ... leva ela, leva ela. Quando finalmente embarquei, descobri que a cabine a mim
reservada no pacote do turismo era comunitária, para quatro pessoas. Lá estavam
uma russa feia, o Major e o estudante de geologia colombiano. Um casal de
argentinos também foi alojado com outro casal desconhecido numa cabine de quatro.
Chamei o Major, nos dirigimos ao Chefe do Trem e deixei claro que não estava a fim
de ir numa cabine comunitária. Depois de uma longa conversa em russo, o Major me
traduziu: existe um vagão com cabines privativas, uma delas está vaga, mas para
mudar a reserva que está no seu bilhete tem que pagar um extra, e é caro. O valor
que eles disseram em rublos era mais ou menos o salário mensal de um engenheiro
russo. Aceitei, e com o câmbio negro... ficou em 50 dólares. Do que tenho lembrança,
este foi talvez o melhor negócio que já fiz.
39
No meu vagão, o de número 1, tinha uma camareira bonitinha, Lida, que ia tomar chá
na minha cabine. No terceiro dia de viagem no trem foi aniversário de Telma, uma
veinha argentina que quebrou a perna em Yrkutsk, e as espanholas foram para o
vagão restaurante preparar uma tortilla. Eu ajudei cortando cebola, e pronto... me
entrosei com as espanholas.
Telma devia ter mais de 70 anos, e viajava com uma dama de companhia de seus
sessenta e qualquer coisa. Em Yrkutsk ela escorregou, foi hospitalizada e ficou
encantada com o atendimento dos russos, que recomendaram que ela voltasse para a
Argentina.
-- De jeito algum, essa é a viagem dos meus sonhos, e se eu morrer por causa desta
perna está ótimo. Ela andava pelo trem de cadeira de rodas, e com simpatia passou a
ser paparicada por todos.
A Sibéria me lembrou a Amazônia, no sentido que a ferrovia trans-siberiana, como o
rio, ambos funcionam como um elemento de integração. No Amazonas, se você se
afasta do caminho dos barcos que atendem às comunidades não existe nada de
humano 'civilizado'. Na Sibéria, a ferrovia é implantada sobre extensa planície aluvial
bem a sul da linha do permafrost, com clima continental subártico, baixa diversidade
de fauna e flora. Ao longo da ferrovia se vê no verão muita água de degelo, agricultura
extensiva, pecuária, mineração, campos de petróleo... uma riqueza; mas a maior
rodovia que vi é sem pavimentação, a da segunda foto abaixo, e tive a impressão que
se afastando um pouco da ferrovia só existe a taiga próxima de coníferas e a estepe
virgem e gelada para mais além.
A última foto na página seguinte é na estação de Khabarovsk (na frente da qual eu
estou de bermudas, e que em russo se escreve daquele jeito na fachada), o ponto
mais oriental da ferrovia, na margem do Rio Amur, terra dos cossacos a 30 km da
esquina nordeste da China. A primeira foto é a ponte sobre o Rio Amur, que daí escoa
para nordeste, enquanto que a ferrovia ainda segue para sudoeste até Vladivostok, o
fim da linha. Khabarovsk fica a 135°E, e São Petersburgo, antiga capital da Rússia,
que em julho de 1991 ainda era Leningrado, fica a 30°E, uma diferença de 7 fusos
horários. Fizemos um vôo doméstico direto de 8 horas num Tupolev TU-154M da
Aeroflot, que decolou às 20 horas da 'tarde', quando o por do sol seria na hora local
20:53. Mas nas 8 horas de vôo atrasamos o relógio de 7 horas voando para noroeste,
de forma que foi um por do sol de 8 horas a 10000 metros de altura! Não é todo dia
que um nativo das Américas acostumado a voar norte – sul tem uma chance destas.
40
A área de Petrogrado foi conquistada dos suecos pelo tzar Pedro 'o Grande', que
fundou em 1703 a 'Cidade de São Pedro', imitando Paris, e transferiu para lá a capital
da Rússia em 1712. A cidade funcionou como capital do império até o seu fim, quando
da revolução russa de 1917. Em 1918, a capital da nova União das Republicas
Socialistas Soviéticas (URSS, em russo CCCP) foi transferida para Moscou, mais
central. Quando da morte de Lênin em 1924, Petrogrado foi renomeada para
Leningrado. Com a extinção da União Soviética em dezembro de 1991 foi de novo
renomeada como São Petersburgo. A cidade embora na latitude de 60°N tem o clima
amenizado pela influência da circulação atmosférica do Mar Báltico.
As atividades turísticas aí são dirigidas para a arquitetura da cidade imperial com seus
palácios, para os ícones da revolução russa, como o Couraçado Potemkim e a sede
do Soviete de Petrogrado, (Conselho Operário de Lenin), para o Museu Hermitage
reconstruído após a 2ª Guerra Mundial na margem do Rio Neva, com um acervo de
arte desde a idade da pedra até o Séc.XX e o elegantíssimo cemitério comemorativo
Piskarevskoye, onde estão enterrados mais de 500 mil vítimas do bloqueio de 900 dias
ao qual Leningrado foi submetida pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial
41
O Rio Neva embora seja curto, jovem (3 mil anos) e fique congelado quase 5 meses
por ano, é largo e forma um delta de porte com dezenas de ilhas ao desembocar no
Golfo da Finlândia. A cidade de São Petersburgo, com mais de 4 milhões de
habitantes está implantada na planície deltáica. A esta altura eu já estava entrosado
com as espanholas e fomos ver a geologia e fazer um cruzeirinho pelo golfo num
aerobarco. O Golfo da Finlândia é um apêndice do Mar Báltico com umas 400 milhas
de extensão E-W, separa a Finlândia da Estônia, e a manter o rumo para oeste pelo
Báltico se chega a Estocolmo, na Suécia.
No sábado, 13, Ira, a lourinha da foto acima à esquerda me levou ao aeroporto e voei
para Paris. Charlie e Gisa me esperavam no Charles de Gaulle, e me levaram para
casa deles. Ai gripei, os brônquios inflamaram e até tive febre. Como tínhamos
programado descer de carro para o sul da França na quarta-feira, na terça Charlie me
levou a um médico velejador, que me tratou com antibiótico e expectorante. Muito
eficiente, na quarta já estava bom.
42
Fomos passeando, Charlie me ciceroneando de Paris até Antibes, na Côte d'Azur,
marina Baie dês Anjes. A foto da direita acima é o Sunkiss 47 que ele comprou com a
herança do pai, Henry Gauglième, que ganhou um bom dinheiro como compositor,
sendo 'La vie en rose' a música dele mais famosa. Charlie é o careca da foto da
esquerda. Ele disse que quando conheceu Gisa ela se encantara porque ele era
bonito e inteligente. Agora, com a herança, ele era bonito, inteligente e rico!
Compraram o barco para fazer uma volta ao mundo.
Daí perguntei: - Vão passar na Bahia quando forem para oeste?
E Charlie: - É muito perigoso. Talvez na volta, se voltarmos pelo sul da África. Se
passarmos na ida somos capazes de desistir da viagem e ficar por lá.
Passeamos lá pelo sul da França, depois peguei um trem noturno e fui para Genève.
Em agosto deste ano eles passaram aqui em Salvador, viajando de avião, e
recepcionei-os com um jantar no Bargaço. Depois nunca mais tive notícias deles. Anos
depois soube por Sampaio que eles tinham separado.
Na Suissa encontrei Reco e Elaine, conforme combinado. Eles estavam morando na
Europa e viajaram na 'carrinha', um Morris Mini velho com cheiro de amor. Ai
acabaram as férias e voltei, com saudades de Lena; desde o retorno do carnaval lá no
Morro de São Paulo que estávamos 'terminados'. Liguei e retornamos o namoro, que
entre rusgas e beijos durou mais um ano e meio.
43
CHINA
A China é um mistério porque a história que conhecemos é a mal contada pelos
ingleses e portugueses que lá chegaram na 'nossa' idade moderna. As evidências que
os chineses se desenvolveram muito antes que os europeus são vastas. A escrita e a
literatura, o sistema decimal e a fundição do bronze aconteceram na China muito
antes que na Europa. Invenções várias que permitiram que os europeus dominassem
o mundo na idade moderna, como a pólvora, a bússola e a imprensa, foram
importadas da China. Daí a relevância e o respeito que o mundo ocidental ainda tem
ao relato do croata-veneziano Marco Polo, que percorreu a Rota da Seda enquanto os
europeus se digladiavam com as Cruzadas.
O lado bom desta história contada pelos vencedores de antanho é que nela se tem
acesso aos podres da sociedade chinesa. Muito em breve, neste século XXI, os
chineses vão ter a Hollywood deles para encobrir suas mazelas, glorificar seus heróis
e seu 'way of life', como quer que isso venha a ser dito na língua que nossos netos vão
aprender na escola.
Do que se pode tirar das enciclopédias ocidentais, depreende-se que a ocupação da
China foi feita por vários grupos nômades que se juntaram na região da Mesopotâmia
Chinesa, entre o vale do rio Amarelo, que corre para nordeste, e o vale do rio Azul
(Yang-tze), que depois de muitas represas desemboca a leste, em Shanghai. Esta
região baixa é assim como Paraguai+Uruguai+Argentina sem a Patagônia, e é a mais
apropriada para ocupação humana na China. Foi ai que eles desenvolveram uma
agricultura extensiva. Mas esta planície central é naturalmente isolada, com áreas
montanhosas pelo sul na península da Indochina, com os imponentes Himalaias pelo
oeste, o deserto de Gobi pelo norte e o mar da China pelo leste. No meio da planície
agriculturável está Nanquim, 'a capital do sul' que já era, com outro nome, o centro do
império Qin, contemporâneo com os impérios egípcio e grego. Hoje a China
continental tem 22 Províncias e 5 Regiões Autônomas (minorias étnicas nas
montanhas ricas em recursos minerais) que compõem o país, algo em número e área
com semelhanças com os Estados que compõem a República Federativa do Brasil.
A China já era unificada na época da construção da Grande Muralha, meio milênio
antes de Cristo (quando viveu Kung-Fu-tse, que os jesuítas católicos apelidaram de
Confúcio), e alcançou a 'idade moderna' com renascimento e tudo na Dinastia Sung,
pouco antes do ano 1000 do nosso calendário. Nesta fase foram disponibilizados livros
que permitiram uma elevação do nível de educação e uma diversificação da
interpretação dos dogmas de Confúcio; houve difusão da arte, do drama e da ficção,
valorização dos talentos; foram criados partidos políticos com propostas distintas para
a sociedade, declínio da aristocracia e crescimento da economia com a emissão de
dinheiro de papel a partir de 1024. Em 1127 foi criada uma marinha de guerra no mar
do sul, que dez anos depois tinha 20 esquadrões equipados com armas de fogo e uma
tripulação de 52000 homens. Esta fase boa durou até 1215, quando Genghis Khan, o
mongol, vindo do norte, saqueou Pequim, dominou os agricultores das planícies
centrais e assumiu a soberania imperial. Repetiu na China o que seu ancestral, o
também mongol Atila o Huno, fez 800 anos antes com o Império Romano. Mas a
China era muito mais estruturada, e meio século depois seu neto, Kublai Kahn
44
transferiu a capital do império mongol para Pequim. No reinado de Kublai, e com
'tecnologia' importada dos muçulmanos, a China tornou-se o mais avançado centro de
conhecimento de matemática e astronomia da época. O zero já tinha sido incorporado
na matemática chinesa desde a Dinastia Sung. Em 1330 os chineses publicaram um
mapa do mundo conhecido, abrangendo toda a Ásia, Europa e África.
Acompanhe os quatro grandes rios da China de hoje, todos desaguando no Pacifico:
lá no norte da Manchúria, o Amur, fazendo a fronteira com a Rússia. I've been there!
Depois o Rio Amarelo, que faz dois meandros enormes contornando Pequim (Beijing).
Depois o Rio Azul, que passa em Nanquim e deságua em Shanghai. E por último o
Rio Pérola que forma um delta com vértices em Cantão, Hong Kong e Macau.
Com a morte de Kublai em 1294 a administração dos mongóis perdeu força, a receita
dos impostos caiu, mas as despesas de manutenção da nobreza mongol, do budismo
e do taoísmo continuou a mesma. O dinheiro se desvalorizou tanto que deixou de ser
45
impresso em 1356. Em 1351 o rio Amarelo transbordou do seu leito, inundou a
planície, e o transporte de grãos para as províncias metropolitanas do norte foi
descontinuado, causando fome na corte. Os líderes das Províncias começaram a
brigar uns contra os outros e todos contra os mongóis, de forma que em 1368 só
sobrou um, de origem humilde, Hung Wu, o fundador da Dinastia Ming.
A Dinastia Ming reinou de 1368 até 1644. Neste período a população da China
cresceu de 65 milhões para 150 milhões. No reinado de Hung Wu a capital do império
voltou para Nanquim, a marinha foi recuperada e foram criadas estruturas portuárias
no Mar da China. A marinha chinesa armada com canhões dominou o Pacífico
ocidental e todo o Índico, cobrando tributos em dinheiro, cavalos, enxofre, cobre,
madeira e especiarias. Quando em atividade comercial a China pagava em dinheiro de
papel, em seda e em porcelana. De 1406 a 1420 foi construída a 'Cidade Proibida' e
restaurada a cidade imperial dos mongóis, e em 1421 a capital do império foi de novo
transferida para Pequim. Foi na inauguração da Cidade Proibida que, segundo Gavin
Menzies, comandante reformado da marinha britânica (1421, O ano em que a China
descobriu o mundo) 28 chefes de estado do sul da Ásia e do leste da África foram
prestar homenagem ao imperador Zhu Di, filho de Hung Wu. Os chefes de estado
convidados voltaram para casa numa frota de „navios de tesouro‟. De 1425 até 1825
Pequim foi a maior cidade do mundo, no início competindo com Constantinopla. Com a
Revolução Industrial na Inglaterra no séc. XVIII Londres cresceu para 1,35 milhão de
habitantes em 1825, passando Pequim. Em 1925 Londres foi batida por Nova York,
que em 1965 foi batida por Tókio; hoje a maior cidade do mundo em população é
Mumbai, na Índia, com 14 milhões de habitantes, seguida de perto por Shangai, na
China.
Na virada do Sec.XIV para o Sec.XV da nossa era, o filho perseguido de Hung Wu, Zhi
Di, rebelou-se, queimou o palácio de Nanquim com a família dentro e assumiu como
imperador com o nome de Yongle. Criou um exército e uma enorme frota naval de
mais de um milhão de homens e construiu a cidade imperial em Beijing que foi
inaugurada em 2 de fevereiro de1421. O eunuco Zheng He fiel ao imperador foi
designado comandante-chefe da maior frota naval do mundo, a qual tinha a missão de
“navegar em todos os oceanos do mundo, preparar cartas náuticas dos mesmos,
trazendo o mundo inteiro para o sistema tributário‟ chinês”. No dia 3 de março de 1421
zarparam quatro frotas de tesouros. A quinta levantara ferro no mês anterior. Eram
mais de 100 juncos de guerra de 150m de comprimento, 55m de boca, 9 mastros com
grandes velas de seda vermelha, dos mais de 2000 que foram construídos entre 1403
e 1419, em torno dos quais circundava uma frota de navios mercantes menores.
Esta esquadra mapeou todos os oceanos, e retornou no final de 1423. No período que
esteve fora um raio provocou um incêndio na cidade imperial recém-inaugurada, a
China foi ameaçada pelos mongóis no norte e pelos vietnamitas no sul, e os
mandarins cortaram o financiamento para as frotas no intuito de barrar a influência dos
almirantes eunucos. Zhi Di morreu em 1424, e o registro das viagens da frota de
Zheng He foram destruídos. Seu sucessor morreu em 1425.
46
A partir de 1426, com o Imperador Xuande da dinastia Ming, a China começou a se
fechar num processo de isolamento, satisfeita com sua autossuficiência. Os mandarins
do novo imperador mandaram expurgar os registros dos feitos da época marinheira,
inclusive as cartas de navegação onde todo o mundo foi cartografado! Em 1474 os
manchus do nordeste tentaram uma invasão, o que ensejou a recuperação e reforço
da Grande Muralha. A marinha foi definhando, deixou de patrulhar a costa e no início
do séc. XVI os estrangeiros começaram a chegar. Primeiro os portugueses, que
ancoraram pacificamente no Rio Pérola em 1517. Entre 1525 e 1563 piratas japoneses
chegaram à costa norte. Em 1555 os portugueses instalaram uma feitoria em Macau,
no delta do Rio Pérola. Pela virada do séc. XVI para o séc. XVII a liderança do
imperador, a economia e a moral estavam em baixa, mas as obras de infra-estrutura,
pontes, estradas, palácios e templos, muros para as cidades da planície, e a Grande
Muralha que passa a norte de Pequim estavam sendo tocadas. Academias se
espalharam por todo o país, particularmente no sul, incentivando a liberdade de
expressão dentro da tradição de Confúcio. Em 1582 chegou a Macau o jesuíta italiano
Matteo Ricci, matemático e cartógrafo, que em um ano aprendeu a língua e os
costumes dos chineses. Em 1583 se insinuou até o governador da Província de
Guandong para exibir sua cultura ocidental. Falou sobre o novo mundo, as Américas,
e levou mudas de batata doce, milho, amendoim e fumo. Junto com os chineses
participou da edição de um mapa-mundi em 1584, e com isso abriu caminho para
introduzir na China a evangelização e a sífilis. Em 1589 um novo vice-rei designado
por Pequim para Guandong correu com ele de lá.
No séc. XVII o povo do deserto no norte, e o das montanhas no oeste começaram a se
rebelar e avançaram sobre Pequim. O general que bloqueava as passagens da
Grande Muralha permitiu que os Manchus do nordeste passassem para ajudar a
controlar a rebelião. Foi a conta. Os Manchus tomaram Pequim, correram com os
sobreviventes Ming que fugiram para Formosa, e em 1644 instalaram a Dinastia
Ch'ing, que governou até a Proclamação da República em 1912.
Quando a paz finalmente se estabeleceu, em 1681, o imperador manchu K'ang-hsi
executou no seu governo até 1722 um programa de realizações que na opinião dos
analistas de hoje suplantou às dos monarcas da sua época, Pedro o Grande na
Rússia, Louis XIV na França e Aurangzeb na Índia. Aventureiros estrangeiros foram
reprimidos, sendo permitido aos portugueses permanecer em Macau sem acesso ao
resto da China. As fronteiras da China foram para além da muralha, cuja manutenção
foi interrompida. O que você visita hoje da Grande Muralha é a parte perto de Beijing
(Pequim) restaurada para turista ver, com lojas MacDonald's dentro das torres.
Na época que os representantes da Igreja Católica começaram a perder prestígio na
Europa, os membros da Sociedade de Jesus eram os estrangeiros mais tolerados na
corte manchu. Na Europa eles foram os donos do saber erudito em latim, o que
garantiu seu domínio ao longo dos séculos da Idade Média européia. Na China, com
um povo mais letrado, eles aprenderam chinês e manchu e foram úteis para instruir o
imperador sobre um mundo que ele não conhecia. Eles também eram úteis aos
chineses como intérpretes nos negócios de Estado envolvendo europeus, na
elaboração de mapas, na astronomia e nos refinamentos do calendário, ou mesmo
como médicos que cuidavam da malária com a casca da cinchona importada do Peru.
Mas como evangelistas o trabalho não rendeu. O termo 'mandarim' é uma criação
47
destes padres para a língua chinesa, putonghua, usada na época pelos integrantes da
corte, e desde 1956 a língua oficial da China.
O século XVIII transcorreu com a expansão territorial da China alcançando seu limite
máximo. Revoltas internas foram controladas sem piedade, e o governo manchu em
Pequim acumulou um tesouro de 70 milhões de taeis (1 tael = 34 g de prata) ou seja
2380 toneladas de prata fina, a moeda da época para grandes negócios. Em 1799
morreu o imperador Ch'ien-lung e a dinastia Ch'ing dos manchus entrou em
decadência.
No século XIX chegaram os ingleses. O tráfico de ópio da Índia que havia sido proibido
em 1729 ressurge com a conivência de autoridades corruptas. Esta parte é
romanceada pelo australiano James Clavell, expert em história oriental, em três
volumes memoráveis que contam a saga de Hong Kong: Tai Pan, Casa Nobre I e
Casa Nobre II. Eu fui visitar a China em 1993 por causa destes livros.
Hong Kong vista do mar a bordo de uma sampana, e Ah Tat que me levou para visitar as
Grandes Muralhas.
Os piratas ingleses se instalaram numa ilha desolada a nordeste de Macau e
conquistaram na marra o direito da ilha para a coroa inglesa em 1841. Depois
legalizaram um acordo com os manchus em l898, com uma concessão de soberania
de 99 anos. A ilha mostrou-se um porto magnífico para proteção da frota inglesa nas
épocas de tufão, os 'tai-fun', ventos supremos. Desenvolveram os clipper, grandes
veleiros velozes capazes de fazer 300 milhas em 24 horas. Contrabandeavam para a
China o ópio produzido na Índia, que era vendido cash em taeis de prata; com a prata
compravam chá, seda e algodão e levavam para Londres, onde enriqueciam
legalmente em libras esterlinas. Coisa bem de inglês.
Hong Kong está para Kowloon, a cidade chinesa no continente, assim como a ilha de
Santa Catarina está para Florianópolis. Só que Hong Kong tem uma área muito menor,
assim como metade da ilha de Itaparica. Lá se fala cantonês, mandarim e inglês. Em
1993 a moeda circulante era o dólar de HK, ao cambio de 7 HK =1 US. Sendo o porto
de entrada para as importações da China, a cidade tem um PIB per capita maior que o
do Japão, tornando Hong Kong um dos territórios mais ricos da Ásia. A cidade
48
verticalizada tem hoje 7 milhões de habitantes, e funciona a todo vapor 24 horas por
dia. Num apartamento de um quarto moram 6 pessoas, com três camas. Nestes
apartamentos populares não existe 'minha' cama. O individuo chega e dorme na que
está vazia. Os hakka vivem nos barcos, as milhares de sampanas que circulam no
delta do Rio Pérola entre Kowloon e Macau.
Durante a primeira metade do séc. XIX os ingleses foram ganhando espaço através da
guerra naval e tentativas diplomáticas. Mas os manchus de Pequim não acreditavam
em enviados diplomáticos, e para eles todos os enviados estrangeiros eram passíveis
de tributos. Adicionalmente os ingleses e os americanos, com a nova produção
industrial, tinham a necessidade de expandir seus mercados para colocar a produção
das fábricas e obter matéria prima. Em 1834 foi cancelado o monopólio de negócios
oficiais chineses com a Companhia das Índias Orientais sediada em Formosa. Neste
ano o governo inglês designou um Superintendente para os negócios britânicos em
Cantão, mas as autoridades chinesas tratavam o representante da coroa como o
porta-voz dos mercadores contrabandistas. Em 1839 Pequim mandou um oficial
acabar com o degradante tráfico de ópio, e o pau comeu. Os ingleses navegaram até
Shanghai, adentraram o Rio Yangtze e atacaram a cidade de Chen-chiang. O
imperador alarmado com a ousadia cedeu e fez concessões, assinando o Tratado de
Nanquim em 1842. O tratado fazia a concessão da ilha de Hong Kong para a
Inglaterra e autorizava o comércio em cinco portos: Cantão, Amoy, Foochow, Ningpo e
Shanghai. Os chineses não ficaram satisfeitos porque entenderam que o tratado havia
sido forçado e não estavam dispostos a tratar estes bárbaros ocidentais como iguais.
Os bárbaros ocidentais não ficaram satisfeitos porque não lhes era permitido entrar na
China continental. E o tráfico de ópio continuou.
Na segunda metade do séc. XIX o mercado chinês de 400 milhões de habitantes
passou a ser alvo da cobiça de todo o mundo industrializado. Em 1850 subiu ao trono
manchu em Pequim o Imperador Xianfeng, que em 1856 teve um filho homem,
Tongzhi , elevando sua consorte, Cixi, mãe de Tongzhi, à condição de Imperatriz. O
Imperador Xianfeng permitiu a instalação de consulados em Shanghai, e concedeu
aos ingleses, americanos e franceses, o controle alfandegário contra pagamento de
tributos. Mas a pressão da ganância não aliviava, e os chineses passaram a ser
acossados não só pelos ingleses, franceses e americanos, mas também pelos russos,
alemães, japoneses, austríacos, italianos, católicos e protestantes. Xianfeng morreu
em 1861, e a Imperatriz Dowager (viúva) Cixi assumiu a regência do sucessor, o
Imperador Tongzhi, então com 5 anos. Ela tornou-se a Senhora Dragão aos 26 anos
e governou por mais 48 anos uma China incapaz de fazer frente aos estrangeiros com
força de guerra. Como alternativa tratou de aprender as vias diplomáticas. Em 1870
ela negociou o acesso dos estrangeiros à China condicionada à emigração de
chineses para o mundo ocidental. Em 1875 Tongzhi morreu de varíola, e ela
manobrou para que o novo imperador fosse o sobrinho, Guangxu, então com 4 anos.
Neste mesmo ano a China mandou seu primeiro representante para o exterior, um
embaixador na Inglaterra, e começou a trazer de volta os jovens que emigraram em
1870.
49
A influencia dos missionários estrangeiros que acessaram a China a partir de 1870 e a
nova visão de mundo dos chineses que voltaram após viverem uma temporada fora do
país se fez sentir nas províncias, e na década de 1880 os governadores começaram a
pressionar a Imperatriz por reformas na educação, nos métodos e nos equipamentos
militares, no código civil, no comércio e na agricultura, a base da economia chinesa.
Queriam leis sobre patentes e direitos autorais e a abolição das sinecuras que
favoreciam os membros da corte. Na ultima década do séc. XIX os chineses
capitularam, saíram do seu isolamento e passaram a adotar alguns modelos
ocidentais. Aproveitando o momento, o Japão que vinha se equipando com uma
esquadra de guerra e de muito queria uma expansão continental, declarou guerra à
China e ocupou a Coréia e a Manchúria.
Mas a moeda do destino chinês tem duas faces, e outros acontecimentos na ultima
década do séc. XIX criavam um indicativo que a China, a maior população unificada
do planeta, não sucumbiria como um mercado dominado pelas nações
industrializadas. Em 1893, Sun Zhongshan, um daqueles garotos que emigrara e
voltara com cidadania e passaporte americano, tornara-se médico em 1892 e
revolucionário em 1893, passou a liderar a triad (associação marginal de acordo com a
lei vigente) Tiandihui, em Hong Kong. As atividades da triad proveram os recursos que
ele precisava para iniciar um 'movimento de libertação' o qual culminou na
estruturação do Kuomintang, KMT, o Partido Nacionalista Chinês. Um dos membros
da Tiandihui protegido pelo líder Sun era o garoto de classe alta chinesa, Chiang Kaishek.
Em 1893 também nasceu Mao Zedong Tse tung, o primogênito de uma família de
fazendeiros classe média na província de Hunan. Este garoto em 1919 se matriculou
na Universidade de Beijing para estudar pedagogia, e ai se iniciou na doutrina
comunista, vindo a ser um dos fundadores do Partido Comunista da China.
Em 1898 a Senhora Dragão restaurou as milícias municipais, começando pelas
províncias do nordeste, e a estas milícias se agregaram monges voluntários que
praticavam artes marciais. Os bárbaros ocidentais achavam que os Shaolins se
imaginavam imunes a balas, e a Enciclopédia Britânica a eles se refere com a alcunha
de 'boxers'. O mote dos boxers era 'proteja o país, acabe com os demônios
estrangeiros'. E começaram pelos missionários e pelos chineses que haviam se
convertido ao cristianismo, particularmente na província de Shantung onde o
governador era declaradamente xenófobo. Em 17 de junho de 1900 a Imperatriz
liberou a horda, que atacou as embaixadas e as igrejas, matando milhares nas
províncias de Hopeg, Shansi e Manchúria. Houve uma reação de todas as nações
que tinham investimentos na China, mas a Senhora Dragão deu início às reformas.
Em 1905 uma comissão de chineses viajou ao exterior para estudar os métodos de
fazer uma Constituição, e em 1906 a Imperatriz promoveu mudanças na estrutura
administrativa em Pequim e deu os primeiros passos para promover um sistema
parlamentar de governo. Também em 1906 as milícias provincianas foram unificadas
num exército nacional com nova estrutura organizacional. Guangxu morreu em 4 de
novembro de 1908 sem deixar herdeiro, e a Imperatriz Cixi, já no seu leito de morte,
escolheu Puyi, um garoto com menos de 3 anos para o que viria a ser o último
imperador da dinastia Ch'ing. Cixi, a Imperatriz Viúva ou a Senhora Dragão, como
50
você prefira recordá-la, morreu em seguida, em 15 de novembro de 1908, e essa parte
da história você pode ver no filme que Bernardo Bertolucci dirigiu em 1987, 'O Último
Imperador', ganhador de 9 Oscar (Hollywood, EUA) em 1988.
Nesta linha de filmes biográficos que mostra as cortes imperiais do séc. XIX, vale à
pena comparar "O Ultimo Imperador" com o filme austríaco de 1955, "Sissi", a
Imperatriz da Áustria, contemporânea de Cixi.
Com as reformas de Cixi os templos foram convertidos em escolas e em 1910 haviam
35198 escolas públicas com 875760 alunos. Milhares de estudantes foram para o
Japão, Europa e Estados Unidos. Em 1910 foi feita a abolição da escravatura, em
1911 acabou o tráfico de drogas pelos ingleses, e em 1912 foi proclamada a república.
A Proclamação da Republica foi conseqüência da mobilização de parte do exército
nacional e da união de Representantes de 17 províncias (outra fonte cita 14) que se
reuniram em Nanquim e numa atitude revolucionária elegeram Sun Zhongshan
Presidente da China. O Regente do Imperador, que de Pequim acompanhava o
movimento com muita apreensão, criou uma assembléia, outorgou uma constituição e
designou o general reformado Yuan Shikai como Primeiro Ministro. Os dois grupos
entraram em acordo:
1. O imperador abdica do trono e declara que o governo da China passa aos
representantes do povo.
2. O imperador passa a viver confinado na Cidade Proibida com uma pensão vitalícia
compatível com seu status.
3.O Presidente Eleito Sun Zhongshan passa o cargo para o Premier Yuan Shikai que
governa regido por uma constituição republicana.
A tomada da Manchúria pelo Japão em 1895 foi um golpe duro para a China, mas
também incomodou o Czar russo que não queria japoneses no continente. Outro golpe
em seguida foi a reação do mundo industrializado à matança dos 'boxers' em 1900,
que resultou na tomada de Pequim por um exército internacional, o qual resgatou o
que sobrou dos missionários e submeteu a China a assinar um humilhante protocolo
de indenizações. Mas os integrantes do exército internacional vitorioso começaram a
se desentender, particularmente a Rússia e o Japão, porque a Rússia, aproveitando a
oportunidade de reprimir os chineses, ocupou a Manchúria e a Coréia. Os japoneses
foram a São Petersburgo negociar a retirada, e os russos endureceram, o que resultou
na guerra Japão x Rússia de 1905, quando os japoneses afundaram rapidamente a
frota russa e reocuparam a Coréia e a Manchúria.
Mas o início do séc. XX, o século do petróleo, foi mesmo uma época de instabilidades,
de disputas territoriais e de reorganização social. O mundo foi sacudido com uma
guerra de 1914 a 1918, e ao final do evento haviam-se desmoronado os impérios
russo, alemão, austro-húngaro e turco-otomano. Vários novos países foram criados e
o mapa político do mundo sofreu mudanças substanciais. Lênin, o novo líder na
recém-criada União das Republicas Socialistas Soviéticas passou a teorizar que a
guerra era uma conseqüência previsível do imperialismo econômico na luta
51
interminável por novos mercados, uma argumentação que convenceu muitos
revolucionários e encontrou forte ressonância na China.
Em 1913 os Nacionalistas do Kuomintang obtiveram maioria no Parlamento e criaram
sérias dificuldades ao Presidente Yuan, de tendências mais liberais. Com a morte de
Yuan em 1916 a China ficou dividida, o sul governado por Sun Zhongshan (o nome em
chinês é Sunt-Yat-Sin, o arqui-revolucionário Pai da China Moderna), e o norte por um
grupo de latifundiários e militares apoiados pelas potências ocidentais. A China
dividida tanto no plano político quanto na esfera militar, foi em 1917 induzida pelo
Japão e pelos EUA a entrar na Primeira Guerra Mundial em curso, e também declarou
guerra à Tríplice Aliança. Embora não tenha tido participação efetiva na guerra, a
China soube tirar proveito conseguindo assento nas conferências de paz, onde logrou
suspender as indenizações que vinha pagando desde 1911, e a reaver as concessões
portuárias que os alemães e austríacos tinham no país. Gradualmente a China foi
conseguindo em acordos diplomáticos ir se livrando da influência estrangeira em seu
território.
Em 1921 foi criado o Partido Comunista Chinês (PCC), e os russos, precursores da
aplicação da teoria econômica de Karl Marx e com a riqueza oriunda da florescente
indústria do petróleo, se impuseram como orientadores dos povos. Enviaram para
Cantão um emissário com a tarefa de unificar o PCC e o KMT numa atividade
cooperativa. O Kuomintang (KMT) já estruturado foi reorganizado num partido
disciplinado, com recursos para armas e para organizar um Exército Nacionalista
Republicano.
Sun Zongshan morreu em 1925, e seu protegido Chiang Kai-Shek tornou-se o líder do
KMT. Em 1926 Chiang Kai-shek à frente do Exército Nacionalista Republicano
incorporado com os comunistas do PCC marchou para o norte, para reunificar a
China. Embora unidos com o objetivo de expurgar os estrangeiros, por onde o exército
passava a ala 'esquerda' dos comunistas promovia atividades de greves e distúrbios
com as quais Chiang Kai-shek não compactuava. Em 1927 houve um racha, e tanto os
comunistas chineses quanto os conselheiros russos foram escorraçados.
Os comunistas do PCC se organizaram em sindicados e grupos guerrilheiros sob a
liderança de Mao Tse-tung e Chou Enlai. Recrutaram camponeses e soldados
desertores e foram armando, com apoio dos russos, o Exército da Libertação Nacional
para dar testa ao KMT. Em pouco passaram a ser a maior ameaça no caminho de
Chiang Kai-shek. O Exército Nacionalista Republicano era de elite, e o novo Exército
da Libertação Nacional, que passou a ser conhecido como o Exército Vermelho, era
de pobres. Mas o numero de pobres que o habilidoso Mao Tse tung conseguiu aliciar
para seu exército era em 1934 de cem mil homens. Furou o bloqueio e começou a
Grande Marcha para o norte. Em um ano eles caminharam em ziguezague do Mar do
Sul da China, nos trópicos, até perto da fronteira com a Mongólia a 39°N, a oeste de
Pequim, e quando lá chegaram em 1935 Mao Tse tung estava consagrado como o
principal líder da Revolução Chinesa.
Em 1932 os japoneses de olho no petróleo da Manchúria lá estruturaram um Estado
Associado com forte presença do exército japonês. O Sr.Puyi, imperador chinês
deposto e que com a tomada de Pequim pelo Exército Nacionalista pedira asilo político
52
no Japão, foi colocado como um governador fantoche do Estado de Manchoukuo. Este
imbróglio é bem apresentado no filme 'O Ultimo Imperador'. Em 1937 os japoneses
começaram a invadir agressivamente outras províncias chinesas, o que obviamente
gerou uma reação dos Nacionalistas e dos Comunistas que por um momento
esqueceram suas diferenças e dividiram a tarefa de conter os japoneses.
Em 1939 os nazistas alemães do Terceiro Reich começaram a Segunda Guerra
Mundial na Europa, os Estados Unidos de fora, como espectador e fornecedor dos
Aliados. Os Estados Unidos que também tinham interesses na China, financiaram o
Exército Nacionalista de Chian Kai-shek, fecharam o canal do Panamá para navios
japoneses e fizeram um embargo de petróleo no intuito de conter a estratégia
expansionista do Japão. Em 1941 os japoneses bombardearam a frota americana no
Pacifico, em Pearl Harbour, entrando na guerra de conquista no pacto do Eixo RomaBerlim-Tokio. Eles sabiam que estavam cutucando a onça com vara curta, mas era
isso ou 'perder prestígio' se retirando dos territórios ocupados. Os Estados Unidos
entraram na guerra do lado dos Aliados e o resto da história todo mundo sabe, a
indústria de Hollywood já mostrou à exaustão. Para acabar com a farra, em 1945 o
bombardeiro Enola Gay acertou uma badogada atômica nos japoneses, e em 15 de
agosto de 1945 o Imperador Hirohito pela primeira vez falou no rádio ao povo japonês,
para anunciar a rendição incondicional. Os chineses então puderam voltar às suas
rixas domésticas.
Com o fim da guerra o Japão se retirou da Ásia continental, Mao Tse tung reequipou
seu Exército Vermelho com as armas dos japoneses que se renderam, expurgou os
membros do Politburo orientados por Moscou, assumiu o controle do PCC e dominou
a China. Mesmo com o apoio dos Estados Unidos ao KMT e sem a ajuda da União
Soviética, Mao ao final da guerra civil de 1946 a 1949 forçou os nacionalistas a se
refugiarem em Formosa, que também foi recuperada do Japão no butim dos
vencedores. Ao assumir o governo da nova e unificada Republica Popular da China
em 1º de outubro de 1949 ele declarou: "Nunca mais nosso povo será humilhado e
ofendido; o vento que sopra do Oriente é vermelho".
O primeiro plano qüinqüenal foi a reforma agrária, que acabou com os latifúndios. No
segundo plano qüinqüenal de 1953 a meta era transmudar a China num país
industrial, mas em 1957 o Premier Chou En-lai reconheceu que a meta não seria
atingida. Em 1959 o PCC afastou Mao do poder executivo, e ele admitiu: "Não
entendo nada de planejamento industrial". Deng Xiaoping passou a controlar a política
econômica. Em 1964 a China testou com sucesso sua primeira arma nuclear,
tornando-se reconhecida como a 3ª Potencia Mundial. Como presidente do Comitê
Central do PCC Mao manteve sua influência e em 1966 liderou a 'revolução cultural',
que provocou um grande transtorno na sociedade chinesa. No início da década de 70
ele conseguiu sua última cartada na política externa, fazendo com que a China fosse
representada na ONU pela República Popular em detrimento de Formosa que era
acobertada pelos EUA. No ano seguinte recebeu em Pequim o presidente dos Estados
Unidos, Richard Nixon. Em 9 de setembro de 1976 Mao Tse-tung morreu, aos 82
anos.
53
Bom, agora que estou situado no contexto, vou terminar a leitura do livro do Michael
Marti, 2007, 'A China de Deng Xiaoping, o homem que pos a China na cena do século
XXI'.
A China de hoje tem 9,6 milhões de km² e 1,3 bilhão de habitantes representados por
56 etnias, das quais a Han constitui 92% da população. A Republica Popular
estabeleceu o mandarim como língua oficial, adotou o calendário gregoriano, aboliu a
poligamia e não tem discriminação sexual. As mulheres, que são minoria, se sentem
valorizadas e jogam duro!
54
1996, Sahara
Pedro Bocca, Simone Gonçalves, Soninha Carvalho e eu voamos Salvador Barcelona dia 1 de junho de 1996, um sábado, e em Barcelona alugamos um Citroen
Xantia. Passamos um dia e meio debaixo de chuva na cidade para Simone visitar a
arquitetura, e na tardinha de domingo pegamos a auto-estrada A7 para sudoeste
bordejando o Mediterrâneo por 1200 km. Segunda, dia 3, nos instalamos num camping
em Granada. Na terça andamos o dia todo em Granada, visitando as coisas
escolhidas por Simone. Soninha começou a ficar emburrada porque não havia
estudado nada e dava palpites muito fracos. Saímos de Granada à tardinha e Soninha
queria passar em Torremolinos „porque era ótimo‟. Paramos e não gostamos,
resolvemos seguir adiante.
Dia 5 fizemos alfândega para entrar em Gibraltar, uma possessão britânica encravada
em território espanhol. O enclave é uma península alta de calcário dobrado (Monte
Calpe) que faz a borda leste da Baia de Algeciras, a entrada do Estreito de Gibraltar,
de quem vem do Mediterrâneo. É uma reserva natural, cheia de macacos „selvagens‟,
toda furada com túneis.
Coisa de milico. Pedro gostou muito e melhorou o humor. O Monte Calpe é uma das
Colunas de Hércules da mitologia grega, onde se conta que Hércules abriu com os
ombros o estreito que liga o Mar Mediterrâneo com o Oceano Atlântico. O estreito em
si tem comprimento de 20 milhas, largura de 10, e embora fundo, quando se abre para
o Atlântico na altura de Tanger (Marrocos), fica raso, 150m, de forma que durante a
glaciação do Mioceno interrompeu a alimentação oceânica do Mediterrâneo, que
secou há 10 milhões de anos. Do lado africano a outra Coluna de Hércules é o Monte
Hacho, em Ceuta. Durante o império romano as Colunas de Hércules representavam o
fim do mundo conhecido.
55
Devolvemos
o
carro
e
atravessamos de ferry para
Tanger, uma navegada tranquila
de 30 milhas náuticas para
sudoeste. Tomamos contato
com o mundo árabe através de
uma
alfandega
terceiro
mundista. Um local, Abdul Ali,
nos abordou e levou para um
hotel cinco estrelas decadente.
As meninas, aproveitando que
estavam num país muçulmano,
tomaram um pifão antes do
jantar.
No dia seguinte alugamos um Peugeot 309 da Europcar, com o qual rodamos 2500 km
no Marrocos (track abaixo). Fizemos um mercadinho e tocamos para leste, pelo norte
dos Atlas na direção da Argélia. Paramos em Fez, para experimentar o ópio no
narguillé, e na fronteira com a Argélia descemos para sul, nas trilhas do rallie ParisDakkar. Ai é o Saara Negro, sobre um piso de calcário. Perto da fronteira (linha
amarela) viramos para oeste passando num sabkha de flamingos e num draa,
contornando o Atlas agora pelo sul até Zagora, o fim do caminho que o Peugeot
conseguia ir.
Track do gps no Marrocos
56
Dai fomos de camelo com um guia tuareg no trecho mais a sul, o Saara vermelho,
onde o track faz um triangulo. O dia estava nublado e achei que ia chover. O tuareg
disse: - aqui não chove nunca! Devia estar hipnotizado com as brasileiras. Ai choveu,
pesado. Descemos dos camelos e com uma manta fizemos uma barraca onde
coubemos nós todos. Quando o aguaceiro aliviou um pouco resolvi que devíamos
voltar, e chegamos no acampamento já à noite para comemorar meu aniversário de 53
anos.
sabkha
draa
No dia seguinte passamos a andar em estrada asfaltada, cortamos os Atlas pelo
sudoeste e fomos para Marrakesh. De lá rumo norte para Casablanca, passamos em
Rabat, a capital do país, onde nos hospedamos num hotel vizinho ao palácio do rei.
Daí fomos costeando pela margem Atlântica, de volta a Tanger, onde devolvemos o
carro.
57
Marrakesh,a cidade vermelha
De volta à Espanha fomos de ônibus para Sevilha. Ai Soninha resolveu se separar do
grupo e retornar. Acho que o mau humor dela era porque tinha levado pouco dinheiro
e não queria admitir. Imaginando que ela estava quase a zero, perguntei se ia fazer
compras no duty-free shop no Brasil. Ela disse que não, então dei uns tantos dólares
para ela e pedi que comprasse uma caixa de whisky, assim a bichinha não voltaria
pelada.
Então alugamos um Fiat Brava e fomos para Portugal. Quando chegamos na Ponta de
Sagres, ficamos um tanto decepcionados com a expectativa de ver algo da antiga
Escola de Sagres, do Infante Dom Henrique. A área foi destruída no terremoto de
1755, e o farol e a fortaleza que lá existem não têm nenhuma preocupação com
restauro. Na verdade os portugueses nem enfatizam a existência da Escola Naval.
Quando íamos chegando, Pedro lendo o guia, disse que a altura da escarpa era de
2500 metros. Quando saltamos do carro, para mim ficou óbvio que não chegava a 300
metros. Na discussão resolvemos soltar uma pedra e medir o tempo da queda,
calculando a altura. Medimos algo entre 7 e 8 segundos. Daí outro problema,
estávamos na dúvida se a fórmula era h=gt2/2 ou só h=gt2 . Vinham três jovens
senhoras conversando em inglês e eu as abordei: - a fórmula da aceleração da
gravidade é gt2 ou gt2/2? Uma delas respondeu com presteza, que era gt2/2, que era
professora de física na Universidade do Texas, e fez uma estimativa da minha
probabilidade de sucesso em perguntar uma coisa dessas para uma loira. Ai ela notou
que nós estávamos em três, ainda bem que Soninha tinha se mandado. Considerando
a aceleração da gravidade em números redondos 10m/s2, com sete segundos,
h=10*72/2= 245m. O que Pedro leu foi h=2500, onde h era o número de habitantes da
freguesia!
58
A foto da esquerda é o farol na Ponta de Sagres. No meio Pedro e eu estamos
mostrando os quatro pontos cardeais, e a ultima foto fiz a noite, é a Estrela Polar, um
ponto fixo nos 15 minutos de exposição, enquanto as outras estrelas descrevem um
arco no filme, concêntrico com a polar devido à rotação da terra. Como o eixo de
rotação da terra aponta para a Polar, ela não muda a altura, que medida em relação
ao horizonte indica a latitude do lugar. Como ela só é vista no hemisfério norte, para
navegar no hemisfério sul os portugueses inventaram no Sec.XV a latitude pela
meridiana, ao conseguirem estabelecer uma tabela da declinação do sol ao longo do
ano. Com isso, mais o treinamento de uns comandantes de estirpe e a invenção da
caravela, dominaram o mundo por mais de um século.
De Sagres fomos para Lisboa onde entregamos o carro e voamos de volta LisboaBarcelona-Salvador. Gostei de fazer turismo em Portugal e me prometi que voltaria lá
com mais vagar.
59
PENÍNSULA IBÉRICA E COSTA ATLÂNTICA DA
FRANÇA - 2007
Esta viagem tinha quatro objetivos: observar e medir a mega-maré no Golfo de
St.Malo, analisar a cicatriz da colisão entre o Gondwana e a Laurentia, entender
porque Portugal dominou o mundo por três séculos, e propiciar a Mila umas férias
movimentadas. Mila disse que adorou, o que você pode julgar pelas fotos, e a
consecução dos outros três objetivos está relatada abaixo.
Quando você olha o mapa da Europa inteira, dá a sensação que a Península Ibérica
foi colada na França, né? Pois é isso mesmo. A Europa é um continente novo,
construído no final do Paleozóico. Para facilitar sua compreensão, vamos rever um
pouco de geologia:
Você reconhece fenômenos cíclicos, como o dia e a noite consequente da rotação da
terra, o inverno e o verão consequente da translação; talvez tenha ouvido falar dos
ciclos da nutação (bamboleio do eixo de rotação do planeta) e dos ciclos da
convecção interna (tectônica de placas, ciclos de 200 MA; se tiver interesse coloque
'ciclos de wilson' no Google). Este último funciona como uma máquina de fazer
continente. É o seguinte:
A crosta da terra, uma casca dura que reveste o planeta como a casca de uma
laranja, é limitada por uma descontinuidade que os geólogos na intimidade chamam
de Moho. Esta descontinuidade é uma zona onde as ondas sísmicas mudam
abruptamente de velocidade, de 5,5 para 7 km/seg (descontinuidade de Mohorovicic,
um geofísico croata que a reconheceu em 1909). A ultrassonografia que os médicos
fazem hoje em dia é uma adaptação miniaturizada do que os geólogos fazem para
auscultar seu planetinha. Eles verificaram que a crosta primária é "oceânica", feita de
basalto e com espessura de 7 km. Nas zonas de fratura no meio dos oceanos as
placas tectônicas se afastam gerando crosta mais nova e afastando a que cristalizou
da erupção anterior.
1.Ilha do Fogo, em Cabo Verde, um vulcão emergindo do fundo do oceano, fotografado da
janela do avião. 2.Rota do vôo TAP159, o avião em cima de Cabo Verde.
3. Mesma coisa
em escala menor, mostrando a mancha clara no meio do oceano que é a zona de fratura
gerando crosta oceânica nova
60
Mas debaixo dos continentes a crosta é de granito, é secundária, e tem espessura de
35 km!
Por cima da crosta vem a atmosfera, com espessura de uns 300 km, e por baixo da
crosta vem o manto, com o topo bem desenhado pelo Moho e com espessura de uns
3000 km. Lá no meio está o núcleo quente. As ondas de convecção térmica do núcleo
se transmitem pelo manto e mexem com a crosta, fazendo a tectônica de placas.
Terras como o Brasil são escudos continentais antigos, consolidados no Arqueano, ha
2,6 bilhões de anos. Ano você sabe, é o tempo que a terra leva para dar uma volta ao
redor do sol. Pois bem, no início do Paleozóico, 500 MA (milhões de anos) a Europa
não existia. As massas continentais eram o Gondwana no sul e a Laurentia no norte.
Entre elas havia o oceano Iapetus com umas tantas ilhas espalhadas pela sua crosta
oceânica, a Avalonia. As massas continentais pré-paleozoicas eram muito menores do
que são hoje, são as manchas amarelo claro na figura abaixo; os continentes vão
sendo formados com a evolução da crosta e o resfriamento do planeta.
No início do Paleozoico, quando a atmosfera já tinha oxigênio livre para sustentar a
vida aeróbica, houve uma explosão da vida multicelular com o desenvolvimento dos
reinos vegetal e animal, e mais para o final, o Gondwana colidiu com a Laurentia,
formando o supercontinente Pangea. No processo o Iapetus se fechou e a Avalonia foi
metamorfizada para formar a Europa. Pouco tempo depois desta colisão, ainda no
Paleozoico (270 MA), a massa continental da Sibéria colidiu com o Pangea formando
os montes Urais, que na geografia de hoje 'separam' a Europa da Ásia.
Durante o Mesozoico (245-65 MA) apareceram os répteis, que se espalharam pelo
Pangea praticamente de polo a polo. Durante o Mesozoico também começou um novo
ciclo tectônico com a fase de divergência de placas, a abertura do oceano Atlântico,
mas a Europa, coitadinha, continuou um saco de pancadas espremida no meio do
61
Pangea, e na nossa área de turismo começou no final do Mesozoico o levantamento
dos Pirineus. Hoje, o mar Mediterrâneo está se fechando pela convergência entre a
África e a Europa, o que gera terremotos na Grécia e vulcanismo na Itália.
Encontramos a cicatriz da colisão entre o Gondwana e a Laurentia representada pelas
montanhas orientadas NE-SW que se estendem entre os vales dos rios Tejo e Douro.
A sequência de serras é escalonada, tudo de idade Paleozoica. Ambos os rios nascem
próximos a Madri, na Cordilheira Central, e correm para oeste, o Douro pelo norte e o
Tejo pelo sul das montanhas; ambos deságuam no Atlântico, o Douro no Porto e o
Tejo em Lisboa. Em Portugal a continuação da Cordilheira Central da Espanha chamase Serra da Estrela, na borda sudoeste da qual situa-se a cidade de Coimbra. Aí o que
resta preservado do Tribunal do Santo Ofício, o quartel-general da inquisição em
Portugal (algumas muralhas, uma capela e uma cela), é feito de calcário recristalizado.
No inicio da subida da Serra da Estrela, vindo de oeste, encontramos metasedimentos,
com metamorfismo do fácies do xisto verde, dobrado em ângulo forte em estrutura
monoclinal. As ruínas de muralhas medievais dos Celtas são construídas com placas
de filito e xisto. À proporção que subimos a serra da Estrela, o grau de metamorfismo
vai aumentando. Mais a leste, no topo da serra da Gata, já na Espanha, pouco antes
de Tordesilhas, está a crosta continental consolidada como granito. Aí a estrutura
monoclinal fica mais comprimida, acavalando com falhas de empurrão padrão dominó,
vergência para noroeste.
Topo da seqüência paleozóica, calcário silicificado, ancorando a muralha do Castelo
de Óbidos em Portugal; esse mesmo calcário está nas paredes preservadas do prédio
do Tribunal do Santo Oficio.
Metasedimentos com metamorfismo do
fácies do xisto verde, partindo em
placas que foram usadas pelos Celtas
para construção de suas muralhas
(ultima foto aqui ao lado da legenda).
Ψ= 41°N λ=8°15'W h=1100m
62
As duas fotos aqui abaixo são do granito paleozóico na parte frontal da estrutura
Hercyniana (Permo-Carbonífero da Europa) orientada NE-SW. A máquina de fazer
continente em ação. Não existem dobramentos apertados, são monoclinais de ângulo
forte, o Gondwana empurrando a Avalonia e transformando-a em crosta continental.
As empreiteiras adorariam uma máquina destas, se tivessem paciência para operá-la
na base de centímetros por ano.
A Europa é um continente novo com uma civilização velha, contrastando com a
América, que é um continente velho com uma civilização nova. A Europa também é
pobre de recursos naturais (metais, petróleo, água, diversidade de flora, produtividade
agrícola) quando comparada com a América, e talvez desta penúria venha a cobiça
dos
'descobridores'
europeus, que
assaltaram,
contaminaram
com doenças e
dizimaram as
populações
nativas
das
Américas. Tudo
com
o
incentivo,
respaldo
e
beneplácito do
dono do mundo
durante
o
Renascimento europeu, Sua Santidade o Papa da Igreja Católica Apostólica Romana,
o todo-poderoso fazedor de reis e comandante supremo das Cruzadas. Quando
perdeu estes poderes temporais com a Revolução Humanista no Séc. XVIII que aboliu
os privilégios do clero e da nobreza, acuado com o crescimento do ateísmo cientifico
da Revolução Industrial, e empobrecido com o Liberalismo Econômico, restou a Pio IX
em 1870 proclamar a infalibilidade do papa como dogma de fé. Mas a esta altura o
mundo já tinha um novo dono: as tribos das ilhas conseguiram se entender,
estruturaram uma monarquia parlamentar e fundaram o Reino Unido, o United
Kingdom, onde se dizia no Séc. XIX que sob seus domínios o sol não se punha! E era
verdade!
Mas vamos entender como foi que Portugal se tornou a nação mais poderosa da terra
por um bom período.
A presença humana (Homo sapiens) mais antiga registrada na Europa pelos
antropólogos é de 30.000 anos, quando nossos ancestrais migraram da África para
Eurásia e extinguiram o Homo Neandertalis numa disputa pelo território. A Eurásia é
um continente propício para a ocupação humana porque é esticada leste-oeste,
facilitando a comunicação ao longo de uma linha de latitude, com condições climáticas
mais homogêneas. As Américas, em contraste, são esticadas norte-sul, tem imensas
florestas tropicais, de forma que os Astecas do México, por exemplo, não se
63
comunicavam com os Incas do Peru. E nessa época, quem não se comunicava não
guerreava. Tudo tem seu lado bom.
Neste processo migratório da África para a Europa, o homo sapiens deu uma parada
no que hoje é o Iraque para inventar a agricultura, há 10 mil anos, provavelmente a
maior invenção da humanidade. Enquanto um grupo fazia isto, um outro migrou pela
Sibéria e atravessou para América na ultima época glacial. O grupo que foi para China
foi o primeiro a unificar uma nação, há 5000 anos, com uma língua comum e uma
organização política e social. As tribos que se espalharam pela Europa estão
atrasadas uns 4000 anos em relação aos chineses em termos de unificação, e ainda
hoje são meio 'saco de gatos'. Por exemplo, a Espanha de hoje é constituída por 13
'Regiões Autônomas', tipo País Vasco, Principado das Astúrias, Galícia ...cada um
com seu dialeto e seu alcaide. Desde o Séc. VIII o território espanhol era dividido entre
católicos e muçulmanos, e em 1469 começou o processo de unificação com o
casamento católico de Isabela de Castela, e Fernando de Aragão. Mas hoje, exceto
em Castela, que é a grande província central que inclui a Comunidade de Madri, é
ofensivo você dizer para um espanhol que a língua oficial da Espanha é o 'espanhol'.
A língua oficial é o castelhano, imposta na marra por Franco durante a ditadura do
Séc.XX. Mas cada etnia fala a sua. Em Zumaia, no Pais Vasco, a loirinha da Oficina
de Turismo que nos alugou bicicletas para visitarmos o contato K/T
(Cretáceo/Terciário, uma atração turística sim senhora), declarou que "o Brasil é o
modelo para o mundo de como se deve fazer uma homogeneização étnica; vocês são
uma coqueteleira".
A propósito de homogeneização étnica, li um livro nesta viagem muito atual, que
ressalta nossos valores e discute, com base nos censos do IBGE, a política
segregacionista do sociólogo Fernando Henrique Cardoso e os programas sociais do
Presidente Lula: Ali Kamel (2006), Não Somos Racistas, 143p., Editora Nova
Fronteira. Mas não vou comentar isso agora. Recomendo o livro.
Os europeus têm uma grande vantagem em relação aos americanos, porque tem uma
história escrita. Pois bem, Portugal foi a primeira nação unificada da Europa, Séc. XII.
Aos trancos e barrancos o jovem belicoso Afonso Henriques firmou um condado que
teve o reconhecimento e a ajuda em armas, homens e navios disponibilizados pela
Santa Sé, unificando o país e autoproclamando-se Rei de Portugal em 1139. Em 1179
o Papa Alexandre III, através da bula Manifestis Probatum, reconhece Portugal como
país independente e vassalo da Igreja. Naquele tempo a Igreja era o cartório do
mundo ocidental, e quem não tinha seu reconhecimento era um condenado. Se
duvidar pergunte aos judeus; ou aos muçulmanos, que a partir de 1095 passaram a
ser visitados pelos Cruzados e até hoje tentam dar o troco. Era tradição medieval a
supremacia política da Santa Sé, que reconhecia a Roma o direito de dispor das terras
e dos povos. Durante a idade média o imperador do Sacro Império RomanoGermânico era legitimado através de uma descendência divina...e como a religião
oficial era o cristianismo, você pode imaginar o poder que o Papa tinha nas coisas do
Estado. Com o fim das Cruzadas no final do Séc.XIII, o Sacro Império passou a tratar
de se desvencilhar da tutela papal. Os reinados de Portugal e de Castela estavam se
organizando, e o Papa passou a olhá-los como promissores candidatos a gestores de
um novo império.
64
bula Manifestis Probatum
65
Mapa da Europa continental a oeste do meridiano de Greenwich,com destaque para
algumas feições geográficas. Em verde escuro o roteiro de 4000 km percorrido entre
França (verde floresta), Espanha (marrom) e Portugal (verde claro).
66
Os portugueses fizeram seu dever de casa. Criaram a cadeia sucessória da Casa dos
Borgonha, que reinou até 1385. Neste período conquistaram a benção da Santa Sé
com doações, concessões e vassalagem. Desenvolveram a agricultura, escorraçaram
os mouros e em 1255 mudaram a capital de Coimbra para Lisboa, onde fundaram uma
Universidade e estruturaram uma Marinha. Em 1341 descobriram as Canárias.
Em 1385 sobe ao trono a Casa de Avis, com D.João I. Nesta dinastia ou mouros foram
expulsos do país, e em 1417 foi fundada a Escola de Sagres, onde desenvolveram
tecnologia de navegação, tecnologia de construção naval e formaram grandes
navegadores, como Bartolomeu Dias, Diogo Cão, Gil Eanes , Vasco da Gama, que
marcaram a "época dos descobrimentos": Madeira, Açores, Cabo Verde, contornaram
a África e chegaram à América. Os castelhanos também. Era chegada a hora. O Papa
Alexandre VI, espanhol, os elegeu como gestores do império global, e na bula papal
Inter Coetera de 4 de maio de 1493 se expressou assim: "Esta bula origina-se de termos
feito doação, concessão e dotação perpétua, tanto a vós (reis), como a vossos herdeiros e
sucessores , de todas e cada uma das terras firmes e ilhas afastadas e desconhecidas,
situadas em direção do ocidente, descobertas hoje ou por descobrir no futuro, Seja descoberto
por vós, seja por vossos emissários para este fim destinados" (cópia acima, na p.66).
A bula era tecnicamente mal feita, e D. João II abriu negociações diretas com os reis
católicos Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela para mover a linha demarcatória.
Seus representantes reuniram-se então em Tordesilhas, á beira do Rio Douro (vide
mapa acima) onde firmaram um tratado em 7 de junho de 1494. Foi neste mosteiro ai:
67
Os portugueses estenderam as conquistas marítimas por todos os oceanos.
Construíram uma rede de feitorias, entrepostos e fortalezas, captando riquezas
e irradiando a língua portuguesa e a religião católica. O Sec. XVI foi o "século
de ouro" para Portugal que se tornou a maior das potências européias
notabilizando-se pelo conhecimento científico e geográfico, pela gastronomia e
pela literatura. Lisboa se tornou o empório da Europa. A partir do Séc.XVII
começou a perder terreno para os espanhóis, holandeses, franceses e
ingleses; no Séc. XVIII além dos problemas de disputa territorial, Lisboa, uma
cidade de 250 mil habitantes foi parcialmente destruída por um terremoto força
9 na escala Richter com epicentro no oceano ao largo da costa portuguesa, ao
qual se seguiram tsunamis com ondas de 15 metros (os terremotos com
magnitude acima de 8 podem provocar grandes danos em regiões localizadas
a várias centenas de quilômetros do epicentro). A cidade medieval foi
reconstruída e modernizada com recursos do ouro do Brasil. No século XIX
Portugal perdeu 'a jóia da coroa' com a independência do Brasil. No Séc.XX
aparece como um pais pequeno e pobre. Em 1974 experimentou uma
reestruturação política, e em 1986 foi admitido na União Européia, passando a
receber investimentos e a se desenvolver.
Os portugueses operam a TAP - Air Portugal, que tem um vôo diário Salvador –
Lisboa, muito conveniente no nosso inverno. A ida é noturna: sai de Salvador ao por
do sol, e como se adianta o relógio de 4 horas para chegar no verão europeu, a
chegada lá é ao nascer do sol. Se você não for miserável e voar ao menos de classe
executiva chega pronta para começar o dia.
A volta é diurna, sai de Lisboa após o café da manhã, cruza o equador ao meio dia e
após atrasar o relógio 4 horas, da para matar a saudade indo almoçar uma moqueca
no Yemanjá.
Em Lisboa pegamos um Opel Meriva da Hertz, motor diesel que anda a 160 km/h e faz
18 km/l, equipado com um GPS portátil Magellan, no qual estava instalado um
programa chamado Neverlost. O aparelhinho fala 11 línguas, incluindo português.
A imagem à esquerda é a tela
na estrada, a 200m de um
entroncamento. Em baixo, o
odômetro regressivo diz
quanto falta para a manobra, e
em cima como é. Feita a
manobra esta imagem
desaparece e o mapa da
estrada toma a tela toda, a
linha roxa indicando seu
caminho e o triangulo amarelo
onde você está. Uma voz
feminina dá as instruções do
que fazer, e no momento de
girar o volante um sinal sonoro
plim-plim toca.
68
A imagem à direita
é andando na
cidade; ele sabe
onde é mão e
contramão, coloca
o nome da rua, e
quando chega ao
destino avisa:
chegou! Bem na
porta! Se você
sair do caminho
especificado, ele
de imediato
recalcula tudo em
menos de 5
segundos, e uma
voz tranqüila lhe
diz o que fazer.
Era dia 13 de maio, a lua nova era dia 15, e a meta era estar em St.Malo, a 1700 km,
dia 15 antes do meio dia para pegar a maré toda vazia e acompanhar ela encher 12m
até às 17:06 GMT. Saímos do aeroporto de Portela às 8 h, pegamos a auto-estrada A1, que começa no aeroporto, e pau na máquina. Rodamos 800 km para pernoitar no
Parador Nacional de S. Domingos de la Calzada, no norte da Espanha, perto da
fronteira com a França, chegando lá antes do por do sol.
Esses paises europeus com auto-estradas maravilhosas, se você tocar direitinho
atravessa dois em um dia. E ainda saímos da estrada para entrar em Tordesilhas e
visitar o Mosteiro onde foi assinado o Tratado de 1494. A única coisa que me chateou
foi ao chegar no topo da Serra da Gata e ver o acavalamento com falhas de empurrão
padrão dominó, não ter como parar na autoestrada para fotografar; mas marquei as
coordenadas: ψ = 42°25' N λ = 003°07' W.
No dia seguinte atravessamos os Pirineus, todo perfurado com túneis. Este
dobramento aqui é bem mais novo, da orogenia Alpina do Terciário, e afeta rochas
sedimentares do Cretáceo Superior. Eu estive aqui há 28 anos atrás, no verão de
1979, num programa de treinamento quando a Petrobras estava preparando pessoal
para fazer exploração em águas profundas. Era um grande desafio na época, mas a
Petrobras teve sucesso e foi premiada em 1992 e 2001 na OTC (Offshore Technology
Conference), uma espécie de premio Nobel setorial no que é considerado o maior
evento da industria petrolífera mundial. As fotos abaixo fizemos na volta, quando
vínhamos devagarzinho e alugamos umas bicicletas em Zumaia, no inicio de um dos
famosos 'Caminhos de Santiago'. A geologia aqui é tão espetacular que faz parte do
roteiro turístico!
69
1.Seqüência dobrada vista em corte e na superfície. 2Voltando para a bicicleta 3.
Contato K/T 4. Camada invertida, com turbidito distal (ocre) recoberto por camada de
hemipelágicos de água profunda (cinza claro); uma bioturbação vertical atesta a
polaridade invertida, o organismo perfurou a toca de domicilio de cima para baixo. 5.
Mila descansando da pedalada.
Ao passar a fronteira para a Espanha, adiantamos o relógio de uma hora, o que vale
também para a Galícia e a França. Os fusos horários aqui são mais ajustados às
conveniências políticas do que à passagem do sol pelo meridiano do lugar. Também
nesta latitude, no verão, o sol está visível por mais de 15 horas por dia.
Dia 15, na hora da baixa-mar estávamos em St.Malo. Vimos a maré vazia, fizemos
mercado de frutas, sucos e biscoitos, e seguimos para leste pela orla, olhando o lado
francês do Canal da Mancha que aqui se chama Costa Esmeralda. Os mapas locais
denominam esta reentrância triangular (vide mapa p.67) de Baia de Saint Michel. A
reentrância é um triangulo eqüilátero com lado de 120 km, vértices no Cabo Gréhel, no
Monte St. Michel e no Cabo de Hagne. Dentro deste triângulo a maré de 6 m do Canal
da Mancha é amplificada, para no dia da lua, como hoje, chegar a 12 metros de
amplitude.
70
1. O porto completamente seco atrás do molhe. 2. A industria de pesca de moluscos
(catadores de papa-fumo da França) e
3. seus anfíbios de serviço
4.o
irmãozinho do Pinauna VI com bandeira francesa e teto de Peugeot, encalhado na 1ª
hora de enchente... 5. e 40 minutos depois estava solto e já tinha rodado com a
maré. 6. O castelo do Mont St.Michel, o aterro de acesso e a extensa planície de
maré de uma argila consistente que eles chamam de tangue
7. a placa que está
atrás de Mila na foto anterior, colocada nos dias de maré grande que na preamar
cobre o estacionamento dos turistas.
71
O Mont Saint Michel é uma ilha, um caroço de granito com altitude de uns 50 metros
na foz do rio Couesnon, que faz a divisa entre os ducados da Normandia e da
Bretanha. Sobre a ilha foi construído um monastério no Séc.VIII, reconstruído nos
Séc.XI e XII, funcionou como prisão no Séc. XIX e no Séc.XX foi declarado pela
Unesco Patrimônio da Humanidade. Tem sido o cenário de filmes que ficaram
famosos, incluindo 'O Ponto de Mutação' (Mindwalk) de Capra.
A mega-maré da Baia do Mont St.Michel invade o rio Couesnon criando um estuário
com barras de maré alinhadas na direção da correnteza. No final do Séc. XIX foi feito
um aterro para ligar a ilha ao continente, o que impediu a circulação da lama, que se
acumulou no entorno criando uma planície de maré que se estende por 15 km. A
planície tem uma declividade de menos de 1° e é cortada por canais de maré que
adentram a linha de costa com largura de dezenas de metros, se alargando mar
adentro para centenas de metros. Quando a maré vem, ela fica confinada nos canais,
para só na ultima hora cobrir a planície à velocidade vertical de 1m/h e à velocidade
horizontal de 1m/seg.
15 maio 2007. Foto 1 10:28 GMT.
Foto 2 16:24 GMT. Baixamar 11:42, 1,8m Preamar 17:06, 12.0m
A Baia do Mont St. Michel por si só já tem uma geometria propicia para amplificar a
maré. Ela se abre para o Canal da Mancha, um funil de 560 km entre a Inglaterra e a
França, que fica mais raso da parte mais larga, a WSW (largura 170km, profundidade
120m) para a parte mais estreita a ENE (largura 35km, prof. 45m).
Com isso, cumprimos os objetivos da viagem. Passamos perto de Paris e de Madri e
não entramos. Para quem gosta de cidade grande é melhor visitar de pacote, com
hotel reservado, táxi e metrô. Na França, exceto em La Rochelle, pernoitamos em
Chambres d'Hôtes interagindo com o veinho anfitrião e acordando tarde para não
abusar da veinha simpática que se propunha a fazer o café da manhã. Assistimos na
TV a cerimônia de posse do Nicolás Sarkosý, uma semana depois do resultado das
eleições. A família dele, uma jovem senhora charmosa, um menino de uns 8 anos, e
um rapaz de uns 18 a 19, insistentemente focado pela TV, que deve ser de um
primeiro casamento. O discurso dele, muito bem ensaiado, fez um retrospecto das
administrações anteriores ressaltando os pontos positivos, e concluiu com o projeto de
governo que ele prometia e pedia que os franceses cobrassem. Na Espanha dávamos
72
preferência a Hostals transadinhos, com coin-loundry e facilidades de internet. Em
Portugal, com exceção de Coimbra onde ficamos duas noites num hotel com garagem
no meio do buxixo, usamos a rede de campings da Orbitur, onde alugávamos um
bangalô ou uma caravan. A viagem de volta foi passeando, com uma olhadinha na
geomorfologia e sedimentologia do litoral atlântico e nas entradas das barras até
Lisboa, que não vou contar para não encher o saco. Este trecho está no entorno da
latitude 40° N, e os westerlies, também conhecidos como os 40 bramadores, sopram
com vontade. A costa é aberta e o mar arrebenta. Quando tem uma saída de rio, um
aglomerado de barcos. É passando lá que a gente entende porque os franceses que
tem barco e juízo, quando juntam algum dinheirinho levantam os panos, atravessam o
Atlântico e vem para Itaparica. Os alísios de nordeste só começam no trópico, entre as
Canárias e Cabo Verde. Eu já fiz este percurso três vezes, e posso afirmar que a vida
nos trópicos não tem comparação.
Comemos do carneiro que pasta nos polder (terra recuperada do mar com diques de
contenção), dos gámbas (camarão grande) da costa norte da Espanha e do bacalhau
preparado em Portugal. Em Vigo, no restaurante da marina que recebe os barcos da
Volvo Ocean Race, comemos de 'aperitivo' uma torradinha com caviar de ouriço, a
popular pinauna da Bahia. Ainda bem que isso aqui não é moda, mas é muito bom.
Visitamos castelos, museus e marinas, e claro, Mila foi às compras. Fizemos nossa
peregrinação no Caminho de Santiago, apesar de que Mila achou que levou bagagem
demais.
Ao invés de nos instalarmos em Lisboa para o vôo de volta, ficamos no camping de
Cascais, de onde irradiávamos para turistar. Na sexta 25 de maio passamos o dia em
Lisboa. Mas ai não resistimos, compramos feijão arroz e carne para preparar no
bangalô; até que tomávamos vinho português, mas senti uma falta enorme de farinha,
e minha bisavó, uma índia Kiriri que plantava mandioca lá pras bandas do Vaza Barris
deve ter se remexido no túmulo com peninha do bisneto.
Uma das vantagens de viajar é aprendermos a valorizar o que temos no Brasil. Com
exceção de uns poucos quilombos no NE e algumas tribos indígenas no W e NW
'protegidas' pela Funai, somos uma nação miscigenada, homogênea e sem problemas
étnicos. Enquanto que os europeus valorizam as 'culturas' nacionais nós temos o
73
privilegio de valorizar a miscigenação e a uniformidade racial. Voilá! Ali está o Cabo
Calcanhar! Vamos pra casa.
74
A EUROPA DOS HABSBURG - 2007
Eu só tenho feito ginástica quando vou no barco, e estava ficando entrevado por
absoluta falta de saco para neste final de inverno chuvoso caminhar na pracinha ou
nadar na piscina, de forma que me inscrevi num pacote turístico para Europa.
Foram 17 dias acordando cedo, comendo goulash e caminhando até o joelho doer.
O programa foi contornar os Alpes, saindo de Paris para leste, um cruzeirinho rio
acima no Reno entre Boopard e St.Goan na Alemanha, uma passagem pela
Republica Checa e pela Hungria recém aderidos à União Européia, e o retorno
raspando os Alpes pela borda leste numa passagem antiga aproveitada pela autoestrada que liga Viena a Veneza.
A Europa foi ocupada de leste para oeste, e a ocupação foi controlada pela
geografia física. O mapa abaixo mostra a hidrografia e o relevo, ressaltando as vias
de acesso fluvial que foram usadas na ocupação original e as montanhas que
funcionaram como barreira natural. A letra M no canto direito do mapa é a
Mesopotâmia , local onde a espécie humana começou a domesticar espécies
vegetais e animais, e segundo os registros disponíveis, pela primeira vez construiu
núcleos urbanos e se organizou em tribos, com uma conseqüente estrutura social
incipiente.
75
O termo europa vem do proto- Semita para designar o por do sol, o ocidente. Se
você seguir o link vai ver que ele leva a uma família de línguas de povos que se
diferenciaram e migraram. Os que foram pelo norte mais frio domesticaram os
cavalos e construíram fornos para se aquecer. O Pest, de BudaPest quer dizer
'forno de pedra'; Buda vem de uda, água, referencia às fontes termais. Budapeste
fica no ponto onde o Danúbio inflete de W-E para N-S nos contrafortes das
Carpathians. Antes de produzir qualquer registro escrito, os Celtas construíram
fornos metalúrgicos alimentados a carvão vegetal e capazes de reduzir minérios de
cobre. Adicionando 10% de estanho ao cobre se conseguiu fundir o minério a uma
temperatura mais baixa, aumentar a fluidez da mistura fundida e aumentar a dureza
do produto resfriado: bronze. Foi quando essa turma, aperfeiçoando técnicas de
metalurgia, conseguiu produzir em escala instrumentos de trabalho e armas. Com
isso, alguns grupos passaram a deter a hegemonia sobre outros, o coletivismo deu
lugar ao individualismo e as sociedades dividiram-se em classes.
Os que foram pelo sul tornaram-se agricultores e pescadores, com destaque para
os Fenícios que inventaram o alfabeto fonético de 22 caracteres. Com o registro
escrito, tem início ao que os Historiadores chamam de Período Histórico. A
transição da Pré-história para a História deu origem a duas grandes estruturas
sociais da antiguidade: as civilizações de servidão coletiva e as escravistas.
Desenvolveram-se impérios escravocratas, que foram se sucedendo, egípcio→
grego→ romano e dominando a Europa mediterrânea. A esta altura chegamos ao
ano zero da nossa era. A qualidade de vida dos dominados era desesperadora,
quando aparece um tal de Jesus de Nazaré pregando a piedade e prometendo o
reino dos céus para os pobres de espírito. As idéias de Jesus e a opção por um
Deus único antropomórfico e antropocêntrico foram difundidas pelos seus apóstolos
e tiveram grande aceitação por parte dos dominados, tornando cada vez mais difícil
a tarefa dos dominadores politeístas. A situação chegou ao ponto de desestabilizar
a estrutura do império, quando o Imperador Constantino I, no ano 325 convocou os
presbíteros (bispos) ao Concílio de Nicéia, onde foi decidido, por votação, que o
Jesus de Nazaré seria o Cristo imortal, foram escolhidos 4 testamentos de 80 em
voga para compor o Novo Testamento, foi criada a Igreja Católica Apostólica
Romana com seus bispos com status de nobres tomadores de vinho, os cristãos
deixaram de ser perseguidos, foi editado o Credo que nós aprendemos nas aulas
de Catecismo e a religião católica se tornou a oficial do Império.
O Império Romano expandiu-se para além dos Alpes, até as margens do Danúbio e
do Reno, e atingiu seu auge no Séc.IV. Neste meio tempo os Bárbaros (aqueles
politeístas metalúrgicos que não falavam latim) que vinham pelo norte,
desenvolveram a metalurgia do ferro, se equiparam, atravessaram as fronteiras e
foram para Roma. Você pode ver algumas imagens idealizadas dessa conquista
alugando o filme 'Átila o Huno' (os magiares da Hungria pronunciam Atíla). A defesa
de Roma foi organizada pelo Imperador Caesar Flavius Valerius Leo Augustus. Leo
era católico, líder dos presbíteros. Ele se tornou o primeiro Papa de fato, com
poderes, e é hoje referido como Leão I (440-461), coordenador dos bispos. Mas os
bárbaros entraram em Roma em 489. Em 492 o Papa de plantão argüia que Deus
havia criado dois poderes para governar os povos, o espiritual e o secular (civil).
Sob o domínio dos bárbaros a economia entra em crise (entenda por economia a
produção, distribuição e consumo de bens), mas a Igreja Católica foi se
organizando, convertendo os vencedores, e insinuando o Sistema Feudal, uma
forma descentralizada de organização econômica, política, social e cultural baseada
na terra, e não no comércio. Este sistema se expandiu com Carlos Magno (742814), um franco que se tornou rei de um território do qual faziam parte a França
e um pedaço da Alemanha. Com objetivo de fazer com que os outros povos
bárbaros se convertessem ao Catolicismo, ele incentivou várias guerras que
resultaram na conquista de grande parte da Europa. No ano 800 (o ano zero
76
do calendário cristão foi determinado em 532 por sugestão de Dionysius,
calculista do papa Bonifácio II) Carlos Magno (Karl der Große) foi a Roma ser
coroado imperador do Sacro Império Romano Germânico pelo Papa Leão
III. (Primeiro Reich, para detalhes veja o link O MUNDO ROMANO).
A chamada Idade Média (489-1453) se confunde com a Europa Medieval, e começa
com a queda do Império Romano do Ocidente. É por excelência a fase de
consolidação do Papado e do enriquecimento, expansão e domínio da Igreja
Católica Apostólica Romana. No Séc. XI foi implementado o celibato obrigatório a
todo o clero, como uma forma de impedir que herdeiros reivindicassem os bens da
Igreja.
Foi no início deste período que viveu Maomé, o unificador da Arábia e criador do
islamismo, mas esse assunto foi censurado, não nos foi ensinado nas aulas de
História. Durante a Idade Média os árabes muçulmanos invadiram a Europa e
difundiram cultura e tecnologia. Entre os Séc. XI e XIII os súditos do Papa
saquearam os árabes com o poderio militar das Cruzadas.
Durante o período das Cruzadas (1095-1291) começou um desentendimento entre
alguns reis do Sacro Império Romano Germânico e o Papa. No processo, Rudolf
von Habsburg foi excomungado em 1254, mas independente da vontade papal foi
eleito Imperador pelos príncipes feudais em 1273, exercendo seu mandato até
morrer em 1291. Como Imperador ele negociou com o Papa Gregório X, abrindo
mão da cidade de Roma, de parte da Itália, e prometeu uma nova Cruzada, com a
qual ele ampliou sua área de domínio. O que eu vi na Europa neste outono europeu
foi o legado de Rudolf.
77
A foto acima é Schönbrunn, o Palácio da Bela Fonte encimado com a águia
de duas cabeças, em Viena, Áustria, residência dos Habsburb na sede do
Império que durou de 1273 até 1918 quando a Tríplice Aliança perdeu a
Ultima Guerra Feudal, também conhecida como a 1ª Guerra Mundial. Nesta
guerra desmoronaram o Império Alemão, o Império Austro-Húngaro, o
Império Turco-Otomano, e o Império Russo. Sobrou enfraquecido o Império
Britânico, vencedor, e começou o processo de descolonização na África e na
Ásia.
O Primeiro Reich foi mantido à custa de conquistas militares e de
casamentos de conveniência, situação na qual o dote da noiva era feito em
terras. A sociedade feudal era dividida em três grandes classes: a primeira
compreendia os integrantes do clero, cujos bispos eram recrutados entre os
nobres que cuidavam da fé cristã; a segunda reunia os senhores feudais,
responsáveis pela guerra e pela segurança, e a última era constituída pelos
servos, que trabalhavam para sustentar toda a população. A mobilidade
social praticamente inexistia. Rígidas tradições e vínculos jurídicos
determinavam a posição social de cada individuo desde o nascimento.
Em meio a uma sociedade constituída de pessoas iletradas, o clero
mantinha o controle absoluto do saber erudito, em latim, o que garantiu seu
domínio ao longo de séculos de maneira quase inabalável. O progresso dos
europeus neste período foi a invenção dos óculos, que propiciaram uma
continuidade da vida intelectual, e a invenção dos arreios para os cavalos
puxarem carroção de serviço. Fora do Sacro Império, os mercadores de
Veneza importaram a pólvora e a bússola. Os povos ibéricos tiveram
desenvolvimento distinto porque durante boa parte da idade média foram
dominados pelos árabes. No Séc.XV os árabes já haviam sido expulsos da
península Ibérica, mas os turcos do Sultão Maomé II atravessaram o
Bósforo, tomaram Constantinopla, extinguiram o Império Bizantino e
ocuparam o leste europeu do Mediterrâneo até os contrafortes dos Alpes e
das Carpathians, o que inclui toda a Hungria. Este evento define o que os
historiadores consideram como o fim da Idade Média.
Mas o Primeiro Reich subsistiu até 1808. Durante o reinado de Maria Teresa
de Habsburg (1745 a 1765) os palácios danificados pelos turcos foram
recuperados, deixando um patrimônio que é hoje explorado pela indústria do
turismo.
78
Palácio dos Habsburg, reconstruído por Maria Teresa sobre as ruínas. Em alguns
pontos um piso de vidro deixa ver a estrutura original. Em primeiro plano na foto da
esquerda, a invasão dos bahianos, Carminha da Espaço Turismo fazendo pose
com Luis César da Alcance Turismo.
Dentro do Sacro Império, com o fim das Cruzadas e o aumento da população,
começou um comércio nas feiras que se realizavam nas vilas ou perto dos castelos.
Inicialmente eventuais, as feiras tornaram-se permanentes, propiciando o
aparecimento de núcleos urbanos, os chamados burgos, a partir dos quais
desenvolveram-se novas cidades onde as atividades comerciais restabeleceram o
uso da moeda. Em pouco tempo moedas distintas de vários feudos circulavam nas
feiras e nos núcleos urbanos, criando a necessidade de câmbio. Apareceram os
cambistas que cobravam taxas e realizavam a troca de moedas, faziam
empréstimos e emitiam títulos, uma atividade bem vista porque livrava os
comerciantes do risco de transportar valores altos. Com o aumento do comércio a
burguesia negociou ou conquistou a franquia para suas atividades sem pagar
tributo aos senhores feudais. A partir do aparecimento da burguesia a sociedade de
classes passou a ter mobilidade, o que culminou com a Revolução Francesa de
1789.
A Revolução Francesa foi a primeira das revoluções modernas, uma sublevação
política que teve início em 1789 e se prolongou até 1815. A burguesia francesa,
consciente de seu papel preponderante na vida econômica, tirou do poder a
aristocracia, o clero e a monarquia absolutista, marcando o que os historiadores
chamam o início da idade contemporânea. Os burgueses estabeleceram na França
um novo governo denominado Diretório, o qual preparou uma Constituição e
estabeleceu aliança com o Exército. O novo governo teve que enfrentar
escaramuças externas, e saiu-se vencedor graças ao jovem general estrategista,
Napoleão Bonaparte. Em 1799 o governo do Diretório foi derrubado por Napoleão,
que junto com a burguesia instituiu o Consulado, de características republicanas e
dominado por militares. Nesta fase o Poder Executivo capitaneado por Napoleão
fez grandes reformas no campo da economia, religião, direito, educação e
administração, reformas estas que agradaram à classe dominante francesa. Em
1804 um plebiscito aprovou a restituição do regime monárquico e Napoleão foi
indicado para ocupar o trono. O Papa Pio VII foi a Paris para a coroação. Napoleão
concedeu títulos nobiliárquicos aos seus familiares e colocou-os em altos cargos
públicos. Formou-se uma nova corte com membros da elite militar, da alta
burguesia e da antiga nobreza. Para celebrar os triunfos de seu governo, Napoleão
I construiu monumentos grandiosos, como o Arco do Triunfo que, como outras
grandes obras da época, por sua grandiosidade e por criar empregos, melhorava a
imagem do imperador perante o povo. O Império Francês atingiu sua extensão
máxima neste período, em torno de 1812, com quase toda a Europa Ocidental e
grande parte da Oriental ocupadas, possuindo 150 departamentos, com 50 milhões
de habitantes, quase um terço da população européia da época. Com os recursos
de uma Europa dominada Paris tornou-se a Cidade Luz.
Nas suas campanhas de conquista, Napoleão dissolveu o Sacro Império Romano
Germânico em 1806, fazendo Francisco II (Franz Joseph, neto de Maria Teresa
Habsburg) renunciar à coroa. Mas os Habsburg, mantendo a tradição da casa,
manobraram para estabelecer o Segundo Reich, o Império Austro-Húngaro, com
Francisco agora I de Áustria como imperador. Maria Teresa de Bourbon, a
imperatriz, fez casar com Napoleão sua filha Maria Luisa, então com 18 anos.
Antevendo o próximo grande império das Américas, fez casar em 1818 sua outra
filha, a arqui-duquesa Maria Leopoldina com o então príncipe Pedro de Bragança e
Bourbon, em 1822 o Imperador Pedro I do Brasil. Foi a Imperatriz Leopoldina
79
Habsburg quem, assessorada por José Bonifácio e na ausência de D.Pedro que
estava em São Paulo fornicando com Titília, a bela, assinou a declaração de
independência do Brasil em 1822.
O Império Austro-Húngaro fez parte da Tríplice Aliança, derrotada na Primeira
Guerra Mundial, quando os Habsburg assinaram rendição incondicional, numa
situação que pos fim ao regime feudal e às monarquias absolutistas na Europa.
A guerra causou o colapso de 4 impérios e mudou de forma radical o mapa
geopolítico da Europa e do Oriente Médio.
Carlos I da Áustria (1887-1922) – Karl Franz von Habsburg, sucessor de Francisco
José devido ao assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando Habsburg, na
Bósnia, em 1914, fato que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. Ele foi o último
coroado no império da águia de duas cabeças, aqui retratado na sala do trono no
Castelo de Praga, antes de assinar a rendição em Schönbrunn. Este castelo de
Praga é o maior da Europa, uma verdadeira cidade imperial, iniciado no Séc. XII. A
muralha de contorno está toda recuperada, e na face leste, virada para o rio Vltava,
há um quarto onde morou Franz Kafka em 1907.
O butim da Primeira Guerra Mundial foi acertado no Tratado de Versailles, o qual se
degringolou numa controvérsia generalizada. A controvérsia facilitou a ascensão
dos nazistas e do Terceiro Reich na Alemanha dos anos 30, o que acabou levando
à Segunda Guerra Mundial. Nesta Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos e a
União Soviética estavam juntos do mesmo lado, e ao final dela ficou claro que os
expansionistas do "Eixo Roma-Berlim-Tóquio" estavam controlados e manietados.
Hoje, os alemães, como o checos, tem um comportamento naturalmente ríspido,
não por mal, mas um reflexo de quem foi maltratado por mais de uma geração. A
Alemanha foi dividida e ocupada de 1945 até a queda do muro de Berlim, em 9 de
Novembro de 1989. O governo de Berlim hoje incentiva a visita ao muro derrubado,
tendo feito a reconstrução de alguns trechos e marcado no chão o percurso que o
muro fazia quando estava erguido.
80
A Republica Checa, a Eslováquia e a Hungria passaram a fazer parte da União
Européia a partir de 1° de janeiro de 2004, e estão vivendo uma transição do
controle soviético de Estado forte, com economia planificada, para o capitalismo
globalizado da UE. O controle do Estado em tese promete justiça e igualdade
social, mas isto só funciona numa sociedade educada que se comporta bem com
um Estado liberal, como os povos escandinavos, os ingleses, suíços, e mais
recentemente a França e a Alemanha. Estado forte é repressivo, a Polícia é armada
e vê o cidadão como potencial transgressor, a corrupção é maior pelo abuso da
autoridade outorgada e o cidadão sente-se vigiado e oprimido. Isto gera primeiro o
medo e depois indiferença tendendo a conformismo, até que se torna insuportável.
O povo fica infeliz e ineficiente.
O roteiro de 4000 km do busu contornando os Alpes e o garotão turistando com a turma da
melhoridade
O turismo e paisagens da Europa neste outono de 2007:
.
Código de Hamurabi - Detalhe da compilação jurídica do Rei da Babilônia, datada
de 4mil anos, gravada em diorito com a escrita cuneiforme dos sumérios. Vinhedos
nas margens do Reno e as cores do outono do hemisfério norte; dentro de 3 a 4
semanas tudo isto aqui estará branco, coberto de neve..
81
O que sobrou do Danúbio Azul imortalizado por Strauss: uma piscina tratada na
'praia' do canal de alivio (Donaukanal) em Viena. É verdade que o Danúbio está
verde acinzentado, mas seria uma malvadeza e uma injustiça não ressaltar a
nobreza, a beleza e a simpatia desta cidade. Ela abriga uma das sedes da ONU,
com a função de servir como elo de ligação entre o 'mundo ocidental' e o 'mundo
oriental'. Abriga a sede da OPEP, seus salões de concerto são numerosos e
deslumbrantes e tem o toque feminino de Sissi, a querida imperatriz do final do Séc.
XIX.
A foto da direita é o rio Reno na Alemanha, entre Frankfurt e Colônia, uma área que
hoje se destaca por uma super infraestrutura de transporte fluvial, rodoviário,
ferroviário e aéreo. Todo este tráfego fluvial retratado está descendo o rio, para
norte. Mais para sudeste, na direção que nosso barco está indo, fica Frankfurt, o
centro financeiro da Europa continental, agora cheia de chineses fazendo negócios.
A motivação deste cruzeiro era ver a densidade de castelos ao longo das margens
do rio, um retrato da fronteira do antigo Império Romano.
Castelos nas margens do Reno Usina de energia nuclear 'Usina' de energia eólica
A velocidade das mudanças geopolíticas do Séc.XX, o século do petróleo, propiciou
que a colonização européia iniciada no Séc.XV fosse desmontada em pouco mais de
20 anos. Ao final da Segunda Guerra Mundial a Organização das Nações Unidas tinha
51 países, que 30 anos depois eram 135 e hoje somos quase 200. Durante a bipolaridade mundial da Guerra Fria entre o comunismo e o capitalismo, os estados
emancipados do processo de descolonização que não se alinharam com um dos dois
blocos dominantes passaram a constituir o 'terceiro mundo', neutro em relação ao
enfrentamento dos dois blocos, mas com assento e representação diplomática na
ONU. Com o fim da Guerra Fria em 1991 o mundo se reorganizou agora unificado com
duas preocupações: 1. a degeneração ambiental consequente do desenvolvimento
econômico despreocupado com a qualidade da biosfera para a manutenção da vida
82
humana, e 2. a heterogeneidade dos níveis de desenvolvimento entre os povos
globalizados, com a grita dos pobres numericamente dominantes e a preocupação dos
ricos economicamente dominantes. No momento três providências estão em curso:
pesquisa para produção de energia limpa, controle demográfico, e tratar de limpar a
imundície gerada pelo desenvolvimento econômico desvinculado de cuidados
ambientais. O Séc.XXI promete ser interessante, e talvez marque o inicio de um novo
calendário, quando os vínculos religiosos e patrióticos passarem a ser coisa do
passado e a população mundial da espécie que passou a se constituir no superpredador, com força de criar até mesmo mudanças geológicas na superfície do
planeta, passar a controlar sua reprodução e ajustar o consumo às possibilidades do
planetinha que habitamos.
83
Itália e Grécia - 2004
Final de agosto é uma época ótima para viajar pela Europa. O clima é bom, não
precisa carregar agasalho pesado, o que lhe permite viajar leve, sentindo-se jovem
com uma mochila nas costas. No início de setembro existem vagas nos hotéis e
você pode
chegar de última hora sem reserva e ainda pechinchar um preço
melhor.
Eu tinha um Europass ferroviário que dá direito a usar os navios que atravessam o
Mar Adriático, da Grécia para Itália e vice-versa. E agora com a União Européia
ampliada, fica tudo mais fácil porque eliminam-se as formalidades de imigração e
de estar trocando de moeda a cada 500 km.
1.No trem, de primeira classe
2.Dobra recumbente capeada por discordância na entrada do Golfo de Corinto, próximo a
Patras.
3.Acesso norte do Estádio Olímpico em Atenas
A Grécia pós olimpíada 2004 está com uma dívida de US$ 12 bilhões. Está
parecendo um carro velho onde foi adaptado freio ABS e apoio de cabeça nos
assentos. O sistema de metrô de Atenas, novinho, exibe com elegância e
propriedade nas estações de downtown, painéis arqueológicos e arte antiga
encontrada nas últimas escavações. Assim que passa a estação Atiki para o norte,
indo para o estádio olímpico, e a estação Kalithea para oeste, indo para o porto de
Pireus, o metrô corre na superfície, o que é mais barato de construir, mais
agradável para o usuário e mais rico para o turista que vai vendo a cidade. Eu
passei lá entre as olimpíadas dos sarados e a dos aleijados, e o estádio estava
sendo arrumado. Um super esquema de segurança, com polícia e exército, rígido
mas educado e tratando o turista como cliente.
As ferrovias na Grécia são de bitola mais estreita que na Itália, a agricultura é pobre e
o povo sofrido pelo domínio secular de romano, turco, russo, francês e inglês. Usam
aquele alfabeto diferente e não têm refinamento. São parecidos com os portugueses
um pouco piorados. Como os portugueses, tiveram seu apogeu há muito tempo e
84
agora são pobres no contexto europeu. Se você quiser ver a Grécia antiga, de
Homero, Sócrates e Platão, atravesse as cento e poucas milhas do Mar Egeu e vá
para onde hoje é a Turquia, particularmente em Éfeso, onde os alemães fizeram um
primoroso trabalho de restauração. É fácil, os espartanos foram de galera a remo até
Tróia buscar Helena. Se quiser ir de carro existe uma ponte em Istambul, sobre o
Bósforo, que liga a Europa com a terra do sol nascente, a Anatólia, berço da
civilização.
1.Ponte que liga a Europa e a Ásia 2. Acrópolis em Atenas, iluminada.
3.Canal de Corinto: uma légua
de corte no calcário
A cidade de Atenas está no estado de Ática, que fica entre o golfo de Corinto e o Mar
Egeu. Para sudoeste está o Peloponeso, uma península que contém Corinto, Sparta
(terra de Aquiles o guerreiro do calcanhar desamparado) e Patras, cidade portuária
grande que recebe os barcos que vem da Itália. Tanto a oeste (Mar Jônico) quanto a
leste (Mar Egeu) do Peloponeso são centenas de ilhas, que vão até as costas da atual
Turquia. Os dois mares são interligados por um canal que passa em Corinto. Na
antiguidade viveram nestas ilhas sábios famosos, como Tales de Mileto, Aristarco de
Samos, e hoje as ilhas gregas fazem o paraíso do turismo gay. Os „mares‟ são rasos,
com fisiografia de plataforma, sem talude, e estão fechando como consequência da
colisão em curso entre as placas tectônicas da África e da Europa.
Toda a área é dominada por afloramentos de calcário, daí a pujança da indústria de
cimento local e o uso do mármore para os mais variados fins desde a antiguidade. O
calcário é marinho e mesozoico, fortemente dobrado no terciário com a orogenia
alpina. As relações estratigráficas são complicadas com mergulhos fortes e camadas
invertidas, discordâncias angulares monumentais; talvez por isto os fundamentos da
geologia tenham escapado à perspicácia filosófica dos gregos da antiguidade. A
colisão das placas da África com a Europeia fechou o mar de Thetis, do qual o
Mediterrâneo é o resquício, criou a leste a península arábica e suas gigantescas
jazidas de petróleo, levantou os Alpes e hoje mostra sua atividade nos terremotos da
Turquia e da Grécia e nas erupções vulcânicas na Itália.
No Golfo de Corinto quase não havia vento. No Mar Adriático era um S-SE de 10-15
nós. Saímos de Patras às 14:30, passamos por trás de Corfu e paramos em
Igumenitsa ao por do sol, às 20horas. O Europass e uma tarifa portuária adicional de
€16 dá direito a uma couchette. O ferry-boat da Superfast anda a 30 nós, tem bons
restaurantes, e chegou em Ancona às 11:15 de 4 de setembro, um sábado; muita
gente velejando, parecia uma regata! O norte da Itália é muito mais rico e
85
desenvolvido tanto em relação à Grécia quanto ao sul da própria Itália. Atrasei o
relógio em uma hora para o fuso da Europa ocidental.
A Itália é difícil de ser analisada porque eles tem uma história de 1500 anos contada
como um evangelho na versão dos vencedores, e mascarada sob o manto do mais
rico acervo artístico do mundo. O Império Romano ocidental dominou o mundo por 500
anos (27 AC a 476 DC), e quando começou a entrar em declínio político o imperador
Constantino I, lá do oriente, unificou o império, adotou o cristianismo monoteísta como
religião oficial, mandou promover o Cristo mortal a deus imortal e fundamentou a Igreja
Católica Apostólica Romana na versão da Bíblia com o Novo Testamento,
selecionando 4 evangelhos dos 80 em voga e mandando destruir os hereges, isto é,
os que não comungavam com a versão oficial. Esta Bíblia, o maior best-seller de todos
os tempos, está nos últimos seis meses sendo batida na lista dos “mais vendidos” de
Veja pelo livro de Dan Brown escrito em 2003, „O Código Da Vinci‟. Foi por causa
deste livro que eu fui revisitar a Itália.
No final do século IV o império romano foi novamente dividido, e enquanto a parte
ocidental se decompôs em meio século, a parte oriental centrada em Constantinopla
persistiu até 1453 quando os turcos-muçulmanos dominaram a Eurásia empurrando os
europeus para o lado de cá do Atlântico. Durante o desmonte do império romano
houve um fortalecimento da Igreja Católica, fomentando a criação de estados-nação, e
impondo sua doutrina na marra, com as Cruzadas e a Inquisição. Quando da queda de
Constantinopla, Portugal e Espanha eram estados fortes, que haviam aprimorado a
navegação à vela e contavam com a proteção papal. Instigados a descobrir um
caminho marítimo para as Índias, acabaram por invadir as Américas e foram
agraciados pelo dono do mundo com Bula Papal Ea, quæ pro bono pacis...",
sancionada por Júlio II, que dividiu „o mar-oceano‟ com os eleitos. Logo em seguida
(Séc. XVI) a autoridade papal foi contestada com a Reforma, e emergindo da cisão,
outros candidatos a donos do mundo e da verdade apareceram em cena. Os
desdobramentos deste imbróglio da sociedade global, catalisados pelos interesses
econômicos da Era do Petróleo no Séc.XX, nos fizeram passar por duas „guerras
mundiais‟ e se desenrolam até hoje com o conflito entre os fundamentalistas islâmicos,
donos do petróleo, e os fundamentalistas do capitalismo, que tiveram seu templo
destruído com a derrubada do World Trade Center.
86
Do ponto de vista arqueológico o local mais interessante da Itália é Pompéia, na
canela da „bota‟, no ponto que você escolheria para chutar se fosse para doer. As
ruínas estão a cerca de 5 km a sudeste do vulcão Vesúvio, cuja cratera se eleva uns
500m acima do nível do mar. As construções mais antigas foram datadas de 2600
anos, portanto 600 AC. A cidade
tinha uma muralha de 3 km com 8
portas sendo que a Porta do Mar,
por onde os turistas entram hoje,
ficava a 500 m do porto no Mar
Tirreano. Tornou-se uma colônia
romana em 80 AC, e em 79 DC o
Vesúvio vomitou lava quente que
soterrou e preservou a cidade
debaixo de 8 metros de lava e
lama. Ao lado, o roteiro da viagem
de trem e de barco em 2004.
O Vesúvio visto de Pompéia restaurada
Habitante de Pompéia cozinhado no ano 79
Com o resfriamento da lava, o mar foi empurrado para 2km de onde é hoje a Porta do
Mar. Os romanos se reinstalaram no local 200 anos depois da erupção, mas a cidade
antiga ficou absolutamente preservada, e foi descoberta pelo arado de um agricultor
no vale do Rio Sarno em 1700. A exploração científica começou em 1748, mas só
tomou impulso em 1860 quando o arquiteto Giuseppe Fiorelli inventou um sistema
engenhoso de descolar a capa protetora com a injeção de um emplastro líquido.
Constatou-se que as ruínas são pré-romanas e que os templos eram dedicados a
deuses pagãos. Estimou-se que ali viviam de 8 a 10 mil habitantes, 60 % livres e 40%
escravos. Os escravos tinham nomes gregos e eram também professores. Os livres
eram romanos e tinham três nomes. A comida era guardada em potes de barro,
porrões instalados em bancadas numa cozinha retangular. As refeições nas casas dos
nobres eram servidas numa área retangular rebaixada do piso da sala, no centro da
qual havia uma mesa. A cidade era abastecida de água pelo Rio Sarno, poços e um
aqueduto.
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Pompéia permite estudar de forma única a atividade social da época pela preservação
forçada. Cerca de 2/3 da área construída era residencial. Os italianos fizeram uma
restauração que quando comparada com a de Éfeso mostra-se muito pobre. A
impressão que tive é que o material das paredes e dos pisos não tem muito a ver com
o original. As gravuras são mosaicos incrustados nas paredes e nos pisos retratando
bicho e gente, e num nível artístico mais evoluído, afrescos retratando paisagens com
ilusão de profundidade. O desenvolvimento da perspectiva, do efeito de luz e sombra,
só ocorreu dois milênios depois, e é esta fase de „renascimento‟ das artes que é
vendida ao turista no norte da Itália.
O roteiro Roma-Florença-Veneza vende Michelangelo, Botticelli, Rafael, Ticiano,
Donatello, artistas de primeira linha que produziam protegidos e financiados por papas
e reis. Emergindo de um mundo teocêntrico, e contemporânea ao auge do furor da
Inquisição, a arte renascentista italiana retrata de forma repetitiva os evangelhos da
bíblia oficial entremeada de esculturas dos deuses pagãos. Se você deitar de costas
num banco da Capela Sistina, no Vaticano, e estudar a „criação do mundo‟ desde
Adão até o „juízo final‟ de Michelangelo, pode dizer que pegou a idéia. O resto é
variação sobre o mesmo tema exposta em quilômetros de galerias. A arte do
renascimento está para a teocracia da inquisição assim como a arte de Hollywood está
para a democracia capitalista. E o Renascimento também teve seu documentarista a
la Michael Moore: chamava-se Leonardo da Vinci.
Leonardo foi tido como bastardo, homossexual e o artista mais reconhecido de todos
os tempos. Como seus contemporâneos Rafael, Ticiano e Michelangelo, aprendeu a
pintar e a esculpir com o mestre Andréa del Verrocchio, em Florença. Foi autodidata
como engenheiro, médico, geólogo (reconheceu os processos de intemperismo,
transporte de sedimento e litificação) e inventor. Inventou a bicicleta, o pára-quedas, a
sonda de perfuração, o sistema de diferencial, a catraca, a hélice, o rolamento e
muitos utensílios de guerra. Ele escrevia em código, da direita para esquerda numa
imagem especular da escrita normal. Seus escritos e suas pinturas vem sendo
recentemente objeto de extensivas pesquisas principalmente porque infere-se que
Leonardo escondia as pistas de sua dissidência religiosa na sua arte.
Na Igreja de San Stae, em Veneza, havia uma exibição dos „Códigos de Leonardo‟.
Dediquei um tempo à exibição. Mas Veneza em setembro merece um tempinho
adicional do turista.
88
Veneza foi fundada no séc.VI por fugitivos que encontraram nas ilhotas da laguna um
porto seguro e fácil de defender, e ali unificaram uma comunidade de pescadores sob
a autoridade de um doge. Construíram uma frota marítima, implementaram intensa
atividade comercial entre a Ásia e a Europa, ligando os portos mulçumanos e cristãos,
e expandiram-se numa republica que dominou o Mar Adriático por cerca de um
milênio. A cidade foi muito rica até que seu negócio acabou com a descoberta pelos
portugueses do caminho marítimo para as Índias.
A laguna é protegida por um conjunto de ilhas-barreira de construção quaternária,
baixas e alinhadas paralelas à costa. Em área é semelhante à Baia da Ilha Grande,
em Angra dos Reis, e a cidade de Veneza foi instalada num conjuntinho de ilhas mais
centrais, com cerca de 20km2. As avenidas são canais, os táxis são lanchas
envernizadas, e o transporte individual é uma canoa enfeitada que eles chamam de
gôndola. Na cidade de Veneza não existe automóvel, mas você pode andar a pé
pelas ruelas estreitas e passar de uma ilhota para outra por pontes para pedestre. Na
lateral dos palácios da para fotografar sem disfarce um esgoto eventual caindo na
„rua‟. Fede, mas nada insuportável. No início de setembro a cidade exibe uma
tradicional regata a remo, antecedida por um desfile aberto solenemente pelo doge e a
dogesa numa gôndola grande, evento que é fotografado e aplaudido por milhares de
turistas ao longo do Canal Grande.
89
Fechando este relato gostaria de
comentar o retorno num 767 da
AirEuropa, uma empresa espanhola
que faz
Salvador de Bahia seu
aeroporto de entrada na América do
Sul. A revista de bordo do mês de
setembro traz reportagens turísticas
sobre os destinos da Empresa, e no
caso do Brasil, ela retrata a reserva
natural da biosfera, a capoeira, a
bunda das brasileiras, o presidente
Lula que „desperta paixões‟, o futebol
de Ronaldinho, a arquitetura de Oscar Niemeyer ... e três páginas sobre o „homem
orquestra‟ Carlinhos Brown, agitador cultural que canta, produz, domina a percussão,
é líder da comunidade e no filme „O Milagre do Candeal‟ mostra sua obra mais
querida: a recuperação do bairro onde nasceu.
90
ESCANDINÁVIA, 1997
No dia 15 de maio de 1997 entrei com meu pedido de aposentadoria no INSS, assinei
o PDV da Petrobrás -- pedido de demissão voluntária, comprei na Verona Turismo
uma passagem VASP Salvador-Bruxelas e um europass para a Escandinávia. Pela
internet reservei um SUV Feroza de uma empresa local em Reykjavík, Islândia, e sai
de férias, sozinho, as últimas como empregado do sistema produtivo, presente de
aniversário de 54 anos.
Voei para Bélgica dia 26 de maio. Na estação ferroviária do aeroporto em Bruxelas
validei o bilhete de quinze dias do eurailpass e fui ver a cidade que é a capital da
União Européia. Bem no centro de um país que é menor que o estado do Rio de
Janeiro. O primeiro impacto foi a ordem e o progresso, que ali não é faixa de bandeira,
é pra valer. Mas isso foi só o começo. Na Escandinávia foi que vi uma sociedade que
neste final de Sec.XX merece a designação de primeiro mundo.
Na minha adolescência li vários livros do jornalista italiano Dino Segre, mais conhecido
pelo pseudônimo de Pitigrilli. Ele afirmava que adotou esse pseudônimo porque
gostava de "colocar os pingos nos ii". Era capaz de contestar com sarcasmo, malícia
e humor os vícios e as fraquezas de um mundo necessitado de senso ético. Foi muito
influenciado pelo existencialismo do fim da Segunda Guerra Mundial e seus
personagens são homens e mulheres com um viés cientifico vivendo numa sociedade
de crenças vazias. Um dos livros que me causou mais curiosidade foi „Loura
Dolicocéfa‟, e a estória se passava em Oostende, Bélgica, de forma que peguei o trem
em Bruxelas, saltei para almoçar em Brugge, tão recomendada nos guias de viagem e
fui me instalar em Oostende por uma noite. Bem na beira do Mar do Norte, na latitude
91
de 51°N, defronte a Londres. De Oostende para a Ilha, atravessando o Mar do Norte, é
mais perto do que para Bruxelas. Maré com amplitude de 5m por influência do Canal
da Mancha, mas dai para o norte a maré vai diminuindo rapidamente na direção da
Holanda. Na Oostende do Sec.XIV foram construidos diques de contenção aos
„polders‟, e no Sec.XIX um porto, que ligava a ferrovia de Bruxelas, via ferryboat, para
a Inglaterra. Pitigrilli (1883 -1975) deve ter escolhido Oostende por concentrar a
nobreza belga de bom humor no Sec.XIX; a Belgica se tornou uns pais independente
em 1830, e seu primeiro rei, Leopoldo I, escolheu Oostende para sua vila de praia, o
que levou a nobreza belga também a frequentar a área, criando um ambiente propício
para o enredo da „Loura Dolicocéfala‟.
De Oostende peguei um trem para Amsterdã, na Holanda, com uma descida em
Rotterdam para ver o porto e o delta do Rio Reno. Holanda é uma denominação
considerada coloquial e incorreta para Nederland, literalmente „país baixo‟ em
neerlandês. „Holanda‟ são duas das doze províncias do „Países Baixos‟, a Holanda do
Norte e a Holanda do Sul (esta contém a cidade de Rotterdam e a capital da província,
Haia). A forma plural 'Países Baixos' em português é reminiscente dos tempos de
quando o país ainda não era independente ou unido, o que ocorreu em 1648,
tornando-se a primeira nação européia a assumir uma forma de governo republicana.
Metade do território do país fica a menos de um metro acima do nível do mar, sendo o
ponto mais alto na fronteira sudeste com a Bélgica, com altitude de 321 m. Muitas
áreas baixas estão protegidas por diques e barragens. Partes dos Países Baixos
foram conquistadas ao mar -- estas áreas são conhecidas como pôlderes. O país é
cheio de canais e o transporte fluvial é de grande relevância.
A Holanda tem uma agricultura altamente mecanizada, e é o terceiro maior exportador
agrícola mundial em valor, atrás apenas dos Estados Unidos e da França. Os
principais setores industriais são os de processamento de alimentos, a química, a
petroquímica e o maquinário elétrico. O porto de Rotterdam, no delta do rio Reno, tem
a reputação de ser o „portão de entrada da Europa‟, com acesso fluvial fácil para a
92
Alemanha. O sistema alfandegário holandês está voltado para a facilitação das
operações de exportação e importação. Livraram-se da crença religiosa, e talvez
porque sua guerra de independência tenha estado intimamente relacionada aos
conflitos religiosos desencadeados pela Reforma, o país tem uma tradição de
tolerância e liberalidade. As políticas nacionais sobre drogas, prostituição, direitos dos
homossexuais, aborto e eutanásia atraem atenção internacional por sua tolerância. O
turista tem acesso a toda esta liberalidade, mas os holandêses que acessei nos trens
são compenetrados e trabalhadores, tomam sua cerveja depois do expediente e
deixam essas liberalidades para serem usufruidas pelos turistas.
De Amsterdam peguei um trem e fui para Dinamarca, atravessando o norte da
Alemanha via Hamburgo, com uma conexão em Dusseldorf. É necessário reservar o
lugar no trem, o que é feito num posto de turismo dentro da estação. No trem, tudo
bem, na primeira classe; mas a Alemanha, que é uma potência industrial, foi dividida,
maltratada e ocupada após a segunda guerra mundial durante uma geração, e é um
país indócil. Está sendo invadida, como aliás toda a Europa, por africanos e asiáticos,
e não é um lugar onde eu me sinto confortável. Dei uma voltinha, fiz minha conexão,
peguei uma chouchette num trem noturno e segui para a Dinamarca.
A Dinamarca também é toda baixa, constituida pela península de Jylland que faz
fronteira com a Alemanha, e um arquipélago no Mar Báltico, de forma que para chegar
em Copenhague, que fica na ilha de Zealand, é necessário passar de ferry. Mas só me
dei conta quando já estava dentro do ferry com trem e tudo. Ai fui ao „duty-free-shop‟,
comprei whisky e castanhas e fui fumar um cigarrinho numa mesa com cinzeiro. Na
Dinamarca as pessoas são educadas para valorizar a humildade, e algumas
dinamarquesas descoladas desfilam com negões importados e amestrados com muita
pose. A península e a centena de ilhas do arquipélago ocupam uma área igual à do
Espírito Santo, com uma população equivalente à do estado de Goiás (5,5 milhões) . A
Dinamarca teve seus dias de glória e poder no Sec. XI, quando os Vikings dominaram
boa parte da Europa. No Sec. XIX, depois de perder o domínio da peninsula
escandinava, andou tomando umas porradas dos alemães, o que deixou marcas na
identidade nacional dinamarquesa. Após as porradas, a Dinamarca adotou uma
política de neutralidade, permanecendo neutra na Primeira Guerra Mundial, o que não
impediu de ter sido ocupada pelos nazistas na Segunda. Aderiu à União Européia em
1992.
Em Copenhage a rede de supermercados se chama Netto. Fui jantar na praça Tivoli
onde assisti a um concerto aberto. Dia seguinte, entre as visitas turísticas, passei
algumas horas no museu interativo Experimentarium, onde os pais levam as crianças
93
para entender o corpo humano (veja na foto um ouvido ampliado), a vivenciar o
comportamento de um aquifero, bombeando água manualmente enquanto observa o
cone de depleção no lençol freático.
Da ilha Zealand para a Suécia não precisa de ferryboat, o trem passa por pontes e
túneis e chega a Estocolmo, bem defronte ao Golfo da Finlândia, a 60°N, a mesma
latitude de São Petersburg, na Russia, 700 km direto para leste. A viagem de
Copenhage para Estocolmo já é de quase 600 km, a Suécia é grandinha, área
equivalente a São Paulo + Paraná, com a população só do Paraná (10 milhões), o
maior dentre os países escandinavos. Apesar de super-cuidadoso e polido, o povo é
simples, com um jeito de tabaréu cheirador de rapé. Tudo muito limpo, e apesar de ser
um país industrial, não existe indústria pesada na cidade de Estocolmo, que é
implantada sobre 14 ilhas na saida do lago Malaren para o mar Báltico.
Uma eclusa faz a conexão do lago para o mar. As ilhas são ligadas por pontes, de
sobre as quais o pessoal pesca salmão numa água transparente. As marinas têm
barcos simples, sem suntuosidade, muito bem cuidados.
As terras europeias do Mar Báltico para norte são ricas em minérios metálicos e fazem
parte de um antigo escudo arqueano, o Laurentia, de granito e gnaiss, muito distinto
do restante do continente europeu da Dinamarca para o sul, que é novo, só se formou
no paleozoico com o fechamento do oceano Iapetus e a colisão do Gondwana com o
Laurentia para compor o supercontinente Pangea. No norte da península escandinava
fica a Lapônia gelada, ocupada por nômades caçadores desde há oito mil anos e
cristianizada no Sec. XVI quando virou “a terra de Papai Noel”. O Sec.XVI foi um
período de grande turbulência religiosa, quando a Suécia tornou-se um estado
luterano. Hoje é uma monarquia constitucional parlamentarista.
No fim da ultima glaciação, há 11 mil anos, esta região era coberta com mais de um
quilometro de gelo que retrocedeu nesta nossa época inter-glacial, deixando na Suécia
lagos glaciais. No tempo dos Vikings, o lago Malaren era uma baia do mar Báltico,
mas com o levantamento da massa continental conseqüente ao equilíbrio isostático do
degelo, hoje está 0,7m acima do nível do mar, inviabilizando a navegação do mar para
o interior. A implantação de Estocolmo numa posição estratégica no mar Báltico data
do Sec.XIII.
94
Estocolmo é a cidade natal dos Nobel, o patriarca dos quais, Inmanuel Nobel,
enriqueceu na Rússia czarina negociando com armas no inicio do Sec.XIX. Os filhos
estudaram em São Petersburgo, sendo que Ludwig, engenheiro, ampliou os negócios
do pai na segunda metade do século, tornando-se um pioneiro na produção e
transporte de petróleo do Azerbaijão. Foi ele que em 1877 encomendou a um estaleiro
sueco o projeto do primeiro navio petroleiro construído, o Zoroaster. Alfred se
interessou por química, e acabou por inventar um método seguro de usar a
nitroglicerina, um líquido oleoso intratável, para trabalhos de engenharia. Inventou e
patenteou a dinamite, tornando-se um milionário pacifista depois que seu invento
passou a ter uso militar. Mudou-se para San Remo, na Itália, onde morreu em 10 de
dezembro de 1896 aos 63 anos. No seu testamento, possivelmente com a intenção de
ter um obituário benigno, deixou instruções para que fosse criada uma instituição que
premiasse anualmente as pessoas que mais tivessem contribuído para o
desenvolvimento da humanidade. Em 1900 foi criada a Fundação Nobel e os critérios
da premiação, que passou a ser outorgada desde 1901 pelo Rei da Suécia, na data do
aniversário de morte de Alfred Nobel. O prêmio consiste numa medalha de ouro, um
diploma com a citação da condecoração e uma soma em dinheiro em torno de 1
milhão de euros, com o propósito de permitir que os laureados continuem a trabalhar
ou pesquisar sem pressões financeiras.
De Estocolmo peguei o trem para atravessar a Suécia para oeste, pouco mais de 300
km até a fronteira com a Noruega. A ferrovia vai pela planicie aluvial do rio Klaralven, o
maior da Escandinávia, com nove hidroelétricas até formar o lago Vanern. Enquanto
que os rios de alta latitude são estreitos em relação aos tropicais, os lagos são
imponentes. O lago Vanern tem 140 km de extensão e um arquipélago preservado
como parque nacional.
A ferrovia contorna o lago Vanern pelo norte e ai a fisiografia muda, subindo para as
terras altas da Noruega. Fiquei duas noites em Oslo, uma cidade onde o custo de vida
fica acima da média da Europa. Fui lavar a roupa num coin-loundry e visitar o Fram
(Avante, Prafrente, em norueguês), o barco de madeira construido em 1892 que
durante vinte anos estabeleceu recordes de latitude, indo sob o comando de tres
noruegueses de 85°57'N até 78°41'S.
Com o Fram, Fridtjof Nansen mostrou que a região ártica era um oceano coberto de
gelo, e Roald Amundsen ancorou na Antártida e tornou-se o primeiro homem a chegar
até o polo sul. O Fram é uma escuna de 39m, para 16 tripulantes, tem um motor a
vapor de 220 HP e andava a 7 nós; calado de 4.6m, foi construído para invernar nas
altas latitudes, de forma que a água ao congelar empurra o barco para cima ao invés
de esmagá-lo.
Os escandinavos em geral, e os noruegueses em particular, constituem-se numa
sociedade monárquica e patriarcal de línguas germânicas, que veneram os ancestrais.
Essa tradição da antiguidade se manteve na atualidade, e hoje a Noruega é uma
democracia parlamentarista -- no parlamentarismo não existe uma separação nítida
entre o executivo e o legislativo, e as crises são resolvidas com um voto de censura
popular. A partir dos anos 70 do Sec.XX foi descoberto petróleo na plataforma
continental da Noruega, e hoje o país é o terceiro maior exportador de petróleo do
mundo, atrás da Arábia Saudita e da Rússia. Um país do tamanho do Maranhão, com
95
uma população de menos de 5 milhões, todos com um mínimo de 9 anos de
escolaridade, pacífico, rico, educado, com um forte parque de energia hidroelétrica e
isolado num canto do mundo, tem merecidamente o título de líder mundial no Índice de
Desenvolvimento Humano e no Produto Interno Bruto per capita. Não aceitou fazer
parte da Comunidade Européia. Eu vi lá um pobre, de paletó, futucando o lixo! Há
décadas que estão tentando resolver diplomaticamente com os vizinhos do nordeste,
os russos, as pendengas de direito econômico no Mar de Barents. A área continental
da Noruega acima do círculo polar ártico contorna a 71° N o extremo setentrional da
Europa, pelo norte da Suécia e da Finlândia, e vai fazer fronteira com a Rússia.
A área continental da Noruega é montanhosa e glacial, e a linha costeira é recortada
por fiordes -- embaiamentos estreitos e profundos escavados por geleiras que descem
para o mar. Em Oslo meu tempo estava ficando curto, e eu tinha que decidir se ia para
sudoeste, para Stavanger, a capital do petróleo norueguês, e de lá de catamarã (4
horas a 25 nós, US$100) para Bergen, ou ia direto noroeste para Bergen, que no livro
que eu usava como guia dizia ser o ponto alto do turismo no país. Fiz a reserva e fui
direto. O Eurailpass é válido em todos os trens da Noruega.
O trem diurno foi ziguezagueando pelas montanhas, parando nas vilas, contornando
lagos glaciais por uns 400 km em 7 horas, de Oslo a Bergen. Num trecho da viagem
sentou junto de mim uma lourinha de uns trinta e poucos anos. Estava indo ao banco,
na vila natal, pegar um empréstimo para comprar uma casa em Stavanger. Ela disse
que era assim, mantinha os vínculos com a terra onde cresceu, onde todos se
conheciam. No mesmo vagão, mais à frente, dois casais bem veinhos eram tratados
de forma diferenciada. A lourinha explicou que esta geração mais velha foi quem
construiu o país para os mais novos, e tinha que ser tratada com respeito.
As fotos abaixo são paisagens da Noruega, vistas do trem e do passeio de barco nos
fiordes em Bergen.
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Dai tentei um navio para a Islândia, sem sucesso e voei 27° de longitude para oeste e
5° de latitude para o norte. Vinte e sete graus significam 27*60=1620 minutos, que na
latitude aqui da Bahia são 1620 milhas náuticas, 3000 km. Mas de Bergen para
Reykjavik, próximo ao circulo polar, 27 graus de longitude representam somente 1500
km. À proporção que você vai subindo em latitude, a volta ao mundo ao longo de um
paralelo vai ficando mais curta, até que, no pólo, você finca o calcanhar e roda 360°
fazendo a volta ao mundo em cima do eixo da terra! Por isso que numa carta náutica
você só pode medir distância com o compasso ao longo de um meridiano.
A Islândia foi a parte que mais me agradou na viagem. A ilha tem 103000 km 2 (duas
vezes o Rio Grande do Norte) com uma população de 300 mil (1/3 da população de
Natal), 2/3 da qual na área metropolitana de Reikjavik. Uma estrada que contorna o
perímetro de 1300 km, a maior parte sem asfalto em 1997. Os livros de turismo
deixam claro que o charme da ilha é a wildness da natureza e das islandesas. Estas
andam de minissaia com umas meias longas para proteger do frio, e se comportam
como vikings. A cidade está próxima do circulo polar, e no inverno o dia fica claro por 4
horas, no verão quase não tem noite. O povo de lá acha maravilhoso!
A ilha fica sobre um hot-spot bem no meio da dorsal do Atlântico, local onde duas
placas tectônicas divergem gerando vulcanismo e crosta oceânica nova. É a parte
emersa do planeta onde ocorre a maior intensidade de vulcanismo e emanações
hidrotermais. O nome gêiser vem de uma localidade de lá (veja placa de sinalização
na foto abaixo, e o próprio adiante, vomitando água a 120°C). Da rodovia perimetral
existem caminhos para carro com tração nas 4 rodas que vão até aos afloramentos da
zona de fratura. No verão os acessos são liberados, e eu vim aqui foi para ver isso. Na
chegada peguei o Feroza da Bílaleigan Car Rental Service, reservado por 3 dias (lá
não existia Hertz e Avis), fiz um mercadinho e toquei para leste.
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A primeira foto acima é o rift-valley, a zona de fratura, vista do avião na ida para
Reykjavik. A segunda é na saída da perimetral, highway 1, 50 km a leste de Reykjavik,
porque havia um caminho recém liberado do degelo deste final de primavera, por onde
entrei para nordeste na direção de Gullfoss, a Cachoeira Dourada, foto 3. Na foto 4
coloquei a câmara no automático para me documentar caminhando nos basaltos da
zona de fratura que se afasta atualmente na base de 2 cm por ano. Esta fratura
iniciou-se no Cretáceo, há 100 milhões de anos, foi mais ativa durante o Terciário, 5 a
10 cm/ano, e propiciou a deriva continental de 6000 km entre a América do Sul e a
África.
Estava frio, mas a calefação do Feroza era eficiente, e fui seguindo para nordeste para
ver a geleira Langjokull na parte central da ilha. Lá pras tantas comecei a me sentir
cansado e constatei que eram quase 10 horas da „noite‟. O sol que pela manhã estava
na cara, a leste, rondou para o sul, para oeste e agora estava a noroeste baixo e claro.
Resolvi parar para dormir, estacionei o Feroza atrás de um morrote de lava vulcânica,
fiz um lanche, arriei o encosto do banco do acompanhante e dormi de meia e bota.
Mas acordei umas duas horas depois tiritando de frio. Liguei o motor para reaquecer o
carro e tornei a dormir. Quando acordei de novo o sol já estava a leste, e meu
intestino, que estava se adaptando ao novo fuso, achou que era hora de fazer cocô.
Quando sai do carro com um rolo de papel higiênico, senti o vento forte e gelado. Me
protegi a sotavento de um monte de lava, desci as calças, ceroula e cueca até os
joelhos e executei de cócoras a saudável cagada matinal. Estava me limpando quando
veio uma rajada descendente por trás, levantou o cocô que subiu mais de 5 metros; o
papel sumiu como se tivesse a intenção de entrar em órbita. Voltei para o carro
ligeirinho e resolvi retornar para o Hotel Duna, em Reikjavik, cancelando a visita a Vik,
a vila pesqueira no sul da ilha, onde se lia no guia a oferta de esportes aquáticos e à
geleira Vatnajokull, „a maior da Europa‟, que fica na beira da Highway 1.
Que Europa que nada! A Islândia está muito mais próxima da Groelândia do que da
Noruega. Ela é tangenciada ao norte pelo círculo polar ártico, e seu limite oeste é mais
ocidental que a borda leste da Groelândia. O que ela tem de europeu é a ocupação de
1200 anos. Mas só depois da 2ª Guerra Mundial, quando foi ocupada por ingleses e
americanos, como ponto estratégico, é que começou a ter investimentos e
desenvolvimento. Com os investimentos e mantendo uma população pequena
conseguiu os valores mais altos do IDH, índice de qualidade de vida que a ONU aplica
desde 1993 na avaliação anual dos países membro. Em boa parte dos 400 km que
andei no jipinho não existia nada vivo, nem animal nem vegetal. As duas primeiras
fotos abaixo são do caminho recém liberado sobre o basalto vulcânico para chegar à
geleira Langjokull. A terceira é uma emanação hidrotermal, gêiser. A grande riqueza
da região é uma combinação de grande disponibilidade de energia (atividade
hidrotermal, e hidroelétrica) associada à baixa ocupação demográfica. A quarta foto
mostra a geleira azul que aparece quando se raspa a neve que a recobre. Daí retornei
para a costa, onde visitei uma réplica de um navio viking e fotografei as estufas onde
eles executam a atividade agrícola protegida nas áreas baixas.
98
Retornei de Reykjavik para Bruxelas via Londres, no dia 9 de junho, para pegar meu
vôo VASP de volta ao Brasil no dia 10. No café da manhã no hotel Duna em Reykjavik,
o proprietário, um ex-motorista de taxi, que fez o hotel com financiamento, veio à
minha mesa saber de onde eu era. Quando eu disse que era brasileiro e geólogo, ele
ficou todo excitado e chamou um russo que tomava café numa mesa ao lado. Nos
apresentou, o russo era geofísico e havia estado no Brasil fazendo levantamento para
fins científicos na plataforma continental. O anfitrião perguntou quantos geólogos havia
no Brasil, e com base no evento raro de ter um brasileiro na Islândia, passou a calcular
a probabilidade de ter dois geólogos no hotel dele, sendo um brasileiro. Este fato me
fez entender o que faz a diferença do primeiro mundo: é a educação dos cidadãos que
permite a chamada mobilidade social fazendo com que todos cresçam desde que
tenham tido a oportunidade – no caso deles a obrigação – de uma educação
abrangente. O segundo fator numa sociedade dominada pela economia é a
disponibilidade de financiamento para estimular a capacidade de empreender, e o
99
terceiro, mas não o menos importante neste mundo globalizado do sec.XXI, é ter uma
baixa densidade demográfica.
No Hotel Opera, em Bruxelas, o despertador tocou às 07:15, mas dormi de novo. Por
sorte acordei sozinho uma hora depois. Tomei café e peguei o trem para o aeroporto.
Ainda tive tempo de entregar o roteiro de uso do eurailpass na mesma estação que o
validou, me credenciando a receber pelo correio um brinde de um relógio de mesa. A
experiência de viajar de trem na Europa é ótima. Em pouco tempo a gente se
acostuma a usar todo o potencial das
gares, as estações cheias de serviços,
tudo bem sinalizado. Minha bagagem
era uma mochila, que está no carrinho
da foto ai ao lado, no aeroporto de
Salvador onde Mila e Liana me
esperavam
para
festejar
meu
aniversário. O presente de Liana tinha
um bilhete que dizia: Pai querido.
Envelhecer é uma arte e uma dádiva
para aqueles que descobrem seu
sentido. Como um índio, agora você
chegou à maturidade e eu o honro por
isso. Com muito amor, Lia, em
11.6.1997.
100
REGATA DO DESCOBRIMENTO 2000. DIÁRIO DE BORDO DO
NAVEGADOR
Na virada do século, dentre as festividades governamentais para celebrar os 500 anos
do „descobrimento do Brasil‟ foi feita uma convocação aos velejadores para uma
regata-passeio que recongraçasse a viagem de Cabral de Lisboa à Bahia. Meu amigo
Felipão se propos a comprar um barco novo na Europa se eu topasse participar com
ele da empreitada. E assim ficou combinado no final de 1998.
Dia 21 de fevereiro de 2000 embarquei com Felipe, Rose e Nobbi num voo para
Lisboa. Na chegada Felipe alugou uma van Seat de 5 lugares e fomos direto ver o
Arribasaia na marina em Cascais. Felipe então lembrou que havia esquecido o
tabuleiro de gamão no avião. Retornamos nos „perdidos e esquecidos‟ e após meia
hora de burocracia recuperamos o tabuleiro. O Arriba estava com sujeira na linha
d‟água. Nos alojamos num apartamento que Felipão alugara em Cascais. Dia 22
saimos para velejar com vento de 30 nós, uma saidinha de 10 milhas da marina. Dia
23 Felipe foi cedo para trabalhar em Londres, Rose saiu com Alzirinha e eu fui com
Nobbi subir o Arribasaia no trevel-lift para limpar e dar nova venenosa. Dia 24 fomos
de carro a Lisboa para analisar a raia de largada no rio Tejo: deixa a pedra grande do
forte por boreste e cruza o rio para margem esquerda, do sul. É fácil, entra navio.
Fomos ao shopping onde comprei roupa de tempo, impermeável de goritex, pull over
polartec que deixa transpirar e não esfria, e ceroulas de lã. Também fizemos mercado
para preparar jantar em casa. À noitinha pegamos Felipe no aeroporto, Rose e Nobbi
fizeram o jantar e Felipe e eu começamos o infindável torneio de gamão que durou
toda a travessia.
Dia 25 fomos à APORVELA, entidade orgnizadora da regata e conversamos com o
Cmdte. Canelas Cardoso. Compramos furadeira, multiteste e conectores; também
cartas náuticas e almanaque náutico. Dia 26 limpamos e arrumamos o barco, fazendo
uma lista do material que faltava. Dia 27 saimos para velejar com Enio Silva, filho de
Tia Zete, prima de pai. Fomos até a entrada do
Tejo. À noite baixamos da internet um programa de
previsão de maré.
Dia 28 fomos ao Salão Náutico de Lisboa, onde
compramos patescas, manicacas, rapalas, etc. À
noite Wilfredo Schurman foi ao Arribasaia , ajustou
o SSB , tomamos duas garrafas de vinho e ele nos
convidou para visitar o Aysso. Dia 29 instalamos
ferragens internas, rede na cabine de proa,
extintores, cunho no mastro. Dia 1 de março subi
no mastro e consertei a luz de cruzeta e a de
alcançado, verifiquei os pinos e lubrifiquei os
moitões. Nobbi instalou o adesivo com o nome do
barco. Dia 2 compramos e instalamos fuziveis para
placa solar, checamos o óleo do motor e do
reversor, e saimos para velejar na direção da
Madeira. Trocamos a genoa por buja e decidimos
101
largar na regata de buja. Dia 3, sexta, Felipão levou a tripulação para turistar em
Sintra. Felipão tem um jeito especial de manter a tripulação motivada e feliz, uma
qualidade de comandante que mostrou-se inestimável durante a travessia. Dia 4,
desmontei o sistema de gás do barco para tentar adaptar um “cubo” da Shell, sem
sucesso. A solução foi usar o bujão de 2,75kg de camping. Dia 6 fizemos a arrumação
final com os mantimentos e chegaram Mila e Pappy, uma surpresa, já que Pappy não
iria na regata. À noite foi o cocktail de abertura no palácio, a tripulação do Arriba toda
uniformizada.
Dia 7 foi a reunião de comandantes, e dia 8 de março, quarta-feira de cinzas, a
largada, exatos 500 anos depois de Cabral. Só que Cabral saiu com 13 barcos, nós
largamos 31, dos quais 11 brasileiros: Arribasaia, Aysso, Bahia, Clack na Sula,
Curumii, Fia, Hozoni, Parati, Papaléguas, Viva, White Dolphin.
O desfile de largada começou às 11:30, e na arquibancada estavam os Presidentes
das Repúblicas do Brasil e de Portugal. Pappy e Nobbi desembarcaram após o desfile
numa lancha portuguesa que passeava fazendo fotos. Na barra sul do Tejo,
Ψ=38°41‟N, λ=9°17‟W, aproamos para o próximo waypoint, na ilha da Madeira, 479
milhas a sudoeste
102
A noite foi fria e no dia 9 a temperatura era de 17°C, pressão 1024mb, vento SE
geralmente fraco, eventualmente com rajadas de até 30 nós. O primeiro dia no mar é
de enjoo. Motoramos umas 4 horas, e tivemos um progresso de 120 milhas em 24
horas. Na segunda noite eu
estava enjoado e Mila fez o
meu turno. Tomei dramin e
dormi; quando acordei
estava bom. Às 6 horas da
manhã
do
dia
10
estávamos
a
36°06‟N,
12°06‟W, com vento de W
10-15 nós. Hoje todos
ficaram bons do enjoo da
saida e começou a fase de
relaxamento e das partidas
de gamão e de tranca das
meninas.
Ta frio ai, comandante?
Dia de contra-vento. Falamos no rádio com Viva, Curumii e o Escola de Sagres, que
estavam perto. Dia 11, havíamos passado uma zona de baixa, e a pressão estabilizou
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em 1023mb. A temperatura subiu para 20,5°C. Andamos no rumo M220, sempre no
contra-vento fraco. Quando o aparente cai abaixo de 9 nós, motoramos e ligamos a
geladeira. Mila está ótima, bem humorada e participativa. Felipão em franco
progresso, decide sozinho o que fazer com as velas. Às 13:30 Ψ=34°30‟N, λ=13°50‟W.
Rumo 208 velocidade 4 nós, T=20,5°C P=1023mb.,vento SW 16 nós. Nas ultimas 24
horas andamos 100 milhas. À noite teve vento e andamos bem com grande toda e
buja. Ao amanhecer do dia 12 o vento caiu e motoramos. Transferimos 40l de diesel
do camburão para o tanque. O tanque de água 1 está no meio, o 2 intocável. Em
reunião decidimos programar a chegada para amanhã pela manhã, tendo uma vista da
Ilha da Madeira ao nascer do sol. O almoço foi elaborado. Felipão hoje não teve sorte
no gamão e foi surrado. Tomei banho cedo. Avistamos o farol do Ilhéu de Cima, em
Porto Santo às 20 h, a 20 milhas de distância. Forte nevoeiro. Vento S-SE 2 nós!
13 março, segunda-feira. Ao amanhecer estávamos no canal entre a Deserta Grande
e a ilha da Madeira. O Cisne Branco, o navio-escola da marinha brasileira ia chegando
também, e a tripulação do Escola de Sagres, o navio-escola da marinha portuguesa,
estava perfilada sobre a verga das velas cantando “Ó Cisne Branco, em noite de lua”.
Chegamos no porto em Funchal às 9 horas. A recepção foi precária e os brasileiros
foram encaminhados para o porto de carga. Felipão mandou adentrar a marina e
atracamos no píer de abastecimento. Nestes 5 dias motoramos 66 horas e gastamos
95 litros de diesel, com um consumo de 1,44l/h @ 1500rpm. Enquanto abastecíamos
Felipão foi na secretaria da marina arrumou o telefone do dono do barco que estava
na ultima vaga do píer e pediu autorização para atracar a contrabordo. E conseguiu!
Quando o Parati chegou e Amir Klink foi abordado pelos repórteres, fez uma
reclamação publica e a administração da marina mandou tirar os barcos de serviço
para fazer espaço para os brasileiros atracarem. Tomamos banho em terra e levamos
a roupa suja para lavanderia. Visitamos a Exposição Brasil 500 com livro
comemorativo e visitamos a caravela Boa Esperança, com seus 18 tripulantes que
trocavam em cada porto. Mila, Felipe e Rose foram à missa comemorativa.
Dia 14 alugamos um Hunday pequeno de 4portas e fomos até Ribeira Brava, onde
almoçamos. Na volta pegamos a roupa na lavanderia e fizemos mercado. À noite
jogamos chouette em Natasha com Jamil „Barba‟, tripulante do Parati. Amyr chegou
perto mas disse que „estava destreinado‟. Em Cabo Verde ele se arriscou e Felipão
escalou Mila para jogar com ele que foi devidamente surrado.
Dia 15, concluímos o mercado, devolvemos o carro, arrumamos o barco e fizemos o
check-out na imigração. Nobbi chegou no final da tarde, cheio de histórias de negócios
e entusiasmo. No bar de Natasha a Associação de Vela da Madeira ofereceu um
cocktail. Depois fomos a um jantar no palácio, onde foi feita a premiação ao Marujo, o
Espírito da Madeira, um 38 pés de madeira, com motor lacrado, muito bem tripulado,
que ganhou a primeira parte da regata. Chegaram em regata 4 barcos: Bahia,
Mariposa, Marujo e Viva. No discurso da premiação o veinho de cabelo atravessado
na careca, Canelas Cardoso, „coordenador‟ da Aprovela, em quem ninguém acredita,
falou de descobrimento ou achamento do Brasil, e eu na qualidade de índio Kiriri
intervi: Invasão!
Dia 16 resolvemos largar antes da regata. A caravela saiu às 03:00. Parati resolveu
sair cedo também, às 11. Às 12:30 estavam no mar: Parati e Hozoni com proa em Las
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Palmas de Gran Canária, Curumii com mestra no 1ºrizo, andando a 5 nós e Arribasaia
com tudo em cima a 6,5 nós, proa em Mindelo. Decididos os turnos, Felipe 12-15,
Nobbi 15-18, Sérgio 18-21. Às 15:30 tinhamos andado 23 milhas, V=6,5nós, T=21,5°C,
P=1023, Umidade relativa 67%, vento E 15-20 nós.
Nobbi ficou na cabina grande, a meia nau; Felipe e Rose se mudaram para a cabine
de popa a boreste. Mila e eu na cabine de popa a bombordo, desde Lisboa. Às 12h do
dia 17 tínhamos um progresso de 144 milhas, vento NE18nós, temperatura 22°C,
rumo M212. Ninguém enjoou à vera. Vento em popa ~150°, armado em asa de pombo
desde ontem à tarde. Gastamos 1/10 do tanque d‟água. Ao por do sol morreu uma
albacora macho, 4,5 kg, que jantamos. Felipão chamou no VHF, em canal publico, o
Parati, e Amir respondeu. – Quero falar com o Barba. Jamil „Barba‟ é restauranteur
sofisticado em São Paulo e estava de cozinheiro do Parati. Felipão explicou como foi
preparado o peixe e pediu conselho a Barba de qual vinho devia servir, enquanto o
pessoal da regata estava ouvindo e possivelmente comendo sanduíche com cerveja.
Esse Felipão é mesmo abusado, mas no torneio de gamão até aqui está perdendo de
3x1, partidas de 15 pontos. Mas ele tem artes do cão! Já perdi para ele um torneio de
„amarelinho‟ na coroa do Morro de São Paulo.
Dia 18, de madrugada deixamos Las Palmas de Gran Canária no través, 50 milhas a
bombordo. Vento NE 15 nós UR=81%, o que reduz a sensação de frio. Às 00:30
Ψ=29°20‟N, λ=18°40‟W. A bateria está sendo drenada rapidamente e precisamos ligar
o motor para corrigir. Estimo que temos que ligar ao menos 3horas/dia. No turno de
Nobbi, das 3 às 6 o vento foi extremamente regular, estamos na área dos alísios de
nordeste. Peguei às 6, HVL 4:48, e medi a Polar no sextante no crepúsculo matutino.
Observei a Ursa Menor rodar em torno da Polar, ,acompanhei o nascimento de Venus
até os 10° de altura, e quando nasceu o sol, subi o balão com Nobbi. O amantilho do
pau soltou da ferragem e o pau bateu na cabeça de Nobbi, que sangrou. No barco é
assim: existem duas maneiras de fazer as coisas, ou perfeito ou uma merda total. E a
lição vem de imediato. Passamos a andar a mais de 8 nós com o balão até que
Felipão pegou o leme no turno das 9 h. O nordeste estabilizou em 15-20 nós. Estamos
chegando no trópico, e aqui a gente aprende literalmente na pele que a vida nos
trópicos é outra coisa!
Dia 19 foi tranqüilo. Rose melhorou do enjôo de ontem. Motoramos pela manhã e
subimos o balão à tarde. À noite o vento rondou pela popa e mudamos o rumo mais
para oeste para evitar a popa rasa. Vamos entrando 10° na direção da África, mas
amanhã a gente corrige. Pousou uma pomba com duas anilhas nas pernas. Pombo
correio. Amyr relatou no rádio que está com 5 a bordo. Curumii com duas. A nossa
dormiu no convés, atrás do mastro e não quis comer. Ψ=25°16‟N, λ=20°49‟W,
P=1020mb, estável, vento de N30 com 20 nós. Durante a noite de 19 para 20
passamos do meio caminho Madeira-Mindelo. Pela madrugada, no meu turno, senti
um vento sujo, era o Marujo, apagado com o balão na nossa popa. Orcei ele com
direito, e ouvi um barulho de catraca, caçando a escota de sota do balão, eles orçaram
mais e nos passaram. No dia seguinte a pomba tinha ido embora e comentei no rádio
com a flotilha a manobra do Marujo. Os portugueses falaram: esses caras acham que
estão correndo regata de bóia! Em Mindelo o comandante deles foi se explicar que
não estava apagado! Hoje, 20 de março, às 07:40GMT o sol no equinócio passou pelo
equador para fazer a primavera do hemisfério norte. Ao meio dia foi servido carne do
105
sol e à noite macarrão. Às 23h cruzamos o trópico de Cancer. Mila veio para fora na
madrugada para ver Venus. Foi uma noite linda de lua cheia. Vimos Touro e Gêmeos
no zodíaco, Saturno e Júpiter também estavam passeando pelo céu noturno. Vento
NNE 10-15 nós, andamos toda a noite em asa de pombo com amuras por bombordo,
vento a 170° da proa, com piloto automático em „vane‟, controlado pelo anemômetro.
Dia 21 meu turno foi de 6-9 GMT, que hora local é 5 HML. Coloquei a linha e
tranquilamente embarquei uma albacora de 5 kg. Veio em boa hora, porque pela
manhã as meninas fizeram limpeza geral da geladeira e jogaram 8 peitos de galinha
estragados fora. Também foram ao mar as frutas que começaram a estragar. Aleixo
tinha avisado no livro da primeira volta ao mundo, que se numa viagem oceânica você
começa a comer fruta que começou a estragar, passa todo o tempo comendo coisa
estragada. Tem que jogar fora. No quinto dia após Funchal, às 12h Ψ=22°13‟N,
λ=22°25‟W, T=24°C, P=1018mb, UR=75%, trip 708 milhas. Ontem mapeei duas áreas
de contra-corrente, consequentes da convecção das águas em torno das montanhas
submarinas. Vento NE 5-10 nós, progresso nas ultimas 24 horas 122 milhas. Tarde de
motorada e jogatina: gamão e 8 maluco. Happy hour com scotch, jantar peixe com
arroz e batata. O único momento de tensão na viagem foi quando as meninas ficaram
nervosas por causa de uma dama de páus que não saia para fechar uma canastra.
Ao invés de piruar o jogo veja ai as cestinhas de frutas ainda abastecidas
Dia 22, velejando nos trópicos; às 03:00 Ψ=20°57‟N, λ=23°02‟W; progresso em 24
horas 125 milhas. Apesar das motoradas, o tanque de combustível ainda não chegou
no meio, e o grande de água está a 1/3. Ambiente a bordo tranquilo. Nobbi na cabine
de proa acordou cedo, resmungando do sacolejo e preparou uma magnífica salada de
frutas que deixou na geladeira com um bilhete bem humorado. Hoje o dia foi de balão.
Subimos logo cedo, depois do café da manhã e o mantivemos até o por do sol. Sob
forte pressão geral e por determinação do comandante, tomei banho e fiz a barba. O
torneio de gamão está 5x4 para mim. Às 20 h, Trip 890, faltam 160 milhas para
Mindelo, Ψ=19°29‟N, λ=23°44‟W, T=23,5°C, P=1018mb, UR=75%. O almoço foi na
mesa, com balão em cima, moqueca de albacora by Mila. Ótima. Progresso do dia 134
milhas, estamos subindo no Plateau de Cabo Verde.
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Dia 23 velejamos em asa de pombo com NE 10-15 nós @ 170° da proa. À meia noite
vimos de binóculo as luzes de Sto.Antão. Torneio de gamão SN 6 x 4 FC. Partida em
andamento SN7 x 3 FC.
24 de março. A chegada no canal entre Sto.Antão e S.Vicente foi magnífica. Na proa,
na bochecha de BB o Cruzeiro do Sul com as alfa e beta do Centauro @ 10° de
altura. Na popa, pela alheta de BE a Polar. No período de aproximação a Ursa Maior
(Carro Grande) rodou puxando o rabo da arraia. No través de BB a lua parecia um
capacete de motocicleta, iluminava tudo. A 15 milhas de Mindelo tiramos as velas. Ao
entrarmos no canal entre as ilhas, o vento NE rondou para N-NW e por causa do efeito
venture dobrou de velocidade. Depois voltou para NNE 20 nós. A carta inglesa, sem
datum explícito, tem um erro em relação ao GPS no datum WGS-84 de 0,1milha.
Ancorado no porto plota na 367 em terra! Ancoramos junto à „marina‟ do navio alemão
Eirene, às 04:30 GMT. Preparamos o caíque „arreia calcinha‟ para combinar com o
Arribasaia, e ao descermos em terra foi que aprendemos a valorizar a maestria do
nosso Comandante: enquanto nós andávamos de braços dados na maior amizade, as
outras tripulações, alguns ex-amigos de 30 anos queriam um matar o outro. Durante o
dia passeamos em Mindelo. Almoçamos num restaurante alemão novo, na rua
principal. Depois fomos à telefônica e todo mundo, até eu, telefonou para casa. À noite
fomos jantar no hotel e depois Nobbi foi para a gandaia com as outras tripulações.
Dia 25 foi dia de compras: bujão de gás – agora a Shell já tem os camping gás! Não
achamos coca-cola em litro e compramos uns refrigerantes locais, horríveis. A pobreza
de Mindelo me incomodou mais que da vez passada. Parece que em dois anos a
população cresceu muito e com muita gente acaba o ambiente amistoso. O Eirene, o
catering alemão, funcionou como marina, os barcos colocam a âncora e atracam de
popa no entorno, e tem energia 220V e água. Tem caíque com motor de popa que
transporta os clientes até um cais pequeno, de forma que se desembarca sem molhar
os pés.
Dia 26 pela manhã fomos ao cais de navio e abastecemos de água. O tanque de proa
estava vazio (300l) e o de popa (250l) estava pela metade. Voltamos para ancorar
junto ao Eirene e fomos ao almoço festivo no Centro Náutico da ANV (Associação
Nacional de Vela dos cruzeiristas de Portugal. O Espírito da Madeira foi premiado de
novo, ganhou a segunda perna. O pessoal do Heikon, um ketch alemão pequeno de
aço, de Heiko e Konstanze, se integrou conosco, e Heiko instalou pra a gente um
modem que ele construiu, ligando o SSB no lap-top. Doravante já temos como ter a
nossa previsão meteorológica independente. Zerei o hodômetro do Arriba, que estava
com 1065 milhas desde Funchal, velocidade média 5,64 nós.
Dia 27 o pessoal foi tomar o café da manhã no hotel e eu fiquei a bordo para
abastecer de diesel e revisar o motor. Foram 118 litros, incluindo os dois camburões
vermelhos. O consumo neste trecho foi de 1,3 l/h. Motoramos 62 horas, parte das
quais em baixa rotação para carregar a bateria. Voltaram com mais compras: cebola,
limão, aipim e pão e foi feita uma votação na qual por 3x2 decidimos sair amanhã,
terça-feira, dia 28 de março. Como a feira principal foi no sábado eu propus sair no
domingo, mas fui voto vencido. À noite o pessoal foi jantar em terra e eu fiquei a bordo
com Mila. Falei com Rafael no SSB e ele recomendou cruzar o equador na longitude
λ=30°W, e informou que no hemisfério sul os ventos estão de E.
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Dia 28, largamos às 09:30 GMT, 07:30 HML, sem festas. Assim que contornamos
S.Vicente armamos asa de pombo com vento NNE 10-15 nós, rumo M209, proa em
Ψ=0 λ=30°W. Às 12:15 o vento rondou para E 15 nós. Desarmamos a asa de pombo e
mantivemos buja, andando M209 @ 5-5,5 nós. Às 14:25 mudamos de rumo para
M204, aproando para Ψ=0 λ=29°W. Quando a regata largou já estávamos 36 milhas
na frente. O Cisne Branco passou a sotavento pelo través, à vela. Às 20 GMT Nobbi
lubrificou de novo a cabeça do leme, que começou a ranger. Durante a noite ligamos
2h de motor para carregar bateria e ligar a geladeira.
29 de março – agora estamos qualificados para pegar a carta sinótica no SSB, com o
modem de Haiko. O negócio é passear na frequência até o sinal ficar claro, ~2 hz para
menos da frequência nominal. No nascer do sol, no meu turno, o peixe comeu a pá da
rapala e fugiu. Às 11:30 GMT completamos 153 milhas em 24 horas. Subimos balão e
a velocidade aumentou 2 nós. T=25°C, P=1017, subindo, UR=70%, Ψ=14°30‟N
λ=25°40”W. Rumo V193, M206 Vel. 7 nós, vento N50 15 kn. Trocamos buja por genoa
e destrocamos porque a asa de pombo fica melhor com a buja. Mila queimou a mão
numa escota, e Nobbi fica nervoso sob pressão das manobras. É melhor irmos com o
mínimo de pano do que forçar a barra e o povo se machucar.
Dia 30, quinta feira, se é que isso tenha qualquer significado. Começou a ficar mais
nublado. Apareceram muitos cumulus e estrato-cumulus. A temperatura do ar e da
água subiu, creio que agora pra valer, acabou o frio. Já andamos de calção, sem
camisa e sapato. À meia noite, 22 HML, T=24°C P=1016 UR=79%, Ψ=12°16”N
λ=26°11”W. A vela mestra começou a bater muito e a recolhemos, andando só de
balão a 4-5 nós. É como se estivéssemos num porto com levadia! Ao por do sol
descemos o balão e falamos com o Parati, que viu a operação. Jogamos 8 maluco..
Estou com uma gripe horrível, constipado.
Dia 31 o balão subiu às 10 GMT, Ψ=10°38‟N λ=26°33”W P=1016îT=26,5°C UR78%.
Neste terceiro dia andamos 125 milhas, totalizando 395 em 3 dias. Hoje, 4ºdia de
viagem, deveria se instalar a fase de relaxamento, com as frutas e verduras no ponto,
mas não está assim. A carne de sol guardada na geladeira apodreceu. As verduras
acabaram ou estão imprestáveis. Fazendo as compras de Mindelo no sábado,
deveríamos ter saído no domingo. Para usufruir a fase de relaxamento, tem que
conquistar. Ao por do sol tentamos deixar o balão em cima, armado como gennaker.
Felipão resolveu motorar também, e o balão desarmou e soltou o estropo. Nobbi foi
pegar e segurou na esteira, que rasgou. Descemos para costurar, subimos a mestra e
continuamos com motor. Às 21 GMT Ψ=9°45‟N λ=26°45”W. Faltam 600 milhas para o
equador. T=27°C, Tágua 26°C, P=1016îUR=78%.
1º de abril. Pasei um dia de cão, com forte gripe, dor no corpo, dor de cabeça, lezeira.
Pela manhã subimos o balão já consertado, e à tarde o vento rondou de NE para N e
tivemos que dar jaibe. Ai deu confusão e descemos o balão. Não dei meu turno, Felipe
e Nobbi administraram. Hoje é aniversário de casamento de Nobbi, e Rose resolveu
abrir um vinho. Daí que passou a noite mal, enjoada. O Bahia cruzou o equador hoje,
e prevê chegada em Salvador 6 a 8 de abril.
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Em Mindelo, 1. o Comandante e seus agregados; 2.cais de desembarque. 3. No doldrum,
todas as gaiutas do Beneteau 41 abertas. 4. Costurando a esteira do balão no dia 31/3/00.
2 abril. Às 09:30 GMT trip 629 mi, Vmedia 5,16 Ψ=6°53‟N λ=27°24”W, Rumo V193,
vel.5kn, vento NNE 10-15 nos, P=1016mb T=27,5°C UR=79%. Esta segunda travessia
está mostrando que o discurso previsivo da primeira é simplório. Provavelmente cada
travessia é única e o que pode ser generalizado é pouca coisa. Liana tem razão de
novo: este tipo de viagem é para exercitar a humildade. Durante o dia descansei e
melhorei da gripe. Ao por do sol fumei o primeiro cigarro do dia. As partidas de gamão
estão SN8x4FC. O balão desceu ao por do sol, e Rose vomitou na operação. Já é o
quinto dia seguido de balão o dia todo, com todas as gaiutas abertas. Às 20 GMT
Ψ=5°53‟N λ=27°38”W, vento NNE 10-15 nos, P=1014T=29°C UR=74%, vento NNE 12
nós.
3 abril. Já estou bem melhor da gripe e acordei cedo, 6h, para subir o balão. Andamos
bem nas ultimas 24 horas, 140 milhas. Às 09:00 GMT T=27,5°C P=1015îmb UR=77%,
céu com cumulus, Ψ=4°41‟N λ=27°55”W , trip odometro 766 mi rumo V193 vel. 7 nós,
vento NE 10-15 kn. Acabou o primeiro bujão de gás desde Mindelo. Às 13:44 GMT,
meio dia hora verdadeira local, o sol rondou pelo sul e passou no meridiano local @
92°. Passou de SE para NW, muito rápido em menos de 30 segundos. O sol hoje
passou sua declinação pela nossa latitude. Tomei banho na popa com água salgada,
enxaguei com água doce, e aparei a barba. Às 17 hvl apareceu um trem de ondas
secundário de ENE, interagindo com o trem principal de NNE.T=31°C P=1013 UR
72% Ψ=3°41‟N λ=28°08”W, Vento NE 10 kn..
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4 abril. O dia amanheceu limpo e lindo, exceto pelo sul que estava cinza claro de
estratos. Às 09:30 GMT Ψ=2°20‟N λ=28°27”W, começou a chover pouquinho.
Desarmamos a asa de pombo, subimos dog-house e bimini e seguimos com NE de 15
kn.Trip 913, progresso em 24h 143 mi. Ao entrar debaixo dos nimbo-estratos o vento
caiu para 4 nós. É o DOLDRUM, finalmente! O mar ficou desencontrado, com
ondinhas como na baia de Todos os Santos.
Começamos a motorar a 1800 rpm, 5 nós,
rumo V193. Às 12 GMT passou a dominar um
trem de ondas ENE e o vento se estabeleceu
ESE com 5-8 nós, Ψ=2°07‟N λ=28°30”W. Às 16
GMT o dia limpou, só nuvens altas, vento ENE
10 nós, Ψ=1°43‟N λ=28°36”W, P=1014 T=30°C
UR=77%. Um levantamento após um almoço
ruim, mostrou que só temos 11 refeições.
Alterei o rumo em Ψ=1°30‟N λ=28°39”W para
V209. Trip 967.
5 abril – Às 13:134 GMT cruzamos o equador
na longitude λ=29°28,8”W. Todo mundo na
água para „batismo‟, quando o sol passou „a
pino‟, meio dia hora verdadeira local. Nesta
viagem tudo deu absolutamente certo. Felipão
tem sangue bom. Nobbi, o „He-man‟, foi
fotografado não sei se chegando para o almoço
ou saindo para o batismo. O restante da
tripulação foi mais comedida.
Depois motoramos até 22:30, quando entrou um E-SE de 15 nós em Ψ=0°50‟S
λ=29°56”W. Desligamos o motor e passamos a velejar só de genoa a 7 nós (trip
1127mi, desde Mindelo).
110
6 abril. Velejando o dia todo de mestra e genoa no hemisfério sul. Hoje foi o melhor
rendimento até agora, 152 milhas em 24 horas. Minha gripe atacou de novo. Sobram 4
bananas, 3 ovos para cada e acabaram as verduras. Não temos comida suficiente
para chegar em Salvador, e o Comandante mandou fazer rumo para Recife. O piloto
automático, carinhosamente apelidado de Helô, em homenagem a Heloisa
Schurmann, voltou a operar em NAV no rumo V216, direto para Recife.
7 abril. Hoje cedo Helô deixou de funcionar, mas o pessoal não me chamou. Foram
timoneando na mão das 10:40 até as 13h, excessivamente arribados. Também nem
Nobbi nem Felipão cabiam naquele buraco chocho onde está instalado o piloto.
Quando acordei, desci lá e consertei, trocando os terminais; era apenas um mau
contato. Às 13h estávamos a 35 milhas a barlavento de Fernando de Noronha, em
Ψ=3°49‟S λ=31°47”W.
8 abril. 11º dia de mar desde Mindelo. Os alísios de SE do hemisfério sul já estão
estabelecidos. Por 3 dias seguidos cumprimos 152 milhas, em través apertado e
contra-vento folgado, genoa toda e mestra no 1ºrizo quando o vento apertava para 20
nós. Hoje cedo uma onda entrou pela gaiuta do salão. Coisinha de nada, mas o povo
se assustou, não estamos acostumados com isso! Uma enguia pegou a rapala no
nascer do sol. Ninguém tratou, e no por do sol joguei fora. O chão do barco começou a
ficar seboso, na cabine. Rose e Felipe não suportam mais entrar na cabine deles. A
minha está boa. Li muito o dia todo, e a gripe está passando. Felizmente não
contaminei ninguém. A noite foi de contravento. Andamos no „vane‟, caindo para terra,
e pela madrugada do dia 9 de abril vimos as luzes de João Pessoa. Pela manhã o
vento rondou de S para SE, 10-15 nós. Mantivemos orça total com tudo em cima. Às
09:30, odometro 1598, andamos 125 milhas. Tarde de contra-vento. À tardinha
estávamos tão aterrados que começamos a motorar por 30 milhas, até Recife, onde
pegamos uma poita no PIC às 22:45, hora local, 01:45 GMT do dia 10 de abril.
Ψ=8°04‟S λ=34°52”W. Odometro parcial 1673milhas, total 4230. Vm.5,4 nós. Zerei o
odometro parcial.
No dia 10, uma segunda-feira, abastecemos com 106 litros de diesel os tanques, mais
~40 litros dos camburões „doldrum‟, de forma que gastamos 150 litros em 90 horas de
motor 1,7 l/h. O horimetro do motor estava com 360 horas, e troquei 5 l do óleo do
motor. Abastecemos com 450 litros de água, ou seja 450/5/13, gastamos uma média
de 7 litros/pessoa/dia, uma esnobação! Hoje fomos jantar numa churrascaria, „O
Porcão‟.
11 de abril. Saímos às 08:30 do Recife Iate Clube, onde fomos abastecer, com mestra
em cima e motor. Ao passar no PIC havia lá um barco português, que como nós
arribou para Recife. Saímos a barra e pegamos rumo M180. Às 13:20 estávamos
velejando a Ψ=8°28‟S λ=34°46”W, com vento SE a SSE 5-10 nós.
12 abril – Hoje às 08:30 marcamos um progresso de 126milhas, vela com ajuda de
motor, que contravento não é coisa de cavalheiro .Às 10:30 o vento rondou para ENE,
com cumulus e estratocumulus. Às 12h P=1014mb T=31°C UR=74% Ψ=10°08‟S
λ=35°27”W. No final da manhã andamos em asa de pombo. À tarde o vento fraquejou,
ENE 10 nós, verdadeiro, descemos a mestra e ligamos motor. O campeonato de
111
gamão evoluiu e Felipe chegou a me passar, fazendo FC9x8SN, mas recuperei e no
momento, 16h, está SN10x9FC, Ψ=10°25‟S λ=35°43”W P=1013, T=29,5, UR=79%.
Rose hoje ficou a manhã toda na cozinha fazendo o almoço:
galinha+arroz+batata+farofa. Mila fez o feijão. Ganhei a 20ª partida, agora, 18h,
SN11x9FC.
13 abril – A zero hora o vento era NE. Pela madrugada rodou para E 5-10 nós, e ai
ficou. Às 09:00 P=1017 T=29°C UR=83%, Ψ=11°30‟S λ=36°48”W, rumo V224, Helô
em nav, mestra e motor a 5,5-6 nós. Progresso das ultimas 24 horas 130 milhas. À
tarde entrou um SE de 15 nós que nos empurrou firme a 7-8 nós até a noite. Não
houve jantar hoje. O almoço foi um strogonoff de filé com arroz que Nobbi fez. Colocou
cogumelo e creme de leite separado em consideração ao navegador, que não gosta
destas frescuras.
14 de abril. No meu turno, de 0-3, aproei no farol de Itapuã. Liguei para Dedo, Mano e
Pedro Bocca. Vento E-SE 10-15 nós. Às 07:00 o vento rondou para ENE. Jaibamos o
balão e às 08:00 entramos na BTS, de balão em cima, para júbilo das Felipetes que
acompanhavam de terra. Ao passar o farol, Ψ=13°00‟S λ=38°32”W o hodômetro
marcava 402 milhas, o do GPS 441, de forma que pegamos 39 milhas grátis, de
correnteza favorável. Os hodômetros totais da viagem marcavam respectivamente
4632/4753.
O final de semana de 15 e 16 de abril foi de festas no Iacht Clube da Bahia, com show
folclórico, a melhor de todas as festas da travessia.
112
Track do Arribasaia, de 8 de março a 14 de abril de 2000, 4700 milhas navegadas,
saindo de Lisboa e parando em Funchal, Mindelo e Recife, com chegada em Salvador.
Zero problemas a bordo, travessia tranquila e confortável.
113
Turquia, e o retorno de catamarã
Aproveitando que ia para Europa embarcar no Aloha no final de março, embarquei
com Mila dia 16 de março para a Turquia, num vôo Swissair com conexão em São
Paulo e Zurique. Em Zurique deixei no guarda-malas a sacola do caíque cheia com o
material que eu ia usar na viagem do barco. Daí voamos Turkish Airlines direto para
Ankara, capital do país, 350 km ESE de Istambul, onde chegamos 24 horas após sair
de Salvador, com uma diferença de fuso de -5 horas. Um guia da Pacha Tour, fez o
transfer para hotel, e nos integrou com um grupo de médicos portugueses para uma
excursão de ônibus contornando os montes Taurus.
A Turquia é limitada ao norte pelo Mar Negro. Ao leste, pela Georgia, Armênia e Irã.
Ao sul pelo Iraque, pela Síria e pelo Mar Mediterrâneo; a oeste fica o Mar Egeu, que
através do Estreito de Bósforo se liga com o Mar Negro. Ankara é uma cidade do
tempo dos babilônios, dominada pelos romanos, pelos mongóis e pelos otomanos, que
tinham a capital em Istambul, antiga Constantinopla, mais antiga ainda Bizâncio. Após
a Primeira Guerra Mundial, que desmontou o império otomano, a Turquia foi ocupada
pelos Aliados. Em
1920, Mustafa Kemal
Ataturk, o herói lá
deles, estabeleceu em
Ankara
o
quartelgeneral do movimento
de resistência, em
1923 conquistou a
independência
da
Turquia
e
Ankara
passou a ser a capital
da
república
que
substituiu o império
otomano
na
administração do povo
turco.
Ataturk
promoveu mudanças
radicais no estilo de
vida, implantando o
calendário e o alfabeto
ocidental e dando mais
liberdade às mulheres,
que são maioria na
Turquia atual. No dia
18,
um
domingo,
chegou uma guia local,
Ylknur,
que
nos
acompanhou num tour de ônibus de 10 dias na Turquia. No primeiro dia em Ankara,
visitamos o „Museu da Cultura‟, antropológico. Com o levantamento do nível do mar há
114
10000 anos, e a mudança climática conseqüente, o
homem migrou da Africa para a Mesopotamia, inventou
a agricultura e tornou-se sedentário.
A mais bem preservada vila paleolítica conhecida foi
escavada em 1961 em Konya, no centro-sul da Turquia,
250 km a sul de Ankara, o assentamento de
Çatalhöyüke, onde não existem templos nem
edificações publicas, somente construções domésticas,
onde o acesso era pelo teto descendo por escada.
Supõe-se que era uma sociedade de 5 a 8 mil pessoas,
sem distinção de classes, matriarcal. Na parte alta da
comunidade foi encontrada uma estátua de barro,
interpretada como uma deusa, e nos espaços tidos
como públicos, imagens de cenas de guerra, grandes ruminantes fósseis, homens
com o falo ereto. Em Ankara visitamos também um cemitério onde a lápide dizia que
fulano nasceu em 1290 e morreu em 1950.
O calendário muçulmano ou islâmico é essencialmente lunar, com ano de 354 dias, e
o seu ano 1 é a data da Hégira, a fuga de Maomé de Meca para Medina, em 16 de
julho de 622 do nosso calendário. São 12 meses que começam no 1º dia da lua nova.
De Ankara saímos de ônibus com os portugueses para leste na direção da Capadócia,
terra dos Hititas que criaram ai um império no Sec. Sec.XV antes de Cristo, e dos
assírios, a partir do Sec.VII aC. Depois veio o domínio grego. A região é de rochas
sedimentares, arenitos e calcários recobertos por tufos vulcânicos friáveis, que no
clima semiárido desenvolvem uma
erosão eólica com formas bizarras.
A facilidade de escavar fez com que
ao invés de construir suas
habitações, a população tenha
preferido escavar cavernas, onde os
primeiros cristãos se escondiam
para escapar da perseguição
romana. Numa delas que funciona
como centro de artesanato comprei
(US$320) um tapete persa de lã,
pintado com tinta vegetal, com
certificado de origem. A estrada
passa pelas trilhas comerciais que traziam de camelo a produção do oriente para a
Europa, e ainda existem restos das caravançarais: Caravançarai é o nome dado a
uma construção de ½ hectare onde as caravanas que atravessavam o deserto
paravam para se alojar temporariamente. Ai se encontravam pessoas de várias tribos
que pagavam pedágio e contavam-se histórias.
A Capadócia (terra dos cavalos de raça) fica limitada a leste pelo rio Eufrates, que
desce para o Iraque, e a sul pelos montes Taurus. O turista hoje não passa do
Eufrates por causa do terrorismo; é nas nascentes do Eufrates e do Tigre, no Monte
115
Ararat, um vulcão ativo até o Sec.III, que os turcos dizem ter encontrado vestígios da
„Arca de Noé‟, na área do desembarque referida no Genesis da bíblia, numa altitude
de 4000m! O deus malvado gastou muita água para exterminar os pecadores! Dizem
eles que dataram a madeira com C14 em 4,8 mil anos!
Atravessamos os Taurus para oeste, cruzando o planalto central aonde vimos perto de
Konya uma enorme base aérea da Turquia moderna. Nesta região também fica
Pamukkale, onde uma fonte termal desce a encosta e a precipitação de travertino
forma piscinas naturais para banhos termais
O roteiro turístico incluía Éfeso, a Nova York do tempo do império grego, capital da
Ásia Central com 250.000 habitantes, anterior aos
bizantinos, habitada pelos gregos desde o Sec.XI
AC até I DC, quando foram dominados pelos
romanos Na verdade a Grécia dos livros de
filosofia era onde é hoje a Turquia. Lá ainda existe
um teatro construído pelos romanos de 25.000
lugares, (foto abaixo) e a Academia, com uma
fileira de latrinas, onde os pensadores cagavam e
filosofavam.
116
Éfeso fica numa área sujeita a terremotos e foi destruída no Sec.VI, sendo
recentemente restaurada com muita competência por arqueólogos alemães. Imbuídas
do espírito filosófico, nossas amigas portuguesas, Conceição e Maria João, me
pediram para fazer uma palestra no hotel sobre o tempo, no sentido de tempo
geológico, da dimensão e escala, o que fiz com muito gosto. Falei da datação com
Carbono 14, e os portugueses estavam muito permeáveis a qualquer informação que
lhes era transmitida.
Da fase romana foi restaurada a biblioteca de Celso, onde os documentos eram em
pergaminho, pele de carneiro, uma vez que por aqui não havia papiro. No dia seguinte
fomos até o Monte Rouxinol, onde a guia nos mostrou a casa da Virgem Maria, datada
com C14 como Sec.I; ela contou que Maria foi para lá levada pelo apóstolo João que
no Sec. I ai pregou a uma nascente comunidade cristã. Sobre a tumba de João o
imperador Constantino mandou construir a Basílica de São João. Muita culhuda bíblica
na arqueologia da Turquia, mas o cenário vale à pena!
De Éfeso seguimos 250 km para noroeste pela rodovia 550 que vai bordejando o Mar
Egeu para as ruínas de Tróia. A estrada é boa, pavimento de qualidade. Troia fica na
esquina noroeste da Turquia, cerca de 250 km em linha reta a sudoeste de Istambul.
Em 1870 as ruínas de Troia foram escavadas por um antropólogo alemão que
interpretou que na área de cinco hectares foram erigidas nove cidades que ele
numerou de 1 a 9, construídas em sucessão a cada outra, após incêndios e
terremotos seculares que até hoje ocorrem na Turquia.
Troia 1 a 3 registra objetos da idade do bronze, 3000 a
2000 anos a.C, Troia 6, idade do ferro, e Troia 7 da
ocupação grega, Sec.VII a.C, quando Homero escreveu
seus poemas épicos. Na língua hitita Troia era chamada
de Ilios, em homenagem a um de seus fundadores, Ilus,
daí Iliada.
←Helena de Tróia
A história contada em 15.693 versos é um painel da
alma humana, com temas abstratos como honra e
amizade, envolvidos no sequestro de Helena por um
príncipe troiano, Páris. Helena, a mulher mais bonita do
mundo era casada com Menelau, rei de Esparta, e foge
com Páris. Os espartanos invadiram Tróia numa guerra
de 10 anos – 1193-1183 a.C. para recuperar Helena, e o
seu guerreiro mais famoso, Aquiles, no final é morto por
uma flecha de Páris no calcanhar. Aquiles é um semideus, filho da deusa marinha Tétis e do mortal Peleu.
Tétis, para tornar Aquiles invulnerável o mergulha
quando bebê no rio Estige segurando-o pelo calcanhar.
Mais tarde ela profetiza que ele poderá escolher entre dois destinos: lutar em Troia,
117
morrer cedo e alcançar a glória eterna, ou permanecer em Esparta, ter vida longa sendo
logo esquecido.
Troia, ou Ilios, foi invadida pelos persas em 596 a.C, e Troia 9 é da época do império
romano. A área foi abandonada no Sec.III d.C com a criação de Constantinopla.
Durante o império grego, o rei Bizas fundou em 667 a.C a cidade de Bizâncio, na
margem direita do Bósforo. Em 330 d.C, o imperador Constantino instalou ai a sede do
império romano oriental, ou império bizantino, e mudou o nome da cidade para
Constantinopla, que se tornou a maior cidade do mundo até a sua tomada pelos turcos
otomanos em 1453, que passaram a chamá-la de Istambul, nome oficialmente
adotado em 28 de março de 1930. A região metropolitana de Istambul se estende hoje
dos dois lados do Bósforo, tem 13 milhões de habitantes, é a 5ª maior cidade do
mundo, e está na zona de compressão da Anatólia, consequente do acavalamento da
placa da Arábia sobre a placa Eurasiana durante o período Terciário, o que torna a
Turquia agora no Holoceno uma região sujeita a terremotos e vulcanismo. Em
Istambul Mila foi a um banho turco com as portuguesas, mas declinou da experiência
por achar tudo muito sujo. As casas de banho são separadas, masculino e feminino. O
pessoal de lá tem tradição no jogo de gamão, sendo comum nos bares e cafés
encontrar tabuleiros abertos nas mesas. Eu até aproveitei a oportunidade para surrar
uns locais, inclusive o Sarrat, motorista do onibus, num tabuleiro em marchetaria que
Mila comprou. Fizemos também um cruzeirinho pelo Bósforo num barco de turismo, e
após 10 dias na Turquia
embarcamos num voo da
Swissair direto para Zurich.
Mila fez uma conexão direta
para o Brasil e eu fui para
Lisboa
onde
estava
o
Lagoon38 Aloha, no qual fiz
minha terceira travessia do
Atlântico à vela. Foi nessa
travessia que ganhei confiança
no
desempenho
dos
catamarãs no oceano e
encomendei o Pinauna VI.
Bósforo em Istambul e a ponte que liga a Europa à Ásia
Embarquei no Aloha dia 27 de março, e lá estavam Popó, Sergio Bordalo e Soninha.
Popó disse que estávamos prontos para partir, e largamos na quarta 28 para Funchal,
na ilha da Madeira.Tica e Henrique soltaram as amarras do pier de abastecimento da
marina de Cascais. Neste trecho para Funchal tivemos tres problemas a bordo: 1.
Popó não queria que fossem removidos os plásticos que revestem os estofados “para
que o barco chegasse novinho!” 2. Ele tem um olho de vidro e gasta mais água que o
razoável para lavar o tal olho, mal sabendo que o estoque de agua doce a bordo é o
item mais importante numa travessia. 3. Como ele pagou a passagem de Soninha,
queria que ela lavasse o banheiro dele, e ela disse que ia desembarcar na Madeira.
Bordalo contornou o problema e ela seguiu até as Canárias. Na madrugada de 3 de
118
abril vi o farol de Porto Santo no final do meu turno de 0 às 3h, e atracamos na marina
às 8:30 de um dia ensolarado. Arrumamos o barco, reabastecemos de água e
almoçamos em terra, na marina. Tentamos alugar um carro, sem sucesso. Fizemos o
check-in na alfândega e demos uma voltinha na cidade. Na tentativa de fazer funcionar
o SSB, Xará descobriu que a antena não estava aterrada. Saimos ao meio dia e
fizemos as 48 milhas até Funchal, onde chegamos ao por do sol. O pessoal foi fazer
um tour por Funchal e eu fiquei no barco. Na marina comprei um saco de dormir
porque estava dividindo um edredom com Soninha. Saimos dia 6 ao meio-dia com
previsão de vento favorável; deu um través largo de 20 nós todo o tempo. À noite
rizamos a mestra, fazendo 184 milhas em 24 horas. Passamos a barlavento das
Selvagens, vendo a ilha. O dia estava feio e resolvemos não ancorar lá. Chegamos
nas proximidades de Las Palmas de Gran Canária na madrugada do dia 8 de abril,
com vento nordeste forte. Pedi a carta de detalhe do porto e Popó não tinha. Montei
então uma estratégia de entrar com os recursos disponíveis e Popó começou a dar
palpites, querendo interferir na navegação com o argumento que aquilo era um
trabalho de equipe! Assumi uma postura de comandante duro e disse a ele que num
barco o comandante manda e a tripulação obedece, o que criou um clima de
animosidade. Isto exemplifica o maior problema que pode existir numa travessia: o
desentendimento da tripulação, todo o resto é fácil. Quando estávamos atracados na
marina disse a Popó que o ambiente não estava bom, e que um de nós dois devia
desembarcar. Ele como dono do barco escolhia. Soninha desembarcou e negociei
com Popó que ele desceria no próximo aeroporto, o que seria em Noronha. Aproveitei
a parada nas Canárias e comprei sem imposto equipagem para o Pinauna VI: piloto
automático, monitor de bateria e 4 catracas Lewmar, mais barato que nos Estados
Unidos. Recebemos a visita de Dom Rafael, coordenador da Roda dos Navegantes.
Largamos às 15h do dia 11, sem cozinheira, o que foi uma merda: cada um fazia sua
comida. “No final da tarde pegamos o „tubo venture” do sudeste de Gran Canaria com
vento de 40 nós true, pelas alhetas, tudo em cima; chegamos a surfar a 15,6 nós.
Tenho pensado no lay-out do Pinauna novo, principalmente convés e mastro, e decidi
colocar 4 catracas sobre a cabine. No dia 13 um pombo-correio espanhol com duas
anilhas, uma verde e uma vermelha, pernoitou conosco na latitude 26-25°N. Deixou o
convés todo cagado. Decidi mudar o lay-out interno da cabine central do Pinauna VI:
remover a “caixa do motor” que decidi vai ser de popa numa nacele, instalar uma
mesa-geladeira circundada por bancos. Sob o banco que fica atrás do mastro ficarão
as baterias e os bujões de gás, e sob os bancos laterais serão os armários de cozinha
a BE e de material de navegação a BB. Cruzamos o trópico de Cancer na madrugada
do dia 14 de abril na longitude 19°W. Preparei uma tabela de vento aparente em
função do vento real, da velocidade do barco e do ângulo de ataque do vento real:
VA=VR+VB cos α. Decidi colocar uma roda de leme pequena no Pinauna VI. Ainda
não resolvi onde colocar o tanque d‟água. Chegamos em Mindelo (ψ=17°N) dia 17 e
atracamos na popa do Eireene, por fora: âncora na proa e tres cabos na popa. Os
irmãos Paulo e César Lima tem agora uma empresa de charter com 3 Bavaria de
bandeira alemã, 35, 42 e 44 pés. Nesta parada consertamos a ferragem da escota da
mestra que quebrou quando Popó desavisadamente deixou que acontecesse um jaibe
acidental. Em Mindelo há um restaurante novo de Cristian e Manuela, ótima comida. A
lavanderia fechou. Fui no internet café ver meus e-mail e transmiti um para André.
Estou com o dedo anelar da mão esquerda machucado desde dia 12, quando
escorreguei com a mão apoiada na gaiuta. O dedo ficou preso e torceu. Botei pomada
119
Reparil e imobilizei com faixa. Largamos de Mindelo dia 19, vento E 30 nós até 60
milhas a sul da ilha; depois caiu para 20-24 nós toda a noite, no través. No final do
meu turno, às 24h, ψ=15°N ʎ=25°W, rumo V180 M192, vi a Polar na esteira do barco
Ho=15° e o Cruzeiro do Sul na proa, Ho=15°! Em 24h andamos 170 milhas. Bordalo
fez a comida: feijão, salada de tomate e cebola, salmão de lata, arroz. Acresci uma
cenoura, farinha e pimenta. Pela manhã do dia 21 coloquei aço novo, grosso na linha
de arrasto, e no final da tarde o peixe bateu, Bordalo estava ouvindo rádio e não ouviu,
e o peixe levou a penultima rapala, 4 de 5, com linha e tudo. À noite falei com Rafael
no SSB que informou previsão de bom tempo com vento até 5°N. A faixa de 12°N até
9°N é a zona de peixes voadores. Dia 23 no final do meu turno de 15 às 18h
passamos o paralelo 6°N. O vento rondou de NE para NNE e fraquejou. A pressão
barométrica caiu de 1002 para 997mb e a temperatura subiu para 30°C. Dia 24 foi
muito quente e úmido. Tomei banho salgado e rodei o ventilador o dia todo! Hoje
matamos um atum de ~5kg às 16 GMT, 3°35‟N, 25°W. Foi o primeiro peixe da viagem,
após perder 4 rapalas. Popó ficou anormalmente nervoso, está uma pilha. Bordalo
tratou o peixe fazendo festa e fotos. Hoje fiz o almoço e o jantar de todos: almoço,
feijão, farinha, salsicha, arroz; jantar, torta de batata com cebola em banho maria. Dia
25 subimos no arco de ilhas que faz parte do „rise de Serra Leone e entramos nos
DOLDRUMS @ 2°15‟N. A pressão caiu para 997mb mas o dia ficou mais agradável. O
almoço foi muqueca de atum by Bordalo. Popó está ansioso para desembarcar em
Noronha e decidiu que não vai mais trabalhar na Venezuela, quer chegar logo para
resolver com a Odebrecht.
120
Na minha meditação de hoje conclui que as religiões têm um ponto comum: aliviar a
ignorância. E que os religiosos se dividem em 3 tipos: 1. Os inocentes (beatas e
teistas indiferentes), 2. Os exploradores que se subdividem em 2a – inquisidores
autoritários e 2b-assistentes sociais; e 3. Os fanáticos, fundamentalistas, perigosos e
antipáticos.
Cruzamos o equador na longitude 27°35‟; o motor foi desligado a 0,02 milha antes, e
passei timoneando na inércia, rumo V180. Sergio Xará pulou na água para batismo às
21:30 GMT. Depois liguei o motor e seguimos para Noronha, RV230, RM250. Dia 27
no inicio do meu turno de 9-12 um cumulus-nimbus grande passou pela proa trazendo
chuva e formou um arco-iris bem na proa. Dia 27 foi o 4º dia de motor direto!
Atravessar os doldrum na diagonal é besteira! Saimos dele a 2°30‟S, quando entrou
um SE firme de 10-15 nós. Foram 5°, desde 2,5N ate 2,5S, só que atravessamos dos
meridianos de 25 a 31W.
Chegamos em Noronha às 15GMT de 29 de abril, após 10 dias de ceu e mar;
expliquei a Popó que não era permitido atracar dentro do molhe, e ele desembarcou
com uma mochila, de carona numa lancha de passeio que circulava próximo ao porto.
Ancorei fora do molhe e desembarquei com Bordalo. Não havia água para banho nem
restaurante aberto para jantar. A ilha vive do turismo de mergulho, e nesta época é
uma visão muito diferente da época da regata Recife-Noronha. Dia 30
desembarcamos no caique e fizemos compras: diesel, gasolina, frutas e verduras
amassadas por um transporte deficiente. Seguramente pior que em Mindelo.
Mergulhamos em apnéa no navio naufragado na entrada do porto. Era um SS, steam
ship, com duas caldeiras enormes, mais de 50m de comprimento. Largamos às 17h,
vento SSE 15 kn, RV210, vel 6-7 kn. e a viagem ficou tranquila, apesar de
contravento. Bordalo pescava e cozinhava e nos entendíamos bem. O Aloha
escorrega de lado (COG) 15° em relação ao heading. Regras para contravento, vento
aparente: Vento <10 nós →motor; vento 10-16kn→piloto em vane, tack, 50°. Vento 1622 nós→piloto em tack 45°; vento22-26 nós→ 1º rizo; > 28 nós genoa @ 70%; 33 nós
2ºrizo, genoa @ 50%. Com este esquema não precisamos cambar, andamos 158
milhas nas primeiras 24 horas passando a 120mi a barlavento de Natal, onde o vento
rondou de SSE para ESE, a 80 milhas de João Pessoa às 22:30 do dia 1 de maio, e a
110 mi de Recife. Na madrugada de 2 de maio aproximadamente no mesmo local
onde o Bandavuô quebrou o piloto em 1997, ~ 6°S 33°W, com VA 25 kn, quebrou o
moitão e a manilha da escota da mestra, na retranca. Gastamos ½ hora para substituir
pelo moitão da escota do balão e tornamos a subir a mestra, agora no 1º rizo. Dia 3 de
maio, quando Pai faria 88 anos, andamos 175 milhas. Às 22:30 GMT, perto de casa a
11°05‟S, 36°17‟W, RV222, vel 7 kn, vento ESE 15 kn, fiz ponte para Rafael via Tomaz,
de Cabo Verde, um pescador que teve oportunidade de rebocar o veleiro de Rafael
por 40 milhas quando este perdeu o hélice. Agradeci a toda a roda pela companhia.
Pulo e Altino pelo suporte em português. Alberto,o argentino, sempre atento com seu
transmissor potente. Dom Rafael, o tranquilizador, que nos leva em segurança pelos
mares do mundo, sempre pronto e disponível, amigo e conselheiro. Às 17:20 GMT do
dia 4 de maio subimos na plataforma continental com o farol de Garcia D‟Ávila no
través. Atracamos na Bahia Marina na noite de 4 de maio, 38 dias de travessia, no
catamarã mais rápida e muito mais confortável que nos monocascos.
121
África do Sul, 2003
Dia 4 de setembro viajei com Mila para comemorar o aniversário dela de 40 anos no
cabo da Boa Esperança, na África do Sul. Fizemos uma conexão em São Paulo para
um Airbus lotado da South African Airlines, e descemos em Johanesburgo, onde uma
guia portuguesa bem preparada, Yolanda, nos esperava com plaquinha e um sedan
novo. Demos uma volta na cidade, onde foi descoberto ouro em 1886, ensejando uma
invasão
de
estrangeiros
que
se
desentenderam na cobiça do ouro e diamante
gerando
duas
guerras
dos
boers
(descendentes de colonos dos Países
Baixos, Alemanha e França), nas quais os
ingleses saíram vencedores e dominaram a
região
estabelecendo
uma
legislação
fortemente racista, o apartheid, que perdurou
até 1990. A cidade é um centro industrial com
aspecto de perigosa, e não tem nada de
turística. Dai seguimos para Pretoria, a
capital executiva do país, 50 km ao norte. O
nome Pretoria foi dado em homenagem ao
africâner descendente de holandês que a
fundou em 1855, quando os boers foram
escorraçados pelos ingleses. Em 2005 a
Câmara Municipal mudou o nome da cidade
para Tshwane, que em zulu significa «Somos
todos iguais». Em Pretoria visitamos o museu de ciências, que exibe a evolução
biológica e geológica do planeta, com uma exposição de meteoritos e fósseis de
hominídeos; entre Johanesburgo e Pretoria fica o sítio arqueológico de Sterkfontein
(fonte forte em africânder), tombado como patrimônio mundial e considerado o berço
da humanidade. Depois do almoço tocamos numa ótima estrada mais uma hora para
norte pela catinga e paramos em Sun City,
de fama internacional pela extravagância
de suas instalações. É uma Sauípe
africana, construída por americanos, de
gosto aceitável. Nos instalamos num 5
estrelas e apesar de estarmos sem usar
uma cama por mais de 24 horas,
emendamos com banho e jantar. Só fomos
dormir às 22:30 local, 5 horas a mais que
no Brasil.
Dia seguinte, no café da manhã num
restaurante na parte externa do hotel, levantei para pegar mel e um macaco desceu da
árvore e levou uma banana do meu prato!
122
Contratei um tour a uma fazenda de leões durante a manhã. Lá aprendi que um leão
adulto come uma vez por semana, e é criado para ser vendido para um caçador atirar
nele! Os ingleses e os
norte-americanos ricos
representam de fato o
cumulo da hipocrisia!
Visitamos a pé o
complexo
turístico,
com parque aquático,
jardim botânico e às
15h fomos a um safári
no
Pilanesberg
National Park, visitar
os „african big five‟:
leão, leopardo, búfalo,
elefante e rinoceronte; ainda passamos junto de hipopótamos, girafas, e uma manada
de zebras. O parque fica implantado sobre um complexo vulcânico alcalino, cuja
vegetação muda de uma catinga seca para uma savana mais úmida, e o trajeto foi
num jipão aberto conduzido por uma lourinha que portava um rifle atrás do para-brisa.
Os bichos ficam por lá, e os guias se comunicam por rádio para indicar onde eles
estão. Jantamos no centro de entretenimento, onde o jipão nos deixou, e dormimos
cedo. Estava frio em Sun City, coisa de 15°C.
No terceiro dia encontramos Yolanda no café da manhã. Fizemos o check-out e
retornamos para Johanesburgo, parando no caminho para Mila fazer compras. Às
13:30 voamos para Cape Town, 1300 km para sudeste. A Africa do Sul, do que vi do
avião está devastada, sem vegetação, tudo remexido para exploração mineral. O
processo de colonização dos ingleses é brabo, explora até sangrar.
Em Cape Town fomos recebidos por uma guia do Zimbabue, que falava português.
Demos uma volta na cidade e nos instalamos no Holliday Ynn Cape Town, um 4
estrelas. Jantamos no hotel.
No dia 8 de setembro constatamos no café da manhã que as montanhas da Mesa
estavam com um lençol de nuvens e fomos para o Water Front, um centro de lazer no
complexo portuário. Visitamos um museu náutico e o Aquário dos dois oceanos (Índico
e Atlântico). Depois alugamos um barco a motor tipo taxi e fomos para o Iate Clube
Cape Town, no fundo da baia. Desembarcamos no píer e fomos paquerando os
123
barcos. Na lojinha do clube
comprei cabo de spectra de
6mm que usei no sistema de
leme do Pinauna. O restaurante
do clube não funciona na
segunda-feira, e voltamos a pé
para o Water Front, uma
palhetada de uns 5km que Mila
reclamou do sapato.O dia
seguinte foi de turismo no Cabo
das Tormentas. Fomos com
outro casal brasileiro, Cassia e
Lino, na van da guia Maria
João. É um passeio de 50 km
numa península de arenitos paleozoicos
silicificados
que
constituem
uma
continuação à Mesa da Cidade do Cabo.
No caminho fizemos um passeio de barco
até a Ilha das Focas; o Lino enjoou e voltou
de taxi para Cape Town. Os sedimentos
paleozoicos da Mesa e do Cabo das
Tormentas se continuam para o oceano
Indico após o Cabo Agulhas, e 400km
para leste existem campos de petróleo
em Mossel Bay. Na praia do lado oeste
do cabo das Tormentas existe um
⇽< padrão português de Bartolomeu
Dias, que ai ancorou em 1488. O forte
vento sul e a tripulação assustada os
obrigaram a voltar. Para marcar o lado
leste do cabo foram mais 10 anos de
tentativas até que Vasco da Gama
conseguiu e instalou outro padrão em
1498. Entusiasmado com o sucesso da
descoberta do caminho marítimo para as
Índias, o rei D.João II de Portugal
renomeou o cabo para Boa Esperança.
Mas em 1500, na viagem de Cabral, uma tormenta abateu a nau de Bartolomeu Dias,
o primeiro navegador a se arriscar longe da costa no Atlântico Sul, que ai pereceu. No
dia que estivemos lá o tempo estava manso, e achei que o Pinauna naquele dia faria
com galhardia o contorno do cabo. Os 40 anos de Mila passando o cabo da Boa
Esperança foram tranquilos.No dia 10 voamos Cidade do Cabo – Johanesburgo,
onde pernoitamos no
124
Hotel Ceasar, um 5 estrelas. No dia seguinte fizemos uma conexão imediata em São
Paulo para Salvador.
125
VELEJANDO DE SALVADOR ÀS GRANADINAS
Em setembro de 2003 a BYC – Brasil Yacht Charter resolveu desativar sua filial de
Salvador porque o retorno do investimento era baixo, e a Policia Federal deu um prazo
para pagamento do imposto de importação dos veleiros que ela trouxe em comodato.
Jairo Zollinger, meu vizinho de atracação na Bahia Marina e gerente da BYC me
comunicou que estava procurando um skipper para devolver os barcos para os
Estados Unidos. Já que ele não queria levar, eu achei que seria uma oportunidade
imperdível velejar um Lagoon 41 numa viagem dessas e disse que levaria grátis, isto
é, como se estivesse fazendo um charter com as despesas pagas e passagem de
volta para dois tripulantes.
Ele consultou os proprietários que aceitaram a proposta, desde que eu saísse
imediatamente, mesmo nesta época de furacão no Caribe. Dia 26 de setembro assumi
como comandante, e foi foemalizada a saida na receita federal, policia federal e capitania.
Dia 28 visitei Beto Correia Ribeiro e Fafá e peguei as cartas do Caribe e os conselhos de
onde parar e por onde navegar. No dia 1 de outubro fui com Jairo, Joba e Bruno, filho de
Joba, recém-chegado da Austrália, de lancha para a Ilha das Canas ver o Blopper. Fiz
orçamento para as despesas da viagem, US$4250 (menos da metade do que eles
pagariam a um profissional) que me foi adiantado; testamos o barco e Bruno foi aprovado
para ir até o Caribe. Igor estava revisando o piloto automático.
Dia 4 de outubro recebi o catamarã às 11:30 na Bahia Marina, levado por Gordon –
gerente de náutica da Ilha das Canas, e o filho dele. André, Gilca, Liana e Lara
chegaram ao meio dia para se despedirem. Igor ainda estava em cima do mastro
concluindo a revisão do anemômetro. Larguei às 14 horas, com Joba, Bruno, Pedro
Mutti e Adriana. Nenhum deles tinha visto de entrada para os EUA. Ficou combinado
que deve embarcar pelo menos um tripulante, com minha aprovação, lá pelo Caribe.O
Sereno acompanhou até o Iate. A tripulação com ótimo astral e cheia de entusiasmo.
Quando contornamos o farol da Barra foi servido almoço de feijoada. À meia noite
estávamos com o farol de Garcia D‟Ávila (2 piscos a cada 10”) pelo través, vento 10
kn, velocidade 4kn. Decidimos os turnos: Bruno 0-2 e 16-18.; Sergio 2-4 e 18-20;
Pedro 4-6 e 20-22 e Joba 6-8 e 22-24h. Na manhã do dia 5, um domingo, matamos
um peixe no arrasto. Fechamos o tanque grande que deve ter gasto 40 l, e abrimos o
tanque pequeno de bombordo, de 100l. Às 13h, com 23h de velejada estávamos a
12°09‟S 37°35‟W, 90 milhas de progresso num bordo unico de contra-vento e contracorrente. O odometro marcou 107 milhas, portanto 17 de correnteza. Jantamos o
126
peixe, feito com ervas. Ontem no meu turno de 2 às 4 pegamos duas nuvens pretas
com rajadas de 25kn. Mas foi rápido e não precisou fazer nada. Hoje ao anoitecer
baixamos a mestra para o primeiro rizo. No meu turno da magrugada entrou vento
com refrega de 30 nós, e houve stress para enrolar a genoa @ 60%. No dia 6 demos
um bordo para fora defronte a Mangue Sêco com os dois motores por duas horas.
Lavamos o cockpit e nos reunimos com musica de Caetano e Willie Nelson para o
almoço. Dormi à tarde. A noite foi tranquila com a mestra no 2º rizo. Progresso diario
às 14h 101 milhas no contra-vento. Dia 7 encostamos em terra na Barra de São
Miguel, Alagoas, as baterias com 11,5 V,
e demos um bordo para fora a motor.
Instalamos o 3ºrizo com o cabo do 1º. O
almoço foi magnífico, mangalô de
muqueca com lombo desfiado, farinha e
arroz. Às 13h estávamos de novo junto à
praia; ao ligar os motores para sair, o de
BE
deixou
de
refrigerar.
Joba
diagnosticou e consertou: correia da
bomba d‟água folgada. Drica e Bruno
fizeram uma limpeza em regra na cabine
central. Tomei banho e fiz a barba. O
astral da tripulação está ótimo. Acabamos o primeiro tanque d‟água. Dia 8, 4º dia de
mar, progresso de 145milhas. A partir de Ponta do Patacho, 9°10‟S, em Porto de
Pedras, PE, o vento permitiu folgar pano aumentando a velocidade e afastando da
costa. Novo stress, com bronca do comandante: o 2º tanque d‟água pequeno acabou
de repente! Estamos gastando mais de 10 l/pessoa/dia! Dia 9, progresso de 190
milhas em 24h. Ancorado em Noronha às 23h, com o intuito de esperar passar a
época de furacão no Caribe,que vai até novembro. Jantar comemorativo, strogonoff de
frango. Acabou o 1º bujão de gás.
Dia 10 de outubro mudamos o barco, ancorando ao lado norte do molhe, em
ψ=3°49,934‟S e ʎ=32°24,115‟W. Descemos a genoa para costurar a capa de proteção,
e coloquei birutas na valuma da mestra, costurando tiras recortadas de minha cueca
de seda de gatinhas. Motor de BE sem refrigerar, diz Joba que é a correia folgada de
novo, e desceu para comprar arruela de pressão. O motor de BB estava com nylon
enrolado na helice. Levei 1 hora cortando e puxando de alicate e ainda não saiu tudo.
Mergulhei em 9m de profundidade para marcar de 10 em 10m a corrente da âncora
com cordão.Mutti, Drica e Joba desceram com um VHF portátil para turistar. O caique
velho funciona e o motorzinho também. Só desci em terra à noite, e fomos assistir no
auditório do IBAMA a uma ótima palestra de Leo, da empresa de mergulho Aguas
Claras, sobre tubarões. Ele editou um filme
muito bem feito e fez a palestra com uma
fita de video em camara lenta, onde ele
interrompia a fita e ia falando de forma muito
bem coordenada com a imagem. Jantamos
em Nascimento, “no 30”, que é um bairro
onde está o supermercado.
Dia 11 todos trabalharam a bordo. Bruno
subiu no mastro e consertou a luz de tope.
Na descida consertou o head-foil da genoa.
Drica consertou um remendo da genoa com
silver-tape. Subimos genoa. Pedro e Joba
127
encheram os tanques d‟água. Dei entrada na policia do porto e paguei R$477,5
(US$164,65) da taxa de preservação ambiental (2 dias 4 tripulantes,
R$23,87/pesoa/dia, comandante não paga) e taxa de ancoragem de 3 dias (>10m,
R$95,50/dia). No domingo dia 12 limpei o fundo do barco e tirei o que pude do nylon
do hélice do motor de BB. Calibrei o „rudder‟ do piloto com orientação de Igor por
telefone e do manual de instalação. Conversei com o Mestre Raimundo, da balsa de
abastecimento da ilha, que tem
experiência pescando lagosta na costa
norte, e recomendou ir por fora e não
entrar no Maranhão. Falei com Mila e
com André no telefone.
Dia 13, 3º dia de lua cheia, navegamos
Noronha-Natal, ancorando no Iate
Clube. A refrigeração do motor de BB
pifou.
Pedro
Mutti
e
Drica
desembarcaram dia 14 e Joba dia 15.
No clube tinha gente do Brasil todo que
estava voltando da regata de Noronha.
À noite foram longos papos com Gileno,
do Caboge & familia, que estavam indo numa viagem circum-atlântica num barco de
aço de 35 pés. O pessoal do Salmo 33 estava indo para o Caribe. Também estava lá o
barco branco de aço de 50 pés, de Torres e Sra., que fazem charter nas regatas
longas. Desmontei a bomba d‟água do motor de BB, que tinha um parafuso quebrado,
e consertei. Fiz mercado com Bruno e abastecemos de água, gelo e diesel. Os
motores de 3 cilindros consomem 3l/h.
Dia 16 visitei Geraldo e Valéria do Vadyo, um Cal 9.2 também em viagem circumatlântica, apoiados pela Nutri. Nos deram 20 barras de cereal. Largamos de Natal só
de genoa, no rumo do Atol das Rocas, abrindo até estar a 20 milhas da costa. Dai
arribamos para norte, com amuras por BE, e o vento começou a rondar lentamente
para SE. Na troca de turno de mim para Bruno às 23h, fizemos o jibe e montamos o
Cabo Calcanhar a 20 milhas da costa, vendo o pisco do farol de Touros. A costa do
RN tem uma intensa atividade de pesca. Andando próximo à borda da plataforma,
eramos balizados por luzes de barco de pesca continuamente. Quando passávamos
por um viamos a luz do outro! Dai que abrimos para velejar na isóbata de 1000m a 40
milhas da costa. É ótima a sensação de andar com as forças a seu favor: vento e
corrente. A viagem está confortável, mas se fosse ao contrário, quando “tem que ser”,
sem duvida seria estressante, cansativo e pouco produtivo. No dia 17 o vento
estabilizou de leste com < 20 kn. Tivemos um progresso de 140 milhas em 24 horas e
resolvemos subir a mestra. À noite, muito escura, refrescou para 28 nós e o barco
surfava a mais de 8. Diminuimos pano reduzindo a velocidade para 6, e a situação
ficou menos tensa. Como diz Fernando
Peixoto com espírito sarcástico, vela de
oceano é 90% tédio e 10% de terror. Com
vela rizada o terror amaina, fica tudo sob
controle, a energia sobre o barco volta à
dimensão humana.
Dia 18 às 03:00 Bruno me acordou.
Estávamos pegando fundo e subindo na
plataforma continental a ψ=3°50‟S e
128
ʎ=37°37‟W. A temperatura da água caiu para 25,9°C. Começamos a aterrar para
Fortaleza no rumo 276V, com vento e ondas na popa. Às 13:30 estávamos atracados
no Marina Park Hotel em Fortaleza, após 47 horas de poita a poita desde Natal.
Estavam lá: Dragonwing, da Africa do Sul, com Mason e Kerry, dois Endurance 35
espanhóis, Sidoba de Luis e Xari, e Marie Celeste, de Stanislau, com a mulher e a filha
geóloga, que desembarcaram e deixaram o veinho solitário. Ficamos aqui por 4 dias,
quando Leila, uma ex-namorada nos deu um apoio maravilhoso com o carro.
Os espanhóis arrumaram com um frances solitário uma carta antiga de Isle du Salut,
do tempo de Napoleão, e tinham uma carta de Trinidad. Emprestei a carta que tinha
de Tobago e eles xerocaram tudo. Hoje estava rolando o furacão Nicholas no Caribe,
conforme e-mail de André. Dia 19 Bruno e eu fomos almoçar com Leila. Liguei para
Jairo que ainda não sabe onde devo deixar o barco. Comuniquei que o shore-power
não funciona para carregar as baterias, só para ligar o ar condicionado direto no pier.
Comprei uma escova de dentes e na primeira escovada veio um pedaço de dente. Dia
20 fui a um dentista indicado por Leila, Luciano, que olhou o molar superior esquerdo
onde houve retração da gengiva, expos o bloco de metal que soltou um pedaço da
porcelana. Disse que está sem problema, a precelana é só estética e nem cobrou a
consulta. Jantamos na casa de D.Dayse, viuva do General Miranda, mãe de Leila, com
Bruno, Rodrigo e Roberta.
No dia 21 visitei o Sidoba. Luis teve cancer na lingua e na garganta, mas ainda fuma
um pouco. Teve „seis meses de sobrevida‟ e já está navegando há anos. Xéri é filha
de um amigo dele, cego, de 72 anos, que vive navegando. Paguei R$30 das xerox das
cartas. Sairam dois barcos hoje de manhã: o americano que se manteve afastado de
todos, e o holandês, Zwerver, de Henry e Helen. Este não conseguiu ligar o motor nos
doldrums, vindo de Cabo Verde, e veio parar em Fortaleza. Daqui vai orçar de volta
para o cabo Calcanhar, parar em Natal, Salvador, e descer até a Patagonia. De lá vai
via estreito de Magalhães para o Pacífico.
Comprei copos de vidro para whisky, castanha e silicone. Bruno gastou um tubo inteiro
consertando vazamento no freezer. Peguei roupa na lavanderia.
Dia 22 fizemos o check-out do hotel com Armando, um cearence gordinho, gerente da
marina e amigo de Igor. Desatracamos da marina Park Hotel junto com Sidoba e Marie
Celeste. Passamos todo o dia e a noite junto com eles, nós só de genoa, mantendo o
mesmo rumo para atravessar a plataforma continental e navegar no talude. Passamos
por dois campos de petróleo da bacia de Mundau-Camocim.
Dia 23, subi a vela mestra e
despachamos os Endurance. Em 24
horas, progresso de 160 milhas. Acabou o
segundo bujão de gás aberto em Noronha
dia 9/10. Durou 2 semanas, mas desses
15 dias passamos 5 no porto, entre Natal
e Fortaleza.
Dia 24, o terceiro de velejada, o
organismo já adaptado, muita leitura.
Cada vez que se sai do porto recomeça o
129
processo de adaptação, enjoo, etc., que dura tres dias. Hoje é o 20º dia desde a saida
de Salvador, 15 dos quais navegando. Às 11:10 ψ=0°15‟S, ʎ=43°00‟W. Vento NE 17
nós aparente. Progresso de 190 milhas em 24 horas. Média desde Fortaleza 7,1kn.
Cruzamos o equador na longitude ʎ=43°27‟W, profundidade ~3000m. Bruno e eu
pulamos na água, um de cada vez. Passamos por fora dos recifes Manuel Luis, no
Maranhão, todo o pano em cima.
Dia 25 o vento diminuiu para força3,
força 2, e rondou para NE. Tivemos
um progresso de 162 milhas em 24
horas. Passou um navio de container,
por fora, para SE. . Dia 26, outro navio,
também por fora, bem longe, no rumo
NW. Às 04:30 o vento cresceu para 10
nós, NE, e estabilizou. O trecho de
vento fraco foi de 0,5° de latitude e 1°
de longitude, 1,5 a 2,0°N e 45°40‟ W a
46°40‟W. Às 10h vimos um veleiro na
proa quando subiamos o talude
continental, cruzando as isóbatas de 2000 e 1000m. Antes do almoço houve um show
de golfinhos que Bruno fotografou. A água continua azul, mas mais escura. Durante a
noite cruzamos o canal principal que alimenta o talude no cone do Amazonas. Na
plataforma, entre as isóbatas de 30 e 200m, há na carta 10 da DHN um ponto circular
marcando 471m. Passei nele;
vinha
com
profundidade
mensurável na sonda que
tem registro analógico, e
perdi o fundo por 36 minutos.
Interpretei não como uma
anomalia pontual, circular,
mas como o talveg de um
canal distributário com largura
de 4 milhas, vindo do cabo
Norte e de Macapá que não
foi
convenientemente
mapeado. Este canal deve
alimentar a cabeceira do
grande leque no talude, o
qual forma o „cone do
Amazonas‟.
A isóbata de 10m está a 50 milhas da costa! Tudo aqui na foz do Amazonas é
grandioso. Às 22:50 havia um pesqueiro grande na frente. Acendi a luz de navegação
e fui de proa. O pesqueiro chamou no rádio, com voz de velho amazonense. Estava à
deriva a 3,6 nós, largando equipamento de pesca. Foi uma comunicação cordial com o
barco.
No dia 27 tivemos um progresso de 173 milhas, e a água mudou de cor para
esverdeada. Passaram 3 navios, por dentro possivelmente para pegarem menos
130
correnteza. Motoramos 7 horas, toda a tarde,um motor de cada vez, no intuito de
chegar em Salut ao entardecer do dia 28, mas às 17:50 o motor de BE superaqueceu
e tocou o alarme: partiu a correia da bomba d‟água salgada, e o de BB entupiu o filtro
de combustivel. Como não tinha balão, decidi ir „drifting‟ com vela suficiente para
manter o rumo e passar mais uma noite no mar, chegando pela manhã do dia 29. Foi
uma decisão interessante andar mais devagar. Acabou o barulho do motor, ficou tudo
relaxado e mantivemos o mínimo de vela só para sustentar o rumo, porque a
correnteza é de 2 nós a favor. O problema agora é administrar o „excesso‟ de
velocidade para não chegar muito cedo, ainda escuro. Igor fez mil recomendações
para não investir as ilhas à noite.
Identificamos o veleiro que vimos ontem, está agora por sota e no través. É um ketch
americano, Carduff, que não respondeu minha chamada! Mas hoje falei com um navio,
o P&O Nedloyd, de Houston, e ele também. Deve ser um desses gringos fdp
amedrontados que segue as regras de segurança lá deles. Dia 28 consertamos os
motores e administramos o „excesso de velocidade‟ enrolando toda a genoa. Desliguei
o piloto para economizar energia e travei o leme com um ângulo de 15°... e fomos
derivando a 2 nós, abrindo 20 a 30° do objetivo. Durante 16 horas! Foi assim que
passamos a fronteira internacional Brasil-Guiana. Dia 29 atrasamos o relógio 1 hora,
para o fuso de Caracas, GMT-4. Às 02:45 ψ=5°21‟N ʎ=51°51‟W, destravei o leme,
apontei M270 para corrigir a correnteza, abri a genoa toda com vento SE força 3 e
andamos SOG 3-4 nós na direção de Iles du Salut. menos de 50 milhas à frente. A
água estava verde escuro, azeitonada. Às 11h ancoramos em Ile Royale, ψ=5°17‟N
ʎ=52°35‟W, 1037 milhas desde Fortaleza em 7 dias. Consumimos 100 litros d‟água,
mais de 7 l/pessoa/dia, uma esnobação. Lá estavam ancorados 9 veleiros, incluindo
os Endurance 35, Sidoba III e Marie Celeste. Chegaram ontem à tarde, cumprindo o
131
que nós iriamos fazer se não tivessem pifado os motores. Como se ve na Blue Chart,
as ilhas ficam a 5 milhas do continente e a 8 milhas de Caiena, e é tudo muito raso.
Mas tem uma maré de 3m. Fomos Stanislau, Luis, Xari, Bruno e eu de caique, visitar
as ilhas de St.Joseph e
do
Diabo,
todas
vulcanicas.
Bruno
subiu num coqueiro e
derrubou sete cocos.
Visitamos as celas
comunitárias
e
as
solitárias, de 1,5x3m,
escuras,fechadas com
um circulo no teto.
Hoje os franceses se
envergonham
do
tratamento que davam
aos presidiários.
No
dia
30
os
espanhóis
foram
embora cedo. Fui com
Bruno
visitar
Île
Royale, onde ficava a administração do presídio e hoje é a sede do receptivo turístico.
A única coisa que conseguimos comprar foi um cartão de telefone por €12,4, que
usamos para falar para o Brasil até o ultimo centavo. Aqui euro e dólar têm o mesmo
valor. Almoçamos no restaurante da
pousada, visitamos o farol antigo junto
do telescópio moderno que rastreia os
foguetes lançados do Centro Espacial
em Kourou no continente defronte. A
base é conveniente para os franceses
porque fica próxima à linha do equador.
Largamos às 15 h, contornando a Île
Royale pelo sul e rumando 316V, direto
para Granada, passando pelo norte de
Tobago. O plano é, se quebrar o barco,
entramos para Trinidad; se estiver tudo
bem vamos direto para Granada. Vento NE 15 kn. Me sinto melhor velejando num mar
arrumado e vento folgado do que em terra!
Na madrugada do dia 31, defronte à fronteira com o Suriname, a 30 milhas de terra
fomos abordados pela guarda costeira (?). Chegaram completamente apagados e
chamaram no rádio, creio que em holandês. Não respondi e meteram um holofote
possante sobre o Blooper. Respondi em Inglês, e eles pediram identificação.
Satisfeitos com as respostas desejaram boa viagem e apagaram tudo de novo.
Quando nos afastamos mais da costa o vento caiu à noite para 8 nós e a corrente
cresceu para 2. Hoje passamos a usar o tanque grande. O de 100 litros que enchemos
em Fortaleza durou 10 dias: 5l/pessoa/dia. Estamos melhorando. Às 15h progresso de
132
137 milhas. Ψ=6°45N ʎ=54°17‟W, prof 45m, correnteza 0,5 a 1 nó. Vento real E<10kn
nas ultimas 16 horas.
Dia 1 de novembro descemos da plataforma continental para o talude a 7°30‟N; a
plataforma aqui tem 100 milhas de largura. Dai os alísios de NE começaram a se
firmar, crescendo lentamente de 10 para 15 nós a 8°N, e passando de 20 nós a 9°N,
com ondas de 2m. A temperatura da água subiu para 27,4°C, e a cor voltou a ser azul.
Como a costa da Guiana é orientada NW na direção da Venezuela, estamos agora
andando em asa de pombo no talude, paralelo à costa. A correnteza aumentou de 0,5
para 1 nó, de ESE. Às 15 h, em Ψ=8°12N ʎ=55°50‟W, marcamos um progresso diário
de 130 milhas. Perdemos a ultima colher de arrasto disponível. No dia 2 de novembro
o vento começou a crescer devagarzinho, para não assustar. Continua leste. Refresca
à noite e cai de dia. Nesta madrugada de 1 para 2 tivemos algumas nuvens pretas
mas mantivemos tudo em cima. Fomos de novo abordados por navio de guerra, igual
a ontem, só que hoje já chegaram falando inglês com sotaque americano. De novo,
não vimos o barco. Hoje às 15h completam 11 dias desde Fortaleza. Lavei shorts e
cuecas.
2 de novembro 2003, domingo. Acordei com a queda de um peixe voador nas minhas
costas. Entrou pela fresta aberta da gaiuta de popa a barlavento! Acendi a luz e joguei
de volta para o mar. Nesta madrugada pegamos corrente contra, de W, entre 8,5 e
10°N, e tráfego de navios na rota Miami-Recife.
Defronte à Guiana Inglesa, até a foz do Rio Orinoco, a 140 milhas da costa, pegamos
uma zona de depressão da tarde do dia 2 até a manhã de 3 de novembro. Igor havia
avisado que por aqui tem uma depressão semanal. Era uma sequência de cumulus
altos, espaçados no horizonte a leste, parecendo barcos de pesca alinhados na borda
da plataforma, cada um em forma de charuto. Quando chegou o primeiro, o Blooper
parecia um carroção, vibrando todo a 10 nós. Ai descemos a mestra para o terceiro
rizo, e melhorou. Se minha neta de um ano estivesse a bordo, uma possibilidade
aventada de Lia e ela embarcarem em Fortaleza, ou ela ia ficar vacinada para o resto
da vida, ou ia se assustar com a eventual expressão de tensão dos mais velhos; um
risco que eu não estava disposto a jogar. Além do mais, com ela a bordo eu ia acabar
133
quebrando uma regra de segurança fundamental: o barco tem prioridade.
No dia 3 fomos abordados de novo na costa leste da Venezuela, perto de Trinidad, de
dia, com tempo bom. Chegaram em silencio pela popa, chamaram em inglês sem
sotaque, e se identificaram como 'warship F-793'. Ostentavam uma bandeira francesa.
A antena do radar dos caras era quase do tamanho da retranca do Blooper. Fizeram
as perguntas de praxe, nome do barco, quem está a bordo, bandeira, registro,
procedência e destino. Informaram a meteorologia. Quando perguntei se eram da
Guiana, responderam "no, sixteen and out". Esses gringos estão apavorados. Até os
velejadores americanos se isolam com medo.
Hoje acabou o gelo e comi a penúltima banana. O despertador que estava sobre e
mesa de navegação, que sacode a cada „marretada‟ de onda no casco de sotavento,
começou a enganchar e atrasar. Bruno já esta a fim de desembarcar. Nosso
relacionamento esta ótimo, mas ele não tem visto americano e esta achando que já é
tempo demais. Eu também; meus câncer de pele no braço já estão começando a se
exibir.
Falei com Pedro Bocca de Ile Royale. Ele quer passar uma semana de executivo
estressado, embarcando num sábado e desembarcando em dia marcado. Isto não
funciona numa velejada. A gente sai do porto quando pode, e chega quando o vento
deixa. Não confio que esta opção funcione para chegar a Fort Lauderdale.
No meu turno da madrugada de 3 para 4, fiz um registro em tempo real do diário de
bordo:
BLOOPER,4 de novembro de 2003,31o dia de viagem,13o a partir de Fortaleza.
Acordei às cinco para duas, naturalmente, sem ser chamado e sem despertador. Tinha
ido deitar às 23 horas, e estava pronto para meu turno de 2 às 5. Calcei meia e
sapato, me vesti para a madrugada e fui render Bruno, que estava todo orgulhoso de
ter feito o contorno pelo norte de Tobago enquanto eu dormia. Dei uma olhada lá fora,
tudo normal. Vela mestra rizada, genoa bem regulada, caminho livre na proa. A lua
estava a 10o acima do horizonte no poente, e clareava a noite. A cerca de 10 milhas
ao sul, no través de bombordo, uma visão que há quase uma semana eu não tinha:
terra à vista!
As luzes de terra pareciam inclusões de vacúolos em cristais de quartzo. Alinhadas,
baixas. No final das luzes, piscava o farol, como um coração pulsante, um lampejo
vermelho a cada segundo. O farol só se mostra depois que se faz o contorno da ilha.
Para sudoeste um clarão esmaecido, possivelmente Plymouth+Scarborough. Passado
o farol subimos um degrau de 700 metros no fundo do mar, cruzando a isóbata de
1000 metros, que aqui deflete para oeste e depois para norte, contornando o Tobago
Trough, uma depressão fechada entre Barbados, Granada e Tobago. Canopus estava
a 22o acima da última luz a sudeste. Por trás do farol, uma sombra alta, o cone
vulcânico que está registrado na carta com altitude de 566m. Bonito o contorno da ilha
que Bruno executou, conforme ficou registrado no track do GPS.
134
Às 2:10 a lua estava se pondo, com o limbo iluminado para baixo, formando um C
deitado, de crescente. Ψ=11o32' N,
λ = 60o32' W. Passamos a andar no rumo
verdadeiro 286-290, proa na Prikley Bay, em Granada. A voltagem do banco de
baterias caiu para 11,4 volts, e liguei o motor de BB às 2:25, engrenado à vante, 1700
RPM. Liguei o freezer.
Aldebaran estava no zênite. Saturno entre Gêmeos e Betelgeuse. Órion imponente,
em ascensão, já a uns 80o. Capella a 56o, na ponta de um triângulo escaleno, voltada
para o norte.
Havia um estratocumulus alongado, como se fosse um chapéu sobre a ilha, com base
a uns 500m de altura. A visão era como do Monte Serrat para Itaparica, só que o
coração pulsante do farol estava lá no oeste. A lua logo se pôs e ficou uma escuridão
total à frente, Granada a 70 milhas. Júpiter estava nascendo, baixo no horizonte. Desci
para ligar o computador, marcar os pontos na carta e mexer no GPS, e quando olhei
de novo, Júpiter já estava a quase 15o de altura! Fiz o registro do track e salvei no
Captain.
O vento era NE força 4 e o mar estava arrumado. Passagem tranqüila. Corrente para
W-SW. Corrigi o rumo 3o para boreste. Alguém falou no rádio, com voz tranqüila. Não
vi ninguém, mas acendi as luzes de navegação.
Um avião com luz estroboscópica passou por baixo de Júpiter, para SE. Ainda bem,
esta é a forma adequada de andar para contravento: a jato!
Quando acordei, Marte já tinha ido dormir ha 3 minutos. Está 8o na frente da lua, a
qual está com idade de 10 dias, @ 80%. O Cruzeiro do Sul vai nascer às 5:05, e ao
crepúsculo matutino vai atingir a altura de 8o lá no sul. A Polar já esta no céu, a 11o de
altura. A constelação de Touro está com o V apontado para oeste. Aldebaran esta na
ponta mais a leste.
Apareceu um navio no horizonte, pelo norte. Parece ir em direção a Granada mas
ainda está longe, não vejo as luzes de navegação. Olho de binóculo. É vermelha e
está convergindo comigo. Vou desligar o motor e o freezer, que já tem uma hora e dez
minutos. Também o vento refrescou, tenho que ir olhar as velas. São 03:40. Andei 12
milhas em 1h 40 min.
Ufa, que fome! Vou comer uma barra de cereais e fazer um cafezinho.
Senhoras e Senhores, acabo de adentrar o Mar do Caribe, vindo do sul. Já estou atrás
de Tobago. Começa uma falação no canal 16, navio pedindo prático. O que vinha
convergindo passa pela proa. Um cumulus preto se forma na popa. Olho nele!
Este negócio de fazer o registro em tempo real é uma trabalheira! Não dá tempo de
fumar um cigarrinho! Será que André e Liana vão querer ler esta baboseira? Mas Tica
vai, ela é danada; vou escrever para você, irmãzinha.
Vai navio, que quero desligar as luzes de navegação. A bateria voltou para 12 volts.
Estamos andando a 6,1 no velocímetro e a 6,5 SOG. Rumo magnético 300, COG
285T. Declinação 15o W. Logo, tenho uma corrente favorável de 0,4 nó. A nuvem preta
chegou sem vento. Ótimo. Vejo a luz de alcançado do navio se afastar. Ótimo. São
135
04:05 e começa um leve clarão a leste. Daqui a pouco é o crepúsculo matutino. Júpiter
já está alto, meço com a mão, dá uns 40o.
Ligo a Rádio Barbados Broadcasting, em AM @ 900 khz, para tentar uma previsão do
tempo. Chega alta e clara. É um programa de entrevista na madrugada, analisando o
comportamento da juventude que faz pega de carro em Bridgetown. Desligo. Na
frente, para oeste, uma escuridão total.
Gravo o track no computador e desligo. Guardo tudo e cubro com uma camiseta suada
que vou jogar fora.
04:30 - Começo a ver o horizonte mal definido a 360o. Mas ainda não dá para
navegação astronômica. As luzes mais baixas de Tobago começam a afundar. O farol
continua piscando, agora fraquinho, na alheta de BB. O vento caiu e a velocidade do
barco também, agora 5,5 nós. Previsão de chegada em Granada 19:03 GMT. Como
estamos no fuso horário de Caracas, ETA é para cerca de 3 horas da tarde. Ótimo.
Vamos jantar em terra hoje, e não terei que lavar pratos!
Opa, uma 'estrela cadente'. Boa sorte para Lara! Que cresça saudável, forte, bonita e
inteligente.
A temperatura da água está em 26,5 oC, 1o a menos que durante o dia. A água aqui no
mar do Caribe é mais quente que na corrente Equatorial do Atlântico, 26,1 oC durante
o dia. A esteira do barco não está fazendo 'varinha de condão', quer dizer, a água é
pobre de algas.
04:46 - A nuvem preta passou pela popa. Deve ser de baixa pressão, porque o vento
correu para cara 10o e aumentou 2 nós. Está agora 13 nós @ 80o da proa, vento
aparente. Ótimo. Dei uma volta na catraca da escota da genoa e a velocidade subiu
para 6,7. Catamarã é outra coisa!
05:01 - Bati na porta da cabine de Bruno, que respondeu de imediato, bocejando. O
horizonte começa a se definir devagarzinho. O nascer do sol será às 5:56 HML e a
cada dia que passa o dia vai ficando menor neste outono caminhando para inverno.
Faltam 58 milhas, e vou dormir. Quando acordar às 8 já estou de agenda cheia:
preparar a aproximação e a chegada em Granada. Hoje às 15 h completa exatamente
1 mês que largamos de Salvador. Muito bem, Blooper, você chegou ao Caribe e se
comportou bem. No momento Ψ=11o37' N, λ = 60o50' W, rumo V285 vel.6-7 nós.
-- Bruno, precisa orçar mais 4o. Aproveite o seu turno.
Às 8 horas o dia estava radiante, com cumulus de bom tempo e visibilidade até o
horizonte. Ψ=11°43‟N ʎ=61°06‟W. Faltam 41 milhas para o wpt Granada, que está
claramente visível como um dromedário de 3 corcovas puxando um filhote, Carriacou.
Na popa, também claramente visível, Tobago, pouco mais comprida que Granada.
Pouco mais de 0,5 nó de correnteza nos empurra para WSW. A maré aqui é micro,
coisa de 1 palmo. Vento E-NE força 4, com ondas de 1m vindas de NE. O Blooper
deslisa suave a 6 kn.
A última banana, que era de Bruno, ele ofereceu dividir comigo no café da manhã.
Também a última lima. Ainda temos duas laranjas, 2 maçãs, 8 ovos, 4 batatas, 1
136
tomate, 8 cebolas, 2 iogurtes e 3 nescauzinhos. O tanque d‟água principal está a ¾.
Gastamos 200 litros d‟água de fortaleza para Granada, em 13 dias, incluindo a parada
nas Îles Du Salut. Os tanques de diesel estão acima do meio, embora o marcador
elétrico diga que estão cheios. Separei as cartas do Caribe que copiei de Beto Correia
Ribeiro e botei feijão e carne de sol na panela de pressão.
O vento real caiu para menos de 10 nós, aparente 6-7, e a velocidade sobre a água
3,5 nós! É hora de gastar o óleo diesel poupado para garantir a chegada de dia.
Acabamos de cruzar a isóbata de 1000m, subindo da Tobago Basin para o degrau
vulcânico das Ilhas de Barlavento. Em cima de cada ilha fica um aglomerado de
cumulus, dizendo que embaixo é terra. Um altão, bem ao norte, deve ser o vulcão
Soufrière, em San Vicent. Ajustei o alarme da sonda, mudando de 60m para 4m. Às
15h ancorado em Prickly Bay, Spice Island Marine em 11m de profundidade,
Ψ=11°59,7‟N ʎ=61°45,7‟W.
O odômetro do Blooper até aqui registrou 2819 milhas em exatamente um mês. Mais
400 milhas e teremos coberto uma distancia igual à do Arroio Chuí ao Rio Oyapoc, só
que aqui foi em área tropical e a maior parte do tempo em mar de almirante. No
momento estamos ancorados em Prickly Bay, Granada e está tudo bem a bordo.
Lembranças da viagem:
Ontem sonhei cruzeirando por trás das ilhas de Tinharé e Boipeba, o Pinauna, o
Estripulia e o Puck. Às vezes, após o por do sol, ligo o computador, vejo o mapa do
céu, a navegação com as cartas digitais, e jogo gamão no jelly-fish.
Bruno tem sido ótima companhia: disciplinado, trabalhador, organizado. Fez uma
planilha que é um inventário do que existe a bordo, onde está cada item, controle do
consumo e do estoque; fez outra para uso dos motores, que já quebraram cinco
vezes; eles se revezam, só para manter a gente ocupado. O barco também andou
quebrando, e Bruno sobe no mastro, mergulha e costura o que rasga. Não joga nada,
mas também não da tempo. É metido a botar os temperos de Pedro Mutti nas comidas
Na véspera de chegar nas Iles du Salut, na Guiana, tínhamos 3 cenouras. No almoço
Bruno colocou duas. Perguntei se não era esnobação, e ele disse que íamos chegar e
ele compraria mais. Argumentei que em Salut não haveria disponibilidade e ele: deixe
comigo, se lá existe uma pousada, haverá comércio, eu sou Administrador, e pela
teoria é assim. Deve ser por essas e outras que Millor Fernandes dizia que 'na prática
a teoria é outra'. Vai ver que Millor se refere às teorias da administração, da economia
e da política!
O corte pelo cone do Amazonas foi enriquecedor! O ano passado, quando desci o rio
até Macapá, comecei a montar algumas hipóteses. Agora, analisando as correntes e o
registro da ecosonda acrescentei mais algumas peças ao modelo do super-delta. Se
me arrumassem um navio oceanográfico e um financiamento do CNPq bem que eu
toparia mapear aquilo lá.
Análise de meus sentimentos com relação aos americanos após o encontro com o
Carduff: em 1973-1974, quando morei lá, os americanos haviam acabado de ganhar a
corrida espacial, pousado um homem na lua. Eram os líderes do mundo, os
137
vencedores, e transmitiam um entusiasmo contagiante. Tinham o melhor padrão de
vida do mundo, era o grande mercado consumidor, e eram também hospitaleiros,
vencedores, seguros, ricos e orgulhosos, no bom sentido. Com a derrocada do império
soviético em 1991, passaram a se considerar donos do mundo, e o orgulho virou
intromissão, arrogância, prepotência. Montados na segurança de serem os mais fortes
descuidaram do relacionamento humano, e descuidaram de si mesmos, tornando-se
em pouco tempo uma comunidade de obesos conduzidos por fantasias
hollywoodianas. Na virada do século foram atingidos no templo da sua cultura (world
trade Center) por um adversário que consideravam desprezível. E agora, com a
paranoia do terrorismo, tornou-se um povo amedrontado e acuado. Nada simpático. A
companhia de americanos não transmite mais simpatia!
Granada é um paisinho com tradição agrícola de especiarias, dominada por crioulos,
como todo o Caribe. Ancoramos às 15h do dia 4 de novembro, e desembarquei de
caíque na alfândega às 15:55, porque fechava às 16. Mas o pessoal tinha ido embora
às 15:45. But don't worry, be welcome, use our facilities, and tomorrow you'll make the
entrance! O East Caribbean Dollar tem a mesma cotação que o Real. Água custa no
pier EC$0,35/galão. Ao contrario de muitas outras ilhas vulcânicas pelai, esta não tem
problemas com disponibilidade de água doce, mesmo com mais de 100 mil habitantes.
A meta de tirar o Blooper do pais está cumprida. Os arrendatários estão livres da multa
de US$120 mil. O barco está inteiro e limpo, melhor que na saída. Acabei de fazer a
entrada dele aqui em Granada; em seguida fomos a uma lan house mandar e-mails e
depois almoçar na marina. No e-mail de Jairo, eu disse:
Bruno, que trouxe uma prancha, quer descer em St.Vicent, pegar uma balsa de linha e
ir surfar em Barbados. Se Pedro Bocca vier, posso esperar por ele aqui em Granada, e
subir ate Santa Lucia ou no máximo ate Martinica. Estaríamos entregando o barco lá
pelo dia 15 de novembro. Ai a chance de furacão fica zero, e você podia vir com Ana e
fazer o resto da viagem, mil e poucas milhas. Quinze de novembro Igor também já
esta disponível, e é uma opção profissional. Outra opção profissional é o fulano de
Fort Lauderdale, o que vai receber o barco, mandar um skipper com cidadania
americana para Santa Lucia . Por ultimo, posso eu mesmo, com sua autorização,
contratar um localmente. Isto é possível nas empresas de charter. Existem também
velejadores tipo Luis Poesia fazendo volta ao mundo em seus próprios barcos, e
precisando fazer algum dinheiro, e uma coisa fácil para eles é um delivery. Hoje Bruno
sai a campo para tentar vender o barco por aqui. Ficou entusiasmado com a
perspectiva da comissão.
No e-mail para Pedro e Felipe, eu disse:
Ate aqui a viagem foi uma velejada um pouco trabalhosa, com turnos a cada 3 horas,
mas tranquila e de grande aprendizado. Agora começa a parte macia, praticamente
day-sailing and a lot of fun (!). Pelo meu interesse, fazendo as Ilhas de Barlavento
consigo visitar os vulcões importantes na formação deste arco de ilhas. Se vocês vêm,
mandem um e-mail para mim ainda hoje, e espero vocês até sábado.
Pedro: o esquema de uma semana no 'ultimo trecho' acho que é uma furada. Das
Ilhas Virgens até a Florida são 1000 milhas, e só ai já se gasta uma semana sem
paradas. Venha por uma semana aqui pelas Ilhas de Barlavento, deixamos o barco
138
conforme uma combinação com Jairo, e vou com você de avião para suas compras
em Miami.
Felipão, esta disponível para você uma cabine de popa, com cama de casal, armário e
sanitário privativo. Também, para quem esta acostumado a andar de primeira classe,
não podia ser diferente. Os velejadores de meio barco quando chegam a bordo, não
conseguem disfarçar uma expressão de inveja. O Lagoon 41 para uma viagem destas
é sem duvidas um barco de sonho!
No dia 6, uma quinta-feira, saímos de taxi pela ilha. Comprei o livro do Cris Doyle, guia
das ilhas de barlavento, levei o motor de popa para consertar, fiz xerox da
documentação de entrada em Granada para o pessoal da BYC, abasteci 16,6 galões
(60 litros) de diesel e já que não temos SSB anotei as estações AM que fornecem
previsão do tempo: Granada, 535kz e St.Vicent 705kz.
Dia 7, sem receber qualquer resposta positiva, exceto que era para entregar o barco
para um tal de Tucker West, em Fort Lauderdale, que tinha uma companhia chamada
The Catamaran Co., com filial em Tortola. Sem endereço nem telefone. Quando sai de
Granada, fiz a saída na Alfândega local para Tortola, nas Ilhas Virgens e pela nona
vez pedi a Jairo via telefone e via e-mail, para que providenciasse uma informação
completa. Fizemos uma feirinha e às 10:30 estávamos com âncora em cima. O vento
rondou para nordeste e endureceu, fazendo a gente derivar muito para oeste.
Contornamos Granada por sotavento, mas quando chegamos na metade do caminho
para Cariacu e o nordeste descobriu de trás do morro, recebemos uma rajada de 40
nós que arrancou a capa protetora da genoa e a ferragem da bicha. Machuquei a mão
ao segurar a contra-escota fora da catraca na hora de enrolar a vela. Foi contra-vento
duro até ancorarmos em Cariacu imediatamente após o por do sol, com lua cheia.
Dia 8, um sábado, acordei cedo, fiz um desjejum de suco de caju, ovos mexidos com
cebola, tomate e farinha para mim e para Bruno e fui até o Iate Clube defronte de onde
estávamos. Liguei para o celular de Jairo que estava na Fonte do Tororó, dizendo que
era a décima tentativa que eu fazia durante a viagem, e que ia deixar o barco em
Union Island. Ele não retrucou, disse que mandasse um e-mail e que segunda-feira ia
tomar providencias.
A genoa sem a proteção uv azul e o temporal chegando em Union Is.
139
Saímos motorando pelas Granadinas, com parada para almoço em Sandy Is, onde
ainda deu para mergulhar no recife. Cheguei cedo em Union Is. e ancorei em Clifton
Harbour, em frente ao Anchorage Iacht Club. Clifton Harbour at Union Island é uma
laguna com 10-15m de profundidade, com um recife no meio. Aqui é o coração das
Granadinas, tem base da Moorings e é considerada a área classe A do Caribe. 2/3 dos
barcos presentes são catamarãs, a maioria Lagoon 38 de charter. No domingo dia 9,
fiz Costums & Immigration no aeroporto que é logo atrás do Iate Clube, com permissão
de permanecer até 20 de novembro. Começou a chover a cântaros, e a previsão era
que o temporal demoraria pelo menos mais cinco dias. Não vi ninguém se arriscando a
sair da laguna, quem fez reserva para esta semana se deu mal!
Mandei via e-mail um relatório para BYC dia 9, com informação detalhada da posição
e situação do barco. Bruno ficou a bordo com o barco na âncora, com uma diária de
US$60 que é menos do que deixá-lo sob a guarda da marina, uma vez que a partir de
15 de novembro é alta-estação no Caribe. O Drifter, o outro Lagoon 41 da BYC que
estava sendo devolvido com uma tripulação paga e profissional, vinha uma semana
atrás do Blooper, arribou para Union Is. passou um tripulante para o Blooper e
seguiram para norte.
Deixei a bordo um adiantamento das diárias para Bruno, uma prestação de contas
documentada do adiantamento que George fez em nome da BYC, bem como os
documentos da saída do barco do Brasil e da entrada em Granada.
Dia 10 chovia torrencialmente com vento forte. Desembarquei cedo e às 8 h estava na
agência de viagens. Depois de uma novela dramática comprei uma passagem para
Port of Spain, Trinidad, com pernoite em St.Vicent e conexão amanhã. Almoçamos na
marina, e à tarde de temporal desembarquei minhas sacolas no caíque, enroladas em
saco de lixo de 100 litros; no aeroporto vesti roupa seca e joguei fora a bermuda e a
sandália encharcadas. Despachei a bagagem na Mustique Airways, ficando com uma
sacola de mão e o computador. Voei num aviãozinho de 10 lugares, incluindo o piloto,
um australiano de seus 37-38 anos, bom piloto. Passamos sobre Tobago Cays e
pousou em Canouan onde desembarcaram dois crioulos. Depois sobrevoou Mustique,
a ilha dos ricos e famosos. Chegamos em St.Vincent à noite, e consegui deixar a
sacola grande de 20 kg e ruim de manejar, no depósito da Alfândega. Grátis! Fui a pé
para um „hotel‟ defronte ao aeroporto, Adams Apartment. Jantei, tomei banho, preparei
a bagagem para sair cedo e deitei antes das 9. Acordei às 11pm com o barulho da
chuva forte.
No dia 11, o 4º seguido de temporal, cheguei cedo ao aeroporto, mas encharcado,
caminhando descalço na rua que parecia o leito de um rio. Peguei a sacola na
alfândega e vesti calça e sapato secos. A camisa secou no corpo. Como não existe
„sistema operacional‟ nesses aeroportinhos daqui, fiz o check-in sem possibilidade de
confirmar uma conexão. O voo para Trinidad foi num turbo-hélice Dash-8, para 50
passageiros. Saiu com atraso de 1 hora, e depois que decolou o piloto informou que
atrasou porque há mal tempo em todo o Caribe.
A propósito, Caribe foi um povo guerreiro que chegou por aqui 150 anos antes de
Colombo e expulsou os Arauaques, que eram pacíficos. Os habitantes originais eram
140
os Cyboneys, de 5000 anos. Os pretos foram trazidos pelos ingleses que mataram os
Caribes.
O desembarque em Port of Spain foi horrível. Primeiro, o fulano da imigração prendeu
meu passaporte porque não tinha conexão marcada. Esperei todo mundo passar, ele
atendeu o celular e depois analisou meu caso. Quando finalmente me liberou fui pegar
a bagagem e só estava a sacola grande numa esteira parada. Dezessete pessoas do
meu vôo estavam sem bagagem. Depois de uma hora de confusão, sai para tentar
uma conexão, com a intenção de voar Paramaribo, no Suriname – Belém, sem
sucesso. Quando voltei para a alfândega as malas de todos os 17 apareceram
rodando em outra esteira. Disse o fiscal, que não acreditei, que elas tinham sido
encaminhadas para a esteira errada. Acabei indo numa van para o Piarco Hotel que,
como tudo que vi em Trinidad tem um gosto amargo de subdesenvolvido. Diária de
US$90. Me instalei, fumei um cigarro e fui me acalmando. Peguei o catálogo telefônico
de páginas amarelas e comecei a ligar, até que consegui uma reserva via CaracasSão Paulo-Rio-Salvador. Depois do almoço fui na van do hotel ao aeroporto, peguei
minha passagem classe econômica e paguei no cartão o equivalente a US$1257, para
posterior reembolso pela BYC.
Dormi bem e acordei às 5h. Check-out do hotel e check-in no aeroporto sem
problemas. O céu está coberto de alto-estratos, mas o dia está ensolarado sem chuva
e sem ventão. O avião foi um Dash-8, igual ao de ontem. Sentei na janela e vi a „Boca
do Dragão‟, onde quem vem do mar contorna a ilha pelo oeste e entra para o porto
cheio de veleiros. Ao largo, dentro da grande laguna, existem campos de petróleo,
com jack-ups e navios petroleiros. Uma grande pluma de material em suspensão vem
da foz do Orinocco, carregada pela costa da Venezuela até a Boca do Dragão.A ilha
de Trindade está para o Orinocco assim como Marajó está para o Amazonas. Para
passar pelo sul de Trindade tem que navegar pela foz do rio.
Em Caracas fui fazer alfândega e a oficial, uma gatinha, me aconselhou a não dar
entrada no pais, ficar na área de conexão. Bem que Igor havia dito, a Venezuela é
terra de mulher bonita. Fui para a sala VIP da American Airlines, que tem sala de
fumante decente, merenda, cafezinho e internet grátis. Sentei no computador e peguei
o boletim do tempo da NOOA:
TROPICAL
NWS
TPC/NATIONAL
1130
AM
EST
WEATHER
HURRICANE
WED
CENTER
NOV
OUTLOOK
MIAMI
FL
12
2003
FOR THE NORTH ATLANTIC...CARIBBEAN SEA AND THE GULF OF MEXICO...
A BROAD AREA OF LOW PRESSURE CONTINUES TO PRODUCE NUMEROUS
SHOWERS AND THUNDERSTORMS OVER PORTIONS OF THE NORTHEASTERN
CARIBBEAN SEA...LAND AREAS FROM HISPANIOLA TO THE LEEWARD
ISLANDS...AND THE ADJACENT PORTIONS OF THE ATLANTIC. THE SHOWER
ACTIVITY REMAINS DISORGANIZED AT THIS TIME ... AND CONDITIONS DO NOT
APPEAR FAVORABLE FOR SIGNIFICANT DEVELOPMENT OF THIS
141
SYSTEM. HOWEVER...EVEN IF NO DEVELOPMENT OCCURS...THIS SYSTEM
SHOULD CONTINUE TO PRODUCE LOCALLY HEAVY RAINS WITH THE THREAT
OF FLASH FLOODS OVER PORTIONS OF THE LEEWARD ISLANDS...THE VIRGIN
ISLANDS.AND PUERTORICO. AN AIRFORCE RESERVE UNIT RECONNAISSANCE
AIRCRAFT WILL INVESTIGATE THE AREA EARLY THIS AFTERNOON.
Às 17:30 fiz meu check-in, O avião era um Boeing 737 da Varig, com classe executiva,
e usei minhas milhas Smiles para um up-grade, que eu mereço. Cheguei em Salvador
dia 13 de novembro. Bruno chegou dia 4 de dezembro. Foi até São Domingos no
Blooper, fazendo uma escala em Martinica e repetindo cinco séculos depois o
desembarque de Cristovam Colombo. Ele também voou de volta via Caracas.
142
CRUZEIRO NO ALASCA – Junho 2006
O Cruzeiro no Alasca saiu do sudoeste do Canadá, de Vancouver, BC, a 50°N, vizinha
a Seattle, WA, EUA, cidade da Microsoft e da Boeing. Rumou para norte pelas águas
protegidas da Inside Passage, um conjunto de fiordes glaciais, adentrou as águas
estadunidenses no que é politicamente o Alasca a partir de 55°N – uma tripa de uns
150 km de largura nos fiordes a noroeste do Canadá - e finalmente passou para o
oceano aberto a 60° N, navegando para oeste no golfo do Alasca até Seward.
O círculo polar ártico passa bem no meio do Alasca, de forma que quem vai pra lá está
afim de ver geleira. Por ali elas existem de dois tipos: as geleiras „alpinas‟, que são
como rios de gelo descendo das montanhas numa „correnteza‟ de 2cm a 2m por dia; e
as geleiras que flutuam no oceano, as da capa polar.
Gelo é água cristalizada, e a água, dentre outras propriedades incomuns em relação
às outras substâncias, tem uma
densidade menor quando em estado
sólido do que quando em estado líquido.
A gente aprende isto no curso primário,
mas se não vai lá ver, só se dá conta do
efeito no “whisky on the rocks”. Se o gelo
afundasse, o planeta que você vive seria
muito mais frio, porque o gelo iria para o
fundo do mar e se acumularia numa
quantidade muito maior, sem chance de
derreter nas bordas das calotas polares.
Não existiriam icebergs, o nível do mar
seria mais baixo no mundo todo, e o pior, teríamos menos área para velejar.
Se você quiser ver como é um esquimó típico, vai ter que pegar um trenó com
cachorros e andar bem para o norte por
sobre a capa de gelo. Vá se conformando
com minha amiga Tlingit, que já tomou
banho e está integrada ao estilo de vida
dos americanos. O tipo físico é isto ai. Os
nativos foram mortos, ou escorraçados
pelos russos e pelos americanos, ou se
integraram num novo estilo de vida.
Representam 11% da população do Alasca
atual, de 600 mil habitantes. E olhe que o
Alasca é do tamanho do Amazonas, o
dobro do Texas! Metade destes 600 mil
estão em Anchorage, que cresceu na segunda metade do Séc.XX, como base militar e
como base das empresas de petróleo que produzem no oceano Ártico. Anchorage é
uma cidade americana típica e moderna, e se você lá não alugar um carro não vai a
lugar algum.
143
Os 300 mil restantes da população do Alasca estão espalhados, com baixa densidade
demográfica. A capital é Juneau, que fica bem mais ao sul, na zona dos fiordes e da
Inside Passage. Juneau tem hoje 30 mil habitantes, e começou a existir como um
acampamento de garimpeiros em 1880. Até hoje não tem acesso rodoviário nem
ferroviário, só se chega lá de avião ou de navio. Ainda assim, recebe de uma só vez 4
navios de turismo, cada um com 2000 passageiros. Junto ao porto existe uma
estrutura de receptivo, com 6 helicópteros, 4 aviões, 20 ônibus para levar a turistada
às shore excursions e aos museus.
Juneau, com 4 cruisers no porto
Esquimó retratado no museu
Turistas bateando no Rio do Ouro, Juneau
Observe que o norte está torto uns 50° para
direita
Para efeito de turismo existem dois Alasca: 1. o da tripa na Inside Passage, onde está
toda a história da conquista da região, século XIX, incluindo o ciclo do ouro, e 2. o
do oleoduto, entre Valdez e Prudhoe Bay, passando por Anchorage e Fairbanks, e
cruzando o circulo polar ártico. Em termos de geografia também as duas regiões são
bem distintas. Vamos dar uma voltinha.
144
Na ultima glaciação, há 20 mil anos, o nível do mar estava entre 110 e 120 metros
mais baixo que o atual no planeta inteiro. A capa polar era muito maior que é hoje.
Então o Estreito de Bering, que separa a Ásia da América, era emerso, terra e gelo, e
as águas do Ártico não se misturavam com as do Pacífico. A distância entre a Sibéria
oriental e o Alasca ocidental é de 42 milhas, mais ou menos como de Aratu a Morro de
São Paulo. Foi nesta época, e pelo que é hoje o Estreito de Bering (profundidade atual
entre 40 e 50 metros) que o Homo sapiens passou para a América do Norte. Depois
migrou para a América do Sul, contornou a floresta amazônica, atravessou a mata
atlântica, e por fim, 10 mil anos depois, com o nível do mar 35 a 40m abaixo do atual,
chegou à Bahia, um dos últimos locais do planeta a ser ocupado, excetuando a
Antártida e as ilhas do Pacífico. Não admira que o bahiano tenha fama de cansado! A
partir de 500 anos atrás as Américas foram invadidas pelos navegantes europeus, e
os nativos foram dizimados.
O povo que veio da Ásia e ficou lá pelo norte é adaptado ao frio. O esquimó de
verdade habita o gelo na periferia setentrional da América, do Alasca até a
Groenlândia. Eles moram em tocas de gelo e neve, os iglus. Ao nascer, dentro do iglu,
são revestidos com óleo de baleia ou de foca, como uma segunda pele. Vestem uma
roupa de baixo de pele de caribu, uma espécie de rena, e por cima roupa de pele de
urso. Quando ficam velhos, entre 40 e 50 anos, que os dentes estão gastos, saem
para uma caminhada forçada, suam, o suor congela e eles morrem. Se você estiver
interessada, recomendo o livro do Hans Ruesch, “No País das Sombras Longas”,
1998, Ed. Record,204p.
Urso marrom e pássaros no verão
Caribu pastando numa tundra.
Representação de um esquimó tirando uma foca de um buraco no gelo.
Toda a região é ambientalmente muito sensível. A ocupação pelo homem branco cria
um desequilíbrio insustentável, e as cidades de hoje tem que importar tudo que
consome, exceto peixe. O bacalhau está quase em extinção por lá, e agora é a vez do
salmão. Esta gramínea acima, a tundra, só existe no verão. No inverno todo este
campo está coberto com 1 a 2m de neve. Toda primavera as estradas tem que ser
recuperadas. No verão o sol „amanhece‟ no leste, roda para o sul, vai para oeste,
noroeste, e à meia noite está no norte. No inverno em Anchorage são 5 horas de um
sol bem baixinho, sempre pelo sul, fazendo sombras longas (dizem). Até os campos
de golfe são „inside‟ e climatizados.
145
1.„Meia-noite‟, do hotel em Anchorage, 11 de
junho, olhando para o norte
2. Foto de uma foto numa
galeria de arte: aurora boreal:
a corrente elétrica acende a
ionosfera 60 km acima da
superfície, como uma lâmpada
neon.
3. Transição da tundra para a
mata de pinheiro olhando para
o sul na estrada de Anchorage
para Seward.
Em 1728, Pedro o Grande, czar da Rússia, mandou Vitus Bering verificar se a Ásia e a
América tinham uma ligação. Bering velejou pelas Aleutas, acompanhando a corrente
quente do Japão, que em contato com as águas frias que descem do Ártico
desenvolvem um fog, de forma que a visibilidade fica muito limitada. Mas mapeou o
estreito que hoje leva seu nome. Em 1799 os russos se instalaram em Sitka, uma ilha
na borda dos fiordes da Inside Passage. Eles caçavam, e estabeleceram um comércio
de peles com a China, o grande mercado da época. Tiveram muitos conflitos com os
nativos, mas dominaram a região por 50 anos. Ai começaram a chegar espanhóis,
franceses, ingleses e americanos. Em 1850 os ingleses já eram os „donos do mundo‟,
estavam ocupando todo o Canadá e os russos com dificuldade de manter a posse,
venderam o Alasca para os americanos. O negócio de 7.200.000 dólares foi assinado
em Sitka em 1867. O povo americano reclamou, achando que era desperdício de
dinheiro público. Em 1880 dois aventureiros, R.Harris e Joseph Juneau acharam ouro
mais ao norte, na borda do continente, e fizeram um acampamento na beira da praia.
No ano seguinte mais de 100 garimpeiros estavam na área e fizeram uma vila que é
146
hoje a cidade de Juneau, a qual em 1906 passou a ser a capital do Alasca. Em 1917
os americanos já tinham tirado de lá 70.000.000 de dólares de ouro, e em 1959 o
território do Alasca foi incorporado como o 49° estado americano. Durante a „guerra
fria‟ Anchorage foi ligada com ferrovia e rodovia ao Canadá e aos Estados Unidos, e
cresceu como uma grande base militar avançada. Em 1969, os americanos, que já
haviam desbancado os ingleses como „donos do mundo‟, já haviam desembarcado um
homem na lua, descobriram petróleo em Prudhoe Bay, no north slope do Alasca, onde
estão hoje as maiores reservas dos Estados Unidos. Juneau vive hoje do turismo dos
navios de cruzeiro, da exploração de madeira (timber), da pesca e dos royalties do
petróleo
de
Prudhoe
Bay.
Acima: Navegando no fog do Golfo do Alasca
Alasca
Placa do Pacífico em subadução sob o sul do
Abaixo: Sedimentos de talude marinho, dobrados, na frente do arco de ilhas
A Inside Passage e as Aleutas, são arcos de ilhas vulcânicas que se levantam na
frente da placa do Pacífico, da mesma forma que o Japão (vide mapa acima que
fotografei na Escola de Geologia da UBC em Vancouver e lamentavelmente não
anotei o nome da autora). As faixas
vermelhas são zonas de deformação,
com vulcanismo e terremotos. A costa
do Canadá e do Alasca na Inside
Passage é alta, as montanhas da
Coast Ranges chegam junto ao mar
nos fiordes, e são constituídas por
rochas ígneas. Tudo fortemente
dobrado. Quando chegamos em
Hoonah, na saída para o golfo do
Alasca, entramos na bacia sedimentar,
argilitos e calcários dobrados para
nordeste, com estratificação paralela, marcas de sola, tudo duro e cimentado,
aparentemente com bom teor orgânico (foto). O Coast Ranges contorna o sul do
Alasca com o nome de Alaska Range e se continua para sudoeste representado pelas
147
Aleutas. A parte central do estado, para norte, na altura dos 65°N, é dominada pela
planície aluvial do rio Yukon e seus afluentes, que drena para oeste no Mar de Bering.
A norte do círculo polar e subparalelo ao Coast Range, estão as montanhas do Brooks
Range, que se continuam para sudeste pelo Canadá e pelos Estados Unidos como as
Montanhas Rochosas. A norte do Brooks Range, além do paralelo 70°N, estão as
bacias petrolíferas no Oceano Ártico.
1.oleoduto 2. terminal com petroleiro 3. pista de Cooper do Summit, deck 11, 700m .4.Celebrity Cruiser
O petróleo de Prudhoe Bay é escoado por um oleoduto de 1,2m de diâmetro que vem
suspenso em 78000 suportes espaçados de 20m até atravessar o permafrost
(substrato permanentemente congelado, foto). Onde o substrato permite drenar a neve
que se derrete em contato com o duto “sem causar problemas”, o duto é enterrado. O
oleoduto contém um volume de 9 milhões de barris, o equivalente a um campo
pequeno de petróleo, e movimenta 6 milhões de barris de petróleo por dia (3 vezes a
produção diária da Petrobras!) até o terminal em Valdez, de onde saem 4 petroleiros
por dia. Brinquedinho de gente grande!
148
1. no camarote 2. imagem da câmara de proa vista na TV do camarote
3. bar-boite no deck 10 do Summit, proa
4. píer basculante de bordo
Para terminar, uma palavrinha sobre o navio. A Celebrity Cruises é uma empresa que
os americanos compraram dos gregos, e hoje tem 9 navios. Eles fazem o Caribe no
inverno de lá (depois dos furacões do verão e outono), a Escandinávia e o Alasca no
verão, o Mediterrâneo, o Mar do Norte, fazem travessias do Atlântico Norte, vão ao
Havai, a Galápagos e às Bermudas. Fazem cruzeiros pelo Canal do Panamá e pelo
cone sul da América do Sul, de Valparaiso até Búzios, passando pelo Cabo Horn no
verão nosso. O navio que eu fui para o Alasca é o Summit, um empreendimento de
algumas centenas de milhões de dólares com um foco de serviços destinado a atender
aos norte-americanos da terceira idade. Nos portos onde parou a Celebrity mantém
uma estrutura receptiva para dar suporte às shore excursions.
O GTS-Summit é um resort de 100 mil toneladas, operado com turbinas a gás. Não
tem eixo, são rabetas oscilantes. Manobram no porto sem rebocador. Não vibram
nada, de forma que tanto faz você ir num deck alto ou num baixo. No teatro luxuoso
com assento para 1200 pessoas, num evening houve um show do Cirque du Soleil,
com trapezistas e malabaristas atuando e o navio andando a 20 nós. São onze
andares servidos por elevadores panorâmicos grandes e rápidos. Impecavelmente
limpo. Tem áreas de fumante decentes, um jornal diário com a programação,
distribuído nas cabines à tardinha do dia anterior. Nos portos onde não atracam no
píer, são basculados dois píer auxiliares a boreste no deck 1 onde atracam os tender
que desembarcam os 2 mil passageiros. Os tender são as „balsas salva-vidas‟, de
149
fibra, dois motores diesel, assentos estofados para 120 passageiros de cada vez.
Tudo muito organizado e eficiente.
O camarote tem controle de temperatura para ser regulado à vontade do freguês. Uma
ducha pressurizada com água quente abundante, toalhas de algodão egípcio, telefone
para ligar via satélite a qualquer hora (9,7 dolares/min), serviço de camareiro 24 horas,
e uma TV interativa grande com os canais do navio, onde você assiste a um „trailer‟ da
excursão e compra ali mesmo. Também canais tipo Discovery e CNN, e mais uns
tantos “pay-per-view”, tipo „filmes para adultos‟ e acesso direto ao pregão da bolsa de
Nova York. Francamente, é bom ir lá para poder contar esta história. Mas essa não é
exatamente a minha praia! li dois bons livros na viagem.
150
Visita à Nova Zelândia – março 2006
A Nova Zelândia tem uma área de 268000 km2, assim do tamanho da Inglaterra
(incluindo Escócia e Irlanda), ou do Rio Grande do Sul, ou metade da Bahia, e se
estende esticada NE-SW com uma largura média de 120 km. A parte mais a norte fica
no paralelo 34°S, na altura de Buenos Aires, e a mais sul no paralelo 47, de forma que
viajar na Nova Zelândia é como se você estivesse na parte norte da Patagônia. Mas
com uma grande diferença: ao invés de lidar com os queridos hermanos, lá você
encontra 4 milhões de simpáticos kiwis.
34 S
47 S
166°E
179°E
O país é servido por uma boa rede de estradas bem sinalizadas. Lá você tem que
dirigir pelo lado errado, mas prestando atenção sai tudo bem. Nós alugamos uma
campervan das grandes na qual rodamos 3000 km em 10 dias, sem qualquer
problema. Usamos uma rede de campings para passar a noite, os Holiday Park, de
ótimo padrão, e algumas vezes dormimos em qualquer lugar. Entre a chegada e a
saída passamos 4 noites de hotel em Auckland, a cidade que tem a maior quantidade
de veleiros por habitante no mundo, segundo a propaganda deles. Auckland concentra
¼ da população do país, está estrategicamente situada no fundo de um golfo no
noroeste da Ilha do Norte, aberto para o Pacífico e a sotavento dos vigorosos
westerlies que açoitam a costa oeste, aberta para o Mar da Tasmânia.
151
Dentro da campervan,
pernoitando no camping
A área é quase tão boa para velejar quanto a costa da Bahia, e o governo da Nova
Zelândia, uma monarquia constitucional da atualmente diluída British Commonwealth,
tem como meta institucional a atividade esportiva, e a vela é uma delas.
Fotos em Wellington, a capital do país, a 41°S, no estreito de Cook
O esporte mais popular é o rúgbi, onde os Máoris, um povo primitivo e forte, faz
caretas e bate nos britânicos, mas uma minoria elitizada veleja mesmo, e fatura em
cima do arquiteto naval mais famoso do mundo hoje, o Bruce Farr, que no momento
(março de 2006) está perdendo para o argentino Juan Kouyomdjian na Volvo Ocean
Race, a super regata de volta ao mundo com tripulação. Nesta regata o Brasil está
representado pelo barco Brasil 1, comandado pela mais brilhante estrela olímpica de
vela, o carioca Torben Grael. O barco holandês que está disparado na frente da
regata, no entanto, é comandado por um kiwi de Auckland, Mike Sanderson. A
respeito de Mike o comitê de imprensa da VOR escreveu: “sailing is a world where
superstars are rare. When they are found they burst on scene like a supernova”.
Mas na verdade, talvez por tradição ou racismo, os kiwi estão atrasados na arte de
construção naval: a quantidade de catamarans por lá é mínima e primitiva, uma
imitação dos outrigger nos quais os máori chegaram na terra virgem 300 DC. Eles
ainda estão na fase de desenvolver os meio-barco da Inglaterra, monocasco,
carregando uma enorme quilha trambolhenta dependurada embaixo.
152
O “Big Boat”, o KZ1 projetado por
Farr (2ª foto p.151 e essa ai ao
lado), o monocasco mais veloz do
mundo, 40 tripulantes, desafiou em
1988 os americanos dentro das
regras originais da America‟s Cup, o
Deed of Gift. Os gringos fizeram
dentro do prazo da regra um catamarã cujo comprimento era metade do Big Boat, o
Star & Stripes, 11 tripulantes, e em duas regatas de 40 milhas, chegaram 20 minutos
na frente! Os vizinhos de oeste, na Austrália, separados pelos 1600 km do Mar da
Tasmânia, estes sim, estão desenvolvendo catamarãs de verdade. Mas isso é outra
história.
A Nova Zelândia fica na borda leste de uma placa continental que inclui a Austrália e o
Mar da Tasmânia, e por baixo desta placa desce em subadução a placa oceânica do
Pacífico (vide mapa p.147). Esta convergência de placas, à semelhança da costa
oeste da América do Sul, propicia uma zona de orogenia ativa desde o Mioceno (25
milhões de anos) e os sedimentos marinhos que fazem o substrato das ilhas foram
fortemente dobrados com vergência para oeste. A cadeia de montanhas que se
levanta em consequência, eles chamam de Southern Alps (Tiritiri dos Maori), e a
atividade vulcânica na ilha é uma realidade que eles vendem para o turista. Em
Waitomo nós entramos de barco inflável numa caverna de calcário cretáceo iluminada
pelos glowworm, os vermes vagalume ($60/pessoa) e em Waimangu filmamos os
gêiser em atividade ($25/pessoa para acessar a área) e os vulcões de lama
borbulhando mansamente.
153
Calcários cretáceos mergulhando para oeste
Pohuto Geyser em atividade
e
Embarcando no bote para explorar a caverna
vulcão de lama borbulhando mansamente
O turismo é uma das principais fontes de renda da Nova Zelândia, se não a maior. O
que vimos por lá foi uma forte atividade madeireira, em áreas de reflorestamento de
pinho, e extensivas criações de ovelha, onde eles agregam valor industrializando o
leite e a lã. Quando os ingleses chegaram, em meados do Séc. XIX, fugindo do
desemprego e da fome, consequência social do primeiro impacto da revolução
industrial em curso na Inglaterra, usaram sua técnica de ocupação: tocaram fogo na
mata nativa. A Nova Zelândia, como a África do Sul inglesa, não tem mais vegetação
primária. Foi tudo destruído com o argumento que floresta primária é lugar de bicho e
não serve para gente viver. O que é verdade, mas a Amazônia...
Pois bem, os kiwi recompuseram a mata plantando pinheiro. E hoje vendem a imagem
de „untouchable country‟, monitoram os peixinhos dentro da marina, tem energia limpa,
hidroelétrica e geotermal, você pode beber a água da torneira. Ganharam o apelido de
kiwi durante a 2ª Guerra Mundial, quando tiveram que lutar junto aos australianos
contra os japoneses. Os australianos e os neozelandeses se gozam como os
portugueses e os brasileiros, e nas livrarias se vendem livros de piada com foco
exclusivo nos aussie. Os milicos aussie chamam os neozelandeses de kiwi, que é um
pássaro lerdo que não voa, quase extinto. Não vimos nenhum vivo.
154
Regata vespertina no lago Taupo
e o ferry que faz a travessia entre a ilha do Norte e a ilha do Sul
Separando a ilha do Norte da ilha do Sul está o estreito de Cook, com ventos de 30
nós, marés de grande correntada e baixios extensivos devido aos derrames de lava
vulcânica. É todo balizado, mas cuidado: quem vai para o porto deixa a boia vermelha
por bombordo. Na Austrália também. Fui „reclamar‟ com o Harbour Master no Lago
Taupo e o velhinho queria me convencer que são regras internacionais.
O ferry que faz a travessia do estreito de Cook navega nas águas protegidas dos
fiords próximo a Picton. NZ$500 para atravessar a campervan com 6 pessoas. $50 por
pessoa + $200 para o carro. (1NZ=0,7US). A travessia dura 3 horas. O lago Taupo
tem 600km2, e no Tratado de Waitangi, que deu a independência da Nova Zelândia
em 1926, o lago e o Rio Waikato, seu único outlet (que tem várias hidroelétricas),
ficaram como propriedade da Coroa.
Embora o Cook Strait separe a ilha do Norte da do Sul, a travessia de Wellington para
Picton vai de leste para oeste. O ferry anda a mais de 15 nós, e se você vai para o
solar deck no 10° andar, tem dificuldade em andar para a proa, contra o vento.
Quando sai do estreito para as águas protegidas dos canais, tem a sensação de estar
em fiordes, uma costa dendrítica, profundamente recortada. Os „fiordes‟ são na
verdade canais que sobraram dentro da massa de lava vulcânica que adentrou o mar,
canais estes que se distinguem dos fiordes verdadeiros porque são rasos, e os fiordes
glaciais são profundos.
A ilha do Sul tem uma densidade populacional mais baixa, e lá você encontra uma
concentração maior de maoris, possivelmente empurrados para as áreas mais frias
pelos europeus. Mas é também na ilha do Sul onde você pode praticar os esportes de
inverno. Nosso grupo estava mais interessado em coisas mais quentes, como o sky
dive, onde se salta amarrado a um instrutor em queda livre por 2 km, mais 1,5 km de
pára-quedas ($185/pessoa), ou descer corredeira num bote inflável. Quem não quer
esquiar pode descer nas geleiras de helicóptero ($200/pessoa). Existe uma bem
montada estrutura para receber o turista, e em qualquer vila está disponível uma loja
de informações turísticas com bom atendimento, os і site, das 9am até 5pm.
155
1 -Methven é um vilarejo próximo ao Monte Cook, Ilha do Sul, o ponto culminante da NZ com 3753m.
2 – Lá vem Reco no paraquedas cor de rosa
3 – Chegou!
Na ilha do sul nós descemos pela costa leste até Christchurch, atravessamos o Tiritiri
o te Moana e subimos pela costa oeste para Nelson e Picton. Em Christchurch ficamos
mais de 24 horas, uma opção prolongada para o nosso ritmo de viagem.
Se você for num programa de pacote, do tipo aeroporto-hotel-aeroporto, Christchurch
deve ser contemplada com uns três dias. É a maior cidade da ilha do Sul, e é bem
equipada para receber convenções. O porto comercial, uma marina e um terminal de
petróleo estão agrupados na cratera do vulcão Akaroa. Pegamos o ônibus 28 e fomos
até a „gôndola‟, um teleférico que lhe leva ao topo de um monte de lava que constitui a
Banks Península.
A Banks Península é a bola dendrítica à direita da imagem acima, derramada como
lava na borda do oceano Pacífico e resfriada de tal forma que preservou um conjunto
de baias endentadas na periferia. Foi construída pela erupção de dois vulcões. As
crateras geminadas foram aproveitadas como os portos de Akaroa e Lyttelton. Em
1770, James Cook, comandante do Endeavour, um barco da marinha inglesa com
finalidades científicas, mapeou a Nova Zelândia, e deu a esta península o nome do
botânico de bordo, J. Banks. No topo do morro de basalto acessado pela gôndola
existe um centro turístico e uma galeria que eles chamam de “Túnel do Tempo”, um
156
museu que conta a história da Nova Zelândia e tem no final um pequeno anfiteatro
onde um filme de 12 minutos conta a mesma história.
A história começa no Mioceno Superior, no filme com uma animação mostrando a
erupção, e na galeria com um perfil litológico no basalto in situ. Uma vegetação
luxuriante se desenvolveu do Plioceno ao Recente. A chegada dos Maoris ocorreu no
Séc.III DC, nas enormes canoas tongiaki, com outrigger e velas de esteira de palha.
Foram os primeiros humanos a chegar na ilha; 1500 anos depois chegaram os
ingleses. A chegada dos europeus é contada com detalhes e bem documentada. Daí
vem a guerra entre as duas etnias, contada rapidamente, e o tratado de paz de 1926.
Esta parte final você pode ver romanceada e em casa, alugando numa loja de vídeo o
filme “Honra e Liberdade”.
157
.
canoa tongiaki, com outrigger e vela de palha
Os Netto (Reco,Elaine, eu, Mila, Tica e Henrique) e seus agregados do Oca-Ata-Aruai,
equipados para uma saída no Excitor em Paihia
158
MARANHÃO – PIAUI 2008
Mila tirou dez dias de férias e voamos Salvador - São Luis voltando de ônibus via
Teresina. Essas férias foram metade turismo e metade „aventura‟, onde aventura
quer dizer viajar numa região „terceiro mundo‟ usando os meios disponíveis para o
povão. Descobrimos que é tudo na base do ar condicionado, tem carro, moto e
barco para alugar em todo canto, o povo é lascivo, simpático, ignorante, pobre e
subjugado pelo poderio econômico.
O Maranhão e o Piauí são político-administrativamente parte da Região Nordeste do
Brasil, portanto sob a jurisdição da Sudene, mas do ponto de vista de geografia
física representam uma transição do nordeste semiárido para o norte úmido. O
chamado Polígono das Secas, área „protegida‟ por legislação específica, (lei nº. 175,
de 7 de janeiro de 1936, e Decreto-Lei de nº. 63.778 de 1968, que delegou ao
Superintendente da SUDENE a competência de declarar quais municípios
pertencem ao Polígono) tem seu limite oeste numa diagonal que atravessa o estado
do Piaui NE-SW, sempre a leste do rio Parnaíba.
O rio Parnaíba nasce na Chapada das Mangabeiras, na quádrupla fronteira entre
Tocantins, Maranhão, Piaui e Bahia (10° S, 46°W), e faz a fronteira política entre o
Maranhão e o Piaui em todo o seu percurso de 1400 km. Para oeste do rio Parnaíba
começa um Brasil semivirgem e grandioso. O Maranhão e o Piaui juntos têm 585 mil
quilômetros quadrados, algo entre Bahia e Minas Gerais. A bacia hidrográfica do Rio
Parnaíba tem 340 mil km2, e está implantada sobre uma bacia sedimentar
paleozóica constituída de rochas arenosas distribuídas numa área de 600 mil km2.
O contorno em preto representa os limites da Bacia Sedimentar do Parnaíba. As linhas claras
são as fronteiras estaduais, que no caso entre o Maranhão e o Piaui coincide com o curso do
Rio Parnaíba. A manchinha branca na linha de costa cortada pelo meridiano 43°W é a área
de turismo de europeu conhecida como Lençóis Maranhenses. Da foz do Parnaíba até a
159
fronteira do Ceará são 66 km da costa do Piaui. A norte do paralelo de 3°S e a leste do
meridiano 45°W existe uma estrutura de turismo funcionando bem o ano todo.
Viajando por esta região dá a sensação que o alagoano Manuel Deodoro da
Fonseca, quando proclamou a República, estabeleceu um plano estratégico de
importar a revolução industrial européia para os estados do sul, onde dominava a
oligarquia do café, e preservar os estados do norte para só „desenvolver‟ quando o
Brasil tivesse 200 milhões de habitantes. Os turistas estrangeiros (alemães,
portugueses e americanos) com os quais nós percorremos os „lençóis maranhenses‟
exultavam com o ambiente preservado, a vegetação primária de restinga no litoral e
cerrado mais para dentro, a riqueza e abundancia de água limpa, a diversidade de
espécies de palmeiras nativas, que em campos sem cerca começam a ser cultivadas
com a nova onda do biodiesel.
No momento, o governo do PT deu um chega pra lá na oligarquia piauiense, e está
construindo a ferrovia transnordestina, que integrada com a rede antiga da Cia.
Ferroviária do Nordeste e a Estrada de Ferro Carajás vai ligar Pernambuco até o
Pará, passando em Fortaleza e São Luís. A expectativa da chegada da ferrovia
incrementa o plantio de grãos. Os paulistas, paranaenses e gaúchos estão
comprando terras no Piaui, onde soja e milho começam a ser plantados em
quantidades crescentes, um reflexo do crescimento da soja no Maranhão. O trem
facilitará o escoamento dessa produção, e quando pronta, a Transnordestina estará
apta a se integrar às ferrovias Norte-Sul, Carajás e à Centro-Atlântica.
160
Os maranhenses e piauienses na santa ignorância lá deles, dizem que tem um
inverno de dezembro a maio e um verão de junho a novembro. O que ocorre é que
após o equinócio de setembro, quando o sol vem fazer o verão do hemisfério sul, a
insolação nesta área equatorial é intensa, as máximas de temperatura aumentam
mais de 10°C e ocorrem as chuvas de verão, que eles chamam inverno e os
deputados da industria da seca repetem. A Embrapa e a Sudene tem levantamentos
que mostram que o período chuvoso estende-se de outubro até metade de abril, „ou
até o início de maio nos anos bons‟, e o período de estio ocorre de maio até
setembro. A água da chuva se infiltra na bacia sedimentar, e a mitigação da estação
de estio é tradicionalmente feita com a construção de açudes, o que atende a
interesses politiqueiros, mas quem passa por lá vê que açude não é solução, é um
fomento à pobreza e ao subdesenvolvimento.
Mas solução existe. A bacia sedimentar do Parnaíba é um aqüífero aberto, com
intrusões de diabásio, onde o ciclo anual da água renovável acumula dezenas de
milhares de quilômetros cúbicos (1km3=1 bilhão m3) de água doce abaixo do nível
freático. Esta água pode ser produzida como se produz petróleo, com a vantagem
que é anualmente renovada. Se não for usada, na época das chuvas o nível freático
sobe, inunda as planícies fluviais e escorre para o mar. O que pode e deve ser feito
é uma cubagem da quantidade de água infiltrada por ano, um programa de
desenvolvimento sustentável de campos de água e a implantação de uma
infraestrutura de distribuição.
O nosso turismo começou em São Luis, uma cidade hoje com quase um milhão de
habitantes, implantada numa ilha enorme, quase do tamanho da Baia de Todos os
Santos com todas as suas ilhas. Esta ilha de São Luis separa a foz do Rio Itapecuru,
do lado leste, da foz do Rio Mearim, do lado oeste, e depois de Marajó é a maior da
costa brasileira. O Rio Mearim desemboca na Baia de São Marcos, cuja área e
amplitude da maré são o dobro das respectivas na Baia de Todos os Santos. A
correnteza na Baia de São Marcos no pico da maré passa de 6 nós, de forma que a
navegação ai é saindo na vazante e entrando na enchente. Exceto no canal balizado
que dá acesso ao super-porto da Vale do Rio Doce, por onde sai o minério de
Carajás, é tudo raso. O Iate Clube nem tem píer de atracação, os barcos ficam
encalhados na praia. É a terra dos catamarãs, os meio-barco de quilha não tem vez.
Veja acima a flotilha de catamarãs na praia do Iate Clube, e o estaleiro de
Gaudêncio na Vila Bacanga. Abaixo, uma biana na maré vazia debaixo da ponte de
acesso à Vila Bacanga, e uma vista da maré vazia olhando para noroeste a partir da
cidade histórica, no pátio da Capitania dos Portos. Esta área há dez anos era
atracadouro de navio!
161
O assoreamento dentro da baia é intenso, e a cidade de São Luís vem crescendo e
se modernizando as expensas de enormes aterros. O rio Mearim foi represado a
montante, e a megamaré mobiliza o sedimento dentro da baia, o qual é parcialmente
removido com dragas para manter os canais e fazer crescer a área urbana. Os
bairros de Renascença I, Renascença II e Ponta d‟Areia, onde ficam os hotéis e as
Universidades particulares, foram criados assim nos últimos dez anos. A passagem
pela cidade histórica, com artesanato e casas azulejadas mal conservadas, não me
criou interesse.
A única saída rodoviária da cidade e da ilha é para sul, pela BR-135, em pista dupla,
bem conservada. A estrada segue paralela à Ferrovia Carajás, de bitola larga, e à
Ferrovia do Nordeste, de bitola estreita. Nos 60 km que andamos para sul até
Bacabeira, vi dois trens da Vale transportando minério de ferro, cada um com 1km
de comprimento e 3 locomotivas. Em Bacabeira, já fora da ilha, a BR-135 entronca
com a MA-402, de pista simples e de boa qualidade, a qual segue para leste por 200
quilômetros até Barreirinhas.
A MA-402 foi construída por sobre as dunas fixadas por vegetação, e é paralela à
costa, 50 a 60 km para dentro. As dunas são quaternárias, tem espessura de
dezenas de metros e estão implantadas por sobre os arenitos cretácicos da
Formação Itapecuru. Depois que passamos o Rio Piriá, nos afastando da
„civilização‟, a paisagem fica deslumbrante. Trinta quilômetros para norte da estrada
estão as dunas móveis do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (quatro fotos
acima na p.160), e 60 km para o sul fica a estrutura geológica do final do paleozóico,
o Arco Ferrer, que foi soerguido há 300 milhões de anos para isolar a Bacia do
Parnaíba do Mar de Tethys.
Não vou encher o saco com muita geologia, mas esta área para mim é marcante
porque foi ai que tive meu primeiro contato com a prática de geologia de petróleo.
Em 1964, como estudante de geologia da UFBA, fui estagiar na Petrobras orientado
pelo geólogo australiano Warren Jopling no poço PAF-7-MA (Projeto Arco Ferrer nº7,
Maranhão). Foram estes poços PAF que comprovaram a estrutura conseqüente da
quebra do supercontinente Pangea em Gondwana e Laurásia. Os resquícios do
Paleo-Tethys existem até aqui na Bahia, quando o mar interior ficou isolado pelo
Arco Ferrer, secou e deixou no que é hoje a ilha de Matarandiba, o depósito de sal
que é produzido à profundidade de 1100m pela Dow Chemical.
Barreirinhas é um fim de mundo na margem direita do Rio Preguiças, uma vila
turística onde termina a MA-402. Lá existe uma pista de pouso onde você pode
162
fretar um monomotor para sobrevoar os lençóis, umas tantas pousadas com ar
condicionado e restaurante, e algumas empresas que disputam os turistas para leválos de jardineira (jipe preparado para safári) nas dunas e/ou de voadeira até Caburé,
na foz do rio Preguiças. De Barreirinhas você volta para São Luis ou segue para o
Piaui com as empresas de turismo. A gringalhada e os paulistas do nosso grupo
voltaram. Nós seguimos.
Em Caburé ficamos na Pousada Porto Buriti, a única que tem restaurante, gerador a
diesel e telefone via rádio. Engraçado, não vi pretos no Maranhão nem no Piaui,
exceto um turista paulista. O povo é caboclo ou branco, muitos de olhos claros.
O rio Preguiças é da largura do Reno na Alemanha, e é dos pequenos aqui no
Maranhão. Por aqui existe um lugarejo chamado Vassoura, e tem esse nome porque
o vento na estação de estio varre tudo. As dunas móveis são de areia média,
mediana de tamanho de grão entre 1Ø e 2Ø, enquanto que o normal nos ambientes
eólicos é de 2Ø a 3Ø, areia fina. As dunas começam logo no pós-praia (backshore),
e a Pousada Porto Buriti para não ser soterrada as mantém cobertas plantando
salsa.
A primeira foto acima mostra as dunas, resultantes do retrabalhamento pelo vento da
areia da praia. O tamarineiro da segunda foto é centenário, e se ajustou ao vento
163
que transporta areia média. A terceira foto é a pousada com dez chalés em Caburé,
e a ultima é no caminho para Tutóia, para onde fomos pela praia numa Toyota Hylux
com a maré vazia: uma placa avisando aos motoqueiros que não entrem no
povoado de capacete. No ano passado dois motoqueiros de capacete praticaram um
roubo no povoado. Os moradores foram atrás e trouxeram os dois de volta,
amarrados pelos pés e arrastados com um jipe. Um morreu, o outro foi socorrido
pela polícia de S.Luis que chegou de helicóptero. A vida aqui ainda é tranquila, o
caboclo não se aborrece à-toa.
Em Tutóia alugamos uma voadeira com skipper e motor de popa e seguimos para o
Piaui percorrendo os 40km do delta do Parnaíba. Impressionante e incomum, um
super delta alongado paralelamente à costa e sem referências na literatura geológica
brasileira!
Dada à grandiosidade do que está preservado, imagino que a construção começou
pelo menos no Pleistoceno, o rio Parnaíba deixando sua carga e formatando a barra
da boca do canal principal no que é hoje a Ilha Grande de Santa Isabel, também
referida em outro mapa como Ilha Grande do Piaui. Ai o Parnaíba se divide em dois
distributários, um que vai para nordeste com o nome de Igaraçu e outro que vai para
noroeste e mantém o nome de Parnaíba. Na saída do Igaraçu para o mar aberto foi
construído um molhe de 2,5km, no que deveria vir a ser o Porto de Luis Correa. O
lado de barlavento do molhe se mantém profundo, mas o lado protegido, de
sotavento e sotamar, foi completamente assoreado em dez anos! Os sedimentos
que escapam da planície deltáica pelos canais distributários são parcialmente
acumulados na frente da Ilha das Canárias e da Ilha do Caju, compondo uma frente
deltáica alinhada com a corrente equatorial. As ondas de leste-nordeste empurram
esta areia praia adentro e o vento forte na estação do estio remove parte da frente
deltáica para dentro da planície deltáica como dunas eólicas de mais de dez metros
de altura. Mais para oeste, na Baia de Tutóia ficam as argilas do pro-delta por sobre
o „cascalho de marisco‟, como descreveu Maica, o nosso skipper, naturalista por
vocação, neto de índio, gente boa. Maica também nos ensinou e mostrou muito da
fauna e flora na área do delta.
1. Molhe em Luis Correa olhando para oeste, e 2. o assoreamento que o
distributário Igaraçu fez em dez anos onde deveria ser o porto a sotavento do
molhe.
164
3. O mangue sendo recoberto pela frente
deltaica: o delta do Parnaíba prograda
para o lado, para oeste!
4. Olhando
pela proa da voadeira de dentro de um
canal distributário, se vê a frente deltáica
avançando do mar para dentro!
5. e é
retrabalhada pelo vento.
6.Baia de Tutóia e o pro-delta. Veja na linha do horizonte à direita a frente deltáica
avançando por fora! 7.Revoada de guarás vermelhos sobre o mangue branco num
canal distributário.
Atravessando o rio Parnaíba chegamos na cidade de Parnaíba, 170 mil habitantes, a
2ª do Piaui. Nos instalamos na Pousada dos Ventos por duas noites. No dia 8 de
março de 2008 saímos numa Mitsubishi L200 da Clip (clipecoturismo.com.br) para
rodar no litoral do Piaui. A propósito, o Aurélio não registra parnaíba, mas o Caldas
Aulete diz que é uma faca comprida, tipo faca de açougueiro.
165
Esta tartaruga comeu um
saco plástico pensando
que era uma água viva.
Pronto, chegamos na
civilização.
A leste do rio Parnaíba
você já está no mundo
civilizado, e apesar de ter
gado solto na estrada; da
para ir sem grandes
problemas no seu próprio
carro tanto para o Ceará
(Jericoacoara, Fortaleza)
pela PI-210, quanto para
Pernambuco e Bahia pela
BR-343. Em Parnaíba a
Clip tem barcos e carros apropriados para lhe mostrar o delta. Ela me havia
reservado dois lugares num ônibus leito diurno para Teresina, onde eu pretendia
visitar Aurimar, um colega de república no tempo de solteiro em Maceió. Disquei 102
e pedi o telefone. A última vez que eu havia visto Aurimar tinha sido em
Florianópolis, em 1980, quando os filhos dele eram crianças de 3 a 4 anos.
Eu havia mandado um e-mail para Aurimar e não tinha resposta. Liguei de Parnaíba
e atendeu uma criança de uns 3 a 4 anos; quando eu perguntei por Aurimar, ele
chamou Vôo... e a ligação caiu. Tentei mais duas vezes sem sucesso. Daí Mila
achou que não tínhamos o que fazer em Teresina.
- Vinte e oito anos, ele nem se lembra mais da sua cara!
- Você está enganada, nós éramos amigos.
Chegamos em Teresina debaixo de uma chuva pesada, as bocas de lobo não
davam vazão e uma parte da cidade estava alagada. Nos instalamos num hotel e
liguei para Aurimar. Nosso encontro, espaçado de uma geração foi emocionante.
Mila participou do início da conversa, mas depois se sentiu pouco à vontade com
tanta reminiscência.
De Teresina continuamos de ônibus para o sul, parando em São Raimundo Nonato,
no Parque Nacional Serra da Capivara, a 60 km da fronteira com a Bahia e a 100 km
de Remanso, onde o rio São Francisco está represado.
Em São Raimundo Nonato alugamos uma moto, e tivemos uma grata surpresa com
o Museu do Homem Americano, o resultado da dedicação de uma vida da
arqueóloga paulista Niède Guidon que abriu o caminho para que o povo brasileiro
possa interpretar sua própria história desvinculada da visão necessàriamente
preconceituosa da igreja, da visão de dominador dos colonizadores portugueses e
dos palpites apressados de cientistas estrangeiros. Ela classificou o estilo das
pinturas rupestres em 240 sítios no nordeste brasileiro, argumentou e conseguiu que
a Presidência da República instituísse o Parque Nacional em 1979, criou a
Fundação Museu do Homem Americano em 1986, conseguiu que a Unesco
declarasse em 1991 o Parque Nacional Serra da Capivara um Patrimônio Cultural da
Humanidade. Com financiamento do Ministério da Cultura, do IBAMA e da
Petrobras, a FUMDHAM inaugurou no ano 2006 em São Raimundo Nonato um
166
Museu Temático, onde estão expostas as evidências que fundamentam a
interpretação da ocupação humana na área há 50000 anos, as mudanças climáticas
de 12000 anos, a fauna fóssil de animais de grande porte.
O grande chamariz do museu é o argumento da ocupação humana precoce na
América. Mas este também é o ponto sujeito à maior crítica pelos arqueólogos
tradicionalistas, uma vez que nenhuma ossada humana antiga foi encontrada. O que
é datado como mais velho que 23000 anos são fragmentos de pedra lascada
interpretados como ferramentas humanas, e restos de „fogueiras estruturadas‟
datadas pelo método da termo-luminescência.
A datação com termo-luminescência é baseada no fato que os minerais expostos na
superfície da terra, ao serem bombardeados com raios cósmicos se carregam de
radioatividade. Conhecendo-se a taxa anual de radioatividade acumulada numa
região, pode-se calcular o tempo de exposição do mineral analisado. Quando o
mineral é aquecido acima de 350-400° centígrados ele perde a radioatividade
acumulada, é como se tivesse zerado o relógio radioativo. Interpretar que uma pedra
foi parte de uma fogueira estruturada é dizer que esta pedra foi manuseada numa
atividade humana passível de ser datada. Os pesquisadores da FUMDHAM fizeram
datar todos os seixos da camada onde interpretaram a fogueira, e constataram que
somente aqueles que foram tidos como fazendo parte da fogueira apresentaram
resultados compatíveis como se tivessem sido esquentados, o que os levou a duas
conclusões: 1. o esquentamento não foi conseqüente de incêndio natural 2. as
fogueiras estruturadas eram obras humanas.
Com esta conclusão, o pessoal do FUMDHAM passou a postular que o homosapiens migrou da África ou da Europa para a América navegando pelo oceano, e
não a pé pelo estreito de Bering durante a última glaciação, conforme a Teoria Clovis
difundida na América do Norte nos anos 50 do séc.XX.
Museu do Homem Americano:
1. tipos de crânio do homem americano,
2. pinturas rupestres e
3.ferramenta de pedra lascada.
167
Daí pegamos um ônibus e fomos para Remanso, Bahia, na beira do rio São
Francisco. Foi o único trecho de estrada ruim em toda a viagem. Nos anos 70 foi
feita a construção da barragem de Sobradinho, com 41m de altura, o que criou um
lago com 320 km de extensão, 4200 km2 de espelho d‟água (4 Baias de Todos os
Santos) capaz de armazenar 34 km3 de água, o que permite a operação de todas as
usinas da CHESF situadas ao longo do Rio São Francisco. Obviamente que todas
as cidades ribeirinhas foram inundadas e a Remanso onde nos hospedamos é uma
cidade com 30 anos.
Alugamos um Gol velho e fomos para o cais procurar um barco que nos levasse
para o outro lado do rio. Achamos, tanto para Sento Sé, 3 horas de navegação,
quando para Xique-Xique, 30 horas rio acima. A Cassia I faz Remanso-Sento Sé
toda sexta-feira carregando passageiros a R$15 por pessoa. Pode fretar com
Marcolino, telefone 81055683, R$200 a travessia. A Estrela d‟Alva saia no dia
seguinte para Xique-Xique, com carga de peixe e um menino doente. Tem como
armar redes debaixo da coberta. E a DeniJane saia rio acima dentro de dois dias
para buscar cachaça em Minas. Acerta com Joãozinho da Caribé na quadra 3 em
Remanso.
Mas Mila amarelou. Disse que era muito sujo, se eu quizesse podia ir, ela voltava
sozinha de onibus para Salvador
1. Cassia I 2. Estrela D‟Alva 3. Denijane
Como companheiro solidário eu abri mão
do meu cruzeiro no Rio São Francisco e
voltei com ela. Você pode ver nas fotos,
os barcos não são luxuosos, mas da pra
ir. Agora estou programando uma viagem
de 1200 km de carro em abril, pela BR407 até Juazeiro, atravessa o rio
S.Francisco para Pernambuco, de
Petrolina vai margeando pela BR-428 até
Cabrobó onde vai ser feita a transposição. Volta pela BR-110 via Paulo Afonso,
Jeremoabo, Cipó. O objetivo é avaliar o rio no trecho Petrolina-Cabrobó, uns 200 km
rio abaixo, se tem ilhas e praias apropriadas para armar barraca e pernoitar. Se for
aprovado vou programar com Beto e Liana a gente levar umas três canoas
canadenses que Beto tem e descer este trecho remando. Vida de aposentado é uma
trabalheira! Quer ir?
168
Fernando de Noronha e as Refeno
A quebra do Gondwana, o supercontinente do
sul, ocorrida no Cretáceo há cerca de 120
milhões de anos permitiu a implantação do
oceano Atlântico Sul e o levantamento da maior
cadeia de montanhas do planeta, a qual em
inglês é denominada de Mid Atlantic Ridge. Esta
cadeia sozinha é maior que os Andes
+Rochosas+Himalaias, tem forma sinuosa e
sofre um desvio notável para a esquerda na
altura do equador, latitude zero, desvio este
reconhecido pelos geólogos como a Zona de
Fratura Romanche.
Antes que você desista de ir adiante, a
localização da ilha de Fernando de Noronha no
contexto geológico vai ser o mais breve possível,
e prometo que vou falar da história, dos
mergulhos, das praias e das regatas que os
pernambucanos promovem para Noronha desde
1986, o ano em que os gringos começaram a
testar os satélites que iriam compor o sistema
GPS.
A Cadeia Meso-Atlântica sobe das planícies abissais a uma profundidade de 4 a 5 km,
e alguns picos vulcânicos botam a cabeça fora do nível do mar atual, como por
exemplo, Trindade e Martin Vaz defronte ao Espírito Santo do lado oeste da cadeia,
Santa Helena do lado leste, Fernando de Noronha 200 milhas náuticas a sul da
Fratura Romanche, na latitude 4°S. Para o norte do equador temos do lado oeste da
cadeia as Antilhas, Bermuda a 32°N 65°W, e do lado leste Cabo Verde, Canárias,
Madeira, Açores, e lá junto ao circulo polar a ilha da Islândia, o local emerso da maior
atividade vulcânica no planeta.
Tudo isso é constituído por rochas basálticas, que o manto vomita lá de dentro para
fazer a crosta oceânica. Não tem nada a ver com os continentes implantados sobre
uma crosta de granito, muito mais velha e mais espessa.
Noronha fica a 200 milhas de Natal, RN,
no limite das águas territoriais
brasileiras, e lá o relógio tem que ser
adiantado de uma hora em relação a
Natal ou a Recife. O arquipélago fica na
longitude de 32,5°a oeste de Greenwich,
portanto no fuso horário de 30°; têm 26
km2, o dobro da Ilha de Maré na BTS, o
suficiente para lá ter sido construído
pelos americanos em 1942 um bom
aeroporto que transformou a ilha numa
169
base avançada durante a 2ª Guerra Mundial. Esta vocação militar fez com que a ilha
fosse um Território Federal de 1942 até 1988, quando os militares foram retirados e a
área passou a ser um Distrito Estadual para o qual o governador de Pernambuco
nomeia um administrador-geral. Também em 1988 todo o arquipélago até a isóbata de
50m passou a se constituir num Parque Nacional Marinho subordinado ao IBAMA, que
mantendo a tradição militar, tem uma lista de 16 „proibidos‟ e 5 „permitidos‟ com
autorização, que você acessa após pagar a taxa de preservação ambiental. A TPA
para permanência de até 10 dias é de R$34,48/dia, a partir dai sobe num crescente de
forma que quem quiser passar um mês vai pagar R$2847,42 (preços de 2008).
Quando Gaspar de Lemos bordejou por lá em 1500 levando para Portugal a carta de
Caminha, a ilha era desabitada. Em 1504 o rei D. Manuel a doou para Fernão de
Loronha, o banqueiro que financiou a expedição de 1503, um cristão-novo que nunca
cuidou de ocupá-la. A ilha tornou-se um porto de piratas, tendo os holandeses se
estabelecido nela em parte do Sec.XVII. No Sec. XVIII foram os franceses. Em 1737
os portugueses expulsaram os invasores, devastaram a vegetação e construíram 10
fortes, dos quais duas ruínas ainda existem, o Forte de São Pedro do Boldró e a
Fortaleza de Nossa Senhora dos Remédios. Até a independência do Brasil não era
permitido o desembarque de mulheres! Em 1832 o Beagle ancorou na Enseada de
Santo Antonio e Charles Darwin reconheceu as rochas vulcânicas. Em 1938 durante o
Estado Novo de Getulio Vargas a ilha foi convertida em presídio político e durante a 2ª
Guerra Mundial tornou-se base militar com um aeroporto. Nos anos 70 os
pernambucanos começaram a navegar para lá em veleiros de recreio. Em 1984 o
Projeto Tamar reconheceu a ilha como um local importante para a reprodução de
tartarugas marinhas e nela instalou uma estação de monitoramento.
170
Instituído o Parque Nacional em 1988, o aeroporto militar passou à categoria de civil,
recebendo um vôo semanal; a pesca foi proibida e a população residente passou a
viver essencialmente do turismo incipiente e do assistencialismo governamental. Em
2002, a UNESCO diplomou o arquipélago como Sítio do Patrimônio Mundial Natural.
Fernando de Noronha hoje é um destino turístico com voos diários, centenas de
pousadas, uma frota de bugs e motos financiados pelo Banco do Nordeste para taxi e
locação aos turistas, três empresas de mergulho com barcos apropriados,
equipamento de mergulho autônomo moderno e instrutores credenciados. A
população nativa é de 3000 habitantes (IBGE, 2008), e uma pessoa de fora só pode
se tornar residente se casar com um nativo ou for autorizada a montar uma empresa
dentro do planejamento turístico da ilha. Existe uma agencia do Banco Real com caixa
automático para saques e pagamentos, comunicação por telefone e vários pontos de
conexão wireless para internet.
Não existe uma etnia noronhense e se vê muito pouca criança por lá, sendo de 50% a
taxa de mortalidade infantil (IBGE, 2000), absurdamente alta para os padrões
brasileiros atuais. Os nativos da primeira geração dos lá nascidos são descendentes
dos milicos e dos prisioneiros. Existe um hospital com 9 leitos assentado numa antiga
instalação militar, do qual já fiz uso por três vezes conforme relatado adiante. Até o
final do Sec.XX a presença feminina era uma pobreza, quantitativa e esteticamente,
uma calamidade que vem sendo resolvida com a importação de potiguares. Em
compensação a fauna marinha é bela e mansa e você pode ser fotografada junto aos
golfinhos, tartarugas e tubarões bem alimentados e amigáveis, tanto quanto um
tubarão possa ser.
Em 1986 o pernambucano Maurício
Castro, professor universitário, perito
em
navegação astronômica e
proprietário do veleiro Brasilia 27, o
Quarta-Feira 17, juntou um grupo de
velejadores do Recife Iate Clube e
organizou uma regata para logo após
o equinócio da primavera, quando
predomina o vento leste-sudeste, as
águas quentes da ilha estão
absolutamente límpidas e transparentes e começa o período da estiagem, que vai de
setembro a janeiro. Aqui da Bahia foi o Avoante, premiado com o troféu de melhor
navegador para Thales Magno Batista. O Mauricio Castro dava um bônus de 5% no
rating para quem se comprometesse a não usar qualquer eletrônica para navegação.
Em 1987 o evento se repetiu e eu fui com Lucia Botelho no Pasárgada, o Bruce Farr
40 de Tony Pacífico que deveria embarcar em Recife, mas coitado, devido a
compromissos profissionais de ultima hora acabou não indo; mandou o velho Ernani
„Coca‟ Simões que embarcou em Recife para correr a regata e levar o barco de volta
para o Rio. Noronha neste tempo não tinha um mínimo de estrutura para o visitante, e
nos limitamos a visitar a pé as praias próximas ao porto de Santo Antonio e a
mergulhar nos destroços do vapor Eliane Statatus que se espalham por 50m bem na
entrada do porto, sendo que parte da caldeira aflorava na maré baixa. Agora tem uma
bóia no local. A possibilidade de abastecer o barco para a volta era muito precária, não
171
havia disponibilidade de água, frutas
nem
as
facilidades
de
um
mercadinho. E a velejada de ida e
volta a Noronha com uma estadia de
dois dias no porto significa estocar o
barco para uma semana! Na volta, lá
pelas 23 horas do segundo dia de
navegação, a uma hora de distância
do porto em Recife, Coca chamou
Olinda Rádio no VHF (naquele tempo
não existia telefone celular) e pediu
uma ligação telefônica para Linéa, no
Rio de Janeiro. O comandante da Lady Laura, a super lancha do cantor Roberto
Carlos ancorada no Rio Capibaribe, se meteu na conversa no canal 25 e convidou o
amigo Coca a atracar a contrabordo, ele ia providenciar um jantar. O Pasárgada ficou
pequeno junto da Lady Laura, que dispunha de uma cozinha enorme com câmara
frigorífica abastecida, e o jantar foi servido numa mesa com oito cadeiras no salão
principal.
Nesta 2ª regata Recife-Noronha foi um grupo razoável de veleiros do Rio e de São
Paulo pastoreados pelo Nilson Campos do Ana C e em Noronha houve
desentendimentos entre os cariocas e os pernambucanos, sendo que estes acabaram
por se desentender entre si. O Maurício Castro se aborreceu com o acontecido e em
consequência foi velejar no Caribe em 1988 descontinuando o programa de regatas.
Mas a semente havia sido lançada, a ilha precisava incentivar o turismo, e o pessoal
do Iate Clube do Recife assumiu a organização, arrumando um patrocínio com o
Banorte de Pernambuco. A regata passou a se chamar Regata Banorte (veja a marca
na camiseta do Maurício na foto). O patrocinador exigiu que a Marinha participasse do
evento vistoriando os barcos com referência aos itens de segurança e a Marinha foi
além, disponibilizando a partir de 1991, quando a organização da regata passou para
o controle do Cabanga, uma ou duas corvetas para acompanhar a regata e dar
cobertura aos competidores. Uma ideia infeliz envolver os milicos, eles passaram a
querer controlar tudo, passaram a fazer palestras chatíssimas na semana que
antecede à regata, exigiam que os barcos se comunicassem com a corveta duas
vezes por dia para dar a posição, „organizavam‟ o tráfego dos caíques no acesso ao
porto em Noronha. O Banorte foi liquidado, e a partir do ano 2000 tentou-se minimizar
a interferência dos milicos, eles disfarçaram levando o navio-escola Cisne Branco para
ajudar na cobertura. Tem gente que acha que está melhorando, mesmo que nenhum
navegador das antigas tenha mais a expectativa de que venha a ser como no tempo
da organização do Maurício. Agora em 2008 os 123 barcos inscritos só puderam largar
em regata depois de obterem uma carta de liberação da Marinha!
Em setembro de 1989 eu estava namorando com Lena, que se interessou em ir.
Estavam inscritos dois barcos da Bahia, o Bola 7, que ia para ganhar, e o Fuzuê, um
Velamar 36, que ia passear. Ivan Bola 7 estava com a tripulação fechada, e fui
procurar Paulo Brandão do Fuzuê. Eu não o conhecia, mas ele conhecia a mim, e
combinamos que iríamos ele, Fleury, Lena e eu até Recife. Conforme fosse nosso
relacionamento na viagem poderíamos renegociar a ida a Noronha.
172
A saída de Salvador foi muito dura, com temporal, a vela mestra no 3º rizo, e Paulinho
gostou do meu desempenho. Com dois dias de mar Lena assumiu a cozinha de bordo
como uma velejadora de estirpe. Após 77 horas de velejada ancoramos às 21:30 de
sexta-feira 22 de setembro no Iate Clube do Recife na hora do coquetel da regata. No
sábado chegou o restante da tripulação que foi de avião e Paulinho fez o convite
formal, que eu aceitei com duas condições: primeiro que ele se dispusesse a correr a
regata com seriedade, e segundo que Lena e eu voltaríamos de avião. Tudo
combinado fui com Lena ao aeroporto enquanto eles abasteciam o barco e
conseguimos passagens de volta para quarta-feira 27 num voo da Nordeste Linhas
Aéreas.
A largada foi numa raia montada em frente à Boa Viagem, às 10:10 de domingo 24 de
setembro, com vento E-SE de 20 nós. Largaram 16 barcos, Bola 7 na frente, seguido
de Tito V, Fuzuê, Carcará e Girosplit. Pelo meio da tarde o Fuzuê andando bem
estava um pouco atrás do Neptunus, um Fast 41, quando este começou a fazer água
e retornou. Pouco depois o Girosplit chamou no rádio dizendo que havia arrebentado o
head-foil e ia retornar. No final da tarde vimos crescer o Bola 7, um MB-45, e não
conseguíamos entender como é que estávamos nos aproximando dele; mas logo ficou
claro, ele também estava voltando. Pela segunda-feira de manhã haviam retornado
sete barcos! Ai a nossa genoa rasgou!
Tudo bem a bordo, descemos a genoa e subimos uma buja, que puxou bem o barco
naquele vento. Colocamos piloto automático e passamos um dia relaxado. Lena, muito
compenetrada, competente cozinheira de bordo, pegou linha e agulha e consertou a
genoa. O Tito V e o Carcará no maior papo no rádio, todo navio que passava eles
pediam a posição e a previsão do tempo. Nós não víamos estes barcos, mas eles não
deviam estar longe, porque enquanto eles falavam nós víamos os navios vindo do
norte para o sul. Estavam muito otimistas com a quebradeira geral, o Tito V achava
que ia ser fita-azul e o Carcará ia tirar o primeiro lugar na classe.
Lá pelas 20 horas de segunda-feira o Tito V falou com um navio, e pouco depois nós
vimos as luzes do navio, vindo do sul para o norte. Lena virou-se numa comandante:
troquem a buja pela genoa, tirem este leme de vento e vão timonear. Como o pessoal
fez corpo mole ela ameaçou que não cozinharia mais. Pois bem, trocamos a vela e eu
timoneei quase 10 horas seguidas. Quando o dia amanheceu Noronha estava no
visual, e vimos com preocupação duas velas na proa. Mas eram barquinhos que não
estavam na regata, e logo os passamos. A coisa de 5 milhas da Ponta da Sapata fui
chamar a Comissão de Regatas no rádio e não tínhamos mais bateria. Instalamos
uma bateriazinha de carro que Paulinho havia levado para numa emergência
podermos ligar o motor e chamamos a Comissão, comunicando que estávamos
chegando. O Tito V nos chamou e perguntou onde estávamos. Quando eu disse ele
expressou de forma muito clara o desalento dos pernambucanos. Até hoje, quase 20
anos depois, quando encontro o Tito ele se lembra. Uma vez eu disse pra ele: você
não esquece esse assunto, e ele: quem apanha nunca esquece.
Cruzamos a raia às 06:47:42 de 26 de setembro, na condição de fita-azul. Foi festa a
bordo, com champagne gelado e tudo. Lena se sentiu mal com a bebedeira de manhã
cedo com estomago vazio, e desembarcamos para ela ser medicada no hospital da
ilha. Depois alugamos uma moto e fomos para a pousada de D. Pituta, na Vila dos
173
Remédios. Pela tarde percorremos as praias do “mar de fora” (vide mapa acima), com
destaque para a Enseada do Sueste, onde fica a sede do Projeto Tamar e onde os
barcos se abrigam quando o vento sopra de nordeste, tornando a Enseada de Santo
Antônio impraticável como porto.
Na quarta-feira pela manhã Lena e eu rodamos de moto pelas praias do “mar de
dentro”, todas de areia branca e águas tranquilas com o vento sudeste do mês de
setembro. As praias são de fato encantadoras, e hoje as empresas de turismo as
vendem como maravilhas do mundo. Para uma descrição detalhada e fotografias
recomendo o site http://www.revistaturismo.com.br/Dicasdeviagem/fernoronha.htm.
Visitadas as praias seguimos para a base do Morro do Pico, onde deixamos a moto e
subimos o Picão até o topo, onde ficava o farol; naquele tempo havia uma escada de
barras de ferro enfiadas na rocha. Lá dos 323m de altitude se descortina todo o
arquipélago, e é ali que você pode compreender o encantamento da transparência das
águas vendo o fundo do mar e os golfinhos nadando na Enseada dos Golfinhos.
Descíamos para almoçar quando Lena tocou a perna na descarga da moto... e
voltamos para o hospital para medicar. Embarcamos num Bandeirantes da Nordeste
às 15:30, fizemos uma conexão para Vasp em Recife e chegamos em Salvador às
19h, guardando a recordação de uma fita-azul, coisa que hoje só é possível almejar
com um barco de pelo menos 2 milhões de dólares e uma tripulação profissional.
Em 1990 a regata estava em vias de acontecer com poucos barcos, quando foi
suspensa porque caiu um Bandeirantes do Governo do Estado de Pernambuco logo
após decolar de Noronha no dia 20 de setembro de 1990 às 19:40. Morreram dois
tripulantes e dez passageiros.
Em 1991 foi a IV Regata Banorte, que não pude correr porque gastei minhas férias
numa viagem em junho para atravessar a Sibéria de trem. Mas em setembro Lito
Fernandez levou o Curumim para a raia, e num final de semana peguei uma carona e
velejei com a tripulação dele até Maceió.
Em 1992 Lena e eu marcamos férias na época da regata e fomos no Pinauna 4, um
Fast 41. Eu não estava com pretensão de ganhar, e não estava a fim de encher o
barco de homens mal cheirosos. Lena concordou em convidar duas ex-namoradas
boas tripulantes, Vicka, com quem tive planos no passado de fazer uma viagem de
volta ao mundo, e Lizete que foi velejar comigo na Polinésia. A ideia era voltarmos
devagar, conhecer o Atol das Rocas, entrar no rio Potengi em Natal e descer
costeando, de volta à Baia de Todos os Santos. Embarcaram em Recife para a regata
Pedro Bocca, meu amigo e ex-namorado de Lena, Claudinha e Marcio Cruz recémcasados. Vicka montou um esquema de reabastecer o barco com comida congelada
feita em Salvador e despachada de avião, que nós pegamos em Recife antes da
regata e em Natal quando voltávamos.
Entramos no Rio Capibaribe na madrugada de sexta-feira 25 de setembro de 1992. Já
estávamos ancorados pelo meio do rio em frente ao Recife Iate Clube, algumas das
meninas de banho tomado e preparando uma comida quando aparece Serginho
Bittencourt, que estava no Suzy Dear, um Swan 57, e insistiu para que colocássemos
o Pinauna a contrabordo deles que estavam no píer. Estava uma correnteza forte de
vazante, a quilha do Pinauna enganchou num dos muitos cabos de âncora que
174
estavam em torno do píer e foi a maior confusão. Serginho pulou naquela água
imunda com faca e lanterna para safar o barco e se exibir para minhas tripulantes, e
depois de tudo acabamos ancorando de novo no meio do rio para dormir em paz.
Quando acordei na sexta-feira Lizete já havia preparado um lauto café da manhã e
uma recepção para Pedro e Claudinha, com comprimidos para enjoo e regras de
comportamento escritas num painel. Márcio Peneirão trafegando com o caíque
conseguiu virar e afundar o motor, o que tomou todo o dia dele para limpar, secar e
fazer voltar a funcionar. Reabastecemos o barco, participamos da reunião de
Comandantes que foi um vexame, com os milicos se metendo a ambientalistas
amadores. Fui obrigado a tomar a palavra como velejador sensato e ambientalista
profissional e propor novas regras, que foram aprovadas. Fomos jantar dignamente no
Porcão, numa mesa que não sacudia e antes da meia noite estávamos embarcados
para dormir como justos.
A largada da regata foi no sábado às 13:45 em frente à Boa Viagem, ψ=8º08,5‟S,
λ=34º53,8‟W. Vento sueste inicialmente 16-18 nós, crescendo no final da tarde para
23-24 nós com rajadas de 30! Ao raiar do dia de domingo 27, com vento de 30 nós,
descemos a mestra para segunda forra de rizo. Nas primeiras 24 horas fizemos 185
milhas, e o cabo do rizo quebrou por três vezes. Lá pelo meio dia subimos a mestra
toda e deixamos a genoa enrolada a 110% do triângulo de proa, o que não era o ótimo
mas ficamos em paz sem que ter que remendar mais cabo de rizo. Ao amanhecer de
segunda-feira tínhamos Noronha no visual e estávamos sendo escoltados por um
cardume de golfinhos que faziam piruetas em torno do barco; Pedro Bocca levou mais
de uma hora filmando os peixes, os pássaros e a aproximação da ilha, o que de fato é
um visual encantador!
Cruzamos a raia de chegada às 7h 41‟ 29”, sexto no geral e segundo na classe. Nós
estávamos inscritos na Classe Aberta A, que incluía os barcos de 40 a 50 pés de LOA
e não fazia correção de tempo. O Pinauna tinha LOA 41 pés, e o vencedor na classe
foi um Swan 48, o Cangaceiro, que chegou na nossa frente 56‟35” . Às oito e meia
estávamos comemorando com champagne gelado ancorados no porto, na Baia de
Sto.Antonio, ψ=3º50‟S, λ=32º24‟W, e ficamos ali por dois dias e meio de festas e
turismo. Alugamos um bug, visitamos as praias, mergulhamos com os golfinhos e
confraternizamos com os outros velejadores. Na quarta-feira 30, às 21:20, após a
entrega de prêmios subimos a âncora e seguimos com os alísios de vento em popa
para oeste, na direção do Atol das Rocas.
175
A velejada para Rocas durante a noite foi tranquila, em asa-de-pombo com a mestra
no primeiro rizo, genoa parcialmente enrolada, vento aparente 10 a 12 nós, piloto
automático. Fizemos 68 milhas em 10 horas e de manhã cedo pegamos a poita do
Delícia, o veleiro Farr 38 no qual Zeca fazia o apoio à ilha, ψ=3°50,78‟S λ=33°31‟W. O
pessoal do Ibama foi a bordo e nos levou para terra no bote deles. A entrada da
barreta é com onda e difícil para um caíque pequeno. O pessoal do Bola 7 que chegou
meia hora depois não teve a nossa simpatia para conquistar o pessoal do Ibama e não
desembarcou. O fundeadouro é aberto, desconfortável, e nos avisaram que à tardinha
chegam os pássaros e fazem o maior barulho. Às 15 horas deixamos a amarração e
saímos em orça apertada para Natal, 140 milhas para SSW.
Atracamos no píer do Iate Clube de Natal no início
da tarde do dia 2 de outubro, lavamos o barco com
água doce e fomos para uma amarração. Muito
simpática a recepção do clube para o visitante.
Marcio e Claudinha desembarcaram e voltaram de
avião para Salvador. Pedro havia desembarcado
em Noronha.
Dia seguinte era dia de eleição e passamos nos
Correios para justificar a ausência eleitoral. Tínhamos alugado um bug „Selvagem‟ e
fomos para as praias do norte e as dunas de Genipabu.
No domingo dia 4 levantamos vela ao meio dia e seguimos 80 milhas para SSE, no
contravento, até Cabedelo, onde nos esperava a tripulação do Cangaceiro, que
levaram Vicka e Lizete para compras. O Pinauna estava molhando dentro pela gaiuta
de proa e o inglês Ryan, dono de um estaleiro e do trimarã „Jeitinho‟ atacou o
problema. Este inglês diz que coisa difícil ele faz rápido, o impossível demora um
pouco. Cabedelo, no estuário do Rio Paraíba, é um local bem protegido, bom para
deixar o barco em caso de necessidade.
Dia 6 de outubro, quando o sol já havia passado o equador para fazer o verão do
hemisfério sul há duas semanas, e o vento já havia rondado para nordeste, saímos a
barra de Cabedelo às 10 horas, dobramos o Cabo Branco, no extremo oriental do
Brasil, e a velejada para o sul-sudoeste ficou macia, com vento e corrente favoráveis.
Mas à noite refrescou e deu trabalho; passamos direto por Recife chegando a Maceió
dia 7 à tarde. São 200 milhas de João Pessoa a Maceió, e cheguei mole e resfriado.
Vicka e Lizete desembarcaram e retornaram de avião para Salvador. Silvia pegou a
Lena e a mim de carro e nos levou para jantar no Divina Gula.
176
Dia 8 Lena foi às compras para reabastecer o barco e eu fiquei a bordo descansando
e me recuperando do resfriado. Dia 9 já estava bom e largamos ao amanhecer para o
trecho final até Salvador, quase 300 milhas até o AIC, que fizemos em pouco mais de
48 horas. Este trecho com só duas pessoas a bordo foi um passeio, com pouca vela,
sem pressa, curtindo o finalzinho das três semanas de férias. Navegamos bem longe
de terra para não ter que nos preocupar com barcos de pesca sobre a plataforma
continental. Quando acordei pela manhã do dia 10 vasculhei o horizonte de binóculo e
vi um veleiro vindo pela popa, bem na nossa esteira, só com vela mestra e motor.
Chamei no rádio mas ele não respondeu. O vento estava fraquíssimo e ele logo nos
alcançou quando tomávamos o café da manhã no cockpit. Era o Suzy Dear, com
Serginho Bittencourt, Thales Magno Baptista e mais dois tripulantes. Eles desligaram o
motor e fomos derivando juntos, Serginho fazendo a maior festa. Fizeram fotos e já
estavam com planos de abordar o Pinauna quando chegou um ventinho e começamos
a nos afastar. Eles abriram a genoa mas naquele ventinho fraco o Pinauna foi orçando
mais e deixando o Swan pesadão mais arribado para trás, de forma que em uma hora
não nos víamos mais. Esse povo tem mania de viajar vendo terra, o que é um
problema a ser tratado no psicólogo. Viajar longe de terra é mais seguro, mais
confortável, fora das rotas de tráfego, você pode dormir à vontade e se chegar um
temporal tem espaço suficiente para correr com o tempo até que ele passe.
Chegamos no AIC no domingo dia 11 de outubro pela manhã e Vicka, Liz e Pedro
Bocca foram nos buscar, já com o filme da regata editado, com trilha sonora e tudo.
Daí levei quatro anos sem voltar a Noronha. Quando o Banorte deixou de ser o
patrocinador oficial, pouco antes de quebrar, a regata passou a se chamar REFENO
mantendo a numeração desde a organização primeira de Maurício em 1986. Em 1993
ajudei a levar o LeParun até Recife, e minha filha Liana participou da tripulação de
Rosa Garcia na VI Refeno. Liana me contou que foi contravento fraco com muitas
cambadas, um caso raro no mês de setembro.
Em 1996 foi o ano que embarquei Mila, com quem estou casado até hoje – cada um
na sua casa, como devem fazer os casais sensatos. Em 1997 me aposentei da
Petrobras e passei a velejar com mais frequência, tendo atravessado o Atlântico
quatro vezes, uma delas com Mila, em 2000, na Regata do Descobrimento (LisboaPorto Seguro), e voltado a Noronha nove vezes, duas delas com Mila, e duas outras
fora da época da regata.
Em 1997 fomos Rose, Lica, Mila e
eu até Recife no Bandavuô, um
Beneteau 345, quando embarcou
Felipão, o proprietário. Rose havia
providenciado um par de alianças, e
quando navegávamos em águas
internacionais eu fiz valer, a pedido,
minhas atribuições de Comandante,
e casei ela com Felipe, com papel
assinado e testemunhas! Essa é
uma das responsabilidades de um
comandante de barco, a bordo ele é
177
poder executivo, legislativo e judiciário! Mas num veleiro é também marinheiro,
mecânico, desentupidor de latrina, eletricista, encanador, e se for realmente
competente pode ser até cozinheiro. Neste ano de 97 o pessoal laboré desembarcou
todo em Noronha e voltei em solitário no Bandavuô, uma delicia de velejada.
Em 1998 meu primogênito André voltou para trabalhar em Salvador, comprou um
veleiro e já foi duas vezes a Noronha. Em 2002, ano que minha neta nasceu, Liana
convenceu o marido a comprarem um veleiro. Quando Lara, a neta, fez um ano,
ganhou um optimist, nem que fosse para servir de berço, e com três anos já parecia
uma macaquinha saltando com muita naturalidade dentro de um barco. Em 2006
aluguei um catamarã de 50 pés para levar a família toda na XVIII Refeno, no intuito de
que Lara ganhasse o prêmio de „tripulante mais nova‟ na regata. Mas o programa não
vingou, o fulano que me alugou o catamarã roeu a corda e não honrou o compromisso,
e agora Lara já está muito velha para ganhar este prêmio que vai ficar faltando na
minha galeria de troféus!
Com a cobertura da mídia que a Refeno obteve, o Cabanga passou a contar com um
numero grande de patrocinadores de peso: Petrobras, Governo de Pernambuco,
Celpe, Prefeitura do Recife, Skol, Gol Linhas Aéreas, Baterias Moura, bancos,
empresas menores diversas... e organizar as regatas passou a ser um bom negócio.
Com mais organização passou a haver mais inscrições, e agora em 2008 foram 123
barcos inscritos em 5 classes: ORC, RGS a-e, Multicasco a-d, Aço e Aberta a-b. Com
exceção de quem se
inscreve na classe
ORC
(Offshore
Racing Council), a
maioria dos outros
vai passear e fazer
festa. A inscrição na
regata custa R$300
por tripulante, o que
inclui a TPA de
Noronha
até
a
quinta-feira. No total
são
distribuídos
cerca de 50 prêmios,
e este ano o designer
fugiu da estilização
dos golfinhos.
E por último vem a grande atração do arquipélago: o mergulho nas águas equatoriais.
O clima é oceânico tropical com temperatura média acima de 25°C. Chove de março a
julho, quando a ilha estoca água no Açude do Xaréu (está para ser ampliada, de novo,
a planta de dessalinização da praia do Boldró). A circulação oceânica anti-horária do
hemisfério sul promove uma corrente para oeste empobrecida em matéria orgânica na
área do arquipélago, e como consequência a flora marinha é pobre quando
comparada com a da costa brasileira. Em compensação, e por esse mesmo motivo, as
águas são limpas e transparentes, bem no curso da corrente equatorial que traz os
cardumes migratórios sazonais. O arquipélago de Fernando de Noronha reúne sítios
178
ecológicos específicos para uma fauna marinha exuberante. Os biólogos do Ibama e
do Projeto Tamar estudam esta fauna em trabalhos científicos padrão Brasil, e seus
resultados são apresentados aos turistas todas as noites no Centro de Visitantes,
próximo à sede do Ibama.
Sítios ecológicos selecionados constituem os 28 pontos de mergulho do Parque
Nacional Marinho, incluindo 3 naufrágios: o do porto, na Enseada Santo Antonio (foto
na p.172), o naufrágio do Leão, e o da corveta Ipiranga (dizem as fofocas que
proposital), este ultimo a 62m de profundidade.
Você pode nadar e mergulhar em apneia, de máscara, tubo e nadadeira, por perto das
praias e pelo naufrágio do porto. Existem vários pontos para aluguel destes
equipamentos a R$15 por dia. Mas podes crer ser uma perda lastimável ir até lá e não
sair para um mergulho, diurno ou noturno, com uma das três empresas que disputam
os visitantes.
Os pontos de mergulho autônomo são classificados em função da credencial do
mergulhador. Mas se você não for credenciada, se nem sequer souber nadar, paga
R$220 por um batismo e sai com um instrutor, desce a 10-15 metros, goza do silêncio
do fundo do mar, de ver as bolhas subindo, de ser fotografada brincando com uma
tartaruga e talvez de sentir medo quando vir um tubarão. O preço acima inclui tudo:
roupa de neoprene, colete, máscara, garrafa, válvulas, regulador, manômetros,
nadadeiras, cinto de chumbo, instrutor, barco para lhe levar ao ponto de mergulho e
translado da pousada ao porto. Se estiver embarcada eles lhe pegam no barco. Agora
prepare seu cartão de crédito, porque o fotógrafo da Ciliares vai lhe cobrar R$30 por
cada foto. E você não vai resistir!
179
2009, LUA DE MEL NO CARIBE: CUBA E PANAMÁ
Cuba está pobre, mas limpinha, e quem vai como turista internacional pagando em
CUC (moeda cubana conversível, que vale 24 pesos cubanos ou 1,25 dólar
americano) fica bem instalado em cerca de uma centena de hotéis e resorts
espalhados pela ilha; tem carro coreano novo para alugar, veleiro tripulado para
grupos e lancha com equipamento de mergulho; turista come quase como se
estivesse no Brasil. O chato é que só estrangeiro desfruta destas facilidades, porque
depois que a União Soviética acabou, a ilha vive de turismo, mas um engenheiro
local ou um varredor de rua ganham igual, 500 pesos (26 dólares) por mês mais uma
cesta básica. Policia armada ganha 1000, dá expediente de dois turnos de 6 horas e
folga no dia seguinte. Todos têm emprego e ninguém trabalha muito, vivem se
encostando e conversando alto; todo o sistema produtivo é estatal, e todos os
cidadãos são funcionários públicos; os do partido único são fiscais dos funcionários.
Em Havana sempre tem alguém tocando e cantando atrás de gorjeta. Aposentado
ganha 240 pesos mais cesta básica. Não existe poupança, nem crédito, nem lojas,
nem cocacola, nem outdoor, exceto para a propaganda política. O parque industrial
é paupérrimo. Não vi nem soube de ninguém que tivesse computador particular.
Visitei a Universidade e não achei ninguém da geologia. A internet disponibilizada
para o turista é de 35 kb/seg. Ainda assim o povo é tranquilo e sorridente. Não existe
analfabeto, mas os letrados são fracos em interpretação de texto. Em Varadero, a
200 km de Havana, a densidade demográfica é bem menor e o cubano é orgulhoso,
mas sempre encostado: você que monte seu equipamento de mergulho alugado,
depois lave tudo com água doce e pendure.
Em Havana, com mais de dois milhões de habitantes, morando mal para os nossos
padrões, o orgulho dá lugar à inveja e a uma mendicância disfarçada, todo mundo
„chorando mágoa‟. Mas não dá para julgar Cuba pelos nossos valores. Eles são
sedentos de autonomia, foram dominados pelos espanhóis por 400 anos, até o final
do sec. XIX, quando o grande herói lá deles, o Jose Marti, fomentou a guerra de
independência. A coisa já estava encaminhada quando os Estados Unidos se
meteram e fizeram um acordo com os espanhóis, passando a dominar a ilha até
bem depois de concluída a 2ª Guerra Mundial. Daí veio o advogado Fidel Alejandro
Castro Ruz e logrou a independência em 1959. Desapropriou os estrangeiros,
montou um socialismo democrático subsidiado pela União Soviética e apoiado pela
população. Ficou ainda uma pedra no sapato, uma base naval dos EUA no lado
sudeste da ilha, na baia de Guantánamo, um saco com 10 milhas de profundidade,
refugio para furacão.
Quando a União Soviética acabou em 1991, Cuba experimentou uma recessão
econômica, da qual está se recuperando agora no sec.XXI com o turismo. Para
retirar o dólar americano de circulação e praticar o turismo internacional, o Banco
Central de Cuba criou o CUC, o cuban currency; quando for para lá leve euro que
não é taxado para cambio. O povo em geral está esperançoso que o novo governo
dos Estados Unidos suspenda o embargo e eles passem a ter soberania e
desenvolvimento. Na semana que passei lá, houve dois encontros internacionais de
governos americanos intensamente noticiados na televisão: um em Cumaná,
Venezuela, liderado pelo presidente Hugo Chaves, com a presença de Raul Castro,
de Cuba, onde foi criado o SUCRE (Sistema Único de Compensação Regional de
Pagamentos), a moeda virtual que pretende substituir o dólar na integração latinoamericana; e outro em Port of Spain, Trinidad e Tobago, com a presença do negão
todo-poderoso Barack Obama, a 5ª Cúpula das Américas, onde os bolivarianos
180
cutucados por Lula estão cafetinando a relação Estados Unidos – Venezuela –
Cuba.
Foi uma semana tranquila em meio aos festejos do cinquentenário da revolução de
1/1/1959.
Cuba tem área semelhante à de Pernambuco, um pouco mais comprida e mais fina,
com uma população um pouco maior, 11 milhões. A água do mar é um pouco mais
fria que na Bahia, e a ilha é toda de calcário e vulcânicas. Na estrada de Varadero
para Havana, viajando 200 km pela costa norte num ônibus chinês novinho a 90
km/h, pude observar calcários possivelmente Jurássicos fortemente dobrados com
mergulho para norte, capeados por rochas vulcânicas. Torres de perfuração e poços
bombeados na beira da praia, provavelmente direcionais, para objetivos na área
offshore. Quando passa da província de Matanzas para a de Havana, a estrada está
implantada sobre calcários possivelmente Terciários com relevo cárstico e mergulho
fraco para oeste. A ilha deve ser o resultado de um empurrão da placa do Caribe
para norte quando da abertura do Atlântico. Parece-me razoável esperar uma bacia
petrolífera foreland na costa norte de Cuba. A estrutura geológica da ilha não parece
ser simples, e não existe uma plataforma continental. Não creio que os cubanos
tenham cacife nem preparo para explorar petróleo em águas profundas. Isto aqui se
afigura como uma tarefa para a Petrobras.
181
As duas fotos acima mostram a Baia de Havana, com o porto no fundo, e a entrada
da baia, protegida com o Forte dos Tres Reyes Del Morro, que dispara um tiro de
canhão todas as noites às 21h para lembrar o toque de recolher no tempo dos
piratas.
O acesso a Cuba mais simples saindo do Brasil é feito pelo Panamá, voando Copa
Airlines que tem voos diários saindo de São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Manaus em
Boeing 737 configurados com classe executiva. Não precisa de visto, eles não
carimbam seu passaporte, usam uma „tarjeta de entrada‟ que custa US$20 e é
obtida pela sua agência de turismo local. Desde 1 de janeiro de 2000, quando a
Cidade do Panamá passou para a soberania do Panamá que brasileiro não precisa
mais de visto de entrada, só vacina para febre-amarela, uma das heranças deixadas
na América pelos colonizadores europeus que transportaram o Aedes aegypti com
os vírus da febre amarela e da dengue, da África para cá.
O povo no Panamá comunga com os cubanos uma aversão pelos americanos que
os subjugou por décadas, aliás, uma atitude de antipatia que ficou worldwide com a
globalização do capitalismo. Essa história começa no sec.XIX, quando o Conde
Ferdinand de Lesseps resolveu repetir o feito napoleônico de juntar dois oceanos. É
esse veinho ai acima, o da direita. Vou incluir aqui um pouco da história da Idade
Contemporânea que pesquisei como dever de casa antes de viajar. Afinal, lua de
mel também é cultura.
No final do século XVIII o Império Frances dominou a Europa e a África
Mediterrânea até o Egito. Napoleão Bonaparte, na mesma época que escorraçou a
corte portuguesa para o Brasil, se interessou em restaurar uma ligação marítima do
182
tempo dos faraós egípcios, do Índico para o
Atlântico, e os franceses fizeram o Canal de
Suez,uma ligação aberta toda ao nível do
mar.
Quase meio século depois de inaugurado
Suez, os franceses se aventuraram a abrir o
canal do Panamá, também ao nível do mar, a
exemplo do sucesso anterior. Mas ai
descobriram que o buraco era literalmente
mais embaixo, ou mais acima, sei lá. Pelo
final do Sec.XIX os franceses já não mais
dominavam a Europa. Com a revolução industrial inglesa o mundo passou a ser
dominado pela frota britânica, movida a vapor, que inclusive já havia se apossado da
segurança e do pedágio no Canal de Suez. Antes da 1ª Guerra Mundial os
americanos lograram incitar o povo do Istmo a pleitear independência da Colômbia,
com apoio militar, e em recompensa ficaram com o direito de abrir e operar o canal
que os franceses haviam começado. Pagaram aos franceses US$40 milhões pela
massa falida que os franceses avaliavam em US$109 milhões. Deram um cala-boca
de $10 milhões para os panamenhos recém-independentes da Colômbia. Foi nesta
época que compraram o Alasca dos russos por $7,2 milhões. As obras do Panama
Canal custaram $385 milhões. Hoje um navio de 80 mil toneladas paga $150.000
para passar. Um veleiro pequeno paga na agencia do Citibank próxima ao Iate Clube
$500. The City never sleeps! Está em andamento o projeto panamenho de
ampliação do canal para operar navios de até 150 mil toneladas, com um
investimento de $5 bilhões no período 2007-2014.
O projeto americano não mais pretendia unir o Atlântico, com micro-maré de 0,2m
em Colon, ao nível do mar com o Pacífico 24 cm mais alto (variação no campo
gravitacional do geoide) e com mega-maré de 5m em Balboa, no Golfo do Panamá.
Foi escavado o maciço vulcânico da parte central do istmo e construído o lago Gatun
para represar as águas da bacia hidrográfica do rio Chagres na cota de +27m,
aproveitando as escavações que os franceses haviam feito. Foram instaladas
ferrovias para remover o entulho e combatido o mosquito da febre-amarela que o
médico cubano Juan Carlos Finlay havia diagnosticado na época como o
transmissor da doença. O lago Gatun passou a ser controlado por eclusas dos dois
lados; do lado do Atlântico a eclusa tripla abre para o canal de acesso com 5 km de
extensão até às águas profundas no Mar do Caribe, onde foi construído um molhe
gigantesco para proteger o porto dos fortes ventos da área. Do lado do Pacífico as
eclusas do lago Gatun abrem para o lago Miraflores, na cota de +13m, e daí para o
canal de acesso ao mar aberto.
183
O Istmo do Panamá passou a existir somente há 3 milhões de anos, quando o
Australopitecus africanus, o „elo perdido‟ na evolução dos símios para o gênero
Homo, passou a adotar uma postura bípede na África, época em que a Placa
Tectônica do Pacífico acavalou a Placa Tectônica do Caribe. Essa Placa do Pacífico,
sempre intrusa desde o Terciário Médio, vem empurrando o continente americano,
numa velocidade equivalente ao crescimento dos seus cabelos, e durante o Mioceno
(15 MA) levantou a cadeia dos Andes e sua continuação pela América Central e
América do Norte até o Alasca. A passagem que unia o Pacífico ao Atlântico foi
fechada pelo istmo do Panamá, o que criou uma grande mudança no clima e na
circulação dos oceanos, principalmente na Europa que passou a se aquecer com a
Corrente do Golfo, que leva a água quente do equador pelo Atlântico Norte em
circulação horária.
Os panamenhos e os americanos nunca se amaram, e chegaram a romper relações
diplomáticas durante a guerra fria. Em 1977 assinaram um novo tratado, e em 31 de
dezembro de 1999 o canal passou para a soberania e operação dos panamenhos.
Agora você pode visitar o canal como turista sem visto americano.
O Panamá hoje tem 3 milhões de habitantes, metade na Cidade do Panamá, que era
parte da Zona do Canal, de domínio americano até 1999. A outra metade são índios
e mestiços, e parece que o interior do país é „selvagem‟, uma necessidade para
manter a floresta e a água, que é a riqueza local.
Cada operação de passagem de navio drena 200 mil m3 de água do lago para o
oceano. Isto é equivalente a dois minutos da vazão do Rio São Francisco, que é
muito mais possante que o Chagres. No ano passado foram feitas 14000 operações,
a um preço médio de US$90.000/navio. Há uma pressão do comércio mundial para
aumentar a demanda, o que pode tornar o sistema insustentável. No projeto da
ampliação, o novo sistema de eclusa, com três comportas laterais, vai economizar
água.
Observações finais para quem pretende visitar Cuba: 1. Com a aposentadoria de
Fidel aos 82 anos, a disputa pela sucessão é o tema principal dos interesses
estrangeiros na ilha. Os sempre ávidos em expandir mercado e os exilados de Miami
trabalham por uma virada no regime. A implantação do cuban currency pode ter sido
uma boa solução na cabeça dos economistas,
mas dividiu a sociedade em classes: a. os que têm acesso aos CUC, os pesos
conversíveis que são usados para comprar eletrodomésticos, gasolina e produtos
184
importados; b. os que ganham em peso cubano, que serve para pagar o ônibus e os
produtos da cesta básica descritos nas cadernetas de racionamento,
2. De julho a novembro a ilha é atingida por furacões. O ano passado foram três.
Quem vive submetido a um stress dessa magnitude tende a achar que todo o resto é
secundário. Os hotéis, principalmente nos telhados, são preparados para furacão.
Os barcos ficam protegidos em canais paralelos à praia e construídos no „tempo do
capitalismo‟ pelos Dupont e Al Capone. Eram escavados na profundidade desejada
em terra e depois abriam um dique que os inundava a sotavento dos manguezais.
185
2010 - CRUZEIRO AUSTRAL
Duas semanas num navio grande, desses “de luxo”, de 2000 passageiros, custam
metade do preço de uma semana num resort da Costa do Sauipe. O que faz ser tão
barato é a logística. A tripulação é de 800 pessoas, toda a peãozada é selecionada e
contratada num paraíso escravagista do terceiro mundo: Filipinas, Índia e Caribe. O
pessoal que decide é europeu ou norte-americano, umas vinte pessoas, incluindo o
staff de engenharia que faz o navio funcionar, a direção de hotelaria e a direção de
cruzeiro. O segundo escalão, poliglota, que lida diretamente com os passageiros,
contém gente do mundo todo. A língua oficial do navio é inglês.
Fora da zona tropical o navio só navega no verão, entre os círculos polares norte e sul.
Quase metade da clientela é de velha e velho piripopélio (septuagenário), classe
média do primeiro mundo, para quem é mais barato e divertido ficar passeando de
navio do que se instalar num asilo. Para o pessoal de meia idade com crianças, tem
creche e piscinas aquecidas. No Norwegian Sun, da NCL, que viajamos dessa vez,
são doze andares, doze restaurantes e 28 elevadores para passageiros, e na parte
interna sem carpete, only for crew, uns tantos outros elevadores para o serviço. A
ponte de comando é inacessível, e em todo embarque, inclusive nas inúmeras
paradas para shore excursions, todo mundo passa por identificação, detector de
metais e raios-x.
Tudo é limpo e eficiente. Nos portos onde o navio não atraca num píer, são abertos no
3º andar, ao nível da água, dois píer basculantes para atracação dos botes salva-vida,
de forma que todos que queiram, inclusive os de muleta e cadeira de rodas,
desembarcam sem atropelos. O navio não vibra e praticamente não balança; na maior
parte do tempo é como se você estivesse num resort em terra. Mas tenho que dizer,
essa não é exatamente a minha praia!
Quinze anos atrás naveguei pela Terra do Fogo num navio pequeno, para cem
passageiros. Ainda hoje um navio pequeno, com tripulação chilena, custa por
passageiro o dobro do preço do grande, para metade do tempo. O pequeno só tem um
restaurante, sacode e eventualmente aderna. Mas você desce num bote inflável nas
geleiras e a ponte de comando é aberta aos passageiros. Para quem é do ramo e quer
sentir o ambiente, o melhor mesmo é navegar num veleiro polar, como o Kotik que ia à
Antártica três vezes por ano no verão, sacudindo e molhando, com dois sanitários para
todo mundo, a um custo de mais de 5 vezes o que você paga no navio „de luxo‟. O que
dá suporte a um pensamento muito meu: dinheiro só compra coisa barata. Velejando
no Kotic com Oleg e Sophie, você aprende o que é caro. Com a vivência de 30 anos
nas altas latitudes, ele diz que no mar, se algo pode dar errado vai dar, por isso
você tem que premeditar suas atitudes;
um erro no mar é cobrado
imediatamente. Oleg diz que num veleiro não existe mentira. Você não pode chorar e
dizer: "eu não sabia”, etc. Tem que ser responsável: errou, dançou. O veleiro é sua
interface com o mar. Aqui não há dengos, nem corrupção, nem despachantes (sic), e é
este tipo de ambiência que traz aprendizado e boas recordações!
Deixando estas filosofadas de velejador, vamos passear de Norwegian Sun. No
embarque, em Buenos Aires, eles retém seu passaporte porque ao entrar na Inglaterra
(Falklands) e Chile, você nem toma conhecimento das formalidades de imigração.
186
Logo depois que deu entrada no último pais a ser visitado, a babá devolve seu
passaporte todo carimbado, neném.
Nas duas semanas foram oito paradas diurnas de 7 a 12 horas, onde são oferecidas
76 excursões (city tour US$80 > vôo para almoço na base chilena da Antártica,
US$2600), com três níveis de dificuldade: 1, fácil, 2, moderada e 3. pesada, que
envolve esforço físico prolongado como subir ladeira em terreno irregular. Onde fui
amarrar meu jegue!
A largada de Buenos Aires foi antes do por do sol, com lua cheia. Deu para ver a
alegria dos hermanos velejando no verão, naquela água marrom sempre rasa. De
Buenos Aires a Montevidéu, são 150 milhas náuticas pelo estuário do Prata, 11 horas
de navegação onde só existe profundidade maior que 10m no canal balizado. Durante
o jantar André e eu tivemos a impressão que o navio tocou o fundo do canal; a micromaré ainda tinha duas horas de enchente. Ninguém mais notou!
O acesso ao porto de Montevidéu é, como em Buenos Aires, por um estreito canal
balizado. Quando acordei o navio estava já atracado no cais. O Uruguai tem área de
pouco mais da metade do Rio Grande do Sul, e a população é 1/3 da gaucha. É muito
plano, com extensas pradarias (pampas) onde desenvolve-se a principal atividade
econômica do país: pecuária. O índice de pobreza é menor que no Brasil, a
escolaridade é obrigatória; a partir do sexto ano os uruguaios aprendem português na
escola. O povo é simples, simpático e sem agressividade. Na segunda metade do
Sec.XX o país tornou-se a „Suíça da América‟, com uma legislação favorável à
implantação de instituições financeiras, e é hoje a sede do Mercosul. Bem na entrada
do oceano para o Rio de la Plata, 130 km a leste de Montevidéu, está o balneário
uruguaio de Punta del Este, que agrega a renda do turismo no país, com luxo e
cassinos. A parte norte do Uruguai é a borda sul da Bacia Sedimentar do Paraná,
onde afloram os basaltos que capeiam esta bacia, e a parte sul, onde vive a grande
maioria da população uruguaia, é geologicamente de rochas metamórficas préCambrianas. Os basaltos do Cretáceo ocorrem também por sobre o embasamento
pré-Cambriano entre Montevidéu e Punta del Este, e devem ocorrer para além do
estuário do Rio de la Plata. A implicação disto é que é possível que ao longo da costa
do Uruguai, esteja off-shore, por cima do
basalto, a continuação da bacia de
Pelotas, e a Petrobras, que atua na
distribuição de combustivel no país, já tem
a concessão de dois blocos para
exploração e planos para operar uma
refinaria sub-utilizada em Montevidéu.
No final da tarde largamos de Montevidéu,
navegando 60 milhas para este-sudeste
em canais balizados, até alcançarmos a
isóbata de 20 metros; dai o navio seguiu
rumo sul por 100 milhas, saindo da área
de influência do estuário do Rio de La
Plata; vento WNW 19 nós, temperatura
21°C. Daí aproamos para sudoeste, para
187
a próxima parada em Puerto Madryn, uma península com porto protegido a 43°S
65°W. Foram 42 horas de navegação para cobrir 720 milhas. A esta altura já
conhecíamos bem o navio-resort, havíamos atrasado o relógio por uma hora,
explorado alguns restaurantes e freqüentado o teatro de bordo. André e eu
começamos a farra do gamão no bar de fumantes do deck 11. No terceiro dia do
cruzeiro assisti um filme da aventura sobre Shackleton, o irlandês que em 1916 perdeu
o Endurance no Weddell Sea, perto da península Antártica, velejou 800 milhas em 16
dias num bote de 23 pés até a Geórgia do Sul, e após 17 meses na aventura
conseguiu trazer a tripulação de volta. Quatro anos depois morreu lá pelas Falkland
com quase 48 anos. O filme não mostrou, mas em 2007 pesquisadores holandeses
acharam na Antártica, cinco caixas de uísque que pertenceram a Shackleton, o
Pinguço:
(http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/02/100205_whiskyexploradorg.shtml)
Às 08:40 do quarto dia de cruzeiro
estávamos atracados por BB no cais de
Puerto Madryn. André, Gilca, Silvio e
familia e Gugu Pedreira e familia foram
ver os pinguins e os mamíferos marinhos
da família dos Pinipedes (focas).
Aprenderam que esses mamíferos
carnívoros, como os golfinhos, não tem
orelhas externas, tem forma de torpedo e
incluem uma diversidade grande de
espécies,
popularmente
conhecidas
como foca, morsa, leão marinho, elefante marinho, etc. O volume de sangue do seu
corpo é, proporcionalmente ao tamanho, muito superior ao de qualquer mamífero
terrestre e, por esse motivo, as focas conseguem armazenar grandes quantidades de
oxigênio. Quando mergulham fundo, contraem alguns vasos sanguíneos mais
importantes para que a circulação do sangue arterial fique dirigida ao cérebro, as
pulsações descem de 100 para 10 por minuto, de forma que um elefante marinho pode
ficar até 80 minutos sem respirar e consegue mergulhar até 1700 metros de
profundidade!
Já os pinguins são aves adaptadas à vida marinha, que não voam, mas nadam
embaixo d‟água na velocidade de um submarino e tem glândulas dessalinizadoras que
lhes permite beber água salgada. São cheios de arte, e tem até uma pegadinha a
respeito deles: porque os ursos polares não pegam os pinguins? Porque um vive no
hemisfério sul e o outro no norte! O pessoal voltou da shore excursion com um zilhão
de fotos, André com uns 2 kg de amostras de solos da Patagonia para a coleção do
IGEO/UFBA. Quando eu era da idade dele fazia a mesma coisa, mas dessa vez
desembarquei com Mila e fomos a uma loja de náutica onde compramos umas
bujigangas e ampolas lança-pimenta de defesa pessoal, que não vende no Brasil.
Depois fomos à praia, de casaco e bota, conversar com a professora que estava com
a turma de estudantes de maiô e calção aproveitando o verão para uma aula na praia.
Desatracamos de Puerto Madryn às 18 horas, rumo SE para o arquipélago das
Falklands, formado por duas ilhas principais, que cobrem uma área equivalente à
188
metade do estado de Sergipe: Gran Malvina a oeste e Soledad a leste, onde se situa
Port Stanley. O arquipélago das Falklands inclue centenas de ilhas menores, com
destaque para Geórgia do Sul e Sandwich do Sul. Esta feição geográfica, mais as
milhares de ilhas que constituem a Terra do Fogo, a sul da latitude 52,5°S
quando acaba a parte continental da América do Sul, Patagônia, na entrada do
Estreito de Magalhães -- são consequentes da movimentação tectonica entre a placa
sul-americana e a placa pacifico-antartica, formando este arco de ilhas imageado no
Google e desenhado no mapa abaixo.
Em Port Stanley, o navio ancorou no fundo de um saco no extremo nordeste da ilha
Soledad (East Falkland), em 11m de profundidade, proximo ao aeroporto, com muita
nebulosidade. Vento NE 23 nós, temperatura 9°C, pressão 995mb, caindo. Pela tarde
o vento rondou para W mas não passou de força 7. O fuso horário aqui é o mesmo de
Brasilia. Descemos nos tender (barco salva-vida, de 12m, dois motores diesel,
capacidade 120 passageiros) que passam num canal de 250m de largura e chegam
numa laguna onde existe um pier de desembarque com receptivo para turistas. Se a
população do navio descesse toda, suplantaria o numero de moradores da ilha. Havia
onibus, taxi, ruas asfaltadas, centenas de Land Rover, Mitsubishi e Toyota, casario
confortável e bem cuidado. Na laguna dois veleiros de recreio ancorados. A
temperatura subiu para 14°C após o meio dia. A maior parte da população visível era
de velhas inglesas. Agora em 2010 os ingleses estão investindo £ 327 milhões na
exploração de petróleo nas quatro bacias offshore no entorno das ilhas principais sob
protesto da Argentina, que "rejeita firmemente a pretensão do Reino Unido de
autorizar a realização das operações de exploração de hidrocarbonetos em regiões da
plataforma continental argentina submetidas à ocupação ilegítima britânica". Vai ver
que era por isso que só tinha velha para atender aos turistas. E possivelmente pela
mesma razão os ingleses ficaram tão nervosinhos que mandaram em 1982 uma força
naval desproporcional para desalojar os argentinos. Quem saiu ganhando foram os
pinguins: os argentinos minaram a Gypsy Cove na entrada do porto de Stanley, de
forma que humano que vai lá só pode acessar os locais protegidos. O peso dos
pinguins não é suficiente para detonar as bombas. A foto do afloramento na Gypsy
Cove, tirada com zoom, do navio, mostra as rochas paleozoicas dobradas para norte e
metamorfizadas pelo empurrão da placa antartica.
189
Às 16 horas do sexto dia de cruzeiro
o Norwegian Sun levantou âncora e
seguiu para o famoso Cabo Horn,
450 milhas para SW. O barômetro
que caiu o dia todo estava em 984mb
às 23 horas. Pela manhã do dia 9 de
janeiro o tempo continuava nublado.
No teatro, o entertainment Zsolt, um
polaco que fala inglês sem sotaque,
fez uma apresentação com powerpoint da viagem de Fernando de
Magalhães, de 1519 a 1522.
Magalhães nasceu e foi educado em
Portugal. Com 32 anos tomou parte
na
conquista
portuguesa
nos
Marrocos, onde foi ferido, se
desentendeu com o Comandante e
deixou o serviço sem permissão. No
ano seguinte o rei D. Manuel negou
permissão para ele embarcar para as
Indias. Ele afanou os mapas dos
portugueses e convenceu o rei da
Espanha a financiar uma viagem de circumnavegação, nunca antes tentada, na qual
ele traria uma carga de especiarias, que na época valiam o peso em ouro. Largou no
dia 20 de setembro de 1519, com cinco navios, 251 tripulantes. Em março de 1520 a
flotilha ancorou no sul da Argentina para passar o inverno; em setembro um temporal
destruiu um dos barcos, o Santiago. Magalhães estava numa fase de azar. Nesta
época foi publicado o mapa de Schoner, com os dados que ele roubara dos
portugueses, mostrando a América do Sul e a Antártica (Brasilis Inferior). Os
portugueses resolveram caça-lo. Irrompeu um motim, e Magalhães executou o
comandante da Vitória, o unico barco que completou a viagem. Seguiu com os quatro
restantes e no dia 21 de outubro de 1520 achou a entrada da passagem que leva seu
nome, entre o continente sul americano e o arquipélago da Terra do Fogo. Foi
entrando e verificando que a água se mantinha salgada, o que o levou a concluir que
era a ligação entre os dois oceanos. Nesta altura, Juan de Cartagena, espanhol,
comandante do San Antonio, inconformado com a liderança do português amotinou-se
e retornou. Em 38 dias os tres barcos restantes sairam no Pacífico. Levou todo o
verão para atravessar o Pacífico e chegar às Filipinas no dia 16 de março de 1521.
Entrou em conflito religioso com os nativos: cada espanhol armado matava 10 filipinos,
mas Magalhães foi morto a 27 de abril. O navegador da Trinidad, o barco de
Magalhães, Juan Sebastián Elcano, assumiu o comando dos 110 sobreviventes e
decidiu abandonar um dos navios, o Conception. Desceu 500 milhas para sul e na
altura do equador, entre Borneu e Nova Guiné, encontrou as ilhas Molucas, que no
Sec.XVI eram chamadas Ilhas das Especiarias. Carregou os dois barcos, mas a
Trinidad começou a fazer água, e ficou para reparo com 52 homens. Elcano seguiu
com a Victoria carregada, atravessou o Índico e o Atlântico e chegou na Espanha em 8
de setembro de 1522 com 21 sobreviventes, 4 asiáticos e 17 europeus, entre estes
Antonio Pigafetta, um veneziano erudito que publicou suas anotações em 1525. A
190
carga da Victoria pagou a expedição com lucro para a corte espanhola, que premiou
Elcano com honrarias de primeiro circumnavegador e pensão vitalícia.
O Zsolt é muito bom apresentador. No quinto dia do cruzeiro ele fez uma palestra
sobre a geologia da Patagônia, bem ilustrada e compreensível para a audiência dos
veinhos. Levantou um ponto interessante que pouca gente se dá conta: devido ao
achatamento da terra nos polos, o ponto mais alto em relação ao centro do planeta
não é o Everest, situado acima do trópico de Câncer, cuja altura de pouco menos de 9
km é medida em relação ao nível do mar. O ponto mais distante do centro é o monte
Chimborazo, nos Andes equatoriais, porque a diferença do raio equatorial para o raio
polar é de mais de 21km!
Gugu Pedreira, que Mila apelidou de Dr.Gugoogle, me entregou revisado meu capítulo
para o livro de Geologia da Bahia cujo dead-line de entrega á agora no final de janeiro.
Gugu levou para bordo mapas geológicos e artigos de geologia de toda a área que
passamos, e sempre tinha uma platéia ouvindo as explicações dele. Na verdade foram
ele e Neuza que me motivaram a retornar nesta área. Como ele levou um casal de
netos adolescentes, eu motivei André e Gilca a irem junto, e André motivou Silvio e
Rosana a aproveitarem as férias e levarem Luigi e Vinicius, que se esbaldaram na
creche.
No sétimo dia de cruzeiro, 9 de janeiro, passamos a Isla de los Estados pelo sul, no
visual. Vento sul força 3. Às 15h vento SE 7-8 nós, mar liso, a visibilidade melhorando.
Neste dia tranquilo, André, após uma semana de observações e estudos, preparou
uma tabela de decisão de como pedir carta para se sentir à vontade e sentar na mesa
de black-jack no cassino. Ele concluiu que a chance do cassino é pouco maior que
50%, e que o jogador preparado, com um pouco de sorte, pode fazer uma fèzinha.
No final da tarde, a Diretora de
Eventos convidou os passageiros
para um „batismo do Horn‟, onde o
Comandante e o Imediato deram um
ar da graça e apareceram no deck 11
para batizar com água salgada
colocada num barril quem quizesse; a
temperatura da água estava em 10°C,
e do ar 8°C, muito mais quente que
em Paris e Londres no mesmo
instante. Os batizados recebiam de umas moças simpáticas uma toalha para se
secarem. Da nossa turma foi Luigi, de 10 anos. Chegamos no Horn com mar liso,
vento força 2. O navio fez o contorno da ilha em 360°. Muitas fotos, incluindo o farol
que se vê do lado leste (dois faróis, um baixo e um alto). Ai a pressão atmosférica
começou a subir e seguimos para norte na direção de Ushuaia e do Canal do Beagle.
191
Track do GPS contornando o Horn, atravessando
todo o Canal do Beagle e navegando o Estreito de
Magalhães até o Pacifico. À direita, a aproximação
no visual do Cabo Horn, no extremo meridional da
América do Sul.
A imagem acima é o farol, e à esquerda é a carta
sinótica para a tarde da passagem. Bem sobre o
Horn as isóbaras estão afastadas e está
desenhada uma zona de baixa pressão, 984mb, coerente com o barômetro de bordo. Como
voce pode ver, o mar está liso e o vento suave, 10 nós.
192
Acho, sem muita autoridade para tanto, que o 'normal' é normal em qualquer lugar, e
que quinzenalmente deve-se esperar uma pauleira por aqui, mais frequente nestas
latitudes mais altas. Mas o pessoal que reporta essa passagem só se lembra de falar
de onda de 12m e vento de 70 nós! Não creio que nenhuma pauleira de alta latitude
chegue no chinelo de um furacão tropical bem criado. Nesta viagem de 4 mil milhas
em 15 dias, entre Buenos Aires e Valparaiso, via Falklands, houve uma pauleira com
vento força 8, 40 nós, que durou duas horas. Numa outra que fiz em dezembro de
1995, num navio pequeno, pegamos no Canal do Beagle um williwaw de 80 nós; a
pressão atmosférica havia caido para 955mb, e a pauleira durou duas horas. Uns
jovens atirados, com veleirinhos de plástico, como os nossos, vão para a Antártica no
verão. Oleg, com a segurança de seu veleiro polar, diz que por vezes vai motorando,
sem vento. No circulo polar, que contorna o continente Antártico, na primeira semana
de janeiro o sol não se põe. Na latitude do Horn, 56°S, o por do sol em dezembrojaneiro é às 22h. Para mim, índio tropical, o chato em velejar nesta área é a
visibilidade geralmente limitada por intensa nebulosidade, e o frio para quem se expõe
fora do ambiente com calefação.
No oitavo dia de cruzeiro entramos pelo leste do Canal do Beagle e atracamos no pier
em Ushuaia, cedo pela manhã. T=8°C, P=990mb, crescendo, vento SW força 3, dia
chuvoso. Mila foi com a turma toda para um shore excursion no Parque Nacional da
Terra do Fogo. André foi ver a tundra e amostrar os solos de turfas. Gugu foi procurar
afloramentos do batólito que intrudiu a área no Cretáceo. Rosana e Neuza foram levar
as crias para ver a fauna. Eu desci mais tarde e fiquei impressionado em como a
cidade cresceu umas cinco vezes em 15 anos. Um horror! O casario agora sobe pela
montanha, foram construidas avenidas com duas pistas asfaltadas e com quebramolas para um tráfego já pesado de automóveis. O comércio na rua principal é de
produtos eletrônicos produzidos na zona franca, com fábricas japonesas instaladas no
canal logo a oeste da cidade, e com lojas de roupa para turista, parecendo uma „Praia
do Forte‟ austral. O cais onde ficava o Kotik cresceu umas dez vezes e agora é
atracadouro dos cruisers e de muitos barcos de marinha. Intenso policiamento. Do
outro lado da baia implantou-se um Iate Clube agora cheio de veleiros de fibra. Fui pra
lá conversar com os locais: a energia da cidade é termelétrica, que por enquanto vai
bem, enquanto a Argentina ainda exporta parte do petróleo que produz. Mas a água é
da neve derretida no verão e estocada em tanques para o inverno. Eu estou
193
convencido que estas regiões frias
que congelam no inverno são
ambientalmente muito frágeis para
suportar uma ocupação humana
muito densa.
Esta parte da Terra do Fogo é
habitada desde há 11 mil anos. Os
europeus
instalaram
missões
religiosas lideradas por um tal de
Thomas Bridges, em 1869, e em
1930 quase toda a população
aborígene havia desaparecido. Mais
dia menos dia a sociedade vai entender que esses religiosos europeus, instruídos de
leitura, que vieram para a América catequisar um povo adaptado à natureza, devem
ser considerados uns assassinos. Em Ushuaia existem dois museus, pobrinhos,
exaltando o modus vivendi com os Yamana, que já eram. Na qualidade de um
sobrevivente Kiriri tropical, anti-religioso e instruído, sempre que posso tento recontar
a história da ocupação européia na América. Minha Vó Sinhá, contava envergonhada,
que a mãe dela, Bisa Joviniana, foi caçada no mato „a dente de cachorro‟.
Todos a bordo às 13:30, o navio desatracou cedo, às 14 horas, de forma que
poderíamos apreciar as geleiras azuis que escorrem para o Canal do Beagle, viajando
com luz do dia de leste para oeste entre os paralelos 54,5° e 55°S. Logo na saída, 4
milhas a oeste de Ushuaia, vimos a cidade industrial japonesa na entrada da baia
Lapataia, um fjord já sem gelo. O gelo da calota polar chegou até o paralelo 45°S
durante o Pleistoceno, o período geológico marcado por grandes glaciações, e pelo
aparecimento do homo-sapiens no planeta. Ainda tem um restinho de gelo nos vales,
que os turistas vão ver em Perito Moreno, na Argentina, e a continuação da mesma
geleira, na laguna San Rafael, no Chile. Nos ultimos 11000 anos -- o período Holoceno
-- quando a América do Sul foi acessada pelo migrante homo sapiens (nós), a calota
polar regrediu e continua regredindo para o polo, estando agora confinada pelo círculo
polar antartico a 63° de latitude. Então, calculando a zona esférica compreendida entre
63° e 45°, para uma terra com 6300 km de raio, temos o degelo de uma área de 80
milhões de km2. Para a superficie do planeta de 4πR2 ≈ 500 milhões de km2, e
considerando os dois hemisférios,
temos um degelo de 32% da área
total. Esse gelo derretido foi
incorporado
nos
oceanos,
que
ocupam 361 milhões de km2 da
superficie da terra. Para os 120m que
o nível do mar subiu neste nosso
período inter-glacial, foi necessário
derreter 280m de gelo. Fácil de
aceitar. Sobre a Antartica hoje ainda
tem mais de 2km de gelo sobre o
2
continente de 13 milhões de km : (http://www.ufrgs.br/antartica/antartica-antartida.html)
194
Cada vale desses ai ao lado, onde a geleira
desemboca ao longo do canal, os vendedores
de turismo dão um nome diferente. O
contraste da neve branca e do gelo azul é
marcante. Dr. Gugoogle explicou: se um corpo
reflete toda a luz incidente, êle é branco. Se
absorve tudo, é preto. A água liquida tem
índice de refração 1,33, isto é, a velocidade da
luz diminue de 1/3 em relação à propagação
no vácuo. Por isso que ao colocar uma vara
na piscina voce tem a impressão que ela faz
um ângulo. Quando cristaliza em estado
sólido, embora sempre no sistema hexagonal,
a água tem vários hábitos cristalinos: laço de
fita quando neve, granular quando granizo. O
indice de refração no gelo diminue para 1,31.
O gelo da geleira, compactado, assume um
hábito cristalino grosseiro que absorve os
comprimentos de onda mais longos da luz
branca e reflete os mais curtos, na faixa do
azul e violeta, que alcançam sua antena para
a frequência do visível, isto é, seu olho.
A geleira funciona como um rio que escoa
com velocidade variável, da ordem de metro
por dia. Nas bordas e no fundo o movimento é
mais lento que no centro. A parte em contato
com a rocha faz um trabalho de erosão,
desagregando e transportando fragmentos
mal selecionados, isto é, em qualquer faixa de
tamanho. Na figura de cima nesta página, a
geleira vai carregando um pedaço da borda rochosa. Na figura de baixo está o
depósito que ela deixa ao se
desagregar e dissolver: a moraina, uma
barra de material grosseiro mal
selecionado, nesta situação aqui na
Terra
do
Fogo,
disposto
perpendicularmente à frente da geleira
e paralelamente ao curso do canal.
O Canal do Beagle é estreito, de cima
do navio sempre se vislumbram
detalhes das bordas. No geral é fundo,
250m, como soe acontecer em fjords.
É frequente aflorarem pedras isoladas
e morainas marginais, e as cartas digitalizadas da Garmin, as blue-charts, não são
confiáveis nesta área: o registro do track do GPS por vezes passa por cima das ilhas.
O canal é tido como uma falha de deslocamento horizontal (left-lateral strike slip fault)
195
consequente de uma rotação tectônica do sul dos Andes (Cunningham, W. D. (1993),
Tectonics, 12(1), 169–186, acessível ao clique no link STRIKE-SLIP FAULTS IN THE
SOUTHERNMOST ANDES AND THE DEVELOPMENT ...).
É um trecho complicado para navegação, e sem prático local eu não recomendaria
investi-lo à noite.
Na longitude 71°43‟W saímos do canal, passamos um trecho curto no Pacífico aberto
e mudamos de rumo para noroeste numa passagem interna para o Estreito de
Magalhães. O prático que estava conosco era muito bom! Amanhecemos ancorados
em Punta Arenas.
Punta Arenas é uma cidade de serviço, feinha, cheia de croatas (!), fundada em 1848
quando começou a corrida do ouro na Califórnia. Servia como porto cosmopolita de
apoio na rota entre as costas leste e oeste dos EUA. Com a construção do Canal do
Panamá em 1914, a rota foi abandonada, mas a cidade retomou um fôlego em
meados do Sec.XX como base de apoio da pequena indústria de petróleo do Chile.
Hoje, serve de base para o acesso à Antártica chilena e está desenvolvendo o turismo.
Foi aqui que o Norwegian Sun parou por mais tempo e ofereceu o maior numero de
shore excursions. O navio ficou em âncora, não existe um píer de atracação para um
cruiser de porte. Todo o sul do Chile é pobrezinho e de baixa ocupação. Punta Arenas
é a única cidade maiorzinha no sul do Chile, com 150 mil habitantes, tem aeroporto,
rodovia que liga com a Argentina, e você pode ir de carro visitar os pingüins
magelânicos ou remar um caiaque no estreito. É daqui que saem os navios Stella
Australis e Mare Australis que fazem cruzeiro até Ushuaia e Cabo Horn,
desembarcando os passageiros nas geleiras. Soube que o Terra Australis, que viajei
em 1995, havia incendiado e afundado aqui no Estreito de Magalhães.
O Estreito de Magalhães é muito mais largo que o Canal do Beagle. No estreito, se a
nebulosidade permitir, de uma margem você vê a outra lá no horizonte. O clima não é
o que você escolheria para morar, frio e chuvoso. No 9º dia do cruzeiro o navio saiu às
19:30, e 15 horas depois, 40 milhas antes de desembocar no Pacífico, deixamos o
estreito, rumo norte por entre as ilhas dos fjords do sul do Chile. Temperatura do ar
7°C, da água 10°C, vento WSW força 8, P=988mb, ondas 1,5m, chuva. Neste 10º dia
navegamos pela terra dos alacalufes, nômades canoeiros que ocuparam a região por
6 mil anos, vivendo no final uma história triste e perdedora com a chegada dos
homens brancos (http://es.wikipedia.org/wiki/Alacalufes). A foto ai ao lado foi feita de
dentro da cabine, os escombros de um navio
a vapor apoiados numa moraina. Neste dia
terminei o livro do Bill Bryson, “Breve história
de quase tudo”, 2003, Companhia das Letras,
535p..O cara é escritor profissional e deve ter
uma super-equipe. Entrevistou muita gente
preparada pelo mundo todo e resumiu de
forma brilhante um conhecimento gigantesco
– cosmologia, geologia, geografia, biologia e
antropologia
–
numa
linguagem
compreensível ao grande público.
196
No 11º dia de cruzeiro, lá pelo meio-dia, saímos do canal entre as ilhas e
desembocamos no golfo de Penas, que para manter a tradição, nos recebeu com um
westerly força 8, característico dessas latitudes (em português são chamados de
quarenta bramadores, em inglês the roaring forties), com ondas de 4m. O Norwegian
Sun no rumo norte pegou esse mar de lado, e os mais sensíveis como Rosana não
foram almoçar. Mila nem ligou, e André aproveitou que o cassino abriu quando o barco
se afastou mais de 10 milhas da costa (em águas chilenas o jogo não é permitido). A
temperatura subiu de 7 para 12°C e a pressão também, de 980 para 1013 mb. Na hora
do jantar já havíamos mudado de rumo para leste e a vida a bordo voltou ao normal
com o vento em popa. Pela manhã do 12º dia estávamos ancorados em Chacabuco.
O limite norte do golfo de Penas é a península de Taitao, unida ao continente pelo
istmo de Ofqui, na mesma latitude da laguna San Rafael, 46,5°S. É nesta península
de Taitao que convergem três placas tectônicas: a de Nazca e a Antártica, que se
movem para leste, e a Sulamericana,
que se move para oeste.
Geleira desembocando na Laguna San Rafael
Se você gosta de notícias do tipo das
que são mostradas na TV, e clicar no
link da placa de Nazca, vai ver no
final do artigo: “La zona de
subducción que ocurre en las costas
sudamericanas ha provocado que
esta zona sea altamente sísmica y
volcánica. Cabe destacar el gran
terremoto de Valdivia de 1960, cuya
magnitud superó los 9,5º en la escala
de Richter, que ha sido el más fuerte
movimiento
telúrico
registrado
en la historia de la humanidad”.
Valdivia está no limite norte do mapa ao lado, a
800 km da península de Taitao. No dia 22 de maio
de 1960, a placa de Nazca, que mergulha
plácidamente sob a placa sulamericana a 8
cm/ano, escorregou de repente 40m ao longo de
uma extensão de 1000km, provocando um sismo
(tremor) medido no planeta inteiro. O epicentro do
terremoto foi no mar, 180 km a NW de Valdivia e
a 60 km de profundidade. A energía liberada foi
equivalente a 23 mil bombas atômicas das de
Hiroshima, e o maremoto consequente atravessou
o oceano Pacífico chegando ao Japão, do outro
lado do mundo. Para o observador desavisado da
velocidade dos fenômenos geológicos, o tempo
envolvido cria a ilusão de estabilidade. Mas aqui
temos a sensação que o tempo parece
197
comprimido, dá para sentir nos ossos a dinâmica da geologia. Dr. Gugoogle explicou
que quando a placa descendente mergulha com ângulo forte a atividade sísmica e
vulcânica é mais freqüente do que quando o mergulho da placa é baixo.
As forças naturais avantajadas que operam nesta região não se limitam aos
movimentos das placas e das geleiras. Repare no mapa da p.197 que entre a laguna
San Rafael e Puerto Montt a costa tem uma geometria de concha que recebe os
vigorosos westerlies, os quais ficam barrados pelos Andes a sotavento, de forma que
a micro-maré do Pacífico é ai amplificada para uma mega-maré de até 7m! A corrente
oceânica fria do Pacífico Sul (West Wind drift, rica em nutrientes) se bifurca na latitude
da „concha‟, desviando para o sul como a corrente do Cabo Horn e para o norte como
a corrente Humboldt. Para apreciar estas forças com mais vagar, o recomendável é
um cruzeiro no Skorpios (http://www.skorpios.cl/), um navio pequeno baseado em
Puerto Montt. Mas isso é outra história e outra viagem.
O Norwegian Sun passou o 13º dia do cruzeiro atracado no píer em Puerto Montt,
cidade que homenageia Manuel Montt, o presidente do Chile que incentivou a
imigração alemã em meados do Sec.XIX . Do Cabo Horn até aqui vimos os 40% do
Chile agreste e gelado. Daqui para o norte é outro Chile, ocupado, agrícola e mineiro:
38% das reservas mundiais de cobre estão no norte do Chile, em jazidas que
alimentam agora no Sec.XXI 36% do consumo mundial. Puerto Montt no momento
está tentando sair de uma recessão, conseqüente do quiprocó dos Estados Unidos em
2008 e principalmente de uma doença que atingiu 80% do salmão, base da indústria
pesqueira da região. A doença é a anemia infecciosa de salmão, conseqüente do
ambiente euxínico provocado pelo excesso de dejetos produzidos por uma aqüicultura
intensiva. As empresas norueguesas que operam as fazendas de salmão
contaminadas já obtiveram concessões para atuar nos fjords mais ao sul!...
A Patagônia chilena é a antiga plataforma continental transformada num arco de
rochas paleozóicas dobradas e metamorfizadas pelo empurrão da placa de Nazca. No
final do Cretáceo (70 milhões de anos, Ma) ocorreram intrusões de granito, e no
Mioceno (15 Ma) houve o levantamento dos Andes e começou o vulcanismo ativo até
hoje. André e Gilca pegaram um taxi e foram para o norte, amostrar os solos
vulcânicos no lago Llanquihue e fotografar o que sobra da floresta de alerce. Foram os
últimos a embarcar de volta, porque se entretiveram na visita aos vulcões Osorno e
Calbuco e quase perdem o barco. Mila e eu fomos ao porto dos pescadores, uma
espécie de Mercado Modelo de Puerto Montt, onde compramos uma amostra de
pedra-pomes. Numa conversa com o dono de um restaurante ele disse que era
capitão de barco de pesca, mas que com a crise do salmão teve que mudar de ramo.
Depois fomos ver o museu histórico, construído onde 20 anos atrás, quando estive
aqui, era o Mercado de La Rampa. O museu retrata a ocupação da área desde 12000
anos, quando começou a recessão das geleiras, até hoje. Os povos primitivos,
nômades, viviam em canoas de alerce, uma madeira leve e fácil de trabalhar. Como
estavam frequentemente molhados, se untavam com óleo animal para se proteger do
frio, comiam focas durante milênios e tinham a temperatura corporal mais alta que a
nossa. Com a chegada dos espanhóis, Sec.XVII, foram escravizados, obrigados a se
vestir e a comer vegetais. Dizem que da população original sobraram dois. O museu
198
exibe uma carta do rei Felipe, de Espanha, datada de 2 de maio de 1608, ungido da
propriedade dos índios outorgada pelo
Santo Padre, aquele feladapota,
determinando que os homens maiores
que 10,5 anos e as mulheres maiores
que
9,5
anos
deviam
ser
escravizados. Quando os chilenos se
livraram do domínio dos espanhóis
com a independência em 1818 veio a
imigração alemã com uma cultura
moderna nesta região. No final do
Sec.XX desenvolveu-se a aqüicultura
do salmão nos fjords.
Às 18 horas do 13º dia de cruzeiro largamos de Puerto Montt direto para Valparaiso,
620 milhas ao norte. O 14º dia foi todo de mar, com instruções no jornal diário para
colocar as malas no corredor até à meia-noite. No 15º dia um desembarque tranqüilo,
com translado rodoviário de 120 km para leste, até Santiago. De brinde, neste
domingo 17 de janeiro, foi dia do segundo turno da eleição para Presidente da
República do Chile. Em Santiago o tráfego estava alterado, mas não havia outdoor,
nem papel no chão. Tudo ordeiro e limpo. O Chile todo tem uma população de 16
milhões (como o estado do Rio de Janeiro), com 8 milhões de eleitores. O processo
eleitoral se concluiu às 17:30, e os votos foram computados na mão. Ainda assim, às
19h a televisão mostrou o candidato que perdeu cumprimentando o vencedor e
agradecendo à população os 48% dos votos. Ai começou um buzinaço e a juntar
gente na rua. A presidenta Michelle Bachelet, que apoiou o perdedor, ligou para
cumprimentar o presidente eleito com 52% dos votos válidos, Sebastian Piñera, o qual
a convidou para o café da manhã no intuito de ouvir conselhos da experiência da
presidenta. Tudo mostrado na TV de forma polida e elegante.
No retorno fiz uma escala em São
Paulo para ir a Cabreuva visitar o
estaleiro da Craftec. Eles compraram
o projeto deste cat ai ao lado e
iniciaram a construção do primeiro
aqui no Brasil, com o nome de
CatFlash35, que deve ir para água
em agosto. Eu vou lá testar o
brinquedinho, e se for aprovado o
casco nº 3 vai ser o Pinauna VII.
199
LIVE ABOARD EM GALÁPAGOS - 2010
Listo? Nos reunimos em la plataforma a 20 metros. 1,2,3, vamos!
O programa era isso. Oito turistas equipados em cada panga (bote inflável com motor
de popa), um pangueiro competente e um dive- master que comanda o mergulho,
mais preocupado com a câmara do que com os turistas. Vida de turista é que nem
rapadura: é doce mas né mole não!
Galápagos é um arquipélago de 16 ilhas grandes - 3 habitadas pelo super-predador
homo-sapiens: San Cristóbal, Santa Cruz, e Isabela - e 43 ilhotas ou rochas que
emergem, todas de origem vulcânica, formadas diretamente como resultado da
erupção de uma chaminé que vem lá do manto e rompe a crosta da terra, uma
anomalia térmica que os geólogos chamam de „hot-spot‟. O conjunto é administrado
como parque nacional pela Republica do Equador, mantido com a taxa de turismo
(US$50 para os do Mercosul, US$100 para „outros‟), uma reserva biológica marinha
tombada em 2005 pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. O Equador há 10
anos que não tem moeda própria, usa o dólar americano.
O arquipélago de Galápagos fica 1000 km a oeste de Guayaquil, um vôo de 1,5 hora
em Boeing 737 da Aerogal. É cortado pela linha do equador, latitude zero, e recebe a
corrente fria de Humboldt, que vem do sul, vira para oeste para se aquecer na
circulação oceânica anti-horária do hemisfério sul. No inverno, como agora, o vento sul
empurra a corrente rica em nutrientes e no arquipélago a água é fria, de forma que
quem vai mergulhar precisa de roupa de neoprene espessa. Uma parte do grupo,
instrutores de mergulho profissionais, como o Tuca, usava roupa seca, que exige
treinamento e habilidades especiais. Em compensação, no inverno, a água fria rica em
nutrientes propicia que os mergulhos em Galápagos realize o sonho de quem quer
pedalar as nadadeiras junto a uma fauna marinha riquíssima e equilibrada. Na ilha de
Darwin, no extremo noroeste do arquipélago, os mais preparados como o Zé Alemão
200
pedalaram no azul acompanhando de perto um majestoso tubarão-baleia, o maior
peixe do mundo. Enquanto isso os iniciantes, como eu – o mínimo aceitável para
mergulhar ai é a certificação de advanced open water – ficam de espectadores na
„arquibancada‟ a 24m de profundidade. Se lhe interessar ver um rico arquivo de fotos,
de uma voltinha no álbum que o Rafael Esteves montou em:
http://www.captaindive.com.br/album/album.asp?ShowSub=2010-08-Galapagos
Lá no portal da Captain Dive você vai ver um cardume enorme de tubarões martelo,
um bicho curioso que vem até você e se assusta quando recebe um sopro de bolha na
cara. No mergulho na ilha Wolf, os tubarões-martelo estavam estressados, correndo
assustados, e quando subimos o Nigro e a Olivia Suíça explicaram por que: eles viram
uma orca, o mamífero marinho que está no topo da cadeia alimentícia, passeando
com uma cara idiota que assustou não só os martelo como também ao Nigro.
Ninguém fotografou a orca!
201
.
O „hot-spot‟ de Galápagos fica na latitude 1°S, longitude 92°W, e é ai que a chaminé
fratura a crosta e vomita lava quente, 1400°C, formando as ilhas. Passeando sobre o
hot-spot desloca-se para leste se expandindo de oeste a 6cm/ano a placa tectônica de
Nazca, que para manter a superfície do planeta constante vai se enfurnar para leste
por sob a placa continental na América, a qual se dobra levantando a cadeia dos
Andes. No vôo de volta dia 23 de agosto, a Aerogal distribuiu o jornal equatoriano El
Comercio, que no Caderno 2, tinha uma reportagem com a chamada „Em el país se
dan
2600
sismos
em
el
año‟,
disponível
em
http://www.elcomercio.com/Generales/Solo-Texto.aspx?gn3articleID=258009. A ilha de
San Cristóbal, a mais oriental, a 1°S, 89,5°W, está sobre a placa de Nazca, a 275km
do hot-spot, o que a 6cm/ano resulta que ela levou 4,6 milhões de anos para chegar
onde está. Hoje, a maior atividade vulcânica ocorre na ilha mais ocidental do
arquipélago, Fernandina, abaixo da qual as evidências sísmicas indicam que existem
câmaras magmáticas. Nessas câmaras, o material que sobe do manto por convecção
fica aliviado a uma pressão muito menor, e se liquefaz, de forma que ao alcançar a
superfície escorre como lava líquida que ao baixar a temperatura se solidifica
formando as ilhas, preservando na superfície as estruturas encordoadas de
escorregamento fluido, como na imagem acima.
202
Observe que a lava basáltica onde a
turma está caminhando é um derrame
cinza escuro, circundado por morrotes
de um material avermelhado. O material
avermelhado é mais velho, e a cor
vermelha é conseqüente da oxidação do
ferro dos minerais que compõem a
rocha. Se o magma na sua ascensão
incorporar silicatos alcalinos e água, ele
fica gaseificado e ao chegar à superfície, ao invés de escorrer, explode como cinza
vulcânica quente que precipita em seguida como escória ou como pedra pomes, um
material poroso de baixa densidade onde a água da chuva percola facilitando a
oxidação e o intemperismo.
A propósito de chuva, no verão de Galápagos, conforme indicado no mapa da
p.201,na linha do equador a insolação propicia uma contracorrente equatorial quente
vinda de oeste, e também uma corrente quente vinda de nordeste, do Panamá,
conseqüente da descida da zona de convergência inter-tropical. O calor aumenta a
umidade relativa do ar, que em contato com a corrente fria de Humboldt precipita
como chuva. Se a insolação for um pouco mais intensa que o normal, o que ocorre
periodicamente, as chuvas tornam-se torrenciais não só no arquipélago como no
continente adjacente, configurando o fenômeno reconhecido como El Niño, de
conseqüências globais.
As variações climáticas neste arquipélago isolado criam adversidades onde a vida que
não consiga se adaptar simplesmente se extingue. Tanto a fauna como a flora
endêmicas de Galápagos são forçadas a uma adaptação, não observada onde existe
área disponível para migrações, uma observação sagaz feita por um visitante ilustre,
que em 1835 passou um mês no arquipélago: o jovem naturalista inglês Charles
Robert Darwin.
O Beagle ancorou em San Cristobal (que os ingleses chamaram Chatham) no dia 18
de setembro de 1835, e circulou pelo arquipélago, com desembarque para pesquisa
em sete pontos, tendo Darwin feito uma amostragem detalhada na ilha Santiago
(James). A nomenclatura que o comandante FitzRoy, do Beagle, usou na sua
cartografia, foi apropriadamente modificada pelos equatorianos, que anexaram o
arquipélago em 1932. No dia 20 de outubro de 1835 o Beagle içou velas e seguiu para
o Taiti com ventos favoráveis, 4000 milhas para sudoeste.
A formação de Darwin foi em medicina e teologia anglicana. Ele tem pedigree de uma
família próspera e culta, e vocação para naturalista, com uma forte capacidade de
observar e descrever. Esses atributos e o conhecimento de pessoas certas,
possibilitou que ele fosse aos 21 anos de idade indicado para acompanhar o
Comandante do navio hidrográfico HMS Beagle, Robert FitzRoy, também um jovem
aristocrata, numa missão de mapeamento numa viagem de circunavegação. FitzRoy
aprovou o embarque de Darwin, e deu para ele ler o livro de Charles Lyell (1830),
Principles of Geology, onde ele aprendera a teoria do uniformitarianismo, a qual
203
postula que os processos geológicos são graduais e registram intervalos de tempo
extremamente grandes, contrastando com a teoria francesa do catastrofismo vigente
no Sec.XVIII . O próprio Lyell pediu a FitzRoy que observasse e anotasse aspectos da
geologia, tipo a presença de blocos erráticos indicativos de processos glaciais. O
jovem Darwin deu conta do recado, observou com muita acuracidade, amostrou,
registrou e divulgou. Seu antigo mestre, John Stevens Henslow cultivou a reputação
do pupilo fornecendo a vários naturalistas os espécimes fósseis e cópias impressas
das descrições geológicas que Darwin fazia. Quando o Beagle retornou após 5 anos
de viagem, Darwin era uma celebridade no meio científico. Você pode ver uma
biografia sucinta de como ele se tornou um naturalista clicando aqui em Biografia de
Charles Robert Darwin.
O Beagle atracou de volta na Inglaterra em 2 de outubro de 1836. O pai de Darwin
proveio recursos para que ele pudesse ter uma carreira cientifica auto-financiada, e ele
passou a fazer experiências com plantas e animais domésticos. As conclusões às
quais Darwin chegava contrariavam a idéia vigente do Criacionismo pregado na Bíblia,
e ele levou 20 anos ouvindo os resmungos da prima Emma, com quem se casou, de
que, se divulgasse essas idéias heréticas, ele iria para o inferno! Eles tiveram dez
filhos, três dos quais morreram prematuramente, e Darwin atribuiu a fraqueza da prole
ao fato do acasalamento entre indivíduos de linhagens mais próximas conforme ele
aprendera experimentando com cavalos e pombos. Com a morte de sua filha Annie,
de dez anos, em 1851, Darwin finalmente perdeu toda a sua fé no cristianismo e na
possibilidade de um Deus benevolente. Em 1858 ele recebeu uma carta de Alfred
Russel Wallace, enviada de Indonésia, encaminhando um ensaio no qual ele definia
as bases da teoria da evolução e pedindo ao colega uma avaliação do mérito de sua
teoria, bem como o encaminhamento do manuscrito ao geólogo Lyell.
Darwin, ao se dar conta de que o manuscrito de Wallace apresentava uma teoria
praticamente idêntica à sua - aquela em que vinha trabalhando, com grande sigilo, ao
longo de vinte anos - escreveu ao amigo Charles Lyell: "Toda a minha originalidade
será esmagada". Para evitar que isso acontecesse, Lyell e o botânico Joseph Hooker também amigo de Darwin e também influente no meio científico - propuseram que os
trabalhos fossem apresentados simultaneamente à Linnean Society of London, o mais
importante centro de estudos de história natural da Grã-Bretanha, o que aconteceu em
julho de1858. Em seguida, Darwin decidiu terminar e publicar sua teoria, o que foi feito
em 1859, com o título On the Origin of Species by Means of Natural Selection, um best
seller que nas seis edições revistas e modificadas pelo autor muito influenciou a
opinião pública da época. Para entender a influencia e as conseqüências imediatas do
trabalho de Darwin, clique no link Charles Darwin - Wikipédia, a enciclopédia livre,
muito bem escrito, em português.
Para ler na viagem a Galápagos eu levei uma tradução (Eugênio Amado, 2002) do
„Origem das Espécies‟ para a Editora Itatiaia. Em nota, os editores comentam que as
traduções anteriores em português não tiveram sucesso. A Itatiaia de inicio se deparou
com o problema de qual edição traduzir, e considerando que a evolução do
conhecimento cientifico do Sec.XX veio a „corrigir‟ modificações que Darwin,
pressionado pelas críticas e iludido por algumas conclusões errôneas, introduziu
especialmente na 5ª e 6ª edições; resolveram traduzir a 1ª edição, por ser a mais
autenticamente darwiniana, a de maior interesse histórico, e a que provocou a mais
204
acerba e prolongada controvérsia científica de que se tem notícia(p.11). O livro tem 14
capítulos, 381 páginas, e é extremamente maçante! Coisa para inglês do Sec.XIX. Na
parte de biologia, Darwin conta das experiências que fez nos 20 anos que ficou
preparando o trabalho, das comparações da evolução das espécies no estado
doméstico e no estado selvagem, da avaliação dos instintos e do cruzamento de
híbridos e mestiços. A teoria por ele levantada é baseada em elucubrações. Ele
argumenta que „não há observação boa e original sem especulação‟. Nos capítulos
referentes à geologia ele procura fazer compreender ao leitor a dimensão do tempo
geológico, reconhece as variações do nível do mar e o levantamento continental no
oeste da América do Sul, embora credite tudo que refere como se derivado do
„Princípios de Geologia‟ de Lyell.
No tempo de Darwin não existia ainda a genética de Gregor Mendel, e muito menos o
conhecimento da molécula da vida, o ácido desoxirribonucléico, o hoje popular DNA,
conforme a sigla em inglês. A unificação no Sec.XX da teoria de Darwin e da genética
valorizou o pioneirismo da idéia da evolução das espécies por seleção natural e deu
lugar ao neodarwinismo hoje uma bandeira carregada por Richard Dawkins, o
"rottweiler de Darwin", que discute com muita elegância em programas de TV seus
argumentos contra a idéia da existência de Deus e combate com veemência o
conceito criacionista dos fundamentalistas estadunidenses.
Para terminar, uma palavrinha sobre o barco: o Deep Blue é um trawler de aço de 30m
que faz o cruzeiro pelo arquipélago em uma semana. O barco anda a 7 nós, tem dois
motores de 650 HP, um grupo gerador barulhento, dessalinizador, compressores que
filtram o ar para as garrafas de mergulho estaleiradas, garrafas de oxigênio para
enriquecer o ar comprimido, carregando nitrox. Na popa tem uma plataforma de
mergulho com escaninhos para 18 equipamentos individuais, um cabideiro para
205
dependurar as roupas de exposição à água, dois chuveiros com água quente para
quem volta do mergulho.
As cabines são com duas camas baixas, mesa de
cabeceira, banheiro privativo e armário.
A comida é boa e a tripulação simpática e prestativa. A ponte de comando é aberta
aos turistas. No piso intermediário tem um salão amplo com sofás e lousas onde são
feitos os briefing antes dos mergulhos. O barco é limpo e seguro, e provavelmente é a
melhor maneira de visitar o arquipélago. Se você preparar um jantarzinho eu levo o
DVD que o dive-master editou, o qual mostra o barco, a turma se divertindo, os
cardumes de tubarões, as arraias, o tubarão baleia e a corte que o acompanha.
206
LIVE-ABOARD EM ABROLHOS
Em fevereiro de 2011 a Bahia Scuba promoveu para seus alunos uma excursão a
Abrolhos. O programa saiu de Caravelas, cidade do extremo sul da Bahia, que conta
com três empresas de turismo com barcos equipados e orientação de dive-master
para conduzir os visitantes. Embora os dive-master tenham formação em biologia, a
programação é mais focada nos naufrágios do que na faciologia dos recifes.
Abrolhos é desde abril de 1983 protegido como Parque Nacional Marinho, logo após a
defesa da tese de doutoramento da professora da UFBA Zelinda Margarida A. N.
Leão, „Morphology, Geology and Developmental History of the Southernmost Coral
Reefs of Western Atlantic, Abrolhos Bank, Brazil„, na Universidade de Miami em maio
de 1982.
Dra. Leão descreve dois arcos de recifes de coral que ocupam uma área de 6000
km2, sete vezes maior que a área de parque preservada pela legislação. Ela constata
que os elementos formadores dos recifes são os „chapeirões‟, estruturas coralígenas
que crescem em forma de cogumelo coalescendo no topo como um grande chapéu e
formando bancos de até 20 km de extensão. Para acessar uma descrição que mostra
a área do Parque, ilustrada, abrangente e em português, clique aqui: Abrolhos–O
complexo recifal mais extenso do Oceano Atlântico Sul.
Os corais são animais invertebrados, sésseis, isto é, não se deslocam voluntariamente
do seu local de fixação, e compõem a classe dos Antozoários (do grego anthos, flor +
zoon, animal). O coral é formado por um pólipo com duas camadas de células que
constituem a parede do corpo. Cada pólipo constrói um exoesqueleto calcário radial
onde se aloja e vive em simbiose com
uma alga (zooxantela) a qual é
responsável
pelas
cores
que
observamos
nos
recifes,
principalmente
nos
mergulhos
noturnos. Os pólipos têm uma
cavidade gastrovascular com oito
septos os quais se abrem à noite em
oito tentáculos carnívoros. Os pólipos
individuais com seu exoesqueleto
calcário são pequenos, mas a maioria
dos antozoários forma colônias que
se desenvolvem como os maiores
indivíduos vivos do planeta terra.
207
Colônia de Mussismilia braziliensis, o coral cérebro, endêmico de Abrolhos, fotografado de dia (esquerda) e à noite.
Durante o dia, as algas zooxantela realizam fotossíntese com o CO2 da respiração dos
corais e produzem nutrientes orgânicos em excesso, que são utilizados pelos pólipos
de coral. Devido a esta relação simbiótica eles crescem muito mais rapidamente em
águas limpas que deixa entrar mais luz solar, acumulando a energia vital que da início
à cadeia alimentar da vida na terra. O processo de fotossíntese usa a energia solar
para sintetizar o gás carbônico e a água em glicose, liberando oxigênio, segundo a
reação: 6H2O + 6CO2 → C6H12O6 + 6O2↑.
Os pólipos só conseguem suportar a exposição ao ar no curto intervalo da maré baixa,
e um rebaixamento do nível do mar faz a colônia morrer, como ocorreu com o
substrato dos recifes atuais em Abrolhos. Na parte superior de um recife com topo
plano, desenvolvem-se colônias de algas coralinas verde-azuis que preservam a
estrutura dando rigidez e forma.
Os recifes originais do banco de Abrolhos estão assentados sobre uma plataforma
vulcânica que aflora nas ilhas do arquipélago, na área do Parque Nacional Marinho.
Um poço estratigráfico perfurado na ilha de Santa Bárbara em 1961 atravessou 725m
de basalto e penetrou em tufos vulcânicos até a profundidade final (1400m),
confirmando as indicações da fisiografia e das anomalias magnéticas e gravimétricas
mapeadas pela indústria do petróleo e interpretadas como uma província vulcânica. O
vulcanismo hoje está extinto, e a datação dos testemunhos recuperados na perfuração
indicou que o pico da atividade vulcânica ocorreu no Paleoceno (60 milhões de anos),
conseqüente da abertura do oceano Atlântico.
A plataforma de rochas vulcânicas ficou exposta quando o nível do mar baixou nas
glaciações da era Quaternária, só sendo novamente recoberta pelo mar no início do
período inter-glacial que estamos vivendo de 20 mil anos para cá, conforme a
reconstituição que o Prof. Landim postou no seu blog ( GEOLOGIA MARINHA E
COSTEIRA):
208
No final da era Quaternária, no período que os geólogos denominam de Holoceno, a
transgressão oceânica alcançou o nível atual, há 7 mil anos, conforme a curva de
variação eustática que constitui a Fig.37 da dissertação da Dra. Zelinda Leão.
Nesta figura copiada abaixo, a escala horizontal é tempo, onde o 0 no canto direito
representa hoje, e a escala vertical é a altura do nível do mar, sendo 0 a altura atual.
Observe que entre 7 e 4 mil anos atrás o nível do mar foi mais alto que o atual, 5m há
5 mil anos. Foi neste intervalo de tempo que os recifes de Abrolhos se desenvolveram
a uma taxa média de crescimento de 3,7m/1000 anos.
209
Os corais são organismos muito exigentes. Só vivem em águas quentes e limpas. O
que faz a exclusividade do modelo sedimentar carbonático de Abrolhos, quando
comparado com os recifes do Atlântico Norte e do Pacífico, é a capacidade desta
fauna endêmica com baixa diversidade ser resistente ao estresse provocado pela
turbidez periódica das águas e estarem associados a sedimentos terrígenos na zona
costeira. Dra. Leão mapeou dois arcos recifais: o costeiro e o externo. No arco
costeiro, os topos de chapeirões adjacentes coalescem lateralmente formando
bancos recifais com extensão de 1 até 20 km e formas variadas, sendo o Parcel das
Paredes o maior deles (fora da área do Parque). O nome deste parcel é devido à
queda abrupta na sua face de barlavento, enquanto que para sotavento, na direção da
praia, a superfície é recoberta por algas coralígenas e mergulha suavemente. Observe
no mapa abaixo a linha amarela saindo de Alcobaça, mostrando que a largura da
plataforma continental alcança 130km até a isóbata de 200m. Acima da linha amarela
está o recife de Timbebas, circundado por um polígono que o inclui no Parque
Nacional.
210
O arco externo abrange recifes
em franja bordejando as ilhas
vulcânicas do arquipélago de
Abrolhos e chapeirões isolados.
Corais,
mileporas
e
algas
coralinas são os principais
organismos construtores dos
recifes, distribuídos conforme a
zonação ao lado. O número de
espécies de corais é quatro
vezes menor que o número de
espécies descritas para os
recifes do Atlântico Norte, e
muitas delas são espécies
endêmicas, arcaicas, isoladas de
uma fauna de idade Terciária a
qual se tornou resistente ao
estresse provocado pela turbidez
periódica
das
águas.
Em
contraste com a predominância
de sedimentação carbonática na
maioria dos recifes dos mares
tropicais, os recifes costeiros de
Abrolhos estão circundados por
sedimentos lamosos com 40 a
70% de areias quartzosas e
minerais de argilas. Foi neste arco externo, cheio de naufrágios, que a turma da Bahia
Scuba foi mergulhar. As linhas amarela e vermelha no mapa da página seguinte é o
roteiro do Titan, que fica apoitado nas bóias que marcam os pontos de mergulho.
Quando apoitamos no porto sul de Santa Bárbara, fomos abordados por Felipe, o
fiscal do Ibama, que estabeleceu as regras de comportamento: nenhum lixo na água,
nem casca de fruta. Não deixem nem levem nada do parque nacional. Mergulho nos
recifes sem luvas, e evitem tocar nos corais com as mãos ou com as nadadeiras.
Retirem 1 kg de lastro do cinto, para minimizar a chance de apoiar-se ao fundo.
Mergulho noturno não foque
a lanterna nos olhos dos
peixes nem das tartarugas.
Desembarque só em Siriba,
confinado à trilha, e com ele,
que nos mostrou a fauna de
pássaros,
o
domínio
territorial de cada espécie,
os locais de nidificação e as
rochas vulcânicas. Ficamos
3 dias, de 18 a 20 de
fevereiro, e a lua cheia foi
dia 18, o que é bonitinho
211
mas a maré cresce e a água fica turva, com visibilidade de 5m. O certo para mergulho
é ir lá na lua de quarto crescente, quando a maré é morta, a água fica mais limpa e a
visibilidade alcança 15m.
Os líderes do grupo foram Márcio Brito e Genser Freire, instrutores da Bahia Scuba.
No retorno, todos felizes, houve a tradicional troca de e-mails, da qual destaco a
observação mais querida, de Will Recarey:
Cambada de Abrolhos,
Bom... Sou muito suspeito pra falar de Genser e Márcio... rsrsrsrs, mas tenho que
concordar que quando a gente faz o que gosta com boa vontade e dedicação, o
resultado é sempre muito gratificante, como foi esse da viagem para Abrolhos.
O grupo, apesar de bastante heterogêneo, teve um objetivo comum e uma alegria
única... descontando aí as "rabugentíces" rsrsrs do "Alemon" - grande figura e antigo
parceiro de mergulho que tive o prazer de rever e de me divertir novamente com suas
histórias.
Tenham certeza que para nós da Bahia Scuba o aprendizado também foi
surpreendente. Cada limitação, cada superação, cada assimilação e cada resposta
212
têm um significado muito importante no processo de fazer com que vocês passem a
amar o mergulho e fazer dele uma forma de oração assim como eu faço.
Poder conviver alguns dias mais de perto com Genser e Márcio só me trouxe a
confirmação de que grandes pessoas, amigos e profissionais eles são.
Por alguns motivos pessoais, essa viagem foi uma renovação de energias pra mim.
Poder me emocionar com a emoção de vocês, rir com os seus risos e juntamente
desfrutar das maravilhas sub daquele lugar, me fez outra pessoa no retorno... e com
mais alguns amigos no meu currículo.
O agradecimento é todo meu, ou melhor, TODO NOSSO!
O 12º e-mail foi do mestre Genser, externando emoções e agradecendo ao grupo:
Não tenho palavras para agradecer tudo o que foi dito aqui. Estou realmente
emocionado!
Aproveito a oportunidade para divulgar uma conversa que tive com Will e Marcio no
dia de nosso retorno a Caravelas, bem no momento em que todos estavam se
divertindo na piscina, vôlei ou sinuca. Esse foi um momento de avaliação e exemplifica
bem as palavras ditas aqui. Comecei falando da minha alegria vendo a união do grupo
desde o encontro no aeroporto de Porto Seguro. Nossa, parecia que já nos
conhecíamos há muito tempo. Continuei falando de minha preocupação quando,
depois do primeiro mergulho, os caras do Titan resolveram dividir o grupo em dois. No
barco, falei com Will: "... não gosto dessa divisão, as pessoas podem começar a
interagir somente com pessoas de seu grupo e não interagir mais com pessoas do
outro grupo...". Quando vi as brincadeiras e conversas depois do segundo mergulho,
percebi que minha preocupação não tinha fundamento. A união de todos era tão
grande que nada poderia nos dividir, e foi assim até o fim. Outra alegria foi, depois do
último mergulho, ver que ninguém diminuiu o ritmo e aí veio aquela sessão de saltos e
fotos e mais fotos com muita alegria e diversão. Apenas os mergulhos tinham
acabado, mas não a nossa união e alegria. Chegamos e teve piscina, vôlei, sinuca,
pizza, brincadeiras, risadas, mais e mais fotos, rs! 3.480 fotos em cinco dias
inesquecíveis. Ops! esse número está desatualizado. Não contamos as fotos do
desembarque até Porto Seguro, rs! Bom demais!
Particularmente, aprendi muito com todos. Vi pessoas se superando, enfrentando
medos e dúvidas. Vi pessoas tímidas se soltando e interagindo. Vi o nascimento de
grandes amizades. Olha a equipe Bomba aêêê... Impagável a cena, na piscina, do
Josef em cima da July. Aquela foto resume bem nossa viagem. Hoje tenho certeza de
que mesmo se os mergulhos fossem ruins, ainda assim iríamos nos divertir muito.
Muito obrigado, AMIGOS, por tudo. Espero que momentos como os que passamos,
possam se repetir muitas e muitas vezes.
213
2013 – LIVE ABOARD NAS BAHAMAS
A Commonwealth das Bahamas é constituída por uma dezena de arquipélagos, com
milhares de ilhas e ilhotas que eles chamam de cay (os gringos chamam key: uma ilha
baixa de areia calcária que se forma sobre recifes de coral) todas baixas e
implantadas sobre uma extensa plataforma carbonática (The Bahama bank). É
habitada por negros e negras grandes e dóceis, descendentes dos escravos dos
ingleses nos Estados Unidos. Quando da guerra de independência dos Estados
Unidos, muitos ingleses fiéis à monarquia britânica se mudaram para lá. Hoje é um
país de afrodescendentes que se tornou independente do UK em 1973. Não têm
indústria e vivem bem, essencialmente do turismo. A moeda é o dólar baamiano
cotado localmente igual ao americano, que circula livremente. O tráfego nas ilhas é
pelo lado errado, à inglesa, mas existem muitos carros com o volante do lado
esquerdo.
Conforme você pode ver na linha hachuriada no mapa acima, a ilha mais ocidental das
Bahamas, Bimini, fica pertinho de Miami, 50 milhas náuticas, que uma lancha
possante faz em uma hora. O alinhamento azul escuro que passa por baixo da linha
hachuriada é o talvegue da „corrente do golfo ‟, uma corrente quente de 2 a 3 nós
que corre para norte pelo „estreito da Flórida‟ até o paralelo 35°N e dai atravessa o
Atlântico por cima do „mar dos sargaços‟ indo aquecer o norte da Europa. É
aproveitando esta corrente que os veleiros de antanho (e os de hoje) atravessam de
oeste para leste o Atlântico Norte.
Foi numa das ilhas centro-orientais das Bahamas, que os nativos arauaques
chamavam de Guanahani, que Colombo primeiro desembarcou quando velejando com
os alísios de leste para oeste „descobriu a América‟, e renomeou San Salvador. A ilha
de San Salvador hoje tem o Clube Med Columbus e um monumento que identifica o
214
desembarque de 12 de outubro de 1492, mas o
curador de mapas do British Museum e o almirante
americano que se tornou historiador S.E.Morison,
asseguram que não foi ai o desembarque de
Colombo, e sim na ilha que hoje se chama Cat
Island,
uma
alongada
NNWSSE com o ponto
culminante
das
Bahamas, o monte Alvernia de 63m! (24°171N,
75°25‟W). Sobre esta colina foi construído em 1939 o
monastério „The Hermitage‟ →
A área azul claro da imagem que abre este relato é o
„banco das Bahamas‟, o resquício de uma plataforma rasa na qual estão empilhados 4
km de calcários. Todo este registro é de material depositado num ambiente de águas
rasas desde o Cretáceo (120 milhões de anos), de forma que é necessário invocar
uma subsidência continuada da área para abrir espaço para a acumulação da coluna
sedimentar. Se dividirmos 4000m por 120.000.000 anos, vamos calcular pouco mais
de 3cm por 1000 anos, uma taxa de subsidência aceitável para que a placa norteamericana desça em subadução sob a placa do caribe.
Observe bem no centro do mapa acima a pequena placa tectônica rosa, a Caribenha,
comprimida entre a placa Norte-americana (marrom) e a placa Sul-americana (roxa).
Esta compressão fez levantar o arco de ilhas das „Pequenas Antilhas‟ (Barbados,
Granada, S.Vincent, Martinica, Dominica, Guadelupe, Antiqua e Barbuda), o qual arco
limita a leste o Mar do Caribe; o limite norte do mar do Caribe são as “Grandes
215
Antilhas‟(Cuba, São Domingos e Porto Rico), incluindo também neste empurrão
Jamaica e Ilhas Virgens que por consequência são ilhas vulcânicas com areia cinza e
sujeitas a terremotos e vulcanismo. Estas ilhas circundam um mar mais salgado e
mais denso, que se aquece no golfo do México na circulação oceânica anti-horária do
hemisfério norte, e escapa num fluxo de 2 a 3 nós pelo estreito da Flórida, criando a
necessidade de cuidados na navegação da Flórida para as Bahamas.
É na Florida que fica um vértice do mal falado triângulo das Bermudas. O outro, do
norte, fica nas Bermudas (32°N 65°W) e o terceiro em San Domingo. No passado esta
era uma área temida pela pirataria. Hoje pelos furacões de verão e outono. Os
arquipélagos das Bahamas definem o lado sul do tal triângulo, na borda sul da placa
norte americana que vem afundando para acumular numa condição estável a espessa
sequência de carbonatos.
O carbonato de cálcio é precipitado da água do mar de forma inorgânica, ou por
catalisadores orgânicos que formam seus esqueletos externos de calcário, como os
corais. Os calcários de origem inorgânica são precipitados pela saturação na água do
mar dos íons Ca++ e CO3=. O Ca++ vem da dissolução dos feldspatos das rochas
primárias, e é concentrado na água do mar. O CO3= vem do CO2, o gás carbônico
presente na atmosfera, que em solução gera CO3= em ambiente alcalino como a água
do mar: CO2 + H2O ⇆ H2CO3- ⇆ CO3= + H2., Atingido o coeficiente de saturação o
carbonato precipita como agulhas de aragonita, a variedade metaestável do CaCO3.
Nos ambientes de alta energia como nos baixios rasos onde o sedimento de fundo e
lavado e movimentado por ondas, formam-se oolitos. Nas lagunas protegidas, de
baixa energia, e nas áreas mais fundas do fore-reef precipita lama calcária
microcristalina (micrito). Adicionalmente uma parte do carbonato de cálcio é removida
da água do mar por organismos que constroem um esqueleto externo como os corais
e os moluscos. O resultado final é que as praias das Bahamas, onde as ondas lavam
a lama micrítica e quebram as carapaças orgânicas em fragmentos tamanho areia,
são constituídas por uma areia branca e fina dos calcários.
Este tipo de ambiente de plataformas carbonática rasas foi muito mais comum no
passado geológico, e o banco das Bahamas serve hoje como um modelo recente para
se entender o registro antigo, uma compreensão necessária para a indústria de
exploração do petróleo.
A plataforma extensa do Mesozoico foi exposta várias vezes devido a oscilações do
nível do mar. Os calcários marinhos quando expostos ao intemperismo subaéreo são
dissolvidos pela água doce mais ácida, desenvolvendo um relevo cárstico, com
dolinas e cavernas. Hoje, com o nível do mar alto, estes tipos de relevo ficam
submersos e são vendidos aos turistas como „blue holes‟, nos quais se pode
mergulhar e „blow-holes‟, emersos, onde se observa o sopro das ondas batendo nas
partes submersas (clique aqui: Orchestrating the blow holes at Boysie Cay,
Exumas, Bahamas).
216
Períodos mais prolongados de intemperismo promoveram à erosão de cânions que
escavaram a plataforma antiga, formando braços de mar como a „tongue of the ocean‟
entre a ilha de Andros e a ilha de New Providence e o arquipélago das Exumas; e o
Exuma sound, que separa o
arquipélago das Exumas do
das Eleutheras. O mapa ai
ao lado, que mostra ambos
os cânions, foi copiado de
L.S.Kornicker, 1963, “The
Bahama Banks: a “living”
fóssil environment”: Journal
of Geological Education,
Vol.11 Nº1, pp.17-25 (sipddr.si.edu/jspui/bitstream/1
0088/8544/1/iz-Kornicker1963c.pdf, acessado em
30.05.2013.
A figura abaixo é a curva de
variação
eustática
nas
Bahamas nos últimos 800
mil anos before present (kyr
BP, a metade superior do
período
Quaternário).
A
parte mais recente, com
quatro curvas (preta, verde,
vermelha e azul) mostra a
consistência
de
quatro
pesquisas independentes. Para detalhes veja Sidall et at, 2006: Eustatic Sea
Level During Past Interglacials - Centre for Water .... Observe a ciclicidade de
aproximadamente 100 mil anos entre as glaciações, e que a descida de 100m no nível
do mar é lenta, enquanto que a subida é rápida (10 mil anos; é mais fácil dissolver as
geleiras polares do que faze-las crescer).
217
Chega de geologia. Let‟s go diving!
Tuca da Bahia Scuba alugou o AquaCat, um
catamarã de 102 pés, 300 toneladas, para
uma semana de mergulhos saindo da
Hurracane Hole Marina em Paradise Island e
navegando 250 milhas entre o arquipélago
das Exumas e o das Eleutheras. O grupo foi
de 21 bahianos que ocupou por uma semana
as 11 cabines do AquaCat, paparicados por
12 tripulantes dedicados e competentes:
Liveaboard scuba diving in the Bahamas on the Aqua Cat. Foram 26 pontos de
mergulhos, com 5 mergulhos por
dia. Dois fominhas, Genser Freire e
Maurício Paixão no coquetel de
despedida foram agraciados com o
award de iron man, fizeram todos os
mergulhos. Eu, como o mais velho
do grupo, fui agraciado como „the
best Vovô garoto Scuba Jr aboard‟.
Antes de largar me entendi com o
pessoal da cozinha e em todas as
refeições houve feijão e arroz. A
única queixa do programa foi que
não existe farinha nas Bahamas. O bar de bordo no sun deck, que tinha cinzeiro, era
aberto 24h, mas quem tomasse qualquer bebida alcoólica não podia mergulhar mais
naquele dia. Dos quatro mergulhos noturnos só fiz um. Havia um tabuleiro de gamão a
bordo e arrumei um sparring para jogar comigo. A maioria do pessoal, inclusive meu
dupla, Pedro Bocca, fez fotos e filmes dos mergulhos. Aliás estas águas são famosas
218
pelos filmes de James Bond: as cenas underwater de Thunderball foram feitas perto
de Paradise Is. Para quem gosta de famosos as Bahamas fazem um prato cheio:
como existem muitas ilhas pequenas mas com possibilidade de fazer uma pista para
jatinho, muitos gringos riquinhos e lancheiros tem a propriedade de uma ilha por aqui.
Em Exuma Cays Land and Sea Park o AquaCat pegou uma poita vizinha do
Tenacious, o veleiro azul de 4 cruzetas de Ted Turner da CNN.
Dos 26 mergulhos (só fiz 9, menos de 2 por dia) os que gostei mais você pode fazer
também sem se molhar: nas Exumas, o washing machine, um canal entre duas ilhas
onde a correnteza é mais forte. Todos ficam preparados e são cinco plataformas de
salto. O AquaCat vai devagar contra a corrente, o dive master salta e todos seguem; a
única demora é para quem já saltou sair de baixo. Todo mundo vai descendo na
correnteza de 2 a 3 nós ao longo de uma calha sem recifes. De repente o fundo da
calha despenca de 3m para 11m, como uma cachoeira submarina. Você é lançado
para baixo e sobe no refluxo embolando por quase um minuto. Dai estabiliza de novo
e começa a aparecer um campo de gramíneas e mais adiante alguns corais. Ai todos
sobem, seguram num cabo que o dive master puxa e aguarda o barco vir buscar. O
pessoal que usa nitrox (ar comprimido enriquecido com oxigênio) e computador de
mergulho relata que o computador fica doido, alarmando por causa da subida
repentina na máquina de lavar. Veja ai:
The Washing Machine - Diving in Bahamas aboard the Aqua Cat ...
Outro mergulho diferente é o shark feeding. Dura uns 35 minutos a 15m de
profundidade. Todos descem e ajoelham no fundo fazendo um arco em torno da poita
onde o AquaCat está amarrado. O dive master desce com um cabo que passa na
argola da poita e puxa para baixo um „picolé de tubarão‟: peixes e pedaços de peixes
que foram colocados num saco plástico e congelados no freezer. Tira o saco e puxa
para baixo o picolé que fica amarrado na poita a uns 2 m de altura. Ai vem um
cardume de tubarão (reef shark e nurse shark), algumas garoupas grandes e
começam a disputar pedaços do picolé. Como o picolé está congelado alguns
tubarões perdem dentes que caem no chão. A tripulante que cuida da filmagem vai
focando cada turista contra o fundo de tubarão comendo. Quando acaba a farra a
gente vai lá na poita à procura de dente. Eu trouxe um dente de tubarão para fazer um
brinco para Lara, minha neta. O filme a seguir, de menos de 1 minuto, não é o do
nosso grupo, e a merenda vai numa caixa:
Shark Feeding Dive, Bahamas YouTube.
Por fim, a maior riqueza do Great Bahama Bank: mais de cinquenta espécies de corais
que formam os cays. Eles crescem a barlavento das ilhas, e são animais invertebrados
sésseis, isto é, não se deslocam voluntariamente do seu local de fixação, e compõem
a classe dos Antozoários (do grego anthos, flor + zoon, animal). O coral é formado por
um pólipo com duas camadas de células que constituem a parede do corpo. Cada
pólipo constrói um exoesqueleto calcário radial onde se aloja e vive em simbiose com
uma alga (zooxantela) a qual é responsável pelas cores que observamos nos recifes,
principalmente nos mergulhos noturnos.
219
Os
pólipos
têm
uma
cavidade
gastrovascular com oito septos os quais
se abrem à noite em oito tentáculos
carnívoros. Os pólipos individuais com
seu exoesqueleto calcário são pequenos,
mas a maioria dos antozoários forma
colônias que se desenvolvem como os
maiores indivíduos vivos do planeta terra.
Durante o dia, as algas zooxantela
realizam fotossíntese com o CO2 da
respiração dos corais e produzem
nutrientes orgânicos em excesso, que
são utilizados pelos pólipos de coral. Devido a esta
relação simbiótica eles crescem muito mais
rapidamente em água limpa que deixa entrar mais luz
solar, acumulando a energia vital que dá início à
cadeia alimentar da vida na terra. O processo de
fotossíntese usa a energia solar para sintetizar o gás
carbônico e a água em glicose, liberando oxigênio,
segundo a reação: 6H2O + 6CO2 → C6H12O6 + 6O2↑.
Os pólipos só conseguem suportar a exposição ao ar
no curto intervalo da maré baixa, e um rebaixamento
do nível do mar faz a colônia morrer. A poluição do
superpredador
homo
sapiens
também
está
danificando os corais, e a comunidade científica
ambientalista está se mobilizando para a preservação:
Scientists look to the Bahamas as a model
for coral reef conservation
As poitas alinhadas, para aluguel em Exuma Cays Land and Sea Park.
220
Acima, Tuca, de camisa branca, e a tripulação do AquaCat. O de camisa vermelha é
Jim, o chef que fez feijão todos os dias. Abaixo, a lagosta bem criada na época do
defenso, e o peixe leão, uma espécie exótica, invasora, originária do Indo-Pacífico que
chegou a pouco tempo no Atlântico Norte, tem um estômago que pode se expandir até
30 vezes o volume inicial, e além de comer muitos peixes, se reproduz facilmente e
não tem predadores devido aos espinhos venenosos das barbatanas. Sua caça com
arpão é estimulada, e a carne pode ser consumida após a caça. Mas não toque nele
com as mãos desprotegidas! As toxinas não são fatais mas causam muitas dores.
221
TURISTANDO DE CARRO NO REINO UNIDO -2011
Porque ir lá?
Fazia quase ¼ de século que
eu não ia à Inglaterra. A última
vez foi em julho de 1987,
quando visitei o clipper Cutty
Sark num dique seco em
Greenwich. Quatro anos atrás
houve um incêndio e só agora
é que a restauração de £25
milhões do último Clipper,
construído em 1869, está se
finalizando,
para
que
a
visitação seja reaberta. No ano
de 1987 o verão inglês caiu num domingo, e 5 de julho foi um dia de sol, de
forma que peguei um trem para o sul, até Portsmouth, de onde atravessei de
barco as 10 milhas até Cowes, na Isle of Wight. Havia mais de mil veleiros
bordejando no Solent ostentando a union jack.
O pau da bandeira que vai na popa dos
barcos é chamado de jack, e quando
houve a união das tribos na ilha da GrãBretanha, sec.XVII, eles unificaram um
país chamado Reino Unido (United
Kingdom, UK), identificado na frota naval
com a bandeira que sobrepõe a cruz
vermelha em fundo branco de São Jorge
(Inglaterra), com o X branco em fundo
azul de Santo André (Escócia) e o X
vermelho em fundo branco da Irlanda,
gerando a Union Jack ou Union Flag. Os
galeses, do Pais de Gales, que também fazem parte do UK, também têm sua própria
cruz, a de São Davi (amarela, no meio, sobre fundo preto, sustentando um dragão
vermelho).
Ostentando esta bandeira na sua frota de veleiros, os bucaneiros e corsários
britânicos construiram nos séculos XVIII e XIX um império onde o sol não se punha,
dominando, colonizando, saqueando, e porque não dizer, educando no estilo inglês ¼
da população mundial. Neste período, os que ficaram na ilha inventaram a máquina a
vapor, o que permitiu uma mudança tecnológica chamada de revolução industrial, que
substituiu a manufatura artesanal pela produção industrial. A consequência mais
importante desta revolução foi a implantação do capitalismo e da necessidade de
colônias que fornecessem matéria prima e absorvessem a produção, gerando riqueza
e lucro para o capitalista produtor, uma implicação compreendida em 1867 pelo
flósofo e jornalista judeu Karl Marx, o teórico do socialismo.
222
A jóia da coroa britânica nos séculos XIX e XX era a Índia, no sul da Ásia, com um
mercado consumidor de 400 milhões de habitantes.
Historinha da colonização da Índia (levei para ler na viagem o livro de D.Lapierre e
L.Collins, de 1983, traduzido do frances, „Esta noite a liberdade‟ 594p. ,que conta a
história da India, antes, durante e depois dos ingleses)
No final do sec. XVI os traficantes holandeses controlavam o comércio das
especiarias, e vendiam por cinco xelins uma libra de pimenta – condimento muito
apreciado nas mesas isabelinas. Escandalizados com essa provocação, vinte e quatro
comerciantes da cidade de Londres reuniram-se na tarde de 24 de setembro de 1599
para fundar uma modesta casa de comércio com o capital inicial de £72.000, subscrito
por 125 acionistas. Apenas o lucro motivava esta empresa, que recebeu o nome de
East India Trading Company. A companhia recebeu a sanção oficial no ultimo dia do
sec.XVI, quando a rainha Elizabeth I outorgou uma carta concedendo-lhes por 15 anos
o direito exclusivo de fazer comércio com todos os países situados para além do cabo
da Boa Esperança. Oito meses mais tarde, um galeão de quinhentas toneladas, o
Hector, lançou âncora em frente do porto de Surate, uma possessão portuguesa a
norte de Bombaim. O comandante William Hawkins desembarcou com uma guarda de
50 mercenários pathans e foi recebido na corte do nababo mogol Jehangir, que
reinava sobre 70 milhões de vassalos; comparada com este monarca a rainha
Elizabeth parecia a senhora de um pequeno feudo de província. Jehangir nomeou o
pirata Hawkins oficial da sua casa real e ofereceu-lhe como presente de boas vindas a
jovem mais bela do seu harém, uma cristã armênia. O primeiro inglês recebido na
corte mogol foi tratado com deferências que teriam decerto espantado os austeros
acionistas da Companhia das Indias Orientais. Foram abertas feitorias na costa norte
de Bombaim (mar das Arábias, oeste da India). Dois navios passaram a descarregar
todos os meses no cais do rio Tâmisa montanhas de pimenta, goma, açucar, seda
223
crua e algodão. Faziam a viagem de regresso com os porões cheios de produtos
manufaturados. No ano seguinte contornaram a India pelo sul e foram até o gôlfo de
Bengala, onde fundaram nos pântanos pestilentos do delta do Ganges, na aldeia
miserável de Kalikata, a feitoria que viria mais tarde a ser Kolkata (Calcutá), hoje a
megalópole imunda com 15 milhões de habitantes. O mote dos piratas era „comércio,
sim, colonização, não‟. Mas a India multi-étnica, de muitas religiões, era dividida em
562 principados controlados por marajás da religião hindu, e nababos da religião
muçulmana, ambos muito propensos às pompas, que consolidaram uma sociedade de
castas hinduistas, cuja produção era exercida por escravos.
Os ingleses acobertavam esses príncipes belicosos e a discriminação social
(constitucionalmente abolida na India moderna), na política bem inglesa de dividir para
controlar. Para dar cobertura às atividades comerciais em Calcutá, construiram em
1699 o Fort Williams, para abrigar um exército britânico, com a função de assegurar a
atividade comercial. A pax britannica foi aceita pelos príncipes que eram nominalmente
independentes, e reconheciam o monarca britânico como seu suserano feudal por
meio de tratados. Em 1857 os soldados nativos que serviam aos ingleses se
rebelaram e invadiram Delhi, lá no norte da India. O norte e o centro da Índia
mergulharam numa insurreição que durou um ano, dirigida contra a Companhia
Britânica das Índias Orientais. Muitos regimentos nativos e principados indianos
juntaram-se à revolta, enquanto que outras unidades e outros principados apoiaram os
britânicos. Após sufocar a rebelião e retomar o controle, o governo britânico dissolveu
a companhia e assumiu a responsabilidade de governar. A Rainha Vitória recebeu em
1877 o título de imperatriz da Índia, e o parlamento ingles designou um governador
geral, com o título de vice-rei. Foi ai que a Índia passou à condição de colônia inglesa.
Em 1869, nasceu numa aldeia do delta do rio Ganges Mohandas Karamchand Gandhi,
de uma casta intermediária de Vaixás. Rapazinho já casado, foi mandado para a
Inglaterra estudar direito. Nenhum membro da familia antes dele fora ao estrangeiro.
Gandhi foi solenemente excluido da sua casta de mercadores, porque, aos olhos dos
mais velhos, essa viagem ao além-mar só podia mancha-lo para sempre. Quando
retornou mostrou-se tímido e sem postura para atuar num tribunal. A familia
desilidudida mandou-o à África do Sul tratar do processo de um parente. Foi nessa
terra racista que, discriminado pelos ingleses dominadores, ele descobriu os princípios
filosóficos que iriam transformar a sua vida e a história da India. Ele elaborou e aplicou
ainda na África do Sul a doutrina que o tornou mundialmente célebre – a
desobediência civil sem violência: resistir até a morte sem se submeter à
discriminação. Foi preso várias vezes pelo governo inglês, mas incentivava seus
seguidores a “fazer chorar os corações de seus inimigos com seu sofrimento
silencioso”. Após a primeira guerra mundial, já na India, ele organizou uma greve de
protesto no dia 6 de abril de 1919, argumentando que os indianos não precisavam
violar a lei nem desafiar a polícia inglesa. Deviam apenas não fazer nada. Fechem as
lojas, abandonem as salas de aula, vão orar nos seus templos, não se alistem no
exército ingles. Com uma semana da India paralisada, houve desordem e sob o
comando de um general ingles 1516 pessoas foram metralhadas. A tragédia fez o
Mahatma (a Grande Alma) perder definitivamente a confiança num império que
sacrificava seus princípios pacíficos. Ele entrou na cena política pelo Partido do
224
Congresso, decidido a transforma-lo num movimento de massas animado do seu ideal
de não violência.
O programa do Mahatma Gandhi baseava-se numa fórmula única: a não colaboração,
de forma a atacar a economia britânica nos alicerces. A Grã-Bretanha comprava
algodão indiano a preços irrisórios, que enviava às fábricas de Lancashire, e que
voltava à India sob a forma de tecidos, vendidos com lucros consideráveis, num
mercado onde estavam praticamente excluidos todos os têxteis não britânicos. Era o
ciclo clássico da exploração imperialista. Para dar um golpe nas máquinas das
fábricas inglesas, Gandhi escolheu uma arma que era a antítese absoluta daquelas: a
dobadoura de madeira tradicional. Ele incitou a Índia inteira a rejeitar os tecidos
estrangeiros em favor do khadi de algodão
cru fiado em milhões de dobadouras. Em
setembro de 1921 Gandhi deu novo impulso
à sua cruzada renunciando solenemente,
para o resto da vida, a qualquer outro
vestuário além de um pano e um xale de
algodão tecido manualmente. A humilde
tarefa de fiação tornou-se um verdadeiro
sacramento ligando por um rito diário os
membros de todas as tendências no Partido
do Congresso. O khadi de algodão tornou-se
o
uniforme
dos
combatentes
da
independência, que tanto vestia ricos como
pobres com o mesmo pedaço de tecido
branco grosseiro. A pequena dobadoura de
Gandhi representava o emblema da sua
revolução pacífica, o desafio ao imperialismo
ocidental de um continente que despertava,
o símbolo da unidade nacional e da
liberdade.
Existia uma unidade nacional para a auto-gestão livre do jugo inglês, mas
internamente haviam disputas fraticidas, principalmente entre a maioria hindu e a
minoria muçulmana. O governo inglês ao sentir que não mais tinha como controlar o
impulso de independência, tratou de arrumar uma forma adequada à hipocrisia inglesa
de „concede-la‟. Para evitar uma guerra civil e atender a uma condição dos
muçulmanos, resolveu, contra a opinião de Gandhi, separar a população em dois
países: a Índia e o Paquistão. No dia 14 de agosto de 1947, após dividir os bens e a
população (do que decorreu a maior migração da história), o vice-rei Louis
Mountbatten, com aprovação do Parlamento do UK e do Rei George VI, passou o
controle do Paquistão para Mohammed Ali Jinnah, e o da India para Jawaharlal Nehru,
sendo que ambos aceitaram fazer parte da Commonwealth, uma aspiração de George
VI e do parlamentar oposicionista Winston Churchill.
Esta aceitação permitiu que indus e os paquistaneses migrassem sem necessidade de
visto para a Grã-Bretanha, e que tivessem amparo na educação e na saude. Em 1931
o então deputado da Camara dos Lordes, Winston Churchill, achava que perda da
India representaria o desmantelamento do império britânico, seria para a Inglaterra um
225
golpe fatal e definitivo; tornar-se-ia um pais insignificante. Visão de imperialista. Hoje
os ingleses ainda anunciam no aeroporto de Heathrow que na China tem mais gente
aprendendo inglês do que a população da Inglaterra. E com a globalização, os
chineses vendem mais que o UK, sem precisar colonizar. O que Churchill não previu e
que é muito mais grave, é que o UK está sendo ocupado por asiáticos, africanos e
gente do leste europeu. Nos hotéis que pretendem ter atendentes poliglotas, o comum
é polonês. Existem muitos indus ricos, proprietários de imóveis para alugar. Nas ruas
tem-se a impressão que o fluxo de paquitaneses é maior que o de ingleses, e que
Londres é uma cidade muçulmana. A taxa de desemprego está crescente, 8% este
ano, e já existem muitos britanicos fazendo trabalho desqualificado. Toma,
imperialista!
O turismo
Mila tirou 15 dias de férias e voamos Salvador-Lisboa-Londres. No voo transatlântico
sentaram atrás da gente no Airbus 330 da TAP, Mateus e Maru, velejadores bahianos
que estavam indo para Dinamarca correr o campeonato mundial de snipe. Em Lisboa
foi só conexão, sem dar entrada no país. Em Heathrow, considerado o maior aeroporto
do mundo em termos de tráfego de passageiros internacionais, fizemos imigração e
alfandega descomplicadas e pegamos o heathrow express, um trem que vai direto à
estação de metrô de Paddington. De lá fomos de taxi para o Ibis London Euston St
Pancras, no centro, já reservado do Brasil. Mila não quiz ir ao teatro nem à noite
Londrina, jantamos no hotel e fomos dormir antes do por do sol, que neste verão é
após as 20 horas.
Dia 4 de agosto, uma quinta-feira, já acordamos ajustados ao jet lag, compramos um
passe de dia inteiro de metrô e fomos a Greenwich, onde descobrimos que o Cutty
Sark está em restauração. Passeamos no O2, uma arena de shows multiuso, que vai
abrigar as competições de ginástica e as finais do basquetebol dos Jogos Olímpicos
de Londres 2012. Dai embarcamos num
catamarã de turista, o Clipper Meteor, e
subimos por 45 minutos o rio Tâmisa até o
pier da London Eye, no centro da cidade.
Estava chovendo, havia uma fila enorme
para comprar o ingresso à roda-gigante, e o
verão da Inglaterra foi só ontem; seguimos
de metrô até o museu de Historia Natural,
onde havia uma fila de 1 km, na qual
caminhamos por 1 hora. O museu é
impon
ente, focado para o grande publico, i.é., um
tanto infantil. O que mais me interessou foi a
parte de antropologia. Veja na foto ai ao lado a
diferença entre o Homo Neandertalis que viveu
na Britania há 400.000 anos (com as órbitas
salientes) e o Homo Sapiens de testa redonda,
que apareceu na Etiópia ha 160.000 anos. De lá
fomos a pé para o Science Museum, a mesma
coisa, focado para o grande publico, aqui sem
226
fila. Aqui havia uma coleção de minerais e de rochas, o registro das máquinas que
fizeram a revolução industrial, construções animadas do sistema solar e registro de
artefatos da engenharia espacial. A estação de metrô de Baywater estava interditada,
e não conseguimos chegar ao endereço que Teca, irmã de Mila, deu para comprar
uma encomenda. Ai começou a chover de novo. Pegamos um taxi e fomos fazer um
almoço ajantarado num restaurante indiano na Queenway.
Dia 5. Fizemos o check-out do hotel e deixamos as malas no guarda-malas. Eu tinha
combinado com Arthur, irmão de Mila, que está fazendo um pós-doctor em
Birmingham, que iriamos no final da tarde para pegar um carro de locadora. Fomos ao
British Museum, chegando lá pouco depois das 9. O museu é o butim de um
dominador, que „importou‟ relíquias dos gregos, egipcios, romanos, estátuas,
esculturas, paredes inteiras, mumias, a pedra de Rosetta, que foi decifrada por um
arqueólogo frances. Ouvi dizer que a carta de Caminha sobre o descobrimento do
Brasil também está lá, mas não vi. Tem uma seção sobre Darwin, mas infantil, sem as
amostras. Gostei mais do Louvre, em Paris. O que o ingles gosta mesmo é do culto à
personalidade e às pompas de dono do mundo. Acho que estão entrando numa fase
igual a dos portugueses e gregos, que também foram donos do mundo e hoje vivem
de recordações.
Voltamos de taxi para a Euston station, de onde sai o trem para Birmingham,
compramos as passagens, fomos ao hotel que fica a uma quadra, pegamos as malas
e viajamos. Lanche no trem, que anda a uns 80 km/h. Arthur nos esperava na estação
e fomos para casa, onde estavam as compras que fiz pela internet e Arthur debitou no
cartão dele: manicaca elétrica, gps e ais para o Pinauna. Saimos para o centro,
passamos no banco, fiz saque em libras direto na minha conta no Brasil, e depositei
na conta de Arthur o valor das encomendas. Dai fomos a uma locadora local onde ele
havia reservado o carro e o atendente ingles fez um monte de exigências burocráticas
até que desisti do aluguel. Demos uma volta na universidade e fomos para casa, de
onde reservei na Avis por telefone um Peugeot 5008 de 7 lugares, para pegar
amanhã. Tomamos ½ garrafa de uisque no jardim, enquanto Rita fazia o jantar
. Dia 6 – saimos cedo de onibus para pegar o carro na Avis, e Arthur viu a diferença
entre lidar com a franquia de uma empresa global e um tranca-rua local. Pegamos as
meninas e as bagagens em casa e pé na estrada. Fomos para norte pela M1 para
Nottingham, a terra da floresta de Robin Hood,
da qual só sobrou um parque. Mas deu pra fazer
xixi. A estrada é uma monotonia, sem
afloramentos, sem área de repouso nem posto
de combustivel. As rodovias principais tem
acostamento, as secundárias, nem isso.
Tocamos direto para York, atravessando uma
bacia sedimentar mesozoica no centro-norte da
Inglaterra onde finalmente vi doisafloramentros,
um de calcário e outro de arenito. A cidade
medieval, Eboracum, capital da provincia romana Britania inferior, fica num batólito de
granodiorito, sobre o qual os romanos construiram a muralha de proteção. As
construções romanas estão mais preservadas na Inglaterra do que na Europa
continental. Na cidade, que é um inferno para estacionar, vimos muralhas
227
reconstruidas (a orginal que funcionou do
ano 71 até o Sec. VII está soterrada).
Caminhamos sobre ela e vimos a igreja
onde o bizantino Constantino foi coroado
imperador de Roma, e fizemos foto na
estátua de 1998.
A placa diz: Foi aqui que Constantino
foi proclamado Imperador de Roma em
306. Seu reconhecimento da liberdade
civil dos cristãos e sua própria
conversão de fé estabeleceram os
fundamentos
da
Igreja
Católica
Apostólica
Romana.
Dai começou a chover e a fazer frio neste verão ingles, e fomos ver o museu
ferroviário. Jantamos num restaurante indiano e nos instalamos na pousada de um
veinho inglês, todo explicadinho, mas que tem estacionamento.
7/8/11 -Saimos de York para ver mais muralhas romanas em New Castle Upon Tyne.
Tyne é o rio que passa por lá e o desvio até New Castle foi decepcionante. Lá no fim
do mundo pagamos £3 para estacionar no parque e caminhar no frio e chuva para ver
uma muralha restaurada! PDI! Carimbo na carteira da Funai.
Olha ai a turma, da esquerda para a direita: Bia, Mila, Lu, Rita e Arthur.
E na página seguinte
o Peugeot preto,
automático,
motor
diesel, volante do
lado errado .
228
No mapa, em amarelo, o roteiro das 1000 milhas percorridas em quatro dias.
Cruzamos a fronteira com a Escócia e tocamos para
Edinburgo (onde já se viu escrever n antes de b?!), que
em agosto tem o Edinburgh Festival Fringe, um mes
inteiro de apresentações do tipo das de Luiza, filha de
Pedro Bocca, que junta uma turma jovem na rua e depois
passa o chapéu. Para os velhos o que acontece é que o
preço dos hotéis sobe para dobro ou triplo, simplesmente
não tem onde estacionar e tem que fazer reserva no
restaurante. O ponto alto que os jovens performers
229
protestam por que tiram a clientela deles é a apresentação do Edinburgh Military
Tattoo, no castelo de Edimburgo, cujos 6 mil ingressos tem que ser reservados com
muita antecedência. Clica ai que você vê um show tipo Olodum apresentado por
milico: Top Secret Drum Corps Edinburgh Military Tattoo 2006 - YouTube.
8 de agosto – o verão escocês é do tipo meia e camiseta de lã. Temperatura 12°C.
Saimos às 9h para sudeste para visitar uma destilaria de whisky. Perdemos-nos no
caminho e chegamos lá pouco antes do meio dia. £6/visitante para entrar. Fomos
atendidos por Christine, uma lourinha baixinha e simpática que explicou e mostrou
todo o processo: a cevada é moída e depois secada com ar quente; pode secar
queimando turfa para que o uísque fique smoked, defumado e com cheiro. Dai a
cevada vai para o tanque de fermentação, tudo de aço inox e mecanizado, onde fica
três dias, produzindo o yeast, uma cerveja com 6 a 8% de álcool. Este yeast é
destilado numa torre de cobre aquecida com petróleo, que transforma a água em
vapor, o qual circula nas serpentinas. Pelo que Christine explicou é na forma, no
tamanho da torre e na temperatura de destilação que está a qualidade do destilado.
Não é permitido fotografar. O yeast é destilado uma segunda vez para aumentar o teor
alcoólico até 65%, gerando o spirit, que é incolor e vai ser misturado com água para
esfriar e baixar o teor alcoólico até 50%, produzindo o whisky. Dai vai envelhecer em
barris de carvalho por no mínimo três anos. Os barris ficam num porão que mantém
naturalmente nesta latitude de 56°N a temperatura entre 5 e 10°C. Só pode receber o
nome de scotch se for envelhecido o mínimo de oito anos. É ai no envelhecimento que
pega a cor; quanto mais tempo mais escuro. No final o grupo é levado ao „bar‟ da
destilaria e experimenta o single-malt de
várias idades para comparar. Tem uma
galeria de blended, que é também oferecido
para degustação e para a venda. No rótulo do
Glenkinchie de 21 anos está gravado que só
é vendido na destilaria, £60/l. Mas o blended
Johnnie Walker red label, que mistura 40
maltes, custava £15, mais caro que no duty
free shop de Salvador, US$18. Conclusão: ao
invés de carregar peso na viagem compre na
Perini.
Retornamos para Edimburgo onde fizemos um almoço tardio num restaurante chinês.
Estacionamos numa vaga com parquímetro e colocamos moedas para uma hora; deu
na conta. Dai as meninas foram ver as lojas e o movimento do Fringe, e eu coloquei
no GPS „yachting‟, seguindo para um shopping onde fica docado o yacht Britania, da
rainha. Estava na esperança de encontrar uma loja de náutica, mas até agora nada. O
shopping Britania foi construído junto ao pier do barco, mas não tem uma loja de
náutica. Achei uma loja „Crew Suit‟, que não tinha roupa de tempo, da qual estou
precisado. O certo hoje é fazer compras pela internet. O barco da rainha pode ser
visitado, ingresso £10, para passear no convés. É um tall ship preto de três mastros, e
no acesso tem uma declaração de Isabel II dizendo que é ai que ela consegue relaxar.
230
As meninas foram ver as lojas de
casimira, visitaram o castelo e a
„camara obscura‟, um labirinto de
espelhos com efeitos, e Lu, uma
gata toda bonitinha, se permitiu
fotografar num computador que a
envelheceu e plotou a imagem. À
noite jantamos na praça do hotel e
vimos algumas performances na
rua.
9/8, quarto dia da viagem, dia de voltar pra casa. Fui com Arthur pegar o carro num
estacionamento todo automático, sem um empregado, tres quadras adiante do hotel;
pernoite de £18 (R$50). Pegamos as meninas no hotel e saimos para oeste, na
direção de Glasgow e do mar da Irlanda, atravessando toda a ilha E-W, que aqui tem
uma largura de menos de 200 km. Contornamos Glasgow e descemos pela rodovia
M77 para sudoeste na direção de Ayr,
já no mar da Irlanda. Vento oeste,
frio, 12°C. Andamos na praia onde
uns meninos e cachorros brincavam
alegres na água de verão do mar da
Irlanda! Ah que saudade do inverno
da Bahia! Seguimos para o sul e perto
da
fronteira
Escócia/Inglaterra
almoçamos num posto que tinha uma
comida familiar. Voltamos para a
rodovia M6, que ao passar a fronteira
perto de Carlisle ficou imponente,
com 6 pistas, mas sem pontos de
descanso. À tardinha fizemos um desvio para visitar Liverpool, com waypoint na
waterfront, na esperança de encontrar uma loja de náutica, mas não encontramos
qualquer loja de coisas de barco. Além do mais já eram 17:30 e o comércio já havia
fechado. Sob forte pressão das meninas fizemos um wpt para a Penny Lane, onde os
Beatles fizeram uma foto atravessando a rua, e elas queriam fazer uma imitação.
231
Da Penny lane passamos num McDane-se, fizemos um lanche rápido e tocamos direto
para casa, 100 milhas ao sul, em Birmingham, onde chegamos ainda com luz do sol.
O sistema de milha das medidas inglesas representa uma tradição romana, a milha de
mille passus ou 5 mil pés de um centurião. Antes de chegar em casa circulamos na
cidade sem sucesso à procura de um posto para abastecer o carro. Vimos muita
atividade policial, parando para revistar os neguinhos e as branquelas gordobas de
minissaia. Em casa Rita recebeu ligações de gente assustada recomendando que não
saisse na rua, mas celebrou a viagem servindo feijão com farinha de Sergipe e
pimenta da Jamaica, que ela guarda para eventos especiais.
10/8, quarta-feira – saimos às 8h para abastecer o carro e devolver na Avis. A fatura
ficou em £400 pelos 4 dias. Dai fomos numa agencia de viagens procurar um voo
Birmingham-Heathrow na madrugada para fazer conexão com meu retorno ao Brasil.
Não existe este voo porque „é muito perto‟. Mas o rapaz da agencia entendeu minha
necessidade e sugeriu a viagem de onibus, um coach, que sai de Birmingham às 0:30
propiciando um check-in confortável para o voo da TAP Londres-Lisboa que decola às
06:00. Arthur estava disposto a levar a irmã no Fiat dele de duas portas, mas achamos
que era abusar demais. No centro de Birmingham, onde fomos procurar a agencia de
viagens, haviam muitas vitrines de lojas de griffe quebradas e tapumes de madeira,
consequencia do vandalismo de jovens mascarados que começou em Londres no
inicio da semana e se estendeu por toda a Inglaterra, com roubo, incendios, algumas
mortes por atropelamento e por tiro. O governo e a polícia inglesa insistem em atribuir
os distúrbios ao crime organizado.
A imprensa local já admite, “que as razões para os protestos podem estar ligadas ao
crescimento de um sentimento geral de incertezas de boa parcela da juventude do
232
país sobre o futuro. Os jovens estão
pessimistas
com
o
cenário
econômico europeu. Eles recebem
propostas de trabalhos ruins e
salários baixos. No rastro da crise
financeira internacional, a vizinha
Irlanda foi abalada, assim como
parte da Europa continental e da
Zona do Euro. Para analistas, diante
da ameaça sofrida pela Inglaterra,
parte da população se sente alijada
de apoio público diante de ajudas
bilionárias oferecidas a bancos a
partir de 2008”. Toma, capitalista!
Como dizia Gandhi, quem tudo quer
tudo tem.
Voltamos para casa num ônibus urbano, daqueles de dois andares, levando uma mala
rígida que comprei para substituir a que quebrou o pé de apoio na viagem de vinda.
Nessa mala acomodei os brinquedinhos eletrônicos do Pinauna, essas coisas que
existem nos países exploradores capitalistas. À tarde recebi uma ligação da empresa
de ônibus comunicando que o centro da cidade estava fechado pela polícia, e que a
estação rodoviária estava interditada. O coach iria sair no horário, de um shopping
centre que deram o endereço. O coach foi direto ao Terminal 1 de Heathrow, onde
despachamos as bagagens direto para Salvador, fui fumar um cigarrinho do lado de
fora e Mila foi mandar um e-mail para o irmão comunicando que estávamos
embarcando de volta sem problemas. O pessoal que nesta madrugada trabalhava no
aeroporto era na maioria de estrangeiro; a moça da TAP que nos atendeu é italiana, e
na „policia federal‟ tinha um cara com turbante de marajá e crachá de oficial. Os
indianos e paquistaneses estão ocupando a Grã-Bretanha.
Em Lisboa novo controle de embarque e vistoria, bem lusitano, um oficial
atravancando a fila com muitas perguntas sobre líquidos nas sacolas, outro no sensor
de metais apalpando os passageiros. Achou minha carteira no bolso e levou de volta
para passar no raios-X. Encontramos Nagib Fadul e Sra., que vinham de Paris e
estavam também em conexão para o TAP Lisboa-Salvador. O vôo foi tranqüilo, com
alguma turbulência na zona de doldrum, próximo ao equador. No desembarque
passamos no duty-free shop, fizemos a entrada sem problemas na alfândega, e fomos
direto para a bahiana de acarajé.
233
CRUZEIRANDO NA FOZ DO RIO SÃO FRANCISCO
Nas festas de fim de ano quem sai do AIC tem uma opção @ 3 milhas de ancorar na
prainha defronte à Base Naval; a 5 milhas em Maré; a 10 milhas, Ponta de Nossa
Senhora; 12 milhas Saco de Jesus ou Itaparica; 20 milhas foz do Paraguaçu. Mas se
você tem tripulação que agüenta o oceano, pode sair pelo farol da Barra e tem Morro
de São Paulo a 30 milhas, Camamu a 60, Ilhéus a 120, Porto Seguro a 200 e Abrolhos
a 300. Estas saídas para o sul no verão são presentes de natal, com vento folgado
para ir, mas cobram o preço de voltar no contra vento. Porém a costa da Bahia tem
muito mais, afigura-se como dos melhores locais do planeta para velejar, se não o
melhor: Os ventos são confortáveis, os alísios tropicais, a temperatura fica na faixa
dos 25°C, chove pouco no verão, uma delicia. Para ir orçando e voltar na maciota
existem opções pouco exploradas para o norte, Mangue Sêco @ 120 milhas, foz do
Vaza Barris a 150 e foz do São Francisco a 210.
O Pinauna juntou uma tripulação de três gerações e seguiu para norte dia 17 de
dezembro de 2011, num cruzeiro de sonho! Vovô Tonho, comandante compreensivo,
Mila Rainha, que quando chega ao salão cria uma atmosfera de alegria, Tio Dedo,
navegador especialista em barras trabalhosas, Mamãe, administradora de tentativas
de motim, Papai, com seus computadores cuidando da meteorologia e da
comunicação, Tia Gilca paparicando o navegador, e Lara Pocotó, no início quieta pelo
enjôo natural da saída, após o segundo dia libera toda a energia acumulada correndo
pelo convés, batendo com os calcanhares uma música de pocotó. Quando ancoramos
na estação maregráfica da vila do Cabeço, ela exibiu o „salto mata mãe‟, voando do
convés pela popa e caindo na água doce do Opára. Daí não para mais, sobe pela
escada, corre para proa, pula na água, volta nadando por baixo do barco, sobe pela
escada de popa e recomeça. Só para quando se encanta e vai fotografar os búfalos
nadando da península para a barra de rio que forma uma ilha. O primeiro dia foi assim
(track amarelo): cambando a 120° com vento nordeste força 5 até Guarajuba.
Passamos a noite
orçando
com
a
mestra no 1º rizo.
Os homens fizeram
turnos de 3 horas e
suas
respectivas
mulheres ajudavam
a cambar quando
tocava o alarme na
isóbata de 10m. No
amanhecer do dia
18 o vento fraquejou
e
motoramos
durante a manhã
até o meio dia. O
almoço foi ótimo, salada, e lombo com feijão, arroz e farinha. Daí chegou um vento
leste força 3 que nos levou até Aracaju com duas cambadas. Fizemos um bordo bem
na foz do Vaza Barris, vendo a ponte nova que atravessa este rio no Mosqueiro. Veja
ai na foto como é fácil a entrada, a ponte lá no fundo.
234
.
No inicio da tarde passamos por Aracaju, por dentro dos campos de petróleo, e depois
de passarmos pelo Terminal Portuário de Sergipe, defronte à foz do rio Japaratuba,
veio no nosso encalço uma lancha da Policia Federal, que chegou perto com um
megafone perguntando de onde éramos, para onde íamos e quem estava a bordo. A
Policia Federal estava a serviço do IBAMA. Conversamos no rádio VHF, Lara deu
adeus para eles, que nos desejaram feliz viagem e foram embora. O pessoal tá ligado,
esta semana um veleiro italiano naufragou na praia de Atalaia e o casal a bordo levava
310 kg de cocaína.
No final da tarde aterramos na linha de 10m e demos um bordo para fora. Faltavam 30
milhas em linha reta para a foz do rio São Francisco, e era óbvio que no ritmo que
íamos chegaríamos durante a noite. Tio Dedo navegador estava baseado nas
imagens do Google, que mostravam que a barra tinha mudado bastante desde a
última vez que ele havia entrado em 2006. Eu entrei lá em 2000 com meu mestre
235
David Pezão, comandante do Guma, pelo canal do leste, e foi brabo. Daí que propus
que nosso bordo de fora fosse mais longo, passássemos a noite velejando por fora e
aterrássemos de dia, vendo as redes de pesca que existem na foz. André, que estava
enjoado, argumentou que era melhor seguir costeando até fora da barra, ancorar em
3m de profundidade até o amanhecer e entrar no início da enchente às 8 horas. Não
gostei da idéia de chegar à noite arriscando a nos engancharmos nos equipamentos
de pesca, mas os enjoados queriam parar de qualquer jeito e começaram a se
amotinar exigindo uma votação. André marcou um waypoint ψ=10°31,025‟S,
ʎ=36°25,4‟W e tornamos a cambar para dentro. Mas ai o vento rondou mais para
nordeste e aterramos de novo a leste da foz do rio Sapucaia, na região que o Vmax
(Fast 395) se quebrou na praia numa madrugada em 23 de setembro de 2004. Então
cambei para fora às 22 horas e acabou a democracia. A única que me apoiou foi Lara
que disse “faça como você quer, vovô”. Mandei baixar e ferrar a vela mestra e fomos
orçando devagar para fora só de genoa no rumo sul. À meia noite cambei para dentro,
enrolei a genoa e motorei para contra vento por 3 horas, quando uma chuva na frente
rondou o vento para ESE. Desliguei o motor o tocamos só de genoa contra uma
correntada de 2 nós. Na aproximação, Liana sentada no assento do timoneiro viu uma
rede de pesca que não conseguia desviar por causa da correnteza. Ligou o motor e
safou quase em cima. Chegamos na barra, com a maré toda vazia e fomos
contornando desde o inicio a oeste, a sotavento. Daí André subiu na genoa enrolada
(foto, vou dizer à mãe dele que ela pariu um macaco!) e foi procurando uma entrada
no visual. Na primeira tentativa (track amarelo na página seguinte) passamos a barra
do sudoeste, a mais tranqüila. Uma vez do lado de dentro, já protegido da
arrebentação, encalhamos na maré vazia. Descemos a âncora, a Rainha assumiu os
serviços e fomos tomar o café da manhã enquanto a maré enchia.
Ai
co
meçou a festa. Passado o enjôo, o
pessoal na água doce da foz, encantado
com o visual, começou a fazer planos de
ficar por aqui a semana toda e abortar a
entrada em Mangue Seco na volta.
236
Na imagem abaixo, de 2011, a barra N-S que deixamos a barlavento protege as
passagens de oeste da arrebentação. Esta barra conforme mapeada na carta náutica
(compare acima), tinha uma posição bem diferente, mostrando a dinâmica da foz do
São Francisco. A entrada de leste, mais ampla e usada pelos barcos de pesca
maiores, estava quebrando todo o tempo que ficamos por lá. Do lado de Sergipe, a
vila do Cabeço foi totalmente destruída com a erosão, e o antigo farol que ficava na
237
vila hoje é deixado por boreste por quem entra; o canal agora está sobre as ruínas da
vila.
Puxamos a âncora com meia maré, contornamos a barra no extremo sudeste de
Sergipe e ancoramos na praia a sotavento da barra filado com o vento, no ponto que
no mapa da p.4 está a norte de onde está marcado Vila, e na carta 1002 da DHN,
desatualizada, está registrada uma estação maregráfica. Esta vila é o novo Cabeço,
com seis casas e uma igreja pequena na parte alta da barreira. A vegetação rasteira
de hidrofiláceas serve de pasto para os búfalos.
Beto Lia e Lara foram de caíque na vila e foram recebidos por Flavio, reformado da
Policia Militar como enfermeiro. Ele fez um caminho de tábuas por onde passa com o
carrinho de mão por sobre o areião. Plantou um pomar de 0,3 ha. na parte alta do
areião, que ele rega toda madrugada com água dos poços rasos que perfurou e
completou a 4,5m de profundidade. Da próxima vez que for lá vou levar para ele um
rolo de tubo de polietileno de irrigação. O ribeirinho aqui é muito hospitaleiro, e à tarde
um canoeiro foi nos oferecer um xaréu de 3 kg. No processo de assar o xaréu no forno
acabou um bujão de gás.
No dia 21 saímos na enchente da manhã para deixar Beto em Piaçabuçu, almoçar em
terra e reabastecer o bujão de gás. Na subida do rio o piloto automático deixou de
funcionar, o que me deu um frio na espinha. Liguei para Igor, que perguntou a
mensagem de erro do piloto, fez um diagnóstico e me deu instruções de como
proceder. Fui executando os procedimentos e localizei um fusível de 25 ampères com
corrosão, que André que é mais jeitoso lixou e o piloto voltou a funcionar. Ufa! Nem
pensar em timonear por dois dias no retorno. Em Piaçabuçu Liana adotou um garoto
de 11 anos, Alexandre, muito esperto, que
operou como nosso guia e almoçou
conosco. No retorno ancoramos no perau ao
lado das dunas móveis na costa alagoana,
no ponto onde param os barcos de turismo.
Nos anos 60, quando havia exploração de
petróleo por aqui, uma manhã o tratorista
estava futucando as dunas migratórias com
uma vara. – O que você está fazendo?
– Procurando um D8!
238
.
Dia 22 o pessoal ficou de leseira fazendo nada, e eu troquei as válvulas da bomba da
latrina que estava com vazamento. Lara passou a escova na linha d‟água e limpou o
casco de uma das canoas impregnado de algas oceânicas; quando eu elogiei o
trabalho, ela disse „foi até divertido‟. À tarde fomos caminhar na praia de fora da
barreira e observar a barra arrebentando na maré cheia. A areia da barra emersa em
Sergipe é de grã média e mergulha para dentro com estratificação horizontal, que
interpretei como o registro do back-shore, formado quando o nível do mar estava mais
alto 5m, o que na curva de variação eustática feita para a Bahia ocorreu há 5,1 mil
anos, na época que cresceram os recifes de Abrolhos. A alimentação de sedimentos
na foz do rio São Francisco, que tem uma vazão média de 2700m3/seg, manteve a
barra estável enquanto o nível do mar descia para a altura atual, desenvolvendo
vegetação, mas dois fatores contribuem para a erosão que André mediu de 120
metros em 5 anos: as barragens das usinas hidroelétricas no médio S.Francisco, que
retém a carga de fundo a montante, e a elevação do nível do mar, que mata a
vegetação desestabilizando a barreira que é levada pela corrente litorânea. No
processo, da antiga vila de Cabeço, onde nasceu o Flávio, restam as ruínas da escola
e do cemitério que engancham as redes de pesca, e o farol abandonado para fora do
canal atual. A Marinha instalou um farol novo a barlavento sobre as dunas no lado
alagoano do rio.
239
Acima: Ruínas do Cabeço (2006) e a retrogradação da linha de costa(2011), 200m para
dentro; abaixo o farol antigo em Sergipe, já fora do canal, e o novo em Alagoas.
Dia 23 fomos de novo na praia de fora na baixa mar, porque o navegador queria
caminhar nas ruínas da vila que o mar levou à procura de alguma coluna que pudesse
estar no caminho de saída do Pinauna. Caminhou pelo canal com água pelo pescoço
e não topou com nada alto. Depois fomos visitar o Flávio, que nos recebeu com água
de coco, e mostrou a opção de vida que escolheu após se aposentar, há 12 anos. Ele
está fazendo um trabalho de conscientização regional, integrando os descendentes
dos Caetés que foram escorraçados da região após o episódio do bispo Sardinha, os
descendentes dos holandeses, de olhos claros como Alexandre, e os quilombolas.
Pela tarde as meninas fizeram uma ornamentação de natal dentro do Pinauna, com
árvore, papai Noel, presentes e muita comida. Depois da faina festeira Mila aproveitou
as habilidades do navegador e fez um corte de cabelo de verão. Eu recolhi o motor de
popa e subi o caíque, ficando tudo pronto para retornar no dia 24, que Liana tem que
chegar dia 26 para atender a um cronograma de viagens denso até 12 de janeiro.
240
Dia 24, lua nova, a maré grande começou a encher às 09:30. Às 12:45 estávamos fora
da barra, com 5m de água por baixo da quilha, vento E 15-18 nós, correnteza
favorável de 1 nó apesar da enchente. Vela em cima, SOG 8,2, COG 210 true, T agua
25,1, Tar 29,9°C, P=1014mb, UR62%. Às 14:30 o vento caiu para 10 nós e subimos o
gennaker novo no magazinador, arribamos 5° para COG 215 T para passar por fora
das atividades petrolíferas em Aracaju, e o
SOG acelerou para 8,3 com vento
aparente a 87° por bombordo. Às 17:15
cruzamos a isóbata de 1000m descendo
para o talude continental, o vento cresceu
para 15 nós, enrolamos o gennaker,
abrimos a genoa e o SOG passou para
8,5-9 nós. Velejada confortável, mas Lara
Pocotó enjoou de novo. Tentei de tudo
para ela descer e ver o deep blue na gaiuta
de escape dentro da cabine, mas nada. Às 19:30 já tínhamos passado Aracaju, com a
foz do Vaza Barris a 20 milhas no través e haviam 9 indicações no AIS: navio por todo
lado, mais as plataformas de petróleo lá por dentro. Parou a falação no rádio VHF, um
tal de Apoio deve ter encerrado o expediente. A noite foi tranqüila e Liana fez o turno
de Beto, das 2 às 5. Durante a madrugada a pressão atmosférica subiu para 1016mb
e o vento merrecou. Ao amanhecer André assumiu, enrolou a genoa e abriu o
gennaker, mas a velocidade ficou abaixo de 6 nós; sem correnteza no talude
continental. Tagua 24,3, Tar 28,7°C. Quando eu acordei às 8, havia um déficit de carga
nas baterias de 200 Ampèrs, o gerador eólico parado e a gente andando a 4 nós.
Liguei os dois motores e passamos a andar a 6, empurrando 30 A.h nas baterias.
Às 12:45 registramos um progresso de 154 milhas em 24 horas, bom para quem está
cruzeirando com a neta. O vento E-NE chegou com 15 nós. Desliguei os motores e
passamos a andar a 8. Soltei a linha de arrasto
e depois do peixe arrebentar três rapalas
enferrujadas, incluindo a lula vermelha
matadora, embarcamos uma cavalinha de 2 kg.
André num surto de cooperação com a Rainha
tratou o peixe lá na popa. Às 15h aterramos na
Laje da Espera, em Guarajuba, fizemos um jibe
no gennaker e fomos costeando perto da praia.
Às 18 horas tínhamos o farol de Itapuã no
través, mas mantivemos o rumo sudoeste.
Quando passamos defronte ao Rio Vermelho foi que arribamos em popa para oeste
admirando a imponência do farol da Barra, que numa enquete Lara votou como a
visão mais bonita da viagem.
Às 24h atracamos no píer em Aratu, o hodometro do GPS marcando 220 milhas em
36h14min desde a saída dentro do rio, hodometro do velocímetro marcando 219,3
milhas, o que nos ensina que subindo para o norte no verão o melhor é ir pelo talude
continental para evitar a forte correntada que experimentamos na ida velejando na
plataforma perto da costa.
241
EGITO, 2012
O Egito atual é um deserto quadrado com um milhão de km2, assim do tamanho do
Mato Grosso, atravessado de sul para norte pelo rio Nilo que vem das áreas altas da
Etiópia. A área é ocupada por humanos nômades desde o Pleistoceno médio, cerca
de 120 mil anos, quando a caça e a vegetação era disponível devido à fertilidade do
solo. As rochas vulcânicas silicosas da Etiópia eram propícias para a construção de
ferramentas da idade da pedra. No decorrer do período Quaternário, com o
fechamento do mar de Tetis, do qual o Mediterrâneo é o resquício, o clima árido do
norte da África tornou-se mais quente e seco, forçando as populações a se
concentrarem ao longo do vale do Nilo, na África, e ao longo da Mesopotâmia, mais ao
norte, na Ásia. Foram nestas regiões onde se iniciou a agricultura e a domesticação de
animais. A planície fértil do Nilo, no Pleistoceno, tipo o atual cerrado brasileiro, deu
aos humanos a oportunidade de desenvolver uma economia agrícola sedentária e
242
uma sociedade mais sofisticada, centralizada e escravagista, que se tornou um marco
na história da humanidade.
Por volta de 5500 aC , pequenas tribos que viviam no vale do Nilo desenvolveram uma
série de culturas, demonstrando o firme controle da agricultura e pecuária , e
identificável pela sua cerâmica e objetos pessoais, tais como pentes, pulseiras e
colares.
No sul do Egito, a cultura Naqada , começou a se expandir ao longo do Nilo em cerca
de 4000 aC . Já no Período Naqada I, os egípcios pré-dinásticos importavam
obsidiana da Etiópia, usada para moldar lâminas e outros objetos. Ao longo de um
período de cerca de 1.000 anos, a cultura Naqada desenvolveu a partir de algumas
pequenas comunidades agrícolas uma poderosa civilização cujos líderes controlavam
as pessoas e os recursos do vale do Nilo. Estabelecido um centro de poder em
Hierakonpolis , o líder Naqada III ampliou seu controle sobre o norte do Egito ao longo
do Nilo . Foi neste período que os dominadores que adoravam o sol (Rá) passaram a
ter sepultamentos reais, com o corpo em posição fetal voltados para o poente, onde o
sol morria, e de onde se tem registro dos primeiros símbolos egípcios dinásticos, tais
como a coroa branca do Alto Egito e o deus falcão, Hórus. Durante a última fase prédinástica, a cultura Naqada começou a usar símbolos escritos o que eventualmente
evoluiu para um sistema completo de hieróglifos para escrever a antiga língua egípcia
(copta).
O vale do Nilo experimenta três estações ao longo do ano as quais tem influência
direta na vida: a estação da cheia, no verão, a do cultivo (semeadura e colheita), e a
da seca, que exige uma organização social de estocar para esperar a próxima cheia.
Esta contingência natural criou a possibilidade de compreender a ciclicidade da vida, a
qual foi interpretada como vontade do deus Amon. O medo e a ignorância, os
fundamentos de todas as religiões, propiciaram aos povos do Nilo a cultuarem a
trindade, deus-homem-animal, entendendo que um corpo de homem com uma
característica de animal, exemplo, o vigor do falcão e do crocodilo, que devoravam os
humanos, ou a maternidade da vaca que nutria o bezerro, fossem unidos num deus,
como Iris, com corpo de mulher e cabeça de vaca, ou seu poderoso filho Hórus, com
corpo de homem e cabeça de falcão. O rei dos deuses, Amon, o Criador, era
representado por corpo de homem com a cabeça de carneiro, com chifres curvos e
cauda curta. Para prestar homenagem aos deuses, assegurar a legitimidade da
santissima trindade e, receber os donativos que asseguravam a proteção divina (tipo
permitir um ano de boas colheitas), apareceram os sacerdotes, que dominavam uma
variedade da escrita hieroglífica, a hierática, diferente da escrita demótica, a popular
dos escribas, e referendavam um rei que tinha poderes divinos. Os reinados foram se
sucedendo com estabilidade até que houve a unificação do alto e do baixo Nilo em
torno de 3 150 a.C sob o primeiro faraó, Menés (Narmer em grego). Em 3000 a.C. a
sede do império foi transferida para Mênfis, 30 km a sul do Cairo atual, e próxima ao
delta do Nilo, e esta civilização pioneira se desenvolveu ao longo dos três milênios
seguintes. Esta história milenar é contada nos hieróglifos pintados nos tumulos dos
faraós das três grandes dinastias imperiais marcadas pela estabilidade política,
prosperidade económica e florescimento artístico, separados por períodos de
escassez devidos a secas prolongadas ou enchentes devastadoras com consequentes
instabilidades políticas, conhecidos como Períodos Intermediários. O Antigo Egito
243
atingiu o seu auge durante o Império Novo (ca. 1 550-1 070 a.C.), uma era
cosmopolita durante a qual o Egito dominou, graças às campanhas militares do faraó
Tutmés III, uma área que se estendia desde a Núbia, entre a quarta e quinta cataratas
do rio Nilo, até ao rio Eufrates, tendo após esta fase entrado em um período de lento
declínio. O Egito foi conquistado por uma sucessão de potências estrangeiras neste
período final. O governo dos faraós terminou oficialmente em 31 a.C., quando o Egito
caiu sob o domínio do Império Romano e se tornou uma província romana, após a
derrota da rainha grega Cleópatra VII na Batalha de Ácio, referida na Eneida de
Virgílio.
Com o domínio romano o Egito tornou-se cristão, o que fez incorporar à religião cristã
os simbolos pagãos: os discos solares egipcios tornaram-se as auréolas dos santos
católicos. Os pictogramas de Ísis dando o seio a seu filho Hórus milagrosamente
concebido, tornaram-se a base para as modernas imagens da Virgem Maria com o
Menino Jesus no colo. E praticamente todos os elementos do ritual católico – a mitra,
o altar, a doxologia e a comunhão, o ato de “comer Deus” por assim dizer – foram
diretamente copiados de religiões pagãs místicas mais antigas. O Deus pré-cristão
Mitras – chamado o Filho de Deus e a Luz do Mundo – nasceu no dia 25 de dezembro,
morreu, foi enterrado em um sepulcro de pedra e depois ressuscitou em tres dias.
Aliás, o dia 25 de dezembro é também o dia de celebrar o nascimento de Osiris,
Adônis e Dionisio. Até mesmo o dia santo semanal dos cristãos foi incorporado dos
pagãos, isto é, a cristandade celebrava o sabá judeu no sábado, mas o imperador
romano Constantino mudou isso de modo que a celebração coincidisse com o dia em
que os pagãos veneram o sol: hoje a maioria dos fiéis vai à igreja na manhã de
domingo, sem fazer a menor idéia que estão ali para pagar um tributo semanal ao
deus-sol, e por isso em ingles o domingo é chamado de sun-day, o dia do sol.
Mila levou para ler na viagem o livro de Thomas Mann, de 1938 (Editora Nova
Fronteira) José no Egito. Este autor alemão foi agraciado com o premio Nobel de
Literatura em 1929, e o livro descreve a sociedade dos faraóis da primeira dinastia. O
José, personagem principal do livro é neto de Abraão, citado com destaque no livro do
Genesis da Biblia como a sétima geração depois de Noé, o da arca do diluvio, e a
quem foi prometida a terra de Canaã. Uma interpretação jocosa do capítulo 17 do
Genesis da Biblia, é que Abraão era tão velho quando foi agraciado com a promessa
divina (99 anos), que Deus ofereceu para ele o Canadá, ele entendeu mal e ficou
naquele deserto insólito de Israel. Pois bem, o livro de Thomas Mann expande a parte
IV do Genesis, capítulos 37 a 50, permitindo uma visão da vida no Egito no Império
velho (notabilizado pelas piramides de Gizé). Depois do Genesis, a Biblia trata do
Êxodo, quando o judeu Moisés, que nasceu no Egito e foi salvo da matança ordenada
pelo Faraó, pela sua filha (do faraó), leva o povo de Israel de volta com aquela estória
da abertura do Mar Vermelho e a subida no monte Sinai para receber a Tábua dos 10
mandamentos. Esta correlação entre a Biblia e a história do Egito permite uma
estimativa de datação das ocorrências do velho testamento.
O Novo Império (c. 1 550-1 070 a.C.) teve início com a XVIII Dinastia e marcou a
ascensão do Egito como potência internacional que, no seu auge, se expandiu para o
sul até Jebel Barkal, na Núbia, e incluía partes do Levante, no leste. Alguns dos faraós
mais conhecidos pertencem a este período, como Ramsés I, Ramsés II, Akhenaton e
244
sua mulher Nefertiti, Tutankhamon e Ramsés III, todos sepultados no vale dos reis em
Luxor. A primeira expressão de monoteísmo é desta época, com o atonismo. O país
foi posteriormente invadido por líbios, núbios e assírios, mas terminou por expulsá-los
a todos.
Em 639 da era cristã, o Egito foi tomado pelos árabes muçulmanos sunitas, o grupo
majoritário dos seguidores do islã. Os egípcios começaram então a misturar a sua fé
monoteista com crenças e práticas locais que sobreviveram através do cristianismo
copta, o que deu origem a diversas ordens sufistas que existem até hoje. Com o
dominio muçulmano o islamismo passou a ser a religião dominante, com base no
Alcorão, e o árabe gradualmente passou a ser a lingua falada e escrita no Egito. Até
hoje, o dia santo da semana lá é a sexta-feira.
No final do Século XVIII, ocorreu a revolução francesa, e Napoleão Bonaparte passou
a dominar a Europa. Vendo que não tinha qualquer possibilidade de invadir a
Inglaterra, Napoleão planejou derrotá-la no setor econômico. A base da economia
inglesa eram as colônias, das quais a Índia era a principal. Napoleão planejou
bloquear o longo caminho inglês para a Índia, que passava por território egípcio, entre
Suez e o Mediterraneo. A 19 de maio de 1798, partiu com 18 mil soldados para
conquistar o Egito. O sultão turco Selim III, que encarregara os mamelucos do xeque
Abdallah al Charkawi de administrar o território egípcio, tentou fazer uma guerra santa
contra Napoleão. Suas tropas precariamente armadas, porém, tornaram-se presas
fáceis para os franceses, o que não foi o caso dos destróiers do almirante inglês
HoratioNelson. Eles conseguiram derrotar a frota napoleônica na baía de Abukir;
reconquistaram a rota inglesa para a Índia e fecharam o caminho de retorno de
Napoleão para a França. Napoleão mandou construir em Roseta, na entrada ocidental
do Nilo, o Forte Julien. O oficial frances
Bouchard encontrou nas escavações
uma peça de granodiorito com
inscrições em hieroglifos (hierático e
demótico) e uma terceira versão em
grego clássico. A escrita hieroglifa
estava perdida desde o Sec.IV,e este
achado, se traduzido, poderia permitir
decifrar toda a história escrita nos
templos imponentes de Luxor e de
Karnak, bem como nas ricas camaras
funerárias do vale dos reis. A estela
tem 114 cm de altura, 72 cm de
largura, cerca de 28 cm de espessura e
pesa 760 kg. Está em exposição no
Museu Britânico, em Londres, havendo
uma réplica, também em granodiorito
no Museu do Cairo.
A estela foi erguida após a coroação do
rei Ptolomeu V, e foi inscrita com um
decreto que estabelecia o culto divino do novo soberano. O decreto foi proclamado por
245
um congresso de sacerdotes reunidos em Mênfis, sua data é "4 de Xandico", no antigo
calendário macedônico, e "18 de Meshir" no calendário egípcio, que correspondia a 27
de março de 196. O ano é citado como o nono ano do reinado de Ptolomeu V
(equivalente a 197/196 a.C.), o que é confirmado através da citação de quatro
sacerdotes que foram nomeados para o cargo no mesmo ano.
Levantou-se a hipótese de que os três textos fossem o mesmo, embora apenas o
grego pudesse ser entendido.
O conhecimento sobre a escrita em hieróglifos encontrava-se perdido desde o século
IV d.C., e do demótico desde pouco depois. Desse modo, dois problemas
confrontavam os arqueólogos que trabalhavam com as inscrições: saber se os
hieróglifos representavam uma simbologia fonética ou apenas símbolos pictóricos, e
determinar o significado das palavras individuais.
O médico britânico Thomas Young obteve um progresso substancial em 20 anos de
estudo. Mas o mérito final da tradução completa, em 1822, pertence ao linguista
francês Jean-François Champollion, que desta forma iniciou a ciência do estudo de
assuntos referentes ao Egito, a egiptologia.
Conteúdo da Pedra de Roseta
O faraó Ptolomeu V Epifânio havia concedido ao povo a isenção de uma série de
impostos. Em sinal de agradecimento, os sacerdotes em Mênfis ergueram uma
estátua de Ptolomeu V em cada templo e organizaram festividades anuais em sua
honra. Para deixar registrada para sempre tal decisão, gravaram-na em várias estelas
comemorativas e colocaram uma delas em cada templo importante da época. Os
soldados de Napoleão encontraram uma dessas pedras. Apesar de estar mutilada, foi
possível reconstituir a totalidade do texto original da estela, graças a outras cópias do
decreto que foram encontradas. Ele reza, numa tradução livre:
No reinado do jovem - aquele que recebeu a realeza de seu pai - senhor das coroas, glorioso, que
criou o Egito, e é piedoso com os deuses, superior a seus inimigos, que recuperou a vida
civilizada do homem, senhor dos Banquetes de Trinta Anos, assim como Hefesto, o Grande; um
rei, como o Sol, o grande rei das regiões alta e baixa; descendente dos Deuses Philopatores,
aquele que foi aprovado por Hefesto, a quem o Sol deu a vitória, a imagem viva de Zeus, filho
do Sol, Ptolomeu eterno, amado de Ptah; no nono ano, quando Aeto, filho de Aeto, era
sacerdote de Alexandre...;
Os sumos sacerdotes e profetas e aqueles que entram no santuário interior para a cerimônia de
vestição dos deuses, e os portadores dos penachos, e os escribas sagrados, e todos os outros
sacerdotes... estando reunidos no templo em Mênfis naquele dia, declararam:
Como o rei Ptolomeu, o eterno, o bem-amado de Ptah, o Deus Epifânio Eucaristo, filho do rei
Ptolomeu e da rainha Arsínoe, Deuses Filopatores, muito beneficiou os templos e aqueles que
residem neles, bem como todos aqueles que são seus súditos, sendo ele um deus vindo de um
deus e de uma deusa (como Hórus, o filho de Ísis e Osíris, que vingou seu pai Osíris), e estando
246
inclinado com benevolência em relação aos deuses, dedicou aos templos renda em dinheiro e
trigo, e teve enormes gastos para trazer o Egito à prosperidade, e para manter os templos, e foi
generoso através de seus próprios meios, e, dos impostos e taxas que recebe do Egito, isentou
totalmente alguns, enquanto a outros abrandou [o que era cobrado], para que estas pessoas e
todas as demais pudessem viver em prosperidade durante seu reinado ...;
Pareceu bem aos sacerdotes de todos os templos do país aumentar grandemente as honras já
existentes do rei Ptolomeu, o eterno, o bem-amado de Ptah ... E um festival será realizado em
homenagem ao rei Ptolomeu, o eterno, o bem-amado de Ptah, o Deus Epifânio Eucaristo,
anualmente, em todos os templos da nação a partir do primeiro de Toth, por cinco dias; durante
o qual todos deverão usar guirlandas, e executar sacrifícios, e as outras homenagens
costumeiras; e os sacerdotes serão chamados de sacerdotes do Deus Epifânio Eucaristo, além
dos nomes dos outros deuses a quem servem; e seu sacerdócio deverá ser inscrito em todos os
documentos formais e cidadãos comuns também poderão assistir os festivais e financiar o
santuário mencionado, bem como tê-los em suas casas, prestando a eles as costumeiras
honrarias durante os festivais, tanto mensalmente quanto anualmente, para que todos fiquem
sabendo que os homens do Egito exaltam e honram o Deus Epifânio Eucaristo, o rei, de acordo
com a lei.
O decreto concluía com a instrução de que uma cópia deveria ser colocada em cada
templo, inscrita na "língua dos deuses" (hieróglifos), na "língua dos documentos"
(demótico) e na "língua dos gregos", que era utilizada pelo governo ptolomaico.
A estela quase certamente não se originou na cidade de Rashid (Roseta), onde foi
encontrada, mas provavelmente veio de algum templo situado mais no interior,
possivelmente na cidade real de Saís O templo do qual ela foi retirada provavelmente
foi fechado por volta de 392 d.C., quando o imperador romano oriental Teodósio I
ordenou o fechamento de todos os templos de cultos não-cristãos. Em algum ponto
depois disso a estela se partiu, e a sua maior parte se tornou o que atualmente é
conhecido como a „Pedra de Roseta‟.
Este trabalho de arqueologia permitiu que os egipcios de hoje tenham no turismo sua
principal fonte de emprego.
Em 1882, a Grã-Bretanha invadiu o Egito e os britânicos venceram rapidamente as
forças egípcias no país e impuseram o controle quase total da coroa britânica. Eles
que já tinham o controle acionário do canal de Suez, assumiram a operação e os
rendimentos do canal. Durante a Primeira Guerra Mundial os britânicos afastaram os
franceses do controle do canal, dividiram o Oriente Médio à conveniência deles e
estabeleceram os limites territoriais do Egito como acontece até hoje:
247
O limite oeste fica no meridiano 25°E, o limite sul no paralelo 22°N, entre a 1ª e a 2ª
cachoeira. A leste o Egito acaba no mar Vermelho, sendo que a parte asiática, a
peninsula do Sinai faz fronteira com a Arábia Saudita, e Israel. A norte o Egito acaba
no mar Mediterrâneo. O meandro que o rio faz para leste no mapa acima é em Luxor,
e na parte concava do meandro, a oeste fica o „Vale dos Reis‟, onde foram localizadas
61 sarcófagos, a maioria vandalizada por assaltantes, alguns dos quais constituem
hoje patrimonio mundial.
No final do Sec.XIX, quando os ingleses dominavam o mundo, assumiram também o
nordeste da África como colônia. Mapearam todo o vale do Nilo e nomearam com o
nome das realezas inglesas os lagos que retém as águas que descem do planalto da
Etiópia e alimentam o Nilo Branco. Os lagos, na altura do equador, funcionam com
divisores de águas, em Uganda e no Congo: Lago Victória, o maior deles, e o mais
alto, na cota de 1135m, lago Edward (912m) , lago Albert (634m). Os ingleses
construíram uma represa no Nilo próximo a Assuã em 1901, a qual permitiu o controle
das enchentes e a agricultura do algodão durante todo o ano, mas era pequena e
quase se rompeu com a enchente de 1946. Em 1947 a Inglaterra perdeu o controle
sobre a Índia, e em 1952 caiu o rei do Egito. Com apoio da União Soviética o general
nacionalista Gamal Abdel Nasser, o homem forte e querido do Egito, nacionalizou a
companhia do canal de Suez com o intuito de financiar a construção da Barragem Alta
de Assuã. Expulsou os ingleses, restaurou o tráfego no Egito com a mão pela direita e
tornou o árabe a única língua oficial do país. Em 1967 a aviação israelense apoiada
248
por Estados Unidos, Reino Unido e França invadiu a península do Sinai, e o canal
ficou fechado até 1975. Neste meio tempo foi construída a nova barragem, o que
modificou o comportamento milenar da agricultura de várzea no rio Nilo, propiciando a
salinização do solo à jusante da barragem, e um processo erosional na área do delta.
Nasser morreu em 1970, e o presidente Anwar Sadat recuperou o canal com a Guerra
do Ramadã em 1973, quando logrou destruir as fortificações do exército israelense ao
longo do canal. A união dos povos árabes nestes conflitos com Israel levou a uma
crise do petróleo quando a OPEP aumentou os preços em 400%, num contexto
de déficit de oferta, com o início do processo de nacionalizações das jazidas, do que
resultou numa série de conflitos envolvendo os produtores árabes e numa prolongada
recessão nos Estados Unidos e na Europa, a qual desestabilizou a economia mundial.
A economia do Egito atual é alicerçada em quatro pilares: 1.a taxação de navios que
atravessam o canal de Suez 2.A exportação do excedente do petróleo produzido no
golfo de Suez, 3. A produção e industrialização do algodão e 4. Turismo. A distribuição
da renda é muito ruim: uma minoria de industriais do algodão egípcio é rica e mora em
palácios no Cairo e a grande maioria da população é miserável, vivendo de
subsistência. O salário mínimo é o equivalente em libra egípcia a US$20. No ano
passado (2011) a população se rebelou numa concentração na Praça Tahrir,
incendiou prédios públicos e conseguiu derrubar o presidente Hosni Mubarak, no
poder por 31 anos, tido como corrupto e ladrão por todos com quem conversei. Na
administração „neoliberal‟ de Mubarak as empresas públicas egipcias foram vendidas,
os políticos enriqueceram, uma junta militar assumiu o controle da nação e o turismo
ficou prejudicado, aumentando a miséria da classe média que vive desta atividade.
No ultimo fim de semana que passei lá (junho 2012) foi realizado o segundo turno das
eleições presidenciais, mas a maioria do pessoal com quem conversei não estava
disposto a votar porque os dois candidatos „eram ruins‟. O que tinha vantagens nas
pesquisas era um ex-ministro de Mubarak (o ex-presidente está moribundo e
condenado a prisão perpétua), e o outro é o Mohamad Mursi, engenheiro, professor
universitário com doutorado nos EUA, presidente do partido Justiça e Liberdade e lider
da Irmandade Muçulmana. Os muçulmanos acham que o dogma religioso pode se
acirrar se o Dr. Mursi for eleito, e que muitos cristãos já estão pensando em deixar o
país. Nos dias da eleição eu estava mergulhando em Sharm el Sheikh e não notei
nada de anormal, exceto a presença de militares na rua. Mas no dia seguinte, no
Cairo, quando eu voltava de um jantar num restaurante flutuante no Nilo, havia uma
concentração na Praça Tahrir comemorando antecipadamente o indicativo de vitória
do lider muçulmano.
Um resumo do roteiro turístico para mostrar as fotos:
Voamos TAP Salvador-Lisboa-Barcelona que Mila queria rever a arquitetura de Gaudi
e nós fariamos uma parada, que eu não tenho mais idade para voar 14 horas
seguidas: ói ela ai na Praça Colón onde começa o calçadão da Rambla; depois fomos
na marina visitar o interior de um galeão espanhol:
249
.
No dia seguinte chegamos no Cairo na hora do jantar e nos instalamos no LeMeridien
Pyramids, em Gizé, bem defronte das pirâmides milenares onde é apresentado um
show de luz e cores com feixes de laser: Pyramids & Sphinx " EGYPT " Sound & Light
show - YouTube.
No outro dia era meu aniversário, e fomos pela manhã ao Museu do Cairo, na praça
Tahir. O acervo é muito rico, mas com uma apresentação pobre. O ponto alto é o
tesouro de Tutancamom, um faraó da XVIII dinastia do Império Novo, que morreu aos
19 anos em 1324 aC e cuja câmara funerária no vale dos reis era um subterrâneo por
baixo de outra anterior, dai que ficou preservada da vandalização. No museu do Cairo
não é permitido fotografar, creio eu para
que não fique evidente a esculhambação.
A câmara funerária estava preenchida por
quatro capelas em madeira dourada
encaixada umas nas outras protegendo
um sarcófago retangular de quartzito, tudo
decorado em alto relevo. Dentro do
sarcófago três caixões antropomórficos, a
múmia no ultimo deles com o rosto
coberto com a máscara funerária em ouro
maciço. O resto do dia passamos
circulando pelas pirâmides.
.
250
Visitamos também uma loja de papiros, aonde vimos como se prepara o“papel‟(clica ai
para ver o filme: COMO PREPARAR UM PAPIRO... NO EGITO): o caule do papiro,
semelhante a uma cana, fina e sem os nós, de cor verde, é descascado como se faz
com a cana. Daí se cortam tiras finas, que por serem quebradiças, vão ser prensadas
para remover a água. Depois de submersas em água por uma semana o açúcar é
parcialmente removido, elas se tornarem resistentes ao manuseio as tiras vão ser
montadas como um tecido que é batido e prensado. Fica assim comprimido por mais
uma semana que é o tempo que as lâminas se colam. Os gregos importavam os rolos
de papiro que chamavam de biblos cujo plural é bíblia (coleção de livros).
Quando chegamos ao hotel havia
um bolo sem qualquer bilhete, que
suponho tenha sido deixado pela
gerência do hotel que viu meu
aniversário no passaporte.
Mila fotografou o egípcio típico: pobre, ignorante e religioso. Os homens são morenos
a pardos, mais para alto que para baixo, cabelo pixaim, olhos escuros. A maioria se
veste como a gente, mas a roupa típica do trabalhador é a chilaba.
As mulheres geralmente estão cobertas, algumas de burca só com os olhos à mostra.
Quando com a cabeça descoberta tem lábios carnudos, cabelo tratado, escuro e liso.
Algumas têm olhos verdes que ressaltam como jóias na burca preta. São
reconchudinhas e parideiras, tem muita criança no Egito.
Dia 12 voamos num Embraer 170 (a Egipt Air tem uma flotilha de 12 desses aviões
brasileiros) Cairo-Aswan, bem no trópico de Câncer 23°27‟ de latitude norte. Foi ai,
quando a cidade se chamava Syene, no tempo do domínio grego sob o reinado de
Arsínoe III, casada com o irmão Ptolomeu IV, com quem teve um filho, Ptolomeu V
Epifânio, aquele homenageado na pedra de Rosetta – os gregos não cruzavam com o
gentio local, e o casamento incestuoso era muito mum – toda esta história foi lida nos
hieróglifos!
Pois bem voltando a Syene, o grego Eratóstenes que ai vivia, matemático,
bibliotecário e astrônomo, fundador da disciplina geografia, observou no dia do
solstício do verão do hemisfério norte, 23 de junho, que o ao meio-dia o raio solar
incidia perpendicularmente à superfície da terra, iluminando o fundo de um poço,
portanto alinhando em Syene o centro do sol ao centro da terra.
251
Mas em Alexandria, distante de Syene como de Salvador a Maceió, um raio de sol,
que ele genialmente considerou paralelo, no mesmo dia do solstício não ia para o
centro da terra, formava um ângulo que ele mediu como 1/50 de uma circunferência.
Com um camelo de passo uniforme ele mediu a distancia do arco de Syene a
Alexandria, 5000 estádios. Então fez uma proporção simples, a circunferência da terra
teria 50 vezes 5000 estádios = 250000 estádios. Considera-se que um estádio valia o
que hoje consideramos uma milha romana, 1,6 km. Se você fizer a conta vai ver que
Eratóstenes devia ter um camelo muito bem calibrado, porque mediu em 220 aC o
tamanho da terra com muita precisão! E naquele tempo não existia a trigonometria
nem as funções trigonométricas, e o ângulo era medido como uma fração da
circunferência.
Em Syene, hoje Aswan, fica a primeira cachoeira do Nilo, de quem vem do delta. Na
área afloram granitos arqueanos, criando uma situação favorável para construir uma
represa, e é ai que estão as duas, a dos ingleses de 1902 e a dos egípcios de 1970,
chamada de Aswan Alta. Com a inundação consequente da barragem, que criou o
lago Nasser, com área de 5x a baia de Todos os Santos, houve o remanejamento do
templo de Abu Simbel para a margem do lago a 280 km de distância de Aswan, perto
da fronteira do Sudão. e de uma comunidade Nubia para a parte baixa da represa.
Chegamos em Aswan antes do almoço e nos instalamos num navio de cruzeiro
considerado 5 estrelas, o M/S Amarante, com todas as cabines externas. Após o
almoço fomos de lancha visitar a comunidade núbia e a represa:
A Assuã Alta tem 3600 metros de extensão no topo, 980 metros de extensão na base
e 111 metros de altura. O volume do reservatório é de 43 milhões de m³ e a vazão
máxima é de 11 000 m³ por segundo. Existem vertedouros adicionais de 5 000 m³ para
épocas de cheias. São 12 turbinas instaladas, cada uma produzindo 175 megawatts
de energia.
252
A barragem vista de baixo
Rio Nilo a jusante da represa
tocando a lancha rio acima
Lago Nasser ou Lago de Nubia, que
se estende até o Sudão
No caminho da comunidade Nubia
Obelisco inacabado
Abaixo, a Bacia hidrográfica do Nilo. Veja o lago Nasser na fronteira com o Sudão; o
Nilo Azul descendo das terras altas da Etiópia e o Nilo Branco vindo da Tanzânia e
Uganda. Somando tudo o rio Nilo é quase do comprimento do Amazonas, mas a
vazão atual dele na foz é hoje equivalente à do São Francisco, ou do rio Parnaíba, 100
vezes menor que a do Amazonas. Mas o Nilo existe desde o Eoceno, e durante o
Mioceno ele foi muito mais possante do que é hoje.
253
Junto à represa existe um obelisco inacabado, ilustrando a grandiosidade do trabalho
de cortar um bloco de granito de quase 50m e mais de 1000 toneladas. Uma fratura
descoberta tardiamente fez com que a preparação ficasse interrompida, mas deixou
vestígios da tecnologia usada para cortar e polir tais monumentos.
A esta altura Mila foi no barco e eu segui de camelo com uma turista italiana para
visitar a comunidade Nubia, onde supostamente poderíamos interagir com uma
254
tradição cultural. A visita foi decepcionante: a comunidade é negra, muito pobre, com
cerca de 4 filhos por mulher.
no contra vento e sobe em popa. Tem uma bolina de
aço para ajudar Mila desembarcou na comunidade e fomos a uma casa onde os
anfitriões nem
apareceram; um atendente serviu um chá e mostrou um crocodilo criado num buraco.
No dia seguinte, 13 de junho, o navio só sairia no final da tarde e fomos velejar de
felucca. Como não tem mais árvores, as felucas atuais são feitas de aço, com um
leme raso e longo para trás, pesado de controlar no contra-vento. A vela é em pena,
de algodão, com uma verga enorme quando comparada com a dos saveiros da Bahia.
Também aqui no rio o vento é maneiro, de norte, de forma que se desce o rio a orçar.
Em Aswan ainda visitamos uma mesquita. Tiramos os sapatos na entrada, vai-se a
uma dependência onde existe um lavatório para rosto, braços e pés, e ai se adentra o
salão de orações.
O cabeça branca que manuseou o Alcorão é o nosso guia Muhamed Youssef,que fala
português e nos acompanhou em todo o cruzeiro de três dias até Luxor.
O M/S Amarante navegou a noite toda, e lá do
convés na noite escura com a lua minguante,
localizei a estrela polar alta no céu, no rabo da
Ursa Menor, que eu acho mais parecida com
o cabo de um carrinho de mão.
Fomos à ponte de comando que é aberta aos
passageiros onde o comandante nos recebeu
com alegria e deixou Mila timonear o leme
hidráulico do barco. O único instrumento de
navegação, como no Amazonas, é um farol
para enxergar o basuro à noite. Havia um
radar, mas não funcionava. Bussola, nem
255
pensar. É tudo no olho. Quando acordamos no dia
14 estávamos atracados no porto em Kom Ombo.
De Aswan para KomOmbo adentramos uma bacia
sedimentar constituída por arenitos em camadas
tabulares, aparentemente paleozóicas. O templo de
KomOmbo é em arenito, e é dedicado aos deuses
Sobek e Haroeris, daí que tem dois altares em
granito,
trazidos
de Aswan. A foto ao lado é da ruína no
fundo do templo, onde ficam os altares.
Entre os altares tem um buraco disfarçado
onde ficava escondido o sacerdote, que
falava com os visitantes chamando pelo
nome anotado na entrada pelos auxiliares.
As oferendas eram em comida, grãos e
animais. Hoje o visitante paga em libra
egípcia ou em euro.
Seguindo para norte a seção sedimentar
fica mais argilosa. Em Edfu o templo fica
sobre sedimentos argilosos aparentemente de talude, e as colunas do templo são de
arenito. O átrio é de granito polido de tal forma que parece metal. A muralha do
templo é de adobe. Na terceira noite a bordo houve festa de despedida e em Esna
passamos a eclusa de uma barragem antiga. As outras fotos são de crocodilos
mumificados e endeusados.
No quarto dia do cruzeiro chegamos em Luxor, que fica numa bacia calcária,
aparentemente mesozoica. O cameraman de bordo me informou que não existe
exploração de petróleo na área porque o deserto está contaminado com minas
explosivas desde o tempo da guerra, e que de vez em quanto explode uma. Mas “é
muito caro fazer a descontaminação da área, e o Egito vem tentando ajuda
internacional de quem colocou as minas”.
Em Luxor a parte oriental, na margem direita do rio, é a cidade viva, na planície de
inundação. A parte ocidental é o deserto, a cidade dos mortos, onde fica o “vale dos
reis”. Cada câmara funerária no vale dos reis é um complexo de câmaras escavadas
num túnel com 5m de altura, com as paredes todas caprichosamente esculpidas e no
fundo a câmara mortuária com um sarcófago de granito e uma estátua deitada na
tampa. Nos corredores laterais existem capelas e câmaras com tesouros. Entramos na
câmara de Ramsés II, um incestuoso que tinha um harém com 100 mulheres, inclusive
3 filhas dele.
256
Luxor também exibe templos monumentais e grandiosos. Os templos eram para os
ricos e os sacerdotes, que devia ser quem efetivamente mandava, e para os reisdeuses referendados pelos sacerdotes. O povão não tinha acesso a estes templos.
Depois do vale dos reis visitamos dois templos na cidade viva, oriental. Tudo aqui é
grandioso e imponente.
A ultima foto acima mostra o processo de construir as colunas: os blocos de arenito
são empilhados sobrepostos, depois cimentadas, alisados, polidos e esculpidos. Mas
os obeliscos são de granito, e são dedicados à adoração do deus sol, Amon Rá. Os
antigos vendo que o sol dava vida às plantas e ao homem olhavam para ele como um
deus, o grande doador da vida. Para eles, o obelisco também tinha um significado
sexual. Sabendo que através da união sexual era produzida a vida, o falo (o órgão
masculino da reprodução) era considerado, junto com o sol, um símbolo da vida, e
Amon-Rá é apresentado com o falo ereto.
Estas
eram
as
crenças
representadas pelo obelisco, um
dos quais foi levado para a Praça
de São Pedro, no Vaticano.
Com este aprendizado estamos
satisfeitos com o turismo cultural
do Egito. Vamos agora fazer o
que efetivamente nos interessava
do turismo egípcio: mergulhar no
mar Vermelho, que o pessoal dos
dive center reputa como o sonho
dos mergulhadores
257
O outro lado do turismo no Egito é representado pelos resorts luxuosos no golfo de
Suez, como Costa do Sauipe na Bahia ou Varadero em Cuba. No dia 15 de junho,
uma sexta-feira, que no Egito é o dia de descanso semanal, voamos ao meio-dia num
Embraer 170 para Sharm El Sheikh, no vértice sul da península do Sinai. De
passagem se vê que o delta do Nilo, ao invés de exibir uma 'planicie deltáica' de lama,
é uma vasta área agrícola, 30 vezes a área do delta do Mississipi. Lá estão instaladas
várias comunidades urbanas. O Nilo existe desde o Eoceno, e no Mioceno o
Mediterrâneo secou, de forma que o delta vai desde Port Said até Alexandria. Na
época da civilização egípcia da idade do bronze, com a subida do nível do mar, a área
já estava consolidada, e o delta do Nilo, que teve sete distributários, hoje, afogado e
com a carga de fundo contida acima nas represas, está sendo erodido, não é mais
exatamente um 'modelo recente de delta construtivo': sobraram dois distributários e
lagos, com 50 milhões de anos de registro preservado.
Saiu do vale do Nilo é tudo deserto, mas quando atravessa o golfo de Suez o normal
para o turista é padrão 5 estrelas.
Na península do Sinai, no Egito asiático, o avião passa sobre uma zona de granito
arqueano fortemente dobrado e falhado, onde fica o Monte Sinai, o local onde Moisés
recebeu a tábua dos dez mandamentos. Nada excepcional, o ponto mais alto tem
2000m, acessível por escada sem precisar ser alpinista.
Aliás, diga-se a favor dos egípcios, que o receptivo turístico é exemplar, cuidadoso
com a segurança, sem falhas, pontuais. Em todos os serviços contratados havia guia
falando português; a reserva no dive center foi perfeita,
os equipamentos a serem alugados reservados com antecedência (não levei nada
daqui) traslados conforme a programação da super Denytur. Olha ai a máquininha de
fazer geologia no deserto.
258
O dia 16 foi todo no mar. Saímos às 08:40 e chegamos às 17:30. O custo de alugar
colete back-pack, regulador, máscara, bota, nadadeira e roupa de neoprene foi de 30
euros. O custo do mergulho no pacote, já inclui o tanque de ar comprimido e o cinto de
chumbo. O dive-master não falava
português, mas havia uma instrutora
portuguesa com sotaque brasileiro,
Rosa, que foi nos apanhar no hotel e
estava a bordo. Foram dois mergulhos
com almoço entre eles. A comida no
Egito é saudável, muita verdura, peixe e
galinha.
O primeiro mergulho foi num local
chamado
Templo.
Profundidade
máxima 25m, água na superfície a
27°C, no fundo 24°. Visibilidade 1520m. A fauna é de peixe miúdo,
colorido e abundante, que Mila, que fez snorkel adorou. No fundo, o pessoal ficou
ouriçado fotografando uma arraia de 40 cm! Mas em compensação havia uma
diversidade de corais que dizem de 200 espécies. O local se chama Templo porque o
coral faz uma coluna semelhante aos templos de Luxor. Minha dupla foi uma coroa
escocesa cuidadosa e safa.
O segundo mergulho foi num ponto
chamado Middle Garden. Ao todo, no
entorno de Sharm El Sheikh, entre a
entrada do golfo de Suez e a do golfo de
Aqaba, são 20 sítios de mergulho nos corais, mais três naufrágios. Uma
biodiversidade bem estruturada. Muitos russos, alemães e ingleses. Não vi
259
nenhum russo mergulhando, mas tinha tanto russo por lá que o cardápio do
restaurante é escrito em inglês e em russo. Eles são fáceis de serem
reconhecidos porque são branquelos e tem um nariz côncavo característico. As
alemoas tomam tanto sol que ficam parecendo umas lagostas. No domingo,
que lá é dia útil, e esse em particular era dia do segundo turno da eleição
presidencial, o animador do resort estava ensinando essa turma europeia toda
alegrinha a dançar “Ai se eu te pego” cantado em português num disco de
Michel Teló. Para mim foi divertido, mas não é nada que não se tenha aqui na
costa do Brasil. Mas tem que ir lá para desmistificar e valorizar a riqueza da
terrinha tropical muito querida.
260
CARIBE VENEZUELANO - 2012
A costa norte da Venezuela aberta para o mar do Caribe tem em linha reta 560 milhas
náuticas endentadas desde o golfo de Pária a leste, no delta do Orinoco, até o golfo da
Venezuela a oeste, o qual se conecta por um canal ao lago de Maracaibo, onde
começou a produção do petróleo venezuelano após a 1ª guerra mundial. Toda esta
costa norte, algo como de Cabo Frio a Salvador, tem praias de micro maré com muitas
marinas estruturadas e de baixo custo, o recanto de velejadores cosmopolitas que
fazem por ai suas bases, protegidos dos furacões que assolam o Caribe no verão e
outono, e saem para velejar de través nos alísios pelas Ilhas de Barlavento
eventualmente indo até a Flórida na alta estação caribenha, inverno e primavera.
A Venezuela, formalmente República Bolivariana da Venezuela, proclamou sua
independência dos invasores espanhóis em 1811 e tem uma tradição de domínio
ditatorial e oligárquico até hoje. É um país de enormes recursos naturais, tendo sido
divulgado pela OPEP em 2010 que aqui estão as maiores reservas de petróleo do
mundo, 296,5 bilhões de barris, ultrapassando a Arábia Saudita que tem reservas de
264,5 bi bbl. Agora em 2012 as agencias certificadores internacionais reconheceram
que as reservas provadas da Venezuela alcançam 300 bi bbl.
Os recursos naturais da Venezuela foram explorados durante o Sec.XX por empresas
estrangeiras, principalmente americanas, que até 1943 pagavam royalties até um
máximo de 15% da produção. O governo venezuelano em 1943 aumentou esta
taxação para um mínimo de 16,66%, mas não conseguiu que a distribuição da renda
criasse benefício para os pobres do país, no qual a grande maioria da população vivia
miseravelmente e sem educação.
261
Em 1960 a Venezuela se tornou membro fundador da OPEP, e em 1976 foi criada a
PDVSA, como controladora de 4 empresas estatais e 14 companhias estrangeiras que
operavam no país.
Na década de 1990 houve uma crise econômica e o governo fez uma abertura que
possibilitou a entrada em operação de 60 empresas estrangeiras, o que aumentou a
produção para o máximo de 3,5 milhões de barris por dia em 1998. Neste ano, o
militar e político Hugo Chaves, eleito presidente da república, fundou o partido PSUV,
Partido Socialista Unido da Venezuela, com o propósito de libertar da miséria a
maioria pobre da Venezuela. As políticas de Chávez têm evocado controvérsias na
Venezuela e no exterior, polarizando opiniões de analistas. Ele tem um programa de
rádio dominical, no qual critica o neoliberalismo e as relações exteriores dos Estados
Unidos. Os seus opositores reconhecem que houve uma melhoria notável nos planos
de aposentadoria, na saúde publica, na habitação e na educação. A Venezuela tem o
mais alto salário mínimo da América Latina, o equivalente a US$400 no cambio oficial.
Também existem críticas fortes, inclusive dos seus eleitores mais esclarecidos, à
qualidade da educação, à corrupção, e à falta de indústria e de abastecimento. O
poder aquisitivo das classes D e E aumentou 150% no período 1999-2005. Isso
provocou uma enorme demanda no setor de produtos alimentares, que se vê
pressionado e, muitas vezes, é incapaz de atendê-la. Tradicionalmente -- desde 1930,
quando a Venezuela, ao invés de desvalorizar a moeda para proteger sua agricultura,
optou por importar tudo o que consome, usando para isso suas receitas do petróleo -o país produz muito pouco alimento. Eu mesmo comprei no Unicasa, o melhor
mercado de Puerto la Cruz, leite de Portugal, água mineral do Brasil; não tinha café
solúvel, nem papel toalha nem limão. Todos os veículos são importados; estrangeiro
para abastecer o barco com óleo diesel tem que pegar uma guia no posto, levar ao
banco, pagar um imposto de 30% e voltar para abastecer. Mas sempre aparece um
venezuelano que entrega a bordo as bombonas cheias, cobrando 1 bolívar o litro
(R$0,2 no cambio oficial, R$0,08 no paralelo) e tendo um lucro de 1000%! Esta
situação, do ponto de vista dos interesses brasileiros, faz com que a Venezuela seja
muito bem vinda ao Mercosul, dando preferência aos produtos do grupo em detrimento
dos americanos.
Em 2001 Chaves revogou o regime regulatório vigente para produção do petróleo e
aumentou a participação governamental, o que gerou uma greve dos petroleiros em
2002 resultando em 18 mil demissões, o que se refletiu na produção que declinou para
2,3 milhões de bbl/dia em 2010. Chaves tem um eleitorado fiel, tipo a torcida do Bahia:
pobre, ignorante e barulhenta, a qual o reelegeu presidente em 2006 e na semana
passada ao clamor de P’alante Comandante!
Na página seguinte está o mapa geológico esquemático da Venezuela: as áreas altas
do Escudo das Guianas (vermelho) e a faixa dobrada da Sierra Nevada (vermelho,
laranja e roxo, a sul do Lago Maracaibo) constituem o embasamento. As bacias
mesozoicas marinhas tipo rift e as margens passivas terciárias são as produtoras de
petróleo em estruturas consequentes do empurrão dos Andes colombianos e da
convergência das placas do Caribe e da América do Sul. Paralelo à costa na direção
WNW-ESE observa-se um alinhamento de ilhas, Aruba, Curaçau, Bonaire, Los
Roques, Orchila, Tortuga, La Blanquilla e Margarita, a marrom maior, acima do golfo
de Cariacu.
262
Exceto Margarita, uma ilha grande com aeroporto para jato e onde ficam os resorts
luxuosos, que é de sedimento Triássico, as outras venezuelanas são vulcânicas, no
entorno das quais se desenvolvem atóis de areia branca e água cristalina
transparente, com 28° C neste outono do hemisfério norte
O track tracejado de 500 milhas náuticas, no mapa que abre este relato na p.261, foi o
cruzeiro do Chufa, o Lagoon 38 de Lito Fernandez, que chutou o pau da barraca, saiu
pelo mundo e está há seis meses fundeado na Marina Baia Redonda em Puerto la
Cruz. O périplo de Lito está apresentado no site www.velejarcatamaran.com.br, e
como não sou baú*, vou apresentar aqui minha versão do que ele me contou nas
conversas de cockpit neste cruzeiro de 10 dias (15 a 25 de outubro de 2012)
* Não ser baú. 1. Fam. Não guardar, ou não sentir-se obrigado a guardar, segredo de ninguém.
263
Lito é um galego de olhos azuis, nascido em berço de ouro, que cresceu como um
playboy galinha em Salvador. Veleja desde cedo, e é um navegante ousado e seguro.
Casou tarde, teve um casal de filhos e é um pai amoroso.
Trabalhou com o pai numa rede de lojas que não quis herdar, e aos 40 anos abriu uma
banca de factoring licenciada pelo Banco Central, vivendo uma vida de banqueiro que
lida direto com o cliente. Em 2010 uma cliente que tinha uma empresa de logística
descontava duplicatas com ele no factoring, e solicitou que ao invés de descontar as
duplicatas em dinheiro, que a empresa de Lito fizesse depósitos numa rede de postos
de combustível onde ela tinha conta para
abastecer os caminhões. Mas o tal posto era
um antro de roubo que foi desmascarado pela
Polícia Federal. Por causa disso ele recebeu
um dia bem cedo a visita dos anjos da guarda
de colete preto que arrestaram os
computadores e os livros de registro do
factoring. O stress do processo fez com que
ele ficasse depressivo, com pancreatite e
pólipos no intestino. Fez cirurgia e um médico amigo ofereceu a ele duas opções: uma
vez que ele provou a inocência com o caso do posto, ele poderia reabrir o negócio de
cobrar juros do dinheiro circulante e continuar doente, ou „largar tudo e chutar o pau da
barraca‟. Foi uma decisão de vida: ele deixou as pendências com advogados, passou
a ter nojo da vida de agiota, levou a namorada para o boat show de Miami e decidiu
que queria comprar um catamarã Lagoon 38 e velejar pelo mundo. Depois de muita
procura, achou um barco usado que julgou em bom estado e dentro do orçamento, e
fez a compra do Chufa na Espanha. Preparou o barco para viajar com segurança,
embarcou a família e atravessou o Atlântico direto para Salvador. Mas barco usado
não pode ser importado de acordo com a legislação brasileira. Passou a temporada
legal no Aratu Iate Clube e cruzeiramos junto pela Baia de Todos os Santos, já que o
Pinauna 7 é irmão gêmeo do Chufa. Em abril de 2012 içou velas e foi para o Caribe
com dois amigos, que desembarcaram em Port of Spain, Trinidad, no Golfo de Pária.
Dai seguiu solitário para Cumana, na Venezuela, local recomendado por Beto e Fafá
que ficaram 10 anos atracados por lá no final do século passado. Quando atracou na
marina em Cumana achou que não mais existia a „boa energia‟ que lhe tinha sido
passada. Cumana era uma base de velejadores americanos, e quando o presidente
Chaves escorraçou os gringos, as marinas ficaram vazias. De lá Lito ligou para um
amigo de Brasília que mantinha o barco no Caribe, e logrou que o Walter atendesse.
Foi enfaticamente aconselhado a seguir para Puerto la Cruz, Marina Baia Redonda,
para onde continuou. Está por lá desde maio, completamente entrosado, saudável e
feliz, fazendo charter com paulistas, e construiu um site para motivar brasileiros a
visitarem o Caribe: www.velejarcatamaran.com.br.
Foi nessa que eu peguei um voo de milhagem, classe executiva da TAM (40 mil
milhas) e baixei em Puerto la Cruz. Encontrei um Lito saudável, alegre, completamente
entrosado com os velejadores do mundo todo que „moram‟ na marina. Já está
pensando em comprar um dos apartamentos da marina ou alternativamente passar o
canal do Panamá e seguir para o Pacífico. Antes de eu chegar ele subiu o barco, e
com as próprias mãos lixou e pintou o fundo com tinta anti-fouling. No processo
264
quebrou um parafuso da base da escada que se usa para subir da água para o barco,
o qual ele resolveu que faria a solda quando voltasse do nosso cruzeiro.
Largamos ao meio dia de 17/10 com vento E de 15 nós, rumo NW com escota folgada,
proa em Tortuga. Quando estávamos entre as ilhas La Borracha e Picuda Chica, fui
limpar o sensor do velocímetro que estava travado e verifiquei que o porão da canoa
de bombordo, o lado de Lito, estava cheio d‟água. A bomba elétrica não quis ligar mas
fiz uma gambiarra com o interruptor do dreno do banho e começamos a esgotar a
água. Eram pelo menos 150 litros de água salobra! Perguntei a Lito se queria voltar e
ele decidiu continuar. Começamos a procurar por onde entrava a água e ele descobriu
que era pelo parafuso quebrado da fixação da escada de popa. Ele tampou com um
plugue e justificou que a água doce devia ser da lavagem que ele fez quando acabou
o serviço da pintura. Velejada tranquila com piloto automático e radar com alarme
durante a noite. Às 23 horas ancoramos em 1,8m de água em Tortuguilla. Quando
acordamos Lito ficou desapontado porque a água não estava límpida como de
costume; levantamos âncora e fomos motorando 3 milhas para Cayo Herradura, um
atol pequeno com farol. Descemos o caíque e fomos à praia de areia de calcário,
muito branca, e nadamos de snorkel. A barreira do atol é feita de fragmentos de algas,
corais e moluscos. O Chufa garrou no fundo de cascalho com a âncora grande tipo
plow e retornamos de caique,
seguindo mais 9 milhas a motor
para Punta Delgada no norte da
ilha, onde ancoramos, almoçamos
e fizemos siesta. Aqui finalmente
a água estava limpa como Lito
prometeu, independente da lua
nova. Foi aqui que ele ficou 3 dias
a semana passada durante as
eleições na Venezuela. O sol está
de tirar o couro, e Lito que está bem familiarizado com a região decidiu seguir à noite
100 milhas para NW para que eu visitasse o badalado arquipélago de Los Roques.
Saímos às 22:30, bordo direto, amuras a boreste, vento de 12 nós pela alheta
entrando pela vigia da minha cabine. Pela madrugada o vento foi caindo, coisa que
surpreendeu a Lito, que tinha prometido uma velejada noturna maravilhosa. Acordei
com o barulho do motor já que o vento estava de 5 nós. Às 09:30 deixamos a ilha de
La Ortilla por boreste. Em 1993 Hugo Chaves ficou preso nesta ilha o ano todo, após
uma tentativa fracassada de golpe de estado. No entorno dela existe na carta uma
área de 10x15 milhas restrita à navegação como área militar. No meu turno das 5 às
10 horas coloquei linha de arrasto e nada, só golfinhos pequenos passando pelo barco
indo para sudeste.
Na hora do almoço, motorando ainda sem vento Lito resolveu entrar pela Boca de
Sebastopol, que ele não tinha passado ainda porque só chegava aqui com
arrebentação. Dai motoramos por dentro da laguna em profundidade de 6-20m, água
transparente, temperatura 29°C. Sobre a barreira de recifes havia um naufrágio,
aparentemente um navio a vapor. Por dentro da laguna principal, que é rasa, é área de
Parque Nacional.
265
Ancoramos em Gran Roque às 16 horas. Um movimento intenso de penheiros, uma
catraia grande de proa alta com motores de popa possantes que carregam turistas que
chegam de avião para visitar o arquipélago durante o dia. À noite desembarcamos
para telefonar para o Brasil, usando o serviço da empresa estatal de telefonia da
Venezuela, bom, eficiente e muito barato. Aliás, para o turista tudo na Venezuela é
barato. Jantamos no Aquareña, na beira da praia quando então caiu uma chuva
torrencial que passou em 15 minutos. Enquanto chovia conversamos com uns turistas
venezuelanos que votaram em Capriles a semana passada. Todo venezuelano
remediado que tirava proveito da pobreza vota contra Chaves, mas os chavistas são
unidos e na hora da eleição participam levando a turma, uma vez que lá o voto não é
obrigatório; mas 80% dos eleitores participaram, mais que os 70% dos brasileiros que
votaram no 28 de outubro, apesar de que aqui o voto é obrigatório!
No sábado, 20 de outubro descemos de caique em Gran Roque e fomos até o farol ver
os diabásios que fazem a ilha. Textura vítrea, bem preto, homogêneo. Passamos na
internet para Lito cadastrar Mila
para receber o sinal do SPOT, um
transmissor via satélite que manda
ao destinatário a posição que está
plotada no mapa do Google, e em
caso de emergência aciona um
serviço de resgate. Depois fomos
ao mercado onde compramos
sucos e ovos, mas não havia frutas
nem verduras. Na beira da praia os
turistas
brasileiros
estavam
desapontados com o dia feio, os
266
penheiros encalhados, coisa rara aqui em Los Roques.
Ao embarcar chegou de carona num penheiro um policial da Guarda Costeira para
verificar se a documentação estava em ordem e se a taxa de permanência havia sido
paga. Pediu licença, tirou os sapatos e subiu a bordo. Criou dificuldades para vender
facilidades, bem no estilo de polícia corrupta. Mas Lito sabe lidar bem com estas
situações. Quando ele desembarcou, de novo de carona, suspendemos âncora e
fomos contornando o Parque Nacional pelo norte, até a ilha Sarqui, onde
mergulhamos e nadamos na água limpa de 28°C. Chegaram dois catamarãs
Fontaiane Peugout 42 junto com a gente, um do Canadá e outro inglês. Dormimos
aqui com pouco mosquito. À noite o vento leste voltou com 16 nós e o céu limpou. O
jantar foi milho cozido e tortilhas com presunto.
No domingo 21 desembarcamos de caique e vimos que Sarqui é formada por coral
quebrado e empilhado. Lito fez uma feijoada com picanha e filé mignon. Ele tem uns
20 kg de farinha a bordo. Saímos com genoa e dois motores para a borda sudoeste do
arquipélago e ancoramos em Cayo de Água, a única ilha que tem aquífero. Havia
muitos penheiros com turistas,
inclusive
brasileiros,
com
sombrinhas e ice-chest. As
russas bebiam vodca e usavam
biquínis iguais às brasileiras. Dai
seguimos para Dos Mosquises,
que achei a melhor parada do
arquipélago.
No
caminho
embarcamos uma barracuda de 3
kg que Lito fez frita com arroz e
puré de batatas. Desembarcamos
para ver um berçário de
tartarugas marinhas que ficam em
tanques até um ano e um museu com painéis explicando a ocupação dos índios
Caraca 200 anos antes dos espanhóis, deixando registro de objetos e um esqueleto.
22 de outubro, segunda-feira. Amanheceu nublado e com vento. Saímos às 10 horas
para o Mosquise 2, de caíque. Vesti a camiseta de neoprene e mergulhamos na
esperança de encontrar lagostas, mas só vi sardinha num fundo de grama. Voltamos
para bordo e saímos às 13h com a mestra rizada e a genoa enrolada a 80%, orçando
a 6 nós com vento de 20 nós, proa em Caracas. Daqui são 160 milhas de contravento
até Puerto la Cruz. O primeiro bordo foi de 2 horas rumo N193. O vento rondou e
cambamos para N60 abrindo a genoa toda. Às 16 horas cambamos de novo para
N170, o vento foi rondando para E-NE e a proa foi fechando até 130, que era rumo
direto ao objetivo. Mas o vento foi crescendo e fomos diminuindo a genoa que às
20:30 estava a 30 %, quando numa rajada de 35 nós rompeu a escota. Eu acordei
assustado com Lito chamando para ajudar. À meia noite o vento rondou E-SE, cresceu
e a proa caiu para N180. O barco estava imundo e molhado, enjoei e fui deitar na
minha cabine que estava razoavelmente limpa. Lito me deixou dormir e só acordei às
7:30 de 23 de outubro, terça-feira. O vento caiu ao amanhecer e começou a chover.
Lito ligou os 2 motores e quando sai no cock-pit a genoa estava aquartelada. Enrolei o
restinho de genoa que estava aberta faltando 78 milhas, que o GPS dizia que seriam
267
cumpridas em 14 horas. O anemômetro parou de funcionar, mas não dava para ver o
topo do mastro. Às 15 horas o vento voltou para E e deu para abrir um pouco de
genoa, faltando 25 milhas para a marina. Entramos por sotavento a W das Ilhas
Borracha, descemos a mestra e atracamos na marina às 20 horas. Mandamos uma
mensagem SPOT para as meninas, banho, janta a bordo e cama. Foram 160 milhas
em 31 horas, e tivemos molhação na cabine, coisas caídas, rompimento da escota da
genoa e sumiço do sensor do anemômetro. Pouca coisa para quem pegou a borda de
um furacão! Mas também foi no Chufa, um Lagoon 38, irmãozinho do Pinauna 7. Veja
ai na imagem de satélite do dia de retorno a cintura da gordoba da Sandy, a moça que
matou 51 pessoas no Caribe, cancelou 8 voos Brasil-Estados Unidos, inundou Miami
Beach e fechou a bolsa de Nova York. Que esta experiência seja suficiente par seu
currículo, CHUFA, e que doravante você só encontre BONS VENTOS.
A seta azul com a linha de preenchimento vermelha mostra a rota do CHUFA fugindo
do furacão SANDY. Os registros em Los Roques dizem que este é um evento que a
ultima vez que ocorreu na área foi há 40 anos. Mas esta Sandy é uma exagerada, tem
uma abrangência de mais de 1000 milhas náuticas.
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